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terça-feira, 3 de setembro de 2019

O Pecado da Incredulidade


por
Charles Haddon Spurgeon


Um Sermão (Nº 003)
Pregado na Manhã de Domingo, 14 de Janeiro de 1855 pelo
Reverendo C. H. Spurgeon
No New Park Street Chapel— Southwark—Inglaterra

 Um capitão, em cujo mão o rei se apoiara, respondeu ao homem de Deus: ainda que o Senhor fizesse janelas no céu, poderia suceder isso conforme essa palavra? E ele disse: eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás” 
(2 Reis 7:19)

Um sábio pode salvar uma cidade inteira; um justo pode libertar multidões. Os crentes são o sal da terra; graças à sua presença entre os ímpios, estes são poupados. Se os filhos de Deus não atuassem como preservadores das massas, a raça humana não mais existiria. Na cidade de Samaria, onde nosso texto nos leva, havia um justo: era Eliseu, homem de Deus. A piedade havia completamente desaparecido da corte. O rei Jorão era um pecador mergulhado nos mais negros vícios; suas iniqüidades eram gritantes e infames. Ele seguia o caminho de Acab, seu pai, e servia publicamente aos falsos deuses. Como seu monarca, os habitantes de Samaria tinham sido infiéis. Eles tinham abandonado a Jeová, e esquecido o Santo de Israel. A antiga divisa de Jacó: O Eterno seu Deus é o único Senhor (Deut 6:4), não era para eles mais que uma letra morta, e se curvavam diante das divindades abomináveis dos pagãos. Por isso o Deus dos Exércitos fez Israel cair sob as mãos de seus opressores; ele permitiu que Samaria fosse atacada por um exército estrangeiro, ao mesmo tempo castigada por uma fome terrível, de sorte que as maldições pronunciadas sobre o monte Hebal, se cumpriram à letra, e se viu nos muros de Samaria a mulher mais suave e delicada, que não teria, por delicadeza, tentado por a planta de seu pé sobre a terra, olhar, com cobiça nos olhos, seus próprios filhos; e rendida ferozmente pela fome, devorar o fruto de suas entranhas. (Deut 28:56-58).

Entretanto, nesta horrível conjuntura, o profeta do Altíssimo tornou-se um instrumento de salvação para a cidade pecadora. Deus usou o sal para conservar Samaria; ele foi o libertador de todo um povo sitiado. Por causa de Eliseu, de fato, e por sua instrumentalidade, Deus prometeu solenemente que, a partir do dia seguinte, os alimentos, que só se podiam obter a peso de ouro, seriam vendidos a preço vil nas portas da cidade. Imaginem, meus irmãos, a alegria da multidão ao ouvir esta predição sair da boca do santo homem. Todos reconheciam nele um profeta do Eterno; suas credenciais estavam marcadas com o selo divino; tudo o que ele havia predito se realizou. Assim, ninguém poderia duvidar, que nesta ocasião ele estivesse, mais uma vez, falando em nome de Deus.
Certamente os olhos do monarca brilharam de alegria e a multidão esfomeada saltou de júbilo, à perspectiva de uma libertação tão próxima. “A partir de amanhã”, todos eles devem ter gritado, “a partir de amanhã nossa fome será saciada! A partir de amanhã mataremos nossa fome!”.

Mas entre a alegria geral, uma voz se fez ouvir com palavras de incredulidade. Era a voz daquele capitão sobre o qual o rei se apoiara.  Não nos é dito, notemos, que uma única pessoa do povo comum tenha desconfiado da predição de Eliseu; mas um alto personagem ousou fazê-lo. É uma coisa estranha, meus caros ouvintes, mas é um fato incontestável, que Deus escolhe raramente os grandes deste mundo; na verdade parece que o alto status e a fé em Cristo dificilmente estão de acordo. “Impossível!”. Gritou o oficial da corte; e somando a ironia à incredulidade, acrescentou: “eis que ainda que o Senhor fizesse janelas no céu, poder-se-ia isso fazer conforme essa palavra?”. Este foi o seu pecado: não creu na declaração do profeta, ainda que os milagres antes operados, testemunhassem da maneira mais estrondosa que ele era enviado de Deus.

Sem dúvida, o capitão de Samaria havia assistido à maravilhosa derrota de Moab; sem dúvida lhe haviam contado como Eliseu tinha descoberto os segredos de Ben-Hadad; como ele tinha abatido com cegueira os soldados enviados para lhe prender; como os tinha levado até aos muros de Samaria. Não podemos imaginar que a ressurreição do filho da Sunamita, ou a história dessa viúva, cujo óleo miraculosamente foi multiplicado pelo homem de Deus e bastou para pagar sua dívida, não fossem de seu conhecimento; e quanto à cura de Naamã; ela deve ter sido, certamente, o assunto de todas as conversas da corte (2 Reis 3, 2Reis 4, 2 Reis 5, 2 Reis 6). Entretanto, na presença de tamanha quantidade de evidências, diante dessas provas irrefutáveis da missão divina do profeta, o capitão não depositou fé em sua palavra. Pior ainda, ele a ridicularizou. Foi então que o Senhor, pela boca daquele mesmo que acabara de proclamar a libertação, fez ouvir sua sentença de condenação: “Tu verás com os teus próprios olhos, mas não comerás”. E a Providência, que sempre cuida em fazer cumprir a palavra de sua profecia, tão fielmente quanto o papel reproduz os caracteres nela impressos, - a Providência, dizíamos, fez morrer esse homem. Pisoteado nas ruas de Samaria, pereceu às portas da cidade, tendo contemplado com seus próprios olhos a abundância prometida, mas não podendo aproveitá-la.

As circunstâncias que ocasionaram esta morte trágica são desconhecidas. Talvez a forma orgulhosa e insultante do infeliz, tenha exasperado a povo; talvez ele tenha tentado impedir a multidão que se precipitava em direção às portas; talvez, ainda, tenha sido atropelado por um simples acidente (como comumente se diz); o que quer que tenha sido, o que permanece certo é que ele viveu para ver a profecia justificada pelo acontecimento, mas não o bastante para desfrutar dos benefícios anunciados pela palavra do profeta.

Eu me proponho, meus caros ouvintes, a chamar sua atenção neste dia, sobre dois pontos principais: o PECADO do homem e o seu CASTIGO. Pode ser que ao tratar do meu tema, eu não faça, exceto raramente, alusão ao homem que acabei de lhes lembrar nesta emocionante história; entretanto, espero que esse caso em particular, me ajude a melhor extrair as verdades gerais que quero lhes apresentar.


