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terça-feira, 29 de setembro de 2026

DOCE CONSOLO PARA OS SANTOS FRACOS

 


Nº 6

UM SERMÃO

PREGADO NA MANHÃ DE DOMINGO, 4 DE FEVEREIRO DE 1855

PELO REV. C. H. SPURGEON

NO TABERNÁCULO DE NEW PARK STREET, SOUTHWARK

“Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega, até que faça triunfar o juízo.”

Mateus 12:20

A fama tagarela sempre gosta de falar de um homem ou de outro. Há alguns cuja glória ela alardeia e cuja honra ela exalta acima dos céus. Alguns são seus favoritos, e seus nomes são esculpidos no mármore e ouvidos em todas as terras e em todos os climas. A fama não é um juiz imparcial, ela tem seus favoritos. A alguns homens ela extasia, exalta e quase deifica — a outros, cujas virtudes são muito maiores e cujos caracteres são mais dignos de louvor, ela passa despercebida e põe o dedo do silêncio sobre os lábios.

Você descobrirá, em geral, que essas pessoas amadas pela fama são homens feitos de bronze ou ferro e moldados em uma forma rústica. A fama acaricia César, porque ele governou a terra com vara de ferro. A fama ama Lutero, porque ele desafiou audaz e virilmente o Papa de Roma, e de testa franzida ousou rir dos trovões do Vaticano.

A fama admira Knox, pois ele era severo e provou ser o mais bravo dos bravos. Em geral, você a verá escolhendo homens de fogo e fibra, que se puseram diante de suas criaturas semelhantes sem temê-las — homens que foram feitos de coragem, que eram blocos consolidados de destemor e nunca souberam o que é a timidez.

Mas você sabe que há outra classe de pessoas igualmente virtuosas e igualmente dignas de estima — talvez até mais — das quais a fama se esquece completamente. Você não a ouve falar do suave Melanchthon — ela diz muito pouco sobre ele —, no entanto, ele fez tanto, talvez, na Reforma, quanto o próprio e poderoso Lutero.

Você não ouve a fama falar muito do doce e abençoado Rutherford, e das palavras celestiais que destilavam de seus lábios. Ou do Arcebispo Leighton, de quem se dizia que nunca perdeu a paciência na vida. Ela ama os picos de granito bruto que desafiam a nuvem de tempestade. Ela não se importa com a pedra mais humilde do vale, sobre a qual o viajante cansado descansa. Ela quer algo arrojado e proeminente, algo que busque a popularidade, algo que se destaque diante do mundo. Ela não se importa com aqueles que se retiram para a sombra.

Por isso, meus irmãos, o abençoado Jesus, nosso adorável Mestre, escapou da fama. Ninguém diz muito sobre Jesus, exceto Seus seguidores. Não encontramos Seu nome escrito entre os grandes e poderosos — embora, na verdade, Ele seja o maior, o mais poderoso, o mais santo, o mais puro e o melhor homem que já viveu. Mas porque Ele era "o Doce Jesus, manso e humilde", e era enfaticamente o homem cujo reino não é deste mundo — porque Ele não tinha nada de rude em Si, mas era todo amor — porque Suas palavras eram mais macias que a manteiga, Seus pronunciamentos mais suaves em seu fluxo do que o azeite — porque nunca homem algum falou tão suavemente quanto este homem, por isso Ele é negligenciado e esquecido.

Ele não veio para ser um conquistador com Sua espada, nem um Maomé com sua eloquência inflamada, mas veio para falar com uma "voz mansa e delicada", que derrete o coração de pedra, que cura os quebrantados de espírito e que continuamente diz: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos". "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas." Jesus Cristo era todo mansidão, e é por isso que Ele não foi exaltado entre os homens como de outra forma teria sido.

Amados! Nosso texto está cheio de mansidão. Parece ter sido embebido em amor, e espero ser capaz de mostrar-lhes algo da imensa compaixão e da poderosa ternura de Jesus ao tentar pregar a partir dele. Há três coisas a notar: primeiro, a fragilidade mortal; segundo, a compaixão divina; e terceiro, o triunfo certo — "até que faça triunfar o juízo".

I. Fragilidade Mortal

Em primeiro lugar, temos diante de nós uma visão da FRAGILIDADE MORTAL — a cana quebrada e a torcida que fumega —, duas metáforas muito sugestivas e cheias de significado.

Se não fosse fantasioso demais — e se for, sei que vocês me desculparão —, eu diria que a cana quebrada é o emblema de um pecador no primeiro estágio de sua convicção. A obra do Espírito Santo de Deus começa com o quebrantamento. Para ser salvo, o campo lavrado deve ser arado, o coração duro deve ser quebrado, a rocha deve ser fendida ao meio.

Um antigo teólogo diz que não se vai ao céu sem passar bem perto das portas do inferno — sem uma grande quantidade de aflição de alma e exercício de coração. Entendo, então, que a cana quebrada é uma pintura do pobre pecador quando Deus começa Sua operação na alma. Ele é uma cana quebrada, quase inteiramente esmagada e consumida. Há pouca força nele.

A torcida que fumega, concebo ser o cristão desviado, alguém que foi uma luz ardente e brilhante em seus dias, mas que pela negligência dos meios de graça, pela retirada do Espírito de Deus e pelo cair no pecado, sua luz quase se apagou — não totalmente —, nunca pode se apagar, pois Cristo diz: "Não a apagarei", mas torna-se como uma lâmpada mal provida de azeite — quase inútil.

Não está completamente extinta — fumega —; já foi uma lâmpada útil, mas agora se tornou como a torcida que fumega. Assim, penso que estas metáforas muito provavelmente descrevem o pecador contrito como uma cana quebrada, e o cristão desviado como a torcida que fumega. No entanto, não optarei por fazer tal divisão; antes, colocarei ambas as metáforas juntas, e espero que possamos extrair alguns pensamentos delas.

E, em primeiro lugar, o encorajamento oferecido em nosso texto aplica-se aos fracos. O que no mundo é mais fraco do que a cana quebrada ou a torcida que fumega? Uma cana que cresce no pântano ou no brejo, basta que o pato selvagem pouse sobre ela para que se quebre. Basta que o pé do homem passe por ela para que fique machucada e quebrada. Cada vento que vem uivando pelo rio a faz balançar de um lado para o outro e quase a arranca pelas raízes. Você não consegue conceber nada mais frágil ou quebradiço, ou cuja existência dependa mais das circunstâncias do que uma cana quebrada.

Depois, olhe para a torcida que fumega — o que é? Tem uma faísca dentro de si, é verdade, mas está quase sufocada — o sopro de um bebê poderia apagá-la ou as lágrimas de uma jovem poderiam extingui-la em um momento. Nada tem uma existência mais precária do que a pequenina faísca escondida na torcida que fumega. Coisas fracas, como vocês veem, são descritas aqui. Pois bem, Cristo diz delas: "A torcida que fumega não apagará; a cana quebrada não esmagará". Deixem-me ir em busca dos fracos. Ah! Não terei que ir longe. Há muitos nesta casa de oração esta manhã que são de fato fracos.

Alguns dos filhos de Deus, bendito seja o Seu nome, são fortalecidos para fazer obras poderosas para Ele. Deus tem Seus Sansões aqui e ali que podem arrancar os portões de Gaza e levá-los até o topo da colina. Ele tem aqui e ali Seus poderosos Gideões, que podem ir ao acampamento dos midianitas e derrotar seus exércitos. Ele tem Seus homens valentes, que podem descer ao poço no inverno e matar leões.

Mas a maioria do Seu povo é uma raça tímida e fraca. São como os estorninhos que se assustam com qualquer transeunte, um pequeno rebanho temeroso. Se a tentação vem, eles caem diante dela. Se a provação vem, são sobrecarregados por ela. Sua frágil embarcação é sacudida para cima e para baixo por cada vaga, e quando o vento vem, são levados como uma ave marinha na crista das ondas — coisas fracas, sem força, sem vigor, sem poder.

Ah! Queridos amigos, sei que segurei algumas de suas mãos agora, e seus corações também, pois vocês estão dizendo: "Fraco! Ah, isso eu sou. Com muita frequência sou forçado a dizer: Eu queria, mas não posso cantar. Eu queria, mas não posso orar. Eu queria, mas não posso crer". Vocês estão dizendo que não podem fazer nada — suas melhores resoluções são fracas e vãs, e quando clamam: "Renova as minhas forças", sentem-se mais fracos do que antes.

Vocês são fracos, são? Canas quebradas e torcidas que fumegam? Bendito seja Deus, este texto é para vocês então. Estão felizes por se enquadrarem na denominação de fracos, pois aqui está uma promessa de que Ele nunca os quebrará nem os apagará, mas os sustentará e os manterá de pé.

Sei que há algumas pessoas muito fortes aqui — quero dizer, fortes em suas próprias ideias. Muitas vezes me encontro com pessoas que não confessariam tal fraqueza. São mentes fortes. Dizem: "O senhor acha que nós caímos em pecado, senhor? O senhor nos diz que nossos corações são corruptos? Nós não cremos em tal coisa. Somos bons, puros e retos. Temos força e poder".

A vocês não estou pregando esta manhã, a vocês nada estou dizendo, mas acautelem-se — sua força é vaidade, seu poder é uma ilusão, seu vigor é uma mentira —, pois por mais que vocês se gabem do que podem fazer, isso passará. Quando chegarem ao verdadeiro combate com a morte, descobrirão que não têm força para lutar contra ela.

Quando um destes dias de forte tentação chegar, ele se apoderará de você, homem moral, e você cairá, e a gloriosa libré de sua moralidade ficará tão manchada que, embora você lave as mãos com água de neve e se purifique ao máximo, ficará tão poluído que suas próprias roupas o abominarão. Penso que é uma coisa abençoada ser fraco. O fraco é uma coisa sagrada — o Espírito Santo o fez assim. Você pode dizer: "Não tenho força alguma"? Então este texto é para você.

Em segundo lugar, as coisas mencionadas em nosso texto não são apenas fracas, mas coisas sem valor. Já ouvi falar de um homem que recolhia um alfinete enquanto caminhava pela rua, pelo princípio da economia. Mas nunca ouvi falar de um homem que parasse para recolher canas quebradas. Não vale a pena tê-las. Quem se importaria em ter uma cana quebrada — um pedaço de junco caído no chão? Todos nós a desprezamos como inútil.

E a torcida que fumega, qual é o valor dela? É algo ofensivo e nocivo, mas seu valor é nulo. Ninguém daria um estalar de dedos nem pela cana quebrada nem pela torcida que fumega. Pois bem, amados, em nossa estimativa, há muitos de nós que somos coisas sem valor. Há alguns aqui que, se pudessem se pesar nas balanças do santuário e colocar seus próprios corações na balança da consciência, pareceriam não servir para nada — sem valor, inúteis.

Houve um tempo em que vocês se julgavam as melhores pessoas do mundo — em que, se alguém dissesse que vocês tinham mais do que mereciam, vocês teriam se revoltado e dito: "Acredito que sou tão bom quanto os outros". Vocês se achavam algo maravilhoso — extremamente dignos do amor e da atenção de Deus —, mas agora se sentem sem valor.

Às vezes vocês imaginam que Deus dificilmente pode saber onde vocês estão, de tão desprezíveis que são — tão sem valor —, não valendo a consideração dEle. Vocês conseguem entender como Ele pode olhar para um animalculo em uma gota d'água, ou para um grão de poeira no raio de sol, ou para o inseto da tarde de verão, mas mal conseguem explicar como Ele pode pensar em vocês, pois parecem tão sem valor — um espaço em branco no mundo, uma coisa inútil.

Vocês dizem: "De que sirvo eu? Não estou fazendo nada. Quanto a um ministro do Evangelho, ele tem alguma utilidade. Quanto a um diácono da igreja, ele tem alguma serventia. Quanto a um professor da escola dominical, ele está fazendo algum bem, mas de que serviço sou eu?". Mas você poderia fazer a mesma pergunta aqui. Qual é a utilidade de uma cana quebrada? Pode um homem apoiar-se nela? Pode um homem fortalecer-se com ela? Será ela uma coluna na minha casa? Você pode ligá-la aos tubos da flauta de Pã e fazer sair música de uma cana quebrada? Ah! Não, não tem utilidade alguma.

E para que serve a torcida que fumega? O viajante da meia-noite não pode ser iluminado por ela. O estudante não pode ler pela sua chama. Não tem utilidade, os homens a lançam no fogo e a consomem. Ah! É assim que vocês falam de si mesmos. Vocês não servem para nada, e estas coisas também não. Mas Cristo não jogará vocês fora porque não têm valor. Vocês não sabem de que utilidade podem ser e não podem imaginar como Jesus Cristo os valoriza, apesar de tudo.

