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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A PRIMEIRA ORAÇÃO DE PAULO

 


Sermão nº 16

Pregado na manhã de domingo, 25 de março de 1855, pelo Rev. C. H. Spurgeon, no Exeter Hall, Strand, Londres.

Texto bíblico:

“Pois eis que ele está orando.” — Atos 9:11

Introdução

Deus possui muitos meios para fazer cessar a perseguição. Ele não permitirá que sua Igreja seja prejudicada por seus inimigos ou subjugada por seus adversários. Também não lhe faltam recursos para desviar o caminho dos perversos ou fazê-los retroceder. Geralmente, Ele realiza seu propósito de duas maneiras: às vezes, confundindo o perseguidor; outras vezes, de forma ainda mais gloriosa, convertendo-o.

Em algumas ocasiões, Deus confunde e desorienta seus inimigos. Faz enlouquecer o adivinho. Permite que aquele que se levanta contra Ele avance até a própria destruição e seja completamente derrotado. Então, volta-se triunfante, com santa ironia, contra aquele que esperava dizer à Igreja de Deus: “Ah! Ah!”

Em outras ocasiões, porém, como aconteceu neste caso, Deus converte o perseguidor. Transforma o inimigo em amigo e faz daquele que combatia o Evangelho um soldado a seu serviço. Das trevas, Ele faz surgir a luz; daquele que devorava, tira o mel; e até mesmo de corações endurecidos como pedras levanta filhos para Abraão.

Foi o que aconteceu com Saulo. É impossível imaginar um fanático mais furioso do que ele. Suas mãos estavam manchadas com o sangue de Estêvão, apedrejado até a morte. Saulo era tão dedicado à crueldade que os homens que executaram Estêvão deixaram suas roupas sob a responsabilidade daquele jovem.

Vivendo em Jerusalém e tendo sido instruído aos pés de Gamaliel, Saulo encontrava constantemente os discípulos do Nazareno. Zombava deles e os insultava quando passavam pelas ruas. Promovia decretos contra eles e os entregava à morte.

Agora, como ponto culminante de sua maldade, aquele homem feroz, que já havia provado o sangue e se tornara ainda mais violento, decidiu ir a Damasco. Queria saciar sua sede de sangue, prendendo homens e mulheres cristãos e levando-os a Jerusalém para sofrerem o que ele considerava uma punição justa por sua heresia e pelo abandono da antiga religião.

Mas, oh, quão extraordinário foi o poder de Deus! Jesus interrompeu a marcha desvairada daquele homem. Saulo avançava contra Cristo, como um guerreiro com a lança preparada para atacar; mas Cristo foi ao seu encontro, derrubou-o do cavalo, lançou-o por terra e perguntou-lhe:

“Saulo, Saulo, por que me persegues?”

Então, em sua graça, o Senhor removeu daquele homem o coração rebelde, deu-lhe um novo coração e um espírito reto, mudou seus propósitos e objetivos, conduziu-o a Damasco e o deixou prostrado durante três dias e três noites. Falou-lhe, fez sons misteriosos ecoarem em seus ouvidos e incendiou-lhe toda a alma. Finalmente, quando Saulo se levantou daquele estado de três dias e começou a orar, Jesus desceu do céu em uma visão a Ananias e lhe disse:

“Levanta-te, vai à rua chamada Direita e procura, na casa de Judas, por um homem de Tarso chamado Saulo; pois eis que ele está orando.”

Primeiramente, nosso texto foi um anúncio: “Eis que ele está orando.” Em segundo lugar, foi um argumento: “Pois eis que ele está orando.” Por fim, procuraremos aplicar essa verdade ao coração de vocês.

Embora somente Deus possa realizar essa aplicação, confiaremos que Ele se agradará de fazê-lo enquanto sua Palavra é pregada nesta manhã.

I. Um anúncio: “Eis que ele está orando”

“Vai procurar Saulo de Tarso, pois eis que ele está orando.”

Sem qualquer introdução adicional, quero dizer que esse anúncio comunicava um fato que havia sido observado no céu, que alegrava os anjos, que causava espanto a Ananias e que era uma novidade para o próprio Saulo.

1. Uma realidade observada no céu

O pobre Saulo havia sido levado a clamar por misericórdia e, no momento em que começou a orar, Deus começou a ouvi-lo.

Vocês percebem, ao ler esse capítulo, quanta atenção Deus dedicou a Saulo? Ele conhecia a rua onde morava: “Vai à rua chamada Direita.” Conhecia a casa em que estava: “Procura na casa de Judas.” Conhecia seu nome: Saulo. Conhecia sua cidade de origem: “Saulo de Tarso.” E sabia que ele havia orado: “Eis que ele está orando.”

Oh, que verdade gloriosa! As orações são percebidas no céu!

O pobre pecador, com o coração quebrantado, sobe ao seu quarto e se ajoelha, mas só consegue expressar sua angústia por meio de suspiros e lágrimas. Vejam! Aquele gemido faz vibrar musicalmente todas as harpas do céu. Aquela lágrima é recolhida por Deus e colocada no recipiente celestial em que será preservada para sempre.

O suplicante cujos temores lhe impedem de falar será perfeitamente compreendido pelo Altíssimo. Talvez derrame apenas uma lágrima apressada, mas “a oração é o cair de uma lágrima”. As lágrimas são os diamantes do céu, e os suspiros fazem parte da música que envolve o trono de JEOVÁ.

Pois, embora as orações sejam

“A mais simples forma de expressão
Que os lábios infantis podem ensaiar”,

elas também são

“Os mais sublimes cânticos que chegam
À majestade lá do alto”.

Permitam-me desenvolver um pouco esse pensamento: as orações são percebidas no céu.

Oh! Sei o que acontece com muitos de vocês. Pensam assim: “Se eu me voltar para Deus, se o buscar, certamente sou um ser tão insignificante, tão culpado e tão desprezível, que seria impossível imaginar que Ele se importasse comigo.”

Meus amigos, não abriguem pensamentos tão pagãos. Nosso Deus não é uma divindade que permanece mergulhada em um sono perpétuo, nem se envolve em trevas tão densas que não consegue enxergar. Ele não é como Baal, que não ouve.

É verdade que Ele não se impressiona com batalhas. Não se importa com a pompa e a ostentação dos reis. Não se deixa impressionar pelo estrondo da música militar, nem considera o triunfo e o orgulho humanos. Mas, onde quer que exista um coração transbordando de tristeza, um olhar inundado de lágrimas, lábios trêmulos de agonia, um profundo gemido ou um suspiro de arrependimento, o ouvido de JEOVÁ está inteiramente aberto.

Ele registra tudo em sua memória. Coloca nossas orações, como pétalas de rosas, entre as páginas de seu livro memorial. E, quando esse volume finalmente for aberto, dele surgirá uma fragrância preciosa.

Oh, pobre pecador, por mais sombrio e vil que seja o seu passado, suas orações são ouvidas! Mesmo agora, Deus pode dizer a seu respeito: “Eis que ele está orando.”

Onde foi isso? Em um celeiro? Em seu quarto secreto? Ao lado de sua cama, nesta manhã, ou neste salão? Você está agora elevando os olhos ao céu? Fale, pobre coração. Acaso ouvi seus lábios murmurarem há pouco: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”?

Digo-lhe, pecador, que existe algo mais rápido do que o telégrafo. Vocês sabem que hoje podemos enviar uma mensagem e receber uma resposta em poucos instantes. Mas leio na Bíblia algo mais veloz do que a eletricidade:

“E será que, antes que clamem, eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei.”

Portanto, pobre pecador, você foi notado! Sim, foi ouvido por Aquele que está assentado no trono.

2. Uma notícia que alegrou o céu

Nosso texto começa com a palavra “Eis”, pois, sem dúvida, o próprio Salvador contemplou aquela realidade com alegria.

Encontramos apenas uma ocasião em que lemos sobre um sorriso no semblante de Jesus. Foi quando Ele ergueu os olhos ao céu e exclamou:

“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.”

O Pastor de nossas almas se alegra ao contemplar suas ovelhas seguramente recolhidas ao aprisco. Ele triunfa em espírito quando traz de volta para casa aquele que andava errante.

Imagino que, quando Jesus pronunciou aquelas palavras a Ananias, um dos sorrisos do paraíso tenha brilhado em seus olhos.

“Eis que conquistei o coração do meu inimigo! Salvei aquele que me perseguia. Neste exato momento, ele está dobrando os joelhos diante do meu trono. Eis que ele está orando!”

O próprio Jesus conduziu o cântico de alegria, regozijando-se com aquele novo convertido. Cristo se alegrou mais por aquela ovelha perdida que havia sido encontrada do que pelas noventa e nove que não se desviaram.

Os anjos também se alegraram.

Quando um dos eleitos de Deus nasce, os anjos estão ao redor de seu berço. A criança cresce e se entrega ao pecado; os anjos continuam acompanhando seus passos e observam todo o seu caminho. Contemplam com tristeza seus muitos desvios. A bela fada derrama uma lágrima sempre que aquele ser amado peca.

Mais tarde, o homem é levado a ouvir o Evangelho. O anjo diz: “Eis que ele começa a ouvir.” Ele espera um pouco. A Palavra penetra no coração do homem, uma lágrima escorre por seu rosto e, finalmente, ele clama do fundo da alma: “Deus, tem misericórdia de mim!”

Vejam! O anjo bate as asas, sobe ao céu e diz:

“Irmãos, anjos, escutem! Eis que ele está orando!”

Então os sinos do céu começam a tocar. Há uma grande celebração na glória. Mais uma vez, os anjos exclamam com vozes jubilosas, pois lhes digo a verdade: há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.

Eles nos observam até que oremos e, quando finalmente oramos, dizem: “Eis que ele está orando!”

Além disso, meus queridos amigos, pode haver outros espíritos no céu que se alegram, além dos anjos. Refiro-me àqueles que foram nossos amigos e partiram antes de nós.

Não tenho muitos parentes no céu, mas há uma pessoa que amo profundamente e que, não tenho dúvida, muitas vezes orou por mim. Ela cuidou de mim quando eu era criança e me criou durante parte da minha infância. Agora, ela está diante do trono da glória, tendo sido levada repentinamente deste mundo.

Imagino que ela tenha olhado para seu querido neto e, ao vê-lo nos caminhos do pecado, do vício e da insensatez, não pudesse contemplá-lo com tristeza, pois os glorificados não derramam lágrimas. Tampouco poderia olhar com pesar, pois não experimentam esse sentimento diante do trono de Deus.

Mas ah! Naquele momento em que, pela graça soberana, fui constrangido a orar, quando me ajoelhei sozinho e lutei em oração, quase posso vê-la dizendo:

“Eis que ele está orando! Eis que ele está orando!”

Oh, consigo imaginar seu semblante! Por um instante, ela pareceu possuir dois céus, uma felicidade duplicada: o céu dentro de si mesma e o céu em mim, quando pôde dizer: “Eis que ele está orando!”

Ah, jovem, sua mãe está caminhando pelas ruas de ouro. Neste momento, ela olha para você. Ela o amamentou; quando você era apenas uma criança, descansava em seus braços, e ela o consagrou a Jesus Cristo.

Do céu, ela o acompanhava com aquela intensa preocupação compatível com a felicidade dos glorificados. Nesta manhã, ela está olhando para você.

O que você diz, jovem? O Espírito de Cristo está falando ao seu coração: “Vem a mim”? Você está derramando lágrimas de arrependimento?

Quase consigo ver sua mãe exclamando:

“Eis que ele está orando!”

Mais uma vez, ela se inclina diante do trono de Deus e diz:

“Graças te dou, ó Deus eternamente gracioso, porque aquele que foi meu filho na terra agora se tornou teu filho na luz!”

Mas, se existe alguém no céu que se alegra mais do que outros com a conversão de um pecador, esse alguém é um ministro, um verdadeiro ministro de Deus.

Oh, meus ouvintes, vocês mal imaginam quanto os verdadeiros ministros de Deus amam suas almas!

Talvez pensem que seja fácil ficar aqui e pregar. Deus sabe que, se essa fosse toda a tarefa, seria realmente fácil. Mas, quando pensamos que, em certa medida, a salvação ou a perdição de vocês está relacionada ao que dizemos; quando refletimos que, se formos atalaias infiéis, Deus requererá de nossas mãos o sangue de vocês, então, ó Deus, como isso nos faz tremer!