I. Em primerio lugar, o PECADO.
Primeiramente, dissemos já uma vez, que O PECADO desse homem foi a incredulidade. Ele não depositou fé na palavra de Deus; ele duvidou da veracidade e do poder do Altíssimo. Em outros termos, ele acreditava que o Senhor não cumpriria sua promessa, ou que a coisa prometida estava fora dos limites da possibilidade.

Nada é mais complexo que a incredulidade; ela possui mais fases que a lua e mais nuanças que o camaleão. Segundo uma crença popular, o diabo se mostraria às vezes de uma forma e ora de outra. O que é falso quanto a Satanás em pessoa, é perfeitamente verdadeiro quanto à incredulidade, esta filha primogênita de Satanás. Pode-se dizer dela, com toda a verdade, que seu nome é legião, porque suas formas são várias. Ora a incredulidade me aparece disfarçada em anjo de luz; ela se cobre com o nome de humildade e fala algo parecido com estes termos: "Deus me guarde da presunção ! Deus me guarde de afirmar que o Senhor me perdoa; eu sou um pecador grande demais para ousar contar com sua graça". Com freqüência os cristãos mesmos se deixam levar por esta artimanha de Satanás, e louvam a Deus por ter abençoado uma alma com tão bons sentimentos. Mas, longe de louvar a Deus, eu gemo por essa alma, porque sob esse agasalho emprestado, reconheço o demônio da dúvida.

Outras vezes, a incredulidade coloca em questão a fidelidade de Deus: "É verdade que o Senhor me ama, se diz; mas quem pode dizer se ele não vai me rejeitar em seguida ? É verdade que ontem ele me socorreu e me ponho ainda sob a sombra de suas asas; mas quem pode dizer se ele amanhã não me abandonará ? Quem pode dizer se ele sempre se lembrará de sua aliança e não esquecerá sua compaixão ?" Outras vezes ainda, a incredulidade inspira dúvidas sobre o poder de Deus. Alguém encontra em seu caminho novos entraves, ou é enlaçado por uma rede de dificuldades e pensa em seu coração: "Certamente o Senhor não saberia nos livrar". Então tenta por si mesmo se desembaraçar de seu fardo, e por que não consegue, imagina que o braço de Deus é tão curto quanto o nosso, e que sua força tão fraca como a força humana.

Mas, se essas diversas formas de incredulidade são perigosas no mais alto grau, porque elas retêm as almas longe de Jesus e levam-nas a duvidar de seu poder ou de seu amor, o que dizer daquela incredulidade terrível, confessada, mais revoltante, que, orgulhosamente e em suas cores verdadeiras, blasfema contra Deus e nega atrevidamente sua existência? O deismo, o ceticismo e o ateísmo, tais são os frutos maduros e envenenados da árvore da dúvida; essas são as mais terríveis erupções do vulcão da incredulidade. Sim, pode-se dizer verdadeiramente que ela atingiu sua perfeita estatura, que ela encontrou seu apogeu, esta incredulidade que, tirando toda a máscara e deixando de lado todo o disfarce, percorre insolentemente a terra dando seu grito de revolta: "Não há Deus !" E que levantando o braço contra Jeová, tenta abalar o trono da divindade, e em sua inconcebível loucura, parece não aspirar nada mais que se fazer Deus. Entretanto, meus amigos, notem bem que a incredulidade se manifesta sob formas mais ou menos grosseiras, mais ou menos atenuadas, mas sua natureza permanece a mesma; a seiva é a mesma, ainda que os ramos sejam infinitamente variados.

Há neste mundo certas pessoas muito estranhas, para dizer pouco, que sustentam que a incredulidade não é pecado. E o que é mais inexplicável, é que há pessoas que apesar de uma fé religiosa robusta, caem nesse erro. Conheço um jovem que entrou um dia em uma reunião de amigos e ministros do Evagelho, no momento em que se discutia muito seriamente esta questão: "É pecado o homem não crer no Evangelho ?" Pasmo, o jovem tomou a palavra e disse: "Senhores, estou ou não na presença de cristãos ? Vocês crêem ou não crêem na Bíblia ?" – "É inegável que nós somos cristãos", responderam todos de uma só voz. "Então, retomou o jovem, por que esta discussão ? A Escritura não diz, expressamente, que o mundo será convencido do pecado, porque não crerá em Cristo ? Ela também não denuncia a condenação de todo o pecador que recusa crer no Filho de Deus ?"
Este arrazoado, meus irmãos, não lhes parece tão simples quanto conclusivo ? Quanto a mim, lhes confesso, não posso compreender que homens que dizem ter respeito pela palavra inspirada, não aceitem implicitamente o que ela ensina. Eu não posso compreender que sob o pretexto de aliar a verdade com não sei quais dados da razão humana, se tenha ousadia de negar as declarações divinas. A verdade é uma torre forte que não tem necessidade de ser apoiada pelo erro. A Palavra de Deus saberá muito bem permanecer em pé, apesar dos ataques de seus inimigos e sem os sofismas de seus pretensos amigos. Pois a Escritura declara nestes termos a causa da condenação: que a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz; lá nós lemos palavras como estas: aquele que não crê, já está condenado, porque não crê no nome do Filho de Deus; eu não temo afirmar da maneira mais positiva, com a Palavra de meu Mestre, que a incredulidade é um pecado.

Sejamos razoáveis, são necessários grandes argumentos para demonstrar esta verdade ? Ela não se prova, por si mesma, a todo espírito racional e sem preconceito ? O quê ? Não é uma coisa medonha, que uma criatura ouse colocar em dúvida a Palavra daquele que a formou ? Não é um crime e um insulto à Divindade, que eu, miserável átomo, grão de areia perdido nesta imensidão, ouse desmentir o Todo-poderoso ? Não é o cúmulo da arrogância e do orgulho, que um filho de Adão diga em seu coração: "Deus ! Eu duvido de tua graça, duvido de teu amor, duvido de teu poder !" Oh ! Meus queridos ouvintes, creiam-me; ainda que fosse possível amalgamar, por assim dizer, os mais vergonhosos delitos; ainda que vocês pegassem os assassínios, a blasfêmia, a cobiça, o adultério, a fornicação, em resumo, tudo o que há de mais vil, de mais imundo, de mais revoltante sobre a terra, e que todos estes crimes reunidos, vocês pudessem deles fazer um único crime monstruoso, esta massa hedionda de corrupção e de impureza, seria menos ainda que o pecado de incredulidade. Sem opositor, esse é o pecado rei; ele é a quintessência de tudo o que é mal; o princípio e o veneno de todo o vício; a escória de toda a maldade, a obra-prima de Satanás. Mas para melhor lhes fazer compreender a excessiva malignidade desse pecado, permitam-me entrar com alguns desenvolvimentos.