Há uma boa mulher ali, uma mãe, talvez. Ela diz: "Bem, eu não saio muito — cuido da casa e dos meus filhos, e parece que não estou fazendo nada de bom". Mãe, não diga isso; sua posição é elevada, nobre e de grande responsabilidade, e ao criar filhos para o Senhor, você está fazendo tanto pelo Seu nome quanto aquele eloquente Apolo, que tão valentemente pregou a Palavra.

E você, homem pobre, tudo o que pode fazer é mourejar da manhã à noite e ganhar apenas o suficiente para permitir que viva dia a dia; você não tem nada para doar e, quando vai à escola dominical, mal consegue ler, não pode ensinar muito — bem, mas àquele a quem pouco é dado, pouco é exigido. Você não sabe que existe algo como glorificar a Deus varrendo o cruzamento da rua?

Se dois anjos fossem enviados à terra, um para governar um império e o outro para varrer uma rua, eles não teriam escolha na matéria, desde que Deus lhes ordenasse. Assim Deus, em Sua providência, chamou você para trabalhar duro pelo pão diário; faça-o para a glória dEle. "Quer comais, quer bebeis, fazei tudo para a honra dEle."

Mas, ah! Sei que há alguns de vocês aqui que parecem inúteis para a igreja. Vocês fazem tudo o que podem, mas quando terminam, não é nada — não podem nos ajudar com dinheiro, nem com talentos, nem com tempo e, portanto, pensam que Deus deve lançá-los fora. Pensam que se fossem como Paulo ou Pedro poderiam estar salvos. Ah! Amados, não falem assim; Jesus Cristo diz que não apagará o mecha inútil, nem quebrará a cana quebrada sem valor. Ele tem algo para os inúteis e para os sem valor.

Mas reparem, não digo isto para desculpar a preguiça — para desculpar aqueles que podem fazer, mas não fazem —, isso é uma coisa muito diferente. Há um chicote para o jumento, um açoite para os homens ociosos, e eles devem tê-lo às vezes. Estou falando agora daqueles que não podem fazer — não de Issacar, que é como um jumento forte, deitado entre dois rebanhos e preguiçoso demais para se levantar com eles. Nada digo para o preguiçoso, que não lavra por causa do frio, mas para os homens e mulheres que realmente sentem que podem ser de pouca utilidade — que não podem fazer mais, e a estes, as palavras do texto são aplicáveis.

Agora faremos outra observação. As duas coisas aqui mencionadas são coisas ofensivas. Uma cana quebrada é ofensiva, pois creio que há aqui uma alusão às flautas de Pã, que todos vocês sabem ser canas colocadas juntas, ao longo das quais o homem move a boca, causando assim algum tipo de música. Este é o órgão, creio eu, que Jubal inventou e que Davi menciona, pois é certo que o órgão que usamos não estava em uso então.

A cana quebrada, então, é claro que estragaria a melodia de todos os tubos; um tubo defeituoso deixaria o ar sair de tal forma que produziria um som dissonante, ou som nenhum, de modo que o impulso de alguém seria tirar o tubo e colocar um novo. E quanto à torcida que fumega, o pavio de uma vela ou qualquer coisa desse tipo, não preciso informar-lhes que a fumaça é ofensiva. Para mim, nenhum odor em todo o mundo é tão abominavelmente ofensivo quanto a torcida que fumega.

Mas alguns dizem: "Como você pode falar de forma tão humilde?". Não desci mais do que eu mesmo poderia ir, nem mais do que vocês podem ir comigo, pois tenho certeza de que vocês são, se Deus, o Espírito Santo, realmente os humilhou, tão ofensivos para suas próprias almas e tão ofensivos para Deus quanto uma cana quebrada seria entre os tubos, ou como a torcida que fumega para os olhos e o nariz.

Muitas vezes penso no querido e velho John Bunyan, quando disse que desejava que Deus o tivesse feito um sapo, ou uma rã, ou uma cobra, ou qualquer outra coisa a um homem, pois sentia que era muito ofensivo. Oh! Posso conceber um ninho de víboras, e penso que são odiosas. Posso imaginar um poço de todo tipo de criaturas repugnantes, gerando corrupção, mas não há nada nem metade tão digno de abominação quanto o coração humano.

Deus poupa de todos os olhos, exceto dos Seus, essa visão terrível — o coração humano —, e se você e eu pudéssemos ver nosso coração uma única vez, seríamos levados à loucura, de tão horrível que seria a visão. Você se sente assim? Sente que deve ser ofensivo aos olhos de Deus — que se rebelou tanto contra Ele, que se desviou tanto dos Seus mandamentos, que certamente deve ser odioso para Ele? Se sim, meu texto é seu.

Agora, posso imaginar alguma mulher aqui esta manhã que se desviou dos caminhos da virtude e, enquanto está na multidão ali em cima, ou sentada, sente como se não tivesse o direito de pisar estes pátios sagrados e estar entre o povo de Deus. Ela pensa que Deus poderia quase fazer a capela desabar sobre ela para destruí-la, de tão grande pecadora que é.

Não importa, cana quebrada e torcida que fumega! Embora você seja o escárnio dos homens e repugnante para si mesma, ainda assim Jesus lhe diz: "Nem eu te condeno; vai e não peques mais, para que não te suceda algo pior".

Há algum homem aqui que tem algo em seu coração que eu não sei — que pode ter cometido crimes em segredo que não mencionaremos em público; seus pecados grudam como uma sanguessuga nele e o roubam de todo conforto. Aqui está você, jovem, tremendo e estremecendo, temendo que seu crime seja divulgado diante do alto céu. Você está abatido, esmagado como uma cana, fumegando como a torcida. Ah! Tenho uma palavra para você também. Consolo! Consolo! Consolo! Não desespere, pois Jesus diz que não apagará a torcida que fumega, não quebrará a cana quebrada.

E contudo, meus queridos amigos, há um pensamento antes de me afastar deste ponto. Ambos os artigos, por mais insignificantes que sejam, podem ainda ser de algum serviço. Quando Deus põe Sua mão sobre um homem, se ele era inútil e sem valor antes, Ele pode torná-lo muito valioso. Vocês sabem que o preço de um artigo não depende tanto do valor da matéria-prima, mas do trabalho nele empregado.

Aqui há uma matéria-prima muito ruim para começar — canas quebradas e torcidas que fumegam —, mas pelo trabalho divino ambas as coisas se tornam de valor admirável. Você me diz que a cana quebrada não serve para nada; eu lhe digo que Cristo pegará essa cana quebrada, irá consertá-la e ajustá-la nos tubos do céu. Então, quando a grande orquestra emitir sua música, quando os órgãos dos céus ecoarem seus sons graves, perguntaremos: "Qual foi aquela nota doce ouvida ali, misturando-se com as outras?". E alguém dirá: "Foi uma cana quebrada".

Ah! A voz de Maria Madalena no céu, imagino eu, soa mais doce e lípida do que qualquer outra, e a voz daquele pobre ladrão, que disse: "Senhor, lembra-te de mim", se é uma voz de baixo profundo, é mais suave e mais doce do que a voz de qualquer outro, porque ele muito amou, pois muito lhe foi perdoado. Esta cana ainda pode ser de uso. Não diga que você não serve para nada, você ainda cantará no céu. Não diga que não tem valor, por fim você estará diante do trono entre a multidão lavada pelo sangue e cantará o louvor de Deus.

Sim! E a torcida que fumega também, que bem pode fazer isso? Logo lhe direi. Há uma faísca nessa torcida em algum lugar; está quase apagada, mas ainda resta uma faísca. Veja a pradaria em fogo! Veja as chamas vindo em rolos! Veja riacho após riacho de fogo quente inundando a planície até que todo o continente esteja queimado e crestado — até que o céu fique avermelhado com a chama? A face negra da velha noite está cicatrizada pela queimadura, e as estrelas parecem aterrorizadas com o incêndio. Como essa massa foi inflamada? Por um pedaço de torcida que fumegava deixado cair por algum viajante, abanado pelo vento suave, até que toda a pradaria pegou fogo.

Assim, um homem pobre, um homem ignorante, um homem fraco, até mesmo um homem desviado, pode ser o meio de conversão de uma nação inteira. Quem sabe se você, que não é nada agora, não possa ser de mais uso do que aqueles de nós que parecem estar melhor diante de Deus, porque temos mais dons e talentos? Deus pode fazer uma faísca incendiar o mundo — Ele pode iluminar uma nação inteira com a faísca de uma pobre alma que ora.

Você pode ser útil ainda, portanto, mude de ânimo. O musgo cresce sobre as lápides, a hera apega-se à ruína que se desfaz, o visco cresce no galho morto e, da mesma forma, a graça, a piedade, a virtude, a santidade e a bondade virão da torcida que fumega e das canas quebradas.

II. Compaixão Divina

Assim, pois, meus queridos amigos, tentei encontrar as partes a quem este texto se destina e mostrei-lhes algo da fragilidade mortal. Agora subo um degrau mais alto — para a COMPAIXÃO DIVINA. "A cana quebrada não esmagará, a torcida que fumega não apagará."

Observem o que é dito em primeiro lugar, e depois deixem-me dizer-lhes que Jesus Cristo quer dizer muito mais do que diz. Em primeiro lugar, o que Ele diz? Ele diz claramente que não quebrará a cana quebrada. Há uma cana quebrada diante de mim — um pobre filho de Deus sob um profundo sentimento de pecado. Parece que o chicote da lei nunca vai parar. Continua, chibatada, chibatada, chibatada, e embora você diga: "Senhor, para com isso e dá-me um pouco de descanso", ainda desce a correia cruel, chibatada, chibatada, chibatada.

Você sente seus pecados. Ah! Sei o que você está dizendo esta manhã: "Se Deus continuar com isso mais um pouco, meu coração vai quebrar. Perirei em desespero, estou quase louco por causa do meu pecado. Se me deito à noite não consigo dormir, parece que há fantasmas no quarto — fantasmas dos meus pecados — e quando me acordo à meia-noite, vejo a forma negra da morte olhando para mim e dizendo: 'Você é minha presa, eu o terei', enquanto o inferno atrás parece arder".

Ah! Pobre cana quebrada, Ele não vai quebrar você. A convicção será forte demais, será grande o suficiente para derreter você e fazer você ir aos pés de Jesus, mas por ela não será forte o suficiente para quebrar seu coração completamente, de modo que você venha a morrer. Você nunca será levado ao desespero, mas será liberto, sairá do fogo, pobre cana quebrada, e não será quebrada.

Assim há um desviado aqui esta manhã; ele é como a torcida que fumega. Anos atrás você encontrou tanta felicidade nos caminhos do Senhor, e tanto deleite no Seu serviço, que disse: "Ali eu ficaria para sempre.

'Que horas de paz eu desfrutava então;

Quão doce é sua memória ainda!

Mas elas deixaram um vazio doloroso,

Que o mundo nunca poderá preencher.'"

Você está fumegando e pensa que Deus vai apagá-lo. Se eu fosse um arminiano, diria a você que Ele o faria, mas sendo um crente na Bíblia, e nada mais, digo-lhe que Ele não o apagará. Embora você esteja fumegando, não morrerá. Seja qual for o seu crime, o Senhor diz: "Voltai, ó filhos rebeldes, pois terei misericórdia de vós". Ele não o lançará fora, pobre Efraim, apenas volte para Ele — Ele não o desprezará, embora você tenha se mergulhado na lama e na sujeira, embora esteja coberto da cabeça aos pés com imundícia. Volte, pobre pródigo, volte, volte! Seu Pai o chama. Escute, pobre desviado! Venha imediatamente para Aquele cujos braços estão prontos para recebê-lo.

Diz que Ele não apagará — Ele não quebrará. Mas há mais sob disfarce do que vemos à primeira vista. Quando Jesus diz que não quebrará, Ele quer dizer mais do que isso. Ele quer dizer: "Pegarei aquela pobre cana quebrada, a plantarei junto às correntes de águas e (milagre dos milagres) a farei crescer em uma árvore cuja folha não murchará. Eu a regarei a cada momento. Eu a vigiarei. Haverá frutos celestiais nela. Manterei as aves de rapina longe dela, mas as aves do céu, os doces cantores do paraíso farão suas moradas em seus ramos".

Quando Ele diz que não quebrará a cana quebrada, quer dizer mais. Ele quer dizer que vai nutrir, que vai ajudar, fortalecer, apoiar e glorificar — que executará Sua comissão nela e a fará gloriosa para sempre. E quando Ele diz ao desviado que não o apagará, quer dizer mais do que isso — quer dizer que vai abaná-lo até virar chama.

