Sermão nº 17
Pregado na manhã de domingo, 1º de abril de 1855, pelo Rev. C. H. Spurgeon, no Exeter Hall, Strand, Londres.
Texto bíblico: Gênesis 49:23-24
“Os flecheiros lhe deram amargura, atiraram contra ele e o odiaram; mas o seu arco permaneceu firme, e os braços de suas mãos foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó; (de onde vem o Pastor, a Pedra de Israel).”
Introdução
Deve ter sido uma cena magnífica contemplar o velho Jacó, de cabelos brancos, sentado em seu leito enquanto concedia sua bênção de despedida aos seus doze filhos. Durante sua vida, ele demonstrou nobreza em muitas ocasiões — no lugar de Betel, onde dormiu; junto ao ribeiro de Jaboque; e quando parou em Peniel. Ele foi um homem idoso e glorioso, diante de quem poderíamos nos curvar com reverência e dizer verdadeiramente: “Naqueles dias havia gigantes”.
Entretanto, sua cena final foi a melhor de todas. Creio que, se em algum momento ele se destacou de maneira mais ilustre do que em qualquer outro período de sua vida, e se sua cabeça esteve alguma vez envolvida por um halo de glória, foi quando se aproximou da morte. Como o sol ao se pôr, ele parecia brilhar com maior esplendor, tingindo as nuvens de sua fraqueza com a glória da graça que habitava em seu interior.
Assim como um bom vinho que permanece puro até a última gota, sem ser contaminado por resíduos, Jacó continuou, até a hora de sua morte, cantando sobre o amor, a misericórdia e a bondade de Deus, tanto no passado quanto no futuro. Como o cisne que, segundo afirmam os escritores antigos, só canta ao se aproximar da morte, assim o velho patriarca permaneceu por muitos anos silencioso como um cantor. Mas, quando se estendeu em seu último leito de repouso, ergueu-se, voltou seus olhos ardentes de um filho para outro e, embora com a voz rouca e vacilante, entoou um poema sobre cada um de seus descendentes, algo que os poetas terrenos, sem inspiração divina, não poderiam tentar imitar.
Ao olhar para seu filho Rúben, uma lágrima surgiu em seus olhos, pois se lembrou do pecado dele. Passou por Simeão e Levi, fazendo-lhes uma leve repreensão. Aos outros, dedicou palavras de louvor, enquanto seus olhos contemplavam a história futura das tribos.
Pouco a pouco, sua voz enfraqueceu. Então, aquele bom e velho homem, respirando profundamente, com os olhos cheios de fogo celestial e o coração repleto do céu, ergueu a voz a Deus e disse: “A tua salvação espero, ó Senhor!” Descansou por um momento sobre o travesseiro e, em seguida, voltou a sentar-se e retomou seu cântico, mencionando brevemente cada um dos filhos.
Mas, ah! Quando chegou a José, seu filho mais novo depois de Benjamim, quando olhou para ele, imagino aquele velho homem com lágrimas escorrendo pelas faces. Ali estava José, com os olhos que lhe recordavam sua mãe Raquel, aquela esposa tão amada. Ali estava o menino por quem aquela mãe havia orado com toda a ansiedade de uma esposa oriental. Durante longos vinte anos, ela esperara sem poder ter filhos; mas, finalmente, tornou-se mãe com alegria e chamou seu filho de “acréscimo”. Ah, como ela amava aquele menino! E, por amor àquela mãe, embora ela já estivesse sepultada havia alguns anos, escondida sob a fria terra, o velho Jacó também o amava.
Mas havia algo mais: Jacó o amava por causa de seus sofrimentos. José fora separado de seu pai para ser vendido ao Egito. Seu pai recordava as provações que ele enfrentara na prisão e no calabouço, bem como sua dignidade real como príncipe do Egito.
Então, num transbordamento de harmonia, como se a música do céu tivesse se unido à sua própria voz — assim como um rio caudaloso encontra o mar, quando a maré que sobe se mistura à corrente que desce e ambas se expandem numa vasta extensão —, a glória celestial encontrou o arrebatamento de seus sentimentos terrenos. Dando vazão à sua alma, ele cantou:
“José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte, cujos galhos se estendem sobre o muro. Os flecheiros lhe deram amargura, atiraram contra ele e o odiaram; mas o seu arco permaneceu firme, e os braços de suas mãos foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó (de onde vem o Pastor, a Pedra de Israel); pelo Deus de teu pai, que te ajudará, e pelo Todo-Poderoso, que te abençoará com bênçãos dos céus de cima, bênçãos das profundezas que jazem embaixo, bênçãos dos seios e da madre. As bênçãos de teu pai prevaleceram sobre as bênçãos de meus progenitores, até aos limites eternos das colinas. Elas estarão sobre a cabeça de José e sobre o alto da cabeça daquele que foi separado de seus irmãos” (Gênesis 49:22-26).