1. Primeiramente, observem que a incredulidade pode ser chamada, e com justiça, a mãe de todos os outros pecados. De fato, não há crime que ela não possa engendrar. A ela deve ser imputada, em grande parte, a culpa pela queda de nossos pais. O quê ? -pergunta o tentador à Eva – Deus disse para vocês não comerem de toda a árvore do jardim ? Ele insinua habilmente uma dúvida em sua alma - "Seria correto lhes fazer uma restrição como essa ?" parece lhe dizer.
A incredulidade foi como a parte mais afiada da lâmina mortal, que Satanás introduziu no coração de Eva; foi ela quem abriu passagem à curiosidade, à cobiça e a todo tipo de maldades pensadas. E desde o dia, nunca suficientemente lamentado, quando o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, quem poderia contar as iniqüidades sem número, às quais a incredulidade deu origem ? Todo incrédulo é capaz de cometer o mais negro dos crimes que jamais tenha poluído a terra. A incredulidade, meus irmãos, foi ela que endureceu o coração de Faraó, ela que descontrolou a língua de Rabsaquê, ela que tornou-se deicida e crucificou o Rei da Glória ! Não é a incredulidade, que a cada dia ainda, afia a faca do suicida, prepara a taça envenenada, conduz à prisão milhares de criminosos, e faz descer à tumba ignominiosa o pecador contumaz que se lança ao encontro de seu Juiz, com as mãos ainda tintas de sangue ? Aponte-me um homem incrédulo; me assegurem de que ele despreza a Palavra de Deus, que ele não deposita fé nem em suas promessas, nem nas suas ameaças; e postas estas premissas , eu não temeria concluir que, a menos que um poder preventivo extraordinário seja exercido sobre esse homem, algum dia ele será culpado dos excessos mais vergonhosos. A incredulidade é o Belzebu dos pecados; como o príncipe dos demônios, ela não anda só; mas quando ela penetra no coração, traz sempre em seguida um longo cortejo de maus espíritos. Nela encontramos o germe de todos os vícios, a semente de toda a iniqüidade; em resumo, não há nada mais odioso, mais vil, mais degradante no mundo, que não esteja incluído nesta única palavra: INCREDULIDADE.

E este é o momento de dizer que a incredulidade que se introduz em alguns momentos no coração do filho de Deus, é absolutamente da mesma natureza daquela do não convertido. Sem dúvida, suas conseqüências finais serão bem diferentes, porque a incredulidade do cristão lhe será perdoada... Que digo eu ? Ela já está perdoada ! Ela foi colocada, com todas as suas transgressões, sobre a cabeça daquele cujo símbolo era o bode emissário; por conseqüência, ela foi expiada e apagada para sempre. Entretanto, repito, quanto à sua natureza, ela não difere em nada da outra incredulidade. Digo mais: se há um pecado mais odioso ainda que a incredulidade do mundano, certamente deve ser a incredulidade do filho de Deus. Que alguém ponha dúvida na Palavra de seu Mestre, aquele que recebeu inumeráveis testemunhos de seu amor, de garantias reiteradas de sua misericórdia, mostre desconfiança em seu Pai celeste, oh! não é isso, lhes pergunto, uma iniqüidade sem nenhum paralelo ? No cristão, não menos que no mundano, a falta de fé é a raiz de toda a sorte de maldade. Quando eu for perfeito na fé, serei perfeito em relação a tudo. Obedecerei sempre os preceitos de Deus, se eu sempre crer em suas promessas. Eu peco, porque minha fé é fraca. Que eu seja pobre, abatido por preocupações, desprovido de tudo, mas se posso com confiança levantar minhas mãos ao alto e dizer: “o Senhor proverá”, ninguém me verá jamais recorrer a meios iníquos para melhorar minha posição; mas, ao contrário, se não deposito fé nas promessas divinas, o quê virá ? Talvez pudesse furtar, ou cometer alguma ação desleal para escapar dos meus credores, ou mergulharia nos hábitos da intemperança para afogar minhas ansiedades. Tirem-me a fé, e meu ser moral não terá mais freio. Ora, como controlar sem freios nem rédeas, um cavalo indócil ? Tal como a fábula nos apresenta o carro do sol conduzido por Faeton, assim nós seríamos sem a fé – errantes ao acaso e indo para a perdição. É, portanto, correto dizer que a incredulidade é a mãe de todos os vícios; é o pecado por excelência, porque traz em seu seio todos os outros.

2. Mas não é tudo. Não somente a incredulidade dá origem aos pecados, mas ainda os alimenta e conserva. Vocês nunca se perguntaram, meus amados ouvintes, como os homens continuam vivendo segundo os ditames de seu próprio coração, mesmo tendo sobre seus ouvidos as ameaças do Sinai ? Como se explica, por exemplo, que quando um Boanerges (isto é, filho do trovão, Mc 3:17), sustentado pela graça de Deus, levanta a voz e grita do alto da tribuna da verdade: “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las” (Gl 3:10; Deut 27:26); como se explica que o pecador escute sem tremer as terríveis ameaças da justiça divina, e permaneça em seu endurecimento e nada mude em seu mau caminho ? Vou lhes dizer, meus amigos, é simplesmente porque a incredulidade está no fundo de seu coração; é ela que impede as ameaças de Deus tocarem seu coração. Quando nossos mineiros trabalhavam diante de Sebastopol, eles não podiam, e vocês sabem por que, trabalhar tranqüilamente diante dos muros da cidade; assim, o que fizeram eles ? Primeiro eles tiveram o cuidado de construir as trincheiras atrás das quais poderiam responder ao fogo inimigo e prosseguir seu trabalho embaixo da terra sem perigo. Acontece o mesmo com o não convertido. Sua trincheira é a incredulidade. Satanás lhe dá este abrigo, a fim de que as exigências da lei não atinjam sua consciência. Ah ! Pecador que hoje está envolvido por uma orgulhosa indiferença, se nunca o Santo Espírito se dignar a converter sua incredulidade, se ele não se dirigir a você com uma demonstração de espírito e de poder, com que força a Palavra de Deus salvará sua alma ? Virá o dia quando os homens serão fortemente convencidos que a lei é santa e que o mandamento é santo, justo e bom; quem poderia marcar limites ao poder da Escritura sobre seus corações ? Eles se veriam constantemente suspensos em cima do inferno; eles levariam a sério às ameaças divinas. Então, não haveria mais, na casa de oração, nem indiferentes, nem sonolentos, nem ouvintes desatentos; então, depois de ouvir a Palavra, ninguém a esqueceria tão rápido. Sim, eu digo isto com plena convicção, sem a incredulidade, nenhuma exigência lançada pelas temíveis baterias da lei, deixaria de atingir seu alvo e grande seria o número daqueles que seriam mortos pelo Eterno. (Is 66:16).