Alguns de vocês, ouso dizer, foram para casa depois do culto e descobriram que o fogo quase se apagou. Sei como vocês lidam com isso — sopram suavemente a única faísca, se houver uma, e para não soprar com muita força, colocam os dedos diante dela, e se estivessem sozinhos e tivessem apenas um fósforo, ou uma faísca na mecha, quão suavemente a soprariam.

Assim, desviado, Jesus Cristo lida com você. Ele não o apaga, Ele sopra suavemente, Ele diz: "Não o apagarei". Ele quer dizer: "Serei muito terno, muito cauteloso, muito cuidadoso". Ele colocará material seco, de modo que, aos poucos, uma pequena faísca virará uma chama e brilhará em direção ao céu, e grande será o fogo dela.

Agora quero dizer uma ou duas coisas aos de Pouca-Fé esta manhã. Os filhinhos de Deus que são aqui mencionados como sendo canas quebradas ou torcidas que fumegam estão tão seguros quanto os grandes santos de Deus. Desejo por um momento expandir este pensamento e depois terminarei com o outro ponto.

Estes santos de Deus que são chamados de canas quebradas e torcidas que fumegam estão tão seguros quanto aqueles que são poderosos para o seu Mestre e grandes em força, por várias razões. Em primeiro lugar, o pequeno santo é tão eleito de Deus quanto o grande santo. Quando Deus escolheu Seu povo, Ele os escolheu todos de uma vez e juntos, e elegeu um tanto quanto o outro. Se eu escolher um certo número de coisas, uma pode ser menor do que o resto, mas uma é tão escolhida quanto a outra. E assim a Sra. Temerosa e a Sra. Desânimo são tão eleitas quanto o Grande-Coração ou o Velho Pai Honesto.

Novamente, os pequeninos são remidos igualmente com os grandes! Os santos fracos custaram a Cristo tanto sofrimento quanto os fortes; o menor filho de Deus não poderia ter sido comprado por menos do que o precioso sangue de Jesus, e o maior filho de Deus não Lhe custou mais. Paulo não custou mais do que Benjamim — tenho certeza de que não —, pois leio na Bíblia que "não há diferença".

Além disso, quando antigamente vinham pagar o dinheiro da redenção, cada pessoa trazia um siclo. O pobre não trazia menos e o rico não trazia mais do que exatamente um siclo. O mesmo preço foi pago por um e por outro. Agora, então, pequeno filho de Deus, leve esse pensamento para sua alma. Você vê alguns homens muito proeminentes na causa de Cristo — e é muito bom que sejam —, mas eles não custaram a Jesus um tostão a mais do que você. Ele pagou o mesmo preço por você que pagou por eles.

Lembre-se novamente: você é tão filho de Deus quanto o maior santo. Alguns de vocês têm cinco ou seis filhos. Há um filho seu, talvez, que é muito alto e bonito e tem, além disso, dons de mente. E você tem outro filho que é o menor da família, talvez com pouco intelecto e entendimento.

Mas qual é mais seu filho? "Mais!", diz você, "Ambos são meus filhos igualmente, certamente, um tanto quanto o outro". E assim, queridos amigos, vocês podem ter muito pouco aprendizado, podem ser muito obscuros sobre as coisas divinas, podem apenas "ver homens como árvores que andam", mas são tão filhos de Deus quanto aqueles que cresceram à estatura de homens em Cristo Jesus.

Então lembre-se, pobre santo provado, que você é tão justificado quanto qualquer outro filho de Deus. Sei que estou completamente justificado.

"Seu sangue e justiça

São minha beleza, meu traje glorioso."

Não quero outros vestidos, a não ser os feitos de Jesus e Sua justiça imputada.

O filho mais arrojado de Deus não quer mais, e eu, que sou "o menor de todos os santos", posso me contentar com nada menos, e não terei nada menos. Ó Pronto-para-Mancar, você é tão justificado quanto Paulo, Pedro, João Batista ou o mais elevado santo no céu. Não há diferença nessa matéria. Oh! Crie coragem e regozije-se.

Então mais uma coisa. Se você se perdesse, a honra de Deus ficaria tão manchada quanto se o maior se perdesse. Uma coisa estranha li uma vez em um livro antigo sobre os filhos e o povo de Deus serem parte de Cristo e estarem em união com Ele. O escritor diz: "Um pai está sentado em sua sala, e entra um estranho. O estranho pega um filho no colo e o filho tem um dedo doente, então ele diz: 'Meu filho, você tem um dedo doente.' 'Sim!' 'Bem, deixe-me tirá-lo e dar-lhe um de ouro!' O filho olha para ele e diz: 'Não vou mais até aquele homem, pois ele fala em tirar meu dedo. Eu amo meu próprio dedo e não terei um de ouro em vez dele'".

Assim o santo diz: "Sou um dos membros de Cristo, mas sou como um dedo doente, e Ele vai me tirar e colocar um de ouro". "Não", disse Cristo, "Não, não, não posso ter nenhum dos Meus membros cortado. Se o dedo está doente, eu o atarei. Eu o fortalecerei". Cristo não pode permitir uma palavra sobre cortar Seus membros.

Se Cristo perdesse um do Seu povo, Ele não seria mais um Cristo completo. Se o menor dos Seus filhos pudesse ser lançado fora, faltaria a Cristo uma parte de Sua plenitude. Sim, Cristo estaria incompleto sem a Sua igreja. Se um dos Seus filhos tivesse que se perder, seria melhor que fosse um grande do que um pequeno.

Se um pequenino se perdesse, Satanás diria: "Ah! Tu salvas os grandes, porque eles tinham força e podiam se ajudar, mas o pequenino que não tem força, Tu não pudeste salvá-lo". Vocês sabem o que Satanás diria, mas Deus fecharia a boca de Satanás, proclamando: "Estão todos aqui, Satanás, apesar da tua malícia, estão todos aqui. Cada um está a salvo; agora deita-te na tua toca para sempre e sê acorrentado eternamente em cadeias, e fumega no fogo!". Assim sofrerá ele o tormento eterno, mas nenhum filho de Deus jamais sofrerá.

Mais um pensamento e terei terminado este ponto. A salvação dos grandes santos muitas vezes depende da salvação dos pequenos. Vocês entendem isso? Vocês sabem que a minha salvação, ou a salvação de qualquer filho de Deus, olhando para as causas secundárias, depende muito da conversão de outra pessoa. Suponha que sua mãe seja o meio de sua conversão; você, falando à maneira dos homens, diria que sua conversão dependeu da dela — pois o fato de ela ter sido convertida fez dela o instrumento para trazer você.

Suponha que este ou aquele ministro seja o meio do seu chamamento. Então sua conversão, em certo sentido, embora não absolutamente, depende da dele. Assimcontece muitas vezes que a salvação dos servos mais poderosos de Deus depende da conversão dos pequeninos. Há uma pobre mãe, ninguém jamais sabe nada sobre ela. Ela vai à casa de Deus, seu nome não está nos jornais, nem em lugar nenhum. Ela ensina seu filho e o cria no temor de Deus.

Ela ora por aquele menino, ela luta com Deus, e suas lágrimas e orações se misturam. O menino cresce. O que ele é? Um missionário — um William Knibb — um Moffat — um Williams. Mas você não ouve nada sobre a mãe. Ah! Mas se a mãe não tivesse sido salva, onde estaria o menino? Que isto alegre os pequeninos, e que vocês se regozijem de que Ele os nutrirá e os guardará, embora sejam como canas quebradas e torcidas que fumegam.

III. Vitória Certa

Agora, para terminar, há uma VITÓRIA CERTA. "Até que faça triunfar o juízo."

Vitória! Há algo belo nessa palavra. A morte de Sir John Moore, na Guerra Peninsular, foi muito comovente. Ele caiu nos braços do triunfo e, por mais triste que tenha sido o seu destino, não duvido de que seu olho se iluminou de brilho pelo brado de vitória.

Da mesma forma, suponho que Wolfe disse uma verdade quando afirmou: "Morro feliz", tendo pouco antes ouvido o brado: "Eles correm, eles correm". Sei que a vitória, mesmo nesse sentido ruim — pois não considero as vitórias terrenas de valor algum —, deve ter animado o guerreiro.

Mas oh! Quão animado fica o santo quando sabe que a vitória é sua! Lutarei durante toda a minha vida, mas escreverei "Venci" em meu escudo. Serei "mais que vencedor por meio daquele que me amou". Cada santo fraco vencerá o dia, cada homem em suas muletas, cada um que é coxo, cada um cheio de enfermidade, tristeza, doença e fraqueza obterá a vitória.

"Eles virão a Sião com cantos"

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O CONSOLADOR

 


Nº 5

UM SERMÃO

PREGADO NA NOITE DE SÁBADO, 21 DE JANEIRO DE 1855

PELO REV. C. H. SPURGEON

NA CAPELA DA NOVA RUA DO PARQUE, SOUTHWARK

“Mas aquele Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.”

— João 14:26

O bom e velho Simeão chamou Jesus de a consolação de Israel, e Ele o era de fato. Antes de Sua aparição visível, Seu nome era a Estrela da Manhã — consolando as trevas e profetizando o sol nascente. Para Ele olhavam com a mesma esperança que alegra o vigia noturno, quando, do alto da torre solitária, avista a mais bela das estrelas e a saúda como a mensageira da alvorada.

Quando Ele esteve na terra, certamente foi a consolação de todos aqueles que tiveram o privilégio de ser Seus companheiros. Podemos imaginar com que prontidão os discípulos corriam para Cristo a fim de lhe contar suas aflições, e com que doçura, com aquela entonação inigualável de Sua voz, Ele lhes falava e mandava embora os seus temores.

Como crianças, viam-no como seu Pai, e a Ele levavam imediatamente cada necessidade, cada gemido, cada tristeza, cada agonia. E Ele, como um médico sábio, tinha um bálsamo para cada ferida, um cordial preparado para cada preocupação, e prontamente dispensava um remédio poderoso para aplacar toda a febre de suas tribulações.

Oh! Deve ter sido doce viver com Cristo. Com certeza, as tristezas daquela época não passavam de alegrias mascaradas, porque davam a oportunidade de ir a Jesus para removê-las. Oh!, alguns de nós podem dizer: “Quem dera pudéssemos ter deitado nossas cabeças cansadas no peito de Jesus, e que tivéssemos nascido nessa feliz era em que poderíamos ter ouvido a Sua voz bondosa e visto o Seu olhar amoroso, quando Ele disse: ‘Deixai vir a mim os cansados’”.

Mas agora Ele estava prestes a morrer. Grandes profecias deviam se cumprir, e grandes propósitos deviam ser alcançados; por isso, Jesus precisava ir. Convinha que Ele sofresse, para que se tornasse propiciação pelos nossos pecados. Convinha que Ele repousasse no pó por um momento, para perfumar a câmara da sepultura e torná-la —

“Não mais um ossuário para guardar

As relíquias da inocência perdida.”

Convinha que Ele ressuscitasse, para que nós, que um dia seremos os mortos em Cristo, ressuscitássemos primeiro e, em corpos gloriosos, estivéssemos sobre a terra. E convinha que Ele subisse às alturas, para levar cativo o cativeiro, acorrentar os demônios do inferno, arrastá-los até as rodas de sua carruagem e elevá-los ao monte do alto céu, fazendo-os sentir uma segunda derrota de seu braço direito quando os precipitasse dos pináculos do céu para as mais profundas profundezas abaixo.

“Convém que eu vá para os meus”, disse Jesus, “porque, se eu não for, o Consolador não virá”. Jesus tem de ir. Chorai, ó discípulos. Jesus tem de partir. Pranteai, ó pobres que sereis deixados sem Consolador. Mas ouvi com que bondade Jesus fala: “Não vos deixarei órfãos; andarei para o Pai, e ele vos enviará outro Consolador, que convive convosco e estará em vós para sempre”.

Ele não deixaria aquelas poucas ovelhas pobres sozinhas no deserto, não abandonaria Seus filhos nem os deixaria órfãos. Ainda que tivesse uma missão grandiosa que enchia o Seu coração e as Suas mãos, ainda que tivesse tanto a realizar que poderíamos pensar que até o Seu intelecto gigantesco ficaria sobrecarregado, ainda que tivesse tanto a sofrer a ponto de supormemos que toda a Sua alma estivesse concentrada na ideia dos sofrimentos a serem suportados — contudo, não foi assim.