Quando penso que já preguei a milhares de pessoas durante minha vida, a muitos milhares, e talvez tenha dito coisas que não deveria ter dito, fico assustado e tremo.

Lutero dizia que conseguia enfrentar seus inimigos, mas não podia subir os degraus do púlpito sem que seus joelhos batessem um no outro.

Pregar não é brincadeira de criança. Não é uma tarefa que possa ser realizada sem esforço e ansiedade. É um trabalho solene; é uma obra terrível, quando considerada à luz da eternidade.

Ah, como o ministro de Deus ora por vocês! Se pudessem escutar junto à janela de seu quarto, ouviriam seus gemidos em muitas noites de domingo, enquanto lamenta não ter pregado com maior eficácia. Ouviriam suas súplicas diante de Deus:

“Quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do SENHOR?”

Ah, quando ele os contemplar, desde seu descanso no céu, e os vir orando, como baterá palmas e dirá:

“Eis o filho que me deste! Eis que ele está orando!”

Tenho certeza de que, quando vemos alguém sendo conduzido ao conhecimento do Senhor, sentimos algo semelhante ao que sentiria uma pessoa que acaba de salvar outra de um afogamento.

Há um pobre homem sendo arrastado pela correnteza. Está afundando; está prestes a se afogar. Salto na água, agarro-o firmemente, levo-o até a margem e o deito no chão.

O médico chega, examina-o, coloca a mão sobre ele e diz: “Receio que esteja morto.”

Fazemos tudo o que está ao nosso alcance para restaurar-lhe a vida. Sinto que fui o instrumento de seu livramento e, ah, como me inclino e aproximo o ouvido de sua boca!

Finalmente, exclamo:

“Ele respira! Ele respira!”

Que alegria há nesse pensamento! Ele respira. Ainda existe vida!

Assim acontece quando encontramos um homem orando. Exclamamos: “Ele respira!” Ele não está morto. Está vivo! Pois, enquanto um homem ora, já não está morto em suas transgressões e pecados; foi vivificado pelo poder do Espírito.

“Eis que ele está orando!”

Essa foi uma notícia alegre no céu, além de ser um fato observado por Deus.

3. Um acontecimento que causou espanto aos homens

Em seguida, esse acontecimento foi motivo de grande espanto para os homens.

Ananias ergueu as duas mãos, tomado de assombro.

“Meu Senhor, eu imaginaria que qualquer pessoa pudesse orar, menos aquele homem! Será possível?”

Não sei como acontece com outros ministros, mas, às vezes, olho para certas pessoas da congregação e penso: “Bem, há boas esperanças para elas. Creio que conseguirei alcançá-las. Espero que uma obra esteja acontecendo em seus corações e que em breve venham contar o que o Senhor fez por suas almas.”

Pouco tempo depois, talvez eu não veja mais nenhuma delas; desaparecem completamente. Em vez disso, meu bom Mestre me envia alguém em quem eu não depositava esperança alguma: um marginalizado, um bêbado, um homem depravado. Tudo isso acontece para louvor da glória de sua graça!

Então ergo as mãos, espantado, e penso: “Eu esperaria qualquer pessoa, menos você!”

Lembro-me de um acontecimento ocorrido há pouco tempo. Havia um pobre homem de aproximadamente sessenta anos. Era um marinheiro rude, um dos piores homens da aldeia. Seu costume era beber, e parecia sentir prazer em amaldiçoar e blasfemar.

Certo domingo, porém, entrou na capela enquanto um homem muito próximo de mim pregava sobre o texto que fala de Jesus chorando por Jerusalém.

O pobre homem pensou: “O quê? Jesus Cristo alguma vez chorou por um miserável como eu?” Ele acreditava ser tão perverso que Cristo não poderia se importar com ele.

Finalmente, procurou o ministro e disse:

“Senhor, durante sessenta anos naveguei sob a bandeira do diabo. Está na hora de mudar de patrão. Quero afundar o velho navio e destruí-lo completamente. Depois terei um novo navio e navegarei sob a bandeira do Príncipe Emanuel.”

Desde aquele momento, aquele homem passou a ser uma pessoa de oração, andando diante de Deus com toda a sinceridade.

E, no entanto, era justamente o último homem de quem alguém esperaria isso!

De alguma maneira, Deus escolhe justamente os últimos. Ele não procura apenas diamantes; recolhe também pedras comuns, pois é capaz de levantar filhos para Abraão até mesmo das pedras.

Deus é mais sábio do que o químico. Ele não apenas purifica o ouro, mas transforma metais inferiores em joias preciosas. Toma os mais imundos e desprezíveis e os transforma em seres gloriosos. Faz santos daqueles que eram pecadores e santifica aqueles que antes eram profanos.

A conversão de Saulo foi algo extraordinário. Mas, amados, teria sido mais extraordinária do que o fato de você e eu termos nos tornado cristãos?

Permitam-me perguntar: se alguém lhes tivesse dito, alguns anos atrás, que vocês fariam parte de uma igreja e seriam contados entre os filhos de Deus, o que teriam respondido?

“Bobagem! Que absurdo! Não sou um desses metodistas fanáticos. Não quero saber de religião. Gosto de pensar e fazer o que bem entender!”

Não foi isso que muitos de nós dissemos?

Então, como chegamos até aqui?

Quando olhamos para a transformação que aconteceu em nós, tudo parece um sonho. Deus deixou em nossas famílias muitas pessoas que eram melhores do que nós. Por que nos escolheu?

Oh, isso não é extraordinário? Não deveríamos erguer as mãos, espantados como Ananias, e dizer:

“Eis! Eis! Eis um milagre na terra, uma maravilha no céu!”

4. Uma novidade para o próprio Saulo

A última observação sobre esse anúncio é que o fato foi uma novidade para o próprio Saulo.

“Eis que ele está orando.”

O que há de novo nisso? Saulo costumava ir ao templo duas vezes por dia, nas horas de oração. Se vocês o tivessem acompanhado, teriam ouvido palavras eloquentes como estas:

“Senhor, graças te dou porque não sou como os demais homens: não sou ladrão, nem publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto possuo.”

E assim por diante.

Vocês poderiam tê-lo encontrado pronunciando uma bela oração diante do trono de Deus. E, no entanto, a Escritura diz: “Eis que ele está orando!”

Como assim? Nunca havia orado antes?

Não! Nunca!

Tudo o que fizera anteriormente não tinha valor como oração.

Ouvi falar de um senhor idoso que, quando criança, foi ensinado a orar assim: “Peço a Deus que abençoe meu pai e minha mãe.” Ele continuou repetindo a mesma oração durante setenta anos, mesmo depois que seus pais já haviam morrido.

Por fim, aprouve a Deus, em sua infinita misericórdia, tocar-lhe o coração. Então ele percebeu que, apesar de sua fidelidade às fórmulas religiosas, nunca havia realmente orado.

Ele costumava recitar suas orações, mas nunca orava de verdade.

O mesmo acontecia com Saulo. Ele havia pronunciado discursos elevados, mas tudo aquilo era inútil. Fazia longas orações como pretexto para parecer piedoso. Tudo havia sido um fracasso.

Agora, porém, surge uma verdadeira súplica, e a Palavra declara:

“Eis que ele está orando!”

Vocês veem aquele homem tentando obter a atenção de seu Criador? Como se posiciona! Fala em latim e recita versos diante do trono do Todo-Poderoso, mas Deus permanece indiferente àquela ostentação.

Então o homem tenta outro estilo. Pega um livro, ajoelha-se novamente e recita, de maneira admirável, a melhor oração antiga que poderia ter sido composta. Mas o Altíssimo continua desprezando suas formalidades vazias.

Finalmente, a pobre criatura joga o livro de lado, esquece seus versos e diz:

“Ó Senhor, ouve-me por amor de Cristo!”

“Ouçam-no!”, diz Deus. “Eu o ouvi.”

Ali está a misericórdia que você buscava!

Uma oração sincera vale mais do que dez mil fórmulas religiosas. Uma oração que brota da alma vale mais do que milhares de leituras frias e mecânicas.

Quanto às orações que procedem apenas da boca e da mente, Deus as abomina. Ele ama aquelas que vêm do fundo do coração.

Talvez eu fosse ousado demais se dissesse que há centenas de pessoas aqui nesta manhã que nunca oraram uma única vez em toda a vida. Mas alguns de vocês realmente nunca oraram.

Há um jovem ali que, ao sair da casa dos pais, prometeu que continuaria fazendo suas orações formais todas as manhãs e noites. Entretanto, agora sente vergonha e abandonou esse costume.

Bem, jovem, o que fará quando chegar a hora de morrer? Terá “a senha nos portões da morte”? Entrará no céu por meio de uma oração meramente formal?

Não! Você será afastado da presença de Deus e lançado fora.

II. Um argumento: “Pois eis que ele está orando”

“Pois eis que ele está orando.”

Em primeiro lugar, isso foi um argumento em favor da segurança de Ananias.

O pobre Ananias tinha medo de ir até Saulo. Para ele, seria quase como entrar na cova de um leão.

“Se eu for à casa dele”, pensava, “assim que me reconhecer, vai me levar imediatamente a Jerusalém, pois sou um dos discípulos de Cristo. Não me atrevo a ir!”

Mas Deus lhe disse:

“Eis que ele está orando.”

“Bem”, respondeu Ananias em seu coração, “isso é suficiente para mim. Se ele é um homem de oração, não me fará mal. Se é verdadeiramente devoto, estarei seguro.”

Tenham certeza de que, em geral, podemos confiar em um homem que realmente ora.

Não sei explicar como isso acontece, mas até mesmo homens ímpios demonstram respeito por um cristão sincero. Um patrão gosta de ter um empregado que ora; mesmo que ele próprio não considere a religião importante, prefere confiar em um empregado piedoso.

É verdade que algumas pessoas que afirmam orar não possuem sequer um pouco do espírito de oração. Mas, quando encontrarem um homem que realmente ora, podem confiar-lhe riquezas incontáveis. Se ele ora de verdade, não precisam temê-lo.

Aquele que tem comunhão com Deus em secreto pode ser digno de confiança em público. Sempre me sinto seguro ao lado de alguém que frequenta o trono da graça.

Ouvi uma história sobre dois cavalheiros que viajavam juntos por algum lugar da Suíça. Em determinado momento, chegaram a uma região de florestas. Vocês conhecem as histórias sombrias que as pessoas contam sobre as hospedarias daqueles lugares e os perigos de se hospedar nelas.

Um dos viajantes, que era incrédulo, disse ao outro, que era cristão:

“Não gosto nem um pouco de parar aqui. Este lugar parece muito perigoso.”

“Bem”, respondeu o cristão, “vamos experimentar.”

Entraram em uma casa que parecia tão suspeita que nenhum dos dois se sentiu confortável. Ambos pensaram que prefeririam estar de volta à Inglaterra.

Então o dono da hospedaria disse:

“Senhores, costumo ler a Bíblia e orar com minha família antes de dormir. Permitem que façamos isso esta noite?”

“Sim!”, responderam eles, com grande satisfação.

Quando subiram para o quarto, o incrédulo disse:

“Agora já não estou com medo.”

“Por quê?”, perguntou o cristão.

“Porque nosso anfitrião orou.”

“Ah!”, respondeu o outro. “Então, afinal, você considera a religião importante. Porque um homem ora, você consegue dormir tranquilamente na casa dele.”

E foi extraordinário como os dois dormiram bem naquela noite! Tiveram sonhos agradáveis, pois sentiram que, onde uma casa era coberta pela oração e cercada pela devoção, dificilmente viveria alguém disposto a lhes fazer mal.

Esse foi, portanto, um argumento para convencer Ananias de que poderia ir em segurança à casa de Saulo.

1. Uma evidência da sinceridade de Paulo

Mas há algo mais: a oração era um argumento em favor da sinceridade de Paulo.

A oração secreta é uma das melhores provas da autenticidade da religião.

Se Jesus tivesse dito a Ananias: “Eis que ele está pregando”, Ananias poderia ter respondido: “Ele pode fazer isso e ainda ser um enganador.”

Se tivesse dito: “Ele foi a uma reunião da igreja”, Ananias poderia ter pensado: “Ele pode entrar ali como um lobo vestido de ovelha.”

Mas, quando o Senhor disse: “Eis que ele está orando”, isso foi argumento suficiente.

Um jovem vem até mim e conta o que sentiu e o que tem feito. Finalmente, digo-lhe:

“Ajoelhe-se e ore.”

