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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A Inclinação da Carne é Inimizade Contra Deus

 


Sermão de Charles H. Spurgeon

Texto bíblico: Romanos 8:7

“Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus.”
Romanos 8:7

“Já que a mente posta na carne é inimiga de Deus.”
A Bíblia das Américas

Sermão pregado na manhã de domingo, 22 de abril de 1855, em Exeter Hall, Strand, Londres.


Introdução

Esta é uma denúncia muito solene que o apóstolo Paulo formula contra a mente carnal. Ele a declara como inimiga de Deus.

Quando relembramos o que o homem foi uma vez — considerado apenas um pouco menor do que os anjos, aquele companheiro que passeava com Deus no jardim do Éden durante o dia — e quando pensamos que o homem foi criado à imagem de seu Criador, puro, sem mancha e imaculado, não podemos nos sentir nada menos do que amargamente afligidos ao descobrir uma acusação como esta, proferida contra nós como raça.

Devemos pendurar nossas harpas sobre os salgueiros ao ouvir a voz de Deus, quando fala solenemente à Sua criatura rebelde.

Sentimo-nos extremamente tristes quando contemplamos as ruínas de nossa raça. Como o cartaginense que, ao pisar o lugar desolado de sua mui amada cidade, derramou lágrimas abundantes quando a viu convertida em escombros pelos exércitos romanos; ou como o judeu que perambulava pelas ruas desertas de Jerusalém, enquanto lamentava que a grade do arado tivesse desfigurado a beleza e a glória dessa cidade que era a alegria de toda a terra; assim deveria doer em nós, por nossa raça, quando contemplamos as ruínas dessa excelente estrutura que Deus formou.

O homem, criatura sem rival em simetria, com um intelecto superado somente pelo intelecto dos anjos, esse poderoso ser, caiu, e caiu, e caiu de sua elevada condição, convertido em uma massa de destruição.

A queda de Adão é nossa queda; caímos nele e com ele; sofremos da mesma maneira; lamentamos a ruína de nossa própria casa.

Por isso, quando nos deparamos com estas palavras:

“A inclinação da carne são inimizade contra Deus.”

devemos compreender a gravidade de sua denúncia.

Que Deus me ajude nesta manhã a formular solenemente esta denúncia contra todos vocês! Oh, que o Espírito Santo nos convença de tal modo do pecado, que unanimemente nos declaremos “culpados” diante de Deus!


I. A VERACIDADE DA DECLARAÇÃO

O texto afirma:

“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

Não precisamos de muitas provas para acreditar nessa declaração, pois ela está escrita na Palavra de Deus. Como cristãos, estamos obrigados a nos inclinar diante dela.

As palavras da Escritura são palavras de sabedoria infinita. Se a razão é incapaz de ver imediatamente o fundamento de uma declaração da revelação, ela deve crer reverentemente, pois estamos convencidos de que, ainda que algo esteja acima de nossa razão, não pode ser contrário a ela.

Mas, se fossem necessárias testemunhas, poderíamos convocar as nações da antiguidade e abrir os volumes da história humana.

Que testemunho encontraremos?

Encontraremos guerras, assassinatos, vícios, crueldades e toda espécie de depravação. A humanidade transformou este mundo em um verdadeiro campo de sangue por suas guerras e lutas.

Se examinássemos a história de povos e indivíduos considerados modelos de sabedoria e virtude, encontraríamos motivo para repetir:

“Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um.”

E, se isso ainda não fosse suficiente, poderíamos olhar para as religiões dos povos e suas superstições, observando as práticas que demonstram quão profundamente o coração humano se afastou de Deus.

Se essa é a devoção do homem natural, qual seria sua impiedade?

Se esse é seu amor pela Deidade, qual seria seu ódio?

A natureza humana, deixada a si mesma, confirma a terrível denúncia do texto.


Os santos reconhecem sua própria depravação

É significativo que as melhores pessoas tenham sido sempre as mais dispostas a confessar sua depravação.

Os homens mais santos, aqueles que estão mais livres de impurezas, sempre sentiram com maior intensidade a própria indignidade.

“O que tem suas vestes mais brancas perceberá melhor as manchas que caem nelas.”

Davi não se vangloriava de uma natureza santa e de uma disposição pura. Ele confessou:

“Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.”

E Paulo exclamou:

“Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?”

Os homens verdadeiramente piedosos reconhecem a profundidade do pecado porque, quanto mais perto estão da luz, mais claramente enxergam suas próprias manchas.


A testemunha chamada consciência

Há ainda outra testemunha que podemos convocar: nossa própria consciência.

Consciência, eu te colocarei no banco das testemunhas para interrogar-te esta manhã!

Nunca ouviste o coração dizer:

“Queria que Deus não existisse”?

Por acaso todos os homens não desejaram, algumas vezes, que nossa religião não fosse verdadeira?

Ainda que não pudessem livrar suas almas inteiramente da ideia da Deidade, por acaso não desejaram que Deus não existisse? Não desejaram que todas essas realidades divinas fossem um engano?

Esse desejo revela algo profundo acerca do coração humano.

Se alguém desejasse a morte de outro, isso não demonstraria seu ódio por aquela pessoa?

Da mesma forma, o desejo de que Deus não exista demonstra aversão a Deus.

E há uma pergunta ainda mais profunda:

Não desejamos algumas vezes que Deus fosse menos santo? Não desejamos que certas coisas que Ele chama de pecado fossem consideradas apenas pequenos erros?

Não desejamos que Deus fosse menos justo e menos rigoroso?

Esse desejo de mudar Deus demonstra que não amamos o Deus verdadeiro.

Podemos admirar a beleza da criação, o céu estrelado, os campos, os rios, as montanhas e o universo; podemos até falar poeticamente sobre a divindade. Mas, se desejamos mudar a natureza de Deus, demonstramos que estamos inimistados com Ele.

Por isso, a consciência precisa reconhecer:

“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”


II. A UNIVERSALIDADE DESSE MAL

Quão vasta é esta afirmação!

O texto não fala de uma mente carnal singular ou de determinada classe de pessoas. Ele afirma:

“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

Todo aquele que possui uma mente carnal, que não foi espiritualizada pelo poder do Espírito Santo de Deus, encontra-se nessa condição.

O problema alcança todos

Toda mente carnal no mundo está inimizada com Deus.

Isso inclui pessoas de diferentes idades, classes, capacidades intelectuais e posições sociais.

Uma criança pode ser cercada pelas melhores influências, receber excelente educação e crescer em um ambiente de piedade. Ainda assim, somente a educação não pode mudar o coração.

Não é simplesmente uma questão de imitação. O problema está na própria natureza humana.

Da mesma forma, podemos encontrar homens dotados de grande inteligência.

Poetas, filósofos, cientistas, estudiosos e grandes descobridores podem alcançar níveis extraordinários de conhecimento. Podem investigar os mistérios da criação e descobrir coisas que estiveram ocultas por séculos.

E, contudo, se não houver regeneração, a Palavra de Deus continua dizendo:

“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

A inteligência não pode regenerar o coração.

O conhecimento não pode reconciliar o homem com seu Criador.


A religião exterior não é suficiente

Podemos levar alguém à casa de oração.

Podemos expô-lo constantemente à pregação mais clara.

Podemos colocá-lo diante das doutrinas da graça.

Ele pode frequentar regularmente os cultos e possuir uma religião exterior.

Mas, se a graça de Deus não transformar seu coração, tudo isso será insuficiente.

Ele poderá ter uma religião superficial externa, mas sua mente carnal continuará inimizada com Deus.

Por isso, esta palavra não é dirigida apenas aos grandes pecadores.

Ela é dirigida a todos nós.

“Se não somos regenerados e convertidos, se não experimentamos uma mudança de coração, nossa mente carnal está inimizada contra Deus.”


A mente carnal permanece inimiga de Deus

Alguém poderia dizer:

“Às vezes me oponho a Deus, mas certamente não o faço sempre.”

Contudo, a Escritura afirma que a mente carnal está continuamente em oposição a Deus.

O lobo pode estar adormecido, mas continua sendo lobo.

A serpente pode estar dormindo entre as flores, e uma criança pode acariciar seu dorso, mas ela continua sendo uma serpente.

O mar pode estar tranquilo como um lago, mas continua sendo capaz de produzir tempestades.

Assim também é o coração humano.

Ainda que a corrupção não esteja se manifestando exteriormente a todo instante, a natureza permanece a mesma.

“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”


A queda atingiu o homem inteiro

Que parte do homem foi afetada pela queda?

Alguns imaginam que apenas os sentimentos foram afetados, enquanto o intelecto permaneceu completamente intacto.

Mas a queda atingiu o homem inteiro.

A memória participa da queda.

Os afetos participam da queda.

A imaginação participa da queda.

O juízo participa da queda.

A consciência participa da queda.

Podemos olhar para todos os poderes da natureza humana e escrever sobre cada um deles:

“Traidor ao céu! Traidor ao céu!”

Toda a pessoa humana foi profundamente afetada pelo pecado.


III. A ENORMIDADE DESTA CULPA

Chegamos agora a uma questão ainda mais profunda.

Frequentemente pensamos na nossa condição pecaminosa apenas como miséria. Falamos sobre a corrupção humana, mas esquecemos de dizer algo essencial:

essa corrupção também é culpa.

Se nosso coração está contra Deus, o pecado é nosso.

Se não conseguimos arrepender-nos, nossa própria incapacidade é parte da nossa culpa.

Toda a nossa separação de Deus é pecado.

Não devemos simplesmente dizer:

“Estou cheio de corrupção.”

E então ficar tranquilos.

Não.

Termos essas corrupções é nosso crime.

“A inclinação da carne é inimiga de Deus.”

Quão grave é esse pecado!


Quem é Deus?

Para compreendermos a gravidade de estar inimizado com Deus, precisamos lembrar quem Deus é.

Ele é o Criador dos céus e da terra.

Ele sustenta os pilares do universo.

Ele é o autor desta linda criação.

“Somos ovelhas do seu pasto; Ele nos fez, e não nós a nós mesmos.”

Ele é nosso Criador.

Ele é nosso Rei.

Ele é nosso Legislador.

Ele governa a providência.

Ele supre nossas necessidades.

Ele mantém o ar que respiramos.

Ele conserva nossa vida e nos livra da morte.

Ele está diante de nós como nosso:

Criador, Rei, Sustento e Benfeitor.

Então perguntamos:

Não é um crime de enorme magnitude que nós, Suas criaturas, dependentes dEle, estejamos inimistados com Ele?


E por que odiar um Deus tão bondoso?

Pecador, por que estás inimizado com Deus?

Deus é o Deus de amor.

Ele é bondoso para com Suas criaturas.

Ele te concede vida.

Ele te concede alimento.

Ele te concede roupas.

Ele te concede saúde.

Quantas misericórdias recebeste de Suas mãos durante toda a tua vida!

Quando estiveste à beira da morte, Seu braço sustentou tua vida.

Por que, então, estás inimizado com Ele?

E mais:

Deus enviou Seu Filho.

Cristo foi pendurado na cruz e morreu pelos pecadores, o justo pelos injustos.

Odiarias a Deus por isso?

Ele te cercou de favores.

Ele te cumulou de misericórdias.

E ainda assim o coração humano permanece rebelde.

Que terrível condição!

“A mente posta na carne é inimiga de Deus.”


IV. O QUE ESSA VERDADE NOS ENSINA?

Chegamos agora às doutrinas que podemos extrair dessa grande verdade.

1. A salvação não pode ser por méritos

Se a mente carnal está inimizada com Deus, como poderíamos merecer alguma coisa dEle?

Se somos inimigos, que mérito poderíamos apresentar?

A Bíblia inteira nos ensina que a salvação não é pelas obras da lei, mas pela graça.

Sempre existe em nós a tendência de introduzir alguma partícula de nossa própria virtude.

Queremos cooperar com alguma coisa.

Mas isso não pode nos salvar.

“Salvos por suas obras! É como se tentassem chegar à América em um barquinho de papel!”

A salvação dos inimigos deve ser alcançada por um embaixador, por uma expiação — sim, por Cristo.


2. É necessária uma mudança completa da natureza

Se nascemos inimizados com Deus, quão necessária é uma mudança de nossa natureza!