Que estrofe magnífica para encerrar! Jacó tinha apenas mais uma bênção a conceder, mas certamente esta foi a mais rica de todas as que conferiu a José.
José morreu, mas o Senhor ainda tem os seus “Josés”. Há pessoas que, por experiência própria — e essa é a melhor forma de compreender —, conhecem o significado desta passagem: “Os flecheiros lhe deram amargura, atiraram contra ele e o odiaram; mas o seu arco permaneceu firme, e os braços de suas mãos foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó”.
Nesta manhã, consideraremos quatro aspectos. Primeiro, o ataque cruel: “Os flecheiros lhe deram amargura, atiraram contra ele e o odiaram”. Segundo, o guerreiro protegido: “Mas o seu arco permaneceu firme”. Terceiro, sua força secreta: “Os braços de suas mãos foram fortalecidos pelo poderoso Deus de Jacó”. E, quarto, o paralelo glorioso entre José e Cristo: “De onde vem o Pastor, a Pedra de Israel”.
I. O ataque cruel
“Os flecheiros lhe deram amargura.”
Os inimigos de José eram flecheiros. O texto original diz “senhores das flechas”, isto é, homens habilidosos no uso do arco e da flecha.
Embora todas as armas sejam igualmente apreciadas pelo guerreiro sedento de sangue, parece haver algo mais covarde no ataque de um flecheiro do que no de um espadachim.
O espadachim se coloca diante de você, frente a frente, permitindo que você se defenda e desfira seus próprios golpes. O flecheiro, porém, permanece à distância, esconde-se numa emboscada e, sem que você perceba, uma flecha corta o ar e talvez penetre em seu coração.
Assim são os inimigos do povo de Deus.
Raramente eles vêm ao nosso encontro para nos enfrentar cara a cara. Não mostram o rosto diante de nós. Odeiam a luz e amam as trevas. Não ousam nos acusar abertamente, pois, se o fizessem, poderíamos responder. Em vez disso, disparam suas flechas de longe, de modo que não possamos revidar. Covardes e desprezíveis, eles fabricam suas pontas de flecha e as lançam contra o coração do povo de Deus, como se estivessem emplumadas com penas de aves infernais.
Os flecheiros afligiram profundamente o pobre José. Consideremos quem eram esses flecheiros que atiravam cruelmente contra ele. Primeiro, os flecheiros da inveja. Segundo, os flecheiros da tentação. Terceiro, os flecheiros da calúnia e da difamação.
1. Os flecheiros da inveja
Quando José era menino, seu pai o amava. O jovem era belo e admirável em sua aparência. Além disso, possuía uma mente extraordinária e um intelecto elevado. Mas, acima de tudo, o Espírito do Deus vivo habitava nele. José era alguém que conversava com Deus. Era um jovem piedoso, dedicado à oração e amado por Deus ainda mais do que por seu pai terreno.
Ah, como seu pai o amava! Em sua afeição, mandou fazer para ele uma túnica especial, de muitas cores, semelhante às vestes de um príncipe, e o tratava melhor do que aos demais filhos. Era uma maneira natural, porém insensata, de demonstrar sua preferência.
Por isso, seus irmãos o odiavam. Muitas vezes zombavam do jovem José quando ele se retirava para orar. Quando estavam longe da casa de seu pai, faziam dele seu criado, seu escravo. As provocações e os escárnios frequentemente feriam seu coração, e aquele jovem suportava muita tristeza em segredo.
Certo dia infeliz, quando José estava com seus irmãos longe de casa, eles decidiram matá-lo. Mas, a pedido de Rúben, colocaram-no numa cisterna. Então, conforme a providência de Deus, passaram por ali alguns ismaelitas. Seus irmãos o venderam pelo preço de um escravo, tiraram-lhe a túnica e o enviaram para longe, despojado de tudo. Não sabiam nem se importavam para onde ele iria, contanto que desaparecesse de seu caminho e deixasse de despertar sua inveja e sua ira.
Ah, que angústia ele deve ter sentido ao ser separado de seu pai, ao perder seus irmãos e ficar sem nenhum amigo! Foi arrastado por cruéis mercadores de escravos, talvez acorrentado a um camelo, com grilhões nas mãos.
Aqueles que já suportaram correntes e algemas, aqueles que já sentiram o que significa não ser livre, poderiam contar como os flecheiros o afligiram profundamente ao lançar contra ele as flechas da inveja.