Antes de partir, Ele proferiu palavras consoladoras. Como o bom samaritano, Ele derramou azeite e vinho, e vemos o que prometeu: “Enviar-vos-ei outro Consolador — alguém que será exatamente o que eu fui, sim, ainda mais, que vos consolará em vossas tristezas, removerá vossas dúvidas, confortará vossas aflições e agirá como Meu vigírio na terra, para fazer aquilo que eu teria feito, caso houvesse permanecido convosco”.

Antes de falar sobre o Espírito Santo como o Consolador, devo fazer uma ou duas observações sobre as diferentes traduções da palavra vertida como “Consolador”. A tradução de Reims, como sabeis, adotada pelos católicos romanos, deixou a palavra sem tradução e a verteu como “Paráclito”. “Mas o Paráclito, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas”.

Esta é a palavra grega original, e ela possui outros significados além de “Consolador”. Às vezes, significa o monitor ou instrutor: “Enviar-vos-ei outro monitor, outro mestre”. Frequentemente significa “Advogado”, mas o significado mais comum da palavra é o que temos aqui: “Enviar-vos-ei outro Consolador”. Contudo, não podemos passar por essas outras duas interpretações sem dizer algo a respeito delas.

“Enviar-vos-ei outro mestre”. Jesus Cristo havia sido o mestre oficial de Seus santos enquanto esteve na terra. Eles não chamavam homem algum de Rabi, exceto a Cristo. Não se sentavam aos pés de homem algum para aprender doutrinas, mas as recebiam diretamente dos lábios Daquele que “falou como nunca nenhum homem falou”. “E agora”, diz Ele, “quando eu me for, onde encontrareis o grande mestre infalível? Estabelecerei para vós um Papa em Roma, a quem ireis e que será vosso oráculo infalível? Darei a vós os concílios da igreja reunidos para decidir todas as questões espinhosas?”. Cristo não disse nada disso.

“Eu sou o paráclito ou mestre infalível, e quando eu partir, enviar-vos-ei outro mestre, e Ele será a pessoa que explicará as Escrituras. Ele será o oráculo autoritativo de Deus, que tornará claras todas as coisas obscuras, desatará mistérios, desmanchará todos os nós da revelação e fará com que compreendais o que não poderíeis descobrir, se não fosse pela Sua influência”.

E, amados, nenhum homem aprende algo retamente, a menos que seja ensinado pelo Espírito. Podeis aprender a eleição, e podeis conhecê-la de tal maneira que sejais condenados por ela, se não fores ensinados pelo Espírito Santo. Pois eu tenho conhecido alguns que aprenderam a eleição para a destruição de suas próprias almas. Aprenderam-na de modo a dizer que eram dos eleitos, quando, na verdade, não tinham marcas, nem evidências, nem a obra do Espírito Santo em suas almas. Há um modo de aprender a verdade na faculdade de Satanás e retê-la em libertinagem, mas, se assim for, isso será para vossas almas como veneno em vossas veias, provando a vossa ruína eterna.

Nenhum homem pode conhecer a Jesus Cristo a menos que seja ensinado por Deus. Não há doutrina na Bíblia que possa ser aprendida com segurança, profundidade e verdade, exceto pela agência do único mestre autoritativo. Ah! Não me faleis de sistemas de divindade, não me faleis de esquemas de teologia, não me faleis de comentaristas infalíveis, de doutores mui letrados e arrogantes; mas falai-me do Grande Mestre, que nos instruirá, aos filhos de Deus, e nos tornará sábios para compreender todas as coisas. Ele é o Mestre; pouco importa o que este ou aquele homem diga, eu não me apoio na autoridade jactanciosa de homem algum, e vós tampouco. Não vos deixareis levar pela astúcia dos homens nem pela capciosidade das palavras. Este é o oráculo autoritativo: o Espírito Santo habitando nos corações de Seus filhos.

A outra tradução é advogado. Já pensastes em como se pode dizer que o Espírito Santo é um advogado? Sabeis que Jesus Cristo é chamado de Maravilhoso, Conselheiro e Deus Forte, mas como se pode dizer que o Espírito Santo é um advogado? Suponho que seja assim: Ele é um advogado na terra para pleitear contra os inimigos da cruz.

Como foi que Paulo pôde pleitear tão habilmente perante Félix e Agripa? Como foi que os apóstolos permaneceram destemidos perante os magistrados e confessaram o seu Senhor? Como tem acontecido que, em todos os tempos, os ministros de Deus têm sido feitos corajosos como leões, com testas mais firmes que o bronze, corações mais severos que o aço e palavras semelhantes à linguagem de Deus?

Ora, isso se deve simplesmente a esta razão: não era o homem que pleiteava, mas Deus, o Espírito Santo, pleiteando por intermédio dele. Nunca vistes um ministro fervoroso, com as mãos erguidas e os olhos derramando lágrimas, pleiteando com os filhos dos homens? Nunca admirastes aquele retrato saído das mãos do velho John Bunyan? Uma pessoa grave, com os olhos voltados para o céu, o melhor dos livros na mão, a lei da verdade escrita em seus lábios, o mundo às suas costas, postada como quem pleiteia com os homens, com uma coroa de ouro pendurada sobre a cabeça.

Quem deu a esse ministro um comportamento tão abençoado e uma matéria tão excelente? De onde veio a sua habilidade? Adquiriu-a na faculdade? Aprendeu-a num seminário? Ah! Não, ele aprendeu-a com o Deus de Jacó. Aprendeu-a com o Espírito Santo, pois o Espírito Santo é o grande conselheiro que nos ensina a pleitear bem a Sua causa.

Mas, além disso, o Espírito Santo é o advogado nos corações dos homens. Ah! Tenho conhecido homens que rejeitavam uma doutrina até que o Espírito Santo começou a iluminá-los. Nós, que somos os advogados da verdade, somos frequentemente péssimos defensores. Estragamos a nossa causa com as palavras que usamos, mas é uma misericórdia que a causa esteja nas mãos de um advogado especial, que pleiteará com sucesso e vencerá a oposição do pecador. Acaso já O vistes falhar uma única vez?

Irmãos, dirijo-me às vossas almas: porventura Deus, em tempos passados, não vos convenceu do pecado? O Espírito Santo não veio e provou que éreis culpados, embora nenhum ministro jamais pudesse arrancar-vos da vossa própria justiça? Ele não defendeu a justiça de Cristo? Não veio dizer-vos que as vossas obras eram trapos imundos? E quando quase continuastes a recusar ouvir a Sua voz, não buscou Ele o tambor do inferno e o fez ressoar aos vossos ouvidos, ordenando-vos que olhásseis através da perspectiva dos anos futuros e vísseis o trono estabelecido, os livros abertos, a espada desembainhada, o inferno ardendo, os demônios uivando e os condenados gritando para sempre? E não foi assim que Ele vos convenceu do juízo vindouro?

Ele é um poderoso advogado quando pleiteia na alma — do pecado, da justiça e do juízo vindouro. Bendito advogado! Pleiteia no meu coração, pleiteia com a minha consciência. Quando eu pecar, torna a consciência ousada para mo dizer. Quando eu errar, faze com que a consciência fale imediatamente; e quando eu me desviar para caminhos tortuosos, defende então a causa da justiça e faze-me sentar em confusão, reconhecendo a minha culpa perante Deus.

Mas há ainda outro sentido em qual o Espírito Santo advoga: Ele advoga a nossa causa perante Jesus Cristo, com gemidos inexprimíveis. Ó minha alma, estás prestes a romper dentro de mim! Ó meu coração, estás inchado de gotejante aflição; a maré escaldante da minha emoção quase transbordaria os canais das minhas veias. Anseio falar, mas o próprio desejo acorrenta a minha língua. Desejo orar, mas o fervor do meu sentimento refreia a minha linguagem.

Há um gemido interior que não pode ser expresso. Sabeis quem pode exprimir esse gemido, quem pode compreendê-lo, quem pode transformá-lo em linguagem celestial e proferi-lo numa língua angélica para que Cristo o ouça? Oh! Sim, é Deus, o Espírito Santo. Ele advoga a nossa causa perante Cristo, e então Cristo a advoga perante Seu Pai. Ele é o advogado que intercede por nós com gemidos inexprimíveis.

Tendo explicado assim o ofício do Espírito como mestre e advogado, passamos agora à tradução da nossa versão: o Consolador. E aqui terei três divisões: Primeiro, o Consolador; segundo, o consolo; e terceiro, os consolados.

I. Primeiro, então, o CONSOLADOR.

Deixai-me passar brevemente, em minha mente e na vossa, pelas características deste glorioso Consolador. Deixai-me contar alguns dos atributos do Seu consolo, para que possais compreender quão bem adaptado Ele é ao vosso caso.

Primeiramente, notemos que Deus, o Espírito Santo, é um Consolador muito amoroso. Estou em aflição e preciso de consolação. Um transeunte qualquer ouve a minha dor, entra, senta-se e esforça-se por me animar. Proferem palavras consoladoras, mas ele não me ama; é um estranho, não me conhece de modo algum, veio apenas para testar a sua habilidade — e qual é a consequência? As suas palavras deslizam sobre mim como óleo sobre uma laje de mármore; são como a chuva miúda batendo na rocha. Não quebram o meu pesar, que permanece inabalável como um diamante, porque ele não tem amor por mim.

Mas que alguém que me ama ternamente como à sua própria vida venha e interceda comigo — então, verdadeiramente, as suas palavras são música. Têm sabor de mel. Ele conhece a senha das portas do meu coração, e o meu ouvido está atento a cada palavra. Capturo a entonação de cada sílaba à medida que cai, pois é como a harmonia das harpas do céu.

Oh! Há uma voz no amor; ele fala uma linguagem que lhe é própria; possui um idioma e um sotaque que ninguém pode imitar — a sabedoria não o pode imitar, a oratória não o pode alcançar. Apenas o amor pode alcançar o coração enlutado; o amor é o único lenço capaz de enxugar as lágrimas do aflito. E não é o Espírito Santo um Consolador amoroso?

Sabeis, ó santo, quanto o Espírito Santo vos ama? Podeis medir o amor do Espírito? Sabeis quão grande é a aflição da Sua alma para convosco? Ide, medi o céu com o vosso palmo. Ide, pesai os montantes nas balanças. Ide, apanhai as águas do oceano e contai cada gota. Ide, contai a areia na vasta margem do mar; e, quando tiverdes realizado isso, podereis dizer o quanto Ele vos ama. Ele vos ama há muito tempo, ama-vos bem, amou-vos desde sempre e continuará a amar-vos. Certamente Ele é a pessoa idônea para vos consolar, porque ama. Acolhei-O, pois, em vosso coração, ó cristão, para que Ele vos console em vossa angústia.

Mas, em seguida, Ele é um Consolador fiel. O amor, às vezes, mostra-se infiel. “Oh!, mais cortante do que dente de serpente” é um amigo infiel! Oh!, muito mais amargo do que o fel da amargura é ter um amigo que se aparta de mim na minha angústia! Oh!, desgraça das desgraças, ter alguém que me ama na prosperidade e me abandona nos dias sombrios da tribulação!

Triste, deveras, mas não é assim com o Espírito de Deus. Ele ama sempre, e ama até o fim — um Consolador fiel. Filho de Deus, estás em dificuldades. Há pouco tempo O achaste um Consolador doce e amoroso; obtiviste alívio d’Ele quando os outros não passavam de cisternas rotas. Ele te abrigou no Seu seio e te carregou em Seus braços.

Oh!, por que duvidas d’Aquele agora? Longe de ti os teus temores! Pois Ele é um Consolador fiel. “Ah, mas”, dizes tu, “temo ficar enfermo e privado das Suas ordenanças”. Contudo, Ele te visitará no teu leito de enfermidade e sentar-se-á ao teu lado para dar-te consolação. “Ah, mas tenho angústias maiores do que podes conceber; vaga sobre vaga passa por cima de mim, um abismo chama outro abismo ao ruído das trombas d'água do Eterno”. Não obstante, Ele será fiel à Sua promessa.

“Ah, mas eu pequei”. É verdade, mas o pecado não pode separar-vos do Seu amor; Ele vos ama ainda. Não penseis, ó pobre filho de Deus abatido, porque as cicatrizes dos vossos velhos pecados mancharam a vossa beleza, que Ele vos ama menos por causa dessa mancha. Oh, não! Ele vos amou quando previu o vosso pecado. Amou-vos sabendo qual seria o total da vossa maldade, e não vos ama menos agora.

Vinde a Ele com toda a ousadia da fé, dizei-lhe que o crestes magoar, e Ele esquecerá o vosso desvio, acolhendo-vos novamente. Os beijos do Seu amor vos serão outorgados, e os braços da Sua graça vos abraçarão. Ele é fiel; confiai n'Ele, pois nunca vos enganará; confiai n'Ele, pois jamais vos abandonará.

