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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

LIBERDADE ESPIRITUAL

 


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O Púlpito de New Park Street

Volume 1

Nº 9

UM SERMÃO PREGADO NA MANHÃ DE DOMINGO, 18 DE FEVEREIRO DE 1855

PELO REV. C. H. SPURGEON

NO EXETER HALL, STRAND

“Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade.”

— 2 Coríntios 3:17

A LIBERDADE é um direito de nascença de todo homem. Ele pode nascer na miséria, ser um enjeitado, ter uma filiação completamente desconhecida, mas a liberdade é seu direito inalienável. A sua pele pode ser negra, ele pode viver sem instrução e sem ensino, pode ser pobre como a própria pobreza, pode nunca ter um palmo de terra para chamar de seu, pode mal ter um pedaço de pano para cobrir o corpo, mas, por mais pobre que seja, a natureza o moldou para a liberdade — ele tem o direito de ser livre; e se não tem liberdade, sendo este o seu direito de nascença, não deve se aquietar até conquistá-la.

A liberdade é a herança de todos os filhos e filhas de Adão. Mas onde você encontra a liberdade desacompanhada da religião? É verdade que todos os homens têm direito à liberdade, mas é igualmente verdade que você não a encontra em país algum, a não ser onde se encontra o Espírito do Senhor. “Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade.”

Graças a Deus, este é um país livre. Esta é uma terra onde posso respirar o ar e dizer que ele não está contaminado pelo gemido de um único escravo. Meus pulmões o recebem e sei que nunca se misturou aos seus vapores a lágrima de uma única mãe escrava derramada por seu filho vendido para longe dela. Esta terra é o lar da liberdade. Mas por que é assim? Entendo que não é tanto por causa das nossas instituições, mas porque o Espírito do Senhor está aqui — o espírito da religião verdadeira e sincera.

Houve um tempo, lembrem-se, em que a Inglaterra não era mais livre do que qualquer outro país; quando os homens não podiam falar livremente os seus sentimentos, quando os reis eram déspotas e os parlamentos não passavam de um nome. Quem conquistou as nossas liberdades? Quem soltou as nossas correntes? Sob a mão de Deus, eu digo: foram os homens de religião — homens como o grande e glorioso Cromwell, que preferiam a liberdade de consciência à própria vida; homens que, se não podiam alcançar o coração dos reis por causa de suas astúcias insondáveis, preferiam derrubar reis a serem escravos.

Devemos a nossa liberdade aos homens de religião, aos homens da rígida escola puritana — homens que desdenhavam bancar os covardes e renunciar aos seus princípios ao comando do homem. E se um dia tormos de manter a nossa liberdade (como Deus permita que mantenhamos), ela será preservada na Inglaterra pela liberdade religiosa — pela religião.

Esta Bíblia é a Magna Carta da velha Bretanha. As suas verdades e as suas doutrinas despedaçaram os nossos grilhões, e eles jamais poderão ser rebitados novamente enquanto homens, com o Espírito de Deus no coração, saírem para proclamar as suas verdades. Em nenhuma outra terra, a não ser onde a Bíblia está aberta — em nenhum outro reino, a não ser onde o Evangelho é pregado —, você poderá encontrar a liberdade.

Percorra outros países e você falará em tom sussurrado — terá medo, sentirá que está sob uma mão de ferro. A espada está sobre a sua cabeça; você não é livre. Por quê? Porque está sob a tirania gerada por uma falsa religião. Você não tem o protestantismo livre ali, e é somente quando o protestantismo chega que pode haver liberdade.

É onde está o Espírito do Senhor que há liberdade, e em nenhum outro lugar. Os homens falam em ser livres, descrevem governos modelos, repúblicas platônicas ou paraísos owenistas, mas são teóricos sonhadores, pois não pode haver liberdade no mundo a não ser “onde está o Espírito do Senhor”.

Iniciei com esta ideia porque creio que os homens do mundo devem ser informados de que, se a religião não os salva, contudo ela fez muito por eles — a influência da religião lhes conquistou a liberdade.

No entanto, a liberdade do texto não é uma liberdade humana como essa; é uma liberdade infinitamente maior e melhor. Por maior que seja a liberdade civil ou religiosa, a liberdade do meu texto a excede transcendentemente. Há uma liberdade, caros amigos, que somente os cristãos desfrutam, pois mesmo na Grã-Bretanha há homens que não provam o doce ar da liberdade.

Há aqueles que têm medo de falar como homens, que precisam se dobrar, adular, curvar-se e rastejar diante de qualquer um — que não têm vontade própria, não têm princípios, não têm voz, não têm coragem e não conseguem se manter eretos em consciente independência. Mas livre é aquele a quem a verdade liberta. Aquele que tem a graça no coração é livre — ele não se importa com quem quer que seja, tem o direito ao seu lado, tem Deus dentro de si —, a habitação do Espírito Santo. Ele é um príncipe do sangue real do céu, é um nobre possuidor do verdadeiro título de nobreza. É um dos escolhidos de Deus, filho distinto e eleito, e não é homem de se curvar ou rastejar mesquinhamente.

Não! Ele preferiria caminhar na fornalha ardente com Sadraque, Mesaque e Abednego — preferiria ser lançado na cova dos leões com Daniel — a ceder um único ponto de princípio. Ele é um homem livre. “Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade” no seu sentido mais pleno, elevado e amplo. Que Deus conceda a vocês, amigos, esse “Espírito do Senhor”, pois sem Ele, mesmo em um país livre, vocês ainda serão cativos; e onde não há servos no corpo, vocês podem ser escravos na alma.

O texto fala de liberdade espiritual, e agora me dirijo aos filhos de Deus. Liberdade espiritual, irmãos, vocês e eu a desfrutamos se temos “o Espírito do Senhor” dentro de nós. O que isso implica? Implica que houve um tempo em que não tínhamos essa liberdade espiritual — em que éramos escravos. Há pouco tempo, todos nós que agora somos livres em Cristo Jesus éramos escravos do diabo, levados cativos segundo a vontade dele.

Falávamos de livre-arbítrio, mas o livre-arbítrio é um escravo. Jactávamo-nos de que podíamos fazer o que bem entendêssemos, mas oh, que liberdade escravizadora e ilusória tínhamos! Era uma liberdade imaginária. Éramos escravos das nossas paixões e concupiscências — escravos do pecado, mas agora fomos libertos do pecado. Fomos entregues longe do nosso tirano — um mais forte do que ele expulsou o homem forte e armado, e nós somos livres.

Examinemos agora, um pouco mais de perto, em que consiste a nossa liberdade.

I. A Liberdade da Escravidão do Pecado

Em primeiro lugar, meus amigos, “Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade” da ESCRAVIDÃO DO PECADO.

Ah! Sei que falarei ao coração de alguns de vocês quando tratar da escravidão do pecado. Vocês sabem o que significa essa miséria. De toda servidão e escravidão neste mundo, não há nenhuma mais terrível do que a escravidão do pecado. Falem-me de Israel no Egito preparando a sua cota de tijolos sem o fornecimento de palha; falem-me do negro sob o chicote de seu cruel feitor, e eu confesso que é uma escravidão terrível de se suportar.

Mas há uma muito pior — a escravidão de um pecador convencido quando é levado a sentir o peso da sua culpa; a escravidão de um homem cujos pecados o encurralam como cães de caça ao redor de um cervo cansado. A escravidão de um homem quando o fardo do pecado está sobre os seus ombros — um fardo pesado demais para a sua alma suportar —, um fardo que o afundará para sempre nas profundezas do tormento eterno, a menos que ele escape dele.

Parece-me ver tal pessoa. Não há um único sorriso em seu rosto; nuvens escuras se ajuntaram sobre a sua fronte; solene e séria ela se mantém; suas próprias palavras são suspiros, seus cantos são gemidos, seus sorrisos são lágrimas e, quando parece mais feliz, gotas quentes de tristeza rolam em tempestades ardentes, abrindo sulcos escaldantes em sua face.

Pergunte-lhe quem é, e ela lhe dirá que é “uma criatura arruinada”. Pergunte-lhe como está, e ela confessará que é “a própria miséria encarnada”. Pergunte-lhe o que será dela, e ela dirá: “Serei perdida nas chamas para sempre e não há esperança”. Observe-a a sós em seu retiro: quando encosta a cabeça no travesseiro, sobressalta-se novamente. À noite, sonha com tormentos e, de dia, quase sente aquilo com que sonhou. Assim é o pobre pecador convencido sob a escravidão.

Assim fui eu em meus dias, e assim foram vocês, amigos. Falo àqueles que entendem isso. Vocês passaram por aquele sombrio Pântano do Desespero. Passaram por aquele vale escuro da penitência, foram levados a beber o copo amargo do arrependimento. E sei que dirão “Amém” quando eu declarar que, de todas as escravidões, esta é a mais dolorosa — a escravidão da lei, a escravidão da corrupção.

“Miserável homem que sou! Quem me livrará” dela? Mas o cristão é livre; ele pode sorrir agora, embora chorasse antes. Ele pode se alegrar agora, ao passo que antes se lamentava. “Não há”, diz ele, “nenhum pecado sobre a minha consciência agora. Não há crime sobre o meu peito. Não preciso caminhar pela terra com medo de cada sombra e receio de cada homem que encontro, pois o pecado foi lavado. Meu espírito não é mais culpado: é puro, é santo. Não repousa mais sobre mim a carranca de Deus, mas o meu Pai sorri. Vejo os Seus olhos — eles irradiam amor. Ouço a Sua voz — ela é cheia de doçura. Estou perdoado, estou perdoado, estou perdoado! Salve, Tu que quebras os grilhões! Glorioso Jesus! Ah! Aquele momento em que a escravidão passou pela primeira vez! Pareço me recordar dele agora. Vi Jesus em Sua cruz diante de mim, pensei Nele e, enquanto meditava em Sua morte e sofrimentos, pareceu-me que Ele lançou um olhar para mim. E quando Ele olhou para mim, olhei para Ele e disse:

“Jesus, amante da minha alma,

Deixa-me para o Teu peito voar.”

Ele disse: ‘Vem’, e eu voei para Ele e O abracei; e quando Ele me soltou novamente, perguntei-me onde estava o meu fardo. Tinha sumido! Ali, no sepulcro, ele jazia, e eu me senti leve como o ar, como uma sílfide alada. Eu podia voar sobre montanhas de problemas e desespero. E oh! Que liberdade e alegria eu tive! Eu podia saltar de êxtase, pois muito me fora perdoado, e agora eu estava livre do pecado.”

Amados, esta é a primeira liberdade dos filhos de Deus. “Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade” da escravidão do pecado.

II. A Liberdade da Pena do Pecado

Em segundo lugar, LIBERDADE DA PENA DO PECADO.

O que é essa pena? A morte eterna — tormento para sempre — essa é a triste pena do pecado. Não é nada agradável temer que, se eu morresse agora, poderia estar no inferno. Não é um pensamento aprazível para mim estar aqui e crer que, se eu caísse morto, afundaria nos braços de Satanás e o teria como meu atormentador. Ora, senhores, é um pensamento que me atormentaria. Seria a maldição mais amarga da minha existência. Eu preferiria estar morto e apodrecendo no túmulo a andar pela terra com o pensamento de que poderia sofrer tal pena.

Há alguns de vocês aqui que sabem muito bem que, se morrerem, o inferno será a sua porção. Vocês não tentam negar isso; creem na Bíblia e nela leem a sua condenação: “Quem não crer será condenado”. Vocês não conseguem se colocar entre os crentes. Ainda estão sem Cristo. Algum de vocês foi levado a tal condição a ponto de se considerar tão cheio de pecado que Deus não seria justo se não o punisse? Não sentiram que se rebelaram tanto contra Deus por crimes secretos — sim, eu digo, por crimes secretos — e por transgressões públicas que, se Ele não os punisse, teria de deixar de ser Deus e depor o Seu cetro?

E então vocês tremeram, gemeram e clamaram sob o temor da pena do pecado. Pensavam, quando sonhavam, que viam aquele lago ardente cujas ondas são fogo e cujas vagas são de enxofre sempre abrasador; e cada dia em que caminhavam pela terra era com pavor e medo de que o passo seguinte os fizesse cair no poço sem fundo.

Mas cristão, cristão, você está livre da pena do pecado. Você sabe disso? Consegue reconhecer esse fato? Você está livre, neste exato momento, da pena do pecado. Não apenas está perdoado, mas nunca poderá ser punido por causa dos seus pecados, por maiores e mais enormes que tenham sido.

“No momento em que o pecador crê,

E confia em seu Deus crucificado;

Seu perdão de imediato recebe,

E a salvação plena por Seu sangue,”

e ele nunca mais poderá ser punido por causa do pecado. Falar da punição de um crente? Não existe tal coisa. As aflições desta vida mortal não são punições pelo pecado para os cristãos; são castigos paternos, e não as punições de um juiz.

Para mim não há inferno; que ele fume e arda, mas, se sou um crente, jamais terei a minha porção ali. Para mim não há cavaletes de tortura eternos, nem tormentos, pois se fui justificado, não posso ser condenado! Jesus sofreu a punição em meu lugar, e Deus seria injusto se me punisse novamente. Pois Cristo sofreu uma vez e satisfez a justiça para sempre.

Quando a consciência me diz que sou um pecador, eu digo à consciência que estou no lugar de Cristo, e Cristo está no meu. É verdade, sou um pecador, mas Cristo morreu pelos pecadores. É verdade, mereço a punição, mas se o meu resgate morreu, exigirá Deus a dívida duas vezes? Impossível! Ele a cancelou. Nunca houve e nunca haverá um único crente no inferno. Estamos livres da punição e nunca precisamos tremer por causa dela.

Por mais horrível que seja — e se é eterna, como sabemos que é —, isso não é nada para nós, pois nunca poderemos sofrê-la. O céu abrirá os seus portões de pérola para nos admitir, mas os portões de ferro do inferno estão trancados para sempre contra todo crente. Gloriosa liberdade dos filhos de Deus!

III. A Liberdade da Culpabilidade do Pecado

Há um fato ainda mais surpreendente do que essas duas coisas, e ouso dizer que alguns de vocês objetarão a ele; no entanto, é a verdade de Deus, e se não gostam dela, terão de deixá-la! Há LIBERDADE DA CULPABILIDADE DO PECADO.