José tornou-se escravo, vendido para longe de sua terra e arrancado de tudo o que amava. Adeus, lar e suas alegrias! Adeus, sorrisos de seu pai e seus ternos cuidados!
Agora, teria de ser escravo e trabalhar onde quer que o capataz o mandasse. Seria exposto no mercado, despido nas ruas, espancado e açoitado. Seria reduzido de homem a animal, de homem livre a escravo.
Verdadeiramente, os flecheiros dispararam suas flechas contra ele com crueldade!
Meus irmãos, se vocês são os Josés do Senhor, esperam escapar da inveja? Digo-lhes que não! Esse monstro de olhos verdes chamado inveja vive em Londres, assim como em qualquer outro lugar, e também se infiltra na igreja de Deus.
Ah, é especialmente doloroso ser invejado pelos próprios irmãos! Se o diabo nos odeia, podemos suportar. Se os inimigos da verdade de Deus falam mal de nós, ajustamos nossa armadura e dizemos: “Avante! Avante para o combate!”
Mas, quando os amigos que estão dentro da própria casa nos difamam, quando irmãos que deveriam nos sustentar se tornam nossos inimigos e procuram esmagar os que são mais jovens do que eles, então, senhores, compreendemos o significado destas palavras: “Os flecheiros lhe deram amargura, atiraram contra ele e o odiaram”.
Bendito, porém, seja o nome de Deus, pois é reconfortante saber que “o seu arco permaneceu firme”.
Nenhum de vocês pode pertencer ao povo de Deus sem despertar alguma inveja. E, quanto melhor for a sua vida, mais será odiado. As frutas mais maduras são as mais bicadas pelos pássaros, e as flores que permanecem por mais tempo na árvore são as mais facilmente derrubadas pelo vento.
Mas não tema. Você não precisa viver preocupado com o que os homens dizem a seu respeito. Se Deus o ama, os homens poderão odiá-lo. Se Deus o honra, os homens poderão desonrá-lo.
Lembre-se, porém, de que, se você tiver de usar correntes por amor a Cristo, no céu receberá correntes de ouro. Se tiver de carregar anéis de ferro incandescente ao redor da cintura, sua fronte será coroada de ouro na glória.
“Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa.” Pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês.
Esses foram os primeiros flecheiros: os flecheiros da inveja.
2. Os flecheiros da tentação
Mas uma provação ainda pior estava reservada para José. Os flecheiros da tentação dispararam contra ele.
Não sei como expressar adequadamente este episódio. Gostaria que alguém mais capacitado para falar estivesse aqui, para contar a história da provação e do triunfo de José.
Vendido a um senhor que logo reconheceu seu valor, José foi colocado como administrador da casa e responsável por todos os assuntos domésticos. A esposa de seu senhor, uma mulher entregue à sensualidade, fixou nele seu desejo adúltero. Como José estava constantemente em sua presença, ela o assediava dia após dia, procurando induzi-lo ao pecado.
José recusava continuamente, suportando uma espécie de martírio no fogo lento de suas seduções. Certo dia decisivo, ela o agarrou, tentando obrigá-lo a cometer o pecado. Mas ele, como o verdadeiro herói que era, respondeu:
“Como, pois, faria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?” (Gênesis 39:9).
Como um guerreiro sábio, ele compreendeu que, naquela situação, fugir era a melhor forma de demonstrar coragem. Parecia ouvir uma voz em seus ouvidos: “Fuja, José, fuja! Não há outro caminho para a vitória senão a fuga”.
E ele fugiu, deixando sua roupa nas mãos daquela mulher adúltera.
Digo que, em todos os registros de heroísmo, não há exemplo que supere este!
Vocês sabem que a oportunidade pode levar um homem ao crime, e José teve oportunidades abundantes. Mas a insistência persistente da tentação pode desviar a maioria dos homens. Ser assediado dia após dia por seduções tão insistentes, ser tentado hora após hora — ah, isso exige uma força sobre-humana, um poder superior ao humano, uma força que somente Deus pode conceder, para que um jovem consiga purificar seu caminho e conduzir sua vida segundo a Palavra de Deus.
José poderia ter raciocinado consigo mesmo:
“Se eu ceder e me entregar, terei diante de mim uma vida de tranquilidade e prazer. Serei exaltado e enriquecerei. Ela convencerá seu marido a me cobrir de honras. Mas, se eu continuar fiel à minha integridade, serei lançado na prisão, jogado no calabouço. Nada me aguardará senão a vergonha e a desonra”.
Ah, mas havia um poder extraordinário naquele coração! Havia uma força inconcebível que o fez afastar-se daquela tentação com indescritível repulsa, temor e tremor, enquanto dizia:
“Como poderia eu? Como poderia eu — eu, o José de Deus — fazer isso? Outros homens talvez o fizessem, mas como poderia eu cometer tamanha maldade e pecar contra Deus?”