Novamente, Ele é um Consolador infatigável. Às vezes, tenho tentado consolar pessoas que têm sido provadas. De vez em quando, deparais com o caso de uma pessoa nervosa. Perguntais: “Qual é a sua aflição?”. Dizem-vos, e tentais, se possível, removê-la; mas, enquanto preparais a vossa artilharia para bombardear o problema, percebeis que ele mudou de quartel e está ocupando uma posição totalmente diferente.

Mudais de argumento e recomeçais, mas eis que ele sumiu de novo, e ficais perplexos. Sentis-vos como Hércules cortando as cabeças sempre renovadas da Hidra, e abandonais a tarefa em desespero. Encontrais pessoas que são impossíveis de consolar, fazendo lembrar o homem que se trancou em grilhões e jogou a chave fora, de modo que ninguém o podia destrancar.

Tenho achado alguns presos nos grilhões do desespero. “Ó, eu sou o homem”, dizem eles, “que viu a aflição; compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ó meus amigos”; e, quanto mais tentais consolar tais pessoas, pior elas ficam. Por isso, sem coração algum, deixamo-las vaguear sozinhas entre os túmulos de suas alegrias passadas.

Mas o Espírito Santo nunca perde o ânimo com aqueles a quem deseja consolar. Ele tenta consolar-nos, e nós fugimos do doce cordial. Ele nos dá uma bebida suave para nos curar, e nós não queremos bebê-la. Ele nos dá uma poção maravilhosa para afastar todos os nossos problemas, e nós a afastamos de nós. Ainda assim, Ele nos persegue; e embora digamos que não queremos ser consolados, Ele diz que seremos — e o que Ele diz, Ele cumpre. Ele não se cansa de todos os nossos pecados, nem de todas as nossas murmurações.

E oh, quão sábio é o Consolador, o Espírito Santo! Jó teve consoladores, e creio que disse a verdade quando afirmou: “Miseráveis consoladores sois todos vós”. Mas atrevo-me a dizer que eles se julgavam sábios. E quando o jovem Eliú se levantou para falar, julgaram que ele tinha um mundo de audácia. Acaso não eram “anciãos graves e reverendos”? Não compreendiam eles o seu lamento e a sua dor? Se eles não o podiam consolar, quem poderia?

Mas não descobriram a causa. Pensavam que ele não era verdadeiramente um filho de Deus, que era egoísta e pretensioso, e deram-lhe o remédio errado. É um caso grave quando o médico confunde a doença e receita a prescrição incorreta, acabando, porventura, por matar o paciente. Às vezes, quando visitamos pessoas, erramos o diagnóstico; queremos consolar num ponto, quando elas não precisam de tal consolo, e seria melhor deixá-las sozinhas do que estragá-las com consoladores tão insensatos quanto nós.

Mas oh, quão sábio é o Espírito Santo! Ele toma a alma, deita-a sobre a mesa e a disseca num instante. Descobre a raiz do assunto, vê onde está a enfermidade, aplica o bisturi onde algo precisa ser cortado ou põe um curativo onde a ferida está; e Ele nunca se engana. Oh, quão sábio é o bendito Espírito Santo! De todo consolador eu me afasto e os abandono a todos, porque Tu és Aquele que dás sozinho a mais sábia consolação.

Notai, então, quão seguro é o Consolador, o Espírito Santo. Nem todo consolo é seguro, reparai bem nisso. Há um jovem ali muito melancólico. Sabeis como ele ficou assim? Entrou na casa de Deus, ouviu um pregador poderoso, a palavra foi abençoada e convenceu-o do pecado. Quando foi para casa, seu pai e os demais viram que havia algo diferente nele. “Oh”, disseram, “o João está maluco, está louco”; e o que disse a mãe? “Mandai-o para o campo por uma semana, deixai-o ir ao baile ou ao teatro”.

João! Encontraste algum consolo lá? “Ah, não, eles pioraram a minha situação, pois enquanto eu estava lá, pensei que o inferno pudesse se abrir e me tragar”. Encontraste algum alívio nas futilidades do mundo? “Não”, dizeis vós, “achei que era uma perda inútil de tempo”. Ai, este é um consolo miserável, mas é o consolo do mundano; e quando um cristão entra em aflição, quantos lhe recomendam este ou aquele remédio!

“Vai ouvir o fulano pregar, chama alguns amigos para tua casa, lê este ou aquele volume consolador”; e, muito provavelmente, este é o conselho mais perigoso do mundo. O diabo, às vezes, aproxima-se das almas humanas como um falso consolador, dizendo à alma: “Que necessidade há de tanto alvoroço acerca do arrependimento? Não és pior do que os outros”; e ele tentará fazer com que a alma creia que aquilo que é presunção constitui a verdadeira segurança do Espírito Santo — enganando assim a muitos com falsos confortos.

Ah, muitos foram destruídos, como crianças, por elixires dados para adormecê-las; muitos foram arruinados pelo grito de “Paz, paz”, quando não há paz, ouvindo palavras doces quando deveriam ser despertados profundamente. A áspide de Cleópatra foi trazida numa cesta de flores, e a ruína dos homens amiúde espreita em discursos belos e doces. Mas o consolo do Espírito Santo é seguro, e nele vos podeis estribar. Deixai-O proferir a palavra, e haverá uma realidade nisso. Deixai-O dar o cálice da consolação, e podereis bebê-lo até o fundo, pois em suas profundezas não há borra, nada que embriague ou arruine; tudo é seguro.

Além disso, o Espírito Santo é um Consolador ativo; Ele não consola com palavras, mas com atos. Alguns consolam dizendo: “Aquecei-vos e fartai-vos”, sem dar coisa alguma. Mas o Espírito Santo dá; Ele intercede junto a Jesus, dá-nos promessas, dá-nos graça, e assim nos consola. Notai ainda que Ele é sempre um Consolador bem-sucedido; nunca tenta aquilo que não pode realizar.

Para concluir, Ele é um Consolador sempre presente, de modo que nunca precisais mandar chamá-Lo. O vosso Deus está sempre perto de vós; e, quando necessitais de consolo na vossa aflição, eis que a palavra está perto de vós, na vossa boca e no vosso coração. Ele é um socorro bem presente na hora da angústia. Quem me dera ter tempo para expandir estes pensamentos, mas não o tenho.

II. A segunda coisa é o CONSOLO.

Existem algumas pessoas que cometem um grande erro quanto à influência do Espírito Santo. Um homem insensato, que tinha o capricho de pregar em um determinado púlpito, embora fosse de fato totalmente incapaz para a tarefa, procurou o ministro e assegurou-lhe solenemente que lhe fora revelado pelo Espírito Santo que devia pregar naquele púlpito.

“Muito bem”, disse o ministro, “suponho que não deva duvidar da tua afirmação, mas, como não me foi revelado que devo deixar-te pregar, deves seguir o teu caminho até que o seja”. Tenho ouvido muitas pessoas fanáticas dizerem que o Espírito Santo lhes revelou isto e aquilo. Ora, isso é, em geral, uma tolaria revelada.

O Espírito Santo não revela nada de novo atualmente. Ele traz à nossa memória as coisas antigas. “Ele vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”.

O cânon da revelação está fechado. Nada mais há a ser acrescentado. Deus não concede uma nova revelação, mas consolida a antiga. Quando ela foi esquecida e deixada na câmara empoeirada de nossa memória, Ele a retira e limpa o quadro, mas não pinta um novo. Não há novas doutrinas, mas as antigas são frequentemente reavivadas.

Não é, repito, por nenhuma nova revelação que o Espírito consola. Ele o faz dizendo-nos de novo as coisas velhas. Ele traz uma nova lâmpada para manifestar os tesouros escondidos nas Escrituras. Ele destranca os cofres fortes onde a verdade jazia há muito tempo e aponta para câmaras secretas repletas de riquezas incontáveis. Mas Ele não cunha moedas novas, pois já foi feito o suficiente.

Crente! Há o suficiente na Bíblia para viveres eternamente. Se ultrapassasses os anos de Matusalém, não haveria necessidade de uma nova revelação. Se vivesses até que Cristo viesse à terra, não haveria necessidade de acrescentar uma única palavra. Se descesses tão fundo quanto Davi, ou descessem as profundezas como Jonas disse ter descido, no ventre do inferno, ainda assim haveria o suficiente na Bíblia para te consolar sem uma sentença suplementar. Mas Cristo diz: “Ele há de tomar do que é meu e vo-lo há de anunciar”. Deixai-me contar-vos brevemente o que o Espírito Santo nos diz.

Ah! Não sussurra Ele ao coração: “Santo, tem bom ânimo, há alguém que morreu por ti. Olha para o Calvário, contempla as Suas feridas, vê a torrente jorrando do Seu lado. Ali está o teu resgatador, e estás seguro. Ele te ama com um amor eterno, e este castigo visa ao teu bem. Cada golpe está operando a tua cura; pela contusão da ferida, a tua alma é sarada. ‘Porque o Senhor corrige a quem ama, e açoita a todo o filho a quem recebe’”?

Não duvides da Sua graça por causa da tua tribulação, mas crê que Ele te ama tanto nas estações de aflição quanto nos tempos de felicidade. E além disso, Ele diz: “O que é todo o teu sofrimento comparado ao do teu Senhor? Ou o que é, quando pesado nas balanças das agonias de Jesus, toda a tua aflição?”.

Especialmente em certos momentos, o Espírito Santo retira o véu do céu e deixa a alma contemplar a glória do mundo celestial! É então que o santo pode exclamar: “Oh! És um Consolador para mim!”.

“Venham cuidados como um dilúvio bravo,

E tempestades de dor caiam sem fim;

Contanto que eu chegue ao lar seguro e a salvo,

Meu Deus, meu céu, meu tudo são para mim.”

Alguns de vós poderíeis acompanhar-me se eu falasse das manifestações do céu. Vós também deixastes o sol, a lua e as estrelas sob os vossos pés, enquanto, em vosso voo, ultrapassando o relâmpago tardio, parecestes entrar pelas portas de pérolas e caminhar pelas ruas de ouro, arrebatados nas asas do Espírito. Mas aqui não devemos confiar em nós mesmos, para que, perdidos em devaneios, não esqueçamos o nosso tema.

III. E agora, em terceiro lugar, quem são as pessoas CONSOLADAS?

Gosto, como sabeis, no final do meu sermão, de clamar: “Dividi! Dividi!”. Há duas partes aqui: alguns que são os consolados e outros que são os desamparados — alguns que receberam a consolação do Espírito Santo e outros que não a receberam. Agora, leiamos e cernamos para ver quem é a palha e quem é o trigo; e que Deus conceda que parte da palha possa esta noite ser transformada em Seu trigo.

Poderíeis dizer: “Como hei de saber se sou recipiente do consolo do Espírito Santo?”. Podes sabê-lo por uma regra. Se recebeste uma bênção de Deus, receberás também todas as demais bênçãos. Deixai-me explicar. Se eu pudesse vir aqui como um leiloeiro e vender o Evangelho em lotes, eu o disporia todo.

Se eu pudesse dizer que aqui há justificação mediante o sangue de Cristo, gratuita, dada de graça — muitos diriam: “Eu quero a justificação, dai-ma, eu desejo ser justificado, desejo ser perdoado”. Suponhamos que eu tomasse a santificação: a renúncia a todo o pecado, uma mudança radical de coração, o abandono da embriaguez e dos juramentos — muitos diriam: “Eu não quero isso, eu gostaria de ir para o céu, mas não quero essa santidade. Gostaria de ser salvo no fim, mas quero continuar com a minha bebida. Gostaria de entrar na glória, mas tenho de soltar um ou dois palavrões no caminho”.

Não, porém, pecador; se tens uma bênção, terás todas. Deus nunca dividirá o Evangelho. Ele não dará a justificação a este homem e a santificação a outro. O perdão a um e a santidade a outro. Não, tudo anda junto. A quem ele chamou, a esses também justificou; e a quem justificou, a esses também glorificou.

Oh, se eu pudesse expor nada além dos confortos do Evangelho, correríeis para eles como as moscas para o mel. Quando adoeceis, chamais o clérigo. Ah! Todos quereis que o vosso ministro venha então dar-vos palavras de consolo. Mas, se ele for um homem honesto, não vos dará sequer uma partícula de consolação. Ele não começará a derramar azeite quando o bisturi seria muito melhor.