“Eu preferiria não fazer isso.”

“Não importa. Você vai orar.”

Ele se ajoelha, mas mal consegue pronunciar uma palavra. Começa a gemer e chorar, permanecendo de joelhos até finalmente balbuciar:

“Senhor, tem misericórdia de mim, pecador! Sou o maior dos pecadores. Tem misericórdia de mim!”

Então fico um pouco mais satisfeito e digo:

“Não dei tanta importância às suas palavras; queria ouvir suas orações.”

Mas ah, se eu pudesse acompanhá-lo até sua casa e vê-lo orar sozinho, então me sentiria seguro. Pois aquele que ora em particular é um verdadeiro cristão.

A simples leitura de um livro de devoções diárias não prova que você é filho de Deus. Mas, se você ora em secreto, isso revela a sinceridade de sua fé.

Uma pequena porção de religião sincera vale mais do que montanhas de fingimento. A piedade praticada em casa é a melhor forma de piedade.

A oração fará você abandonar o pecado, ou o pecado fará você abandonar a oração.

A oração que nasce no coração comprova a realidade da conversão. Um homem pode ser sincero e, ainda assim, estar sinceramente enganado. Paulo, porém, estava sinceramente no caminho certo.

“Eis que ele está orando” era a melhor evidência de que sua religião era verdadeira.

Se alguém me pedisse um resumo da religião cristã, eu responderia com uma única palavra: oração.

Se me perguntassem o que abrange toda a experiência cristã, eu responderia novamente: oração.

Um homem precisa ter sido convencido de seu pecado antes de poder orar verdadeiramente. Precisa ter alguma esperança de que existe misericórdia para ele. Na verdade, todas as virtudes cristãs estão encerradas nessa palavra: oração.

Diga-me que você é uma pessoa de oração e responderei imediatamente:

“Senhor, não tenho dúvidas da realidade e da sinceridade de sua fé.”

2. Uma evidência da eleição divina

Resta ainda um pensamento antes de encerrarmos esse assunto: a oração também era uma prova da eleição daquele homem, pois logo depois lemos que ele era um vaso escolhido.

Frequentemente encontro pessoas preocupadas com a doutrina da eleição. De tempos em tempos, recebo cartas de alguém que me repreende por pregar sobre esse assunto.

Minha resposta é sempre a mesma:

“Essa doutrina está na Bíblia. Vá perguntar ao meu Mestre por que Ele a colocou ali. Não posso fazer nada a respeito. Sou apenas um servo e transmito a mensagem que vem do alto.”

Se eu fosse um criado encarregado de entregar uma mensagem, não deveria alterá-la à porta da casa de meu senhor. Sou embaixador do céu e não me atrevo a modificar a mensagem que recebi.

Se há algo errado, reclamem com o próprio remetente. A mensagem está ali, e não posso mudá-la.

Permitam-me explicar uma coisa.

Alguns perguntam:

“Como posso descobrir se sou um dos eleitos de Deus? Tenho medo de não ser.”

Você ora?

Se pode ser dito a seu respeito: “Eis que ele está orando”, também pode ser dito: “Eis um vaso escolhido”.

Você tem fé? Se tem, isso é uma evidência de sua eleição. Essas são marcas da eleição divina. Se você não possui nenhuma dessas evidências, não tem fundamento para concluir que pertence ao povo peculiar de Deus.

Você deseja crer? Deseja amar a Cristo? Possui sequer uma pequena vontade de ir a Cristo? E esse desejo é prático? Ele o leva a oferecer súplicas fervorosas, acompanhadas de lágrimas?

Se é assim, não tenha medo de não ser eleito. Pois aquele que ora com sinceridade foi destinado por Deus, antes da fundação do mundo, para ser santo e irrepreensível diante de Cristo, em amor.

III. Aplicação

Meus queridos amigos, quero dizer-lhes algumas palavras antes de mandá-los de volta para casa nesta manhã.

Lamento não conseguir desenvolver esse assunto tão bem quanto gostaria. Mas meu glorioso Mestre exige de cada um de nós segundo aquilo que temos, e não segundo aquilo que não temos.

Tenho plena consciência de que falho em apresentar a verdade com a solenidade e a força com que deveria. Entretanto, “a minha causa está com Deus, e a minha recompensa com o meu Deus”. O último dia revelará que meus erros foram de julgamento, e não de falta de amor sincero pelas almas.

1. Uma palavra aos filhos de Deus

Primeiramente, quero dirigir-me aos filhos de Deus.

Meus queridos irmãos, vocês não percebem que a melhor evidência de sermos filhos de Deus se encontra em nossa vida de oração?

“Eis que ele está orando.”

Se isso é verdade, não se segue naturalmente que, quanto mais nos dedicarmos à oração, mais claras serão as evidências de nossa condição espiritual?

Talvez você tenha perdido hoje a segurança de sua fé. Já não sabe se é ou não um filho de Deus.

Direi onde perdeu essa confiança: foi em seu quarto de oração.

Sempre que um cristão começa a se afastar de Deus, seu desvio tem início no lugar secreto de oração.

Falo por experiência própria. Muitas vezes me afastei de Deus — nunca a ponto de cair definitivamente, pois sei que Ele me sustentará —, mas perdi repetidas vezes aquela doce experiência de seu amor que antes desfrutava.

Tive de lamentar:

“Aquelas horas de paz que eu desfrutava,
Como ainda é doce recordar!
Mas deixaram um vazio doloroso
Que o mundo jamais poderá preencher.”

Já subi ao púlpito para pregar sem fogo e sem energia. Li a Bíblia, mas nenhuma luz parecia brilhar sobre suas páginas. Tentei ter comunhão com Deus, mas tudo parecia fracassar.

Querem saber onde tudo começou?

Começou em meu quarto de oração. Eu havia deixado de orar, pelo menos em certa medida.

Estou aqui para confessar minhas falhas. Reconheço que, sempre que me afasto de Deus, é ali que tudo começa.

Oh, cristãos, vocês querem ser felizes? Dediquem-se muito à oração!

Querem ser vitoriosos? Dediquem-se muito à oração!

“Quando deixamos de orar, cessamos de lutar;
A oração faz brilhar a armadura do cristão.”

A senhora Berry costumava dizer: “Eu não me deixaria tirar do meu quarto de oração nem por mil mundos.”

O senhor Jay dizia: “Se os doze apóstolos estivessem vivendo perto de você e você tivesse acesso a eles, mas essa convivência o afastasse do seu quarto de oração, eles se tornariam um verdadeiro prejuízo para sua alma.”

A oração é o navio que traz a carga mais preciosa. É o solo que produz a colheita mais abundante.

Irmão, você se levanta pela manhã, mas os compromissos o pressionam tanto que, depois de pronunciar algumas palavras apressadas, sai correndo para o mundo. À noite, exausto e cansado, entrega a Deus apenas os últimos instantes do dia.

A consequência é que você não desfruta de comunhão com Ele.

A razão pela qual temos tão pouca religião verdadeira em nossos dias é que temos tão pouca oração.

Senhores, não tenho boa opinião das igrejas atuais que não oram.

Percorro capelas por toda esta grande cidade e encontro congregações razoavelmente numerosas. Mas, quando vou às reuniões de oração durante a semana, encontro apenas uma dúzia de pessoas.

Deus pode nos abençoar? Pode derramar seu Espírito sobre nós enquanto essas coisas acontecem?

Sim, Ele pode. Mas isso não estaria de acordo com a ordem habitual de sua obra, pois está escrito:

“Quando Sião estiver de parto, dará à luz filhos.”

Voltem às suas igrejas e capelas com este pensamento: precisamos de mais oração!

Muitos de vocês nem deveriam estar aqui nesta manhã. Deveriam estar em seus próprios lugares de culto. Não quero tirar os membros de outras congregações. Há pessoas suficientes para me ouvir sem que eu precise fazer isso.

Mas, já que vocês pecaram vindo para cá nesta manhã, aproveitem ao máximo a oportunidade e ouçam de maneira proveitosa.

Voltem para casa e digam ao seu pastor:

“Senhor, precisamos orar mais!”

Incentivem os irmãos a se dedicarem mais à oração. Organizem uma reunião de oração, mesmo que precisem realizá-la sozinhos.

E, se alguém perguntar quantas pessoas compareceram, você poderá responder:

“Quatro.”

“Quatro? Como assim?”

“Estávamos eu, Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, e tivemos uma comunhão rica e verdadeira.”

Precisamos de um derramamento de devoção genuína. Caso contrário, o que será de muitas de nossas igrejas?

Oh, que Deus desperte a todos nós e nos estimule a orar! Pois, quando orarmos, seremos vitoriosos.

Gostaria de fazer com vocês o que Sansão fez com as raposas: amarrar tochas de oração a cada uma delas e enviá-las para o meio dos feixes de trigo, até incendiar tudo.

Gostaria de provocar, por minhas palavras, um grande incêndio espiritual e colocar todas as igrejas em chamas, até que a fumaça subisse como um sacrifício diante do trono de Deus.

Se você ora, tem uma evidência de que é cristão. Quanto menos ora, menos motivos tem para acreditar na autenticidade de sua fé. E, se abandonou completamente a oração, é como se tivesse deixado de respirar. Talvez seja necessário temer que nunca tenha respirado espiritualmente.

2. Uma palavra aos que ainda não conhecem a Deus

Agora, minha última palavra é para os que vivem sem Deus.

Oh, senhores! Eu preferiria estar em qualquer outro lugar neste momento, pois, se é um trabalho solene falar aos filhos de Deus, quanto mais difícil é dirigir-me a vocês!

Tememos, por um lado, falar de maneira que vocês passem a confiar nas próprias forças. Por outro, trememos diante da possibilidade de embalá-los em um sono de indolência e falsa segurança.

Creio que a maioria de nós sente alguma dificuldade para encontrar a maneira mais adequada de pregar a vocês. Não duvidamos de que o Evangelho deve ser pregado; nosso desejo é anunciá-lo de tal modo que possamos conquistar suas almas.

Sinto-me como um vigia encarregado de proteger uma cidade, mas oprimido pelo sono. Com que empenho ele tenta despertar, enquanto sua própria fraqueza procura vencê-lo! A lembrança de sua responsabilidade o mantém alerta.

Não lhe falta vontade, mas força. Assim espero que todos os atalaias do Senhor desejem ser fiéis, embora reconheçam suas imperfeições.

O ministro de Cristo se sente como o antigo guardião do farol de Eddystone. Sua vida estava chegando rapidamente ao fim, mas ele reuniu todas as forças restantes e rastejou mais uma vez ao redor do farol para aparar as luzes antes de morrer.

Oh, que o Espírito Santo nos capacite a manter a chama do farol acesa, advertindo vocês sobre as rochas, os bancos de areia e os perigos que os cercam! E que sempre os conduza a Jesus, e não à confiança no livre-arbítrio ou nos méritos humanos.

Se meus amigos soubessem com que ansiedade tenho buscado a direção divina nessa importante tarefa de pregar aos pecadores, não reagiriam como alguns reagem quando imaginam que me dirijo a eles de maneira errada.

Quero fazer o que Deus me ordena. Se Ele me manda falar aos ossos secos para que vivam, devo fazê-lo, mesmo que isso desagrade a outras pessoas. Caso contrário, minha própria consciência me condenaria, e Deus também me condenaria.

Agora, com toda a solenidade de que sou capaz, quero declarar:

Uma alma sem oração é uma alma sem Cristo.

Tão certo como vive o Senhor, vocês que nunca oraram estão sem Deus, sem esperança e afastados da comunidade de Israel.

Vocês que nunca conheceram o que é um gemido de arrependimento ou uma lágrima derramada diante de Deus estão privados da verdadeira piedade.

Permitam-me perguntar: vocês já pensaram na condição terrível em que se encontram?

Estão longe de Deus e, por isso, Deus está irado com vocês. Pois está escrito:

“Deus sente indignação contra os ímpios todos os dias.”

Oh, pecador, levante os olhos e contemple o semblante severo de Deus, pois Ele está irado com você.

E suplico-lhe, pelo amor que você tem a si mesmo, que pare por um momento e considere o que acontecerá se continuar vivendo dessa maneira e finalmente morrer sem oração.

Não pense que uma oração feita no leito de morte será suficiente para salvá-lo. A oração feita no leito de morte frequentemente não passa de uma farsa, e nada vale. É uma moeda que não ressoará no céu, pois traz a marca da hipocrisia e é feita de metal inferior.