Esta é a maravilha das maravilhas. O cristão deixa positivamente de ser culpado no momento em que crê. Ora, se Sua Majestade, em sua bondade, poupar um assassino concedendo-lhe o livre perdão, esse homem não poderá ser punido, mas ainda assim será um homem culpado. Ela pode lhe dar mil perdões e a lei não poderá tocá-lo, mas ele continuará culpado. O crime estará sempre sobre a sua cabeça, e ele será marcado como assassino enquanto viver.

Mas o cristão não é apenas liberto da escravidão e da punição; ele é positivamente absolvido da culpa. Ora, isto é algo diante do qual vocês ficarão maravilhados. Vocês dizem: “O quê? Um cristão não é mais pecador aos olhos de Deus?” Eu respondo: ele é um pecador considerado em si mesmo, mas na pessoa de Cristo não é mais pecador do que o anjo Gabriel — pois, tão alvas quanto as asas angélicas e tão imaculadas quanto as vestes dos querubins, anjo algum pode ser mais puro do que o pobre pecador lavado no sangue quando é feito mais alvo do que a neve.

Vocês entendem como é que a própria culpa do pecador é tirada? Aqui estou eu hoje, um traidor culpado e condenado. Cristo vem para a minha salvação e me manda sair da cela: “Eu ficarei onde você está. Serei o seu substituto. Serei o pecador; toda a sua culpa deve ser imputada a Mim; Eu morrerei por ela, sofrerei por ela, tomarei os seus pecados.”

Então, despindo-Se de Suas vestes, Ele diz: “Tome, vista-as; você será considerado como se fosse Cristo. Você será o justo. Eu tomarei o seu lugar, você toma o Meu.” Então Ele lança ao meu redor um manto glorioso de perfeita justiça e, quando o contemplo, exclamo: “Estranhamente, ó minha alma, estás vestida com os trajes do meu Irmão mais velho.” A coroa de Jesus Cristo está sobre a minha cabeça, Suas vestes imaculadas estão ao redor dos meus lombos e Suas sandálias de ouro são os sapatos dos meus pés. E agora, há algum pecado? O pecado está sobre Cristo, a justiça está sobre mim.

Clame pelo pecador, Justiça! Que a voz da Justiça brade: “Tragam à frente o pecador!” O pecador é trazido. Quem o executor conduz à frente? É o Filho encarnado de Deus. É verdade, Ele não cometeu o pecado, estava sem falha, mas o pecado Lhe é imputado. Ele está no lugar do pecador. Agora a Justiça clama: “Tragam à frente o justo, o perfeitamente justo.” Quem eu vejo? Eis que a Igreja é trazida, cada crente é trazido. A Justiça pergunta: “Estes são perfeitamente justos?” “Sim, são. O que Cristo fez é deles; o que eles fizeram foi lançado sobre Cristo; a justiça dEle é deles, os pecados deles são dEle.”

Apelo a vocês, ímpios. Isto parece estranho e surpreendente, não é? Vocês atribuíram isso ao hipercalvinismo e riram disso. Atribuam ao que quiserem, senhores. Deus o estabeleceu como a Sua verdade. Ele nos fez justos por meio da justiça imputada de Jesus Cristo.

E agora, se sou um verdadeiro crente, estou aqui livre de todo pecado. Não há um único crime contra mim no livro de Deus. Está apagado para sempre, está cancelado; e não apenas nunca poderei ser punido, mas não tenho nada pelo que ser punido. Cristo expiou os meus pecados e eu recebi a Sua justiça. “Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade.”

IV. A Liberdade do Domínio do Pecado

Além disso, o homem cristão, embora liberto da culpa e da punição do pecado, é igualmente liberto do DOMÍNIO DELE.

Todo homem vivo, antes de ser convertido, é escravo da concupiscência. Os homens profanos se gloriam na vida livre e no livre-pensar. Eles chamam isso de vida livre — um copo cheio, uma farra bacanal, gritaria, libertinagem, devassidão — vida livre, senhor! Deixe o escravo erguer os seus grilhões, sacudi-los em meus ouvidos e dizer: “Isto é música e eu sou livre.” O homem é um pobre maníaco. Deixe o homem acorrentado em sua cela, o louco de Bethlem, dizer-me que é um rei e esboçar um sorriso horrível. Eu digo: “Ah, pobre miserável, sei por que ele julga ser um rei. Está demente e louco.”

Assim é com o homem do mundo que diz ser livre. Livre, senhor? Você é um escravo. Você pensa que é feliz, mas à noite, quando se deita em sua cama, quantas vezes se virou de um lado para o outro, insonte e inquieto, e quando acordou não disse: “Ah! Aquele dia de ontem — aquele dia de ontem!”? E embora tenha se mergulhado em outro dia de pecado, aquele “ontem”, como um cão do inferno, latiu para você e o seguiu nos seus calcanhares.

O senhor sabe disso — o pecado é uma servidão e uma escravidão. E você já tentou se livrar dessa escravidão? “Sim”, diz você, “eu tentei.” Mas eu lhe direi qual foi o fim disso. Quando você tentou, prendeu os seus grilhões mais firmemente do que nunca; você rebitou as suas correntes. Um pecador sem a graça tentando se reformar é como Sísifo rolando a pedra montanha acima, a qual sempre desce com força ainda maior. Um homem sem a graça, tentando salvar a si mesmo, está engajado em uma tarefa tão sem esperança quanto as filhas de Dánao, quando tentavam encher um vaso enorme com baldes sem fundo. Ele tem um arco sem corda, uma espada sem lâmina, uma espingarda sem pólvora. Ele precisa de força. Concedo que ele possa produzir uma reforma oca; pode cobrir o vulcão com terra e semear flores ao redor de sua cratera. Mas quando ele começar a se mover novamente, removerá a terra, e a lava quente rolará sobre todas as belas flores que ele havia plantado, devastando tanto as suas obras quanto a sua justiça. Um pecador sem a graça é um escravo. Ele não pode se livrar dos seus pecados.

Mas não é assim com o cristão! Ele é escravo do seu pecado? É um herdeiro de Deus, nascido de novo, um escravo? Oh, não. Ele não vive no pecado porque é nascido de Deus. Ele não vive na impureza porque é um herdeiro da imortalidade. Vocês, mendigos da terra, podem se rebaixar a atos errados, mas os príncipes do sangue do céu devem seguir atos retos.

Vocês, pobres homens do mundo, criaturas mesquinhas e miseráveis aos olhos de Deus — vocês podem viver na desonestidade e na injustiça, mas o herdeiro do céu não pode. Ele ama o seu Senhor, está livre do poder do pecado; a sua obra é a justiça, e o seu fim é a vida eterna. Estamos livres do domínio do pecado.

V. A Liberdade do Medo Escravizador da Lei

Mais uma vez, “Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade” em todos os atos santos de amor — LIBERDADE DO MEDO ESCRAVIZADOR DA LEI.

Muitas pessoas são honestas porque têm medo do policial. Muitas são sóbrias porque têm medo do olho público. Muitas pessoas são aparentemente religiosas por causa dos seus vizinhos. Há muita virtude que é como o suco da uva — precisa ser espremida antes que você a obtenha. Não é como a gota generosa do favo de mel, gotejando voluntária e livremente.

Sou audacioso em dizer que, se um homem for destituído da graça de Deus, as suas obras serão apenas obras de escravidão. Ele se sente forçado a fazê-las. Sei que, antes de entrar na liberdade dos filhos de Deus, se eu ia à casa de Deus, ia porque achava que tinha de ir. Se eu orava, era porque temia que alguma desgraça acontecesse durante o dia se não o fizesse.

Se alguma vez agradeci a Deus por uma mercê, foi porque achei que não receberia outra se não fosse grato. Se pratiquei um ato justo, foi com a esperança de que, muito provavelmente, Deus me recompensaria no final e eu estaria conquistando alguma coroa no céu. Um pobre escravo, um mero gibeonita, cortando lenha e tirando água.

Se eu pudesse ter deixado de fazer isso, teria adorado deixar. Se eu pudesse ter feito a minha vontade, não haveria idas à capela para mim, nem religião para mim — eu teria vivido no mundo e seguido os caminhos de Satanás, se pudesse ter feito como bem me aprouvesse. Quanto à justiça, era escravidão; o pecado teria sido a minha liberdade.

Mas agora, cristão, qual é a sua liberdade? O que o faz vir à casa de Deus hoje?

“O amor fez teus pés voluntários

Moverem-se em pronta obediência.”

O que o faz dobrar os joelhos em oração? É porque você gosta de falar com o seu Pai, que vê em secreto. O que é que abre as suas bolsas e o faz dar liberalmente? É porque você ama os pobres filhos de Deus e sente que, tendo-lhe sido dado tanto, é um privilégio devolver algo a Cristo. O que é que o constrange a viver honesta, justa e sóbria mente? É o medo da cadeia? Não; você poderia derrubar a cadeia, poderia aniquilar as colônias penais, poderia lançar todas as correntes ao mar, e nós seríamos tão santos quanto somos agora.

Algumas pessoas dizem: “Então, senhor, o senhor quer dizer que os cristãos podem viver como quiserem.” Eu gostaria que pudessem, senhor. Se eu pudesse viver como quisesse, viveria sempre em santidade. Se um cristão pudesse viver como quisesse, viveria sempre como deve. É uma escravidão para ele pecar; a justiça é o seu deleite. Oh! Se eu pudesse viver como me apraz, aprazer-me-ia viver como devo. Se eu pudesse viver como gostaria, viveria como Deus me ordena.

A maior felicidade de um cristão é ser santo. Não é nenhuma escravidão para ele. Coloque-o onde quiser, ele não pecará. Exponha-o a qualquer tentação; se não fosse por aquele coração mau que ainda permanece, você nunca o veria pecar. A santidade é o seu prazer, o pecado é a sua escravidão. Ah! Vocês, pobres cativos, que vêm à igreja e à capela porque precisam. Ah! Vocês, pobres moralistas escravizados, que são honestos por causa dos grilhões e sóbrios por causa da prisão. Ah! Pobres escravos!

Nós não somos assim; não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça. Chamem-nos de antinomianos, se quiserem; nós nos gloriaremos até mesmo nesse título escandaloso. Estamos livres da lei, mas estamos livres dela para que possamos obedecê-la mais do que nunca. O filho de Deus, nascido de novo, serve ao seu Senhor mais do que nunca. Como diz o velho Erskine:

“Desprezar agora a Sua amorosa presença, se puderem?

Não, não; Sua bondade conquistadora lidera o caminho.

Quando o amor eterno exerce o domínio,

Eles se julgam amorosamente obrigados a obedecer;

Atados pelo amor redentor em sentido mais estrito,

Do que jamais Adão esteve na inocência.”

VI. A Liberdade do Medo da Morte

Mas, para concluir, “Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade” do MEDO DA MORTE.

Ó morte! Quantas taças doces você amargou! Ó morte! Quantas farras você interrompeu! Ó morte! Quantos banquetes gulosos você estragou! Ó morte! Quantos prazeres pecaminosos você transformou em dor! Tomem vocês, meus amigos, o telescópio esta manhã e olhem através da vista de alguns anos; e o que veem? A pavorosa morte ao longe segurando a sua foice. Ela está vindo, vindo, vindo; e o que está atrás dela?

Ah, isso depende do seu caráter. Se vocês são filhos de Deus, há a folha de palmeira. Se não são, sabem o que se segue à morte — o Inferno a segue. Ó morte! O seu espectro assombrou muitas casas onde, de outro modo, o pecado teria reinado. Ó morte! A sua mão gélida tocou muitos corações cheios de concupiscência e os fez sobressaltar apavorados de seus crimes.

Oh! Quantos homens são escravos do medo da morte. Metade das pessoas no mundo tem medo de morrer. Há alguns loucos que conseguem marchar até a boca do canhão; há alguns tolos que correm com as mãos ensanguentadas perante o tribunal do seu Criador; mas a maioria dos homens teme morrer. Quem é o homem que não teme morrer? Eu lhes direi.

O homem que é um crente. Temer morrer? Graças a Deus, eu não temo. O cólera pode voltar no próximo verão — peço a Deus que não volte, mas se voltar, não importa para mim. Trabalharei e visitarei os enfermos de noite e de dia, até cair. E se ele me levar, morte repentina é glória repentina. E assim é com o santo mais fraco neste salão. A perspectiva da dissolução não o faz tremer. Às vezes você teme, mas com mais frequência se alegra. Você se assenta calmamente e pensa em morrer. O que é a morte? É um pórtico baixo pelo qual você se curva para entrar no céu. O que é a vida? É uma tela estreita que nos separa da glória, e a morte bondosamente a remove!

Lembro-me do ditado de uma boa senhora idosa, que disse: “Medo de morrer, senhor! Mergulhei o meu pé no Jordão toda manhã antes do café da manhã nos últimos cinquenta anos, e o senhor acha que tenho medo de morrer agora?” Morrer! Amados, por que morremos centenas de vezes, “morremos diariamente”, morremos toda manhã, morremos a cada noite quando dormimos; pela fé nós morremos e, assim, morrer será um trabalho antigo quando chegarmos a ele.

Diremos: “Ah, morte! Você e eu somos velhos conhecidos. Tive você em meu quarto toda noite. Falei com você a cada dia, tive o crânio sobre a minha penteadeira e muitas vezes pensei em você. Morte! Você finalmente chegou, mas é uma convidada bem-vinda. Você é um anjo de luz e o melhor amigo que já tive.”

Por que, então, temer a morte, visto que não há medo de que Deus o abandone quando você chegar à hora de morrer? Aqui devo lhes contar aquela anedota da boa senhora de Gales que, estando prestes a morrer, foi visitada por seu pastor. Ele lhe disse: “Irmã, a senhora está afundando?” Ela não lhe respondeu uma só palavra, mas olhou para ele com um olhar de incredulidade. Ele repetiu a pergunta: “Irmã, a senhora está afundando?” Ela olhou para ele novamente, como se não pudesse acreditar que ele faria tal pergunta.

Por fim, levantando-se um pouco na cama, ela disse: “Afundando! Afundando! O senhor já viu um pecador afundar através de uma rocha? Se eu estivesse firmada na areia, poderia afundar; mas, graças a Deus, estou sobre a Rocha das Eras e não há como afundar ali!”

Quão glorioso é morrer! Oh, anjos, venham! Oh, coortes do Senhor dos Exércitos, estendam, estendam as suas largas asas e levem-nos para longe da terra. Ó serafins alados, carreguem-nos para muito além do alcance destas coisas inferiores; mas, até que venham, eu cantarei:

“Já que Jesus é meu, não temerei me despir —

Mas de bom grado me despojarei destes trajes de barro;

Morrer no Senhor é uma bênção da aliança;

Pois Jesus à glória, embora pela morte, lidera o caminho.”