Eu quero fazer o homem sentir os seus pecados antes de ousar dizer-lhe qualquer coisa a respeito de Cristo. Quero sondar a sua alma e fazê-lo sentir que está perdido antes de lhe falar sobre a bênção adquirida. É a ruína de muitos dizer-lhes: “Agora, basta crer em Cristo, e isso é tudo o que tendes a fazer”. Se, em vez de morrerem, eles melhoram, erguem-se como hipócritas caiados — e é só isso.

Ouvi falar de um missionário urbano que mantinha um registro de duas pessoas que se supunha estarem em seus leitos de morte, mas que se recuperaram, e as quais ele teria considerado como pessoas convertidas se tivessem morrido. E quantos pensais que viveram uma vida cristã posteriormente, dentre esses dois milhares? Nem dois! Positivamente, ele só conseguiu encontrar um que passou a viver depois no temor de Deus.

Não é horrível que, quando homens e mulheres estão prestes a morrer, clamem: “Consolo, consolo!”, e que, a partir daí, os seus amigos concluam que eles são filhos de Deus, quando no fim não têm direito algum à consolação, sendo apenas intrusos nos terrenos cercados do Deus bendito? Ó Deus, que estas pessoas sejam sempre impedidas de ter consolo quando não têm direito a ele!

Possuís as outras bênçãos? Tendes tido convicção de pecado? Já sentistes a vossa culpa perante Deus? Foram as vossas almas humilhadas aos pés de Jesus? Fostes levados a olhar unicamente para o Calvário em busca de refúgio? Se não, não tendes direito algum à consolação. Não tomeis sequer um átomo dela. O Espírito é um Convencedor antes de ser um Consolador, e deveis passar pelas demais operações do Espírito Santo antes de poderdes extrair qualquer proveito disto.

E agora terminei. Ouvistes mais uma vez o que este tagarela disse. O que foi? Algo acerca do Consolador. Mas deixai-me perguntar-vos, antes de partirdes: que sabeis vós acerca do Consolador? Cada um de vós, antes de descer os degraus desta capela, permita que esta solene pergunta ressoe através de vossas almas: “Que sabeis vós do Consolador?”.

Ó almas pobres, se não conheceis o Consolador, direi o que vireis a conhecer: conhecereis o Juiz! Se não conheces o Consolador na terra, conhecerás o Condenador no mundo vindouro, que clamará: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Com razão Whitefield exclamava: “Ó terra, terra, terra, ouvi a Palavra do Senhor!”. Se vivêssemos aqui para sempre, poderíeis desprezar o Evangelho. Se tivésseis um contrato vitalício para as vossas vidas, poderíeis menosprezar o Consolador. Mas, senhores, tendes de morrer.

Desde a última vez que nos reunimos, provavelmente alguns partiram para a sua morada eterna, e antes que nos encontremos novamente neste santuário, alguns aqui estarão entre os glorificados lá em cima ou entre os condenados lá embaixo. Qual será? Deixai que a vossa alma responda. Se hoje à noite caísseis mortos em vossos bancos, ou onde estais em pé na galeria, onde estaríeis? No céu ou no inferno?

Ah, não vos enganeis; deixai que a consciência faça a sua obra perfeita e, se, à vista de Deus, sois obrigados a dizer: “Tremeu-me a alma e receio que a minha porção seja com os incrédulos”, ouvi por um instante, e então me despeço de vós: “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado”.

Pecador cansado, pecador infernal, tu que és o rejeitado do diabo, réprobo, prostituto, prostituta, ladrão, ladrão contumaz, adúltero, fornicador, bêbado, blasfemo, profanador do sábado — ouve! Falo contigo assim como com os demais. Não isento homem algum. Deus declarou que aqui não há isenção: “Todo aquele que crê no nome de Jesus Cristo será salvo”.

O pecado não é barreira, a tua culpa não é obstáculo. Todo aquele — ainda que fosse tão negro quanto Satanás, ainda que fosse imundo como um demônio —, todo aquele que crer esta noite, terá cada pecado perdoado, cada crime apagado, cada iniquidade blotada; será salvo no Senhor Jesus Cristo e permanecerá no céu são e salvo. Este é o glorioso Evangelho.

Que Deus o aplique aos vossos corações e vos dê fé em Jesus!

“Ouvimos já o pregador

A pura verdade mostrar;

Mas precisamos de um MAIOR MESTRE,

Vindo do trono tutelar:

A APLICAÇÃO

É obra só do Deus sem par.”

Extraído da coleção The Metropolitan Tabernacle Pulpit, de C. H. Spurgeon. Apenas as alterações necessárias foram feitas, tais como a correção de erros ortográficos, uso de pontuação, capitalização dos pronomes divinos e uma atualização mínima de algumas palavras arcaicas. O conteúdo é na íntegra. Recursos adicionais baseados na Bíblia estão disponíveis em www.spurgeongems.org.

domingo, 27 de setembro de 2026

A PERSONALIDADE DO ESPÍRITO SANTO

 


O Púlpito de New Park Street 1

A PERSONALIDADE DO ESPÍRITO SANTO

Nº 4

UM SERMÃO PREGADO NA MANHÃ DE DOMINGO, 21 DE JANEIRO DE 1855 PELO REV. C. H. SPURGEON NA CAPELA DE NEW PARK STREET, SOUTHWARK

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.” — João 14:16-17

Vocês ficarão surpresos ao me ouvirem anunciar que não pretendo, nesta manhã, dizer nada sobre o Espírito Santo como o Consolador. Proponho reservar isso para um sermão especial esta noite [Veja o Sermão nº 5, O Consolador]. Neste discurso, me esforçarei para explicar e enfatizar certas outras doutrinas que creio estarem claramente ensinadas neste texto e que espero que Deus, o Espírito Santo, possa tornar proveitosas para as nossas almas.

O velho John Newton disse uma vez que havia alguns livros que ele não conseguia ler — eles eram bons e sólidos o suficiente, mas, disse ele: “São livros de moedinhas de cobre — você precisa pegar uma quantidade enorme antes de ter algum valor. Há outros livros de prata e outros de ouro, mas eu tenho um livro que é um livro de notas bancárias, e cada folha é uma nota de banco de imenso valor.”

Foi isso que encontrei neste texto: uma nota de banco de uma quantia tão alta que não conseguiria contá-la toda esta manhã. Eu teria que mantê-los aqui por várias horas antes de poder desdobrar todo o valor desta preciosa promessa — uma das últimas que Cristo deu ao Seu povo.

Convido sua atenção para esta passagem, pois encontraremos nela instruções sobre quatro pontos: primeiro, a respeito da verdadeira e própria personalidade do Espírito Santo; segundo, a respeito da atuação unida das três gloriosas pessoas na obra da nossa salvação; terceiro, encontraremos algo para estabelecer a doutrina da habitação do Espírito Santo nas almas de todos os crentes; e quarto, descobriremos a razão pela qual a mente carnal rejeita o Espírito Santo.

I. A Própria Personalidade do Espírito Santo

Em primeiro lugar, teremos alguma instrução a respeito da própria PERSONALIDADE DO ESPÍRITO SANTO.

Estamos tão acostumados a falar sobre a influência do Espírito Santo, e Suas operações e graças sagradas, que somos aptos a esquecer que o Espírito Santo é verdadeiramente e realmente uma pessoa — que Ele é uma subsistência, uma existência, ou, como nós, trinitarianos, costumamos dizer, uma pessoa na essência da Divindade. Receio que, embora não saibamos, tenhamos adquirido o hábito de considerar o Espírito Santo como uma emanação que flui do Pai e do Filho, mas não como sendo Ele próprio uma pessoa real.

Sei que não é fácil carregar em nossa mente a ideia do Espírito Santo como uma pessoa. Consigo pensar no Pai como uma pessoa, porque Seus atos são tais que posso compreender. Eu O vejo suspender o mundo no espaço. Eu O contemplo envolvendo um oceano recém-nascido em faixas de escuridão. Sei que é Ele quem forma as gotas de granizo, quem guia as estrelas em seus exércitos e as chama pelos seus nomes. Consigo concebê-Lo como uma pessoa porque contemplo Suas operações.

Consigo conceber Jesus, o Filho do Homem, como uma pessoa real, porque Ele é osso dos meus ossos e carne da minha carne. Não exige um grande esforço da minha imaginação retratar o bebê em Belém, ou contemplar o “Homem de dores e experimentado no sofrimento”, o Rei dos mártires, quando foi perseguido no pretório de Pilatos ou pregado no madeiro maldito por nossos pecados. Tampouco acho difícil, às vezes, conceber a pessoa do meu Jesus assentado em Seu trono no céu, ou cingido de nuvens e vestindo o diadema de toda a criação, convocando a terra ao julgamento e nos chamando para ouvir nossa sentença final.

Mas quando venho lidar com o Espírito Santo, Suas operações são tão misteriosas, Seus feitos são tão ocultos, Seus atos estão tão distantes de tudo o que pertence aos sentidos e ao corpo, que não consigo obter tão facilmente a ideia de que Ele é uma pessoa; mas Ele é uma pessoa.

Deus, o Espírito Santo, não é uma influência, uma emanação, uma corrente de algo que flui do Pai, mas é tão verdadeiramente uma pessoa quanto Deus o Filho ou Deus o Pai. Tentarei esta manhã estabelecer um pouco essa doutrina e mostrar-lhes a verdade dela: que Deus, o Espírito Santo, é realmente uma pessoa.

A primeira prova colheremos do tanque do santo batismo. Permitam-me levá-los, como levei outros, até o tanque, agora oculto, mas que eu gostaria que estivesse sempre aberto à vista de vocês. Permitam-me levá-los à fonte batismal, onde os crentes tomam sobre si o nome do Senhor Jesus, e vocês me ouvirão pronunciar as solenes palavras: “Eu o batizo em nome” — notem, “em nome”, e não nomes — “do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

Todo aquele que é batizado de acordo com a verdadeira forma estabelecida na Escritura deve ser um trinitariano, caso contrário, seu batismo é uma farsa e uma mentira, e ele próprio se revela um enganador e um hipócrita diante de Deus. Assim como o Pai é mencionado, e assim como o Filho é mencionado, também o é o Espírito Santo, e tudo é resumido como sendo uma Trindade na unidade, ao se dizer, não os nomes, mas o “nome”, o glorioso nome, o nome JEOVÁ, “do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

Permitam-me lembrar-lhes de que a mesma coisa ocorre cada vez que vocês são despedidos desta casa de oração. Ao pronunciar a solene bênção de encerramento, invocamos em seu favor o amor de Jesus Cristo, a graça do Pai e a comunhão do Espírito Santo e, assim, segundo o costume apostólico, fazemos uma manifesta distinção entre as pessoas, mostrando que cremos que o Pai é uma pessoa, o Filho é uma pessoa e o Espírito Santo é uma pessoa. Se não houvesse outras provas na Escritura, penso que estas seriam suficientes para qualquer homem sensato. Ele veria que, se o Espírito Santo fosse uma mera influência, não seria mencionado em conjunto com dois a quem todos confessamos ser pessoas reais e propriamente ditas.

Um segundo argumento surge do fato de que o Espírito Santo realmente fez diferentes aparições na terra. O Grande Espírito Se manifestou ao homem; Ele assumiu uma forma de modo que, embora não tenha sido contemplado por homens mortais em Sua essência, esteve tão velado em aparência que foi visto, no que tange a essa aparência, pelos olhos de todos os observadores.

Vêem vocês a Jesus Cristo, nosso Salvador? Ali está o rio Jordão, com suas margens inclinadas e seus salgueiros chorando ao seu lado. Jesus Cristo, o Filho de Deus, desce às águas e o santo Batista, João, O mergulha nas ondas. As portas do céu se abrem, uma aparição milagrosa se apresenta, uma luz brilhante resplandece do céu, mais brilhante que o sol em toda a sua grandeza, e descendo em uma inundação de glória surge algo que vocês reconhecem ser uma pomba.

Ela repousa sobre Jesus — pousa sobre Sua sagrada cabeça, e assim como os antigos pintores colocavam uma auréola ao redor da testa de Jesus, assim o Espírito Santo derramou um resplendor ao redor do rosto dAquele que veio cumprir toda a justiça e, portanto, começou com as ordenanças do batismo. O Espírito Santo foi visto como uma pomba para marcar Sua pureza e Sua mansidão, e Ele desceu como uma pomba do céu para mostrar que é somente do céu que Ele desce.

Nem é esta a única vez em que o Espírito Santo se manifestou em uma forma visível. Vejam aquele grupo de discípulos reunidos num quarto alto. Eles estão esperando por alguma bênção prometida; daqui a pouco ela virá. Ouçam! Há um som como de um vento impetuoso e veemente. Ele enche toda a casa onde estão assentados e, espantados, olham ao redor, perguntando-se o que virá a seguir.

