Total de visualizações de página

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

SOBERANIA E SALVAÇÃO

Nº 60

Sermão proferido na manhã de domingo, 6 de janeiro de 1856
Pelo Rev. C. H. Spurgeon
Na Capela de New Park Street, Southwark

“Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.”
Isaías 45:22

Há seis anos, neste mesmo dia, aproximadamente nesta mesma hora, eu estava “no fel da amargura e no laço da iniquidade”, mas, pela graça divina, já havia sido levado a sentir a amargura dessa escravidão e a clamar por causa da dureza dela. Buscando descanso e não encontrando nenhum, entrei na casa de Deus e sentei-me ali, com medo de olhar para cima, para que não fosse completamente cortado e para que a fúria de Sua ira não me consumisse.

O ministro subiu ao púlpito e, como eu fiz esta manhã, leu este texto: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.” Eu olhei naquele instante. A graça da fé me foi concedida no mesmo momento e agora penso que posso dizer com verdade:

“Desde que pela fé vi o rio
Que das Suas feridas flui,
O amor redentor tem sido meu tema
E o será até que eu morra.”

Nunca esquecerei aquele dia, enquanto a memória me restar, nem posso deixar de repetir este texto sempre que me lembro daquela hora em que pela primeira vez conheci o Senhor. Quão estranhamente gracioso! Quão maravilhosa e admiravelmente bondoso, que aquele que ouviu estas palavras há tão pouco tempo para o proveito de sua própria alma, agora se dirija a vocês esta manhã como seus ouvintes a partir do mesmo texto, na plena e confiante esperança de que algum pobre pecador dentro destas paredes possa ouvir as boas-novas da salvação para si mesmo também e possa hoje, neste sexto de janeiro, ser “convertido das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus”.

Se estivesse ao alcance da capacidade humana conceber um tempo em que Deus habitava sozinho, sem Suas criaturas, teríamos então uma das ideias mais grandiosas e estupendas de Deus. Houve uma época em que o sol ainda não havia corrido sua carreira, nem começado a lançar seus raios dourados através do espaço para alegrar a terra.

Houve uma era em que nenhuma estrela cintilava no firmamento, pois não havia um mar de azul no qual pudessem flutuar. Houve um tempo em que tudo o que agora contemplamos do grande universo de Deus ainda estava por nascer, adormecido na mente de Deus, ainda não criado e inexistente. No entanto, havia Deus, e Ele era “sobre todos, bendito eternamente”.

Embora nenhum serafim cantasse Seus louvores, embora nenhum querubim de asas poderosas voasse como relâmpago para cumprir Seus altos mandados, embora Ele estivesse sem sequito, Ele se assentava como rei em Seu trono, o Deus poderoso, para sempre adorado — o Supremo Temível, habitando em solene silêncio por Si mesmo na vasta imensidão, fazendo das nuvens plácidas Seu dossel, e a luz de Seu próprio rosto formando o resplendor de Sua glória. Deus era e Deus é. Desde o princípio Deus era Deus; antes que os mundos tivessem começo, Ele era “de eternidade a eternidade”.

Agora, quando Lhe aprouve criar Suas criaturas, não lhes parece quão infinitamente aquelas criaturas devem ter estado abaixo dEle? Se vocês são oleiros e moldam no torno um vaso, esse pedaço de barro arrogaria a si mesmo igualdade com vocês? Não; a que distância estará de vocês, porque vocês foram em parte seus criadores.

Assim, quando o Todo-Poderoso formou Suas criaturas, não foi consumada impudência que elas ousassem por um momento comparar-se com Ele? No entanto, aquele arqui-traidor, aquele líder dos rebeldes, Satanás, buscou subir ao alto trono de Deus, logo para descobrir que seu objetivo era demasiado alto, e o próprio inferno não era baixo o suficiente para escapar da vingança divina. Ele sabe que Deus é “Deus somente”.

Desde que o mundo foi criado, o homem tem imitado Satanás. A criatura de um dia, a efêmera de uma hora, tem buscado igualar-se ao Eterno. Por isso, tem sido sempre um dos objetivos do grande JEOVÁ ensinar à humanidade que Ele é Deus, e fora dEle não há nenhum outro. Esta é a lição que Ele tem ensinado ao mundo desde que este se afastou dEle; Ele tem se ocupado em derrubar os altos lugares, em exaltar os vales, em abater imaginações e olhares altivos, para que todo o mundo possa —

“Saber que o Senhor é Deus somente;
Ele pode criar e Ele pode destruir.”

Esta manhã tentaremos mostrar-lhes, em primeiro lugar, como Deus tem ensinado esta grande lição ao mundo — que Ele é Deus, e fora dEle não há nenhum outro. E depois, em segundo lugar, a maneira especial pela qual Ele pretende ensiná-la no assunto da salvação: “Olhai para mim e sede salvos; porque eu sou Deus, e não há outro.”

I. Em primeiro lugar, COMO DEUS TEM ENSINADO ESTA LIÇÃO À HUMANIDADE?

Respondemos que Ele a tem ensinado, antes de tudo, aos deuses falsos e aos idólatras que se prostraram diante deles. O homem, em sua maldade e pecado, erigiu um bloco de madeira e pedra para ser seu criador e se inclinou diante dele. Ele moldou para si mesmo de uma árvore formosa uma imagem feita à semelhança do homem mortal, ou dos peixes do mar, ou das coisas que se arrastam sobre a terra, e prostraram seu corpo e sua alma também diante dessa criatura de suas próprias mãos, chamando-a de Deus, enquanto ela não tinha olhos para ver, nem mãos para apalpar, nem ouvidos para ouvir!

Mas como Deus tem derramado desprezo sobre os deuses antigos dos pagãos. Onde estão eles agora? São sequer conhecidos? Onde estão aquelas falsas divindades diante das quais as multidões de Nínive se prostravam? Perguntem aos morcegos e às corujas de quem são companheiros, ou perguntem aos montes sob os quais estão enterrados, ou vão aonde o curioso ocioso passeia pelo museu; vejam-nos ali como curiosidades e sorriam ao pensar que os homens alguma vez se inclinaram diante de tais deuses.

E onde estão os deuses da Pérsia? Onde estão? Os fogos se apagaram e o adorador do fogo quase cessou na terra. Onde estão os deuses da Grécia — aqueles deuses adornados de poesia e cantados nos odes mais sublimes? Onde estão? Eles se foram. Quem fala deles agora, senão como coisas de outrora?

Júpiter — alguém ainda se inclina diante dele? E quem é que adora Saturno? Eles passaram e foram esquecidos. E onde estão os deuses de Roma? Jano ainda comanda o templo? Ou as virgens vestais ainda alimentam seus fogos perpétuos? Há alguém agora que se incline diante desses deuses? Não, eles perderam seus tronos.

E onde estão os deuses das ilhas do Mar do Sul — aqueles demônios sangrentos diante dos quais criaturas miseráveis prostravam seus corpos? Eles quase se extinguíram. Perguntem aos habitantes da China e da Polinésia onde estão os deuses diante dos quais se inclinavam. Perguntem, e o eco responde: perguntem, e perguntem de novo. Eles foram derrubados de seus tronos, lançados de seus pedestais, seus carros foram quebrados, seus cetros queimados no fogo, suas glórias se foram.

Deus obteve para Si mesmo a vitória sobre os deuses falsos e ensinou a seus adoradores que Ele é Deus, e que fora dEle não há nenhum outro. Ainda há deuses adorados ou ídolos diante dos quais as nações se curvam? Esperem só um pouco e os verão cair. O cruel Juggernaut, cujo carro ainda esmaga em seu movimento os tolos que se lançam diante dele, ainda será objeto de zombaria, e os ídolos mais notáveis, como Buda, Brama e Vixnu, ainda se curvarão até a terra, e os homens os pisarão como lama nas ruas. Porque Deus ensinará a todos os homens que Ele é Deus e que não há nenhum outro.

Notem, mais uma vez, como Deus tem ensinado esta verdade aos impérios. Impérios se levantaram e se tornaram os deuses da época. Seus reis e príncipes tomaram para si títulos elevados e foram adorados pela multidão. Mas perguntem aos impérios se há algum além de Deus. Não pensam que ouvem o solilóquio jactancioso de Babilônia: “Eu me assento como rainha e não sou viúva; não verei tristeza; sou deus, e não há outro além de mim”?