Verdadeiramente, os flecheiros o afligiram profundamente e atiraram contra ele, mas seu arco permaneceu firme.
3. Os flecheiros da calúnia maliciosa
Então, outro exército de flecheiros o atacou: os flecheiros da calúnia maliciosa.
Ao perceber que José não cederia à tentação, sua senhora o acusou falsamente diante do marido. Seu senhor, acreditando nas palavras da esposa, mandou José para a prisão.
Foi uma providência extraordinária que ele não tenha sido condenado à morte, pois Potifar, seu senhor, era chefe da guarda real. Bastava chamar um soldado, e José poderia ter sido imediatamente despedaçado. Em vez disso, foi lançado na prisão.
Ali estava o pobre José, com sua reputação destruída aos olhos dos homens. É provável que até mesmo dentro da prisão fosse tratado com desprezo. Criminosos vis se afastavam dele, como se o considerassem mais perverso do que eles próprios, como se fossem anjos em comparação com aquele homem.
Ah, não é fácil sentir que nossa reputação foi destruída, saber que somos caluniados e que dizem a nosso respeito coisas que não são verdadeiras! O coração de muitos homens já foi partido por causa disso, quando nenhuma outra provação teria conseguido fazê-los ceder.
Os flecheiros afligiram profundamente José quando o difamaram e o caluniaram dessa maneira.
Ó filho de Deus, você espera escapar desses flecheiros? Nunca será caluniado? Nunca será difamado? É próprio dos servos de Deus, na proporção de seu zelo, serem alvo de palavras maldosas.
Lembre-se do nobre George Whitefield, que permaneceu firme enquanto era alvo de zombarias e escárnios durante grande parte de sua época. Sua única resposta era uma vida irrepreensível.
“E aquele que forjava a acusação e aquele que lançava o dardo
Tinham ambos um irmão interessado em seu coração.”
Whitefield foi insultado e acusado de crimes tão vis que nem Sodoma conheceu. Assim será sempre com aqueles que pregam a verdade de Deus e com todos os seguidores de Cristo. Todos devem esperar enfrentar esse tipo de oposição.
Mas bendito seja Deus, pois não disseram de nós coisas piores do que disseram de nosso Mestre! O que nos imputaram? Talvez tenham dito: “Ele é comilão e beberrão”. Mas não disseram: “Ele tem demônio”. Acusaram-nos de loucura, assim como fizeram com Paulo.
Ah, santa loucura! Furor celestial! Quem dera pudéssemos contagiar outros com essa mesma loucura, até que também fossem tomados por ela!
Pensamos que, se ir para o céu é loucura, não escolheremos ser sábios segundo o mundo. Não vemos sabedoria alguma em preferir o inferno. Não encontramos grande prudência em desprezar e odiar a verdade de Deus. Se servir a Deus é considerado algo desprezível, então pretendemos ser ainda mais desprezados por amor a ele.
Ah, amigos, alguns dos que estão aqui nesta manhã conhecem de cor este versículo: “Os flecheiros lhe deram amargura, atiraram contra ele e o odiaram”.
Esperem por isso. Não considerem estranho que aconteça. Todo o povo de Deus precisa enfrentar essas coisas.
Não existem caminhos reais para o céu. O caminho passa por provações e aflições. Os flecheiros continuarão atirando contra vocês enquanto estiverem deste lado do rio da morte.
II. O guerreiro protegido
Vimos esses flecheiros dispararem suas flechas. Agora, subamos um pouco a colina e nos coloquemos atrás de uma rocha, para contemplar o guerreiro protegido e observar sua coragem enquanto os flecheiros o afligem.
O que ele está fazendo?
“Seu arco permaneceu firme.”
Imaginemos o favorito de Deus. Os flecheiros estão lá embaixo. Diante dele há uma barreira de rocha. De vez em quando, ele olha por cima dela para ver o que os flecheiros estão fazendo, mas, na maior parte do tempo, permanece abrigado atrás da pedra.
Em segurança celestial, está colocado sobre uma rocha, sem se deixar perturbar por tudo o que acontece abaixo. Sigamos o caminho da cabra selvagem e contemplemos o guerreiro em seu refúgio seguro.
Primeiro, observemos que ele também possui um arco, pois lemos: “Seu arco permaneceu firme”.
Se quisesse, poderia ter revidado. Entretanto, permaneceu tranquilo e não entrou em combate com seus adversários. Se desejasse, poderia ter retesado o arco com toda a sua força e lançado suas flechas diretamente contra o coração deles, com precisão muito maior do que aquela com que eles haviam atirado contra ele.