Logo surge uma luz brilhante, resplandecendo sobre a cabeça de cada um deles; línguas distribuídas, como que de fogo, pousaram sobre eles. O que foram essas aparições maravilhosas de vento e chama senão uma demonstração do Espírito Santo em Sua própria pessoa? Digo que o fato de uma aparição manifesta que Ele deve ser uma pessoa. Uma influência não poderia aparecer — um atributo não poderia aparecer; não podemos ver atributos, não podemos contemplar influências. O Espírito Santo deve, portanto, ter sido uma pessoa, visto que foi contemplado por olhos mortais e veio sob a percepção do sentido mortal.

Outra prova vem do fato de que qualidades pessoais são, na Escritura, atribuídas ao Espírito Santo. Primeiro, permitam-me ler-lhes um texto no qual se fala do Espírito Santo como tendo entendimento. Na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo dois, vocês lerão: “Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.”

Aqui vocês veem um entendimento — um poder de conhecimento é atribuído ao Espírito Santo. Agora, se houver quaisquer pessoas aqui cujas mentes sejam de uma índole tão absurda que atribuiriam um atributo a outro, e falariam de uma mera influência tendo entendimento, então eu abandono todo o argumento. Mas creio que todo homem racional admitirá que, quando se fala de algo como tendo entendimento, deve ser uma existência — deve ser, de fato, uma pessoa.

No décimo segundo capítulo, verso onze da mesma epístola, vocês encontrarão uma vontade atribuída ao Espírito Santo: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, distribuindo particularmente a cada um como quer.” Portanto, está claro que o Espírito tem uma vontade. Ele não vem de Deus simplesmente pela vontade de Deus, mas tem uma vontade própria, que está sempre em harmonia com a vontade do JEOVÁ infinito, mas é, não obstante, distinta e separada.

Portanto, digo que Ele é uma pessoa. Em outro texto, o poder é atribuído ao Espírito Santo, e o poder é algo que só pode ser atribuído a uma existência. Em Romanos 15:13, está escrito: “Ora, o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz em crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo.”

Não preciso insistir nisso, porque é autoevidente que, onde quer que se encontre entendimento, vontade e poder, deve-se também encontrar uma existência. Não pode ser um mero atributo, não pode ser uma metáfora, não pode ser uma influência personificada, mas deve ser uma pessoa.

Mas tenho uma prova que, talvez, seja mais marcante para vocês do que qualquer outra. Atos e feitos são atribuídos ao Espírito Santo; portanto, Ele deve ser uma pessoa. Vocês leem no primeiro capítulo do Livro de Gênesis que o Espírito pairava sobre a superfície da terra, quando ela era ainda desordem e confusão.

Este mundo foi uma vez uma massa de matéria caótica — não havia ordem, era como o vale da sombra da morte. Deus, o Espírito Santo, estendeu Suas asas sobre ele. Ele semeou as sementes da vida nele. Os germes dos quais todos os seres surgiram foram implantados por Ele. Ele impregnou a terra de modo que ela se tornou capaz de ter vida. Ora, deve ter sido uma pessoa que trouxe ordem da confusão. Deve ter sido uma existência que pairou sobre este mundo e o fez o que ele é agora.

Mas não lemos na Escritura algo mais sobre o Espírito Santo? Sim, é-nos dito que “os homens santos de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo”. Quando Moisés escreveu o Pentateuco, o Espírito Santo moveu sua mão. Quando Davi escreveu os Salmos e executou doces músicas em sua harpa, foi o Espírito Santo quem deu aos seus dedos aquele movimento seráfico.

Quando Salomão deixou cair de seus lábios as palavras dos Provérbios de sabedoria, ou quando cantou os Cânticos de amor, foi o Espírito Santo quem lhe deu palavras de conhecimento e hinos de êxtase. Ah! E que fogo foi aquele que tocou os lábios do eloquente Isaías? Que mão foi aquela que veio sobre Daniel? Que poder foi aquele que fez Jeremias tão lamentoso em sua dor? Ou o que foi aquilo que deu asas a Ezequiel e o fez, como uma águia, planar nas alturas dos mistérios e ver o poderoso desconhecido além do nosso alcance?

Quem foi que fez de Amós, o boiadeiro, um profeta? Quem ensinou o rústico Ageu a pronunciar suas sentenças trovejantes? Quem mostrou a Habacuque os cavalos de JEOVÁ marchando pelas águas? Ou quem acendeu a eloquência ardente de Naum? Quem fez Malaquias fechar o livro com o murmúrio da palavra maldição? Quem estava em cada um desses, senão o Espírito Santo? E não deve ter sido uma pessoa que falou em e através dessas antigas testemunhas? Devemos crer nisso. Não podemos evitar crer nisso, quando lembramos que “os homens santos de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo”.

E quando foi que o Espírito Santo cessou de ter influência sobre os homens? Achamos que Ele ainda lida com Seus ministros e com todos os Seus santos. Voltem-se para os Atos e encontrarão que o Espírito Santo disse: “Separai-me a Barnabé e a Saulo para a obra”. Nunca ouvi falar de um atributo dizendo tal coisa. O Espírito Santo disse a Pedro: “Vai com o centurião e ao que Deus purificou não consideres tu comum”.

O Espírito Santo arrebatou Filipe depois que ele batizou o eunuco e o levou para outro lugar. E o Espírito Santo disse a Paulo: “Não irás a essa cidade, mas te voltarás para outra”. E sabemos que Ananias e Safira mentiram ao Espírito Santo, quando foi dito: “Não mentiste aos homens, mas a Deus”.

Mais uma vez, aquele poder que sentimos todos os dias, nós que somos chamados a pregar — aquele fascínio maravilhoso que torna nossos lábios tão potentes —, aquele poder que nos dá pensamentos que são como pássaros de uma região distante, não nativos de nossa alma —, aquela influência que às vezes sinto estranhamente, a qual, se não me dá poesia e eloquência, dá-me um poder que nunca senti antes, e me eleva acima dos meus semelhantes —, aquela majestade com a qual Ele veste Seus ministros, até que no meio da batalha eles clamem, ahah! como o cavalo de guerra de Jó, e se movam como leviatãs nas águas —, aquele poder que nos dá domínio sobre os homens, e os faz sentar e ouvir como se suas orelhas estivessem acorrentadas, como se estivessem encantados pelo poder da vara de um mágico —, aquele poder deve vir de uma pessoa, deve vir do Espírito Santo.

Mas não se diz na Escritura, e não o sentimos nós, caros irmãos, que é o Espírito Santo quem regenera a alma? É o Espírito Santo quem nos vivifica. “Ele vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados.” É o Espírito Santo quem imparte o primeiro germe de vida, convencendo-nos do pecado, da justiça e do juízo vindouro.

E não é o Espírito Santo quem, depois que essa chama é acesa, ainda a abana com o sopro de Sua boca e a mantém viva? Seu autor é o Seu preservador. Oh! Pode-se dizer que é o Espírito Santo quem luta na alma dos homens, que é o Espírito Santo quem os traz ao pé do Sinai e depois os guia ao suave lugar chamado Calvário — pode-se dizer que Ele faz todas essas coisas e, no entanto, não é uma pessoa? Pode ser dito, mas deve ser dito por tolos, pois nunca poderá ser um homem sábio aquele que considerar que essas coisas possam ser feitas por qualquer outro que não seja uma pessoa gloriosa — uma existência divina.

Permitam-me dar-lhes mais uma prova e terei terminado. Certos sentimentos são atribuídos ao Espírito Santo, os quais só podem ser entendidos sob a suposição de que Ele é realmente uma pessoa. No quarto capítulo de Efésios, verso trinta, diz-se que o Espírito Santo pode ser entristecido: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção.” Em Isaías 63:10, diz-se que o Espírito Santo pode ser magoado: “Eles, porém, foram rebeldes e contristaram o seu Santo Espírito; pelo que se lhes tornou em inimigo e ele mesmo pelejou contra eles.”

Em Atos 7:51, vocês leem que o Espírito Santo pode ser resistido: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, assim fazeis vós também.” E no quinto capítulo, verso nove do mesmo livro, vocês acharão que o Espírito Santo pode ser tentado. Somos ali informados de que Pedro disse a Ananias e Safira: “Por que é que vos concertastes para tentar o Espírito do Senhor?”

Ora, essas coisas não poderiam ser emoções atribuídas a uma qualidade ou a uma emanação. Elas devem ser entendidas como relativas a uma pessoa — uma influência não poderia ser entristecida; deve ser uma pessoa que pode ser entristecida, contristada ou resistida.

E agora, caros irmãos, creio ter estabelecido totalmente o ponto da personalidade do Espírito Santo — permitam-me agora, mais fervorosamente, impressionar-lhes a absoluta necessidade de serem sãos quanto à doutrina da Trindade. Conheci um homem, um bom ministro de Jesus Cristo ele é agora, e creio que era antes de se desviar para a heresia — ele começou a duvidar da gloriosa divindade de nosso abençoado Senhor, e por anos pregou a doutrina heterodoxa, até que um dia ouviu um ministro idoso muito excêntrico pregar sobre o texto: “Mas ali o Senhor glorioso nos será um lugar de rios e correntes largas; barco nenhum de remos passará por ele, nem navio grande navegará por ele. Porque as tuas cordas se afrouxaram; não puderam ter firme o seu mastro, nem desfraldar a vela.”

“Agora”, disse o velho ministro, “você abandona a Trindade e suas cordas se afrouxam, você não pode firmar seus mastros. Uma vez abandonada a doutrina das três pessoas, suas cordas se vão todas. Seu mastro, que deveria ser um suporte para o seu navio, fica raquítico e balança.”

Um Evangelho sem a Trindade! — é uma pirâmide construída sobre o seu ápice. Um Evangelho sem a Trindade! — é uma corda de areia que não se mantém unida. Um Evangelho sem a Trindade! — então, de fato, Satanás pode evertê-lo. Mas dêem-me um Evangelho com a Trindade, e o poder do inferno não poderá prevalecer contra ele. Homem algum poderá destruí-lo, mais do que uma bolha de sabão poderia rachar uma rocha, ou uma pena quebrar uma montanha ao meio.

Obtenham o pensamento das três pessoas e vocês terão a medula de toda a teologia. Apenas conheçam o Pai, e conheçam o Filho, e conheçam o Espírito Santo como Um, e todas as coisas parecerão claras. Esta é a chave de ouro para os segredos da natureza — este é o fio de seda dos labirintos do mistério, e aquele que entende isso logo entenderá tanto quanto os mortais jamais poderão saber.

II. A Atuação Unida das Três Pessoas na Salvação

Agora para o segundo ponto — a ATUAÇÃO UNIDA das três pessoas na obra da nossa salvação.

Olhem para o texto e encontrarão todas as três pessoas mencionadas. “Eu” — isto é, o Filho — “rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador”. Ali estão as três pessoas mencionadas, todas elas fazendo algo para a nossa salvação. “Eu rogarei”, diz o Filho. “Ele dará”, diz o Pai. “Ele consolará”, diz o Espírito Santo.

Agora, conversemos por alguns momentos sobre este tema maravilhoso — a unidade das três pessoas no que diz respeito ao grande propósito da salvação dos eleitos. Quando Deus fez o homem pela primeira vez, Ele disse: “Façamos o homem”, não “deixe-me fazer”, mas “Façamos o homem à nossa imagem”. O Elohim da aliança disse um ao outro: “Tornemo-nos unidos o Criador do homem”.

Assim, quando em eras muito distantes, na eternidade, eles disseram: “Salvemos o homem”. Não foi o Pai quem disse: “Deixe-me salvar o homem”, mas as três pessoas conjuntamente disseram, com um só consentimento: “Salvemos o homem”. É para mim uma fonte de Doce conforto pensar que não é apenas uma pessoa da Trindade que está empenhada na minha salvação — não é simplesmente uma pessoa da Divindade que jura que me remirá, mas é um glorioso trio de Seres Divinos, e os três declaram, unidamente: “Nós salvaremos o homem”.

Agora, observem aqui que fala-se de cada pessoa desempenhando um ofício separado. “Eu rogarei”, diz o Filho — isso é intercessão. “Ele dará”, diz o Pai — isso é doação. “Ele consolará”, diz o Espírito Santo — isso é influência sobrenatural. Oh! Se nos fosse possível ver as três pessoas da Divindade, veríamos uma Delas diante do trono, com as mãos estendidas, clamando de dia e de noite: “Até quando, ó Senhor?”