Não basta uma profissão exterior.

Não basta um momento de emoção.

Não basta uma oração feita apenas nos últimos instantes da vida.

Precisamos de um coração transformado.

Imagine um homem que entrasse no céu sem ter experimentado qualquer mudança interior.

Ele ouviria os cânticos de louvor ao seu inimigo.

Veria o trono daquele que considera seu inimigo.

Veria os anjos, servos daquele que odeia.

Estaria na casa daquele que rejeitou.

Como poderia ser feliz ali?

Ele não poderia participar do louvor.

Ele não conheceria a melodia.

Por isso, deve haver uma mudança.

Como poderiam os inimigos de Deus sentar-se no banquete das bodas do Cordeiro?


3. Essa mudança precisa ser realizada pelo poder de Deus

E chegamos ao ponto final.

Essa mudança deve ser feita por um poder superior ao nosso.

Um inimigo pode, talvez, converter-se em amigo.

Mas a própria inimizade não pode transformar a si mesma.

Enquanto o Espírito de Deus não colocar Sua mão sobre nós;

enquanto não regenerar o coração;

enquanto não purificar a alma;

enquanto não mudar o espírito inteiro;

enquanto não fizer do homem uma nova criatura;

não poderemos entrar no céu.

Não importa quanto alguém se torne melhor por seus próprios esforços.

Pode tornar-se mil vezes melhor e ainda assim não possuir aquilo de que necessita:

a regeneração operada pelo Espírito Santo.


CONCLUSÃO: OLHAI PARA CRISTO!

Então devemos parar e meditar.

“Eis-me aqui, uma criatura de um dia, um mortal nascido para morrer, contudo um ser imortal! Neste momento estou inimizado com Deus. Que farei?”

Não seria nosso dever — e também nossa felicidade — perguntar se existe uma maneira de sermos reconciliados com Deus?

É sábio odiar nosso Criador?

É prudente estar em oposição a Ele?

É sensato desprezar as riquezas de Sua graça?

Se isso é sabedoria, é a sabedoria do inferno.

Oh, que Deus nos conceda voltar-nos para Jesus com pleno propósito de coração!

Ele é o Embaixador.

Ele é o único que pode estabelecer a paz por meio de Seu sangue.

Ainda que tenhamos vindo como inimigos, podemos sair como amigos, se simplesmente olharmos para Jesus Cristo.


O caminho da salvação

Agora, pode ser que alguns tenham sido convencidos do pecado pelo Espírito Santo.

Então, proclamemos o caminho da salvação:

“E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna.”

Contempla, ó temeroso penitente, o instrumento de tua libertação.

Volta teus olhos cheios de lágrimas para o Monte do Calvário.

Olha a vítima da justiça.

Olha o sacrifício de expiação por tua transgressão.

Olha para o Salvador em Suas agonias, comprando tua alma com torrentes de Seu sangue e suportando teu castigo.

Ele morreu por ti, se confessas tuas culpas agora.

Oh, vem tu, homem condenado, auto condenado, e volta teus olhos para este caminho.

Pois um só olhar salvará.

Pecador, tu foste mordido.

Olha!

Não necessitas de outra coisa senão olhar.

É simplesmente olhar!

Basta que olhes para Jesus e serás salvo.

“Olhem para mim e sedes salvos.”

Olhem!

Olhem!

Olhem!

Oh, almas culpadas, olhem para Cristo!

“Confia nEle, confia plenamente,
Não permitas que outra confiança se intrometa;
Ninguém senão Jesus
Pode fazer bem ao pecador desvalido.”

Que meu bendito Senhor os ajude a vir a Ele, e lhes atraia a Seu Filho, por Jesus Cristo nosso Senhor.

Amém e Amém.


Sobre este sermão

Charles H. Spurgeon
Sermão pregado na manhã de domingo, 22 de abril de 1855, em Exeter Hall, Strand, Londres.

Texto: Romanos 8:7 — “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

Tradução: Rosangela Cruz.

Este sermão faz parte do Volume 1 de sermões, da parte denominada New Park Street. O título original em inglês é The Carnal Mind Enmity Against God!

terça-feira, 6 de outubro de 2026

A VITÓRIA DA FÉ

 


O PÚLPITO DE NEW PARK STREET

Volume 1

Sermão nº 14

PREGADO NA MANHÃ DO DOMINGO, 18 DE MARÇO DE 1855

PELO REV. C. H. SPURGEON

NO EXETER HALL, STRAND

“Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”
1 João 5:4


As epístolas de João são perfumadas com amor. A palavra ocorre continuamente, enquanto o Espírito penetra cada frase. Cada carta está completamente impregnada e saturada desse mel celestial.

Se ele fala de Deus, Seu nome necessariamente é amor. Se os irmãos são mencionados, ele os ama. E até mesmo a respeito do próprio mundo, escreve: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito.” Do princípio ao fim, o amor é o estilo, o amor é o assunto, o amor é o motivo e o amor é o objetivo.

Por isso, ficamos não pouco admirados ao encontrar palavras tão marciais em um escrito tão pacífico, pois ouço o som da guerra. Certamente não parece ser a voz do amor aquela que diz: “Aquele que é nascido de Deus vence o mundo.”

Eis aqui conflito e batalha. A palavra “vence” parece conter algo da espada e da guerra, da luta e da contenda, da agonia e do combate.

É tão diferente daquele amor que é suave e gentil, que não possui palavras ásperas em seus lábios, cuja boca é revestida de veludo, cujas palavras são mais suaves que a manteiga e cujas expressões fluem mais facilmente que o óleo.

Aqui temos guerra — guerra até o fim, pois lemos: “Todo o que é nascido de Deus vence o mundo.”

Conflito até a morte, batalha durante toda a vida, lutando com a certeza da vitória.

Como pode o mesmo Evangelho que sempre fala de paz proclamar aqui uma guerra? Como pode ser isso?

Simplesmente porque existe algo no mundo que é contrário ao amor. Há princípios espalhados pelo mundo que não podem suportar a luz e, portanto, antes que a luz possa chegar, ela precisa expulsar as trevas.

Antes que o verão reine, você sabe que ele precisa combater o velho inverno e fazê-lo fugir uivando pelos ventos de março e derramando suas lágrimas nas chuvas de abril.

Assim também, antes que qualquer coisa grande ou boa possa dominar este mundo, ela precisa lutar por essa vitória.

Satanás assentou-se sobre seu trono manchado de sangue, e quem poderá derrubá-lo senão pela força, pela luta e pela guerra?

As trevas cobrem as nações. Tampouco o sol pode estabelecer seu império de luz sem primeiro atravessar a noite com seus raios e fazê-la fugir.

Por isso lemos na Bíblia que Cristo não veio trazer paz à terra, mas espada. Ele veio colocar “o pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a sua nora, e a nora contra a sua sogra.”

Não intencionalmente, entendam, mas como meio para alcançar um fim, porque sempre deve haver luta antes que a verdade e a justiça possam reinar.

Ai da terra, pois ela é o campo de batalha onde o bem precisa combater o mal!

Os anjos observam e prendem a respiração, desejando ardentemente participar do conflito, mas as tropas do Capitão da Salvação podem ser somente os soldados da cruz.

E esse pequeno grupo precisa lutar sozinho — e ainda assim triunfará gloriosamente.

Eles serão suficientes para a conquista, e o lema de seu estandarte é: SUFICIENTE.

Suficiente pelo braço da Trindade que os ajuda.

Com a ajuda de Deus, falarei sobre três coisas encontradas neste texto.

Primeiro, o texto fala de uma grande vitória: “Esta é a vitória”.

Segundo, menciona um grande nascimento: “Todo o que é nascido de Deus”.

E, terceiro, exalta uma grande graça, pela qual vencemos o mundo: “a nossa fé.”


I. UMA GRANDE VITÓRIA

Primeiramente, o texto fala de uma GRANDE VITÓRIA — a vitória das vitórias, a maior de todas.

Sabemos que houve grandes batalhas nas quais nações se encontraram em conflito e uma venceu a outra. Mas quem já leu sobre uma vitória que venceu o mundo?

Alguns dirão que Alexandre foi seu conquistador. Mas eu respondo: não.

Ele próprio foi o homem derrotado, mesmo quando todas as coisas estavam em sua posse.

Ele lutou pelo mundo e o conquistou. E então observe como o mundo dominou seu senhor, conquistou seu conquistador e açoitou o monarca que havia sido seu flagelo.

Veja o jovem rei chorando e estendendo as mãos, com gritos insensatos, por outro mundo que pudesse saquear.

Externamente, parecia ter vencido a velha terra, mas, na realidade, no mais profundo de sua alma, a terra o havia conquistado. Ela o havia dominado, envolvido no sonho da ambição e amarrado com as correntes da cobiça, de modo que, quando possuía tudo, continuava insatisfeito.

E, como um pobre escravo, era arrastado pelas rodas da carruagem do mundo, chorando, gemendo e lamentando porque não conseguia conquistar outro mundo.

Quem é o homem que já venceu o mundo?

Que ele se apresente.

Ele será um Tritão entre pequenos peixes. Ofuscará César. Superará até mesmo o nosso recém-falecido Wellington, se puder dizer que venceu o mundo.

É algo tão raro, uma vitória tão prodigiosa, uma conquista tão tremenda, que aquele que puder reivindicá-la poderá caminhar entre seus semelhantes como Saul, com a cabeça e os ombros muito acima deles.

Ele comandará nosso respeito. Sua própria presença nos inspirará reverência.

Sua fala nos persuadirá à obediência e, dando honra a quem honra é devida, diremos ao ouvir sua voz:

“É como se um anjo tivesse sacudido suas asas.”

Agora tentarei ampliar a ideia que sugeri, mostrando-lhes os diversos sentidos em que o cristão vence o mundo.

Senhores, é uma batalha difícil, podem ter certeza; não é uma batalha que cavaleiros de salão poderiam vencer.

Não é uma escaramuça fácil que possa ser vencida por alguém que, em um dia ensolarado, corre para a batalha, olha para o exército, depois vira as rédeas de seu cavalo e delicadamente desmonta à porta de sua tenda de seda.

Não é uma vitória que será alcançada por aquele que, sendo hoje um recruta inexperiente, veste seu uniforme e imagina tolamente que uma semana de serviço lhe garantirá uma coroa de glória.

Não, senhores!

É uma guerra para toda a vida — uma luta que exige a força de todos estes músculos e deste coração forte — um combate que exigirá toda a nossa força se quisermos triunfar.

E, se sairmos mais que vencedores, será dito de nós, como Hart disse acerca de Jesus Cristo:

“Ele tinha força suficiente, e nenhuma de sobra.”

É uma batalha diante da qual o coração mais firme poderia recuar.

É uma luta na qual o bravo poderia tremer, se não se lembrasse de que o Senhor está ao seu lado. E, portanto, de quem ele terá medo?

Ele é a força da sua vida; de quem terá medo?

Essa luta contra o mundo não é uma questão de força física ou poder material. Se fosse, poderíamos vencê-la rapidamente.

Mas ela é ainda mais perigosa justamente porque é uma luta da mente, um combate do coração, uma batalha do espírito, um conflito da alma.

Quando vencemos o mundo de uma maneira, nosso trabalho sequer está pela metade.

Pois o mundo é um Proteu, mudando continuamente de forma.

Como o camaleão, possui todas as cores do arco-íris e, quando você derrota o mundo em uma forma, ele o atacará em outra.

Até morrer, você sempre terá novas manifestações do mundo com as quais lutar.

Permitam-me mencionar algumas das formas pelas quais o cristão vence o mundo.


1. Vencemos o mundo quando ele se estabelece como legislador

O mundo deseja ensinar-lhe seus costumes.

Vocês sabem que o mundo possui seu antigo e volumoso livro de leis dos costumes, e aquele que não deseja seguir a moda do mundo fica sob a condenação da sociedade.

A maioria de vocês faz exatamente o que todo mundo faz, e isso lhes basta.

Se vocês veem alguém praticando uma coisa desonesta nos negócios, basta-lhes saber que todo mundo faz isso.

Se percebem que a maioria da humanidade possui certos hábitos, vocês cedem, vocês se submetem.