E não pensam agora, se caminharem sobre a arruinada Babilônia, que encontrarão algo além do espírito solene da Bíblia, em pé como um profeta grisalho de idade, dizendo-lhes que há um Deus e que fora dEle não há nenhum outro? Vão a Babilônia, coberta com a areia — a areia de suas próprias ruínas. Fiquem sobre os montes de Nínive e deixem que a voz se levante: “Há um Deus, e os impérios afundam diante dEle; há somente um potentado, e os príncipes e reis da terra com suas dinastias e tronos são abalados pelo pisar de Seu pé.”

Sente-se no templo da Grécia; notem ali que palavras orgulhosas Alexandre uma vez falou. Mas agora onde está ele e onde está seu império também? Sente-se nos arcos arruinados da ponte de Cartago, ou caminhem pelos teatros desolados de Roma, e ouvirão uma voz no vento selvagem em meio àquelas ruínas: “Eu sou Deus, e não há nenhum outro.”

“Ó cidade, tu te chamaste eterna; Eu te fiz derreter como o orvalho. Tu disseste: ‘Assento-me sobre sete colinas e durarei para sempre’. Eu te fiz desmoronar, e agora és um lugar miserável e desprezível, comparado com o que eras. Antes eras de pedra, te fizeste de mármore; Eu te fiz de pedra novamente e te abati.” Oh! como Deus tem ensinado às monarquias e aos impérios que se ergueram como novos reinos do céu que Ele é Deus, e que não há nenhum outro!

Mais uma vez, como Ele tem ensinado esta grande verdade aos monarcas! Há alguns que foram os mais orgulhosos e tiveram de aprendê-la de uma maneira mais dura que outros. Tomem, por exemplo, Nabucodonosor. Sua coroa está em sua cabeça, sua roupa de púrpura sobre seus ombros. Ele caminha pela orgulhosa Babilônia e diz: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei?”

Vocês veem aquela criatura no campo ali? É um homem. “Um homem?”, dizem vocês; seu cabelo cresceu como penas de águia, e suas unhas como garras de ave. Anda de quatro e come erva como o boi. Foi expulso dentre os homens. Aquele é o monarca que disse: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei?” E agora ele é restaurado ao palácio de Babilônia, para que possa “bendizer o Altíssimo, que é capaz de abater os que andam em soberba”.

Lembrem-se de outro monarca. Olhem para Herodes. Ele se assenta no meio de seu povo e fala. Ouviram o grito ímpio? “É a voz de Deus”, clamam, “e não a voz de homem.” O monarca orgulhoso não dá a Deus a glória. Ele afeta ser deus e parece abalar as esferas, imaginando-se divino. Há um verme que se arrasta para dentro de seu corpo, e ainda outro, e outro, e antes que aquele sol se ponha, ele é comido de vermes. Ah! monarca! pensaste ser um deus, e os vermes te comeram! Pensaste ser mais que homem, e o que és? Menos que homem, pois os vermes te consomem, e és presa da corrupção. Assim Deus humilha os soberbos, assim abate os poderosos.

Poderíamos dar-lhes exemplos da história moderna, mas a morte de um rei é suficiente para ensinar esta única lição, se os homens quisessem aprendê-la. Quando os reis morrem e em pompa fúnebre são levados à sepultura, somos ensinados a lição: “Eu sou Deus, e fora de mim não há nenhum outro.”

Quando ouvimos de revoluções e do abalo de impérios — quando vemos velhas dinastias tremerem e monarcas de cabelos grisalhos expulsos de seus tronos, então é que JEOVÁ parece pôr Seu pé sobre a terra e o mar e, com as mãos erguidas, clama: “Ouvi! habitantes da terra! Vocês não passam de gafanhotos. ‘Eu sou Deus, e fora de mim não há nenhum outro.’”

Mais uma vez, nosso Deus tem tido muito a fazer para ensinar esta lição aos sábios deste mundo, pois assim como a posição, a pompa e o poder se ergueram no lugar de Deus, assim também a sabedoria. E um dos maiores inimigos da Deidade tem sido sempre a sabedoria do homem. A sabedoria do homem não quer ver Deus. Professando-se sábios, os sábios se tornaram loucos.

Mas não notaram, ao ler a história, como Deus tem abatido o orgulho da sabedoria? Em eras passadas, Ele enviou mentes poderosas ao mundo, que elaboraram sistemas de filosofia. “Estes sistemas”, disseram eles, “durarão para sempre.” Seus discípulos os consideravam infalíveis e, por isso, escreveram seus ditos em pergaminho duradouro, dizendo: “Este livro durará para sempre; as gerações sucessivas de homens o lerão, e até o último homem este livro será transmitido como o epítome da sabedoria.” “Ah! mas”, disse Deus, “esse livro de vocês será visto como loucura antes que outro século tenha passado.”

E assim os pensamentos poderosos de Sócrates e a sabedoria de Sólon estão completamente esquecidos agora, e se pudéssemos ouvi-los falar, a mais tenra criança de nossa escola riria ao pensar que entende mais de filosofia do que eles. Mas quando o homem descobriu a vaidade de um sistema, seus olhos brilharam diante de outro.

Se Aristóteles não bastar, aqui está Bacon. Agora saberei tudo, e ele se põe a trabalhar e diz que esta nova filosofia há de durar para sempre. Ele assenta suas pedras com belas cores e pensa que cada verdade que empilha é uma verdade preciosa e imperecível. Mas, ai! vem outro século, e se descobre que é “madeira, feno e palha”. Surge uma nova seita de filósofos, que refuta seus predecessores.

Assim também temos sábios em nossos dias — sábios secularistas e semelhantes, que imaginam ter obtido a verdade; mas dentro de outros cinquenta anos — e notem esta palavra — estes cabelos não se pratearão de grisalho antes que o último daquela raça tenha perecido, e será considerado tolo aquele que alguma vez esteve ligado a tal raça.

Sistemas de incredulidade passam como uma gota de orvalho diante do sol, porque Deus diz: “Eu sou Deus, e fora de mim não há nenhum outro.” Esta Bíblia é a pedra que despedaçará a filosofia. Este é o poderoso aríete que despedaçará todos os sistemas de filosofia. Esta é a pedra que uma mulher ainda pode lançar sobre a cabeça de todo Abimeleque, e ele será completamente destruído. Ó Igreja de Deus! não temas; farás maravilhas. Os sábios serão confundidos, e tu saberás, e eles também, que Ele é Deus, e que fora dEle não há nenhum outro.

“Certamente”, diz alguém, “a igreja de Deus não precisa ser ensinada nisto.” Sim, respondemos, precisa. Porque de todos os seres, aqueles a quem Deus fez objetos de Sua graça são talvez os mais propensos a esquecer esta verdade cardinal: que Ele é Deus, e que fora dEle não há nenhum outro. Como a igreja em Canaã a esqueceu, quando se inclinou diante de outros deuses, e por isso Ele trouxe contra ela reis e príncipes poderosos e a afligiu severamente. Como Israel a esqueceu! e Ele os levou cativos para Babilônia. E o que Israel fez em Canaã e em Babilônia, isso fazemos agora.

Nós também, com demasiada frequência, esquecemos que Ele é Deus, e fora dEle não há nenhum outro. O cristão não sabe o que quero dizer quando lhe conto este grande fato? Porque não o fez ele mesmo? Em certas ocasiões a prosperidade veio sobre ele, ventos suaves sopraram seu barco exatamente para onde sua vontade selvagem desejava ir. E ele disse consigo mesmo: “Agora tenho paz, agora tenho felicidade, agora o objeto que desejava está ao meu alcance, agora direi: ‘Assenta-te, minha alma, e descansa. Come, bebe e alegra-te. Estas coisas te contentarão bem; faze delas teu deus; sê abençoado e feliz.’”

Mas não vimos nosso Deus quebrar o cálice na terra, derramar o vinho doce e, em seu lugar, enchê-lo de fel? E ao no-lo dar, disse: “Bebe, bebe. Pensaste encontrar um deus na terra, mas esvazia o cálice e conhece sua amargura.” Quando o bebemos, a bebida foi nauseante, e clamamos: “Ah! Deus, não beberei mais destas coisas. Tu és Deus e fora de ti não há nenhum outro.”

E ah! quantas vezes também planejamos esquemas para o futuro sem pedir permissão a Deus! Os homens disseram, como aqueles tolos mencionados por Tiago: “Faremos tais e tais coisas amanhã; compraremos e venderemos e teremos lucro”, quando não sabiam o que havia de ser no dia seguinte, porque muito antes que o amanhã viesse já não podiam comprar e vender; a morte os havia reclamado, e um pequeno espaço de terra continha todo o seu corpo.