Como é possível que os homens possam ouvir os doces, tocantes convites da cruz do Calvário, sem vir a Cristo ? Como é possível que quando os pregadores do Evangelho tentem lhes expor os sofrimentos inexprimíveis de Jesus, quando lhes falam de sua paixão e de sua agonia, e terminem por lhes dizer da parte de Deus – há ainda lugar; venham porque tudo foi feito – digam, meus caros ouvintes, como é possível que seus corações não lhes sejam quebrantados ? Por que vocês não gritam, batendo no peito:

Ó Cristo, teu amor profundo
Toque, penetre nosso coração;
Tu morreste pelos pecados do mundo,
Só tu és nosso Deus e Salvador ?

E no entanto me parece que a cena do Calvário é comovente o suficiente para amolecer o mármore mais duro! Creio que o lúgubre drama do Gólgotha faria chorar até as pedras, e deveria arrancar lágrimas de arrependimento e de amor ao miserável mais endurecido! Mas vejam. Nós lhes falamos e falamos estas coisas e onde estão aqueles que se afligem ? Onde estão aqueles que choram ? Oh ! Humilhante insensibilidade do coração do homem ! Até as rochas se fenderam ao ver Jesus morrer; e vocês, que a cada dia o contemplam, por assim dizer, crucificado de novo sob seu olhos, assistem a este espetáculo com tanta despreocupação que ele não lhes diz mais nada ! Oh ! Vocês todos que passam, olhem e vejam. Não lhes importa que Jesus esteja morto ? "Não. Isso não nos toca", na maioria das vezes vocês respondem. Por que é assim, meus amigos ? Ah ! É por que entre vocês e a cruz do meu Salvador, há pensamentos de incredulidade. Se o véu espesso da dúvida não lhes furtasse a figura divina de Jesus, seu olhar de amor derreteria o gelo de seus corações. Mas a incredulidade neutraliza, de alguma maneira, o poder do Evangelho; ela o impede de agir sobre a alma e somente quando o Santo Espírito expulsa essa incredulidade, quando Ele dá um golpe mortal no ceticismo natural do coração humano, então o pecador pode se aproximar de Jesus e pôr nele sua confiança.

3. Uma terceira consideração que nos fará compreender bem apropriadamente o quanto a incredulidade é odiosa, é que ela nos incapacita para toda boa obra.
Estas palavras do Apóstolo – tudo o que não é feito com fé, é pecado (Rm 14:23) - são verdadeiras em mais de um sentido. Deus não se agrada quando não dou valor à moralidade ! Deus se agrada quando eu me refiro à probidade, à temperança ou qualquer outra virtude humana, com elogio e respeito. Mas depois de ter dado a essas coisas seu legítimo valor, sabem o quê eu acrescentarei ? Isto: todas as virtudes puramente humanas, são parecidas com aquelas pequenas conchas que servem de moeda em certas partes da Índia. Eles servem para comprar na Índia, mas na Europa não têm valor algum. Analogamente, as virtudes humanas podem servir como moeda corrente aqui embaixo, mas no alto não servem para nada. Se você não tem algo melhor que sua própria excelência, você não entrará jamais no céu. Sem dúvida, se devesse passar minha vida no meio do povo indiano, eu teria que ter muitas conchas; mas se devo viver num país civilizado, uma outra moeda me é necessária. Assim, a probidade, a temperança e outras coisas semelhantes, são muito boas para a terra, e quanto mais vocês as possuírem, mais lhes valerá. Todas as coisas que são justas, puras, amáveis e de boa reputação, eu lhes exorto, meus irmãos, à procurar e praticar; mas ao mesmo tempo lhes declaro, lhes é necessário mais para entrar no céu. Sem a fé, todas essas coisas reunidas não têm nenhum valor diante de Deus. As virtudes, sem a fé, são pecados caiados por fora e nada mais. A obediência sem a fé – (admitindo que isso fosse possível) – não seria mais que desobediência disfarçada. A incredulidade anula tudo. É a mosca que deteriora o perfume (Ecc 10:1); é a erva venenosa que envenena o jarro (2 Reis 4:38-41). Se possuíssemos todos nós a pureza mais amável, a filantropia mais generosa, a simpatia mais desinteressada, o gênio mais nobre, o patriotismo mais devotado, a integridade mais conscienciosa, mas não tivéssemos a fé, não temos nada. Sem a fé, diz o Apóstolo, é impossível agradar a Deus.
E esta incapacidade para o bem, inseparável da incredulidade, é encontrada entre os cristãos mesmos, por conta de uma fé fraca.

Permitam-me, meus irmãos, lhes contar uma simples história, um fato narrado nos Evangelhos. Um certo homem tinha um filho possuído de espírito maligno. Jesus estava no monte Tabor, na glória de sua transfiguração. Não podendo chegar até o Mestre, o infeliz pai conduziu seu filho aos discípulos. A primeira atitude deles foi dizer: "Sim. Nós expulsaremos o demônio!" e logo lhe impuseram as mãos. Mas de repente uma dúvida surgiu em seus corações. "Será que vamos conseguir?" questionaram uns aos outros com inquietação. Logo o possuído começou a espumar; rangia os dentes, e rolava por terra, se debatia em terríveis convulsões. Evidentemente, o espírito maligno ainda estava lá. Em vão os discípulos redobraram os esforços. Como um leão na caverna, o demônio parecia lhes desafiar. “Espírito impuro! Sai deste homem!” gritaram com nova energia; mas ele não saiu. “Espírito das trevas! Volte para o seu lugar !" repetiram; mas ele não lhes obedeceu. Os lábios incrédulos dos discípulos não podiam incomodar o Maligno, que pronto lhes pôde dizer: "Eu conheço a fé e conheço Jesus, mas não sei quem são vocês." Se os discípulos tivessem a fé somente como um grão de mostarda, eles teriam expulsado o demônio; mas sua fé era fraca; por isso eles foram incapazes.
Vejam, ainda, o que aconteceu ao Apóstolo Pedro. Ele cria na palavra de Jesus e andou sobre as ondas. Que andar admirável, que me faz freqüentemente invejar o apóstolo. Se sua fé não tivesse enfraquecido, quem poderia dizer até onde Pedro teria ido ? Com a fé para sustentá-lo, ele teria podido atravessar o Atlântico e atingir o Novo Mundo ! Mas eis que, depois de um momento, Pedro vê uma onda ameaçadora que vem em sua direção e ele se pergunta aterrorizado: "Ela não vai me engolir ? " Depois ele pensa: "Que presunção a minha em ousar me aventurar assim sobre as ondas ?" Logo, Pedro começa a afundar. A fé era a corda que o mantinha em cima da água. Com ela, seu passo estava firme; sem ela, começou a perder o pé. Será sempre assim conosco também, meus amados irmãos. Todos, quantos sejamos, temos de andar sobre as águas. O quê é sua vida ou a minha, senão um andar constante em meio às ondas furiosas? Você queria permanecer de pé em meio ao mar tormentoso ? Tenha fé em Deus. No momento em que você deixar de crer, as águas da aflição entrarão em sua alma e você afundará. E por que, então, você ainda duvida, ó gente de pequena fé ?