Mas observem a tranquilidade desse guerreiro!
Ali está ele, descansando e estendendo seus poderosos membros. Seu arco permanece firme. Parece dizer:
“Enfureçam-se à vontade! Continuem atirando suas flechas! Esvaziem suas aljavas contra mim! Deixem que as cordas de seus arcos se desgastem e que a madeira se quebre de tanto ser vergada. Aqui estou, descansando em segurança. Meu arco permanece firme.
“Tenho outras tarefas a cumprir além de atirar contra vocês. Minhas flechas estão reservadas para aqueles inimigos de Deus, os adversários do Altíssimo. Não posso desperdiçar uma flecha com pardais tão insignificantes como vocês. Vocês são aves pequenas demais para merecerem meus tiros. Não desperdiçarei uma flecha com vocês”.
Assim, ele permanece atrás da rocha e despreza todos eles. Seu arco permanece firme.
Observem bem sua tranquilidade. O texto diz que seu arco “permaneceu”. Não está sacudindo nem se movimentando sem parar. Permanece imóvel.
Ele não se deixa dominar pelo ataque. Os flecheiros afligiram profundamente José, mas seu arco não se voltou contra eles: permaneceu firme. José não apontou seu arco contra seus adversários. Enquanto eles se enfureciam, ele descansava.
Por acaso a lua para para dar uma lição a cada cão que late para ela? O leão se desvia de seu caminho para despedaçar cada vira-lata que late contra ele? As estrelas deixam de brilhar porque os rouxinóis as repreendem por sua pouca luminosidade? O sol interrompe seu curso porque uma nuvem inoportuna o encobre? Ou o rio deixa de correr porque o salgueiro mergulha suas folhas em suas águas?
Ah, não!
O universo de Deus segue seu curso e não se deixa deter pela oposição dos homens. Ele funciona conforme Deus o estabeleceu. Todas as coisas cooperam para o bem, e esse propósito não será interrompido pelas críticas nem será impulsionado pelos elogios humanos.
Portanto, meus irmãos, deixem seus arcos permanecerem firmes. Não tenham pressa em justificar-se diante de todos. Deus cuidará de vocês. Não se desgastem tentando responder a cada acusação. Sejam, antes, muito valentes pelo Senhor, o Deus de Israel. Permaneçam firmes na verdade de Jesus, e seu arco continuará firme.
Mas não devemos esquecer a palavra seguinte: “Seu arco permaneceu firme, em força”.
Embora seu arco estivesse quieto, não era porque estivesse quebrado. O arco de José era como o de Guilherme, o Conquistador: ninguém conseguia vergá-lo, a não ser o próprio José. Ele permanecia firme, cheio de força.
Vejo o guerreiro vergando seu arco. Com seus braços poderosos, ele o puxa para baixo e estica a corda, preparando-o para o disparo. Seu arco permanece firme. Não se parte nem se desvia.
Sua pureza era seu arco, e ele não a perdeu. Sua fé era seu arco, e ela não cedeu nem se quebrou. Sua coragem era seu arco, e ela não lhe faltou. Seu caráter e sua honestidade eram seu arco, e ele não os abandonou.
Alguns homens se preocupam excessivamente com a própria reputação. Pensam: “Certamente, certamente, certamente perderemos nosso bom nome!”
Ora, se não o perdermos por culpa nossa, não precisamos nos preocupar com o que os outros dizem.
Vocês sabem que não existe homem de alguma proeminência contra quem algum tolo deste mundo não possa espalhar uma história maldosa. É muito mais fácil espalhar uma história do que fazê-la parar.
Se você quiser que a verdade dê a volta ao mundo, precisará contratar um trem expresso para transportá-la. Mas, se quiser que uma mentira percorra o mundo, ela voará. É leve como uma pena, e um simples sopro a carregará.
Como diz o antigo provérbio: “Uma mentira dará a volta ao mundo enquanto a verdade ainda estiver calçando as botas”.
Apesar disso, a mentira não precisa nos destruir. Embora viaje tão depressa por ser leve como uma pena, seu efeito pode ser comparado ao de uma pluma soprada contra as muralhas de um castelo. Não causa dano algum, por causa de sua insignificância e leveza.
Não tema, cristão! Deixe a calúnia voar. Deixe a inveja mostrar sua língua bifurcada e sibilar contra você. Seu arco permanecerá firme e forte.
Ó guerreiro protegido, permaneça tranquilo e não tema mal algum! Como a águia em seu ninho elevado, olhe para baixo, para os caçadores que estão na planície. Volte para eles seu olhar destemido e diga:
“Podem atirar, se quiserem, mas suas flechas não chegarão nem à metade da altura do pináculo onde estou. Desperdicem sua pólvora contra mim, se assim desejarem. Estou fora do alcance de vocês”.