E agora, caros amigos, mostrei-lhes tão brevemente quanto pude o lado negativo desta liberdade. Tentei lhes dizer, da melhor forma que pude em poucas palavras, de que fomos libertos. Mas há dois lados em questões como esta. Há algumas coisas gloriosas para as quais somos livres. Não apenas fomos libertos do pecado em todo sentido, da lei e do medo da morte, mas somos livres para fazer algo. Não tomarei muitos momentos, mas apenas passarei por algumas coisas para as quais somos livres, pois, meus irmãos cristãos, “Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade”, e essa liberdade nos dá certos direitos e privilégios.

Em primeiro lugar, somos livres para a carta magna do céu. Ali está a carta do céu — a Magna Carta —, a Bíblia; e meu irmão, você é livre para ela. Há uma passagem preciosa aqui: “Quando passares pelas águas, Eu serei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão.” Você é livre para isso.

Aqui está outra: “Porque os montes se retirarão e os outeiros serão removidos; mas a Minha misericórdia não se retirará de ti.” Você é livre para isso. Aqui está outra: “Como havia amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.” Você é livre para isso. “Onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade.”

Aqui está um capítulo referente à eleição; você é livre para ele, se for um eleito. Aqui está outro, que fala da não condenação dos justos e da sua justificativa; você é livre para ele. Você é livre para tudo o que está na Bíblia. Aqui está um tesouro inagotável cheio de provisões ilimitadas de graça. É o banco do céu; você pode sacar dele o quanto quiser, sem impedimento ou restrição. Não traga nada consigo, exceto fé. Traga tanta fé quanta puder obter, e você será bem-vindo a tudo o que está na Bíblia. Não há uma promessa, não há uma palavra nela que não seja sua.

Nas profundezas da tribulação, que ela o meça e meça o seu conforto. Em meio às ondas de angústia, que ela o anime. Quando as dores o cercarem, que ela seja o seu auxílio. Este é o penhor do amor do seu Pai. Que nunca fique fechado e coberto de poeira. Você é livre para ele — use, então, a sua liberdade.

A seguir, lembre-se de que você é livre para o trono da graça. É um privilégio dos ingleses poderem sempre enviar uma petição ao Parlamento, e é o privilégio do crente poder sempre enviar uma petição ao trono de Deus. Sou livre para o trono de Deus. Se eu quiser falar com Deus amanhã de manhã, eu posso. Se hoje à noite eu desejar ter uma conversa com o meu Mestre, posso ir a Ele.

Tenho o direito de ir ao Seu trono. Não importa o quanto eu possa ter pecado, eu vou e peço perdão. Não significa nada o quão pobre eu seja — eu vou e me apego à Sua promessa de que Ele proverá todas as coisas necessárias. Tenho o direito de ir ao Seu trono a qualquer momento — na hora mais escura da meia-noite ou no calor do meio-dia. Onde quer que eu esteja, se o destino me ordenar até os confins da vasta terra, ainda assim tenho constante acesso ao Seu trono.

Use esse direito, amado — use esse direito. Não há um único entre vocês que viva à altura do seu privilégio. Muitos nobres vivem além da sua renda, gastando mais do que recebem. Mas não há um cristão que faça isso — quero dizer, que viva à altura da sua renda espiritual. Oh, não! Você tem uma renda infinita — uma renda de promessas —, uma renda de graça, e nenhum cristão jamais viveu à altura da sua renda.

Algumas pessoas dizem: “Se eu tivesse mais dinheiro, teria uma casa maior, cavalos, carruagem e assim por diante.” Muito bem; mas eu gostaria que o cristão fizesse o mesmo. Gostaria que eles estabelecessem uma casa maior e fizessem coisas maiores para Deus, parecessem mais felizes e tirassem aquelas lágrimas dos olhos.

“A religião nunca foi projetada

Para diminuir os nossos prazeres.”

Com tais reservas no banco e tanto em mãos que Deus lhe dá, você não tem o direito de ser pobre. Levante-se! Regozije-se! Regozije-se! O cristão deve viver à altura da sua renda, e não abaixo dela.

Então, se você tem o “Espírito do Senhor”, caros amigos, você tem o direito de entrar na cidade. Há muitos cidadãos livres da Cidade de Londres aqui, ouso dizer, e esse é um grande privilégio, muito provavelmente. Não sou um cidadão livre de Londres, mas sou um cidadão livre de uma cidade melhor.

“Salvador, se da cidade de Sião,

Eu, pela graça, um membro sou,

Que o mundo injurie ou tenha compaixão,

Eu me gloriarei em Teu nome.”

Você tem direito à liberdade da cidade de Sião e não a exerce. Quero ter uma palavra com alguns de vocês. Vocês são pessoas cristãs muito boas, mas nunca se uniram à igreja ainda. Vocês sabem que é muito correto que aquele que crê seja batizado, mas suponho que tenham medo de se afogar, pois nunca vêm.

Então, a mesa do Senhor é servida uma vez a cada mês, e é livre para todos os filhos de Deus, mas vocês nunca se aproximam dela. Por que isso? É o seu banquete. Não creio que, se eu fosse um vereador, omitiria o banquete da cidade; e, sendo um cristão, não posso omitir o banquete cristão; é o banquete dos santos.

“Anjos jamais provaram no alto

A graça redentora e o amor morredouro.”

Alguns de vocês nunca vêm à mesa do Senhor; vocês negligenciam as Suas ordenanças. Ele diz: “Fazei isto em memória de Mim.” Vocês obtiveram a liberdade da cidade, mas não querem usufruí-la. Vocês têm o direito de entrar pelas portas na cidade, mas ficam do lado de fora. Venha para dentro, irmão; eu lhe darei a minha mão...

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Cristo Crucificado

 


Um Sermão Pregado na Manhã de Sábado, 11 de Fevereiro de 1855, pelo Rev. C. H. Spurgeon, no Exeter Hall, Strand.

"Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos; mas para os chamados, assim judeus como gregos, Cristo é poder de Deus, e sabedoria de Deus." — 1 Coríntios 1:23-24

A Insensatez da Sabedoria Humana

Que desprezo Deus derramou sobre a sabedoria deste mundo! Como Ele a reduziu a Nada e a fez parecer insignificante. Ele permitiu que ela tirasse suas próprias conclusões e provasse a sua própria insensatez. Os homens vangloriavam-se de ser sábios; diziam que podiam encontrar a Deus com perfeição, e, para que a sua tolice fosse refutada de uma vez por todas, Deus deu-lhes a oportunidade de fazê-lo.

Ele disse: "Sabedoria mundana, vou testar-te. Dizes que és poderosa, que teu intelecto é vasto e abrangente, que teu olhar é agudo, que podes desvendar todos os segredos; eis que agora te ponho à prova. Dou-te um grande problema para resolver. Aqui está o universo: as estrelas fazem o seu dossel, os campos e as flores o adornam, e as águas rolam sobre a sua superfície. O Meu nome está escrito aí. As coisas invisíveis de Deus podem ser claramente vistas pelas coisas que foram criadas. Filosofia, dou-te este problema: descobre-Me. Eis as minhas obras: descobre-Me. Descobre, no mundo maravilhoso que criei, o modo de adorar-Me aceitavelmente. Dou-te espaço suficiente para fazê-lo; há dados suficientes. Vede as nuvens, a terra e as estrelas. Dou-te tempo suficiente. Dar-te-ei quatro mil anos e não interferirei, mas farás o que quiseres com o teu próprio mundo. Dar-te-ei homens em abundância, pois farei mentes grandes e vastas, a quem chamareis de senhores da terra. Tereis oradores, tereis filósofos. Descobre-Me, ó razão; descobre-Me, ó sabedoria. Descobre a minha natureza, se podes; descobre-Me com perfeição, se és capaz; e, se não puderes, cala a tua boca para sempre, e então eu te ensinarei que a sabedoria de Deus é mais sábia do que a sabedoria do homem. Sim, que a loucura de Deus é mais sábia do que os homens."

E como a razão do homem resolveu o problema? Como a sabedoria executou a sua façanha? Olhai para as nações pagãs; ali vedes o resultado das pesquisas da sabedoria. No tempo de Jesus Cristo, podereis ter visto a terra coberta pelo lodo da poluição — um Sodoma em grande escala, corrupta, imunda, depurada, entregue a vícios que sequer ousamos mencionar, regalando-se em paixões demasiado abomináveis para que a nossa imaginação se detenha nelas por um momento.

Encontramos os homens prostrando-se diante de blocos de madeira e pedra, adorando dez mil deuses mais viciosos do que eles próprios. Vemos, de fato, que a razão escreveu a sua própria depravação com um dedo coberto de sangue e imundície, e que ela própria cortou para sempre toda a sua glória pelas ações vis que praticou. Ela não quis adorar a Deus. Ela não quis inclinar-se Àquele que é "claramente visto", mas adorou qualquer criatura: o réptil que rastejava, o crocodilo, a víbora, tudo podia ser deus, menos, por certo, o Deus do Céu.

O vício podia ser transformado em cerimônia; o maior crime podia ser exaltado a religião, mas da verdadeira adoração ela nada conhecia. Pobre razão! Pobre sabedoria! Como caístes do céu! Como Lúcifer, filho da manhã, estás perdido. Escreveste a tua conclusão, mas é uma conclusão de insensatez consumada. "Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação."

A sabedoria tivera o seu tempo, e tempo suficiente; fizera tudo o que podia, e isso era muito pouco. Ela tornara o mundo pior do que era antes de pisar nele, e agora diz Deus: "A loucura vencerá a sabedoria. Agora a ignorância, como lhe chamais, varrerá a vossa ciência. Agora a fé humilde, semelhante à de uma criança, reduzirá a pó todos os sistemas colossais que vossas mãos acumularam."

O Exército dos Humildes

Ele chama o seu exército. Cristo põe a sua trombeta à boca e lá vêm os guerreiros, trajados com vestes de pescador, com o sotaque do lago da Galileia — pobres e humildes marinheiros. Eis os guerreiros, ó sabedoria, que vos hão de confundir! Estes são os heróis que vencerão vossos orgulhosos filósofos! Estes homens hão de plantar a sua bandeira sobre as muralhas arruinadas de vossas fortalezas e ordenar que caiam para sempre.

Estes homens, e os seus sucessores, hão de exaltar no mundo um Evangelho do qual podeis rir como um absurdo, do qual podeis zombar como loucura, mas que será exaltado acima dos montes e será glorioso até aos mais altos céus. Desde aquele dia, Deus sempre levantou sucessores dos apóstolos. Eu afirmo ser um sucessor dos apóstolos, não por qualquer descendência linear, mas porque tenho o mesmo rolo e carta magna que qualquer apóstolo, e sou tão chamado a pregar o Evangelho quanto o próprio Paulo.

Se não tanto na conversão de pecadores, ao menos em certa medida abençoado por Deus; e, por isso, aqui estou eu, tão tolo quanto Paulo poderia ser, tão tolo quanto Pedro ou qualquer daqueles pescadores, mas ainda assim com o poder de Deus empunho a espada da verdade, vindo aqui para "pregar a Cristo, e este crucificado, para os judeus escândalo, e para os gregos loucura; mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus."

Antes de entrar no nosso texto, deixai-me dizer-vos muito brevemente o que creio ser pregar a Cristo e a este crucificado. Meus amigos, eu não creio que seja pregar a Cristo e a este crucificado dar ao nosso povo um lote de filosofia todas as manhãs e noites de domingo, negligenciando a verdade deste Livro Santo. Não creio que seja pregar a Cristo e a este crucificado omitir as principais doutrinas cardeais da Palavra de Deus e pregar uma religião que é toda névoa e neblina, sem nenhuma verdade definida.

Considero que não prega a Cristo e a este crucificado aquele que consegue passar por um sermão sem mencionar o nome de Cristo uma única vez; nem prega a Cristo e a este crucificado aquele que omite a obra do Espírito Santo, que nunca diz uma palavra sobre o Espírito Santo, de modo que os ouvintes poderiam perfeitamente dizer: "Nem sequer ouvimos se há Espírito Santo".

E tenho a minha opinião pessoal de que não existe tal coisa como pregar a Cristo e a este crucificado, a menos que pregueis o que hoje em dia se chama calvinismo. Tenho as minhas próprias ideias, e essas eu sempre expresso com ousadia. É um apelido chamá-lo de calvinismo. O calvinismo é o Evangelho e nada mais. Não creio que possamos pregar o Evangelho se não pregarmos a justificação pela fé, sem obras.

Nem a menos que preguemos a soberania de Deus na Sua dispensação de graça. Nem a menos que exaltemos o amor eleitor, inesgotável, eterno, imutável e triunfante de JEOVÁ. Nem creio que possamos pregar o Evangelho a menos que o baseemos na redenção particular que Cristo efetuou para o Seu povo eleito e escolhido. Nem consigo compreender um Evangelho que permita que os santos se desviam após serem chamados, e que sofra para que os filhos de Deus sejam queimados nos fogos da condenação depois de terem crido.

Tal evangelho eu abomino. O Evangelho da Bíblia não é um evangelho assim. Pregamos a Cristo e a este crucificado de maneira diferente, e a todos os opositores respondemos: "Nós não aprendemos assim a Cristo".

Há três coisas no texto:

  1. Um Evangelho Rejeitado: "Cristo crucificado, escândalo para os judeus, e loucura para os gregos".

  2. Um Evangelho Triunfante: "Para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos".

  3. Um Evangelho Admirado: Para os que são chamados, é "poder de Deus e sabedoria de Deus".

I. O Evangelho Rejeitado

Poder-se-ia imaginar que, quando Deus enviou o Seu Evangelho aos homens, todos os homens ouviriam mansamente e receberiam humildemente as Suas verdades. Teríamos pensado que os ministros de Deus só precisavam proclamar que a vida é trazida à luz pelo Evangelho e que Cristo veio para salvar pecadores, e cada ouvido estaria atento, cada olho fixo, e cada coração amplamente aberto para receber a verdade.