A fé desenvolve todo o bom pensamento, todo o bom sentimento; a incredulidade, ao contrário, os mata. Quantas orações não foram sufocadas desde seu nascedouro! Quantas santas aspirações não foram abatidas de morte, antes mesmo de verem o dia! Quantos louvores não teriam alimentado os corações celestes e foram rechaçados pelo sopro ímpio da dúvida! Quantos nobres projetos, concebidos no coração, foram tristemente abortados por causa da incredulidade ! Aquele homem seria talvez um missionário devotado; aquele outro, um ousado pregador do Evangelho, se a incredulidade não tivesse esfriado seu generoso propósito. Mostre-me um gigante espiritual incrédulo, e logo ele se tornará um anão. A fé é, para o cristão, o que era sua cabeleira para Salomão. Tire-lhe a fé e você poderá lhe furar os olhos e reduzi-lo a uma completa incapacidade.

4. Observem ainda, meus caros ouvintes, que o pecado de incredulidade deve ser de uma natureza odiosa, porque em todos os tempos o Senhor o puniu severamente. Para nos convencermos desse fato, abramos as Escrituras.
Eu vejo um mundo cheio de brilho, beleza e esplendor, onde suas montanhas riem ao sol e seus vales são banhados por uma atmosfera de ouro. Virgens dançam sob as sombras e jovens cantam em coro. Oh! Maravilhosa visão!
Mas, subitamente um velho de aspecto grave e respeitável aparece em cena. Ele levanta sua mão e grita : “Em breve um dilúvio vai cair sobre a terra e as fontes do grande abismo se romperão; as águas cobrirão todas as coisas. Estão vendo esta arca? Durante 120 dias trabalhei com minhas próprias mãos para construí-la. Apressem-se e nela busquem refúgio e serão salvos”. “Ah ! Velho crédulo, que temos nós contigo? Lhes respondem zombando. Deixe-nos aproveitar a vida em paz. Pensaremos no dilúvio quando ele vier. Mas ele não virá, nós sabemos. Vá profetizar a outros. “E a multidão despreocupada, retoma seus cantos e danças. Mas ouçam, incrédulos! Vocês ouvem esse barulho surdo e estranho? As entranhas da terra começam a perturbar-se; seus vastos flancos estão sendo devastados por terríveis convulsões internas. Cedendo a uma tensão enorme, elas eclodem, e águas concentradas, que desde o dia em que Deus as confinou no interior do globo, jamais haviam aflorado, escapam por todas as partes em torrentes impetuosas. E a abóbada celeste! Ela é fendida ao meio. E chove, não apenas gotas de água, mas torrentes de nuvens inteiras. Uma catarata, mais potente que a de Niágara, se precipita do firmamento com um clamor terrível. Os dois abismos – o abismo de cima e o abismo de baixo – se encontram e dão as mãos. Onde estão vocês agora, ó incrédulos ? Eu olho, procuro, e não vejo mais que um único homem; em pé sobre uma ponta de rocha, que se eleva solitário acima das águas. Por longo tempo sua mulher se agarrou a seu corpo, mas seu esforço foi em vão! Ela acaba de ser arrastada. Ele mesmo perde rapidamente o pé. A água atinge seu peito. Ouçam seu último grito! Ele sucumbe, se afoga e é levado pela correnteza. Então Noé, olhando da arca, não vê nada, mais nada. Reina o vazio, o caos, o nada! Os monstros marinhos se batem dentro dos palácios dos reis. Tudo está revirado, submerso, revolvido sob as águas. Qual é a causa desta terrível catástrofe? Meus irmãos, vocês disseram: é a incredulidade! Pela fé, Noé foi salvo. Pela incredulidade, o mundo pereceu.

Abramos, ainda, a Escritura. Eis aqui dois grandes servos de Deus, Moisés e Arão. Eles receberam a missão de introduzir o povo de Israel na terra de Canaã, mas, coisa estranha, eles mesmo não puderam entrar. Por que isso? A Palavra de Deus vai nos dizer. Eles não honraram o Eterno diante do povo, nas águas de contestação. Eles bateram na rocha com um gesto de impaciência, ou seja, eles foram incrédulos; e o Senhor os condenou a morrer antes de entrar na terra da promessa, naquele bom país pelo qual eles haviam suspirado e sofrido (Nm 20: 1-13).  

Um outro exemplo. Deixem-me lhes conduzir, meus irmãos, por aquele meio selvagem e desolador que Moisés e Arão andaram. Como o beduíno nômade, tornaram-se filhos do deserto. Viajantes cansados, errantes pelas areias escaldantes do deserto da Arábia. Ali, jaz um esqueleto ressecado pelo sol; aqui, podemos ver um outro; mais distante, um terceiro; mais longe ainda, outros vários. O que são esses ossos ressequidos? De onde vieram tantos restos humanos? Quem me explicará sua presença neste lugar ? Certamente, o vento do deserto ou o fogo inimigo fez perecer aqui, em uma única noite, um potente exército. Não, esses ossos são os ossos de Israel; esses restos são das velhas tribos de Jacó. Elas não puderam entrar no país da promessa, por causa do medo e da incredulidade. Elas não depositaram confiança em Deus. Os espias tinham declarado que a conquista de Canaan era impossível e o povo creu neles mais que em Jeová (Nm 13).  

Eis por que os corpos mortos daquela geração caíram em sua solidão. Não foram os descendentes de Hanaque que destruíram Israel; o vento em brasa do deserto não consumiu aquela gente de elite e as águas do Jordão não puseram obstáculo à sua entrada em Canaan; nem os Heveus, nem os Jebuseus os exterminaram. A incredulidade somente, foi a causa de sua perdição. Oh ! Infeliz Israel ! Depois de quarenta anos de marcha penosa no deserto, ver-se excluída da terra prometida, em punição de sua incredulidade !
E sem ter medo de multiplicar, além da medida, a quantidade de exemplos do mesmo gênero que a Bíblia me fornece, vejam Zacarias, o pai do Precursor. Ele duvidou, vocês sabem, e imediatamente o anjo o fez ficar mudo; sua língua foi amarrada, por causa de sua falta de fé.