Tenha cuidado, senhor! Se você nunca orou, o que fará?

Seria uma coisa boa para você se a morte fosse um sono eterno. Mas não é.

Se você se encontrar no inferno, oh, que tormentos e dores o aguardam!

Não quero ferir seus sentimentos tentando descrever tudo isso. Que Deus permita que você jamais experimente os tormentos dos perdidos.

Imagine apenas aquele pobre miserável em meio às chamas, clamando:

“Ah, se eu pudesse receber uma única gota de água para refrescar minha língua ressequida!”

Veja como sua língua pende entre os lábios queimados! Como arde e fere o céu da boca, como se fosse uma tocha em chamas! Contemple-o clamando por uma gota de água.

Não descreverei essa cena. Basta concluir dizendo que o pior dos tormentos do inferno será saber que ele durará para sempre.

Você olhará para o trono de Deus e verá ali escrita a palavra: “Para sempre!”

Quando os condenados fizerem soar os ferros ardentes de seus tormentos, gritarão: “Para sempre!”

Quando uivarem, o eco responderá: “Para sempre!”

“Para sempre está escrito em seus tormentos,
Para sempre, em suas correntes;
Para sempre arde o fogo,
Para sempre o sofrimento permanece.”

Que pensamento terrível!

“Se eu pudesse sair daqui, seria feliz. Se houvesse alguma esperança de libertação, poderia ter paz. Mas estou aqui para sempre!”

Senhores, se desejam escapar dos tormentos eternos e fazer parte do número dos bem-aventurados, saibam que o caminho para o céu só pode ser encontrado por meio da oração: oração a Jesus, súplica pelo Espírito e clamor diante do trono da graça.

“Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos! Por que haveis de morrer, ó casa de Israel? Vivo eu, diz o Senhor JEOVÁ, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva.”

“O SENHOR é misericordioso e compassivo.”

Vamos até Ele e digamos:

“Ele curará as nossas infidelidades, nos amará livremente e nos perdoará graciosamente, por amor do nome de seu Filho.”

Oh, se eu puder conquistar uma única alma hoje, voltarei para casa satisfeito! Se puder alcançar vinte, alegrarei meu coração. Quanto mais almas alcançar, mais coroas terei para usar.

Usar? Não! Tomarei todas de uma só vez e as lançarei aos pés de Jesus, dizendo:

“Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória para sempre!”

A oração foi instituída para trazer
As bênçãos que Deus deseja conceder;
Enquanto vivem, os cristãos devem orar,
Pois somente enquanto oram podem viver.

E continuarás em silêncio, sem clamar,
Quando Cristo espera tuas orações?
Minha alma, tens um Amigo lá no alto;
Levanta-te e busca seus favores.

É a oração que sustenta a alma fraca,
Ainda que o pensamento esteja confuso e a fala falhe;
Ora, quer possas falar, quer não possas,
Mas ora com fé no nome de Jesus.

Extraído da coleção The Metropolitan Tabernacle Pulpit, de C. H. Spurgeon. O texto original informa que foram feitas apenas alterações necessárias, como correções ortográficas, ajustes de pontuação, padronização de maiúsculas nos pronomes referentes à divindade e pequenas atualizações de palavras arcaicas. O conteúdo foi publicado integralmente.

Recursos adicionais baseados na Bíblia estão disponíveis em www.spurgeongems.org.


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A BÍBLIA

 


Sermão nº 15 — C. H. Spurgeon

Série: The New Park Street Pulpit — Volume 1
Pregador: Rev. Charles Haddon Spurgeon
Data: Domingo à noite, 18 de março de 1855
Local: Exeter Hall, Strand, Londres
Texto bíblico: Oseias 8:12

“Escrevi para ele as grandezas da minha lei, mas estas foram consideradas como coisa estranha.”

Oseias 8:12

Introdução

Esta é a queixa de Deus contra Efraim. Não é uma prova insignificante de Sua bondade o fato de Ele Se inclinar para repreender Suas criaturas errantes. É uma grande demonstração de Sua disposição graciosa o fato de Ele abaixar a cabeça para observar os assuntos terrenos.

Se quisesse, Ele poderia envolver-Se com a noite como quem veste um manto. Poderia colocar as estrelas ao redor do pulso como braceletes e prender os sóis ao redor da fronte como uma coroa. Poderia habitar sozinho, muito, muito acima deste mundo, no sétimo céu, contemplando com calma e silenciosa indiferença todas as ações de Suas criaturas.

Poderia fazer como os pagãos imaginavam que fazia seu Júpiter: permanecer em perpétuo silêncio, às vezes inclinando a cabeça majestosa para fazer com que as Parcas se movessem conforme sua vontade, mas sem jamais se importar com as pequenas coisas da Terra, considerando-as indignas de Sua atenção e permanecendo inteiramente absorvido em Seu próprio ser, recolhido em Si mesmo. Ele viveria sozinho e retirado.

E eu, como uma de Suas criaturas, poderia permanecer à noite no topo de uma montanha, contemplar as estrelas silenciosas e dizer:

“Vocês são os olhos de Deus, mas não olham para mim. Sua luz é um presente de Sua onipotência, mas seus raios não são sorrisos de amor dirigidos a mim. Deus, o poderoso Criador, esqueceu-Se de mim. Sou uma gota desprezível no oceano da criação, uma folha seca na floresta dos seres, um átomo na montanha da existência. Ele não me conhece. Estou sozinho, sozinho, completamente sozinho.”

Mas não é assim, amados.

Nosso Deus é diferente. Ele observa cada um de nós. Não há pardal nem verme que esteja fora de Seus decretos. Não há pessoa sobre a qual Seu olhar não esteja fixo. Nossos atos mais secretos são conhecidos por Ele. Tudo o que fazemos, suportamos ou sofremos permanece sob o olhar de Deus, e estamos debaixo de Seu sorriso — pois somos Seu povo — ou debaixo de Sua repreensão, porque nos desviamos Dele.

Oh! Quão infinitamente misericordioso é Deus, pois, ao olhar para a raça humana, não a faz desaparecer com um simples gesto de desaprovação!

Nosso texto mostra que Deus olha para o homem, pois diz a respeito de Efraim:

“Escrevi para ele as grandezas da minha lei, mas estas foram consideradas como coisa estranha.”

Observe, porém, como Deus, ao contemplar o pecado humano, não destrói imediatamente o pecador nem o repele com o pé. Não o segura pelo pescoço sobre o abismo do inferno até que sua mente fique atordoada, para depois soltá-lo e deixá-lo cair para sempre.

Pelo contrário, Ele desce do céu para argumentar com Suas criaturas. Ele conversa com elas. Por assim dizer, coloca-Se no mesmo nível do pecador, apresenta Suas queixas e reivindica aquilo que Lhe pertence:

“Ó Efraim, escrevi para ti as grandezas da minha lei, mas elas foram para ti como uma coisa estranha!”

Meus amigos, venho aqui esta noite em lugar de Deus, como Seu embaixador, para argumentar com vocês; para acusar muitos de vocês de um pecado e colocá-lo sobre seus corações pelo poder do Espírito, a fim de que sejam convencidos do pecado, da justiça e do juízo vindouro.

O delito de que os acuso é o pecado mencionado no texto. Deus escreveu para vocês as grandezas de Sua lei, mas elas se tornaram uma coisa estranha para vocês.

É a respeito deste livro bendito, a Bíblia, que pretendo falar nesta noite. Aqui está o meu texto: esta Palavra de Deus. Aqui está o tema do meu discurso, um assunto que exige mais eloquência do que possuo. É um tema sobre o qual mil oradores poderiam falar ao mesmo tempo. Um assunto grandioso, vasto e incompreensível, capaz de ocupar toda a eloquência por toda a eternidade e, ainda assim, permanecer inesgotável.

A respeito da Bíblia, tenho três coisas a dizer nesta noite, todas presentes em meu texto.

Primeiro, seu Autor: “Eu escrevi”.

Segundo, seus assuntos: as grandezas da lei de Deus.

Terceiro, o tratamento que geralmente recebe: para a maioria das pessoas, ela tem sido considerada uma coisa estranha.

I. O AUTOR DA BÍBLIA

Quem é o Autor deste livro?

O texto declara que é Deus:

“Escrevi para ele as grandezas da minha lei.”

Aqui está minha Bíblia. Quem a escreveu?

Abro suas páginas e descubro que ela é composta por uma série de escritos. Os cinco primeiros foram escritos por um homem chamado Moisés. Continuo a leitura e encontro outros. Às vezes, vejo Davi como escritor; em outras ocasiões, Salomão. Aqui leio Miqueias, depois Amós e, em seguida, Oseias.

Ao avançar para as páginas mais luminosas do Novo Testamento, encontro Mateus, Marcos, Lucas e João, Paulo, Pedro, Tiago e outros.

Mas, quando fecho o livro, pergunto a mim mesmo: quem é seu Autor? Esses homens reivindicam conjuntamente a autoria? São eles os compositores deste imenso volume? Dividem entre si a honra de tê-lo escrito?

Nossa santa religião responde: Não!

Este volume é a escrita do Deus vivo. Cada letra foi traçada pelo dedo do Todo-Poderoso. Cada palavra procedeu dos lábios eternos, e cada frase foi ditada pelo Espírito Santo.

Embora Moisés tenha sido usado para escrever suas narrativas com sua pena vigorosa, foi Deus quem guiou essa pena. Talvez Davi tenha tocado sua harpa e deixado doces salmos de melodia fluírem de seus dedos, mas foi Deus quem moveu suas mãos sobre as cordas vivas de sua harpa dourada.

Talvez Salomão tenha cantado cânticos de amor ou proferido palavras de sabedoria incomparável, mas Deus dirigiu seus lábios e tornou eloquente o Pregador.

Se acompanho o estrondoso Naum, quando seus cavalos revolvem as águas, ou Habacuque, quando contempla as tendas de Cusã em aflição; se leio Malaquias, quando a Terra arde como um forno; se volto à página suave de João, que fala de amor, ou aos capítulos vigorosos e ardentes de Pedro, que fala do fogo que devora os inimigos de Deus; se me volto para Judas, que pronuncia severas condenações contra os adversários do Senhor — em toda parte encontro Deus falando.

É a voz de Deus, não a voz do homem. As palavras são palavras de Deus, palavras do Eterno, do Invisível, do Todo-Poderoso, do JEOVÁ desta Terra.

Esta Bíblia é a Bíblia de Deus. Quando a contemplo, parece-me ouvir uma voz que surge de suas páginas e diz:

“Sou o livro de Deus. Homem, lê-me! Sou a escrita de Deus. Abre minhas páginas, pois fui escrita por Deus. Lê-me, porque Ele é meu Autor, e O verás visível e manifesto em toda parte.”

“Escrevi para ele as grandezas da minha lei.”

Como sabemos que Deus escreveu este livro?

Não tentarei provar isso a vocês. Poderia fazê-lo, se quisesse, apresentando argumentos suficientes e razões convincentes, caso desejasse ocupar o tempo desta noite com tais demonstrações. Mas não farei isso.

Poderia dizer-lhes que a grandiosidade de seu estilo está acima da capacidade de qualquer escritor mortal e que todos os poetas que já existiram, mesmo reunindo suas obras, não poderiam nos oferecer uma poesia tão sublime e uma linguagem tão poderosa quanto as encontradas nas Escrituras.

Poderia insistir que os assuntos de que ela trata estão além do intelecto humano; que o homem jamais poderia ter inventado as grandiosas doutrinas da Trindade divina. O homem não poderia ter-nos revelado a criação do universo. Jamais poderia ter sido o autor da majestosa ideia da Providência, segundo a qual todas as coisas são ordenadas pela vontade de um único Ser Supremo e cooperam para o bem.

Poderia destacar sua honestidade, pois ela revela as falhas de seus próprios escritores. Poderia ressaltar sua unidade, pois jamais contradiz a si mesma. Poderia mencionar sua admirável simplicidade, de modo que até quem passa correndo pode lê-la. E poderia citar uma centena de outras características que demonstrariam conclusivamente que este livro procede de Deus.

Mas não vim aqui para provar isso.

Sou um ministro cristão, e vocês são cristãos — ou professam sê-lo. Nunca é necessário que os ministros cristãos façam questão de apresentar argumentos dos incrédulos apenas para depois respondê-los. Isso é uma grande tolice.