Então, bata as asas, suba aos céus e ria de seus adversários, pois você fez de Deus o seu refúgio e encontrará nele uma morada perfeitamente segura.
III. A força secreta
O terceiro aspecto do nosso texto é a força secreta:
“Os braços de suas mãos foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó”.
Primeiro, observemos que a força de José era verdadeira. O texto diz: “Os braços de suas mãos”, e não apenas suas mãos.
Vocês sabem que algumas pessoas conseguem realizar muitas coisas com as mãos, mas seu poder é frequentemente ilusório. Não há força real em seus braços, não há músculos vigorosos. De José, porém, está escrito que “os braços de suas mãos foram fortalecidos”.
Era um poder verdadeiro, músculos reais, tendões reais e nervos vigorosos. Não se tratava apenas de destreza manual, de mover os dedos com grande rapidez. Os braços de suas mãos foram fortalecidos.
A força que Deus concede aos seus Josés também é verdadeira. Não é uma coragem ostentada, uma ficção, algo de que os homens apenas falam, um sonho passageiro ou uma realidade sem substância. É força verdadeira.
Eu não gostaria de entrar em combate com um dos Josés de Deus. Seus golpes seriam muito fortes. Temo mais os golpes de um cristão do que os de qualquer outro homem, pois ele tem ossos, músculos e vigor, e golpeia com força.
Que os inimigos da igreja esperem uma luta difícil se atacarem um herdeiro da vida! Os homens da família celestial são mais poderosos do que gigantes. Se algum dia se levantarem para a batalha, poderão rir diante da lança e da armadura do adversário.
Mas eles pertencem a uma geração paciente. Suportam males sem buscar vingança e enfrentam o desprezo sem insultar aqueles que os ridicularizam.
Seu triunfo ainda virá, quando seus inimigos receberem a justa retribuição. Então, diante do mundo reunido, ficará evidente que o “pequeno rebanho” era constituído por pessoas de elevada dignidade e que aqueles considerados “o lixo de todas as coisas” eram, na verdade, homens de verdadeira força e honra.
Mesmo que o mundo não perceba, o José favorecido por Deus possui força verdadeira, não apenas nas mãos, mas também nos braços: poder real e vigor autêntico.
Ó inimigos de Deus, vocês pensam que o povo do Senhor é desprezível e impotente. Mas saibam que ele possui força verdadeira, proveniente da onipotência de seu Pai, um poder substancial e divino.
A força de vocês desaparecerá, enfraquecerá e morrerá, como a neve sobre o alto de uma montanha baixa quando o sol brilha sobre ela e a transforma em água. Mas nosso vigor permanecerá, como a neve no cume dos Alpes, que conserva sua presença ao longo dos séculos.
Essa é uma força verdadeira.
Observem, em seguida, que a força do José de Deus é uma força divina. Seus braços foram fortalecidos por Deus.
Por que determinado ministro de Deus prega o evangelho com poder? Porque Deus lhe concede auxílio. Por que José consegue resistir à tentação? Porque Deus o sustenta. A força de um cristão é uma força divina.
Meus irmãos, estou cada vez mais convencido de que o pecador não possui poder em si mesmo, exceto aquele que lhe é concedido do alto.
Se eu estivesse com um pé sobre o limiar dourado da entrada do céu e pudesse colocar meu polegar sobre o trinco da porta, ainda assim não conseguiria abri-la, mesmo tendo chegado tão perto do céu, a menos que naquele momento me fosse concedido novamente um poder sobrenatural.
Se eu tivesse de levantar uma pedra para realizar minha própria salvação e tentasse fazê-lo sem a ajuda de Deus, estaria perdido, ainda que a pedra fosse muito pequena.
Nada podemos fazer sem o poder de Deus. Toda força verdadeira vem dele. Assim como a luz vem do sol e a chuva vem do céu, a força espiritual vem do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.
Gostaria ainda que observassem a maneira maravilhosamente familiar com que Deus concede essa força a José. O texto diz:
“Os braços de suas mãos foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó”.
Essa descrição apresenta Deus colocando suas mãos sobre as mãos de José e seus braços sobre os braços de José.
Antigamente, quando todo menino precisava ser treinado no uso do arco, se seu pai tivesse condições financeiras suficientes, era possível vê-lo colocando as mãos sobre as mãos do filho e puxando o arco por ele, enquanto dizia: “Assim, meu filho, é desta maneira que se deve retesar o arco”.