Mas queiram, meus queridos amigos, contemplar, sob as cores mais sombrias, as terríveis manifestações de incredulidade. Vocês querem saber de que maneira o Senhor castiga uma nação que não crê? Venham comigo à Jerusalém, a este massacre assustador, sem precedentes na história! Vejam os Romanos pondo no chão as muralhas da santa Cidade; vejam-nos fazendo passar ao fio da espada ou vendendo como escravos nos mercados públicos, todos os habitantes que encontraram na cidade. Releiam a história comovente da destruição de Jerusalém cumprida por Tito. Detenham-se no relato trágico da morte desses judeus desesperados que, antes de cair nas mãos dos Romanos, se golpearam mutuamente. Mas, por que temos necessidade de olhar o passado? Os julgamentos de Deus não pesam ainda sobre o seu povo ? Hoje ainda, Israel não está dispersa sobre a face da terra, errante, exilada, sem nacionalidade e sem pátria ? Ela foi cortada, como um sarmento é cortado do cepo. E vocês sabem por que ? Foi em punição por sua incredulidade. Aqui e em nenhum lugar mais, está a causa das calamidades que foram derramadas sobre esse povo. Também, toda a vez que vocês encontrarem um judeu com olhos sombrios e tristes; toda a vez que vocês o virem, filho de uma terra longínqua, pisando, como um proscrito, um solo estrangeiro, digam a vocês mesmos: “Foi a incredulidade, ó Israel, que lhe fez tornar-se assassina de Cristo; foi ela que lhe dispersou entre as nações; e só a fé – a fé no Nazareno crucificado – poderá lhe fazer entrar outra vez em sua pátria e lhe dar seu antigo esplendor.”

Oh! Sim, Deus odeia a incredulidade com um ódio todo particular. Como Caim, Ele a marcou na fronte com o sinal de sua cólera. Ele a abateu com rudes golpes no passado e a aniquilará completamente no fim. A incredulidade desonra o Senhor. Qualquer outro crime não toca, por assim dizer, Seu território, mas este ousa atacar sua divindade mesma; ele vai contra a Sua verdade, nega Sua misericórdia, insulta Seus atributos, desfigura Seu caráter. Por isso repito, não há nenhum pecado tão abominável aos olhos de Deus como o pecado da incredulidade, sob qualquer forma que ele seja produzido.

5. Emfim, para fechar esta parte de meu tema, eu lhes faria notar, meus amigos, que a incredulidade é um pecado irremissível. O Evangelho nos fala de um pecado pelo qual Cristo não morreu: é o pecado contra o Espírito Santo. Mas existe um outro pelo qual Jesus jamais fez expiação: o pecado da incredulidade. Digam-me, um após outro, todos os crimes que figuram no catálogo do mal, e lhes citarei as pessoas a quem esses crimes foram perdoados; mas perguntem-me se um homem que morre incrédulo pode ser salvo, eu lhes responderei sem hesitar: “Não, não há perdão, não há salvação possível para esse homem!”. Sem dúvida, a incredulidade do filho de Deus foi expiada, porque ela é temporária; mas para aquela incredulidade final, que jamais se arrepende, eu lhes repito, não foi feita expiação por ela. Examinem a Bíblia do começo ao fim; em seu todo vocês encontrarão que o homem que morre sem possuir a fé, não pode esperar nada mais que condenação eterna. Ele está fora da graça divina. Se foi dado como culpado de todos os outros pecados, mas havia possuído a fé, ele foi salvo; mas se não a possuiu, por conseqüência está condenado. Demônios, ele lhes pertence! Espíritos infernais, precipitem-no no abismo! Ele não creu e foi para convidados como esse que o inferno foi preparado. O inferno é o quinhão dos incrédulos; é sua herança, seu patrimônio, a prisão que em todos os tempos lhes foi destinada. As cadeias eternas estão marcadas com seus nomes, e eles reconhecerão, como nunca, a verdade desta palavra de Cristo: Aquele que não crer será condenado!

II. Isto nos conduz naturalmente a abordarmos a segunda parte de nosso temam, ou seja, o CASTIGO.
Nós pedimos sua atenção  sobre a natureza e sobre alguns dos principais caracteres do pecado no qual o capitão de Samaria se fez culpado; nos falta constatar qual foi seu CASTIGO. “Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás” – tal foi a sentença da parte de Deus que Eliseu lhe pronunciou.

Ouçam esta sentença, ó incrédulos, porque se vocês não se converterem, ela será também a sua ! Sim, vocês também, vocês verão com os seus olhos, mas não comerão jamais. E isto, em certas circunstâncias, pode ser aplicado mesmo aos filhos de Deus. Quando sua fé é flácida, eles contemplam as maravilhas da graça divina, mas não podem delas nutrir-se. Assim, por exemplo, se pode dizer que naquela terra do Egito, há agora trigo em abundância; entretanto, há muitos cristãos que no domingo, ao entrar na casa de Deus, dizem com tristeza : “Eu não sei em verdade se o Senhor estará comigo hoje”. Outros ainda, ouvindo o pregador, pensam em suas mentes: “Certamente o Evangelho foi fielmente anunciado, mas não sei se penetrará nos corações”. Estes cristãos estão sempre a duvidar e a temer; a temer e a duvidar. Também lhes pergunte, ao sair do culto divino, se suas almas encontraram o alimento que precisavam. “Não”, lhes responderão suspirando, “não havia nada que nos convencesse”. Eh! É tudo muito simples, meu irmão. Você viu com os seus olhos o pão da vida, mas não o pôde comer, porque você não tinha fé. Se você tivesse trazido à casa de Deus um coração simples e confiante, você teria se alimentado bem. Eu conheço cristãos que se tornaram tão extremamente exigentes e refinados, que se a carne espiritual que lhes apresentam, permitam-me a expressão, não foi destacada de suas imaginações, ou servida através da pesquisa mais esmerada, eles não a querem. Então, não ficarão totalmente subnutridos? E que tomem cuidado, porque isto acontecerá com eles muito provavelmente, se continuarem a se mostrar tão difíceis. Ou talvez, as ervas amargas da aflição estimularão seus apetites enojados ou Deus lhes obrigará a jejuar durante algum tempo, após o que, eles se verão como muito felizes ao receber o alimento mais ordinário e simples. Ora, onde procurar a causa secreta desse espírito descontente e crítico que impede também os filhos de Deus de aproveitar da pregação do Evangelho, se não na incredulidade? Se vocês cressem, meus amados, vocês ouviriam uma única promessa de Deus, e isso lhes bastaria. Bastaria apenas dirigir a vocês uma boa palavra diretamente do trono de Deus; porque não é o que ouvimos, mas o que nós nos apropriamos, por uma fé real e viva que traga proveito à alma.