Os incrédulos, pobres criaturas, muitas vezes nem conhecem seus próprios argumentos até que nós os apresentemos. Então recolhem suas flechas sem ponta e voltam a dispará-las contra o escudo da verdade.

É insensato trazer à tona essas tochas do inferno, mesmo quando estamos preparados para apagá-las. Que os homens do mundo descubram o erro por conta própria; não sejamos nós propagadores de suas falsidades.

É verdade que alguns pregadores têm pouco conteúdo e precisam recorrer a essas coisas para preencher seus discursos. Mas os homens escolhidos pelo próprio Deus não precisam agir assim. Eles são ensinados por Deus, e Deus lhes fornece conteúdo, linguagem e poder.

Talvez haja alguém aqui esta noite que tenha vindo sem fé, alguém que confia na razão e se considera livre-pensador. Não tenho nenhuma discussão a travar com essa pessoa. Não pretendo estar aqui como polemista, mas como pregador daquilo que conheço e experimento.

Entretanto, eu também já fui assim.

Houve uma hora infeliz em que soltei a âncora da minha fé e cortei o cabo da minha confiança. Já não me mantinha firmemente ancorado junto às costas da revelação. Permiti que meu barco fosse levado pelo vento. Disse à razão: “Você será meu capitão.” Disse ao meu próprio intelecto: “Você será meu leme.” E parti em minha viagem insensata.

Graças a Deus, tudo isso terminou. Mas contarei brevemente a história dessa experiência.

Foi uma navegação apressada pelo tempestuoso oceano do livre-pensamento. Continuei avançando, e o céu começou a escurecer. Para compensar essa deficiência, porém, as águas brilhavam com cintilações luminosas. Vi faíscas subindo, e aquilo me agradou. Pensei: “Se isto é o livre-pensamento, então é algo maravilhoso.”

Meus pensamentos pareciam pedras preciosas, e eu espalhava estrelas com ambas as mãos.

Mas, em pouco tempo, em lugar daquelas cintilações gloriosas, vi demônios sombrios, ferozes e horríveis surgindo das águas. À medida que avançava, eles rangiam os dentes e zombavam de mim. Agarraram a proa do meu navio e me arrastaram adiante. Em parte, eu me orgulhava da rapidez do movimento, mas, ao mesmo tempo, tremia diante da velocidade assustadora com que ultrapassava os antigos marcos da minha fé.

Enquanto avançava naquela velocidade terrível, comecei a duvidar da minha própria existência. Duvidei de que houvesse um mundo. Duvidei de que eu mesmo existisse.

Cheguei à própria fronteira das regiões sombrias da incredulidade. Desci até o fundo do mar da infidelidade. Duvidei de tudo.

Mas, nesse ponto, o diabo acabou derrotando a si mesmo, pois o exagero da dúvida demonstrou o absurdo dela.

Justamente quando contemplei o fundo daquele mar, uma voz perguntou:

“Será que essa dúvida pode ser verdadeira?”

Ao pensar nisso, despertei. Saí daquele sonho de morte que, Deus o sabe, poderia ter condenado minha alma e arruinado meu corpo, se eu não tivesse despertado.

Quando me levantei, a fé assumiu o leme. A partir daquele momento, não voltei a duvidar. A fé conduziu-me de volta. A fé clamou: “Para longe! Para longe!”

Lancei minha âncora no Calvário. Levantei os olhos para Deus e aqui estou, vivo e fora do inferno.

Portanto, falo daquilo que conheço. Naveguei por aquela viagem perigosa e cheguei em segurança à terra firme.

Peçam-me novamente que me torne incrédulo? Não! Já experimentei isso. No princípio, parecia agradável, mas depois se tornou amargo.

Agora, preso ao Evangelho de Deus com mais firmeza do que nunca, permanecendo como sobre uma rocha de granito, desafio os argumentos do inferno a me moverem, pois:

“Sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia.”

Mas nesta noite não vou argumentar nem tentar convencer vocês por meio de debates.

Vocês professam ser cristãos, caso contrário não estariam aqui. Talvez sua profissão de fé seja uma mentira. Aquilo que dizem ser pode ser exatamente o contrário daquilo que realmente são. Ainda assim, suponho que todos admitam que este é o Livro de Deus.

Consideremos, então, alguns pensamentos a respeito dele.

“Escrevi para ele as grandezas da minha lei.”

Meus amigos, em primeiro lugar, detenham-se diante deste volume e admirem sua autoridade.

Este não é um livro comum. Não são os ditos dos sábios da Grécia, nem as declarações dos filósofos das eras passadas. Se estas palavras tivessem sido escritas por homens, poderíamos rejeitá-las. Mas, oh, permitam-me considerar esta solene realidade: este livro é a própria escrita de Deus; estas palavras são palavras de Deus.

Observem sua origem: procede das alturas do céu. Contemplem suas letras: elas fazem resplandecer a glória diante dos meus olhos. Leiam seus capítulos: estão repletos de significado e de mistérios desconhecidos. Percorram suas profecias: estão carregadas de maravilhas jamais imaginadas.

Ó Livro dos livros! Foste escrito pelo meu Deus? Então me curvarei diante de ti.

Livro de imensa autoridade, és uma proclamação do Imperador do céu. Longe de mim usar minha razão para contradizer-te!

Razão, teu lugar é examinar e descobrir o significado deste volume, não determinar o que ele deveria dizer.

Venha, minha razão! Venha, meu intelecto! Sente-se e escute, pois estas palavras são as palavras de Deus.

Não sei como desenvolver suficientemente este pensamento. Oh! Se vocês pudessem sempre se lembrar de que esta Bíblia foi realmente escrita por Deus!

Se tivessem sido admitidos nas câmaras secretas do céu e contemplado Deus segurando Sua pena para escrever estas letras, certamente as respeitariam. Mas a escrita desta Bíblia é tão verdadeiramente de Deus como se vocês O tivessem visto escrevê-la.

Esta Bíblia é um livro de autoridade, um livro autorizado, porque Deus a escreveu.

Tremam, tremam, para que nenhum de vocês a despreze! Reconheçam sua autoridade, pois ela é a Palavra de Deus.

E, visto que Deus a escreveu, reconheçam também sua veracidade.

Se eu a tivesse escrito, haveria enxames de críticos prontos para atacá-la e cobri-la com suas acusações maliciosas. Se eu a tivesse escrito, haveria homens que a despedaçariam imediatamente — e talvez com toda a razão.

Mas este é o Livro de Deus!

Venham, críticos! Examinem-no e encontrem uma falha. Percorram-no desde Gênesis até Apocalipse e descubram um erro.

Esta é uma veia de ouro puro, sem mistura de quartzo ou qualquer substância terrosa. É uma estrela sem mancha, um sol sem mácula, uma luz sem escuridão, uma lua sem palidez, uma glória sem obscurecimento.

Ó Bíblia! Não se pode dizer de nenhum outro livro que seja perfeito e puro. Mas de ti podemos declarar que toda a sabedoria está reunida em tuas páginas, sem uma partícula de insensatez.

Este é o juiz que encerra a controvérsia quando o conhecimento humano e a razão falham. Este é o livro não contaminado por qualquer erro, mas constituído de verdade pura, sem mistura e perfeita.

Por quê?

Porque Deus o escreveu.

Acusem Deus de erro, se quiserem. Digam-Lhe que Seu livro não é como deveria ser. Tenho ouvido homens, com uma falsa modéstia e um ar de superioridade, declararem que gostariam de alterar a Bíblia.

E — quase me envergonho de dizer isso — já ouvi ministros modificarem a Bíblia de Deus porque tinham medo dela.

Vocês já ouviram alguém citar as palavras:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer...” — o que diz a Bíblia? — “será condenado eternamente.”

Mas isso não parece educado o suficiente para algumas pessoas. Então elas dizem: “será condenado”.

Senhores, tirem o veludo da boca! Falem a Palavra de Deus. Não queremos nenhuma de suas alterações.

Já ouvi pessoas orando e dizendo: “Tornai segura a vossa vocação e eleição”, mas substituindo essas palavras por: “Tornai segura a vossa vocação e salvação”.

Que pena que não tenham nascido quando Deus ainda estava escrevendo Sua Palavra, há muito, muito tempo, para que pudessem ensinar a Deus como escrever!

Oh, insolência sem limites! Oh, presunção plenamente desenvolvida! Pretender dar instruções ao Todo-Sábio, ensinar o Onisciente e instruir o Eterno!

É extraordinário que existam homens tão perversos a ponto de usar o canivete de Jeoaquim para cortar passagens da Palavra porque elas lhes desagradam.

Vocês que rejeitam certas partes das Escrituras Sagradas podem ter certeza de que seu gosto está corrompido e de que Deus não se submeterá à opinião insignificante de vocês.

O fato de não gostarem dessas passagens é justamente uma das razões pelas quais Deus as escreveu: vocês não deveriam encontrar nelas uma mensagem moldada aos seus próprios desejos. Não têm o direito de exigir que tudo lhes agrade. Deus escreveu aquilo de que vocês não gostam porque escreveu a verdade.

Oh! Curvemo-nos com reverência diante dela, pois Deus a inspirou. Ela é a verdade pura.

Desta fonte jorra a aqua vitae, a água da vida, sem uma única partícula de terra. Deste sol emanam raios de esplendor sem qualquer mistura de escuridão.

Bíblia bendita, tu és inteiramente verdadeira!

Antes de deixarmos este ponto, detenhamo-nos mais uma vez para considerar a misericórdia de Deus ao nos conceder uma Bíblia.

Ah! Ele poderia ter-nos deixado sem ela, obrigando-nos a tatear nosso caminho em meio às trevas, como cegos que procuram uma parede. Poderia ter permitido que vagássemos tendo apenas a estrela da razão como guia.

Lembro-me de uma história a respeito do senhor Hume, que afirmava constantemente que a luz da razão era mais do que suficiente.

Certa noite, estando na casa de um bom ministro, ele discutiu o assunto e declarou sua firme convicção de que a luz natural era suficiente. Ao sair, o ministro ofereceu-se para segurar uma vela e iluminar os degraus.

Hume respondeu:

“Não, a luz da natureza será suficiente; a lua servirá.”

Aconteceu, porém, que uma nuvem cobriu a lua, e ele caiu escada abaixo.

“Ah!”, disse o ministro, “afinal, teria sido melhor receber um pouco de luz do alto, senhor Hume.”

Assim, supondo que a luz da natureza seja suficiente, seria melhor recebermos também um pouco de luz do alto. Então teremos maior segurança de estar no caminho certo. É melhor ter duas luzes do que apenas uma.

A luz da criação é brilhante. Deus pode ser contemplado nas estrelas; Seu nome está escrito em letras douradas na fronte da noite. Podemos descobrir Sua glória nas ondas do oceano e até nas árvores do campo.

Mas é melhor ler Sua revelação em dois livros do que em apenas um.

Aqui, na Bíblia, você encontrará essa revelação com muito mais clareza, pois o próprio Deus escreveu este livro e nos concedeu a chave para compreendê-lo: o Espírito Santo.

Amados, agradeçamos a Deus por esta Bíblia! Amemo-la! Consideremo-la mais preciosa do que muito ouro fino.

Mas permitam-me dizer uma coisa antes de passar ao segundo ponto.

Se esta é a Palavra de Deus, o que acontecerá com alguns de vocês que não a leem há um mês?

“Um mês, senhor? Não a leio há um ano!”

Sim, e há alguns que nunca a leram.

A maioria das pessoas trata a Bíblia com muita cortesia. Possui um pequeno exemplar de bolso, elegantemente encadernado. Envolve-o em um lenço branco e o leva ao local de culto.

Quando chega em casa, guarda-o numa gaveta até o domingo seguinte. Então o livro sai novamente para receber um pequeno tratamento especial e é levado à igreja.

Essa é toda a oportunidade que a pobre Bíblia recebe para sair de casa e tomar um pouco de ar.

É assim que vocês recebem esse mensageiro celestial?

Há poeira suficiente sobre algumas de suas Bíblias para escrever a palavra “condenação” com o dedo. Alguns de vocês não viram suas páginas há muito, muito tempo.

E o que pensam que acontecerá?

Vou falar-lhes palavras diretas, mas verdadeiras.

O que Deus dirá no último dia, quando vocês comparecerem diante Dele?

“Você leu a minha Bíblia?”

“Não.”

“Eu lhe escrevi uma carta de misericórdia. Você a leu?”

“Não.”

“Rebelde! Enviei-lhe uma carta convidando-o a vir a Mim. Você alguma vez a leu?”