Da mesma maneira, o texto apresenta Deus colocando sua mão sobre a mão de José e apoiando seu braço poderoso sobre o braço de seu filho escolhido, para fortalecê-lo.
Assim como um pai ensina seus filhos, o Senhor ensina aqueles que o temem. Ele coloca seus braços sobre eles.
Assim como Elias se deitou sobre o menino, colocando sua boca sobre a boca dele, suas mãos sobre as mãos dele e seus pés sobre os pés dele, assim também Deus aproxima sua boca da boca de seus filhos, coloca sua mão sobre a mão de seu ministro e seus pés junto aos pés de seu povo, fortalecendo-nos dessa maneira.
Que condescendência extraordinária! Ó estrelas da glória, vocês já testemunharam uma demonstração de amor tão maravilhosa?
O Deus Todo-Poderoso, eterno e onipotente desce de seu trono e coloca sua mão sobre a mão de uma criança, estendendo seu braço sobre o braço de José para fortalecê-lo!
Mais um pensamento, e concluirei.
Essa força era uma força da aliança, pois o texto diz:
“Os braços de suas mãos foram fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó”.
Sempre que vocês encontrarem na Bíblia a expressão “o Deus de Jacó”, poderão compreender que ela está relacionada à aliança de Deus com Jacó.
Ah, como amo falar da aliança eterna de Deus! Alguns arminianos não conseguem suportar esse assunto, mas eu amo a salvação fundamentada na aliança — uma aliança que não foi estabelecida entre mim e Deus, nem entre Deus e meus pais, mas entre Cristo e Deus.
Cristo assumiu o compromisso de pagar o preço, e Deus estabeleceu a aliança de que Cristo receberia o seu povo. Cristo pagou o preço e confirmou a aliança. Tenho absoluta certeza de que Deus cumprirá sua parte, entregando nas mãos de Jesus cada um dos eleitos, vasos de misericórdia.
Amados, todo o poder, toda a graça, todas as bênçãos, todas as misericórdias, todo o consolo e todas as coisas que possuímos nos são concedidos por meio da aliança.
Se não houvesse aliança, se pudéssemos rasgar o documento eterno, se o rei do inferno pudesse cortá-lo com sua faca, assim como o rei de Israel cortou o rolo de Baruque, então certamente fracassaríamos. Não possuímos força alguma além daquela que nos é prometida na aliança.
Misericórdias da aliança, graça da aliança, promessas da aliança, bênçãos da aliança, auxílio da aliança — tudo o que o cristão precisa receber para entrar no céu está fundamentado nessa aliança.
Agora, cristão, os flecheiros o afligiram profundamente, atiraram contra você e o feriram. Contudo, seu arco permanece firme, e os braços de suas mãos são fortalecidos.
Mas você sabe, ó crente, que nisso é semelhante ao seu Mestre?
IV. Um paralelo glorioso
Este é o nosso quarto e último ponto: um paralelo glorioso.
“De onde vem o Pastor, a Pedra de Israel”.
Jesus Cristo foi tratado da mesma maneira. O Pastor, a Pedra de Israel, passou por provações semelhantes. Os flecheiros atiraram contra ele. Ele foi afligido e ferido, mas seu arco permaneceu firme.
Seus braços foram fortalecidos pelo Deus de Jacó, e agora todas as bênçãos repousam “sobre a cabeça daquele que foi separado de seus irmãos”.
Não tomarei muito do tempo de vocês, mas tenho algumas coisas a dizer, primeiro sobre Cristo como o Pastor e, depois, sobre Cristo como a Pedra.
Cristo, o Pastor
Cristo veio ao mundo como um pastor. Assim que apareceu, os escribas e fariseus disseram:
“Ah! Nós temos sido os pastores até agora. Agora seremos privados de nossas honras, perderemos nossa dignidade e nossa autoridade”.
Consequentemente, passaram a atirar continuamente contra ele.
Quanto ao povo, era como um rebanho inconstante. Creio que muitos respeitavam e admiravam Cristo, embora, sem dúvida, a grande maioria o odiasse. Por onde quer que fosse, ele era um pregador popular. As multidões sempre o cercavam e se aglomeravam ao seu redor, clamando: “Hosana!”
Imagino que, se você tivesse subido àquele monte do Calvário e perguntado a um dos homens que gritavam “Crucifica-o! Crucifica-o!”:
“Por que você está dizendo isso? Ele é um homem mau?”
Ele teria respondido:
“Não. Ele andou fazendo o bem”.
“Então, por que você está gritando: ‘Crucifica-o’?”
“Porque o rabino Simeão me deu uma moeda para ajudar a engrossar o clamor”.
Assim, a multidão foi grandemente influenciada pelo dinheiro e pela influência dos sacerdotes. Apesar disso, as pessoas gostavam de ouvir Cristo.