Mas é, sobretudo, aos não convertidos que se aplica esta terrível ameaça : tu verás com os teus olhos, mas não o comerás. De fato, os filhos do mundo vêem cumprir-se sob seus olhos as obras magníficas do Senhor, e permanecem completamente estranhos. Hoje mesmo uma grande multidão veio a este lugar de culto para ouvir a pregação da Palavra, mas quantos, infelizmente retornarão com a alma tão vazia quanto entraram ! O homem não pode nutrir sua alma pelas orelhas, mais do que seu corpo pelos olhos. E, no entanto, a maioria de nossos ouvintes, vem à casa de Deus por pura curiosidade. “Vamos ouvir aquele orador, dizem eles; vamos ver aquele caniço agitado pelo vento”. Assim, eles vêm e voltam; eles vêm, vêm, vêm de novo, mas não recebem nenhuma bênção. Ao redor deles, há talvez pessoas que se convertem. Aqui, uma alma foi chamada pela graça soberana de Deus; ali, um pobre pecador se derrete em lágrimas sentindo a sua culpa; acolá, um coração contrito implora a graça divina e além dele uma voz repete a oração do arrependido: Oh! Deus, tenha misericórdia de mim, pecador. Mas quanto àqueles, nada os toca. Eles permanecem frios e impassíveis. É assim que, neste momento em que lhes falo, uma bela obra se processa neste rebanho; mas a maior parte de vocês, daquilo não sabe nada, nem se interessa, porque nenhuma obra é feita em seus próprios corações. E como poderia ser diferente, meus amigos ? Vocês julgam esta obra impossível; duvidam do poder de Deus; não crêem em sua ação regeneradora; em outros termos, vocês são incrédulos. Disso vem, que neste tempo de glorioso avivamento e de efusão da graça, o Senhor, que nunca prometeu agir em favor daqueles que não o honram, permite que suas almas permaneçam sem arrependimento, sem vida e sem salvação. Vocês vêem com seus olhos, mas não comem.

Mas não é tudo, ó pecadores ! O mais terrível cumprimento desta sentença, ainda está por vir. Conta-se que o ilustre pregador Whitefield levantava, às vezes, suas duas mãos aos céus, gritando com todas as suas forças – e como eu gostaria que me fosse dado a gritar neste instante mesmo – “A cólera virá ! A cólera vem!”. O que é a cólera do tempo presente, comparada com aquela que caíra sobre vocês no futuro? Oh! Então, verdadeiramente vocês verão com seus olhos, mas não poderão comer. 

 Parece que o grande dia do julgamento é chegado. O tempo já não existe; eu ouço vibrar seu sino fúnebre; sua última hora soou; a eternidade tomou lugar. O mar está em ebulição; suas vagas batem com um estrondo sobrenatural. Eu vejo um arco-íris, uma nuvem densa que atravessa o espaço. Sobre essa nuvem está um trono, e sobre o trono está sentado alguém semelhante ao Filho do Homem. Sim, é ele, eu o reconheço ! Em sua mão, ele segura a balança da justiça divina. Diante dele estão os livros – o livro da Vida, o livro da Morte, e o livro das memórias. Eu vejo seu esplendor, e me regozijo; eu contemplo a pompa de sua chegada e estremeço de alegria por aquele que, enfim, veio para ser admirado por todos os seus santos. Mas eu percebo, no fundo do quadro, uma multidão de infelizes, tremendo, perdidos, tomados de horror. Eles curvam suas frontes até ao pó; eles tentam se esquivar de todos os olhares. “Rochas, caiam sobre nós ! “ - eles gritam. “Montanhas, escondam-nos de sua face ! “ Sua face ? Que face é esta que lhes causa tanto medo? “É a face de Jesus, daquele que foi morto e que agora veio para julgar. Mas é em vão, ó pecadores, que vocês procurem fugir da presença do Filho do Homem; é necessário que vocês contemplem Aquele que vocês traspassaram. Vocês não se sentarão à direita do Senhor, vestidos de roupas fulgurantes, mas vocês serão testemunhas de sua glória; e quando o cortejo triunfal de Jesus aparecer sobre as nuvens do céu, vocês não poderão participar, mas verão com seus olhos. Oh! Eu creio que o vejo neste instante mesmo, o poderoso Redentor, subindo aos céus, em seu corcel de vitória ! Vocês ouvem este barulho estrondoso? Esses são os passos de seu poderoso exército, que ressoa sobre as colinas eternas. Um cortejo vestido de branco vem após ele, e nas rodas de sua carruagem estão atados Satanás, a morte e o inferno. Vejam como estes resgatados batem palmas; ouçam seus gritos de alegria. “Tu subiste às alturas; levaste cativo o cativeiro” (Sl 58:18), dizem eles. Admirem o esplendor de sua aparência; observem as coroas que cingem suas frontes; vejam suas túnicas brancas como a neve; notem a piedade que transpira de suas faces. Ouçam ! Eles entoam um canto sublime: Aleluia, o Senhor Deus onipotente reina ! (Ap 19:6). E a voz do Eterno lhes responde: Eu me regozijarei por tua causa com grande alegria; eu me regozijarei por tua causa, com um canto de triunfo, porque te esposei para sempre! (Sf 3:17; Os 2:19).

E onde estão vocês durante esse tempo, ó incrédulos? Vejam a multidão dos resgatados, mas onde estão vocês? Infelizmente! Vocês vêem com seus olhos, mas não podem comer. O banquete de núpcias está pronto; o fruto da vinha foi servido; os convidados tomam lugar à mesa do Rei; mas vocês, infelizes e famintos, não podem provar do festim eterno. Oh! Eu creio que lhes posso ver, torcendo suas mãos de desespero!
Se ao menos lhes fosse possível comer como os cães, das migalhas que caem sob a mesa do Mestre; mas não, até isto lhes foi impedido !
Um pensamento mais e termino.