Veríamos Um cingido com o Urim e o Tumim, pedras preciosas nas quais estão escritos os doze nomes das tribos de Israel. NÓS O veríamos clamando a Seu Pai: “Não Te esqueças das Tuas promessas, não Te esqueças da Tua aliança”; ouví-Lo-íamos fazer menção das nossas dores e relatar Nossas aflições em nosso favor, pois Ele é o nosso intercessor.

E se pudéssemos contemplar o Pai, não O veríamos como um espectador indiferente e ocioso da intercessão do Filho, mas O veríamos com ouvidos atentos escutando cada palavra de Jesus e concedendo cada petição. Onde está o Espírito Santo durante todo esse tempo? Está Ele ocioso? Oh, não! Ele está pairando sobre a terra, e quando vê uma alma cansada, diz: “Vem a Jesus, Ele te dará descanso”.

Quando Ele contempla um olho cheio de lágrimas, enxuga as lágrimas e exorta o aflito a buscar conforto na cruz. Quando Ele vê o crente açoitado pela tempestade, toma o leme de sua alma e fala a palavra de consolação. Ele ajuda os quebrantados de coração e atadura as suas feridas. E, sempre em Sua missão de misericórdia, voa ao redor do mundo, estando presente em todos os lugares.

Contemplem como as três pessoas trabalham juntas! Não digam, portanto: “Sou grato ao Filho” — assim você deve ser, mas Deus o Filho não o salva mais do que Deus o Pai. Não imaginem que Deus o Pai é um grande tirano e que Deus o Filho teve que morrer para torná-Lo misericordioso. Não foi para fazer o amor do Pai fluir para o Seu povo. Oh, não! Um ama tanto quanto o outro — os três estão unidos no grande propósito de resgatar os eleitos da condenação.

Mas vocês devem notar outra coisa em meu texto, que mostrará a abençoada unidade dos três — uma pessoa promete pela outra. O Filho diz: “Eu rogarei ao Pai”. “Muito bem”, os discípulos podem ter dito, “podemos confiar em Ti para isso”. “E ele vos dará.” Vejam que aqui está o Filho assinando um compromisso em nome do Pai. “Ele vos dará outro Consolador.”

Há um compromisso em nome do Espírito Santo também. “E ele estará convosco para sempre.” Uma pessoa fala pela outra, e como poderiam se houvesse qualquer desacordo entre elas? Se uma quisesse salvar e a outra não, não poderiam prometer em nome uma da outra. Mas o que quer que o Filho diga, o Pai ouve. O que quer que o Pai prometa, o Espírito Santo realiza. E o que quer que o Espírito Santo injete na alma, Deus o Pai cumpre.

Assim, os três juntos prometem mutuamente em nome uns dos outros. Há uma promessa com três nomes anexados — Pai, Filho e Espírito Santo. Por três coisas imutáveis, assim como por duas, o cristão está seguro além do alcance da morte e do inferno. Uma Trindade de Garantias, porque há uma Trindade de Deus.

III. A Habitação do Espírito Santo nos Crentes

Nosso terceiro ponto é a HABITAÇÃO do Espírito Santo nos crentes.

Agora, amados, estas duas primeiras coisas foram matérias de pura doutrina — este é o assunto da experiência. A habitação do Espírito Santo é um assunto tão profundo, e que tem tanto a ver com o homem interior, que nenhuma alma será capaz de compreender verdadeira e realmente o que digo, a menos que tenha sido ensinada por Deus.

Ouvi falar de um velho ministro que disse a um membro de um dos colégios de Cambridge que ele entendia uma língua que nunca aprendera em toda a sua vida. “Eu não tenho”, disse ele, “nem mesmo uma noções básicas de grego, e não sei nada de latim, mas graças a Deus posso falar a língua de Canaã, e isso é mais do que você pode.” Assim, amados, terei agora que falar um pouco da língua de Canaã. Se vocês não conseguem me compreender, receio muito que seja porque não são de origem israelita — não são filhos de Deus nem herdeiros do reino dos céus.

É-nos dito no texto que Jesus enviaria o Consolador, que habitaria nos santos para sempre, que moraria com eles e estaria neles. O velho Inácio, o mártir, costumava chamar a si mesmo de Theophorus, ou o portador de Deus, “Porque”, dizia ele, “carrego comigo o Espírito Santo.” E verdadeiramente todo cristão é um portador de Deus.

Não sabem vocês que são templos do Espírito Santo? Pois Ele habita em vocês. Aquele homem não é cristão se não for objeto da habitação do Espírito Santo. Ele pode falar bem, pode entender de teologia e ser um calvinista sólido. Ele será o filho da natureza finamente vestido, mas não o filho vivo.

Ele pode ser um homem de um intelecto tão profundo, de uma alma tão gigantesca, de uma mente tão abrangente e de uma imaginação tão elevada que pode mergulhar em todos os segredos da natureza, pode conhecer o caminho que o olho da águia não viu e ir a profundezas onde o alcance dos mortais não chega, mas não será um cristão com todo o seu conhecimento. Ele não será um filho de Deus com todas as suas pesquisas, a menos que entenda o que é ter o Espírito Santo habitando nele e permanecendo nele, sim, e isso para sempre.

Algumas pessoas chamam isso de fanatismo e dizem: “Você é um Quaker, por que não segue George Fox?” Bem, não nos importaríamos muito com isso — seguiríamos qualquer um que seguisse o Espírito Santo. Até mesmo ele, com todas as suas excentricidades, não tenho dúvidas de que foi, em muitos casos, realmente inspirado pelo Espírito Santo; e sempre que encontro um homem em quem repousa o Espírito de Deus, o Espírito dentro de mim salta ao ouvir o Espírito dentro dele, e ele sente que somos um. O Espírito de Deus em uma alma cristã reconhece o Espírito em outra.

Lembro-me de conversar com um bom homem, como creio que ele era, que insistia que era impossível sabermos se tínhamos o Espírito Santo dentro de nós ou não. Eu gostaria que ele estivesse aqui esta manhã, porque eu leria este verso para ele: “Mas vós o conheceis; porque habita convosco, e estará em vós.”

Ah! Você pensa que não pode dizer se tem o Espírito Santo ou não? Posso eu dizer se estou vivo ou não? Se eu fosse tocado por eletricidade, poderia dizer se fui ou não? Suponho que sim — o choque seria forte o suficiente para me fazer saber onde eu estava. Assim, se tenho Deus dentro de mim — se tenho a Divindade fazendo tabernáculo em meu peito — se tenho Deus, o Espírito Santo, descansando em meu coração e fazendo do meu corpo um templo, você acha que não saberei?

Chamem isso de fanatismo se quiserem, mas confio que há alguns de nós que sabem o que é estar sempre, ou geralmente, sob a influência do Espírito Santo — sempre em um sentido, geralmente em outro. Quando temos dificuldades, pedimos a direção do Espírito Santo. Quando não entendemos uma porção da Santa Escritura, pedimos a Deus, o Espírito Santo, que resplandeça sobre nós. Quando estamos deprimidos, o Espírito Santo nos consola.

Vocês não podem dizer qual é o poder maravilhoso da habitação do Espírito Santo: como ele puxa de volta a mão do santo quando ele tocaria na coisa proibida; como o estimula a fazer uma aliança com seus olhos; como prende seus pés, para que não caiam num caminho escorregadio; como refreia seu coração e o guarda da tentação.

Ó vocês, que não sabem nada da habitação do Espírito Santo, não a desprezem. Ó, não desprezem o Espírito Santo, pois é o pecado imperdoável. “Aquele que falar uma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoada; mas ao que falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro.” Assim diz a Palavra de Deus. Portanto, tremam, para que em nada desprezem as influências do Espírito Santo.

Mas antes de fechar este ponto, há uma palavrinha que me agrada muito, que é: “para sempre”. Vocês sabiam que eu não deixaria passar essa — tinham certeza de que eu não poderia deixá-la ir sem uma observação. “Fique convosco para sempre.” Eu gostaria de poder trazer um arminiano aqui para terminar meu sermão. Imagino vê-lo pegando essa palavra: “para sempre”.

Ele diria: “Para... para sempre”; ele teria que gaguejar e balbuciar, pois nunca conseguiria colocá-la para fora de uma vez. Ele poderia ficar ali e puxá-la de um lado para o outro, e finalmente teria que dizer: “A tradução está errada”. E então suponho que o pobre homem teria que provar que o original também estava errado. Ah! Mas bendito seja Deus, podemos ler assim: “Ele ficará convosco para sempre”. Uma vez dado a mim o Espírito Santo, nunca O perderei até que o “para sempre” tenha se esgotado, até que a eternidade tenha girado suas eras eternas.

IV. Por que o Mundo Rejeita o Espírito Santo

Agora temos que encerrar com uma breve observação sobre a razão pela qual o mundo rejeita o Espírito Santo.

Diz-se: “O qual o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece.” Vocês sabem o que às vezes se quer dizer por “o mundo” — aqueles a quem Deus, em Sua maravilhosa soberania, passou por alto quando escolheu Seu povo, os preteridos, aqueles passados por alto na maravilhosa preterição de Deus — não os réprobos que foram condenados à perdição por algum decreto terrível, mas aqueles passados por alto por Deus quando escolheu Seus eleitos. Estes não podem receber o Espírito. Novamente, significa que todos os que estão em um estado carnal não são capazes de obter para si mesmos esta influência divina, e assim é verdade: “O qual o mundo não pode receber”.

O mundo não regenerado de pecadores despreza o Espírito Santo “porque não o vê”. Sim, creio que este é o grande segredo pelo qual muitos ririam da ideia da existência do Espírito Santo — porque não O veem. Você diz ao homem do mundo: “Tenho o Espírito Santo dentro de mim”. Ele diz: “Não consigo ver isso”. Ele quer que seja algo tangível, algo que possa reconhecer com seus sentidos.

Vocês já ouviram o argumento usado por um bom e velho cristão contra um médico ateu? O médico disse que não havia alma e perguntou: “Você já viu uma alma?” “Não”, disse o cristão. “Você já ouviu uma alma?” “Não.” “Você já cheirou uma alma?” “Não.” “Você já provou uma alma?” “Não.” “Você já sentiu uma alma?” “Sim”, disse o homem — “sinto que tenho uma dentro de mim.”

“Bem”, disse o médico, “há quatro sentidos contra um; você tem apenas um do seu lado.” “Muito bem”, disse o cristão, “você já viu uma dor?” “Não.” “Você já ouviu uma dor?” “Não.” “Você já cheirou uma dor?” “Não.” “Você já provou uma dor?” “Não.” “Você já sentiu uma dor?” “Sim.” “E isso é bastante, suponho, para provar que existe uma dor?” “Sim.”

Assim o homem do mundo diz que não há Espírito Santo, porque não pode vê-Lo. Bem, mas nós O sentimos. Você diz que isso é fanatismo e que nunca O sentimos. Suponha que você me diga que o mel é amargo; eu respondo: “Não, tenho certeza de que você não o provou; prove-o e tente”. Assim é com o Espírito Santo: se você apenas sentisse Sua influência, não diria mais que não há Espírito Santo só porque não pode vê-Lo.

Não há muitas coisas, mesmo na natureza, que não podemos ver? Você já viu o vento? Não, mas você sabe que existe vento quando contempla o furacão agitando as ondas e derrubando as habitações dos homens, ou quando no suave zéfiro da tarde ele beija as flores e faz gotas de orvalho penderem como tiaras de pérolas ao redor da rosa.

Você já viu a eletricidade? Não, mas sabe que tal coisa existe, pois ela viaja pelos fios por milhares de milhas e carrega nossas mensagens. Embora você não possa ver a coisa em si, sabe que tal coisa existe. Assim você deve crer que há um Espírito Santo operando em nós, tanto o querer como o realizar, mesmo que esteja além dos nossos sentidos.

Mas a última razão pela qual os homens mundanos ririam da doutrina do Espírito Santo é porque não O conhecem. Se O conhecessem por experiência sentida no coração, e se reconhecessem Sua atuação na alma, se tivessem sido tocados por Ele, se tivessem sido levados a tremer sob a consciência do pecado, se tivessem tido seus corações derretidos, eles nunca teriam duvidado da existência do Espírito Santo.

E agora, amados, diz-se: “Ele habita convosco, e estará em vós”. Encerraremos com essa doce recordação — o Espírito Santo habita em todos os crentes e estará com eles.

Uma palavra de comentário e conselho aos santos de Deus e aos pecadores, e terei terminado. Santos do Senhor! Vocês ouviram esta manhã que Deus, o Espírito Santo, é uma pessoa. Vocês tiveram isso provado para as suas almas.