Foram os próprios pastores religiosos que o odiaram, porque ele prejudicava seus negócios, expulsava os compradores e vendedores do templo, diminuía sua dignidade e ignorava suas pretensões. Por isso, não conseguiam suportá-lo.
Mas o Pastor de Israel continuou subindo cada vez mais alto. Reuniu suas ovelhas, tomou os cordeirinhos em seus braços e hoje é reconhecido como o grande Pastor das ovelhas, aquele que as reunirá em um só rebanho e as conduzirá ao céu.
Rowland Hill conta uma história curiosa em sua obra Village Dialogues, a respeito de certo senhor Tiplash, um pregador muito eloquente e intelectual. Em um de seus voos oratórios, ele declarou:
“Ó virtude, tu és tão bela e encantadora! Se descesses à Terra, todos os homens te amariam”.
E continuou com outras palavras igualmente bonitas e agradáveis.
Naquela região havia um pregador honesto chamado senhor Blunt, que foi convidado a pregar à tarde. Ele complementou as observações do respeitável cavalheiro, dizendo:
“Ó virtude, tu realmente vieste à Terra, em toda a tua pureza e beleza. Mas, em vez de seres amada e admirada, os flecheiros dispararam cruelmente contra ti e te afligiram.
“Eles te tomaram, ó virtude, e penduraram teus membros trêmulos numa cruz. Quando estavas ali, morrendo, eles assobiaram contra ti, zombaram de ti e te desprezaram.
“Quando pediste água, deram-te vinagre misturado com fel. Sim, quando morreste, recebeste um túmulo por caridade, e esse túmulo foi selado pela inimizade e pelo ódio”.
O Pastor de Israel foi desprezado. A virtude encarnada foi odiada e abominada.
Portanto, cristãos, não tenham medo! Tomem coragem! Se o seu Mestre passou por tudo isso, certamente vocês também passarão.
Cristo, a Pedra de Israel
Para concluir, o texto chama Cristo de “a Pedra de Israel”.
Ouvi uma história — não posso afirmar se é verdadeira — atribuída a alguns rabinos judeus. Ela está relacionada à passagem:
“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”.
Conta-se que, quando o templo de Salomão estava sendo construído, todas as pedras eram trazidas da pedreira já cortadas e preparadas. Cada bloco trazia uma indicação do lugar onde deveria ser colocado.
Entre essas pedras havia uma muito peculiar. Parecia não possuir uma forma definida e não se ajustava a nenhuma parte da construção.
Os construtores tentaram colocá-la numa parede, mas ela não se encaixava. Experimentaram em outra, mas também não servia. Irritados e aborrecidos, acabaram jogando-a fora.
O templo levou tantos anos para ser construído que aquela pedra ficou coberta de musgo, e a grama cresceu ao seu redor. Todos os que passavam por ela zombavam da pedra.
Diziam que Salomão era sábio e que, sem dúvida, todas as outras pedras estavam corretas. Quanto àquele bloco, poderiam muito bem devolvê-lo à pedreira, pois estavam convencidos de que não servia para coisa alguma.
Ano após ano, a pobre pedra continuava desprezada, constantemente rejeitada pelos construtores.
Finalmente, chegou o grande dia em que o templo seria concluído e inaugurado. Uma multidão se reuniu para contemplar aquele espetáculo grandioso.
Os construtores perguntaram:
“Onde está a pedra do topo? Onde está o pináculo?”
Eles nem imaginavam onde se encontrava a pedra que coroaria a construção, até que alguém sugeriu:
“Talvez aquela pedra que os construtores rejeitaram tenha sido destinada a ocupar o lugar mais alto”.
Então, pegaram a pedra e a ergueram até o topo do edifício. Quando chegou ao cume, descobriram que ela se ajustava perfeitamente ao lugar.
Altos clamores de “Hosana!” fizeram o céu ressoar, enquanto aquela pedra rejeitada pelos construtores se tornava a pedra angular da construção.
Assim acontece com Jesus Cristo.
Os construtores o rejeitaram. Ele era de origem humilde, de condição social simples. Era um homem que convivia com pecadores e caminhava em pobreza e humildade. Por isso, os sábios segundo o mundo o desprezaram.
Mas, quando Deus reunir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus quanto as que estão na Terra, Cristo será a gloriosa consumação de todas elas.
“Cristo reina no céu como a pedra mais elevada,
E dignamente merece todo louvor”.
Ele será exaltado. Será honrado. Seu nome permanecerá enquanto durar o sol, e todas as nações serão abençoadas nele.
Sim, todas as gerações o chamarão bem-aventurado.