Imagino que pensem que marchar em multidão para o inferno ajudará a diminuir o calor intenso do fogo do abismo sem fundo, em vez de se lembrarem de que quanto mais lenha houver, mais intensa será a chama.

Os homens normalmente nadam com a correnteza como um peixe morto.

Somente o peixe vivo nada contra ela.

Somente o cristão despreza os costumes, não se importa com convenções e faz a si mesmo apenas esta pergunta:

“Isso é certo ou errado? Se é certo, farei, mesmo que seja diferente.”

Se não houver outro homem neste mundo que o faça, eu farei.

Mesmo que um assobio universal de reprovação suba aos céus, ainda assim eu farei.

Mesmo que as próprias pedras da terra se levantem e me apedrejem até a morte, ainda assim farei.

Ainda que me amarrem ao poste, preciso fazê-lo.

Serei singularmente correto.

Se a multidão não me seguir, caminharei sem ela.

Ficarei feliz se todos forem e fizerem o que é certo também; mas, se não, desprezarei seus costumes.

Não me importa o que os outros fazem.

Não serei julgado pelo padrão dos outros homens.

Pertenço ao meu próprio Senhor; por Ele permanecerei de pé ou cairei.

Assim conquisto e venço os costumes do mundo.

Belo mundo!

Ela veste-se de arminho, coloca sobre si as vestes de um juiz e solenemente lhe diz:

“Homem, você está errado. Olhe para seus semelhantes, veja o que eles fazem. Contemple minhas leis. Durante centenas de anos os homens não fizeram assim? Quem é você para se levantar contra mim?”

Então ela tira seu livro de leis corroído pelos vermes e, virando suas páginas empoeiradas, diz:

“Veja, aqui está um decreto aprovado no reinado de Nabucodonosor e aqui está outra lei promulgada nos dias de Faraó. Estas devem estar certas, porque a antiguidade as colocou entre suas autoridades. Você pretende se levantar contra as opiniões da multidão?”

Sim, nós pretendemos.

Tomamos o livro de leis do mundo e o queimamos, como os efésios queimaram seus livros de magia.

Tomamos seus documentos e os transformamos em papel sem valor.

Rasgamos sua proclamação das paredes.

Não nos importa o que os outros fazem.

Para nós, o costume é uma teia de aranha.

Não consideramos loucura ser diferentes. Pelo contrário, quando ser diferente significa estar certo, consideramos isso a mais elevada sabedoria.

Vencemos o mundo.

Pisamos sobre seus costumes.

Caminhamos como um povo distinto, uma raça separada, uma geração eleita, um povo peculiar.

O cristão não se comporta em seus negócios como o infiel zombeteiro insinua quando, com sarcasmo, descreve Mawworm dizendo:

“Rapaz, você misturou areia no açúcar?”

“Sim, senhor.”

“Colocou folhas de abrunheiro no chá?”

“Sim, senhor.”

“Colocou chumbo vermelho na pimenta?”

“Sim, senhor.”

“Então venha para a oração.”

Cristãos, não façam isso!

Eles dizem:

“Sabemos melhor. Não podemos nos conformar aos costumes do mundo. Se oramos, também viveremos de acordo com nossa oração; caso contrário, somos hipócritas, terríveis hipócritas.”

“Se vamos à casa de Deus e professamos amá-Lo, nós O amamos em todos os lugares. Levamos nossa religião conosco para a loja, para trás do balcão, para nossos escritórios — precisamos tê-la em todos os lugares; caso contrário, Deus sabe que não é religião alguma.”

Você precisa, portanto, levantar-se contra os costumes dos homens.

Ainda que esta seja uma cidade de três milhões de pessoas, você deve sair e separar-se, se quiser vencer o mundo.


2. Vencemos o mundo quando ele nos persegue

Nós nos rebelamos contra os costumes do mundo.

E, se fazemos isso, qual é a atitude de nosso inimigo?

Ela muda de aparência.

“Esse homem é um herege. Esse homem é um fanático. Ele é um impostor, um hipócrita”, diz imediatamente o mundo.

Ela empunha sua espada, coloca carrancas sobre a testa, olha furiosamente como um demônio, reúne tempestades ao seu redor e diz:

“Esse homem ousa desafiar meu governo. Ele não fará o que os outros fazem. Agora vou persegui-lo.”

“Calúnia! Venha das profundezas do inferno e assobie contra ele.”

“Inveja! Afie seus dentes e morda-o.”

Ela reúne todas as falsidades possíveis e persegue o homem.

Se puder, fará isso com a mão; se não, com a língua.

Ela o aflige onde quer que ele esteja.

Tenta arruiná-lo nos negócios.

Ou, se ele se apresenta como defensor da verdade, então ela ri, zomba e despreza.

Não deixa pedra sobre pedra para tentar prejudicá-lo.

Qual deve ser, então, a atitude do guerreiro do Senhor quando vê o mundo tomar armas contra ele?

Quando vê toda a terra, como um exército, vindo para persegui-lo e destruí-lo completamente?

Ele cede?

Ele se curva?

Ele se encolhe?

Oh, não!

Como Lutero, escreve “Cedo nulli” em seu estandarte — “Não cedo a ninguém” — e vai à guerra contra o mundo se o mundo guerrear contra ele.

“Que a terra inteira se arme,
Ele habita em perfeita paz.”

Ah! Alguns de vocês, se uma palavra fosse dita contra vocês, imediatamente abandonariam a religião que possuem.

Mas o verdadeiro filho de Deus pouco se importa com a opinião dos homens.

“Ah!”, diz ele, “que meu pão me falte; que eu seja condenado a vagar sem dinheiro pelo mundo inteiro. Sim, que eu morra — cada gota de sangue nestas veias pertence a Cristo, e estou pronto para derramá-la por amor do Seu nome.”

Ele considera tudo como perda para ganhar a Cristo e ser encontrado Nele.

E quando os trovões do mundo rugem, ele sorri diante do tumulto enquanto canta suavemente:

“Jerusalém, meu lar feliz,
Nome sempre querido para mim;
Quando terminarão meus trabalhos,
Em alegria, paz e em ti?”

Quando a espada do mundo é desembainhada, ele olha para ela.

“Ah!”, diz ele, “assim como o relâmpago salta de seu esconderijo de trovões, rasga as nuvens e assusta as estrelas, mas é impotente contra o montanhês protegido pela rocha, que sorri diante de sua grandeza, assim também o mundo não pode me ferir, pois no tempo da angústia meu Pai me esconderá em Seu pavilhão; no secreto de Seu tabernáculo me esconderá e me colocará sobre uma rocha.”

Assim, novamente, vencemos o mundo ao não nos importarmos com suas carrancas.


3. Vencemos o mundo quando ele sorri para nós

“Bem”, diz o mundo, “tentarei outro método.”

E, creiam em mim, este é o mais perigoso de todos.

Um mundo sorridente é pior que um mundo carrancudo.

Ela diz:

“Não consigo derrubar esse homem com meus golpes repetidos. Portanto, tirarei minha luva de ferro e mostrarei a ele uma bela mão branca. Vou pedir que ele a beije. Direi que o amo. Vou lisonjeá-lo. Falarei boas palavras com ele.”

John Bunyan descreve muito bem essa Madame Bolha.

Ela possui um modo encantador de agir.

Coloca um sorriso ao final de cada frase.

Fala muito sobre coisas belas e tenta conquistar e seduzir.

Oh, creiam em mim: os cristãos não estão tão em perigo quando são perseguidos quanto quando são admirados.

Quando estamos no pináculo da popularidade, podemos muito bem tremer e temer.

Não é quando somos vaiados e insultados que temos motivo para alarme.

É quando somos embalados no colo da fortuna e amamentados nos joelhos do povo.

É quando todos os homens falam bem de nós que devemos temer.

Não é no frio vento do inverno que tiro meu manto de justiça e o jogo fora.

É quando o sol aparece, quando o tempo está quente e o ar é agradável, que, sem perceber o perigo, retiro minhas vestes e fico nu.

Bom Deus!

Quantos homens foram despidos pelo amor a este mundo!

O mundo os lisonjeou e aplaudiu.

Eles beberam dessa lisonja.

Foi uma bebida intoxicante.

Cambalearam, perderam o equilíbrio, pecaram e perderam sua reputação.

E, como um cometa que atravessa o céu, vagueia para longe pelo espaço e se perde na escuridão, assim acontece com eles.

Grandes como eram, caem.

Poderosos como eram, vagueiam e se perdem.

Mas o verdadeiro filho de Deus jamais é assim.

Ele está tão seguro quando o mundo sorri quanto quando o mundo franze a testa.

Importa-se tão pouco com seus elogios quanto com suas críticas.

Se é elogiado e o elogio é verdadeiro, diz:

“Minhas obras merecem louvor, mas atribuo toda honra ao meu Deus.”

Grandes almas sabem o que merecem de seus críticos.

Para elas, isso não é mais do que receber sua renda diária.

Alguns homens não conseguem viver sem uma grande quantidade de elogios e, se não recebem mais do que merecem, que recebam o que lhes é devido.

Se são filhos de Deus, serão mantidos firmes.

Não serão destruídos nem corrompidos, mas permanecerão com pés semelhantes aos das corças nos lugares altos.

“Esta é a vitória que vence o mundo.”


4. Vencemos o mundo quando ele se torna nosso carcereiro

Às vezes, novamente, o mundo se torna carcereiro do cristão.

Deus envia aflição e tristeza até que a vida se transforme em uma prisão, e o mundo se torna seu carcereiro — e um carcereiro miserável também.

Vocês já passaram por provações e dificuldades, meus amigos?

E o mundo alguma vez veio até vocês e disse:

“Pobre prisioneiro, tenho uma chave que pode libertá-lo.

Você está enfrentando dificuldades financeiras. Vou lhe dizer como pode se livrar delas.

Coloque a consciência de lado.

Ela lhe pergunta se determinado ato é desonesto.

Não se preocupe com isso.

Deixe-a dormir.

Pense na honestidade depois que tiver conseguido o dinheiro e arrependa-se tranquilamente depois.”

Assim fala o mundo.

Mas você responde:

“Não posso fazer isso.”

“Bem”, diz o mundo, “então gema e resmungue — um homem bom como você trancado nesta prisão!”

“Não”, diz o cristão. “Meu Pai me colocou na necessidade e, no Seu próprio tempo, Ele me tirará dela. Mas, se eu morrer aqui, não usarei meios errados para escapar. Meu Pai me colocou aqui para o meu bem; não vou reclamar.

Se meus ossos tiverem de permanecer aqui — se meu caixão tiver de ficar debaixo destas pedras — se minha lápide tiver de ser colocada na parede de minha masmorra — aqui morrerei, em vez de levantar sequer um dedo para escapar por meios injustos.”

“Ah!”, diz o mundo, “então você é um tolo.”

O zombador ri e segue seu caminho, dizendo:

“Esse homem não tem cérebro. Não fará uma coisa ousada. Não tem coragem. Não se lançará ao mar. Quer andar pela velha estrada batida da moralidade.”

Sim, é exatamente isso que ele faz, pois assim vence o mundo.

Oh! Eu poderia contar-lhes algumas das batalhas que foram travadas.

Houve muitas pobres moças que trabalharam, trabalharam e trabalharam até que seus dedos ficassem reduzidos aos ossos, apenas para ganhar um sustento miserável com as coisas que usamos sobre nossos corpos, sem saber que muitas vezes vestimos o sangue, os ossos e os tendões de pobres moças.

Essa pobre garota foi tentada mil vezes.

O maligno tentou seduzi-la, mas ela lutou uma batalha valente.

Firme em sua integridade em meio à pobreza, ela permanece de pé.

“Clara como o sol, bela como a lua e terrível como um exército com bandeiras”, uma heroína não conquistada pelas tentações e seduções do vício.

Em outros casos, muitos homens tiveram a oportunidade de se tornarem ricos em uma hora, prósperos em um instante, se apenas agarrassem algo para o qual não ousavam sequer olhar, porque Deus dentro deles dizia:

“Não.”

O mundo dizia:

“Fique rico, fique rico!”