Deus ensina Seu povo todos os dias, pela doença, pela aflição, pela depressão de ânimo, pelos abandonos de Deus, pela falta do Espírito por uma temporada, pela ausência das alegrias de Seu rosto, que Ele é Deus, e que fora dEle não há nenhum outro. E não devemos esquecer que há alguns servos especiais de Deus levantados para realizar grandes obras, que de maneira peculiar têm de aprender esta lição.

Que um homem, por exemplo, seja chamado para a grande obra de pregar o Evangelho. Ele é bem-sucedido. Deus o ajuda. Milhares esperam a seus pés e multidões pendem de seus lábios. Tão verdadeiramente quanto aquele homem é um homem, ele terá tendência a ser exaltado acima da medida, e olhará demais para si mesmo e de menos para seu Deus. Que falem os homens que sabem, e o que sabem que falem, e dirão: “É verdade, é muito verdade.”

Se Deus nos dá uma missão especial, geralmente começamos a tomar alguma honra e glória para nós mesmos. Mas, ao revisar os santos eminentes de Deus, nunca observaram como Deus os fez sentir que Ele era Deus, e fora dEle não havia nenhum outro? O pobre Paulo poderia ter pensado ser um deus e ter sido inchado acima da medida por causa da grandeza de sua revelação, se não houvesse um espinho na carne.

Mas Paulo podia sentir que não era um deus, porque tinha um espinho na carne, e deuses não poderiam ter espinhos na carne. Às vezes Deus ensina o ministro negando-lhe ajuda em ocasiões especiais. Subimos ao púlpito e dizemos: “Oh! oxalá eu tivesse um bom dia hoje!” Começamos a trabalhar. Temos sido igualmente fervorosos em oração e igualmente indefesos, mas é como um cavalo cego girando num moinho, ou como Sansão com Dalila. Sacudimos nossos membros vãos com grande surpresa, “fazemos voo fraco” e não ganhamos vitórias. Somos levados a ver que o Senhor é Deus, e que fora dEle não há nenhum outro.

Muito frequentemente Deus ensina isto ao ministro levando-o a ver sua própria natureza pecaminosa. Ele terá tal visão de seu próprio coração ímpio e abominável que sentirá, ao subir os degraus do púlpito, que não merece sequer sentar-se no banco, muito menos pregar a seus semelhantes. Embora sempre sintamos alegria na declaração da Palavra de Deus, conhecemos o que é cambalear nos degraus do púlpito sob o senso de que o chefe dos pecadores mal deveria ser permitido pregar a outros.

Ah! amados, não penso que será muito bem-sucedido como ministro aquele que não for levado às profundezas e à negrura de sua própria alma e feito a exclamar: “A mim, que sou o menor dos menores de todos os santos, foi dada esta graça de anunciar entre os gentios as riquezas inescrutáveis de Cristo.”

Há outro antídoto que Deus aplica no caso dos ministros. Se não lida com eles pessoalmente, levanta um hoste de inimigos para que se veja que Ele é Deus e Deus somente. Um estimado amigo me enviou ontem um valioso manuscrito antigo de um dos hinos de George Whitefield que foi cantado em Kennington Common. Era um hino esplêndido, completamente whitefieldiano de ponta a ponta. Mostrava que sua confiança estava inteiramente no Senhor e que Deus estava nele.

O quê! Um homem se sujeitará às calúnias da multidão, trabalhará e se esforçará dia após dia desnecessariamente, se porá de pé domingo após domingo e pregará o Evangelho, e terá seu nome difamado e caluniado, se não tiver a graça de Deus nele?

Quanto a mim, posso dizer que, se não fosse o amor de Cristo que me constrange, esta hora poderia ser a última em que pregaria, no que diz respeito à facilidade da coisa. “A necessidade me está imposta; e ai de mim se não anunciar o evangelho!” Mas aquela oposição, por meio da qual Deus leva Seus servos, os leva a ver de uma vez que Ele é Deus e que não há nenhum outro.

Se todos aplaudissem, se todos ficassem satisfeitos, pensaríamos ser Deus; mas quando assobiam e vaiam, voltamo-nos para nosso Deus e clamamos:

“Se em meu rosto, por Teu querido nome,
Vergonha e opróbrio houver,
Saudarei o opróbrio e acolherei a vergonha
Se Tu Te lembrares de mim.”

II. Isto nos leva à segunda parte de nosso discurso. A salvação é a maior obra de Deus e, por isso, em Sua maior obra, Ele especialmente nos ensina esta lição — Que Ele é Deus e que fora dEle não há nenhum outro. Nosso texto nos diz COMO ELE A ENSINA — Ele diz: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra.”

Ele nos mostra que é Deus e que fora dEle não há nenhum outro de três maneiras. Primeiro, pela pessoa para a qual nos dirige: “Olhai para mim e sede salvos.” Segundo, pelo meio que nos diz para usarmos a fim de obter misericórdia: “Olhai”, simplesmente “Olhai.” E terceiro, pelas pessoas a quem Ele chama para “olhar”: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra.”

1. Primeiro, para quem Deus nos diz que olhemos para a salvação? Oh! não abaixa o orgulho do homem quando ouvimos o Senhor dizer: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra”? Não é “Olhai para o vosso sacerdote e sede salvos”; se fosse, haveria outro deus, e fora dEle haveria alguém mais.

Não é “Olhai para vós mesmos”; se fosse, então haveria um ser que poderia arrogar alguma da louvor da salvação. Mas é “Olhai para mim.” Quão frequentemente vocês que estão vindo a Cristo olham para si mesmos. “Oh!”, dizem, “não me arrependo o suficiente.” Isso é olhar para si mesmo. “Não creio o suficiente.” Isso é olhar para si mesmo. “Sou demasiado indigno.” Isso é olhar para si mesmo. “Não consigo descobrir”, diz outro, “que tenho alguma justiça.” É bastante certo dizer que não têm nenhuma justiça, mas é bastante errado procurar alguma. É “Olhai para mim.”

Deus quer que desviem os olhos de si mesmos e olhem para Ele. A coisa mais difícil do mundo é desviar o olho de um homem de si mesmo. Enquanto viver, ele sempre terá uma predileção por voltar o olho para dentro e olhar para si mesmo, ao passo que Deus diz: “Olhai para mim.” Da cruz do Calvário, onde as mãos sangrentas de Jesus derramam misericórdia — do Getsêmani, onde os poros sangrentos do Salvador suam perdões, o clamor vem: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra.” Do cume do Calvário, onde Jesus clama: “Está consumado”, ouço um grito: “Olhai e sede salvos.” Mas vem um grito vil de nossa alma: “Não, olhai para vós mesmos! Olhai para vós mesmos!”

Ah, meu ouvinte, olhe para si mesmo e será condenado. Isso certamente virá disso. Enquanto olhar para si mesmo não há esperança para você. Não é a consideração do que você é, mas a consideração do que Deus é, e do que Cristo é, que pode salvá-lo. É olhar de si mesmo para Jesus.

Oh! há homens que compreendem mal o Evangelho. Pensam que a justiça os qualifica para vir a Cristo, ao passo que o pecado é a única qualificação para um homem vir a Jesus. O bom e velho Crisp diz: “A justiça me impede de Cristo. Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes. O pecado me faz vir a Jesus quando o pecado é sentido, e ao vir a Cristo, quanto mais pecado tenho, mais razão tenho para esperar misericórdia.”

Davi disse, e foi uma coisa estranha também: “Tem misericórdia de mim, porque a minha iniquidade é grande.” Mas Davi, por que não disseste que era pequena? Porque Davi sabia que quanto maiores fossem seus pecados, melhor razão para pedir misericórdia. Quanto mais vil um homem for, mais ansiosamente o convido a crer em Jesus.

Um senso de pecado é tudo o que temos de procurar, como ministros. Pregamos a pecadores, e que saibamos que um homem toma o título de pecador para si, e então lhe dizemos: “Olhai para Cristo, e sereis salvos.” “Olhai”, isto é tudo o que Ele exige de vocês, e até isto Ele lhes dá. Se olharem para si mesmos estão condenados; são um vil miserável, cheio de nojo, corrupto e corrompendo outros.

Mas olhem aqui! veem aquele homem pendurado na cruz? Contemplam Sua cabeça agonizante inclinando-se mansamente sobre Seu peito? Veem aquela coroa de espinhos, causando gotas de sangue a escorrer por Suas faces? Veem Suas mãos perfuradas e rasgadas, e Seus pés benditos, sustentando o peso de Seu próprio corpo, quase partidos em dois pelos cruéis cravos? Pecador! ouves-O gritar: “Eloí, Eloí, lama sabactâni?” Ouves-O clamar: “Está consumado”? Marcas Sua cabeça pendendo na morte? Vês aquele lado trespassado pela lança, e o corpo tirado da cruz?