Teríamos dito, julgando favoravelmente os nossos semelhantes, que não existiria no mundo um monstro tão vil, tão depravado, tão poluido, que pusesse sequer uma pedra no caminho do progresso da verdade. Não poderíamos ter concebido tal coisa, e no entanto essa concepção é a pura realidade. Quando o Evangelho foi pregado, em vez de ser aceito e admirado, um silvo universal subiu aos céus. Os homens não podiam suportá-lo.

O seu primeiro Pregoeiro foi arrastado até ao cimo do monte e lançado precipício abaixo. Sim, fizeram ainda mais: pregaram-no à cruz e ali o deixaram definhar numa agonia tal como nenhum homem jamais suportou desde então. Todos os Seus ministros escolhidos têm sido odiados e abominados pelos mundanos. Em vez de serem ouvidos, têm sido escarnecidos, tratados como se fossem o refugo de todas as coisas e a própria escuma da humanidade.

Olhai para os santos homens dos tempos antigos: como foram expulsos de cidade em cidade, perseguidos, afligidos, atormentados, apedrejados até à morte onde quer que o inimigo tivesse poder para o fazer. Aqueles amigos dos homens, aqueles verdadeiros filantropos que vieram com corações cheios de amor, mãos cheias de misericórdia, lábios grávidos de fogo celestial e almas abrasadas por influência santa, foram tratados como se fossem espiões no acampamento, desertores da causa comum da humanidade, inimigos e não, como verdadeiramente eram, os melhores dos amigos.

Não penseis, meus amigos, que os homens gostam do Evangelho melhor hoje do que gostavam então. Há uma ideia de que estais a melhorar. Eu não creio nisso. Estais a piorar. Em muitos aspectos os homens podem estar exteriormente melhores, mas o coração interior continua exatamente o mesmo. O coração humano de hoje, se dissecado, seria exatamente igual ao coração humano de há mil anos. O fel de amargura dentro desse vosso peito é exatamente tão amargo quanto o fel de amargura no peito daquele Simão de antanho. Temos nos nossos corações a mesma oposição latente à verdade de Deus e, por isso, encontramos homens, tal como outrora, que desprezam o Evangelho.

Ao falar do Evangelho rejeitado, procurarei apontar as duas classes de pessoas que igualmente desprezam a verdade: os judeus fazem dele um escândalo e os gregos julgam-no loucura.

Agora, estes dois cavalheiros muito respeitáveis — o judeu e o grego — não vou tomar estes indivíduos antigos como objeto da minha condenação, mas encaro-os como membros de um grande parlamento, representantes de um grande eleitorado; e tentarei mostrar que, se toda a raça de judeus fosse extinta, ainda haveria um grande número de pessoas no mundo que corresponderiam ao nome de judeus, para quem Cristo é um escândalo. E que, se a Grécia fosse tragada por algum terremoto e deixasse de ser nação, ainda existiria o grego para quem o Evangelho seria loucura. Vou simplesmente apresentar o judeu e o grego, e deixá-los falar um momento convosco, para que possais ver os cavalheiros que vos representam — os representantes típicos — as pessoas que encarnam muitos de vós, que ainda não fostes chamados pela graça divina.

O Judeu: O Reliosos Formalista e Ortodoxo

O primeiro é o judeu. Para ele, o Evangelho é um escândalo. Um homem respeitável era o judeu no seu tempo. Toda a religião formal estava concentrada na sua pessoa. Subia ao templo com muita devoção, pagava o dízimo de tudo o que possuía, até da hortelã e do cominho. Vê-lo-ias jejuar duas vezes por semana, com o rosto marcado pela tristeza e pelo luto. Se olhasses para ele, tinha a lei entre os olhos. Ali estava o filactério e as franjas de suas vestes de largura impressionante, para que nunca se pudesse supor que ele era um cão gentio — para que ninguém imaginasse que ele não era um hebraico de pura linhagem.

Tinha uma ascendência santa, provinha de uma família piedosa; era um homem deveras bondoso. Não suportava de modo algum aqueles saduceus que não tinham religião. Era profundamente religioso, defendia a sua sinagoga, não aceitava aquele templo no monte Gerizim, não suportava os samaritanos, não mantinha negócios com eles; era um religioso de primeira ordem, um espécime acabado de homem moralista e amante das cerimônias da lei.

Consequentemente, quando soube de Cristo, perguntou quem Ele era. "O filho de um carpinteiro." "Ah!" "O filho de um carpinteiro, e o nome de Sua mãe é Maria, e o de Seu pai José." "Isso, por si só, já é presunção suficiente" — dizia ele —, "prova positiva, de fato, de que Ele não pode ser o Messias. E o que é que Ele diz?" "Bem, Ele diz: 'Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!'" "Isso não serve." "Além disso" — diz Ele —, "Não é pelas obras da carne que qualquer homem pode entrar no reino dos céus." O judeu dava de imediato um nó duplo no seu filactério, pensando em tornar as franjas de sua veste duas vezes mais largas. Ele, inclinar-se perante o Nazareno? Não, não; e se ao menos um discípulo cruzasse a rua, ele pensava que o lugar ficava poluído e recusava-se a pisar nos seus passos.

Pensais vós que ele abandonaria a religião de seu velho pai — a religião que descera do Monte Sinai —, aquela velha religião que repousava na arca e nos querubins protectores? Abandoná-la? De modo algum. Um vilo impostor — era tudo o que Cristo era aos seus olhos. Ele assim o pensava. "Um escândalo para mim! Não posso ouvir sobre isso! Não quero escutar!"

Consequentemente, virou surdo todo o encanto da eloquência do Pregador e não escutou nada. Adeus, velho judeu. Dormes com teus pais, e a tua geração é uma raça errante que ainda caminha pela terra. Adeus, terminei contigo. Ai de ti, pobre infeliz! Aquele Cristo que foi o teu escândalo será o teu Juiz, e sobre a tua cabeça recairá aquela maldição estrondosa: "O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos".

Mas vou procurar o Sr. Judeu aqui mesmo, no Exeter Hall — pessoas que correspondem à sua descrição, para quem Jesus Cristo é um escândalo. Permiti-me apresentar-vos a vós mesmos, a alguns de vós. Vós também viestes de uma família piedosa, não é verdade? Sim. E tendes uma religião que amais — amais-a no que diz respeito à sua crisálida, ao exterior, ao invólucro, à casca. Não permitiríeis que se alterasse um único rubro, nem que se tirasse um daqueles queridos arcos antigos, nem que se removessem os vitrais por todo o ouro do mundo; e qualquer homem que dissesse uma palavra contra tais coisas, vós o classificaríeis imediatamente como herege.

Ou talvez não frequenteis tal lugar de culto, mas ameis alguma antiga e simples capela de reunião onde vossos antepassados adoravam, chamada de capela dissidente. Ah! É um belo e simples lugar; amais-o, amais as suas ordenanças, amais o seu exterior e, se alguém falasse mal do lugar, quão contrariados vos sentiríeis.

Pensais que o que fazem ali deveriam fazer em toda a parte. De fato, a vossa igreja é modelo, o lugar aonde idis é exatamente o tipo de lugar para todo o mundo. E se eu vos perguntasse por que esperais ir para o céu, talvez respondêsseis: "Porque sou batizado" ou "Porque sou episcopal", ou qualquer outra seita a que pertençais. Aí estais vós; eu bem sei que Jesus Cristo vos será um escândalo.

Se eu for e vos disser que toda a vossa frequência à casa de Deus não vale absolutamente nada; se vos disser que todas aquelas muitas vezes em que cantastes e orastes passam por nada aos olhos de Deus, porque sois um hipócrita e um formalista; se vos disser que o vosso coração não está reto diante de Deus e que, a menos que esteja, todo o exterior é inútil, eu sei o que direis: "Não tornarei a ouvir esse jovem". É um escândalo.

Se tivésseis entrado nalgum lugar onde ouvísseis o formalismo exaltado, se vos tivessem dito: "Isto deves fazer, e aquilo outro deves fazer, e então serás salvo", vós o aprovaríais altamente. Mas quantos há que são exteriormente religiosos, com cujos caracteres não conseguis encontrar falha alguma, mas que nunca experimentaram a influência regeneradora do Espírito Santo, que nunca foram prostrados de rosto em terra diante da cruz do Calvário, que nunca voltaram um olhar suplicante para o Salvador crucificado, que nunca puseram a sua confiança Aquele que foi morto pelos filhos dos homens!

Eles amam uma religião superficial, mas quando alguém fala mais fundo do que isso, consideram-no hipocrisia e cantilena. Podeis amar tudo o que é exterior na religião, assim como podeis amar um homem pelas suas roupas, sem vos importardes com o homem em si. Sendo assim, sei que sois um daqueles que rejeitam o Evangelho. Ouvir-me-eis pregar e, enquanto eu falar sobre as coisas exteriores, ouvir-me-eis com atenção.

Enquanto eu apelar à moralidade e argumentar contra a embriaguez, ou mostrar a hediondez da profanação do sábado, tudo bem e ótimo; mas se uma vez eu disser: "Se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo nenhum entrareis no reino dos céus", se uma vez eu vos disser que debeis ser eleitos por Deus, que debeis ser comprados pelo sangue do Salvador, que debeis ser convertidos pelo Espírito Santo, direis: "Ele é um fanático! Fora com ele, fora com ele! Não queremos ouvir mais isso".

Cristo crucificado é para o judeu formalista um escândalo.

O Grego: O Intelectual e Filósofo

Mas há outro exemplar deste judeu a ser encontrado. Ele é perfeitamente ortodoxo nos seus sentimentos. Quanto a formas e cerimônias, não pensa nelas. Frequenta um lugar de culto onde aprende sã doutrina. Não ouvirá senão o que é verdadeiro. Gosta que tenhamos boas obras e moralidade. É um homem bom e ninguém lhe pode apontar defeitos.

Ei-lo aqui, regular no seu banco de domingo. No mercado, caminha perante os homens com toda a honestidade — ou assim poderíeis imaginar. Perguntei-lhe sobre qualquer doutrina e ele pode dar-vos uma dissertação sobre ela. De fato, ele poderia escrever um tratado sobre qualquer coisa na Bíblia e muitas outras coisas mais. Sabe quase tudo e aqui, neste sótão escuro da cabeça, a sua religião fixou residência. Ele tem uma bela sala de visitas no seu coração, mas a sua religião nunca vai lá — essa está fechada para ela. Tem dinheiro aí — mamom, mundanismo, ou tem outra coisa qualquer: amor-próprio, orgulho.

Talvez goste de ouvir pregação experiencial; ele admira tudo isso. De fato, gosta de tudo o que é são. Mas ele próprio não tem essa saúde, ou melhor, é tudo som e nenhuma substância. Gosta de ouvir sã doutrina, mas ela nunca penetra o seu homem interior. Nunca o vedes chorar. Pregai-lhe sobre Cristo crucificado, um assunto glorioso, e jamais vereis uma lágrima rolar pela sua face.

Falai-lhe sobre a poderosa influência do Espírito Santo: ele admira-vos por isso, mas nunca sentiu a mão do Espírito Santo na sua alma. Falai-lhe sobre a comunhão com Deus, de mergulhar no mar mais profundo da Divindade e perder-se na Sua imensidão: o homem gosta de ouvir, mas nunca o experimenta; jamais comungou com Cristo.

E, portanto, uma vez que comeceis a atingir o alvo, quando o deitardes na mesa, tirardes a vossa faca de dissecção, começardes a retalhá-lo e a mostrar-lhe o seu próprio coração, deixando-o ver o que ele é por natureza e o que deve tornar-se pela graça, o homem sobressalta-se, não o suporta, não quer nada disso — Cristo recebido no coração e aceito. Embora goste o suficiente dele na cabeça, para ele é um escândalo, e ele rejeita-o.

Vede-vos a vós mesmos aqui, meus amigos? Vede-vos como os outros vos vêem? Vede-vos como Deus vos vê? Pois assim é: aqui há muitos para quem Cristo é tanto um escândalo agora como sempre foi. Ó formalistas! Eu vos falo; ó vós que tendes a casca de noz, mas abominais o miolo. Ó vós que gostais dos arreios e do traje, mas não vos importais com essa bela virgem que com eles se veste. Ó vós que admirais a pintura e o enfeite, mas abominais o ouro maciço, eu vos falo.

Pergunto-vos: a vossa religião vos dá conforto sólido? Podeis encarar a morte de frente com ela e dizer: "Eu sei que o meu Redentor vive"? Podeis fechar os olhos à noite, cantando como vosso hino vespertino:

"Tenho de até ao fim durar, Tão certo como o penhor é dado"?

Podeis abençoar a Deus pela aflição? Podeis mergulhar, equipados como estais, e nadar através de todas as cheias de provação? Podeis marchar triunfantes através da cova dos leões, rir da aflição e desafiar o inferno? Podeis? Não! O vosso evangelho é uma coisa efeminada, uma coisa de palavras e sons, e não de poder.

Rejeitai-o, eu vos suplico; não vale a pena conservá-lo. E quando comparecerdes perante o trono de Deus, vereis que ele vos falhará, e falhará de tal modo que jamais encontrareis outro. Pois perdidos, arruinados, destruídos, vereis que aquele Cristo que agora é um escândalo será o vosso Juiz.

Encontrei o judeu e agora tenho de descobrir o grego. Ele é uma pessoa de exterior totalmente diferente do judeu. Quanto ao filactério, para ele isso é puro lixo; e quanto à veste de largas bainhas, ele a despreza. Não se importa com as formas da religião. Ele tem uma aversão intensa, de fato, a chapéus de abas largas ou a tudo o que pareça exibição exterior.

Ele aprecia a eloquência. Admira uma tirada espirituosa, adora uma expressão pitoresca. Gosta de ler o último livro lançado. Ele é um grego e, para ele, o Evangelho é loucura. O grego é um cavalheiro que se encontra em quase toda a parte hoje em dia — fabricado por vezes nas colégios, constantemente produzido nas escolas, gerado em toda a parte.

Ele está na bolsa, no mercado, tem uma loja, anda de carruagem, é um nobre, um fidalgo, está em toda a parte, até na corte. Ele é totalmente sábio. Perguntai-lhe qualquer coisa e ele sabe-a. Pede-i uma citação de qualquer dos antigos poetas ou de quem quer que seja, e ele dar-la-á. Se fores muçulmano e pleiteares as reivindicações da tua religião, ele escutar-te-á com muita paciência. Mas se fores cristão e lhe falares de Jesus Cristo: "Pára com essa tua cantilena" — diz ele —, "Não quero ouvir nada sobre isso".