Mas o Espírito Santo dizia:

“Não! Seja honesto. Sirva ao seu Deus.”

Oh! Que conflito severo e que combate viril travado dentro do coração!

Mas ele disse:

“Não. Ainda que eu pudesse transformar as estrelas em mundos de ouro, não trocaria meus princípios nem prejudicaria minha alma por todas essas riquezas.”

Assim ele caminha como um conquistador.

“Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”


II. UM GRANDE NASCIMENTO

Mas meu texto fala de um GRANDE NASCIMENTO.

Um amigo muito bondoso me disse que, enquanto eu pregasse no Exeter Hall, deveria respeitar as diferentes opiniões de meus ouvintes e que, embora eu seja calvinista e batista, deveria lembrar que aqui existem diversos credos.

Ora, se eu pregasse somente aquilo que agradasse a todos vocês, o que deveria fazer?

Eu prego aquilo que creio ser verdadeiro.

E, se a omissão de uma única verdade em que creio pudesse me tornar rei da Inglaterra por toda a eternidade, eu ainda assim não a omitiria.

Aqueles que não gostam do que digo têm a opção de ir embora.

Eles vêm aqui, suponho, para agradar a si mesmos e, se a verdade não lhes agrada, podem partir.

Jamais terei medo de que uma audiência britânica honesta se afaste do homem que não hesita, não gagueja e não tropeça ao falar a verdade.

Bem, agora sobre esse grande nascimento.

Talvez eu diga algo um pouco duro, mas ouvi isso primeiro do Sr. Jay.

Alguns dizem que o novo nascimento acontece no batismo infantil.

Mas lembro-me daquele venerável patriarca dizendo:

“O papismo é uma mentira, o puseísmo é uma mentira, a regeneração batismal é uma mentira.”

E assim é.

É uma mentira tão evidente que mal consigo imaginar que os pregadores dessa doutrina tenham algum cérebro na cabeça.

É tão absurda à primeira vista que o homem que acredita nela se coloca abaixo do nível de uma pessoa de bom senso.

Acreditem que toda criança, por meio de uma gota de água, nasce de novo!

Então aquele homem que vocês veem na arena como lutador profissional nasceu de novo, porque aquelas gotas santificadas um dia caíram sobre sua testa infantil!

Outro homem pragueja — vejam-no bêbado e cambaleando pelas ruas.

Ele nasceu de novo!

Que belo novo nascimento!

Creio que ele precisa nascer de novo outra vez.

Uma regeneração assim apenas o prepara para o diabo e, por seu efeito enganador, pode até torná-lo sete vezes mais filho do inferno.

Mas os homens que amaldiçoam, praguejam, roubam e furtam, e aqueles pobres miseráveis que são enforcados, todos nasceram de novo, segundo a ficção dessa bela igreja puseísta.

Fora com isso!

Fora com isso!

Ah, Deus envia algo muito melhor ao coração dos homens quando lhes concede um novo nascimento.

Entretanto, o texto fala de um grande nascimento:

“Todo o que é nascido de Deus vence o mundo.”

Esse novo nascimento é o ponto misterioso de toda religião.

Se você pregar qualquer outra coisa, exceto o novo nascimento, sempre terá boa aceitação entre seus ouvintes.

Mas, se insistir que, para entrar no céu, deve haver uma mudança radical, embora essa seja a doutrina das Escrituras, ela é tão desagradável à humanidade em geral que dificilmente conseguirão fazê-la ouvir.

Ah! Agora vocês se afastam quando começo a dizer:

“Se não nascerdes da água e do Espírito, não podeis entrar no reino dos céus.”

Se eu lhes disser que deve haver uma influência regeneradora exercida sobre suas mentes pelo poder do Espírito Santo, sei que vocês dirão:

“Isso é fanatismo.”

Ah! Mas é o fanatismo da Bíblia.

É aí que permaneço.

Por isso serei julgado.

Se a Bíblia não disser que precisamos nascer de novo, então abandono essa doutrina.

Mas, se ela diz isso, senhores, não desconfiem dessa verdade da qual depende sua salvação.


O que significa nascer de novo?

Muito brevemente, nascer de novo é passar por uma mudança tão misteriosa que as palavras humanas não conseguem descrevê-la.

Assim como não podemos descrever nosso primeiro nascimento, também é impossível descrever o segundo.

“O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.”

Mas, embora seja misteriosa, é uma mudança conhecida e sentida.

As pessoas não nascem de novo enquanto estão deitadas na cama e dormindo, de modo que não sabem o que aconteceu.

Elas sentem.

Elas experimentam.

O galvanismo, ou poder da eletricidade, pode ser misterioso, mas produz uma sensação.

Assim também é o novo nascimento.

No momento do novo nascimento, a alma encontra-se em grande agonia — frequentemente afogada em mares de lágrimas.

Às vezes bebe amarguras, misturadas de vez em quando com doces gotas de esperança.

Enquanto passamos da morte para a vida, existe uma experiência que ninguém, exceto o filho de Deus, pode realmente compreender.

É uma mudança misteriosa, mas, ao mesmo tempo, é uma mudança concreta.

É tão grande uma mudança como se este coração fosse retirado de mim, suas gotas negras de sangue fossem espremidas, depois ele fosse lavado e purificado e colocado novamente em minha alma.

É “um coração novo e um espírito reto” — uma mudança misteriosa, mas ainda assim verdadeira e real!

Permitam-me dizer-lhes, além disso, que essa mudança é sobrenatural.

Não é algo que o homem realiza por si mesmo.

Não é simplesmente deixar de beber e tornar-se sóbrio.

Não é passar do catolicismo romano para o protestantismo.

Não é mudar de dissidente para anglicano, ou de anglicano para dissidente.

É algo infinitamente maior.

É um novo princípio infundido que opera no coração, entra na própria alma e move o homem inteiro.

Não é uma mudança de meu nome, mas uma renovação de minha natureza, de modo que não sou mais o homem que costumava ser, mas um novo homem em Cristo Jesus.

É uma mudança sobrenatural — algo que o homem não pode realizar e que somente Deus pode efetuar.

Nem mesmo a própria Bíblia pode realizar isso sem a ação do Espírito de Deus.

Nenhuma eloquência ministerial pode produzi-la.

É algo tão poderoso e maravilhoso que deve ser reconhecido como obra de Deus e somente de Deus.

Aqui está o lugar para observar que esse novo nascimento é uma mudança permanente.

Os arminianos nos dizem que as pessoas nascem de novo, depois caem em pecado, levantam-se novamente e tornam-se cristãs outra vez — caem em pecado, perdem a graça de Deus e depois retornam — caem em pecado cem vezes durante a vida e continuam perdendo e recuperando a graça.

Bem, suponho que isso seja uma nova versão das Escrituras onde vocês leem isso.

Mas eu leio em minha Bíblia que, se os verdadeiros cristãos pudessem cair definitivamente, seria impossível renová-los novamente para o arrependimento.

Leio, além disso, que, onde Deus começou uma boa obra, Ele a levará até o fim, e que aquele a quem Ele ama uma vez, ama até o fim.

Se eu fui simplesmente reformado, ainda posso tornar-me bêbado novamente, ou vocês podem me ver atuando em um palco.

Mas, se realmente nasci de novo, com essa verdadeira mudança sobrenatural, jamais cairei definitivamente.

Posso cair em um pecado, mas não cairei para sempre.

Permanecerei firme enquanto durar a vida, constantemente seguro.

E, quando morrer, será dito:

“Servo de Deus, muito bem!
Descansa de teu bendito labor;
A batalha foi travada, a vitória foi ganha;
Entra no teu descanso de alegria.”

Não enganem a si mesmos, meus amados.

Se imaginam que foram regenerados e que, depois de se afastarem de Deus, nascerão novamente uma segunda vez, vocês não sabem coisa alguma sobre o assunto.

Pois:

“Aquele que é nascido de Deus não vive pecando.”

Isto é, não peca a ponto de cair da graça,

“porque ele se guarda, e o maligno não lhe toca.”

Feliz é o homem que é verdadeira e realmente regenerado e passou da morte para a vida!


III. UMA GRANDE GRAÇA

Para concluir, HÁ UMA GRANDE GRAÇA.

As pessoas que nasceram de novo realmente vencem o mundo.

Como isso acontece?

O texto diz:

“Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”

Os cristãos não triunfam sobre o mundo por meio da razão.

De modo algum.

A razão é uma coisa muito boa e ninguém deveria criticá-la.

A razão é uma vela, mas a fé é um sol.

Bem, eu prefiro o sol, embora não apague a vela.

Uso minha razão como homem cristão.

Exerço-a constantemente.

Mas, quando entro em uma verdadeira guerra, a razão é uma espada de madeira.

Ela quebra.

Ela se parte.

Enquanto a fé, essa espada de verdadeiro metal de Jerusalém, corta até a divisão da alma e do espírito.

Meu texto diz:

“Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”

Quem são os homens que fazem alguma coisa neste mundo?

Não são sempre homens de fé?

Tome isso até mesmo como fé natural.

Quem vence a batalha?

O homem que sabe que vencerá e decide que será o vencedor.

Quem nunca progride no mundo?

O homem que sempre tem medo de fazer alguma coisa, receando não conseguir realizá-la.

Quem escala o topo dos Alpes?

O homem que diz:

“Eu farei isso ou morrerei.”

Que um homem decida que pode fazer algo e ele o fará, se estiver dentro dos limites da possibilidade.

Quem foram os homens que levantaram o estandarte e, segurando-o firmemente, o mantiveram erguido em meio à tempestade, ao conflito e à batalha?

Homens de fé.

Quem realizou grandes coisas?

Não homens de medo e tremor, homens assustados, mas homens de fé, que tinham rostos destemidos e testas de bronze — homens que nunca recuaram nem tremeram, mas, crendo em Deus, levantaram os olhos para os montes, de onde vem sua força.

“Jamais houve maravilha realizada sobre a terra que não tenha brotado da fé. Nada nobre, generoso ou grandioso, sem que a fé fosse a raiz do feito. Nada belo, nada famoso, sem que seu louvor pertencesse à fé. Leônidas lutou com fé humana, assim como Josué com fé divina. Xenofonte confiou em sua habilidade, e os filhos de Matatias, em sua causa.”

A fé é a mais poderosa das forças.

Ela é a monarca dos reinos da mente.

Não existe ser superior à sua força, nem criatura que não se curve diante de seu poder divino.

A falta de fé torna o homem desprezível; encolhe-o tanto que ele poderia viver dentro de uma casca.

Dê-lhe fé e ele será um leviatã capaz de mergulhar nas profundezas do mar.

Será um cavalo de guerra que relincha:

“Aha! Aha!”

no meio da batalha.

Será um gigante que toma nações e as reduz a pó em sua mão, que enfrenta exércitos e, com uma espada, faz com que desapareçam.

Ele amarra feixes de cetros e reúne todas as coroas como suas.

Não há nada semelhante à fé, senhores.

A fé torna vocês quase onipotentes como Deus, pela força emprestada de Sua divindade.

Dê-nos fé e poderemos fazer todas as coisas.

Quero dizer-lhes como a fé ajuda os cristãos a vencer o mundo.

Ela sempre faz isso de maneira homeopática.

Vocês dizem:

“Essa é uma ideia singular.”

Pode ser.

O princípio é:

“Semelhante cura semelhante.”

Assim a fé vence o mundo curando semelhante com semelhante.

Como a fé pisa sobre o medo do mundo?

Pelo temor de Deus.

“Agora”, diz o mundo, “se você não fizer isso, tirarei sua vida. Se não se curvar diante do meu falso deus, será lançado naquela fornalha de fogo ardente.”

“Mas”, diz o homem de fé, “eu temo Aquele que pode destruir tanto o corpo como a alma no inferno. É verdade que posso temer você, mas tenho um temor maior que esse. Temo desagradar a Deus. Tremo diante da possibilidade de ofender meu Soberano.”

Assim, um temor contrabalança o outro.

Como a fé derrota as esperanças do mundo?

“Veja”, diz o mundo, “eu lhe darei isto, darei aquilo, se você se tornar meu discípulo. Há uma esperança para você. Você será rico, será grande.”