Oh! vinde aqui! Aquelas mãos foram pregadas por vós. Aqueles pés jorraram sangue por vós. Aquele lado foi aberto de par em par por vós, e se quereis saber como podeis achar misericórdia, ali está! “Olhai!” “Olhai para mim!”

Não olhem mais para Moisés. Não olhem mais para o Sinai. Vinde aqui e olhai para o Calvário, para a vítima do Calvário, e para o sepulcro de José. E olhai além, para o homem que perto do trono se assenta com Seu Pai, coroado de luz e imortalidade. “Olhai! pecador”, Ele diz, esta manhã, a vós, “Olhai para mim e sede salvos.” É desta maneira que Deus ensina que não há nenhum outro além dEle, porque nos faz olhar inteiramente para Ele e completamente para longe de nós mesmos.

2. Mas o segundo pensamento é o meio da salvação. É: “Olhai para mim e sede salvos.” Vocês muitas vezes observaram, tenho certeza, que muita gente gosta de um culto intrincado — uma religião complicada — uma que mal conseguem entender. Não suportam um culto tão simples como o nosso. Então precisam de um homem vestido de branco e um homem vestido de preto; depois precisam do que chamam de altar e de um presbitério. Depois de algum tempo isso não basta, e precisam de vasos de flores e velas. O clérigo então se torna um sacerdote, e precisa de uma vestimenta variegada com uma cruz nela. Assim continua; o que é simplesmente um prato se torna uma patena, e o que antes era um cálice se torna um cálice, e quanto mais complicadas as cerimônias, mais eles gostam. Gostam que seu ministro fique como um ser superior.

O mundo gosta de uma religião que não pode compreender! Mas alguma vez notaram quão gloriosamente simples é a Bíblia? Ela não admitirá nenhuma de suas tolices; fala claramente, e nada senão coisas claras. “Olhai!” Não há um homem não convertido que goste disto: “Olhai para Cristo e sede salvos.” Não; ele vem a Cristo como Naamã a Elias, e quando se diz: “Vai, lava-te no Jordão!”, responde: “Na verdade eu pensava que ele viria e poria a mão sobre o lugar e invocaria o nome do seu Deus; mas a ideia de me mandar lavar no Jordão, que coisa ridícula. Qualquer um poderia fazer isso!” Se o profeta lhe tivesse mandado fazer alguma grande coisa, não a teria feito? Ah! certamente teria.

E se, esta manhã, eu pudesse pregar que qualquer um que andasse daqui até Bath sem sapatos e meias, ou fizesse alguma coisa impossível, seria salvo, vocês partiriam amanhã de manhã antes do café. Se me levasse sete anos para descrever o caminho da salvação, tenho certeza de que todos ansiariam por ouvi-lo. Se somente um doutor erudito pudesse dizer o caminho para o céu, como seria corrido atrás dele! E se fosse em palavras difíceis, com alguns pedaços de latim e grego, seria ainda melhor. Mas é um Evangelho simples que temos de pregar. É somente: “Olhai!”

“Ah!”, dizem, “é esse o Evangelho? Não prestarei atenção a isso.” Mas por que Deus ordenou que fizessem uma coisa tão simples? Justamente para abater o orgulho de vocês e mostrar-lhes que Ele é Deus, e que fora dEle não há nenhum outro. Oh! notem quão simples é o caminho da salvação. É: “Olhai, olhai, olhai!” — Quatro letras, e duas delas iguais! “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra.” Alguns teólogos querem uma semana para lhes dizer o que devem fazer para serem salvos, mas Deus, o Espírito Santo, só precisa de quatro letras para fazê-lo. “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra.”

Quão simples é esse caminho da salvação! E oh! quão instantâneo! Leva-nos algum tempo para mover a mão, mas um olhar não requer um momento. Assim um pecador crê num instante, e no momento em que o pecador crê e confia em seu Deus crucificado para o perdão, imediatamente recebe a salvação plena por meio de Seu sangue. Pode haver alguém que entrou aqui esta manhã injustificado em sua consciência, que sairá justificado antes que outros.

Pode haver alguns aqui, pecadores imundos num momento, perdoados no seguinte. É feito num instante. “Olhai! Olhai! Olhai!” E quão universal é! Porque onde quer que eu esteja, por mais longe que esteja, só diz: “Olhai!” Não diz que eu devo ver; só diz: “Olhai!” Se olharmos para uma coisa no escuro não a podemos ver, mas fizemos o que nos foi mandado. Assim, se um pecador apenas olhar para Jesus, Ele o salvará, porque Jesus no escuro é tão bom quanto Jesus na luz, e Jesus, quando não o podem ver, é tão bom quanto Jesus quando podem. É somente “olhai!”

“Ah!”, diz alguém, “tenho tentado ver Jesus este ano, mas não O tenho visto.” Não diz vejam-no, mas “Olhai para ele”! E diz que os que olharam foram iluminados. Se houver um obstáculo diante de vocês, e olharem apenas na direção certa, é suficiente. “Olhai para mim!” Não é tanto ver Cristo quanto olhar para Ele. A vontade para Cristo, o desejo por Cristo, o anseio por Cristo, a confiança em Cristo, o depender de Cristo, é o que se precisa! “Olhai! Olhai! Olhai!” Ah! se o homem mordido pela serpente tivesse voltado seus olhos cegos para a serpente de bronze, embora não a tivesse visto, ainda assim teria a vida restaurada. É o olhar, não o ver, que salva o pecador.

Dizemos de novo: quão isto humilha o homem! Há um cavalheiro que diz: “Bem, se fosse mil libras que me salvassem, eu não pensaria nada nisso.” Mas o ouro e a prata de vocês estão enferrujados; não prestam para nada. “Então devo ser salvo exatamente como a minha criada Bete?” Sim, exatamente da mesma forma; não há outro caminho de salvação para você. Isso é para mostrar ao homem que JEOVÁ é Deus, e que fora dEle não há nenhum outro.

O homem sábio diz: “Se fosse resolver o problema mais maravilhoso, ou solucionar o maior mistério, eu o teria feito. Não posso ter algum Evangelho misterioso? Não posso crer em alguma religião misteriosa?” Não, é: “Olhai!” “O quê! devo ser salvo exatamente como aquele menino da Escola de Trapos que não sabe ler as letras?” Sim, deve, ou não será salvo de forma alguma.

Outro diz: “Tenho sido muito moral e reto; tenho observado todas as leis da terra, e se houver qualquer outra coisa a fazer, farei. Comerei somente peixe nas sextas-feiras e guardarei todos os jejuns da igreja, se isso me salvar.” Não, senhor, isso não o salvará; suas boas obras não prestam para nada. “O quê! devo ser salvo da mesma maneira que uma prostituta ou um bêbado?” Sim, senhor, há somente um caminho de salvação para todos.

“Ele encerrou a todos na incredulidade, para usar de misericórdia para com todos.” Ele pronunciou uma sentença de condenação sobre todos, para que a graça livre de Deus viesse sobre muitos para a salvação. “Olhai! Olhai! Olhai!” Este é o método simples da salvação. “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra.”

Mas finalmente, notem como Deus cortou o orgulho do homem e exaltou a Si mesmo pelas pessoas a quem chamou para olhar. “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra.” Quando o judeu ouviu Isaías dizer isso, “Ah!”, exclamou, “devias ter dito: Olhai para mim, ó Jerusalém, e sede salvos. Isso teria sido certo. Mas aqueles cães gentios, devem eles olhar e ser salvos?” “Sim”, diz Deus, “mostrarei a vocês, judeus, que embora lhes tenha dado muitos privilégios, exaltarei outros acima de vocês. Posso fazer o que quiser com o que é Meu.”

Agora, quem são os confins da terra? Por que, há agora nações pagãs pobres que estão a poucos graus de distância dos brutos, incivilizadas e sem instrução. Mas se eu pudesse ir e pisar o deserto e encontrar o bosquímano em seu kraal, ou ir aos Mares do Sul e encontrar um canibal, diria ao canibal ou ao bosquímano: “Olhai para Jesus e sede salvos, vós, todos os confins da terra.”