Este cavalheiro grego acredita em toda a filosofia, exceto na verdadeira. Estuda toda a sabedoria, exceto a sabedoria de Deus. Procura todo o aprendizado, exceto o aprendizado espiritual. Ama tudo, exceto aquilo que Deus aprova. Gosta de tudo o que o homem faz e de nada que provenha de Deus. É loucura para ele, completa loucura. Só precisas de discursar sobre uma doutrina na Bíblia para ele fechar os ouvidos. Ele já não deseja a tua companhia; é loucura.

Já encontrei este cavalheiro muitas vezes. Uma vez, quando o vi, disse-me que não acreditava em religião alguma. E quando eu disse que acreditava e tinha a esperança de que, ao morrer, iria para o céu, ele respondeu que achava que isso devia ser muito confortável, mas não acreditava em religião, e que tinha a certeza de que o melhor era viver conforme a natureza ditava.

Outra vez, ele falou bem de todas as religiões e acreditava que eram muito boas no seu lugar e todas verdadeiras. E não tinha dúvidas de que, se um homem fosse sincero em qualquer tipo de religião, estaria bem no final. Eu disse-lhe que não pensava assim e que acreditava haver apenas uma religião revelada por Deus: a religião dos eleitos de Deus, a religião que é o dom de Jesus. Ele disse então que eu era um intolerante e desejou-me bom dia. Para ele era loucura. Não tinha nada que ver comigo. Ou não gostava de religião nenhuma, ou gostava de todas.

Outra vez, segurei-o pelo botão do casaco e discuti com ele um pouco sobre a fé. Ele disse: "Está muito bem, creio que essa é a verdadeira doutrina protestante". Mas logo a seguir disse algo sobre a eleição, e ele declarou: "Não gosto disso; muitas pessoas pregaram isso e deram-lhe mau uso". Pintei então algo sobre a graça gratuita, mas isso ele não pôs suportar; era para ele loucura.

Ele era um grego polido e achava que, se não fosse escolhido, deveria sê-lo. Nunca gostou daquela passagem: "Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracos deste mundo para confundir as fortes". Ele achava que isso desmerecia a Bíblia e, quando o livro fosse revisto, não tinha dúvidas de que seria cortado.

A tal homem — pois ele está aqui esta manhã, muito provavelmente veio para ouvir esta cana agitada pelo vento —, tenho de dizer isto: Ah, homem sábio, cheio de sabedoria mundana! A tua sabedoria servir-te-á aqui, mas o que farás nas vagas do Jordão? A filosofia pode servir-te para te apoiares enquanto caminhas por este mundo, mas o rio é fundo e precisas de algo mais do que isso. Se não tiveres o braço do Altíssimo para te suster na enchente e te animar com promessas, afundar-te-ás, homem. Com toda a tua filosofia, afundar-te-ás. Com toda a tua ciência, afundar-te-ás e serás lançado naquele oceano pavoroso de tormento eterno, onde estarás para sempre.

Ah, gregos! Pode ser loucura para vós, mas vereis o Homem, o vosso Juiz, e então vos arrependereis do dia em que dissestes que o Evangelho de Deus era loucura.

II. O Evangelho Triunfante

“Mas para os chamados, assim judeus como gregos, Cristo é poder de Deus, e sabedoria de Deus.”

Aquele homem rejeita o Evangelho, despreza a graça e ri-se dela como uma ilusão. Eis outro homem que também ria dela, mas Deus fá-lo-á cair de joelhos. Cristo não morrerá em vão. O Espírito Santo não contenderá em vão. Deus disse: "A minha palavra não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará na daquilo para que a enviei". "Ele verá o fruto do labor da sua alma, e ficará satisfeito".

Se um pecador não for salvo, outro o será. O judeu e o grego nunca despovoarão o céu. Os coros da glória não perderão um único cantor por toda a oposição de judeus e gregos, pois Deus o disse: alguns serão chamados, alguns serão salvos, alguns serão resgatados.

Se os justos e bons não forem salvos, se rejeitarem o Evangelho, há outros que hão de ser chamados, outros que serão resgatados, pois Cristo não perderá os méritos de Suas agonias ou o resgate de Seu sangue.

“Aos que são chamados.” Recebi uma nota esta semana pedindo-me para explicar essa palavra "chamados", porque numa passagem diz: "Muitos são chamados, mas poucos escolhidos", enquanto noutra parece que todos os que são chamados devem ser escolhidos. Agora, permiti-me observar que há dois chamados. Como dizia o meu velho amigo John Bunyan: "A galinha tem dois chamados: o cocorico comum, que ela dá diária e horariamente, e o chamado especial, que ela destina aos seus pintainhos".

Portanto, há um chamado geral, um chamado feito a todo o homem — todo o homem ouve-o. Muitos são chamados por ele; todos vós sois chamados esta manhã nesse sentido, mas muito poucos são escolhidos. O outro é um chamado especial, o chamado dos filhos. Sabeis como o sino soa sobre a oficina para chamar os homens para o trabalho — esse é um chamado geral.

Um pai vai à porta e grita: "João, é hora do jantar!" — esse é o chamado especial. Muitos são chamados com o chamado geral, mas não são escolhidos. O chamado especial é apenas para os filhos, e é isso o que o texto quer dizer: "Aos que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus". Esse chamado é sempre especial.

Enquanto estou aqui a chamar os homens, ninguém vem. Enquanto prego aos pecadores universalmente, nenhum bem é feito. É como o relâmpago difuso que às vezes vedes numa noite de verão: belo, grandioso, mas quem alguma vez ouviu falar de alguém ter sido atingido por ele? Mas o chamado especial é o relâmpago bifurcado do céu. Atinge algures — é a flecha enviada por entre as juntas da armadura.

O chamado que salva é como o de Jesus, quando Ele disse: "Maria", e ela lhe disse: "Raboni" (que quer dizer, Mestre). Sabeis alguma coisa sobre esse chamado especial, meus amados? Jesus alguma vez vos chamou pelo nome? Consegues recordar a hora em que Ele sussurrou o teu nome ao teu ouvido, quando Ele disse: "Vem a mim"?

Se assim é, concordareis com a verdade do que vou dizer a seguir sobre isso: é um chamado eficaz. Não há como resistir-lhe. Quando Deus chama com o seu chamado especial, não há como resistir. Ah! Eu bem sei que ria da religião. Desprezava-a, aborrecia-a, mas aquele chamado! Oh, eu não queria ir. Mas Deus disse: "Tu hás de vir. Todo o que o Pai me dá virá a mim". "Senhor, eu não quero". "Mas hás de querer", disse Deus.

E eu subi à casa de Deus por vezes quase com a resolução de que não escutaria, mas escutar tinha de o fazer. Oh, como a Palavra entrou na minha alma! Houve poder de resistência? Não, fui derrubado, cada osso parecia estar quebrado. Fui salvo pela graça eficaz.

Apelo à vossa experiência, meus amigos. Quando Deus vos tomou nas mãos, pudestes resistir-Lhe? Resististes ao vosso ministro vezes suficientes. A doença não vos quebrantou, a enfermidade não vos trouxe aos pés de Deus, a eloquência não vos convenceu; mas quando Deus pôs a Sua mão na obra, ah, então que mudança! Como Saulo, com os seus cavalos a caminho de Damasco, aquela voz dos céus disse: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues". "Saulo, Saulo, por que me persegues?" Já não havia como ir mais longe. Esse foi um chamado eficaz.

Como aquele, também, que Jesus deu a Zaqueu, quando ele estava em cima da árvore. Aproximando-se da árvore, disse: "Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa". Zaqueu foi apanhado na rede. Ouviu o seu próprio nome; o chamado penetrou na sua alma, ele não pôde continuar em cima da árvore, pois um impulso Todo-Poderoso o atraiu para baixo.

E eu poderia contar-vos alguns casos singulares de pessoas que foram à casa de Deus e tiveram os seus caracteres descritos, retratados à perfeição, de modo que disseram: "Ele está a pintar-me, ele está a pintar-me". Assim como eu poderia dizer àquele jovem aqui presente que roubou as luvas do seu patrão ontem, que Jesus o chama ao arrependimento.

Pode ser que haja tal pessoa aqui, e quando o chamado vem a um caráter peculiar, ele geralmente vem com um poder especial. Deus dá aos seus ministros um pincel e mostra-lhes como usá-lo para pintar retratos realistas, e assim o pecador ouve o chamado especial. Eu não posso dar o chamado especial; só Deus o pode dar, e eu deixo-o com Ele. Alguns devem ser chamados. Judeu e grego podem rir, mas ainda assim há alguns que são chamados, tanto judeus como gregos.

Então, para fechar este segundo ponto, é uma grande misericórdia que muitos judeus tenham sido levados a abandonar a sua própria justiça, que muitos legalistas tenham sido levados a abandonar o seu legalismo e vir a Cristo, que muitos gregos tenham inclinado o seu gênio diante do trono do Evangelho de Deus. Temos alguns poucos assim. Como dizia Cowper:

"Gloriamo-nos de alguns ricos que o Evangelho atrai, E de um que veste uma coroa e que ora; Mostram-se como os rabiscos de uma oliveira, Aqui e acolá um sobre o ramo mais alto."

III. O Evangelho Admirado

“Aos que são chamados por Deus, é poder de Deus, e sabedoria de Deus.”

Agora, amados, isto deve ser uma questão de pura experiência entre as vossas almas e Deus. Se sois chamados por Deus esta manhã, sabe-lo-eis. Eu sei que há momentos em que um cristão tem de dizer:

"'É um ponto que anseio saber, Causa muitas vezes pensamento ansioso: Amo eu o Senhor ou não? Sou eu d'Ele, ou não sou?"

Mas se um homem nunca na sua vida soube que era cristão, ele nunca foi cristão. Se ele nunca teve um momento de confiança em que pudesse dizer: "Agora sei em quem tenho crido", creio que não profiro algo duro ao dizer que esse homem não pôde ter nascido de novo. Pois não compreendo como um homem possa nascer de novo e não o saber. Não compreendo como um homem possa estar morto e depois tornar-se vivo, e não o saber. Como um homem pode passar da morte para a vida e não o saber. Como um homem pode ser tirado das trevas para a sua maravilhosa luz sem o saber.

Tenho a certeza de que o sei, quando entôo o meu velho verso:

"Agora livres do pecado, caminho à solta, O sangue do meu Salvador é a minha plena absolvição; Aos Seus queridos pés deito-me contente, Um pecador salvo, e presto homenagem."

Há momentos em que os olhos brilham de alegria e podemos dizer: "Estamos persuadidos, confiantes, certos". Não desejo angustiar ninguém que esteja sob dúvida. Muitas vezes as dúvidas sombrias prevalecerão. Há estações em que temeis não ter sido chamados, em que duvidais do vosso interesse em Cristo. Ah, que misericórdia é que não é o vosso agarrar-vos a Cristo que vos salva, mas o agarrar-se d'Ele a vós!

Que doce fato o de que não é a forma como agarrardes a Sua mão, mas o aperto d'Ele na vossa, que vos salva. No entanto, penso que deveis saber mais cedo ou mais tarde se sois chamados por Deus. Se assim for, seguir-me-eis na parte seguinte do meu discurso, que é uma questão de pura experiência: para nós que somos salvos, é "Cristo, o poder de Deus, e a sabedoria de Deus".

O Evangelho é para o verdadeiro crente uma coisa de poder. É Cristo, o poder de Deus. Sim, há um poder no Evangelho de Deus além de toda a descrição. Outrora eu, como Mazeppa, amarrado ao cavalo selvagem da minha luxúria, atado de pés e mãos, incapaz de resistência, galopava com os lobos do inferno atrás de mim, uivando pelo meu corpo e pela minha alma como sua presa justa e legítima.

Veio uma mão poderosa que deteve aquele cavalo selvagem, cortou as minhas ataduras, pôs-me de pé e trouxe-me à liberdade. Há poder, senhor? Sim, há poder, e quem o sentiu deve reconhecê-lo.

Houve um tempo em que eu vivia no forte e antigo castelo dos meus pecados e descansava nas minhas obras. Veio um trompetista à porta e ordenou-me que a abrisse. Com raiva, afastei-o do pórtico e disse que ele jamais entraria.

Veio então uma pessoa formosa, com semblante amoroso. Suas mãos estavam marcadas com cicatrizes onde os pregos foram cravados, e Seus pés também tinham marcas de pregos. Ele levantou a Sua cruz, usando-a como um martelo. Ao primeiro golpe, o portão do meu preconceito abalou-se. Ao segundo, tremeu ainda mais. Ao terceiro, ruiu por terra, e Ele entrou, dizendo: "Ergue-te e põe-te em pé, pois eu te amei com um amor eterno".

Uma coisa de poder! Ah, é uma coisa de poder! Senti-o aqui, neste coração; tenho o testemunho do Espírito interiormente e sei que é uma coisa de força, porque me conquistou, porque me dobrou.

"A Sua graça gratuita sozinha, do princípio ao fim, Conquistou o meu afeto e prendeu firmemente a minha alma."

O Evangelho para o cristão é uma coisa de poder. O que é que faz com que o jovem se consagre como missionário à causa de Deus, deixe pai e mãe e vá para terras distantes? É uma coisa de poder que o faz — é o Evangelho. O que é que constrange aquele ministro, no meio do cólera, a subir aquela escada rangente e a ficar junto ao leito de algum moribundo que tem essa terrível doença? Deve ser uma coisa de poder que o leva a arriscar a sua vida — é o amor da cruz de Cristo que o impele a fazê-lo.

O que é que capacita um homem a levantar-se perante uma multidão dos seus semelhantes, talvez totalmente impreparado, mas determinado a não pregar senão a Cristo e a este crucificado? O que é que o capacita a clamar, como o cavalo de batalha de Jó: "Aha!", e mover-se glorioso em força? É uma coisa de poder que o faz — é Cristo crucificado.

E o que encoraja aquela fêmea tímida a descer por aquela viela escura numa noite chuvosa para ir sentar-se junto à vítima de uma febre contagiosa? O que a fortalece para atravessar aquele antro de ladrões e passar pelos pródigos e profanos? O que a influencia a entrar naquele necrotério de morte e ali sentar-se a sussurrar palavras de consolo?