“Senhor, nunca rompi o selo. Mantive-a fechada.”

“Desgraçado!”, dirá Deus. “Então você merece o inferno. Se lhe enviei uma carta de amor e você sequer quis romper o selo, o que devo fazer com você?”

Oh! Que isso não aconteça com vocês!

Sejam leitores da Bíblia. Sejam examinadores diligentes das Escrituras.

II. OS ASSUNTOS DE QUE A BÍBLIA TRATA

Nosso segundo ponto diz respeito aos assuntos tratados pela Bíblia.

As palavras do texto são:

“Escrevi para ele as grandezas da minha lei.”

A Bíblia trata de grandes coisas — e somente de grandes coisas.

Não há nada neste livro que seja insignificante. Cada versículo contém um significado solene e, se ainda não o descobrimos, esperamos fazê-lo.

Vocês já viram múmias envolvidas repetidas vezes em camadas de linho. Pois bem, a Bíblia de Deus é semelhante a isso. É um imenso rolo de linho branco, tecido no tear da verdade.

Precisamos continuar desenrolando camada após camada antes de alcançar o verdadeiro significado que se encontra em suas profundezas. E, mesmo quando julgarmos ter descoberto parte desse significado, ainda precisaremos continuar desenrolando, desenrolando e desenrolando. Por toda a eternidade, continuaremos explorando as palavras deste volume maravilhoso.

Entretanto, nada há na Bíblia que não seja grandioso.

Para sermos mais breves, dividirei este pensamento em duas partes. Primeiro, todas as coisas da Bíblia são importantes; segundo, algumas coisas são as mais importantes de todas.

Todas as coisas da Bíblia são importantes.

Algumas pessoas pensam que não importa quais doutrinas alguém acredita, que é indiferente a igreja que frequenta e que todas as denominações são iguais.

Bem, quase não há pessoa de quem eu desgoste tanto quanto da senhora Intolerância. Nunca lhe ofereço elogios nem palavras de aprovação. Mas há outra senhora de quem desgosto igualmente: a senhora Relativismo Religioso, uma personagem bastante conhecida, que descobriu que todos somos iguais e que nossas diferenças não importam.

Creio que uma pessoa pode ser salva em qualquer igreja. Alguns foram salvos na Igreja de Roma — homens piedosos e abençoados, cujos nomes eu poderia mencionar aqui. Sei, bendito seja Deus, que multidões são salvas na Igreja da Inglaterra. Ela possui em seu meio muitos homens piedosos e dedicados à oração.

Creio que todos os segmentos do cristianismo protestante possuem um remanescente segundo a eleição da graça. Alguns deles, aliás, precisam de um pouco de sal, caso contrário acabarão se corrompendo.

Mas, quando digo isso, vocês imaginam que considero todas essas igrejas iguais em tudo?

São todas igualmente verdadeiras?

Uma denominação afirma que o batismo infantil é correto; outra diz que é errado. Vocês afirmam que ambas estão certas? Não consigo compreender isso.

Uma ensina que somos salvos pela graça soberana; outra afirma que não, que somos salvos pelo livre-arbítrio. E vocês acreditam que ambas estão certas? Não entendo.

Uma afirma que Deus ama Seu povo e nunca deixa de amá-lo. Outra diz que Deus não amou Seu povo antes que este O amasse; que às vezes o ama, depois deixa de amá-lo e o rejeita.

Talvez estejam ambas certas em alguns aspectos gerais, mas podem estar igualmente certas quando uma diz “sim” e a outra diz “não”?

Eu precisaria de um par de óculos que me permitisse olhar para trás e para a frente ao mesmo tempo para conseguir enxergar isso!

Não é possível, senhores, que ambas estejam certas em suas afirmações contraditórias.

Alguns dizem que essas diferenças dizem respeito apenas a assuntos secundários.

Mas este texto declara:

“Escrevi para ele as grandezas da minha lei.”

Não há nada na Bíblia de Deus que não seja importante.

Alguma vez vocês se sentaram para investigar qual religião é a mais pura?

“Oh!”, dizem vocês, “nunca nos demos ao trabalho. Simplesmente seguimos a religião de nossos pais.”

Ah, essa é uma razão realmente profunda! Vocês seguiram a religião de seus pais.

Eu pensava que vocês eram pessoas sensatas. Não imaginava que permitissem que outros escolhessem por vocês, em vez de examinarem as coisas por conta própria.

Amo meus pais acima de todas as pessoas que respiram. O simples fato de eles acreditarem em algo ajuda-me a considerar que aquilo pode ser verdadeiro. Mas não os segui cegamente.

Pertenço a uma denominação diferente da deles, e agradeço a Deus por isso. Posso recebê-los como irmãos e irmãs em Cristo, mas nunca pensei que, pelo simples fato de eles pertencerem a uma igreja, eu tivesse de pertencer à mesma.

De maneira nenhuma!

Deus me deu inteligência, e eu a usarei. Se vocês possuem capacidade intelectual, usem-na também.

Nunca digam que isso não importa. Importa, sim!

Tudo o que Deus colocou neste livro tem importância extraordinária. Ele não teria escrito algo indiferente ou sem valor. Tudo o que está aqui possui alguma importância.

Portanto, examinem todas as questões e submetam tudo à prova da Palavra de Deus.

Não tenho medo de que aquilo que prego seja examinado à luz deste livro. Concedam-me apenas condições justas, sem favorecimentos, e esta Bíblia. Se eu disser qualquer coisa contrária a ela, retirarei minhas palavras no domingo seguinte.

É por esta Palavra que permaneço de pé; por ela também cairei, se estiver errado.

Examinem e vejam por si mesmos, mas não digam: “Isso não importa”.

Se Deus declarou alguma coisa, ela deve ser importante.

Entretanto, embora todas as coisas da Palavra de Deus sejam importantes, nem todas possuem a mesma importância. Existem verdades fundamentais e vitais nas quais é necessário crer; caso contrário, ninguém será salvo.

Se desejam saber em que precisam crer para serem salvos, encontrarão as grandes verdades da lei de Deus entre estas duas capas. Todas elas estão aqui.

Como uma espécie de resumo das grandes verdades da lei, lembro-me de um velho amigo que certa vez me disse:

“Ah! Pregue os três erres, e Deus sempre o abençoará.”

Perguntei:

“Quais são os três erres?”

Ele respondeu:

“Ruína, redenção e regeneração.”

Esses três termos contêm a essência e a substância da teologia cristã.

1. Ruína

Todos fomos arruinados pela Queda. Todos nos perdemos quando Adão pecou, e todos somos arruinados por nossas próprias transgressões.

Somos arruinados por nosso coração perverso e por nossa própria vontade pecaminosa. Todos estaremos perdidos, a menos que a graça nos salve.

2. Redenção

O segundo erre é redenção.

Fomos resgatados pelo sangue de Cristo, o Cordeiro sem defeito e sem mancha. Somos libertos pelo Seu poder. Somos resgatados por Seus méritos e redimidos por Sua força.

3. Regeneração

O terceiro erre é regeneração.

Se fomos perdoados, também precisamos ser regenerados. Ninguém pode participar da redenção sem nascer de novo.

Que uma pessoa seja tão boa quanto imagina ser; que sirva a Deus tanto quanto acredita que deve servi-Lo — se não for regenerada e não receber um novo coração, um novo nascimento, continuará na primeira condição: a ruína.

Essas três verdades contêm um resumo do Evangelho.

Creio que existe um resumo ainda melhor nos cinco pontos do calvinismo: a eleição segundo o conhecimento prévio de Deus; a depravação natural e a pecaminosidade do homem; a redenção particular pelo sangue de Cristo; o chamado eficaz pelo poder do Espírito; e a perseverança final, sustentada pelo poder de Deus.

Considero que todas essas verdades precisam ser cridas para a salvação.

Entretanto, não gostaria de redigir um credo semelhante ao de Atanásio, começando assim:

“Todo aquele que deseja ser salvo precisa, antes de todas as coisas, manter a fé católica, e esta fé consiste em...”

Quando chegasse a esse ponto, eu pararia, pois não saberia o que escrever.

Sustento a fé católica da Bíblia: toda a Bíblia e nada além da Bíblia.

Não cabe a mim elaborar credos. Peço-lhes, porém, que examinem as Escrituras, pois esta é a Palavra da vida.

Deus diz:

“Escrevi para ele as grandezas da minha lei.”

Vocês duvidam da grandeza dessas verdades? Pensam que não merecem sua atenção?

Reflitam por um momento, homens! Onde vocês estão agora?

“Eis-me num estreito pedaço de terra,
Entre dois mares sem limites a me cercar;
Um instante, um breve espaço de tempo,
Pode levar-me ao lar celestial,
Ou encerrar-me para sempre no inferno.”

Lembro-me de certa ocasião em que estava à beira-mar, sobre uma estreita faixa de terra, sem pensar que a maré poderia subir.

As ondas avançavam continuamente de ambos os lados, mas eu permanecia absorto em meus pensamentos, até que finalmente encontrei enorme dificuldade para alcançar a margem. As águas haviam se interposto entre mim e a praia.

Todos os dias, você e eu permanecemos sobre uma estreita faixa de terra, e uma onda se aproxima. Veja como ela está perto de seus pés! E outra avança a cada tique-taque do relógio.

“Nosso coração, como tambores abafados, bate marchas fúnebres rumo ao túmulo.”

A cada instante de nossa vida, caminhamos em direção à sepultura.

Este Livro me diz que, se eu for convertido, quando morrer haverá um céu de alegria e amor para me receber. Diz-me que as asas dos anjos serão estendidas e que, levado por fortes asas querubínicas, ultrapassarei os relâmpagos, subirei para além das estrelas e chegarei ao trono de Deus, para habitar eternamente:

“Longe de um mundo de dor e pecado,
Com Deus para sempre abrigado.”

Oh! Isso faz brotar lágrimas ardentes dos meus olhos, torna meu coração grande demais para este corpo e faz minha mente girar diante do pensamento de:

“Jerusalém, meu lar feliz,
Nome sempre precioso para mim!”

Oh, que doce cenário além das nuvens! Campos aprazíveis revestidos de verde vivo e rios de deleite.

Não são estas coisas grandiosas?

Mas, então, pobre alma ainda não regenerada, a Bíblia declara que, se você estiver perdido, estará perdido para sempre.

Ela lhe diz que, se morrer sem Cristo, sem Deus, não haverá esperança para você. Haverá um lugar sem o menor raio de esperança, onde você lerá, em letras ardentes:

“Você conhecia o seu dever, mas não o cumpriu.”

Ela lhe diz que será afastado da presença de Deus com estas palavras:

“Apartai-vos de mim, malditos!”

Não são estas coisas grandiosas?

Sim, senhores! Tão certo quanto o céu é desejável, o inferno é terrível, o tempo é breve, a eternidade é infinita, a alma é preciosa, o sofrimento deve ser evitado, o céu deve ser buscado, Deus é eterno e Suas palavras são verdadeiras, estas coisas são grandiosas e merecem ser ouvidas.

III. O TRATAMENTO QUE A POBRE BÍBLIA RECEBE NESTE MUNDO

Nosso último ponto é o tratamento que a pobre Bíblia recebe neste mundo.

Ela é considerada uma coisa estranha.

O que significa dizer que a Bíblia é considerada uma coisa estranha?

Em primeiro lugar, significa que ela é muito estranha para algumas pessoas porque nunca a leram.

Lembro-me de ter lido certa vez a história sagrada de Davi e Golias. Havia ali uma pessoa já adulta, em plena maturidade, que me disse:

“Meu Deus! Que história interessante! Em que livro isso está escrito?”

Também me lembro de uma pessoa que veio conversar comigo em particular. Falei-lhe a respeito de sua alma, e ela me contou quanto estava sensibilizada e desejava servir a Deus, mas encontrava em si outra lei que lutava contra seus desejos.

Abri a Epístola aos Romanos e li:

“Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.”

Ela perguntou:

“Isso está na Bíblia? Eu não sabia!”

Não a culpei, pois até então não tinha interesse pela Bíblia. Mas fiquei admirado ao descobrir que existiam pessoas que desconheciam uma passagem tão importante.

Ah! Vocês conhecem melhor seus livros de contabilidade do que a Bíblia. Sabem mais sobre seus registros diários do que sobre aquilo que Deus escreveu.

Muitos de vocês leem um romance do começo ao fim. E o que recebem depois disso? Apenas um punhado de espuma, algo vazio e passageiro.