Eles são alguns dos “confins da terra”, e o Evangelho é enviado tanto a eles quanto aos gregos polidos, aos romanos refinados ou aos britânicos educados. Mas penso que “os confins da terra” implicam aqueles que foram o mais longe possível de Cristo. Digo, bêbado, isso significa você! Você tem cambaleado para trás, até chegar exatamente aos confins da terra. Você quase teve delirium tremens. Não pode estar muito pior. Não há um homem vivo pior do que você. Há? Ah! mas Deus, a fim de humilhar o seu orgulho, diz a você: “Olhai para mim e sede salvos.”

Há outra que tem vivido uma vida de infâmia e pecado, até se arruinar, e até Satanás parece varre-la pela porta dos fundos. Mas Deus diz: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra.”

Penso ver alguém tremendo aqui e dizendo: “Ah! eu não tenho sido um destes, senhor, mas tenho sido algo pior, porque tenho frequentado a casa de Deus e tenho sufocado convicções e adiado todos os pensamentos de Jesus, e agora penso que Ele nunca terá misericórdia de mim.” Você é um deles. “Confins da terra!” Enquanto eu encontrar alguém que se sinta assim, posso dizer-lhes que são “os confins da terra.”

“Mas”, diz outro, “sou tão peculiar; se eu não sentisse como sinto, estaria tudo muito bem. Mas sinto que o meu caso é um caso peculiar.” Isso está certo; eles são um povo peculiar. Você servirá. Mas outro diz: “Não há ninguém no mundo como eu. Não penso que se encontrará um ser debaixo do sol que tenha tido tantas chamadas e as tenha posto todas de lado, e tantos pecados sobre a cabeça. Além disso, tenho culpa que não gostaria de confessar a nenhuma criatura viva.” Outro dos “confins da terra” outra vez.

Portanto, tudo o que tenho a fazer é clamar no nome do Mestre: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra; porque eu sou Deus e não há outro.” Mas você diz que o pecado não o deixa olhar. Eu lhe digo: o pecado será removido no momento em que você olhar.

“Mas não ouso. Ele me condenará. Tenho medo de olhar.” Ele o condenará mais se você não olhar. Tema, então, e olhe, mas não deixe que o seu temor o impeça de olhar. “Mas Ele me lançará fora.” Experimente-O. “Mas não posso vê-Lo.” Eu lhe digo: não é ver, mas olhar. “Mas meus olhos estão tão fixos na terra, tão terrenos, tão mundanos.” Ah! mas, pobre alma, Ele dá poder para olhar e viver. Ele diz: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra.”

Tomem isto, queridos amigos, como texto de Ano Novo, tanto vocês que amam o Senhor quanto vocês que estão olhando pela primeira vez. Cristão! em todas as suas tribulações durante este ano, olhe para Deus e seja salvo. Em todas as suas provações e aflições, olhe para Cristo e ache livramento. Em toda a sua agonia, pobre alma, em todo o seu arrependimento por sua culpa, olhe para Cristo e ache perdão. Neste ano, lembrem-se de pôr os olhos para o céu e o coração também para o céu.

Lembrem-se neste dia de atar em torno de si uma cadeia de ouro e pôr um elo dela no grampo no céu. Olhem para Cristo; não temam. Não há tropeço quando um homem anda com os olhos erguidos para Jesus. Aquele que olhou para as estrelas caiu no fosso, mas aquele que olha para Cristo anda em segurança. Mantenham os olhos erguidos o ano inteiro. “Olhai para ele e sede salvos”, e lembrem-se de que “Ele é Deus e fora dEle não há nenhum outro.”

E você, pobre trêmulo, que diz? Começará o ano olhando para Ele? Você sabe quão pecador é esta manhã, sabe quão imundo é, e no entanto é possível que antes de abrir a porta do banco e chegar ao corredor, você esteja tão justificado quanto os apóstolos diante do trono de Deus. É possível que antes que o seu pé pise a soleira da sua porta, você tenha perdido o fardo que estava nas suas costas, e irá pelo caminho cantando: “Estou perdoado, estou perdoado. Sou um milagre da graça. Este dia é o meu aniversário espiritual.”

Oh! que assim seja para muitos de vocês, para que por fim eu possa dizer: “Eis-me aqui e os filhos que me deste.” Ouça isto, pecador convencido! “Este pobre clamou, e o SENHOR o livrou de todas as suas angústias.” Oh! provai e vede que o Senhor é bom! Agora creiam nEle. Agora lancem a sua alma culpada sobre a Sua justiça. Agora mergulhem a sua alma negra no banho do Seu sangue. Agora ponham a sua alma nua à porta do guarda-roupa da Sua justiça. Agora assentam a sua alma faminta no banquete da fartura!

Agora “olhai!” Quão simples parece! E no entanto é a coisa mais difícil do mundo fazer os homens fazerem. Eles nunca o farão, até que a graça constrangedora os faça. No entanto, ali está: “Olhai!” Vão embora com esse pensamento. “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os confins da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.”


Extraído de The Metropolitan Tabernacle Pulpit – Coleção C. H. Spurgeon. Foram feitas apenas as alterações necessárias, como correção de erros ortográficos, alguns usos de pontuação, capitalização de pronomes da Divindade e atualização mínima de algumas palavras arcaicas. O conteúdo é integral. Recursos adicionais baseados na Bíblia estão disponíveis em www.spurgeongems.org.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

SERVIÇO DE VIGÍLIA DE ANO NOVO



Sermão nº 59

Pregado na Capela de New Park Street, Southwark
Pelo Rev. C. H. Spurgeon
Na noite de terça-feira, 31 de dezembro de 1855

Se perguntarem por que realizei uma Vigília de Ano Novo, a resposta é: porque eu esperava que o Senhor abençoasse o culto e, assim, almas fossem salvas. Tenho pregado o Evangelho de Jesus a todas as horas e não vejo motivo para não pregar à meia-noite, se puder obter ouvintes. Não o fiz por imitação, mas pelas melhores razões: a esperança de fazer o bem e o desejo de ser instrumento para reunir os desgarrados de Israel.

Deus é minha testemunha: eu pregaria a cada hora do dia, se o corpo e a mente fossem iguais à tarefa. Quando considero quantas almas estão sendo condenadas e quão poucos choram e se entristecem por elas, sou constrangido a clamar com Paulo: “Ai de mim se não pregar o evangelho!” Oh, que o novo ano seja muito melhor que o último.

Quase lamento ver este culto impresso e temo que roube de muitos o alimento semanal do sermão regular — mas, como já está feito, orarei para que o Senhor o abençoe por causa de Jesus. — C. H. S.


A capela estava densamente lotada em todas as partes. O pregador subiu ao púlpito e, após a oração, leu solenemente o verso que a congregação então cantou:

“Almas virgens, levantai-vos!
Com todos os mortos despertai;
Sábias para a salvação,
Azeite em vossas vasilhas tomai:
Levantando-vos ao CLAMOR DA MEIA-NOITE,
Contemplai vosso celestial noivo perto.”

Dois irmãos então oraram pela igreja e pelo mundo, para que o novo ano fosse revestido de glória pela propagação do conhecimento de Jesus. Em seguida veio a

EXPOSIÇÃO

Salmo 90:1-12

“Senhor, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração.”

Sim, Jeová, NÓS, teus filhos, podemos dizer que tens sido nosso lar, nosso seguro lugar de habitação. E oh, que alegria, que paz temos encontrado em seu seio sagrado. Não há lar como o peito do Senhor, para o qual, em todas as gerações, os verdadeiros crentes voam. Deixe-me perguntar aos incrédulos onde está a sua alegria. Onde tem sido a vossa habitação, filhos do pecado e filhas da loucura?

“Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus.”

E o mesmo Deus também, amando o seu povo, passando por cima dos seus pecados e não se lembrando das suas iniquidades. Oh, amados, que este pensamento vos anime: Ele era, Ele é, Ele será Deus. Aqui a mudança não pode subir, aqui a mutação não deve se aproximar. Para todo o sempre Ele é Deus.

“Tu reduzes o homem à destruição e dizes: Voltai, filhos dos homens.”

Quantos partiram neste ano. Oh, onde estaríamos se este tivesse sido o nosso caso? Muitos de nós podem dizer: estaríamos na bem-aventurança e teríamos voltado a Deus; mas, ai, muitos aqui teriam entrado nos fogos do inferno e iniciado seu tormento sem fim.

“Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite.”

“Tu os levas como por uma inundação.”

Quem são os que são levados como por uma inundação? Vós mesmos, meus ouvintes, e eu. Embora não o saibamos, estamos sempre em movimento. A torrente impetuosa do tempo nos leva como um poderoso rio rolante. Não podemos resistir à força que nos impulsa. Tão impotentes quanto a palha somos; de modo algum podemos resistir. Para onde vamos? Para onde o rio nos leva? Não podemos deter suas torrentes, não podemos escapar de suas inundações. Oh! onde, oh! onde estamos indo!