O ouro a faz fazer isso? Eles são demasiado pobres para lhe dar ouro. A fama a faz fazer isso? Ela nunca será conhecida, nem escrita entre as mulheres poderosas desta terra. O que a faz fazê-lo? É o amor ao mérito? Não, ela sabe que não tem nenhum merecimento perante o alto céu. O que a impulsiona a isso? É o poder do Evangelho no seu coração — é a cruz de Cristo; ela ama-a e, por isso, diz:

"Se todo o reino da natureza fosse meu, Seria um presente demasiado pequeno; Amor tão admirável, tão divino, Exige a minha alma, a minha vida, o meu tudo."

Mas contemplo outra cena. Um mártir é levado à fogueira. Os alabardeiros estão ao seu redor, as multidões zombam, mas ele marcha firmemente. Vede, amarrando-o com uma corrente à volta da cintura ao poste. Empilham feixes de lenha ao seu redor. A chama é acesa. Ouvi as suas palavras: "Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome".

As chamas acendem-se à volta das suas pernas, o fogo queima-o até aos ossos; vede-o levantar as mãos e dizer: "Eu sei que o meu Redentor vive, e ainda que este corpo seja consumido pelo fogo, na minha carne verei a Deus". Vede-o agarrar-se ao poste e beijá-lo como se o amasse, e ouvi-o dizer: "Por cada corrente de ferro com que o homem me cinge, Deus dar-me-á uma corrente de ouro; por todos estes gravetos, esta ignomínia e vergonha, Ele aumentará o peso da minha glória eterna".

Vede, todas as partes inferiores do seu corpo foram consumidas. Ele ainda vive na tortura. Por fim, inclina-se, e a parte superior do seu corpo tomba e, ao cair, ouvis-o dizer: "Nas tuas mãos cometo o meu espírito". Que mágica maravilhosa operava nele, senhores? O que tornou aquele homem forte? O que o ajudou a suportar essa crueldade? O que o fez permanecer inabalável nas chamas? Era a coisa de poder — era a cruz de Jesus crucificado. Pois "para nós que somos salvos, é o poder de Deus".

Mas vede outra cena, bem diferente. Não há multidão ali; é um quarto silencioso. Há um pobre catre, um leito solitário, um médico ao lado. Há uma jovem; o seu rosto está desbotado pelo consumo, há muito que o verme lhe corrói a face e, embora por vezes o rubor viesse, era o rubor mortal do destruidor traiçoeiro.

Ali jaz ela, fraca, pálida, abatida, desgastada, moribunda, mas vede um sorriso no seu rosto, como se tivesse visto um anjo. Ela fala e há música na sua voz. Joana d'Arc de outrora não era metade tão poderosa quanto aquela rapariga. Ela luta com dragões no seu leito de morte, mas vede a sua compostura e ouvi o seu soneto de partida:

*"Jesus, amador da minha alma, Deixa-me voar para o Teu seio, Enquanto as vagas se erguem perto de mim, Enquanto a tempestade ainda é alta!

Esconde-me, ó meu Salvador, esconde-me, Até que a tormenta da vida passe! Guia-me a salvo para o porto; Ó, recebe por fim a minha alma!"*

E com um sorriso ela fecha os olhos na terra e abre-os no céu. O que a capacita a morrer assim? É o poder de Deus para a salvação — é a cruz — é Jesus crucificado.

Conclusão: A Sabedoria de Deus

Tenho pouco tempo para disear sobre o outro ponto, e longe de mim seja fatigar-vos com um sermão longo e prolixo, mas devemos lançar um olhar sobre a outra afirmação. Cristo é, para os chamados, a sabedoria de Deus, bem como o poder de Deus. Para o crente, o Evangelho é a perfeição da sabedoria e, se não o parece aos ímpios, é devido à perversão do julgamento consequente da sua depravação.

Há muito que circula na mente pública a ideia de que um homem religioso dificilmente pode ser um homem sábio. Tem sido hábito falar de infiéis, ateus e deístas como homens de pensamento profundo e intelecto abrangente, e tremer pelo apologista cristão, como se ele inevitavelmente caísse pela mão do seu inimigo.

Mas isto é puramente um engano, pois o Evangelho é a soma da sabedoria, o epítome do conhecimento, o tesouro da verdade e a revelação de segredos misteriosos. Nele vemos como a justiça e a misericórdia podem estar casadas; aqui contemplamos a lei inexorável inteiramente satisfeita e o amor soberano arrebatando o pecador em triunfo. A nossa meditação sobre ele amplia a mente e, à medida que se abre à nossa alma em sucessivos lampejos de glória, ficamos estupefactos com a profunda sabedoria nele manifestada.

Ah, queridos amigos! Se buscais a sabedoria, vê-la-eis exibida em toda a sua grandeza, não no balancear das nuvens, nem na firmeza dos fundamentos da terra; não na marcha medida dos exércitos do céu, nem no movimento perpétuo das ondas do mar; não na vegetação com todas as suas formas féricas de beleza, nem no animal com o seu maravilhoso tecido de nervos, veias e tendões; nem mesmo no homem, essa última e sublime obra do Criador.

Mas desviá-vos para ver esta grande visão: um Deus encarnado na cruz, um substituto expiando a culpa mortal, um sacrifício satisfazendo a vingança do céu e libertando o pecador rebelde. Eis a sabedoria essencial, entronizada, coroada, glorificada. Adorai, homens da terra, se não estais cegos. E vós, que vos gloriais no vosso saber, inclinai as vossas cabeças em reverência e confessai que toda a vossa habilidade não poderia ter concebido um Evangelho tão justo para Deus e tão seguro para o homem.

Lembrai-vos, meus amigos, de que, embora o Evangelho seja em si mesmo sabedoria, ele também confere sabedoria aos seus estudantes. Ela ensina aos jovens sabedoria e discrição, e dá entendimento aos simples. Um homem que é um crente admirador e um amante cordial da verdade que está em Jesus encontra-se no lugar certo para seguir com vantagem qualquer outro ramo da ciência.

Confesso que tenho uma prateleira na minha cabeça para tudo hoje em dia. Seja o que for que eu leia, sei onde o pôr; o que quer que eu aprenda, sei onde o arrumar. Outrora, quando lia livros, punha todo o conhecimento junto numa gloriosa confusão; mas desde que conheço a Cristo, pus a Cristo no centro como o meu sol, e cada ciência orbita ao redor dele como um planeta, enquanto as ciências menores são satélites desses planetas.

Cristo é para mim a sabedoria de Deus. Posso aprender tudo agora. A ciência de Cristo crucificado é a mais excelente das ciências; ela é para mim a sabedoria de Deus. Ó jovem, constrói o teu estúdio no Calvário! Ergue ali o teu observatório e examina pela fé as coisas sublimes da natureza. Toma a cela de um eremita no jardim de Getsêmani e lava a tua fronte com as águas de Siloé. Deixa que a Bíblia seja o teu clássico padrão — o teu último recurso em questões de contenda. Que a tua luz seja a tua iluminação, e tornar-te-ás mais sábio do que Platão, mais verdadeiramente douto do que os sete sábios da antiguidade.

E agora, meus queridos amigos, solene e sinceramente, como na presença de Deus, apelo a vós. Estais aqui reunidos esta manhã, bem o sei, por diferentes motivos: alguns de vós viestes por curiosidade, outros sois meus ouvintes regulares, alguns vieram de um lugar e outros de outro. O que me ouvistes dizer esta manhã?

Falei-vos de duas classes de pessoas que rejeitam a Cristo: o religioso que tem uma religião de formas e nada mais, e o homem do mundo, que chama o nosso Evangelho de loucura. Agora, ponde a mão sobre o vosso coração e perguntai a vós mesmos esta manhã: "Sou eu um deles?" Se o sois, caminhai pela terra com todo o vosso orgulho, ide embora como viestes, mas sabei que por causa de tudo isto Deus vos trará a juízo. Sabei que vossas alegrias e deleites desaparecerão como um sonho, "e como a estrutura sem base de uma visão" serão varridos para sempre.

Sabei isto também, ó homem, que um dia nos salões de Satanás, lá no fundo do inferno, eu talvez vos veja entre aqueles espíriro miríades que giram para sempre num círculo perpétuo com as mãos sobre o coração. Se a vossa mão for transparente e a vossa carne transparente, eu olharei através da vossa mão e carne, e verei o vosso coração lá dentro.

E como o verei? Colocado numa caixa de fogo — numa caixa de fogo! E ali girareis para sempre, com o verme a roer dentro do vosso coração, que jamais morrerá — uma caixa de fogo ao redor do vosso coração que nunca morre e é sempre torturado. Bom Deus! Não permitas que estes homens continuem a rejeitar e desprezar a Cristo, mas que este seja o momento em que sejam chamados.

Para o resto de vós que sois chamados, nada preciso dizer. Quanto mais viverdes, mais poderoso achareis o Evangelho. Quanto mais ensinados por Cristo fordes, quanto mais viverdes sob a constante influência do Espírito Santo, mais sabereis que o Evangelho é uma coisa de poder, e mais também compreendereis que é uma coisa de sabedoria. Que toda a bênção repouse sobre vós, e que Deus venha connosco à noite!

*"Digam homens ou anjos as minas, Onde o tesouro de ouro da natureza brilha; Posta perto a doutrina da cruz, Todo o ouro da natureza parece apenas escória.

Se vis blasfemos com desdém Pronunciarem vãs as verdades de Jesus, Nós enfrentaremos o escândalo e a vergonha, E cantaremos e triunfarem em Seu nome."*

Extraído da Coleção de Sermões do Metropolitan Tabernacle (C. H. Spurgeon). Apenas as alterações necessárias foram feitas, tais como a correção de erros ortográficos, uso de pontuação, capitalização dos pronomes da divindade e atualização mínima de algumas palavras arcaicas. O conteúdo é integral.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

DOCE CONSOLO PARA OS SANTOS FRACOS

 


Nº 6

UM SERMÃO

PREGADO NA MANHÃ DE DOMINGO, 4 DE FEVEREIRO DE 1855

PELO REV. C. H. SPURGEON

NO TABERNÁCULO DE NEW PARK STREET, SOUTHWARK

“Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega, até que faça triunfar o juízo.”

Mateus 12:20

A fama tagarela sempre gosta de falar de um homem ou de outro. Há alguns cuja glória ela alardeia e cuja honra ela exalta acima dos céus. Alguns são seus favoritos, e seus nomes são esculpidos no mármore e ouvidos em todas as terras e em todos os climas. A fama não é um juiz imparcial, ela tem seus favoritos. A alguns homens ela extasia, exalta e quase deifica — a outros, cujas virtudes são muito maiores e cujos caracteres são mais dignos de louvor, ela passa despercebida e põe o dedo do silêncio sobre os lábios.

Você descobrirá, em geral, que essas pessoas amadas pela fama são homens feitos de bronze ou ferro e moldados em uma forma rústica. A fama acaricia César, porque ele governou a terra com vara de ferro. A fama ama Lutero, porque ele desafiou audaz e virilmente o Papa de Roma, e de testa franzida ousou rir dos trovões do Vaticano.

A fama admira Knox, pois ele era severo e provou ser o mais bravo dos bravos. Em geral, você a verá escolhendo homens de fogo e fibra, que se puseram diante de suas criaturas semelhantes sem temê-las — homens que foram feitos de coragem, que eram blocos consolidados de destemor e nunca souberam o que é a timidez.

Mas você sabe que há outra classe de pessoas igualmente virtuosas e igualmente dignas de estima — talvez até mais — das quais a fama se esquece completamente. Você não a ouve falar do suave Melanchthon — ela diz muito pouco sobre ele —, no entanto, ele fez tanto, talvez, na Reforma, quanto o próprio e poderoso Lutero.

Você não ouve a fama falar muito do doce e abençoado Rutherford, e das palavras celestiais que destilavam de seus lábios. Ou do Arcebispo Leighton, de quem se dizia que nunca perdeu a paciência na vida. Ela ama os picos de granito bruto que desafiam a nuvem de tempestade. Ela não se importa com a pedra mais humilde do vale, sobre a qual o viajante cansado descansa. Ela quer algo arrojado e proeminente, algo que busque a popularidade, algo que se destaque diante do mundo. Ela não se importa com aqueles que se retiram para a sombra.

Por isso, meus irmãos, o abençoado Jesus, nosso adorável Mestre, escapou da fama. Ninguém diz muito sobre Jesus, exceto Seus seguidores. Não encontramos Seu nome escrito entre os grandes e poderosos — embora, na verdade, Ele seja o maior, o mais poderoso, o mais santo, o mais puro e o melhor homem que já viveu. Mas porque Ele era "o Doce Jesus, manso e humilde", e era enfaticamente o homem cujo reino não é deste mundo — porque Ele não tinha nada de rude em Si, mas era todo amor — porque Suas palavras eram mais macias que a manteiga, Seus pronunciamentos mais suaves em seu fluxo do que o azeite — porque nunca homem algum falou tão suavemente quanto este homem, por isso Ele é negligenciado e esquecido.

Ele não veio para ser um conquistador com Sua espada, nem um Maomé com sua eloquência inflamada, mas veio para falar com uma "voz mansa e delicada", que derrete o coração de pedra, que cura os quebrantados de espírito e que continuamente diz: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos". "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas." Jesus Cristo era todo mansidão, e é por isso que Ele não foi exaltado entre os homens como de outra forma teria sido.

Amados! Nosso texto está cheio de mansidão. Parece ter sido embebido em amor, e espero ser capaz de mostrar-lhes algo da imensa compaixão e da poderosa ternura de Jesus ao tentar pregar a partir dele. Há três coisas a notar: primeiro, a fragilidade mortal; segundo, a compaixão divina; e terceiro, o triunfo certo — "até que faça triunfar o juízo".

I. Fragilidade Mortal

Em primeiro lugar, temos diante de nós uma visão da FRAGILIDADE MORTAL — a cana quebrada e a torcida que fumega —, duas metáforas muito sugestivas e cheias de significado.

Se não fosse fantasioso demais — e se for, sei que vocês me desculparão —, eu diria que a cana quebrada é o emblema de um pecador no primeiro estágio de sua convicção. A obra do Espírito Santo de Deus começa com o quebrantamento. Para ser salvo, o campo lavrado deve ser arado, o coração duro deve ser quebrado, a rocha deve ser fendida ao meio.

Um antigo teólogo diz que não se vai ao céu sem passar bem perto das portas do inferno — sem uma grande quantidade de aflição de alma e exercício de coração. Entendo, então, que a cana quebrada é uma pintura do pobre pecador quando Deus começa Sua operação na alma. Ele é uma cana quebrada, quase inteiramente esmagada e consumida. Há pouca força nele.