Mas não conseguem ler a Bíblia, cujo alimento sólido, duradouro, substancial e satisfatório permanece sem ser consumido, trancado no armário da negligência, enquanto qualquer novidade escrita por um homem é avidamente devorada.

“Escrevi para ele as grandezas da minha lei, mas elas foram consideradas como coisa estranha.”

Vocês nunca a leram!

Faço essa acusação de maneira direta. Talvez digam que eu não deveria acusá-los dessa forma. Sempre considerei melhor ter uma opinião menos elevada a respeito das pessoas do que estimá-las mais do que merecem.

Acuso vocês disto: não leem suas Bíblias.

Alguns nunca a leram por inteiro. Sei que estou dizendo algo que seu próprio coração precisa reconhecer como a pura verdade. Vocês não são leitores da Bíblia.

Dirão que possuem uma Bíblia em casa. Por acaso penso que são tão pagãos a ponto de não possuírem um exemplar?

Mas quando foi a última vez que a leram?

Como sabem que aqueles óculos que perderam não estão escondidos dentro dela há três anos?

Muitas pessoas não viram suas páginas por um longo tempo. Deus poderia dizer-lhes:

“Escrevi para vocês as grandezas da minha lei, mas elas foram consideradas como coisa estranha.”

Há outros que leem a Bíblia, mas dizem que ela é terrivelmente enfadonha.

Aquele jovem ali diz que é uma chatice. Essa é a palavra que ele usa.

Ele diz:

“Minha mãe me falou que, quando eu fosse à cidade, deveria ler um capítulo por dia. Bem, pensei em agradá-la e prometi que faria isso. Tenho certeza de que gostaria de não ter prometido! Não li um capítulo ontem nem anteontem. Estávamos muito ocupados. Não pude evitar.”

Você não ama a Bíblia, ama?

“Não. Não há nada nela que seja interessante.”

Ah! Era o que eu imaginava.

Mas, há pouco tempo, eu também não conseguia enxergar nada de interessante nela. Sabem por quê?

Os cegos não conseguem ver, conseguem?

Mas, quando o Espírito toca as escamas dos olhos, elas caem. Quando Ele aplica o colírio espiritual, a Bíblia se torna preciosa.

Lembro-me de um ministro que foi visitar uma senhora idosa e decidiu compartilhar com ela algumas preciosas promessas da Palavra de Deus.

Ao abrir a Bíblia, viu uma letra “P” escrita à margem. Perguntou:

“O que significa isso?”

“Significa preciosa, senhor.”

Mais adiante, encontrou as letras “E e P” e perguntou o que significavam.

Ela respondeu:

“Significam experimentada e comprovada, pois eu a experimentei e comprovei sua verdade.”

Se vocês experimentaram a Palavra de Deus e comprovaram sua fidelidade, se ela é preciosa para suas almas, então são cristãos.

Mas aqueles que desprezam a Bíblia não têm “parte nem direito” nessa questão.

Se ela é enfadonha para vocês, acabarão experimentando a secura eterna do inferno. Se não a consideram mais necessária do que o alimento de cada dia, não há esperança para vocês, pois lhes falta uma das maiores evidências da vida cristã.

Ai de nós! Ai de nós! O pior caso ainda está por vir.

Existem pessoas que não apenas desprezam a Bíblia, mas também a odeiam.

Será que alguém assim entrou aqui esta noite?

Alguns de vocês disseram:

“Vamos ouvir o que o jovem pregador tem a nos dizer.”

Eis o que ele tem a dizer:

“Contemplai, ó desprezadores, admirai-vos e desaparecei!”

Eis também o que ele lhes diz:

“Os ímpios serão lançados no inferno, e todas as nações que se esquecem de Deus.”

E ainda lhes diz:

“Nos últimos dias, surgirão escarnecedores como vocês, andando segundo as suas próprias concupiscências.”

Mais do que isso, ele lhes declara esta noite que, se não forem salvos, terão de encontrar a salvação aqui.

Portanto, não desprezem a Bíblia. Examinem-na, leiam-na e venham a ela.

Estejam plenamente certos, ó escarnecedores, de que suas risadas não podem alterar a verdade e suas zombarias não podem impedir o destino inevitável. Ainda que, em sua arrogância, façam aliança com a morte e firmem um pacto com o inferno, a justiça os alcançará rapidamente e a vingança divina os derrubará com força.

É inútil zombar e escarnecer, pois as verdades eternas são mais poderosas do que suas sutilezas argumentativas. Nenhuma frase espirituosa de vocês pode alterar a verdade divina de uma única palavra deste volume da Revelação.

Oh! Por que vocês brigam com seu melhor amigo e maltratam seu único refúgio?

Ainda há esperança, até mesmo para o escarnecedor.

Há esperança no sangue do Salvador. Há esperança na misericórdia do Pai. Há esperança na ação onipotente do Espírito Santo.

Concluirei com uma palavra.

Meu amigo filósofo diz que pode ser muito bom eu incentivar as pessoas a lerem a Bíblia, mas considera que existem muitas ciências mais interessantes e úteis do que a teologia.

Agradeço-lhe imensamente por sua opinião, senhor.

De que ciência está falando? Da ciência de dissecar besouros e organizar borboletas?

“Não”, você responde, “certamente não.”

Então, da ciência de classificar pedras e explicar as camadas da Terra?

“Não exatamente isso.”

De qual ciência, então?

“Ah!”, você diz, “todas as ciências são melhores do que a ciência da Bíblia.”

Ah, senhor! Essa é a sua opinião, e você pensa assim porque está longe de Deus.

Mas a ciência de Jesus Cristo é a mais excelente de todas as ciências.

Que ninguém se afaste da Bíblia sob o pretexto de que ela não é um livro de conhecimento e sabedoria. Ela é, sim!

Deseja conhecer a astronomia? Ela está aqui, pois a Bíblia lhe fala do Sol da Justiça e da Estrela de Belém.

Deseja conhecer a botânica? Ela está aqui, pois lhe fala da planta de renome, do Lírio dos Vales e da Rosa de Sarom.

Deseja estudar geologia e mineralogia? Você aprenderá aqui, pois poderá ler a respeito da Rocha Eterna e da Pedra Branca, na qual está gravado um nome que ninguém conhece, exceto aquele que o recebe.

Deseja estudar história? Aqui estão alguns dos mais antigos registros da história da raça humana.

Qualquer que seja sua área de conhecimento, venha e incline-se sobre este livro. Seu conhecimento está aqui.

Venha beber desta fonte pura de conhecimento e sabedoria, e você descobrirá que ela o torna sábio para a salvação.

Sábios e ignorantes, crianças e adultos, anciãos de cabelos brancos, jovens e donzelas — falo a todos vocês, suplico-lhes e imploro-lhes: respeitem suas Bíblias e examinem-nas cuidadosamente, pois vocês pensam ter nelas a vida eterna, e são elas que testificam de Cristo.

Concluí.

Vamos para casa e pratiquemos aquilo que ouvimos.

Ouvi falar de uma mulher que, ao ser questionada sobre o que havia lembrado do sermão do ministro, respondeu:

“Não me lembro de nada. O sermão falava sobre pesos falsos e medidas desonestas, e a única coisa de que me lembrei foi de ir para casa e queimar o alqueire.”

Assim, se vocês se lembrarem de ir para casa e queimar o alqueire, isto é, abandonar aquilo que é desonesto, e se recordarem de voltar para casa e ler suas Bíblias, terei dito o suficiente.

Que Deus, em Sua infinita misericórdia, ao lerem vocês suas Bíblias, derrame em suas almas os raios iluminadores do Sol da Justiça, por meio da ação do sempre adorável Espírito Santo.

Então vocês lerão para seu proveito e para a salvação de suas almas.

Conclusão: A grandeza da Palavra de Deus

Podemos dizer a respeito da Bíblia:

A Bíblia é o tesouro dos conselhos revelados de Deus!

Nela, a prosperidade e a adversidade são ordenadas de tal maneira que cada homem pode conhecer aquilo que lhe está reservado, a menos que seu próprio erro o leve a uma aplicação equivocada.

Ela é o índice da eternidade.

Aquele que toma este mapa para orientar sua jornada não perderá a bem-aventurança eterna; tampouco se enganará aquele que fala de acordo com este Livro.

Ela é o Livro de Deus.

E se eu dissesse: “Deus dos livros”, que aquele que se irrita com essa expressão, por considerá-la ousada demais, silencie seus pensamentos até encontrar outro livro semelhante!

Adaptado do sermão “The Bible”, de C. H. Spurgeon, publicado na coletânea The New Park Street Pulpit, Volume 1, Sermão nº 15.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A Inclinação da Carne é Inimizade Contra Deus

 


Sermão de Charles H. Spurgeon

Texto bíblico: Romanos 8:7

“Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus.”
Romanos 8:7

“Já que a mente posta na carne é inimiga de Deus.”
A Bíblia das Américas

Sermão pregado na manhã de domingo, 22 de abril de 1855, em Exeter Hall, Strand, Londres.


Introdução

Esta é uma denúncia muito solene que o apóstolo Paulo formula contra a mente carnal. Ele a declara como inimiga de Deus.

Quando relembramos o que o homem foi uma vez — considerado apenas um pouco menor do que os anjos, aquele companheiro que passeava com Deus no jardim do Éden durante o dia — e quando pensamos que o homem foi criado à imagem de seu Criador, puro, sem mancha e imaculado, não podemos nos sentir nada menos do que amargamente afligidos ao descobrir uma acusação como esta, proferida contra nós como raça.

Devemos pendurar nossas harpas sobre os salgueiros ao ouvir a voz de Deus, quando fala solenemente à Sua criatura rebelde.

Sentimo-nos extremamente tristes quando contemplamos as ruínas de nossa raça. Como o cartaginense que, ao pisar o lugar desolado de sua mui amada cidade, derramou lágrimas abundantes quando a viu convertida em escombros pelos exércitos romanos; ou como o judeu que perambulava pelas ruas desertas de Jerusalém, enquanto lamentava que a grade do arado tivesse desfigurado a beleza e a glória dessa cidade que era a alegria de toda a terra; assim deveria doer em nós, por nossa raça, quando contemplamos as ruínas dessa excelente estrutura que Deus formou.

O homem, criatura sem rival em simetria, com um intelecto superado somente pelo intelecto dos anjos, esse poderoso ser, caiu, e caiu, e caiu de sua elevada condição, convertido em uma massa de destruição.

A queda de Adão é nossa queda; caímos nele e com ele; sofremos da mesma maneira; lamentamos a ruína de nossa própria casa.

Por isso, quando nos deparamos com estas palavras:

“A inclinação da carne são inimizade contra Deus.”

devemos compreender a gravidade de sua denúncia.

Que Deus me ajude nesta manhã a formular solenemente esta denúncia contra todos vocês! Oh, que o Espírito Santo nos convença de tal modo do pecado, que unanimemente nos declaremos “culpados” diante de Deus!


I. A VERACIDADE DA DECLARAÇÃO

O texto afirma:

“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

Não precisamos de muitas provas para acreditar nessa declaração, pois ela está escrita na Palavra de Deus. Como cristãos, estamos obrigados a nos inclinar diante dela.

As palavras da Escritura são palavras de sabedoria infinita. Se a razão é incapaz de ver imediatamente o fundamento de uma declaração da revelação, ela deve crer reverentemente, pois estamos convencidos de que, ainda que algo esteja acima de nossa razão, não pode ser contrário a ela.

Mas, se fossem necessárias testemunhas, poderíamos convocar as nações da antiguidade e abrir os volumes da história humana.

Que testemunho encontraremos?

Encontraremos guerras, assassinatos, vícios, crueldades e toda espécie de depravação. A humanidade transformou este mundo em um verdadeiro campo de sangue por suas guerras e lutas.

Se examinássemos a história de povos e indivíduos considerados modelos de sabedoria e virtude, encontraríamos motivo para repetir:

“Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um.”

E, se isso ainda não fosse suficiente, poderíamos olhar para as religiões dos povos e suas superstições, observando as práticas que demonstram quão profundamente o coração humano se afastou de Deus.

Se essa é a devoção do homem natural, qual seria sua impiedade?

Se esse é seu amor pela Deidade, qual seria seu ódio?

A natureza humana, deixada a si mesma, confirma a terrível denúncia do texto.


Os santos reconhecem sua própria depravação

É significativo que as melhores pessoas tenham sido sempre as mais dispostas a confessar sua depravação.