“Tu os levas como por uma inundação; são como um sono; pela manhã são como a erva que cresce.”

“Pela manhã floresce e cresce; à tarde corta-se e seca.”

“Porque somos consumidos pela tua ira e pelo teu furor somos conturbados.”

Ninguém compreende melhor isto do que o pecador convencido, quando está sob a vara de Deus. Verdadeiramente nossa força é então totalmente consumida, e as angústias do nosso coração se ampliam.

“Puseste as nossas iniquidades diante de ti, os nossos pecados ocultos à luz do teu rosto.”

Ouvi isto! “os nossos pecados ocultos.” Alguns de vós levam a marca do inferno na testa. Alguns de vós, como Caim, tendes a marca da justiça na própria fronte. Vossos pecados vos precedem no juízo. Ah! estão ali esta noite, contando a história triste, triste da vossa história.

Mas há pessoas aqui que têm “pecados ocultos.” Ainda não fostes descobertos. A noite era escura demais para o olho humano vos ver, o ato era secreto demais para o mortal contemplar, mas está colocado em algum lugar. Assim como colocamos uma pedra em um anel de ouro, assim Deus colocou os vossos “pecados ocultos à luz do seu rosto.” Vossos pecados estão esta noite diante dos olhos do infinito Jeová.

“Porque todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um conto que se conta.”

A tradução da Vulgata tem: “Nossos anos passam como os de uma aranha.” Implica que nossa vida é tão frágil quanto o fio da teia de uma aranha. Constitui-se da forma mais curiosa a teia da aranha, mas o que há de mais frágil? Em que há mais sabedoria do que no complicado quadro de um corpo humano, e o que é mais facilmente destruído? O vidro é granito comparado com a carne, e os vapores são rochas comparados com a vida.

“Os dias da nossa vida chegam a setenta anos,”

Notai: o salmista diz: “Os dias da nossa vida.” Quão raramente pensamos nisso! Pensamos nos nossos anos, mas não nos “dias da nossa vida.”

“E se [é um grande ‘se’ de fato, pois quantos morrem antes de atingi-los!] por causa da força chegarem a oitenta anos, ainda a sua melhor idade é canseira e enfado, porque logo se corta e nós voamos.”

Para onde voamos? É para cima que alçamos voo, em asas mais que de águias, para reinos de alegria desconhecida? Ou é para baixo que afundamos com todos os nossos pecados ao redor do pescoço como pedras de moinho? Oh! desceremos, desceremos, até que no inferno levantemos os olhos, estando em tormentos?

“Quem conhece o poder da tua ira? Segundo o temor que te é devido, assim é o teu furor.”

“Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos coração sábio.”

Aqui está a aritmética celestial — uma aplicação de numeração raramente pensada mesmo pelos sábios. Possamos nós, durante o próximo ano, medir assim o nosso tempo, a fim de aplicar o nosso coração a Jesus, que é a verdadeira sabedoria.

Amém! Senhor, que isto seja concedido!

Agora cantaremos um verso daquele hino solene —
“Quando Tu, meu justo Juiz, vieres,”
e então o pastor fará uma oração da noite por vós antes de vir falar às vossas almas da parte de Deus.

HINO

“Que eu seja encontrado entre os teus santos
Quando a trombeta do arcanjo soar,
Para ver o teu rosto sorridente:
Então o mais alto da multidão cantarei,
Enquanto as mansões ressoantes do céu ecoarem
Com gritos de graça soberana.”

ORAÇÃO

Ó DEUS, salva o meu povo! Salva o meu povo! Uma carga solene deste a teu servo. Ah! Senhor, é demasiado solene para uma criança como eu. Ajuda-o, ajuda-o pela tua própria graça, a desempenhá-la como deve.

Ó Senhor, permite que teu servo confesse que sente que suas orações não são tão fervorosas como deveriam ser pelas almas do seu povo — que ele não prega tão frequentemente como deveria, com aquele fogo, aquela energia, aquele verdadeiro amor às almas dos homens.

Mas ó Senhor, não condenes os ouvintes pelo pecado do pregador. Oh, não destruas o rebanho pela iniquidade do pastor. Tem misericórdia deles, bom Senhor, tem misericórdia deles, ó Senhor, tem misericórdia deles!

Há alguns deles, Pai, que não terão misericórdia de si mesmos. Como temos pregado a eles e laborado por eles!

Ó Deus, tu sabes que não minto. Como tenho me esforçado por eles, para que fossem salvos! Mas o coração é duro demais para o homem derreter, e a alma feita de ferro é dura demais para a carne e o sangue amolecerem.

Ó Deus, o Deus de Israel, tu podes salvar. Ali está a esperança do pastor; ali está a confiança do ministro. Ele não pode, mas tu podes, Senhor. Eles não virão, mas tu podes fazê-los dispostos no dia do teu poder. Eles não virão a ti para terem vida, mas tu podes atraí-los, e então correrão após ti.

Eles não podem vir, mas tu podes dar-lhes poder, pois embora “ninguém venha a menos que o Pai o atraia”, se Ele o atrair, então ele poderá vir.

Ó Senhor, por mais um ano teu servo tem pregado — tu sabes como. Não cabe a ele pleitear a sua causa contigo — isso está em outras mãos, e está lá, graças a Deus, há anos. Mas agora, ó Senhor, rogamos-te, abençoa o nosso povo. Que esta nossa igreja, a tua igreja, continue unida em unidade, e esta noite possa iniciar uma nova era de oração.

Eles são um povo orante, bendito seja o teu nome, e oram pelo seu ministro de todo o coração. Ó Senhor, ajuda-os a orar com mais fervor. Possamos lutar em oração mais do que nunca e sitiar o teu trono até que faças de Jerusalém um louvor não só aqui, mas em toda parte.

Mas Pai, não é pela igreja que choramos; não é pela igreja que gememos; é pelo mundo. Ó Fiel Prometedor, não prometeste a teu Filho que Ele não morreria em vão? Dá-lhe almas, rogamos-te, para que Ele seja abundantemente satisfeito. Não prometeste à tua igreja que ela seria aumentada? Oh, aumenta-a, aumenta-a. E não prometeste que os teus ministros não laborariam em vão? Pois disseste que “como a chuva e a neve descem dos céus e para lá não tornam, mas regam a terra, assim será a minha palavra: ela não voltará para mim vazia.”

Que a Palavra não volte vazia esta noite, mas que agora teu servo, da maneira mais fervorosa, com o coração mais ardente, queimando de amor ao seu Salvador e de amor às almas, pregue mais uma vez o glorioso Evangelho do Deus bendito.

Vem, Espírito Santo! Nada podemos fazer sem ti. Invocamos-te solenemente, grande Espírito de Deus! Tu que repousaste sobre Abraão, sobre Isaque e sobre Jacó. Tu que nas visões da noite falas aos homens. Espírito dos profetas, Espírito dos apóstolos, Espírito da igreja, sê o nosso Espírito esta noite, para que a terra trema, que as almas sejam levadas a ouvir a tua Palavra, e que toda carne se regozije juntamente para louvar o teu nome. Ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, o Temível Supremo, seja o louvor eterno. Amém.


SERMÃO

“Levanta-te, clama de noite;
no princípio das vigílias derrama o teu coração como água perante a face do Senhor.”

Lamentações 2:19

Isto foi originalmente dito a Sião, quando ela se encontrava em sua triste e desolada condição. Jeremias, o profeta que chora, havia secado os olhos pelas mortes da filha do seu povo e, quando fez tudo o que podia para derramar lágrimas pela pobre Jerusalém, então pediu a Jerusalém que chorasse por si mesma.

Parece-me que eu poderia tornar-me um Jeremias esta noite e chorar como ele, pois certamente a igreja em geral está em condição quase tão má. Ó Sião, como foste coberta de nuvem, e como a tua honra foi pisada no pó! Levantai-vos, filhos de Sião, e chorai por vossa mãe; sim, chorai amargamente, pois ela se entregou a outros amantes e abandonou o Senhor que a comprou.

Dou testemunho esta noite, no meio desta solene assembleia, de que a igreja em geral está perversamente se apartando do Deus vivo. Ela está abandonando a verdade que outrora era a sua glória e se misturando entre as nações. Ah! amados, seria bom se Sião agora pudesse às vezes chorar. Seria bom se houvesse mais quem se importasse com a ferida da filha do seu povo.