Mas a fé diz:

“Tenho uma esperança reservada no céu. Uma esperança que não desaparece, eterna, incorruptível, uma esperança imortal, uma esperança de ouro, uma coroa de vida.”

E a esperança da glória vence todas as esperanças do mundo.

“Ah!”, diz o mundo, “por que não seguir o exemplo de seus semelhantes?”

“Porque”, diz a fé, “seguirei o exemplo de Cristo.”

Se o mundo coloca um exemplo diante de nós, a fé coloca outro.

“Oh! Siga o exemplo de tal pessoa. Ela é sábia, grande e boa”, diz o mundo.

A fé responde:

“Eu seguirei a Cristo. Ele é o mais sábio, o maior e o melhor.”

Ela vence exemplo com exemplo.

“Bem”, diz o mundo, “já que você não será conquistado por tudo isso, venha, eu o amarei. Você será meu amigo.”

A fé responde:

“Quem é amigo do mundo não pode ser amigo de Deus. Deus me ama.”

Assim ela coloca amor contra amor, temor contra temor, esperança contra esperança, receio contra receio.

E desse modo a fé vence o mundo, curando semelhante com semelhante.


CONCLUSÃO

Ao concluir meu discurso, homens e irmãos, sou apenas uma criança.

Falei-lhes nesta manhã como pude.

Talvez em outra ocasião eu pudesse lançar mais trovões e proclamar melhor a Palavra de Deus.

Mas tenho certeza de uma coisa: digo-lhes tudo o que sei e falo diretamente.

Não sou um orador, mas simplesmente lhes conto aquilo que brota do meu coração.

Mas, antes de terminar, oh, que eu possa dirigir uma palavra às suas almas!

Quantos aqui nasceram de novo?

Alguns fazem ouvidos surdos e dizem:

“Tudo isso é bobagem. Frequentamos regularmente nosso local de culto, colocamos nossos hinários e Bíblias debaixo do braço e somos pessoas muito religiosas.”

Ah, alma!

Se eu encontrar você diante do tribunal do juízo, lembre-se de que eu disse — e disse a Palavra de Deus:

“Se não nascerdes de novo, não entrareis no reino dos céus.”

Outros de vocês dizem:

“Não podemos acreditar que nascer de novo seja uma mudança tão grande quanto você diz. Sou muito melhor do que costumava ser. Agora não praguejo mais e estou muito reformado.”

Senhores, digo-lhes que não é uma pequena mudança.

Não é consertar o vaso, mas quebrá-lo e receber um novo.

Não é remendar o coração, mas receber um novo coração e um espírito reto.

Não há nada que possa salvar suas almas senão morte para o pecado e vida para a justiça.

Não estou pregando uma doutrina nova.

Voltem-se para os Artigos da Igreja da Inglaterra e leiam ali.

Pessoas da igreja às vezes vêm até mim para unir-se à nossa igreja.

Mostro-lhes nossas doutrinas em seu próprio livro de oração e elas dizem que nunca souberam que estavam ali.

Meus queridos ouvintes, por que vocês não leem seus próprios artigos de fé?

Ora, vocês simplesmente não sabem o que está em seu próprio livro de oração.

Hoje em dia, os homens não leem suas Bíblias e, em sua maioria, não têm religião.

Possuem uma religião que é apenas aparência exterior, mas não pensam em pesquisar para descobrir o que realmente significa.

Senhores, não é o manto da religião que servirá para vocês.

Vocês precisam de uma piedade viva.

Não é um domingo religioso; é uma segunda-feira religiosa.

Não é uma igreja piedosa; é um quarto de oração piedoso.

Não é um lugar sagrado onde se ajoelhar, mas um lugar santo onde permanecer de pé durante todo o dia.

Deve haver uma mudança de coração real, radical, vital e completa.

E agora, o que vocês dizem?

Sua fé venceu o mundo?

Vocês conseguem viver acima dele?

Ou amam o mundo e as coisas que nele existem?

Se assim for, senhores, terão de seguir seu caminho e perecer, cada um de vocês, a menos que se afastem disso e entreguem seus corações a Cristo.

Oh! O que vocês dizem?

Jesus é digno do seu amor?

As coisas da eternidade e do céu valem mais do que as coisas do tempo?

É tão doce ser mundano que, por isso, vocês podem deitar-se em tormento?

É tão bom ser pecador que, por isso, podem arriscar o bem-estar eterno de suas almas?

Oh, meus amigos, vale a pena correr o risco de uma eternidade de sofrimento por uma hora de prazer?

Vale a pena dançar no inferno com demônios que uivam para sempre?

Vale a pena desfrutar de um único sonho, seguido por um despertar horrível, quando existem as glórias do céu para aqueles que seguem a Deus?

Oh!

Se meus lábios me permitissem falar com vocês, meu coração transbordaria pelos meus olhos e eu choraria até me desfazer em lágrimas, até que vocês tivessem piedade de suas próprias pobres almas.

Sei que sou, em certa medida, responsável por suas almas.

Se os atalaias não os advertirem, eles perecerão, mas o sangue deles será requerido das mãos do atalaia.

“Convertei-vos, convertei-vos! Por que havereis de morrer, ó casa de Israel?”, assim diz o Senhor.

Entorpecidos, dominados por suas próprias vontades perversas, inclinados ao mal, ainda assim o Espírito Santo fala por meu intermédio nesta manhã:

“Se vos converterdes ao SENHOR de todo o coração, Ele terá misericórdia de vós; e ao nosso Deus, pois grandioso é em perdoar.”

Não posso trazê-los.

Não posso buscá-los.

Minhas palavras são impotentes, meus pensamentos são fracos!

O velho Adão é forte demais para que esta jovem criança consiga puxá-lo ou arrastá-lo.

Mas que Deus fale aos seus corações, queridos!

Que Deus faça esta verdade chegar ao íntimo de vocês.

Então nos alegraremos juntos, tanto o que semeia como o que colhe, porque Deus nos deu o crescimento.

Deus os abençoe!

Que todos vocês nasçam de novo e tenham “aquela fé que vence o mundo!”


HINO FINAL

“Tenho eu aquela fé que olha para Cristo,
Vence o mundo e o pecado,
Recebe-O como Profeta, Sacerdote e Rei,
E torna a consciência limpa?

Se possuo essa graça preciosa,
Todo louvor pertence a Ti;
Se não, eu a busco de Tuas mãos;
Concede-a agora, Senhor, a mim.”


Nota da edição

Extraído da coleção The Metropolitan Tabernacle Pulpit — C. H. Spurgeon Collection.

Somente as alterações necessárias foram realizadas no texto original, tais como correções de erros ortográficos, alguns usos de pontuação, capitalização dos pronomes referentes à divindade e mínima atualização de algumas palavras arcaicas.

O conteúdo do sermão permanece integral, sem abreviações ou cortes.

Sermão nº 14 — A Vitória da Fé
C. H. Spurgeon — 18 de março de 1855

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

CONSOLAÇÃO PROPORCIONAL AOS SOFRIMENTOS ESPIRITUAIS

 


O PÚLPITO DE NEW PARK STREET

Volume 1

Sermão nº 13

Um sermão pregado na manhã de domingo, 11 de março de 1855, pelo Rev. C. H. Spurgeon, no Exeter Hall, Strand

“Porque, assim como os sofrimentos de Cristo transbordam em nós, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo.”
2 Coríntios 1:5


Buscam descanso de suas angústias, vocês que são filhos da aflição e da tristeza? Este é o lugar onde vocês podem aliviar seus fardos e perder suas preocupações. Ó filho da aflição e da miséria, você gostaria de esquecer, por algum tempo, suas dores e seus sofrimentos? Este é o tanque de Betesda, a casa de misericórdia. Este é o lugar onde Deus deseja animá-lo e fazer cessar o curso incessante de suas aflições.

Este é o lugar onde Seus filhos gostam de ser encontrados, porque aqui encontram consolação em meio à tribulação, alegria em suas tristezas e conforto em suas aflições.

Até mesmo os homens do mundo admitem que há algo extremamente consolador nas Sagradas Escrituras e em nossa santa religião. Já ouvi dizer que alguns, depois de terem, segundo imaginavam, destruído o cristianismo com sua lógica e provado que ele era falso, reconheceram que haviam destruído uma ilusão extraordinariamente consoladora e que quase poderiam sentar-se e chorar ao pensar que ela não era uma realidade.

Sim, meus amigos, se não fosse verdadeira, vocês poderiam chorar. Se a Bíblia não fosse a verdade de Deus — se não pudéssemos nos reunir ao redor do Seu trono de misericórdia — então vocês poderiam colocar as mãos sobre os lombos e andar de um lado para outro como uma mulher em trabalho de parto.

Se vocês não tivessem algo no mundo além de sua razão, além das alegrias passageiras da terra — se não tivessem algo que Deus lhes tivesse dado, alguma esperança além do céu, algum refúgio que fosse mais do que terrestre, alguma libertação que fosse mais do que terrena — então poderiam chorar. Ah! Poderiam chorar até esvaziar o coração pelos olhos e deixar que todo o corpo se consumisse em uma lágrima perpétua.

Poderiam pedir às nuvens que repousassem sobre suas cabeças, e aos rios que escorressem em torrentes de ambos os olhos, pois sua tristeza “precisaria de todas as coisas aquosas que a natureza pudesse produzir”.

Mas bendito seja Deus, temos consolação; temos alegria no Espírito Santo. Não a encontramos em nenhum outro lugar.

Reviramos a terra de um lado para outro, mas nunca encontramos uma joia. Revolvemos este mundo, que é como um monturo, mil vezes, e nada precioso encontramos. Mas aqui, nesta Bíblia, aqui na religião do bendito Jesus, nós, os filhos de Deus, encontramos conforto e alegria.

Podemos verdadeiramente dizer:

“Assim como as nossas aflições transbordam, também as nossas consolações transbordam por meio de Cristo.”

Há quatro coisas em meu texto para as quais desejo chamar sua atenção.

A primeira são os sofrimentos que devemos esperar: “Os sofrimentos de Cristo transbordam em nós”.

A segunda é a distinção que deve ser observada: eles são os sofrimentos de Cristo.

A terceira é a proporção que devemos experimentar: assim como os sofrimentos de Cristo transbordam, também transbordam as nossas consolações.

E a quarta é a pessoa que deve ser honrada: “Assim também a nossa consolação transborda por meio de CRISTO”.


I. OS SOFRIMENTOS QUE DEVEMOS ESPERAR

Nosso santo apóstolo diz: “Os sofrimentos de Cristo transbordam em nós”.

Antes de vestirmos a armadura cristã, devemos saber qual é o serviço que se espera de nós. Um sargento de recrutamento muitas vezes coloca uma moeda na mão de algum jovem ignorante e lhe diz que o serviço de Sua Majestade é algo maravilhoso; que ele não terá nada a fazer senão desfilar com suas belas cores; que não haverá serviço difícil — na verdade, que não terá nada a fazer senão ser soldado e seguir diretamente para a glória.

Mas o servo cristão, quando recruta um soldado da cruz, jamais o engana dessa maneira. O próprio Jesus Cristo disse: “Calcule o custo.”

Ele não desejava ter discípulo algum que não estivesse preparado para ir até o fim — para “suportar as dificuldades como bom soldado”.

Às vezes tenho ouvido a religião ser descrita de tal maneira que seu excesso de cores e enfeites me desagrada. É verdade que “os seus caminhos são caminhos de delícias”, mas não é verdade que um cristão nunca tenha tristeza ou problemas.

É verdade que a alegria luminosa e o amor de passos leves podem atravessar o mundo sem muita depressão ou tribulação, mas não é verdade que o cristianismo protegerá o homem de problemas. Nem deveria ser apresentado dessa maneira.

Na verdade, deveríamos falar de outra forma.

Soldado de Cristo, se você se alistar, terá de travar uma dura batalha.

Não há leito macio esperando por você. Não haverá uma carruagem levando-o até o céu. O caminho áspero deverá ser percorrido; montanhas deverão ser escaladas; rios deverão ser atravessados; dragões deverão ser enfrentados; gigantes deverão ser mortos; dificuldades deverão ser vencidas e grandes provações deverão ser suportadas.