A torcida que fumega, concebo ser o cristão desviado, alguém que foi uma luz ardente e brilhante em seus dias, mas que pela negligência dos meios de graça, pela retirada do Espírito de Deus e pelo cair no pecado, sua luz quase se apagou — não totalmente —, nunca pode se apagar, pois Cristo diz: "Não a apagarei", mas torna-se como uma lâmpada mal provida de azeite — quase inútil.

Não está completamente extinta — fumega —; já foi uma lâmpada útil, mas agora se tornou como a torcida que fumega. Assim, penso que estas metáforas muito provavelmente descrevem o pecador contrito como uma cana quebrada, e o cristão desviado como a torcida que fumega. No entanto, não optarei por fazer tal divisão; antes, colocarei ambas as metáforas juntas, e espero que possamos extrair alguns pensamentos delas.

E, em primeiro lugar, o encorajamento oferecido em nosso texto aplica-se aos fracos. O que no mundo é mais fraco do que a cana quebrada ou a torcida que fumega? Uma cana que cresce no pântano ou no brejo, basta que o pato selvagem pouse sobre ela para que se quebre. Basta que o pé do homem passe por ela para que fique machucada e quebrada. Cada vento que vem uivando pelo rio a faz balançar de um lado para o outro e quase a arranca pelas raízes. Você não consegue conceber nada mais frágil ou quebradiço, ou cuja existência dependa mais das circunstâncias do que uma cana quebrada.

Depois, olhe para a torcida que fumega — o que é? Tem uma faísca dentro de si, é verdade, mas está quase sufocada — o sopro de um bebê poderia apagá-la ou as lágrimas de uma jovem poderiam extingui-la em um momento. Nada tem uma existência mais precária do que a pequenina faísca escondida na torcida que fumega. Coisas fracas, como vocês veem, são descritas aqui. Pois bem, Cristo diz delas: "A torcida que fumega não apagará; a cana quebrada não esmagará". Deixem-me ir em busca dos fracos. Ah! Não terei que ir longe. Há muitos nesta casa de oração esta manhã que são de fato fracos.

Alguns dos filhos de Deus, bendito seja o Seu nome, são fortalecidos para fazer obras poderosas para Ele. Deus tem Seus Sansões aqui e ali que podem arrancar os portões de Gaza e levá-los até o topo da colina. Ele tem aqui e ali Seus poderosos Gideões, que podem ir ao acampamento dos midianitas e derrotar seus exércitos. Ele tem Seus homens valentes, que podem descer ao poço no inverno e matar leões.

Mas a maioria do Seu povo é uma raça tímida e fraca. São como os estorninhos que se assustam com qualquer transeunte, um pequeno rebanho temeroso. Se a tentação vem, eles caem diante dela. Se a provação vem, são sobrecarregados por ela. Sua frágil embarcação é sacudida para cima e para baixo por cada vaga, e quando o vento vem, são levados como uma ave marinha na crista das ondas — coisas fracas, sem força, sem vigor, sem poder.

Ah! Queridos amigos, sei que segurei algumas de suas mãos agora, e seus corações também, pois vocês estão dizendo: "Fraco! Ah, isso eu sou. Com muita frequência sou forçado a dizer: Eu queria, mas não posso cantar. Eu queria, mas não posso orar. Eu queria, mas não posso crer". Vocês estão dizendo que não podem fazer nada — suas melhores resoluções são fracas e vãs, e quando clamam: "Renova as minhas forças", sentem-se mais fracos do que antes.

Vocês são fracos, são? Canas quebradas e torcidas que fumegam? Bendito seja Deus, este texto é para vocês então. Estão felizes por se enquadrarem na denominação de fracos, pois aqui está uma promessa de que Ele nunca os quebrará nem os apagará, mas os sustentará e os manterá de pé.

Sei que há algumas pessoas muito fortes aqui — quero dizer, fortes em suas próprias ideias. Muitas vezes me encontro com pessoas que não confessariam tal fraqueza. São mentes fortes. Dizem: "O senhor acha que nós caímos em pecado, senhor? O senhor nos diz que nossos corações são corruptos? Nós não cremos em tal coisa. Somos bons, puros e retos. Temos força e poder".

A vocês não estou pregando esta manhã, a vocês nada estou dizendo, mas acautelem-se — sua força é vaidade, seu poder é uma ilusão, seu vigor é uma mentira —, pois por mais que vocês se gabem do que podem fazer, isso passará. Quando chegarem ao verdadeiro combate com a morte, descobrirão que não têm força para lutar contra ela.

Quando um destes dias de forte tentação chegar, ele se apoderará de você, homem moral, e você cairá, e a gloriosa libré de sua moralidade ficará tão manchada que, embora você lave as mãos com água de neve e se purifique ao máximo, ficará tão poluído que suas próprias roupas o abominarão. Penso que é uma coisa abençoada ser fraco. O fraco é uma coisa sagrada — o Espírito Santo o fez assim. Você pode dizer: "Não tenho força alguma"? Então este texto é para você.

Em segundo lugar, as coisas mencionadas em nosso texto não são apenas fracas, mas coisas sem valor. Já ouvi falar de um homem que recolhia um alfinete enquanto caminhava pela rua, pelo princípio da economia. Mas nunca ouvi falar de um homem que parasse para recolher canas quebradas. Não vale a pena tê-las. Quem se importaria em ter uma cana quebrada — um pedaço de junco caído no chão? Todos nós a desprezamos como inútil.

E a torcida que fumega, qual é o valor dela? É algo ofensivo e nocivo, mas seu valor é nulo. Ninguém daria um estalar de dedos nem pela cana quebrada nem pela torcida que fumega. Pois bem, amados, em nossa estimativa, há muitos de nós que somos coisas sem valor. Há alguns aqui que, se pudessem se pesar nas balanças do santuário e colocar seus próprios corações na balança da consciência, pareceriam não servir para nada — sem valor, inúteis.

Houve um tempo em que vocês se julgavam as melhores pessoas do mundo — em que, se alguém dissesse que vocês tinham mais do que mereciam, vocês teriam se revoltado e dito: "Acredito que sou tão bom quanto os outros". Vocês se achavam algo maravilhoso — extremamente dignos do amor e da atenção de Deus —, mas agora se sentem sem valor.

Às vezes vocês imaginam que Deus dificilmente pode saber onde vocês estão, de tão desprezíveis que são — tão sem valor —, não valendo a consideração dEle. Vocês conseguem entender como Ele pode olhar para um animalculo em uma gota d'água, ou para um grão de poeira no raio de sol, ou para o inseto da tarde de verão, mas mal conseguem explicar como Ele pode pensar em vocês, pois parecem tão sem valor — um espaço em branco no mundo, uma coisa inútil.

Vocês dizem: "De que sirvo eu? Não estou fazendo nada. Quanto a um ministro do Evangelho, ele tem alguma utilidade. Quanto a um diácono da igreja, ele tem alguma serventia. Quanto a um professor da escola dominical, ele está fazendo algum bem, mas de que serviço sou eu?". Mas você poderia fazer a mesma pergunta aqui. Qual é a utilidade de uma cana quebrada? Pode um homem apoiar-se nela? Pode um homem fortalecer-se com ela? Será ela uma coluna na minha casa? Você pode ligá-la aos tubos da flauta de Pã e fazer sair música de uma cana quebrada? Ah! Não, não tem utilidade alguma.

E para que serve a torcida que fumega? O viajante da meia-noite não pode ser iluminado por ela. O estudante não pode ler pela sua chama. Não tem utilidade, os homens a lançam no fogo e a consomem. Ah! É assim que vocês falam de si mesmos. Vocês não servem para nada, e estas coisas também não. Mas Cristo não jogará vocês fora porque não têm valor. Vocês não sabem de que utilidade podem ser e não podem imaginar como Jesus Cristo os valoriza, apesar de tudo.

Há uma boa mulher ali, uma mãe, talvez. Ela diz: "Bem, eu não saio muito — cuido da casa e dos meus filhos, e parece que não estou fazendo nada de bom". Mãe, não diga isso; sua posição é elevada, nobre e de grande responsabilidade, e ao criar filhos para o Senhor, você está fazendo tanto pelo Seu nome quanto aquele eloquente Apolo, que tão valentemente pregou a Palavra.

E você, homem pobre, tudo o que pode fazer é mourejar da manhã à noite e ganhar apenas o suficiente para permitir que viva dia a dia; você não tem nada para doar e, quando vai à escola dominical, mal consegue ler, não pode ensinar muito — bem, mas àquele a quem pouco é dado, pouco é exigido. Você não sabe que existe algo como glorificar a Deus varrendo o cruzamento da rua?

Se dois anjos fossem enviados à terra, um para governar um império e o outro para varrer uma rua, eles não teriam escolha na matéria, desde que Deus lhes ordenasse. Assim Deus, em Sua providência, chamou você para trabalhar duro pelo pão diário; faça-o para a glória dEle. "Quer comais, quer bebeis, fazei tudo para a honra dEle."

Mas, ah! Sei que há alguns de vocês aqui que parecem inúteis para a igreja. Vocês fazem tudo o que podem, mas quando terminam, não é nada — não podem nos ajudar com dinheiro, nem com talentos, nem com tempo e, portanto, pensam que Deus deve lançá-los fora. Pensam que se fossem como Paulo ou Pedro poderiam estar salvos. Ah! Amados, não falem assim; Jesus Cristo diz que não apagará o mecha inútil, nem quebrará a cana quebrada sem valor. Ele tem algo para os inúteis e para os sem valor.

Mas reparem, não digo isto para desculpar a preguiça — para desculpar aqueles que podem fazer, mas não fazem —, isso é uma coisa muito diferente. Há um chicote para o jumento, um açoite para os homens ociosos, e eles devem tê-lo às vezes. Estou falando agora daqueles que não podem fazer — não de Issacar, que é como um jumento forte, deitado entre dois rebanhos e preguiçoso demais para se levantar com eles. Nada digo para o preguiçoso, que não lavra por causa do frio, mas para os homens e mulheres que realmente sentem que podem ser de pouca utilidade — que não podem fazer mais, e a estes, as palavras do texto são aplicáveis.

Agora faremos outra observação. As duas coisas aqui mencionadas são coisas ofensivas. Uma cana quebrada é ofensiva, pois creio que há aqui uma alusão às flautas de Pã, que todos vocês sabem ser canas colocadas juntas, ao longo das quais o homem move a boca, causando assim algum tipo de música. Este é o órgão, creio eu, que Jubal inventou e que Davi menciona, pois é certo que o órgão que usamos não estava em uso então.

A cana quebrada, então, é claro que estragaria a melodia de todos os tubos; um tubo defeituoso deixaria o ar sair de tal forma que produziria um som dissonante, ou som nenhum, de modo que o impulso de alguém seria tirar o tubo e colocar um novo. E quanto à torcida que fumega, o pavio de uma vela ou qualquer coisa desse tipo, não preciso informar-lhes que a fumaça é ofensiva. Para mim, nenhum odor em todo o mundo é tão abominavelmente ofensivo quanto a torcida que fumega.

Mas alguns dizem: "Como você pode falar de forma tão humilde?". Não desci mais do que eu mesmo poderia ir, nem mais do que vocês podem ir comigo, pois tenho certeza de que vocês são, se Deus, o Espírito Santo, realmente os humilhou, tão ofensivos para suas próprias almas e tão ofensivos para Deus quanto uma cana quebrada seria entre os tubos, ou como a torcida que fumega para os olhos e o nariz.

Muitas vezes penso no querido e velho John Bunyan, quando disse que desejava que Deus o tivesse feito um sapo, ou uma rã, ou uma cobra, ou qualquer outra coisa a um homem, pois sentia que era muito ofensivo. Oh! Posso conceber um ninho de víboras, e penso que são odiosas. Posso imaginar um poço de todo tipo de criaturas repugnantes, gerando corrupção, mas não há nada nem metade tão digno de abominação quanto o coração humano.

Deus poupa de todos os olhos, exceto dos Seus, essa visão terrível — o coração humano —, e se você e eu pudéssemos ver nosso coração uma única vez, seríamos levados à loucura, de tão horrível que seria a visão. Você se sente assim? Sente que deve ser ofensivo aos olhos de Deus — que se rebelou tanto contra Ele, que se desviou tanto dos Seus mandamentos, que certamente deve ser odioso para Ele? Se sim, meu texto é seu.

Agora, posso imaginar alguma mulher aqui esta manhã que se desviou dos caminhos da virtude e, enquanto está na multidão ali em cima, ou sentada, sente como se não tivesse o direito de pisar estes pátios sagrados e estar entre o povo de Deus. Ela pensa que Deus poderia quase fazer a capela desabar sobre ela para destruí-la, de tão grande pecadora que é.

Não importa, cana quebrada e torcida que fumega! Embora você seja o escárnio dos homens e repugnante para si mesma, ainda assim Jesus lhe diz: "Nem eu te condeno; vai e não peques mais, para que não te suceda algo pior".

Há algum homem aqui que tem algo em seu coração que eu não sei — que pode ter cometido crimes em segredo que não mencionaremos em público; seus pecados grudam como uma sanguessuga nele e o roubam de todo conforto. Aqui está você, jovem, tremendo e estremecendo, temendo que seu crime seja divulgado diante do alto céu. Você está abatido, esmagado como uma cana, fumegando como a torcida. Ah! Tenho uma palavra para você também. Consolo! Consolo! Consolo! Não desespere, pois Jesus diz que não apagará a torcida que fumega, não quebrará a cana quebrada.

E contudo, meus queridos amigos, há um pensamento antes de me afastar deste ponto. Ambos os artigos, por mais insignificantes que sejam, podem ainda ser de algum serviço. Quando Deus põe Sua mão sobre um homem, se ele era inútil e sem valor antes, Ele pode torná-lo muito valioso. Vocês sabem que o preço de um artigo não depende tanto do valor da matéria-prima, mas do trabalho nele empregado.

Aqui há uma matéria-prima muito ruim para começar — canas quebradas e torcidas que fumegam —, mas pelo trabalho divino ambas as coisas se tornam de valor admirável. Você me diz que a cana quebrada não serve para nada; eu lhe digo que Cristo pegará essa cana quebrada, irá consertá-la e ajustá-la nos tubos do céu. Então, quando a grande orquestra emitir sua música, quando os órgãos dos céus ecoarem seus sons graves, perguntaremos: "Qual foi aquela nota doce ouvida ali, misturando-se com as outras?". E alguém dirá: "Foi uma cana quebrada".