Como a cidade se tornou uma meretriz! como o ouro finíssimo se escureceu! e como a glória partiu! Sião está sob uma nuvem. Seus ministros não pregam com a energia e o fogo que antigamente habitavam nos lábios dos servos de Deus, nem a doutrina pura e imaculada é proclamada em suas ruas. Onde estão seus evangelistas que, com corações fervorosos, percorriam a terra com o Evangelho nos lábios? Onde estão seus pregadores apostólicos que em toda parte anunciavam as boas-novas da salvação? Ai dos pastores ociosos! Ai dos ministros adormecidos!

Chora amargamente, ó Sião! chora amargamente, até que outra reforma venha varrer o teu chão. Chora, Sião, chora até que venha Aquele cuja pá está na sua mão, que limpará completamente a sua eira, pois o tempo está chegando em que o juízo deve começar pela casa de Deus. Oh, se agora os príncipes de Israel tivessem sabedoria, para que buscassem o Senhor; mas, ai, nossos líderes se entregaram à falsa doutrina, nem amam a coisa que é reta. Portanto, ordeno-vos: “Levanta-te”, ó Sião, “clama de noite: no princípio das vigílias derrama o teu coração como água perante a face do Senhor.”

Deixamos Sião, porém, para falar àqueles que precisam de exortação mais do que Sião precisa: falar àqueles que são inimigos de Sião, ou seguidores de Sião, e ainda assim não pertencem às suas fileiras. A eles teremos uma ou duas palavras a dizer esta noite.

1. Em primeiro lugar, do nosso texto concluímos — que nunca é cedo demais para orar. “Levanta-te, clama de noite: no princípio das vigílias derrama o teu coração como água perante a face do Senhor.” Estás deitado na cama, o Espírito gracioso sussurra: “Levanta-te e ora a Deus.” Bem, não há razão para esperares até a luz da manhã: “No princípio das vigílias derrama o teu coração como água perante a face do Senhor.”

Dizem-nos aqui que nunca é cedo demais para orar. Quantos jovens imaginam que a religião é coisa para a velhice, ou pelo menos para a maturidade, mas concebem que, enquanto estão no fulgor da juventude, não precisam atender às suas admoestações.

Quantos encontramos que consideram a religião uma muleta para a velhice, que a contam como ornamento para os cabelos brancos, esquecendo-se de que, para o jovem, a religião é como uma corrente de ouro em torno do pescoço e como um ornamento engastado de pedras preciosas, que o vestirá de honra. Quantos há que pensam que ainda é cedo demais para levarem por um só momento a cruz de Jesus. Não querem ter os ombros jovens esfolados por um fardo precoce. Não pensam que é verdade que “é bom para o homem suportar o jugo na sua juventude”, e esquecem-se de que aquele “jugo é suave” e aquele “fardo é leve.”

Portanto, hora após hora, e dia após dia, o maligno demônio sussurra em seus ouvidos: “É cedo demais, é cedo demais! adia, adia, adia! procrastina!” Precisamos dizer-vos mais uma vez aquele axioma tantas vezes repetido: “A procrastinação é a ladra do tempo”? Precisamos lembrar-vos de que “as demoras são perigosas”? Precisamos dizer-vos que essas são as obras de Satanás?

Pois o Espírito Santo, quando luta com o homem, diz: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração.” Nunca, amados, é cedo demais para orar. És uma criança esta noite? Teu Deus ouve as crianças. Ele chamou Samuel quando este ainda era criança. “Samuel, Samuel”, e ele disse: “Eis-me aqui.” Tivemos os nossos Josias, ouvimos falar dos nossos Timóteos, vimos aqueles que na primeira juventude foram trazidos ao Salvador.

Oh! lembrai-vos de que não é cedo demais buscar o Salvador, antes de chegares à idade adulta. Se Deus em sua misericórdia te chamar a si, rogo-te que não penses por um momento que Ele não te ouvirá. Confio conhecer o seu nome; sim, mais do que isso, sei que o conheço. “Sei em quem tenho crido.” Mas Ele não me chamou cedo demais. Embora ainda criança, desci à piscina do batismo, ali para ser sepultado com o meu Salvador.

Oh! oxalá eu pudesse dizer que todos aqueles quatorze ou quinze anos da minha vida não tivessem sido desperdiçados. Bendito seja o seu nome, Ele nunca nos chama cedo demais. Se Ele se levanta de madrugada e envia alguns à sua vinha para laborar, não os envia antes que devam ir — antes que haja trabalho para eles fazerem. Jovem, não é cedo demais. “Levanta-te, clama de noite: no princípio das vigílias derrama o teu coração como água perante a face do Senhor.”

2. Novamente, não é tarde demais para clamar ao Senhor, pois se o sol se pôs e as vigílias da noite começaram a sua ronda, o trono da graça está aberto. Nenhuma loja fica aberta tão tarde quanto a Casa da Misericórdia. O diabo tem dois truques com os homens. Às vezes ele atrasa um pouco o relógio deles e diz: “Espera, ainda há tempo bastante”; e quando isso não funciona, adianta os ponteiros e clama: “Tarde demais! tarde demais!”

Velho, o diabo te disse: “É tarde demais”? Pecador convencido, Satanás te disse: “É tarde demais”? Aflito, angustiado, surgiu em tua alma o pensamento — amargo e sombrio — “É tarde demais”? Não é. Dentro de mais quinze minutos outro ano terá chegado, mas se o Espírito de Deus te chamar este ano, não te chamará tarde demais no ano. Se até o último segundo viveres, se Deus o Espírito Santo te chamar então, não te terá chamado tarde demais.

Ah! vós, desesperados, que pensais que é tudo tarde demais — não é:

“Enquanto a lâmpada continuar a arder,
O mais vil pecador que voltar”

encontrará misericórdia e paz.

Houve alguns mais velhos do que tu podes ser, alguns tão pecadores e vis e monstruosamente perversos, que provocaram a Deus tanto quanto tu, que pecaram contra Ele com a mesma frequência, e ainda assim encontraram perdão. Se Ele te chamar, pecador, se Ele te chamar esta noite, meia-noite não é tarde demais, assim como uma hora não é cedo demais. Se Ele te chamar, seja à meia-noite, ao cantar do galo ou ao meio-dia, diríamos a ti, como disseram ao cego: “Levanta-te; Ele te chama.”

E tão certo como Ele te chamar, não te despedirá sem uma bênção. Não é tarde demais para clamar a Deus. A escuridão da noite está se acumulando, está chegando, e estás perto da morte. Levanta-te, dorminhoco, levanta-te! tu que agora estás tomando o último sono da morte, “Levanta-te, clama de noite: no princípio das vigílias derrama o teu coração como água perante a face do Senhor.”

3. Em seguida, não podemos orar com veemência demais, pois o texto diz: “Levanta-te, clama de noite.” Deus ama as orações fervorosas. Ele ama as orações impetuosas — as orações veementes. Que um homem pregue, se ousar, de forma fria e lenta, mas nunca ore assim. Deus ama as orações que gritam. Há um pobre sujeito que diz: “Não sei como orar.” “Por quê, senhor”, diz ele, “eu não conseguiria juntar seis ou sete palavras em gramática inglesa.”

Ora bolas com a gramática inglesa! Deus não se importa com isso, contanto que tu derrames o teu coração. Isso basta. Clama diante dele. “Ah!”, diz um, “tenho suplicado a Deus. Penso que pedi misericórdia.” Mas talvez não tenhas clamado. Clama diante de Deus. Muitas vezes ouvi homens dizerem que oraram e não foram ouvidos. E conheci a razão. Pediram mal, se é que pediram, e aqueles que clamam com vozes fracas, que não clamam em alta voz, não devem esperar obter uma bênção.

Quando fores à porta da misericórdia, deixa-me dar-te um pequeno conselho. Não vás e dês uma batidinha gentil, como uma dama. Não dês uma única batida, como um mendigo, mas pega a aldrava e bate forte, até que a própria porta pareça tremer. Bate com todas as tuas forças! e lembra-te de que Deus ama aqueles que batem forte à porta da misericórdia. “Batei, e abrir-se-vos-á.”

Imagino aquela cena à meia-noite que o nosso Salvador mencionou na parábola, e ela se ajustará à ocasião presente. Certo homem precisava de pão. Um amigo seu, em viagem, chegara à sua casa e estava muito fraco, e precisava de pão para comer. Então ele foi ao vizinho da porta ao lado e bateu à sua porta, mas ninguém veio. Ficou debaixo da janela e chamou o nome do amigo.