Não é uma estrada tranquila para o céu, creia em mim.

Aqueles que deram apenas alguns poucos passos nela descobriram que é uma estrada áspera. É uma estrada agradável, é a mais deliciosa de todo o mundo, mas não é fácil em si mesma.

Ela é agradável por causa da companhia, por causa das doces promessas nas quais nos apoiamos, por causa do nosso Amado, que caminha conosco através das cercas ásperas e espinhosas deste grande deserto.

Cristão, espere problemas.

“Não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo.”

Pois, tão certamente quanto você é filho de Deus, seu Salvador deixou-lhe esta herança:

“No mundo tereis aflições; mas em mim tereis paz.”

Se eu não tivesse problemas, não acreditaria ser membro da família de Deus. Se nunca tivesse uma provação, não me consideraria herdeiro do céu.

Os filhos de Deus não podem, não devem escapar da vara. Os pais terrenos podem mimar seus filhos, mas o Pai celestial jamais fará isso com os Seus.

“Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe.”

Seu povo deve sofrer. Portanto, espere isso, cristão.

Se você é filho de Deus, creia nisso, espere por isso e, quando vier, diga:

“Muito bem, sofrimento, eu já esperava por você. Você não é um estranho. Tenho esperado por você continuamente.”

Você não pode imaginar quanto isso aliviará suas provações se esperar por elas com resignação.

Na verdade, considere extraordinário se passar um dia tranquilamente. Se passar uma semana sem perseguição, considere isso algo notável. E se, por acaso, viver um mês sem soltar um suspiro do mais profundo do coração, considere isso um milagre dos milagres.

Mas quando o problema vier, diga:

“Ah! Era isso que eu esperava. Está marcado no mapa que conduz ao céu; a rocha está indicada. Passarei por ela com confiança. Meu Mestre não me enganou.”

“Por que deveria reclamar da necessidade ou da aflição,
Da tentação ou da dor?
Ele me disse que não seria menos que isso.”

Mas por que o cristão deve esperar problemas? Por que deve esperar que os sofrimentos de Cristo transbordem nele?

Fique aqui por um momento, meu irmão, e mostrarei quatro razões pelas quais você deve suportar a provação.

Primeiro, olhe para cima; depois, olhe para baixo; então, olhe ao seu redor; e finalmente, olhe para dentro de si.

Você verá quatro razões pelas quais os sofrimentos de Cristo devem transbordar em você.

Olhe para cima

Você vê seu Pai celestial, um Ser puro e santo, perfeitamente justo e perfeito?

Você sabe que um dia deverá ser como Ele?

Você imagina que será fácil chegar à conformidade com Sua imagem?

Não será necessário muito trabalho na fornalha, muito processo no moinho da aflição, muita quebra no pilão da tribulação, muito esmagamento sob as rodas da agonia?

Você imagina que será fácil para seu coração tornar-se tão puro quanto Deus?

Acha que pode livrar-se rapidamente de suas corrupções e tornar-se perfeito, assim como perfeito é o seu Pai celestial?

Levante novamente os olhos.

Você vê aqueles espíritos brilhantes vestidos de branco, mais puros que o alabastro, mais castos e belos que o mármore de Paros?

Contemple-os enquanto permanecem na glória. Pergunte-lhes de onde veio a vitória deles.

Alguns lhe dirão que atravessaram mares de sangue.

Veja as marcas de honra em suas testas.

Alguns levantam as mãos e dizem que foram consumidos pelo fogo. Outros foram mortos pela espada, despedaçados por feras, ficaram necessitados, aflitos e atormentados.

Ó nobre exército de mártires! Ó gloriosas hostes do Deus vivo!

Vocês tiveram de atravessar mares de sangue, e eu espero cavalgar para o céu envolto em peles e arminho?

Vocês suportaram sofrimento, e eu esperarei viver cercado pelos luxos deste mundo?

Vocês lutaram e depois reinaram; e eu devo reinar sem batalha?

Oh, não!

Com a ajuda de Deus, esperarei que, assim como vocês sofreram, eu também tenha de sofrer; e, assim como por meio de muita tribulação vocês entraram no reino dos céus, assim também eu entrarei.

Olhe para baixo

Agora, cristão, volte seus olhos para baixo.

Você sabe quais inimigos estão debaixo dos seus pés?

Há o inferno e seus leões contra você.

Você já foi servo de Satanás, e nenhum rei perde voluntariamente seus súditos. Você acha que Satanás está satisfeito com você?

Você mudou de reino.

Antes você era um servo leal de Apoliom, mas agora tornou-se um bom soldado de Jesus Cristo. Você acha que o diabo está satisfeito com isso?

Digo-lhe: não.

Se tivesse visto Satanás no momento em que você se converteu, teria contemplado uma cena extraordinária.

Assim que você entregou seu coração a Cristo, Satanás teria aberto suas asas semelhantes às de um morcego e descido voando ao inferno. Então teria convocado todos os seus conselheiros e dito:

“Filhos do abismo, verdadeiros herdeiros das trevas, vocês que antes estavam vestidos de luz, mas caíram comigo de suas altas posições: mais um dos meus servos me abandonou. Perdi mais um membro da minha família. Ele passou para o lado do Senhor dos Exércitos.

Ó meus companheiros, vocês que trabalham comigo pelos poderes das trevas, não deixem pedra sobre pedra para destruí-lo. Ordeno que lancem contra ele todas as suas flechas mais ferozes.

Aflijam-no. Que os cães do inferno ladrem contra ele. Que os demônios o cerquem. Não lhe deem descanso. Persigam-no até a morte.

Que os vapores do nosso lago corrupto e ardente subam continuamente às suas narinas. Persigam-no! Esse homem é um traidor. Não lhe deem paz.

Já que não posso tê-lo aqui para prendê-lo com correntes de adamante, já que não posso tê-lo aqui para atormentá-lo e afligi-lo, enquanto puderem, até o dia de sua morte, ordeno-lhes que uivem contra ele.

Até que atravesse o rio, aflijam-no, entristeçam-no, atormentem-no, pois o miserável voltou-se contra mim e tornou-se servo do Senhor.”

Talvez essa tenha sido a cena no inferno naquele mesmo dia em que você amou o Senhor.

E você acha que Satanás o ama mais agora?

Ah! Não.

Ele estará sempre contra você, pois seu inimigo,

“como leão que ruge, anda em derredor, procurando alguém para devorar.”

Espere, portanto, problemas, cristão, quando olhar para baixo.

Olhe ao seu redor

Então, homem de Deus, olhe ao seu redor.

Não durma. Abra os olhos e olhe ao seu redor.

Onde você está?

Aquele homem ao seu lado é um amigo?

Não.

Você está em território inimigo.

Este é um mundo perverso.

Suponho que metade das pessoas professe não ter religião, e aqueles que professam ser piedosos muitas vezes não o são.

“Maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço.”

Mas:

“Bendito o homem que confia no Senhor e cuja esperança é o Senhor.”

“Quanto aos homens de condição humilde, são vaidade.”

A voz da multidão não vale a pena possuir; e quanto aos “homens de elevada posição, são mentira”, o que é ainda pior.

O mundo não deve ser objeto de confiança nem de dependência.

O verdadeiro cristão o pisa debaixo dos pés, juntamente com “tudo aquilo que a terra chama de bom ou grandioso”.

Olhe ao seu redor, meu irmão.

Você verá alguns corações bons, fortes e valentes. Verá algumas almas verdadeiras, sinceras e honestas. Verá alguns amantes fiéis de Cristo.

Mas digo a você, ó filho da luz: onde encontrar um homem sincero, encontrará vinte hipócritas.

Onde encontrar um que o conduzirá ao céu, encontrará vinte que gostariam de empurrá-lo para o inferno.

Você está em uma terra de inimigos, não de amigos.

Nunca acredite que o mundo seja grande coisa.

Muitas pessoas queimaram os dedos ao agarrá-lo. Muitos foram feridos por colocar a mão em um ninho de cascavéis — o mundo — pensando que as cores brilhantes da serpente adormecida fossem garantia de segurança.

Ó cristão! O mundo não é seu amigo.

Se é seu amigo, então você não é amigo de Deus.

Pois aquele que é amigo do mundo é inimigo de Deus; e aquele que é desprezado pelos homens é frequentemente amado por JEOVÁ.

Você está em território inimigo; portanto, espere problemas.

Espere que aquele que “come o seu pão levante contra você o calcanhar”.

Espere ser afastado daqueles que ama.

Tenha certeza de que, estando na terra do inimigo, encontrará inimigos por toda parte.

Quando dormir, pense que está dormindo no campo de batalha.

Quando caminhar, creia que há uma emboscada em cada cerca.

Oh! Tenha cuidado, tenha cuidado.

Este não é um mundo no qual seja seguro fechar os olhos.

Olhe ao seu redor, homem, e quando estiver na torre de vigia, esteja certo de que os problemas virão.

Olhe para dentro

Mas então, olhe para dentro de si.

Há um pequeno mundo aqui dentro, que já é suficiente para nos dar problemas.

Um romano certa vez disse que gostaria de ter uma janela em seu coração, para que todos pudessem ver o que acontecia ali.

Fico muito feliz por não ter uma.

Se tivesse, fechá-la-ia tão cuidadosamente quanto Apsley House costumava ser fechada. Eu trataria de manter todas as venezianas fechadas.

A maioria de nós teria grande necessidade de venezianas se tivéssemos uma janela assim.

Entretanto, por um momento, espreite pela janela do seu coração e observe o que existe ali.

Há pecado — pecado original e corrupção.

E, além disso, o próprio “eu” ainda está dentro.

Ah! Se você não tivesse nenhum diabo para tentá-lo, você tentaria a si mesmo.

Se não houvesse inimigos para combatê-lo, você mesmo seria seu pior inimigo.

Se não houvesse mundo, você mesmo já seria suficientemente mau, pois:

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto.”

Olhe para dentro, crente.

Saiba que você carrega um câncer em suas próprias entranhas; que leva dentro de si uma bomba pronta para explodir ao menor contato com a faísca da tentação.

Saiba que há dentro do seu coração uma coisa má, uma víbora enrolada, pronta para picá-lo e levá-lo a problemas, dor e miséria indescritível.

Cuidado com seu coração, cristão.

E quando encontrar tristeza, problemas e preocupações, olhe para dentro e diga:

“Verdadeiramente, posso receber isso, considerando o coração mau e incrédulo que carrego comigo.”

Agora você vê, irmão cristão?

Não há esperança de escapar dos problemas.

O que faremos então?

Não há alternativa para nós.

Devemos suportar sofrimento e aflição.

Portanto, suportemo-los alegremente.

Alguns de nós somos oficiais nos regimentos de Deus, e somos o alvo de todos os atiradores inimigos. Permanecendo à frente, temos de suportar todos os tiros.

Que misericórdia é que nenhum dos oficiais de Deus jamais caia na batalha!

Deus sempre os guarda.

Quando as flechas voam rapidamente, o escudo da fé as detém todas.

E quando o inimigo está mais furioso, Deus está mais satisfeito.

Portanto, pouco nos importa que o mundo continue, que o diabo nos insulte ou que a carne se levante,

“porque somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.”

Portanto, toda honra seja dada somente a Deus.

Espere sofrimento — este é o nosso primeiro ponto.


II. UMA DISTINÇÃO QUE DEVE SER OBSERVADA

Nossos sofrimentos são chamados de os sofrimentos de Cristo.

Ora, o sofrimento em si mesmo não é evidência de cristianismo.

Há muitas pessoas que enfrentam provações e problemas e não são filhos de Deus.

Já ouvi algumas pessoas pobres e queixosas dizerem:

“Sei que sou filho de Deus porque estou endividado, porque sou pobre, porque estou em dificuldades.”

É mesmo?

Conheço muitos canalhas na mesma condição, e não acredito que você seja filho de Deus simplesmente porque se encontra em circunstâncias difíceis.

Há uma multidão de pessoas em problemas e aflições além dos filhos de Deus.

Essa não é uma condição peculiar da família de Deus.

Se eu não tivesse outra base para minha esperança como cristão além da experiência de provações, teria uma base extremamente pobre.

Mas há uma distinção a ser observada.