Ah! A voz de Maria Madalena no céu, imagino eu, soa mais doce e lípida do que qualquer outra, e a voz daquele pobre ladrão, que disse: "Senhor, lembra-te de mim", se é uma voz de baixo profundo, é mais suave e mais doce do que a voz de qualquer outro, porque ele muito amou, pois muito lhe foi perdoado. Esta cana ainda pode ser de uso. Não diga que você não serve para nada, você ainda cantará no céu. Não diga que não tem valor, por fim você estará diante do trono entre a multidão lavada pelo sangue e cantará o louvor de Deus.

Sim! E a torcida que fumega também, que bem pode fazer isso? Logo lhe direi. Há uma faísca nessa torcida em algum lugar; está quase apagada, mas ainda resta uma faísca. Veja a pradaria em fogo! Veja as chamas vindo em rolos! Veja riacho após riacho de fogo quente inundando a planície até que todo o continente esteja queimado e crestado — até que o céu fique avermelhado com a chama? A face negra da velha noite está cicatrizada pela queimadura, e as estrelas parecem aterrorizadas com o incêndio. Como essa massa foi inflamada? Por um pedaço de torcida que fumegava deixado cair por algum viajante, abanado pelo vento suave, até que toda a pradaria pegou fogo.

Assim, um homem pobre, um homem ignorante, um homem fraco, até mesmo um homem desviado, pode ser o meio de conversão de uma nação inteira. Quem sabe se você, que não é nada agora, não possa ser de mais uso do que aqueles de nós que parecem estar melhor diante de Deus, porque temos mais dons e talentos? Deus pode fazer uma faísca incendiar o mundo — Ele pode iluminar uma nação inteira com a faísca de uma pobre alma que ora.

Você pode ser útil ainda, portanto, mude de ânimo. O musgo cresce sobre as lápides, a hera apega-se à ruína que se desfaz, o visco cresce no galho morto e, da mesma forma, a graça, a piedade, a virtude, a santidade e a bondade virão da torcida que fumega e das canas quebradas.

II. Compaixão Divina

Assim, pois, meus queridos amigos, tentei encontrar as partes a quem este texto se destina e mostrei-lhes algo da fragilidade mortal. Agora subo um degrau mais alto — para a COMPAIXÃO DIVINA. "A cana quebrada não esmagará, a torcida que fumega não apagará."

Observem o que é dito em primeiro lugar, e depois deixem-me dizer-lhes que Jesus Cristo quer dizer muito mais do que diz. Em primeiro lugar, o que Ele diz? Ele diz claramente que não quebrará a cana quebrada. Há uma cana quebrada diante de mim — um pobre filho de Deus sob um profundo sentimento de pecado. Parece que o chicote da lei nunca vai parar. Continua, chibatada, chibatada, chibatada, e embora você diga: "Senhor, para com isso e dá-me um pouco de descanso", ainda desce a correia cruel, chibatada, chibatada, chibatada.

Você sente seus pecados. Ah! Sei o que você está dizendo esta manhã: "Se Deus continuar com isso mais um pouco, meu coração vai quebrar. Perirei em desespero, estou quase louco por causa do meu pecado. Se me deito à noite não consigo dormir, parece que há fantasmas no quarto — fantasmas dos meus pecados — e quando me acordo à meia-noite, vejo a forma negra da morte olhando para mim e dizendo: 'Você é minha presa, eu o terei', enquanto o inferno atrás parece arder".

Ah! Pobre cana quebrada, Ele não vai quebrar você. A convicção será forte demais, será grande o suficiente para derreter você e fazer você ir aos pés de Jesus, mas por ela não será forte o suficiente para quebrar seu coração completamente, de modo que você venha a morrer. Você nunca será levado ao desespero, mas será liberto, sairá do fogo, pobre cana quebrada, e não será quebrada.

Assim há um desviado aqui esta manhã; ele é como a torcida que fumega. Anos atrás você encontrou tanta felicidade nos caminhos do Senhor, e tanto deleite no Seu serviço, que disse: "Ali eu ficaria para sempre.

'Que horas de paz eu desfrutava então;

Quão doce é sua memória ainda!

Mas elas deixaram um vazio doloroso,

Que o mundo nunca poderá preencher.'"

Você está fumegando e pensa que Deus vai apagá-lo. Se eu fosse um arminiano, diria a você que Ele o faria, mas sendo um crente na Bíblia, e nada mais, digo-lhe que Ele não o apagará. Embora você esteja fumegando, não morrerá. Seja qual for o seu crime, o Senhor diz: "Voltai, ó filhos rebeldes, pois terei misericórdia de vós". Ele não o lançará fora, pobre Efraim, apenas volte para Ele — Ele não o desprezará, embora você tenha se mergulhado na lama e na sujeira, embora esteja coberto da cabeça aos pés com imundícia. Volte, pobre pródigo, volte, volte! Seu Pai o chama. Escute, pobre desviado! Venha imediatamente para Aquele cujos braços estão prontos para recebê-lo.

Diz que Ele não apagará — Ele não quebrará. Mas há mais sob disfarce do que vemos à primeira vista. Quando Jesus diz que não quebrará, Ele quer dizer mais do que isso. Ele quer dizer: "Pegarei aquela pobre cana quebrada, a plantarei junto às correntes de águas e (milagre dos milagres) a farei crescer em uma árvore cuja folha não murchará. Eu a regarei a cada momento. Eu a vigiarei. Haverá frutos celestiais nela. Manterei as aves de rapina longe dela, mas as aves do céu, os doces cantores do paraíso farão suas moradas em seus ramos".

Quando Ele diz que não quebrará a cana quebrada, quer dizer mais. Ele quer dizer que vai nutrir, que vai ajudar, fortalecer, apoiar e glorificar — que executará Sua comissão nela e a fará gloriosa para sempre. E quando Ele diz ao desviado que não o apagará, quer dizer mais do que isso — quer dizer que vai abaná-lo até virar chama.

Alguns de vocês, ouso dizer, foram para casa depois do culto e descobriram que o fogo quase se apagou. Sei como vocês lidam com isso — sopram suavemente a única faísca, se houver uma, e para não soprar com muita força, colocam os dedos diante dela, e se estivessem sozinhos e tivessem apenas um fósforo, ou uma faísca na mecha, quão suavemente a soprariam.

Assim, desviado, Jesus Cristo lida com você. Ele não o apaga, Ele sopra suavemente, Ele diz: "Não o apagarei". Ele quer dizer: "Serei muito terno, muito cauteloso, muito cuidadoso". Ele colocará material seco, de modo que, aos poucos, uma pequena faísca virará uma chama e brilhará em direção ao céu, e grande será o fogo dela.

Agora quero dizer uma ou duas coisas aos de Pouca-Fé esta manhã. Os filhinhos de Deus que são aqui mencionados como sendo canas quebradas ou torcidas que fumegam estão tão seguros quanto os grandes santos de Deus. Desejo por um momento expandir este pensamento e depois terminarei com o outro ponto.

Estes santos de Deus que são chamados de canas quebradas e torcidas que fumegam estão tão seguros quanto aqueles que são poderosos para o seu Mestre e grandes em força, por várias razões. Em primeiro lugar, o pequeno santo é tão eleito de Deus quanto o grande santo. Quando Deus escolheu Seu povo, Ele os escolheu todos de uma vez e juntos, e elegeu um tanto quanto o outro. Se eu escolher um certo número de coisas, uma pode ser menor do que o resto, mas uma é tão escolhida quanto a outra. E assim a Sra. Temerosa e a Sra. Desânimo são tão eleitas quanto o Grande-Coração ou o Velho Pai Honesto.

Novamente, os pequeninos são remidos igualmente com os grandes! Os santos fracos custaram a Cristo tanto sofrimento quanto os fortes; o menor filho de Deus não poderia ter sido comprado por menos do que o precioso sangue de Jesus, e o maior filho de Deus não Lhe custou mais. Paulo não custou mais do que Benjamim — tenho certeza de que não —, pois leio na Bíblia que "não há diferença".

Além disso, quando antigamente vinham pagar o dinheiro da redenção, cada pessoa trazia um siclo. O pobre não trazia menos e o rico não trazia mais do que exatamente um siclo. O mesmo preço foi pago por um e por outro. Agora, então, pequeno filho de Deus, leve esse pensamento para sua alma. Você vê alguns homens muito proeminentes na causa de Cristo — e é muito bom que sejam —, mas eles não custaram a Jesus um tostão a mais do que você. Ele pagou o mesmo preço por você que pagou por eles.

Lembre-se novamente: você é tão filho de Deus quanto o maior santo. Alguns de vocês têm cinco ou seis filhos. Há um filho seu, talvez, que é muito alto e bonito e tem, além disso, dons de mente. E você tem outro filho que é o menor da família, talvez com pouco intelecto e entendimento.

Mas qual é mais seu filho? "Mais!", diz você, "Ambos são meus filhos igualmente, certamente, um tanto quanto o outro". E assim, queridos amigos, vocês podem ter muito pouco aprendizado, podem ser muito obscuros sobre as coisas divinas, podem apenas "ver homens como árvores que andam", mas são tão filhos de Deus quanto aqueles que cresceram à estatura de homens em Cristo Jesus.

Então lembre-se, pobre santo provado, que você é tão justificado quanto qualquer outro filho de Deus. Sei que estou completamente justificado.

"Seu sangue e justiça

São minha beleza, meu traje glorioso."

Não quero outros vestidos, a não ser os feitos de Jesus e Sua justiça imputada.

O filho mais arrojado de Deus não quer mais, e eu, que sou "o menor de todos os santos", posso me contentar com nada menos, e não terei nada menos. Ó Pronto-para-Mancar, você é tão justificado quanto Paulo, Pedro, João Batista ou o mais elevado santo no céu. Não há diferença nessa matéria. Oh! Crie coragem e regozije-se.

Então mais uma coisa. Se você se perdesse, a honra de Deus ficaria tão manchada quanto se o maior se perdesse. Uma coisa estranha li uma vez em um livro antigo sobre os filhos e o povo de Deus serem parte de Cristo e estarem em união com Ele. O escritor diz: "Um pai está sentado em sua sala, e entra um estranho. O estranho pega um filho no colo e o filho tem um dedo doente, então ele diz: 'Meu filho, você tem um dedo doente.' 'Sim!' 'Bem, deixe-me tirá-lo e dar-lhe um de ouro!' O filho olha para ele e diz: 'Não vou mais até aquele homem, pois ele fala em tirar meu dedo. Eu amo meu próprio dedo e não terei um de ouro em vez dele'".

Assim o santo diz: "Sou um dos membros de Cristo, mas sou como um dedo doente, e Ele vai me tirar e colocar um de ouro". "Não", disse Cristo, "Não, não, não posso ter nenhum dos Meus membros cortado. Se o dedo está doente, eu o atarei. Eu o fortalecerei". Cristo não pode permitir uma palavra sobre cortar Seus membros.

Se Cristo perdesse um do Seu povo, Ele não seria mais um Cristo completo. Se o menor dos Seus filhos pudesse ser lançado fora, faltaria a Cristo uma parte de Sua plenitude. Sim, Cristo estaria incompleto sem a Sua igreja. Se um dos Seus filhos tivesse que se perder, seria melhor que fosse um grande do que um pequeno.

Se um pequenino se perdesse, Satanás diria: "Ah! Tu salvas os grandes, porque eles tinham força e podiam se ajudar, mas o pequenino que não tem força, Tu não pudeste salvá-lo". Vocês sabem o que Satanás diria, mas Deus fecharia a boca de Satanás, proclamando: "Estão todos aqui, Satanás, apesar da tua malícia, estão todos aqui. Cada um está a salvo; agora deita-te na tua toca para sempre e sê acorrentado eternamente em cadeias, e fumega no fogo!". Assim sofrerá ele o tormento eterno, mas nenhum filho de Deus jamais sofrerá.

Mais um pensamento e terei terminado este ponto. A salvação dos grandes santos muitas vezes depende da salvação dos pequenos. Vocês entendem isso? Vocês sabem que a minha salvação, ou a salvação de qualquer filho de Deus, olhando para as causas secundárias, depende muito da conversão de outra pessoa. Suponha que sua mãe seja o meio de sua conversão; você, falando à maneira dos homens, diria que sua conversão dependeu da dela — pois o fato de ela ter sido convertida fez dela o instrumento para trazer você.

Suponha que este ou aquele ministro seja o meio do seu chamamento. Então sua conversão, em certo sentido, embora não absolutamente, depende da dele. Assimcontece muitas vezes que a salvação dos servos mais poderosos de Deus depende da conversão dos pequeninos. Há uma pobre mãe, ninguém jamais sabe nada sobre ela. Ela vai à casa de Deus, seu nome não está nos jornais, nem em lugar nenhum. Ela ensina seu filho e o cria no temor de Deus.

Ela ora por aquele menino, ela luta com Deus, e suas lágrimas e orações se misturam. O menino cresce. O que ele é? Um missionário — um William Knibb — um Moffat — um Williams. Mas você não ouve nada sobre a mãe. Ah! Mas se a mãe não tivesse sido salva, onde estaria o menino? Que isto alegre os pequeninos, e que vocês se regozijem de que Ele os nutrirá e os guardará, embora sejam como canas quebradas e torcidas que fumegam.

III. Vitória Certa

Agora, para terminar, há uma VITÓRIA CERTA. "Até que faça triunfar o juízo."

Vitória! Há algo belo nessa palavra. A morte de Sir John Moore, na Guerra Peninsular, foi muito comovente. Ele caiu nos braços do triunfo e, por mais triste que tenha sido o seu destino, não duvido de que seu olho se iluminou de brilho pelo brado de vitória.

Da mesma forma, suponho que Wolfe disse uma verdade quando afirmou: "Morro feliz", tendo pouco antes ouvido o brado: "Eles correm, eles correm". Sei que a vitória, mesmo nesse sentido ruim — pois não considero as vitórias terrenas de valor algum —, deve ter animado o guerreiro.

Mas oh! Quão animado fica o santo quando sabe que a vitória é sua! Lutarei durante toda a minha vida, mas escreverei "Venci" em meu escudo. Serei "mais que vencedor por meio daquele que me amou". Cada santo fraco vencerá o dia, cada homem em suas muletas, cada um que é coxo, cada um cheio de enfermidade, tristeza, doença e fraqueza obterá a vitória.

"Eles virão a Sião com cantos"