O amigo respondeu do alto da casa, onde estivera deitado dormindo: “Minha mulher e meus filhos estão comigo na cama, e não posso levantar-me e dar-te.” Mas o homem não se importou com isso. Seu pobre amigo precisava de pão, então gritou em alta voz: “É pão que quero, e pão eu tenho de ter!” Imagino ver o homem deitado e dormindo ali. Ele diz: “Não me levantarei, está muito frio esta noite. Como podes esperar que eu me levante e desça as escadas para te dar pão? Não quero, não posso, não me levantarei.” Assim ele se envolve novamente confortavelmente e se deita para dormir mais uma vez.

O que faz o homem lá embaixo? Oh! ainda o ouço. “Acorda, senhor! Eu tenho de ter! Eu terei! meu amigo está morrendo de fome.” “Vai para casa, sujeito! Não me perturbes a esta hora da noite.” “Eu tenho de ter pão! por que não vens e mo dás!”, diz o outro; mas o amigo, aborrecido e irado, deita-se novamente na cama. Ainda assim à porta vem uma batida mais pesada e mais pesada, e o homem continua gritando: “Pão, senhor, pão! tu não dormirás a noite toda até que desças e mo dês!”

E em verdade vos digo que, embora não se levante e lho dê por ser seu amigo, contudo, por causa da sua importunidade, se levantará e lhe dará quanto necessitar. “Levanta-te, clama de noite”, e Deus te ouvirá, se clamares com toda a tua alma e derramares o teu coração diante dele.

4. E agora a nossa última observação é — não podemos orar de forma demasiado simples. Ouvi apenas como o salmista o diz: “Derramai o vosso coração perante ele.” Não “Derramai as vossas belas palavras”, não “Derramai os vossos períodos elegantes”, mas “Derramai o vosso coração.” “Não ouso”, diz um, “há coisa negra no meu coração.” Então tira-a para fora, é melhor fora do que dentro. “Não posso”, diz outro, “não correria livremente.” Derrama-o, senhor, derrama-o todo — como água!

Não notais algo nisto? Alguns homens dizem: “Não posso orar como gostaria; o meu clamor é fraco.” Bem, quando se derrama água, ela não faz muito barulho. Assim podes derramar o teu coração como água, e ele correrá e tu mal o perceberás. Há muitas orações proferidas em um sótão que ninguém ouviu — mas espera! Gabriel as ouviu. O próprio Deus as ouviu. Há muitos clamores lá embaixo em um porão, ou lá em cima em um sótão, ou em algum lugar solitário onde o sapateiro está sentado consertando os sapatos debaixo de uma janela, que o mundo não ouve, mas o Senhor os ouve.

Derrama o teu coração como água. Como a água corre? Pelo caminho mais rápido que puder, só isso. Ela nunca se preocupa muito com a forma como corre. Essa é a maneira que o Senhor gosta de receber. Alguns dos vossos finos oferecem orações que são derramadas gota a gota, e precisam ser trazidas a uma forma grandiosa, eclesiástica, de livro de orações. Agora, toma o teu coração e derrama-o como água.

“O quê!”, diz um, “com todos os juramentos nele?” Sim. “Com todos os meus velhos pecados nele?” Sim. Derrama o teu coração como água. Derrama-o confessando todos os teus pecados. Derrama-o suplicando ao Senhor que tenha misericórdia de ti por causa de Cristo. Derrama-o como água. E quando estiver todo derramado, Ele virá e o encherá novamente com “vinhos engrossados, bem refinados.” “Levanta-te, clama de noite: no princípio das vigílias derrama o teu coração como água perante a face do Senhor.”

Assim falo a todos quantos reconhecerem ser pecadores à vista de Deus, mas mesmo estes precisam da assistência do Espírito Santo para os capacitar a clamar. Ó meu Senhor, concede-a.

E agora, queridos amigos, que a graça vos seja dada para que possais derramar os vossos corações esta noite! Lembrai-vos, meus ouvintes, pode parecer coisa leve reunirmo-nos esta noite a esta hora, mas escutai por um momento o tique-taque daquele relógio!

[Aqui o pregador fez uma pausa, e em meio a silêncio solene todos ouviram o relógio com o seu tique, tique, tique.]

É a batida do pulso da eternidade. Ouvis o tique-taque daquele relógio! — é o passo da morte vos perseguindo. Cada vez que o relógio marca, os passos da morte caem no chão bem atrás de vós. Em breve entrareis em outro ano. Este ano terá passado dentro de poucos segundos.

1855 está quase acabado. Onde será passado o próximo ano, meus amigos? Um foi passado na terra; onde passareis o próximo? “No céu!”, diz um, “espero.” Outro murmura: “Talvez eu passe o meu no inferno!” Ah! solene é o pensamento, mas antes que aquele relógio bata doze, alguns aqui podem estar no inferno, e bendito seja o nome de Deus! alguns de nós podem estar no céu!

Mas ó, sabeis estimar o vosso tempo, meus ouvintes? sabeis medir os vossos dias? Oh! não tenho palavras para falar esta noite. Sabeis que a cada hora vos aproximais do túmulo? que a cada hora vos aproximais do juízo? que o arcanjo está batendo as asas a cada segundo da vossa vida, e com a trombeta à boca, está se aproximando de vós? que não viveis vidas estacionárias, mas sempre avançando, avançando, avançando, em direção à sepultura?

Sabeis para onde a corrente da vida está se precipitando para alguns de vós? Para as corredeiras — para as corredeiras da dor e da destruição! Qual será o fim daqueles que não obedecem ao Evangelho de Deus? Não tereis tantas horas para viver quantas tivestes no ano passado!

Vede o homem que tem apenas alguns xelins no bolso: como ele os tira e os gasta um a um! Agora ele tem apenas algumas moedinhas, e há tanto para aquela pequena vela, tanto para aquele pedaço de pão. Ele conta os artigos um a um, e assim o dinheiro vai saindo gradualmente do bolso.

Oh! se soubésseis quão pobres sois alguns de vós! Pensais que não há fundo nos vossos bolsos, pensais que tendes uma reserva ilimitada de tempo — mas não tendes! Tão certo como o Senhor vive, há um jovem aqui que não tem mais do que um ano para viver, e ainda assim está gastando tudo o que vale o seu tempo em pecado, em loucura e em vício.

Alguns de vós não tendes sequer isso para viver, e ainda assim como estais gastando o vosso tempo! Ó cuidai! cuidai! o tempo é precioso! e sempre que temos pouco dele, ele é mais precioso, sim, é o mais precioso. Que Deus vos ajude a escapar do inferno e voar para o céu! Sinto-me como o anjo esta noite, que pôs a mão sobre Ló e clamou: “Escapa! Não olhes para trás! não pares em toda a planície: foge para o monte, para que não sejas consumido!”

E agora, aprecio o poder do silêncio. Por favor, observai silêncio estrito e solene até o bater daquele relógio, e cada um passe o tempo como quiser.

[Eram agora dois minutos para as doze, e reinava silêncio profundo, salvo onde soluços e gemidos podiam ser distintamente ouvidos de lábios penitentes buscando o Salvador. O relógio tendo batido, o Sr. Spurgeon continuou:]

Agora estais onde nunca estivestes antes, e nunca mais estareis onde estivestes esta noite.

Agora tivemos uma reunião solene, e tenhamos um final alegre dela. Ao partirmos, cantemos um doce hino para animar os nossos corações.

[Um hino foi então cantado.]

Agora que o Senhor vos abençoe, e levante sobre vós a luz do seu rosto, e vos dê paz! Que durante este ano da graça recebais muita graça, e prossigais adiante em direção ao céu! E que nós, como igreja, como membros de igrejas, como ministros, como diáconos, nos esforcemos mutuamente pela fé de Jesus e sejamos edificados nela! E que o Senhor salve os ímpios! Se o ano passado partiu limpo e eles ainda não estão perdoados e absolvidos, que outro ano não passe sem que encontrem misericórdia!

O Senhor vos despeça a todos com a sua doce bênção, por causa do seu bendito Filho. Amém. E que o amor de Jesus Cristo, a graça de seu Pai e a comunhão de seu bendito Espírito sejam vossos, meus amados, se conheceis a Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém.

Agora, meus amigos, no sentido mais alto e melhor, desejo a todos um feliz ano novo.


Extraído de The Metropolitan Tabernacle Pulpit – Coleção C. H. Spurgeon. Foram feitas apenas as alterações necessárias, como correção de erros ortográficos, algum uso de pontuação, capitalização de pronomes divinos e atualização mínima de algumas palavras arcaicas. O conteúdo é integral. Recursos adicionais baseados na Bíblia estão disponíveis em www.spurgeongems.org.