Esses sofrimentos são os sofrimentos de Cristo ou não?

Um homem é desonesto e, por isso, é colocado na prisão.

Um homem é covarde e, por isso, as pessoas o vaiam.

Um homem é insincero e, por isso, as pessoas o evitam.

Ainda assim, ele diz que é perseguido.

Perseguido?

De modo algum!

Isso é consequência de seus atos. Ele merece isso.

Mas pessoas assim consolam-se pensando que são “o querido povo de Deus” porque outras pessoas as evitam, quando, na verdade, elas simplesmente merecem isso.

Não vivem como deveriam; portanto, a punição do mundo é merecida.

Tenha cuidado, amado, para que seus sofrimentos sejam os sofrimentos de Cristo. Certifique-se de que não sejam seus próprios sofrimentos.

Pois, se forem, você não encontrará alívio.

É somente quando são os sofrimentos de Jesus que podemos encontrar conforto.

“Bem”, você diz, “o que significa dizer que nossos sofrimentos são os sofrimentos de Cristo?”

Você sabe que a palavra “Cristo”, na Bíblia, algumas vezes significa Cristo juntamente com toda a igreja, como em 1 Coríntios 12:12 e em várias outras passagens.

Você se lembrará de uma Escritura que diz:

“Completo na minha carne o que resta das aflições de Cristo, em favor do seu corpo, que é a igreja.”

Assim como Cristo, a Cabeça, tinha certa quantidade de sofrimento a suportar, também o corpo deve suportar determinado peso.

Nossas aflições são os sofrimentos do Cristo místico, os sofrimentos do corpo de Cristo, os sofrimentos da igreja de Cristo.

Pois você sabe que, se um homem pudesse ser tão alto a ponto de ter sua cabeça no céu e seus pés no fundo do mar, ainda seria o mesmo corpo, e a cabeça sentiria os sofrimentos dos pés.

Assim, embora minha Cabeça esteja no céu e eu esteja na terra, minhas dores são as dores de Cristo; minhas provações são as provações de Cristo; minhas aflições são sofridas por Ele.

“Sinto em Meu coração todos os teus suspiros e gemidos,
Pois estás bem perto de Mim, és Minha carne e Meus ossos;
Em todas as tuas aflições, tua Cabeça sente a dor,
Contudo, todas são necessárias; nenhuma é em vão.”

As provações de um verdadeiro cristão são tão verdadeiramente os sofrimentos de Cristo quanto foram as agonias do Calvário.

Ainda assim você diz:

“Queremos discernir se nossos problemas são as provações de Cristo.”

Bem, eles são as provações de Cristo se você sofre por causa de Cristo.

Se você é chamado a suportar dureza por causa da verdade, então esses são os sofrimentos de Cristo.

Se você sofre por sua própria causa, talvez seja punição pelos seus próprios pecados. Mas, se suporta algo por causa de Cristo, então são as provações de Cristo.

“Mas”, dizem alguns, “existe perseguição hoje? Há cristãos que precisam sofrer por causa de Cristo atualmente?”

Sofrer, senhores?

Sim!

Eu poderia contar uma história esta manhã, se quisesse, sobre intolerância insuportável e perseguição quase tão ruim quanto nos dias de Maria.

A única diferença é que nossos inimigos não têm o poder e a lei ao seu lado.

Eu poderia falar de alguns que, simplesmente pelo fato de escolherem vir e ouvir este jovem desprezado, este sujeito que fala de maneira exaltada, são tratados como a escória de todas as coisas.

Muitas são as pessoas que vêm até mim e precisam levar uma vida miserável e infeliz simplesmente porque ouviram de meus lábios a palavra da verdade.

Ainda assim, apesar de tudo o que é dito, elas continuarão ouvindo.

Tenho, sem dúvida, muitos diante de mim cujos olhos se encheriam de lágrimas se eu contasse sua história — alguns que me enviaram secretamente notícias sobre como precisam sofrer por causa de Cristo porque escolhem ouvir quem desejam.

Ora, não chegou o momento de os homens poderem escolher fazer aquilo que desejam?

Se eu não me importo em fazer exatamente o que outros ministros fazem, não tenho o direito de pregar como bem entender?

Se não tenho, eu o farei assim mesmo — é só isso.

E outras pessoas não têm o direito de me ouvir se quiserem, sem perguntar aos senhores e governadores dos nossos dias se o homem é realmente um clérigo ou não?

Liberdade! Liberdade!

Que as pessoas façam o que quiserem.

Mas liberdade — onde está?

Você diz que está na Grã-Bretanha.

Está, em certa medida, mas não completamente.

Entretanto, alegro-me porque há alguns que dizem:

“Bem, minha alma é beneficiada e, digam os homens o que quiserem, permanecerei firme e apegado à verdade e ao lugar onde ouço a Palavra para edificação de minha alma.”

Portanto, queridos, continuem, continuem!

E se sofrerem por causa de Cristo, esses são os sofrimentos de Cristo.

Se vieram aqui simplesmente porque obtiveram alguma vantagem com isso, então seus sofrimentos seriam seus próprios.

Mas, visto que não há nada a ganhar senão o benefício de suas próprias almas, continuem firmes.

E, seja o que for que disserem, sua perseguição apenas lhes conquistará uma coroa mais brilhante na glória.

Ah! Cristão, isso nos enobrece.

Meus irmãos, isso nos torna orgulhosos e felizes ao pensar que nossas provações são as provações de Jesus.

Oh! Penso que deve ter sido uma honra para o velho soldado que permaneceu ao lado do Duque de Ferro em suas batalhas poder dizer:

“Nós lutamos sob o comando do bom e velho duque, que venceu tantas batalhas; e, quando ele vence, parte da honra será nossa.”

Cristão, você luta lado a lado com Jesus.

Cristo está com você.

Cada golpe é um golpe contra Cristo.

Cada calúnia é uma calúnia contra Cristo.

A batalha é do Senhor.

O triunfo é do Senhor.

Portanto, prossiga até a vitória!

Lembro-me da história de um grande comandante que, depois de conquistar muitas vitórias gloriosas, conduziu suas tropas para um vale e, ali, um grande exército inimigo o cercou completamente.

Ele sabia que uma batalha seria inevitável na manhã seguinte.

Por isso, passou por todas as tendas para saber em que condição estavam as mentes de seus soldados — se estavam desanimados ou não.

Chegou a uma tenda e, ao ouvir, escutou um homem dizer:

“Ali está nosso general. Ele é muito corajoso, mas desta vez foi muito imprudente. Ele nos trouxe para um lugar onde certamente seremos derrotados. Há tantos soldados de cavalaria do inimigo, tantos soldados de infantaria...”

Então o homem contou todas as tropas de seu próprio lado e reduziu-as a um número pequeno.

Depois de ouvir a conversa, o comandante afastou gentilmente uma parte da tenda e disse:

“Quantos vocês me consideram?

Você contou a infantaria e a cavalaria, mas quantos me considera — a mim, seu poderoso capitão, que conquistou tantas vitórias?”

Agora, cristão, eu lhe pergunto:

Quanto você considera Cristo?

Quanto você coloca na conta dEle?

Você o colocou como um?

Ele não é um, nem mil.

Ele é:

“o primeiro entre dez mil.”

Mas Ele é mais do que isso.

Oh! Coloque Cristo em uma cifra elevada e, quando contar seus auxílios e recursos, coloque Cristo como tudo em todos, pois nEle a vitória é certa — o triunfo está garantido.


III. UMA PROPORÇÃO QUE DEVEMOS EXPERIMENTAR

“Assim como os sofrimentos de Cristo transbordam em nós, também a consolação de Cristo transborda.”

Aqui há uma proporção bendita.

Deus sempre mantém uma balança.

De um lado, coloca as provações de Seu povo; do outro, coloca suas consolações.

Quando a balança das provações está quase vazia, você sempre encontrará a balança da consolação em condição semelhante.

E quando a balança das provações está cheia, encontrará a balança da consolação igualmente pesada.

Pois:

“Assim como os sofrimentos de Cristo transbordam em nós, assim também a consolação transborda por meio de Cristo.”

Isso é uma questão de pura experiência.

Alguns de vocês não sabem absolutamente nada sobre isso.

Vocês não são cristãos, não nasceram de novo, não foram convertidos, não foram regenerados e, portanto, nunca experimentaram essa maravilhosa proporção entre os sofrimentos e as consolações de um filho de Deus.

Oh! É misterioso que, quando as nuvens negras se acumulam mais intensamente, a luz dentro de nós seja sempre mais brilhante.

Quando a noite escurece e a tempestade se aproxima, o Capitão celestial está sempre mais próximo de Sua tripulação.

É uma coisa bendita que, quando estamos mais abatidos, é justamente então que somos mais elevados pelas consolações de Cristo.

Deixe-me mostrar como isso acontece.

As provações abrem espaço para a consolação

A primeira razão é que as provações abrem mais espaço para a consolação.

Nada torna o coração de um homem tão grande quanto uma grande provação.

Sempre descubro que pessoas pequenas e miseráveis, cujos corações têm aproximadamente o tamanho de um grão de mostarda, nunca tiveram muito que as provasse.

Tenho descoberto que aquelas pessoas que não têm nenhuma simpatia por seus semelhantes — que nunca choram pelas tristezas dos outros — muito raramente passaram por grandes sofrimentos próprios.

Grandes corações só podem ser formados por grandes problemas.

A pá da aflição cava mais profundamente o reservatório do conforto e cria mais espaço para a consolação.

Deus entra em nosso coração e o encontra cheio.

Então começa a quebrar nossos confortos e a esvaziá-lo.

Assim, há mais espaço para a graça.

Quanto mais humildemente um homem se coloca, mais conforto sempre terá.

Lembro-me de caminhar certo dia com um lavrador — um homem profundamente instruído, embora fosse lavrador; e, na verdade, os lavradores dariam pregadores muito melhores do que muitos cavalheiros formados em faculdades.

Ele me disse:

“Pode confiar nisso, meu bom irmão: se você ou eu algum dia ficarmos um centímetro acima do chão, estaremos exatamente um centímetro altos demais.”

Creio que isso é verdade.

Pois quanto mais baixo permanecemos, mais próximos do chão estamos; quanto mais nossos problemas nos humilham, mais aptos estamos a receber conforto.

E Deus sempre nos dá conforto quando estamos mais preparados para recebê-lo.

Essa é uma das razões pelas quais as consolações aumentam na mesma proporção que nossas provações.

As provações exercitam nossas graças

Além disso, os problemas exercitam nossas graças, e o próprio exercício de nossas graças tende a nos tornar mais confortáveis e felizes.

Onde caem mais chuvas, ali a grama é mais verde.

Suponho que as névoas e os nevoeiros da Irlanda façam dela a “Ilha Esmeralda”.

E onde quer que você encontre grandes nevoeiros de problemas e brumas de tristeza, sempre encontrará corações verde-esmeralda — cheios da bela vegetação do conforto e do amor de Deus.

Ó cristão, não diga:

“Para onde foram as andorinhas? Foram embora, estão mortas.”

Elas não estão mortas.

Elas atravessaram o mar púrpura e foram para uma terra distante, mas voltarão novamente.

Filho de Deus, não diga que as flores estão mortas.

Não diga que o inverno as matou e elas desapareceram.

Ah! Não.

Embora o inverno as tenha coberto com o arminho de sua neve, elas tornarão a levantar suas cabeças e estarão vivas novamente muito em breve.

Não diga, filho de Deus, que o sol se apagou porque a nuvem o escondeu.

Ah! Não.

Ele está atrás dela, preparando o verão para você.

Quando voltar a aparecer, terá preparado as nuvens para derramarem as chuvas de abril, todas elas mães das doces flores de maio.

E, acima de tudo, quando seu Deus esconder o rosto, não diga que Ele se esqueceu de você.

Ele está apenas demorando um pouco para fazer você amá-lo mais.

E quando Ele vier, você terá alegria no Senhor e se regozijará com alegria indescritível.

Esperar exercita nossa graça.

Esperar prova nossa fé.

Portanto, espere com esperança.

Pois, embora a promessa demore, ela jamais chegará tarde demais.