Os homens mais santos, aqueles que estão mais livres de impurezas, sempre sentiram com maior intensidade a própria indignidade.

“O que tem suas vestes mais brancas perceberá melhor as manchas que caem nelas.”

Davi não se vangloriava de uma natureza santa e de uma disposição pura. Ele confessou:

“Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.”

E Paulo exclamou:

“Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?”

Os homens verdadeiramente piedosos reconhecem a profundidade do pecado porque, quanto mais perto estão da luz, mais claramente enxergam suas próprias manchas.


A testemunha chamada consciência

Há ainda outra testemunha que podemos convocar: nossa própria consciência.

Consciência, eu te colocarei no banco das testemunhas para interrogar-te esta manhã!

Nunca ouviste o coração dizer:

“Queria que Deus não existisse”?

Por acaso todos os homens não desejaram, algumas vezes, que nossa religião não fosse verdadeira?

Ainda que não pudessem livrar suas almas inteiramente da ideia da Deidade, por acaso não desejaram que Deus não existisse? Não desejaram que todas essas realidades divinas fossem um engano?

Esse desejo revela algo profundo acerca do coração humano.

Se alguém desejasse a morte de outro, isso não demonstraria seu ódio por aquela pessoa?

Da mesma forma, o desejo de que Deus não exista demonstra aversão a Deus.

E há uma pergunta ainda mais profunda:

Não desejamos algumas vezes que Deus fosse menos santo? Não desejamos que certas coisas que Ele chama de pecado fossem consideradas apenas pequenos erros?

Não desejamos que Deus fosse menos justo e menos rigoroso?

Esse desejo de mudar Deus demonstra que não amamos o Deus verdadeiro.

Podemos admirar a beleza da criação, o céu estrelado, os campos, os rios, as montanhas e o universo; podemos até falar poeticamente sobre a divindade. Mas, se desejamos mudar a natureza de Deus, demonstramos que estamos inimistados com Ele.

Por isso, a consciência precisa reconhecer:

“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”


II. A UNIVERSALIDADE DESSE MAL

Quão vasta é esta afirmação!

O texto não fala de uma mente carnal singular ou de determinada classe de pessoas. Ele afirma:

“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

Todo aquele que possui uma mente carnal, que não foi espiritualizada pelo poder do Espírito Santo de Deus, encontra-se nessa condição.

O problema alcança todos

Toda mente carnal no mundo está inimizada com Deus.

Isso inclui pessoas de diferentes idades, classes, capacidades intelectuais e posições sociais.

Uma criança pode ser cercada pelas melhores influências, receber excelente educação e crescer em um ambiente de piedade. Ainda assim, somente a educação não pode mudar o coração.

Não é simplesmente uma questão de imitação. O problema está na própria natureza humana.

Da mesma forma, podemos encontrar homens dotados de grande inteligência.

Poetas, filósofos, cientistas, estudiosos e grandes descobridores podem alcançar níveis extraordinários de conhecimento. Podem investigar os mistérios da criação e descobrir coisas que estiveram ocultas por séculos.

E, contudo, se não houver regeneração, a Palavra de Deus continua dizendo:

“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

A inteligência não pode regenerar o coração.

O conhecimento não pode reconciliar o homem com seu Criador.


A religião exterior não é suficiente

Podemos levar alguém à casa de oração.

Podemos expô-lo constantemente à pregação mais clara.

Podemos colocá-lo diante das doutrinas da graça.

Ele pode frequentar regularmente os cultos e possuir uma religião exterior.

Mas, se a graça de Deus não transformar seu coração, tudo isso será insuficiente.

Ele poderá ter uma religião superficial externa, mas sua mente carnal continuará inimizada com Deus.

Por isso, esta palavra não é dirigida apenas aos grandes pecadores.

Ela é dirigida a todos nós.

“Se não somos regenerados e convertidos, se não experimentamos uma mudança de coração, nossa mente carnal está inimizada contra Deus.”


A mente carnal permanece inimiga de Deus

Alguém poderia dizer:

“Às vezes me oponho a Deus, mas certamente não o faço sempre.”

Contudo, a Escritura afirma que a mente carnal está continuamente em oposição a Deus.

O lobo pode estar adormecido, mas continua sendo lobo.

A serpente pode estar dormindo entre as flores, e uma criança pode acariciar seu dorso, mas ela continua sendo uma serpente.

O mar pode estar tranquilo como um lago, mas continua sendo capaz de produzir tempestades.

Assim também é o coração humano.

Ainda que a corrupção não esteja se manifestando exteriormente a todo instante, a natureza permanece a mesma.

“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”


A queda atingiu o homem inteiro

Que parte do homem foi afetada pela queda?

Alguns imaginam que apenas os sentimentos foram afetados, enquanto o intelecto permaneceu completamente intacto.

Mas a queda atingiu o homem inteiro.

A memória participa da queda.

Os afetos participam da queda.

A imaginação participa da queda.

O juízo participa da queda.

A consciência participa da queda.

Podemos olhar para todos os poderes da natureza humana e escrever sobre cada um deles:

“Traidor ao céu! Traidor ao céu!”

Toda a pessoa humana foi profundamente afetada pelo pecado.


III. A ENORMIDADE DESTA CULPA

Chegamos agora a uma questão ainda mais profunda.

Frequentemente pensamos na nossa condição pecaminosa apenas como miséria. Falamos sobre a corrupção humana, mas esquecemos de dizer algo essencial:

essa corrupção também é culpa.

Se nosso coração está contra Deus, o pecado é nosso.

Se não conseguimos arrepender-nos, nossa própria incapacidade é parte da nossa culpa.

Toda a nossa separação de Deus é pecado.

Não devemos simplesmente dizer:

“Estou cheio de corrupção.”

E então ficar tranquilos.

Não.

Termos essas corrupções é nosso crime.

“A inclinação da carne é inimiga de Deus.”

Quão grave é esse pecado!


Quem é Deus?

Para compreendermos a gravidade de estar inimizado com Deus, precisamos lembrar quem Deus é.

Ele é o Criador dos céus e da terra.

Ele sustenta os pilares do universo.

Ele é o autor desta linda criação.

“Somos ovelhas do seu pasto; Ele nos fez, e não nós a nós mesmos.”

Ele é nosso Criador.

Ele é nosso Rei.

Ele é nosso Legislador.

Ele governa a providência.

Ele supre nossas necessidades.

Ele mantém o ar que respiramos.

Ele conserva nossa vida e nos livra da morte.

Ele está diante de nós como nosso:

Criador, Rei, Sustento e Benfeitor.

Então perguntamos:

Não é um crime de enorme magnitude que nós, Suas criaturas, dependentes dEle, estejamos inimistados com Ele?


E por que odiar um Deus tão bondoso?

Pecador, por que estás inimizado com Deus?

Deus é o Deus de amor.

Ele é bondoso para com Suas criaturas.

Ele te concede vida.

Ele te concede alimento.

Ele te concede roupas.

Ele te concede saúde.

Quantas misericórdias recebeste de Suas mãos durante toda a tua vida!

Quando estiveste à beira da morte, Seu braço sustentou tua vida.

Por que, então, estás inimizado com Ele?

E mais:

Deus enviou Seu Filho.

Cristo foi pendurado na cruz e morreu pelos pecadores, o justo pelos injustos.

Odiarias a Deus por isso?

Ele te cercou de favores.

Ele te cumulou de misericórdias.

E ainda assim o coração humano permanece rebelde.

Que terrível condição!

“A mente posta na carne é inimiga de Deus.”


IV. O QUE ESSA VERDADE NOS ENSINA?

Chegamos agora às doutrinas que podemos extrair dessa grande verdade.

1. A salvação não pode ser por méritos

Se a mente carnal está inimizada com Deus, como poderíamos merecer alguma coisa dEle?

Se somos inimigos, que mérito poderíamos apresentar?

A Bíblia inteira nos ensina que a salvação não é pelas obras da lei, mas pela graça.

Sempre existe em nós a tendência de introduzir alguma partícula de nossa própria virtude.

Queremos cooperar com alguma coisa.

Mas isso não pode nos salvar.

“Salvos por suas obras! É como se tentassem chegar à América em um barquinho de papel!”

A salvação dos inimigos deve ser alcançada por um embaixador, por uma expiação — sim, por Cristo.


2. É necessária uma mudança completa da natureza

Se nascemos inimizados com Deus, quão necessária é uma mudança de nossa natureza!

Não basta uma profissão exterior.

Não basta um momento de emoção.

Não basta uma oração feita apenas nos últimos instantes da vida.

Precisamos de um coração transformado.

Imagine um homem que entrasse no céu sem ter experimentado qualquer mudança interior.

Ele ouviria os cânticos de louvor ao seu inimigo.

Veria o trono daquele que considera seu inimigo.

Veria os anjos, servos daquele que odeia.

Estaria na casa daquele que rejeitou.

Como poderia ser feliz ali?

Ele não poderia participar do louvor.

Ele não conheceria a melodia.

Por isso, deve haver uma mudança.

Como poderiam os inimigos de Deus sentar-se no banquete das bodas do Cordeiro?


3. Essa mudança precisa ser realizada pelo poder de Deus

E chegamos ao ponto final.

Essa mudança deve ser feita por um poder superior ao nosso.

Um inimigo pode, talvez, converter-se em amigo.

Mas a própria inimizade não pode transformar a si mesma.

Enquanto o Espírito de Deus não colocar Sua mão sobre nós;

enquanto não regenerar o coração;

enquanto não purificar a alma;

enquanto não mudar o espírito inteiro;

enquanto não fizer do homem uma nova criatura;

não poderemos entrar no céu.

Não importa quanto alguém se torne melhor por seus próprios esforços.

Pode tornar-se mil vezes melhor e ainda assim não possuir aquilo de que necessita:

a regeneração operada pelo Espírito Santo.


CONCLUSÃO: OLHAI PARA CRISTO!

Então devemos parar e meditar.

“Eis-me aqui, uma criatura de um dia, um mortal nascido para morrer, contudo um ser imortal! Neste momento estou inimizado com Deus. Que farei?”

Não seria nosso dever — e também nossa felicidade — perguntar se existe uma maneira de sermos reconciliados com Deus?

É sábio odiar nosso Criador?

É prudente estar em oposição a Ele?

É sensato desprezar as riquezas de Sua graça?

Se isso é sabedoria, é a sabedoria do inferno.

Oh, que Deus nos conceda voltar-nos para Jesus com pleno propósito de coração!

Ele é o Embaixador.

Ele é o único que pode estabelecer a paz por meio de Seu sangue.

Ainda que tenhamos vindo como inimigos, podemos sair como amigos, se simplesmente olharmos para Jesus Cristo.


O caminho da salvação

Agora, pode ser que alguns tenham sido convencidos do pecado pelo Espírito Santo.

Então, proclamemos o caminho da salvação:

“E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna.”

Contempla, ó temeroso penitente, o instrumento de tua libertação.

Volta teus olhos cheios de lágrimas para o Monte do Calvário.

Olha a vítima da justiça.

Olha o sacrifício de expiação por tua transgressão.

Olha para o Salvador em Suas agonias, comprando tua alma com torrentes de Seu sangue e suportando teu castigo.

Ele morreu por ti, se confessas tuas culpas agora.

Oh, vem tu, homem condenado, auto condenado, e volta teus olhos para este caminho.

Pois um só olhar salvará.

Pecador, tu foste mordido.

Olha!

Não necessitas de outra coisa senão olhar.

É simplesmente olhar!

Basta que olhes para Jesus e serás salvo.

“Olhem para mim e sedes salvos.”

Olhem!

Olhem!

Olhem!

Oh, almas culpadas, olhem para Cristo!

“Confia nEle, confia plenamente,
Não permitas que outra confiança se intrometa;
Ninguém senão Jesus
Pode fazer bem ao pecador desvalido.”

Que meu bendito Senhor os ajude a vir a Ele, e lhes atraia a Seu Filho, por Jesus Cristo nosso Senhor.

Amém e Amém.


Sobre este sermão

Charles H. Spurgeon
Sermão pregado na manhã de domingo, 22 de abril de 1855, em Exeter Hall, Strand, Londres.

Texto: Romanos 8:7 — “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

Tradução: Rosangela Cruz.

Este sermão faz parte do Volume 1 de sermões, da parte denominada New Park Street. O título original em inglês é The Carnal Mind Enmity Against God!