As provações nos aproximam de Deus

Outra razão pela qual muitas vezes somos mais felizes em nossas dificuldades é esta:

é então que temos a comunhão mais íntima com Deus.

Falo por conhecimento do coração e por verdadeira experiência.

Nunca temos uma comunhão tão próxima com Deus quanto quando estamos em tribulação.

Quando o celeiro está cheio, o homem pode viver sem Deus.

Quando a bolsa está transbordando de ouro, de alguma maneira conseguimos viver com muito menos oração.

Mas, uma vez que nossas aboboreiras são tiradas, precisamos de nosso Deus.

Uma vez que os ídolos são removidos da casa, devemos ir honrar JEOVÁ.

Alguns de vocês não oram nem metade do quanto deveriam.

Se são filhos de Deus, terão a vara; e, quando receberem essa vara, correrão para o Pai.

É um belo dia e a criança caminha à frente de seu pai.

Mas há um leão no caminho.

Agora ela vem e segura a mão do pai.

Poderia correr meio quilômetro à frente dele quando tudo estava bem e bonito; mas, quando aparece o leão, é:

“Pai! Pai!”

e ela permanece tão perto quanto pode.

É exatamente assim com o cristão.

Deixe tudo correr bem e ele se esquece de Deus.

Jezurum engorda e começa a rebelar-se contra Deus.

Mas tire suas esperanças, destrua suas alegrias, deixe o bebê repousar no caixão, deixe as plantações serem destruídas, deixe o rebanho desaparecer do curral, deixe o largo ombro do marido estar na sepultura, deixe os filhos órfãos de pai — então Deus se torna verdadeiramente Deus.

Oh! Despoje-me completamente.

Tire de mim tudo o que tenho.

Faça-me pobre, mendigo, sem dinheiro, indefeso.

Quebre essa cisterna, esmague essa esperança, apague as estrelas, esconda o sol, cubra a lua de escuridão e coloque-me sozinho no espaço, sem amigo, sem ajudador.

Ainda assim:

“Das profundezas clamo a ti, Senhor.”

Não há clamor tão bom quanto aquele que vem do fundo das montanhas.

Não há oração tão sincera quanto aquela que sobe das profundezas da alma através de grandes provações e aflições.

Assim, elas nos levam a Deus e somos mais felizes, pois esse é o caminho para a felicidade: viver perto de Deus.

Portanto, enquanto os problemas abundam, eles nos levam a Deus, e então as consolações abundam.

Algumas pessoas chamam os problemas de pesos.

E, de fato, são.

Um navio que possui grandes velas e um vento favorável precisa de lastro.

As aflições são o lastro do crente.

Os olhos são as bombas que retiram a água suja da alma e impedem que ela afunde.

Mas, se as provações são pesos, contarei a vocês um segredo feliz.

É possível fazer um peso nos levantar.

Se tenho um peso preso a mim por uma corrente, ele me mantém no chão.

Mas deem-me roldanas e determinados instrumentos, e posso fazer esse peso me levantar.

Sim, é possível fazer com que as dificuldades nos elevem em direção ao céu.

Certa vez um homem perguntou a um amigo sobre um belo cavalo que possuía, pastando no campo com um peso preso a uma das patas:

“Por que você coloca esse peso em um animal tão nobre?”

“Senhor”, respondeu ele, “prefiro muito mais prendê-lo do que perdê-lo, pois ele tem o hábito de saltar cercas.”

É por isso que Deus prende Seu povo.

Ele prefere prendê-los a perdê-los.

Pois, se não os prendesse, eles saltariam as cercas e iriam embora.

Eles precisam de uma corda para impedir que se desviem, e seu Deus os prende com aflições para mantê-los perto dEle, preservá-los e tê-los em Sua presença.

Bendito fato: à medida que nossos problemas abundam, nossas consolações também abundam.


IV. UMA PESSOA A SER HONRADA

Agora chegamos ao nosso último ponto. Que o Espírito Santo mais uma vez me fortaleça para dizer uma ou duas palavras a vocês.

Há uma pessoa que deve ser honrada.

É fato que os cristãos podem alegrar-se em meio a profunda aflição.

É verdade que, se forem colocados na prisão, ainda cantarão.

Como muitos pássaros, cantam melhor em suas gaiolas.

É verdade que, quando as ondas passam sobre eles, sua alma jamais afunda.

É verdade que possuem uma flutuabilidade espiritual que mantém suas cabeças acima da água e os ajuda a cantar na noite mais escura:

“Deus ainda está comigo.”

Mas a quem devemos dar a honra?

A quem deve ser dada a glória?

Oh! A Jesus, a Jesus.

Pois o texto diz que tudo isso acontece por meio de Jesus.

Não é simplesmente porque sou cristão que tenho alegria em meus problemas — não necessariamente.

Nem sempre acontece que as dificuldades tragam consigo suas consolações.

É Cristo quem vem até mim.

Estou doente em meu quarto.

Cristo sobe as escadas, senta-se ao lado da minha cama e fala comigo palavras doces.

Estou morrendo.

As águas frias do Jordão tocaram meus pés.

Sinto meu sangue estagnar e congelar.

Preciso morrer.

Cristo coloca Seus braços ao meu redor e diz:

“Não temas, amado. Morrer é ser abençoado. As águas da morte têm sua nascente no céu. Elas não são amargas; são doces como o néctar, pois fluem do trono de Deus.”

Entro no rio.

As ondas se levantam ao meu redor.

Sinto que meu coração e minha carne desfalecem.

Mas a mesma voz está em meus ouvidos:

“Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus.”

Agora chego às fronteiras do desconhecido infinito, daquele país “de cujo rio nenhum viajante retorna”.

Fico quase assustado ao entrar no reino das sombras.

Mas uma voz suave diz:

“Eu estarei contigo por onde quer que fores; ainda que faças a tua cama no Hades, eu estarei contigo.”

E continuo avançando, contente em morrer, porque Jesus me anima.

Ele é minha consolação e minha esperança.

Ah! Vocês que não conhecem esse nome incomparável, Jesus, perderam a nota mais doce que pode produzir melodia.

Ah! Vocês que jamais foram arrebatados pelo precioso soneto contido nessa única palavra, Jesus, vocês não conhecem a alegria e o conforto de suas vidas.

Vocês precisam viver miseráveis e infelizes.

Mas o cristão pode alegrar-se, pois Cristo jamais o abandonará, jamais o deixará, mas estará com ele.


UMA PALAVRA PARA CADA TIPO DE PESSOA

Primeiro, tenho uma palavra para vocês que estão esperando problemas e estão muito tristes porque estão olhando para eles antecipadamente.

Sigam o conselho do povo simples:

“Nunca atravesse uma ponte antes de chegar a ela.”

Sigam meu conselho:

Nunca tragam seus problemas para mais perto do que eles realmente estão, pois eles certamente virão sobre vocês cedo o bastante.

Sei que muitas pessoas se afligem por causa de suas provações antes que elas cheguem.

Qual é a utilidade disso?

Se você puder me mostrar algum benefício nisso, direi: continue.

Mas, para mim, parece suficiente que o pai coloque a vara sobre o filho, sem que o próprio filho se castigue.

Por que você faria isso?

Você que tem medo dos problemas, por que deveria ter medo?

Talvez a provação jamais o alcance.

E, se vier, a força virá com ela.

Portanto, levante-se, homem!

Por que está sentado gemendo por causa de pressentimentos?

“A religião nunca foi destinada
A tornar menores os nossos prazeres.”

Fora com isso!

Levante-se!

Por que você se sentará e morrerá congelado?

Quando o problema vier, enfrente-o com coração de homem e força.

Mergulhe no rio como está, preparado como está, e nade através dele.

Mas, oh!

Não tenha medo antes que ele chegue.


Cristão em meio à aflição

Agora, cristão que está passando por problemas, tenho uma palavra para você.

Então, meu irmão, você está em dificuldades?

Entrou nas ondas da aflição?

Não é algo estranho, irmão?

Você já esteve ali muitas vezes.

“Ah”, você diz, “mas esta é a pior provação que já enfrentei.

Vim aqui esta manhã com uma pedra de moinho pendurada no pescoço.

Tenho uma mina de chumbo em meu coração.

Estou miserável, infeliz e extremamente abatido.”

Bem, irmão, assim como suas aflições abundam, também abundará sua consolação.

Irmão, você pendurou sua harpa nos salgueiros?

Fico feliz que não tenha quebrado completamente a harpa.

É melhor pendurá-la nos salgueiros do que quebrá-la.

Tenha certeza de que não a quebrará.

Em vez de ficar angustiado por causa de sua dificuldade, alegre-se nela.

Assim você honrará a Deus.

Você glorificará Cristo.

Você levará pecadores a Jesus se cantar nas profundezas da aflição.

Pois então eles dirão:

“Deve haver alguma coisa na religião, afinal; do contrário, esse homem não seria tão feliz.”


Para aqueles que estão quase desesperados

Agora uma palavra para vocês que estão quase sendo levados ao desespero.

Eu estenderia minhas mãos se pudesse esta manhã — pois creio que um pregador deveria ser como Briareu, com mil mãos para alcançar seus ouvintes, um por um, e falar com eles.

Há um homem aqui completamente desesperado — quase toda esperança desapareceu.

Irmão, quer que eu lhe diga o que fazer?

Você caiu do convés principal.

Está no mar.

As águas o cercam.

Parece não haver esperança.

Você tenta agarrar-se a palhas.

O que deve fazer agora?

Fazer?

Deite-se sobre o mar da aflição e flutue sobre ele.

Fique quieto e saiba que Deus é Deus, e você jamais perecerá.

Todo o seu esforço e toda a sua luta apenas o farão afundar ainda mais.

Mas permaneça quieto, pois veja: o barco salva-vidas está chegando.

Cristo está vindo para ajudá-lo.

Em breve Ele o livrará e o tirará de todas as suas perplexidades.


UMA ÚLTIMA PALAVRA

Finalmente, alguns de vocês não têm nenhum interesse neste sermão.

Nunca tento enganar meus ouvintes fazendo-os acreditar que tudo o que digo pertence a todos os que me ouvem.

Há diferentes tipos de pessoas na Palavra de Deus.

É responsabilidade de vocês examinar seus próprios corações hoje e verificar se são ou não o povo de Deus.

Assim como vive o Senhor, diante de quem estou, há duas classes aqui.

Não reconheço a distinção entre aristocratas e democratas.

Aos meus olhos e aos olhos de Deus, todo homem é igual.

Somos feitos da mesma carne e do mesmo sangue.

Não temos cavalheiros de porcelana e pobres de barro.

Todos fomos feitos do mesmo molde.

Há uma única distinção — e somente uma.

Vocês são filhos de Deus ou filhos do diabo.

Todos vocês nasceram de novo ou estão mortos em delitos e pecados.

Cabe a vocês deixar esta pergunta ressoar em seus ouvidos:

“Onde estou? Aquele tirano negro, com sua espada de fogo, é o meu rei? Ou reconheço JEOVÁ-JESUS como minha força, meu escudo e meu Salvador?”

Não os forçarei a respondê-la.

Não direi nada sobre isso.

Apenas respondam vocês mesmos.

Deixem seus corações falar.

Deixem suas almas falar.

Tudo o que posso fazer é propor a pergunta.

Que Deus a aplique às suas almas!

Suplico-Lhe que a faça chegar ao coração e que faça a flecha permanecer firmemente cravada!

**“É Jesus meu? Estou agora preparado
Para enfrentar o que julgava mais difícil?
Sim, que soprem os ventos da tribulação,
E que os confortos se derretam como a neve.

Nem árvores destruídas, nem colheitas fracassadas
Podem impedir minhas esperanças eternas;
Embora as criaturas mudem, o Senhor permanece o mesmo.
Então, que eu triunfe em Seu nome.”**


Fonte e observação editorial

Extraído de The Metropolitan Tabernacle Pulpit — C. H. Spurgeon Collection.

Nesta edição, foram feitas apenas as alterações necessárias, como correções ortográficas, alguns ajustes de pontuação, capitalização dos pronomes referentes à divindade e pequenas atualizações de algumas palavras arcaicas.

O conteúdo do sermão permanece integral, sem abreviações ou cortes.