Pecador impenitente, eu lhe vejo agarrado a um rochedo nas profundezas do inferno; a alma destroçada pelo cruel abutre do remorso. Você eleva os olhos e reconhece Lázaro, descansando no seio de Abraão. “Isto é possível ?” – você grita. “O que ? Este mendigo que se deitava sobre o esterco; este miserável que os cães vinham lamber suas feridas; hei-lo no céu, enquanto eu, rico quando vivia, estou no inferno pela eternidade ! Pai Abraão, tenha piedade de mim, e envie Lázaro a fim de que molhe seus dedos na água, para me refrescar a língua.” Mas sua súplica é vã, ó pecador ! E se pode haver no inferno um sofrimento mais intenso que qualquer outro, será aquele que você provará ao ver os santos regozijarem-se com uma felicidade da qual você jamais poderá ter parte. Oh ! Jovem, olhe. Veja sua mãe no céu, enquanto que você foi jogado fora ! Veja seu irmão, aquele que dormiu no mesmo berço que você e brincou no mesmo lar; veja seu próprio irmão elevado à glória, enquanto que você foi baixado até o abismo ! Marido, veja sua mulher entre os bem-aventurados, e você, contado com os perdidos ! Pai, veja teu filho em pé diante do trono, e você, maldito de Deus e dos homens, está no fogo eterno ! Oh ! Quem poderia dizer o que passará no coração do condenado, quando ele vir seus pais, seus amigos, saciados com as delícias inefáveis e o que sentirá em ser privado dessas coisas por toda a eternidade ! Tu verás com os teus olhos, mas nunca o comerás !

E agora, eu lhes conjuro, meus queridos ouvintes, - pela morte de Cristo; pela sua agonia e seu suor sangrento; por sua cruz e paixão; por tudo que há de mais sagrado sobre a terra, mais santo no céu, mais solene no tempo e na eternidade; pelos horrores indizíveis do inferno; pelas alegrias inexprimíveis do paraíso; - eu lhes conjuro, levem estas coisas a sério e lembrem-se que, se sua alma for perdida, será a incredulidade a razão de sua perdição. 
Sim, se vocês perecerem, será porque vocês recusaram crer em Jesus Cristo; e a gota mais amarga de sua dor, será o pensamento que você não quis entregar-se a este Salvador amoroso que diz a todos em sua Palavra : de maneira nenhuma lançarei fora aquele que vier a mim !

sábado, 31 de agosto de 2019

Precisa-se: um profeta para pregar aos pregadores


Tentar fazer uma avaliação de João Batista pelos modernos padrões de espiritualidade seria o mesmo que tentar medir o sol com uma fita métrica. No Jordão, a multidão ansiosa indagou a respeito do recém-nascido:
— Que virá a ser, pois, este menino?
E a resposta foi:
— Ele será grande diante do Senhor.
Hoje em dia, a palavra “grande” se acha muito desgastada, pois confundimos proeminência com importância. Naquela época, Deus não estava à procura de sacerdotes, nem de pregadores, mas de homens. E havia muitos homens, como hoje, mas eram todos “pequenos” demais. Ele precisava de um grande homem para uma grande missão.
João Batista possuía pelo menos um atributo que o qualificava para o sacerdócio, mas tinha todos os requisitos necessários para tornar-se um profeta. Antes de sua vinda, o povo vivera quatrocentos anos de trevas, sem um raio da luz profética; quatrocentos anos de silêncio, em que não se ouvira o brado: “Assim diz o Senhor”; quatrocentos anos de uma constante deterioração espiritual. E assim Israel, a nação escolhida por Deus, estava imersa em holocaustos, cerimônias e circuncisões, fazendo expiação com rios de sangue de animais, e tendo por mediador uma classe sacerdotal rica e saciada.
Mas o que um exército de sacerdotes não conseguiu fazer em quatrocentos anos, foi feito em seis meses por um homem “enviado por Deus”, moldado por Deus, cheio de Deus e incendiado por Deus: João Batista.
Concordo com E. M. Bounds quando diz que Deus leva vinte anos para formar um pregador. A preparação de João foi feita na divina Universidade do Silêncio. Deus matricula nela todos os seus grandes homens. Embora Cristo tenha feito sua interpelação a Paulo — um fariseu orgulhoso, legalista, de intelecto privilegiado e linhagem invejável — na estrada de Damasco, ele precisou passar três anos na Arábia para se esvaziar de tudo isso, e desaprender o que aprendera, para que finalmente pudesse afirmar: “Deus revelou-se em mim”.
Deus pode preencher num minuto o que nós levamos anos para esvaziar. Aleluia! Jesus disse: “Ide”, mas também ordenou: “Permanecei… até que”.
Aquele que resolver passar uma semana fechado num aposento, a pão e água, sem nenhuma leitura a não ser a Bíblia, sem companhia alguma a não ser a do Espírito Santo, ou sofrerá um colapso nervoso ou terá tal experiência com Deus que sua vida e ministério serão revolucionados. Depois disso, como Paulo, ele será conhecido no inferno.
João Batista ficou na divina Escola do Silêncio, o deserto, até o dia em que se manifestou ao povo. E quem poderia estar mais bem preparado para aquela tarefa de despertar de seu sono carnal aquela nação entorpecida, do que aquele profeta queimado de sol, batizado com o fogo e moldado no deserto, e enviado por Deus?
Nos olhos, ele trazia a luz de Deus, na voz a autoridade divina e na alma o mesmo ardor de Deus. Quem — pergunto eu — poderia ser maior do que João? É verdade que ele “não fez nenhum sinal”, isto é, não ressuscitou nenhum morto. Mas fez muito mais: ergueu uma nação morta.
E esse profeta vestido de couro, com um ministério de curta duração, era tão ardoroso e sua luz tinha tal brilho, que os que ouviam suas mensagens fervorosas, candentes, iam para casa e passavam noites insones até que sua alma se quebrantava em arrependimento. Entretanto, tinha uma doutrina diferente: sem holocaustos, sem cerimônias, sem circuncisão; tinha uma dieta estranha: sem vinhos, nem banquetes; tinha roupas estranhas: sem filactérios, nem vestes farisaicas.
É verdade, mas João era grande! As grandes águias voam sozinhas; os leões maiores caçam sozinhos; as almas grandiosas vivem sozinhas, a sós com Deus. É muito difícil suportar tal solidão; é impossível apreciá-la, a não ser acompanhado de Deus. Realmente João conseguiu ser grande. Ele foi grande em três aspectos: grande na sua fidelidade ao Pai (preparou-se durante tanto tempo para pregar por tão curto período); grande em sua submissão ao Espírito (andava ou parava de acordo com as orientações dele); grande nas afirmações que fez sobre o Filho (apontando Jesus como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, apesar de não ter-se avistado com ele antes).
João era uma “Voz”. A maioria dos pregadores não passa de ecos, pois, se prestarmos bem atenção, saberemos dizer quais os livros que andaram lendo, e notaremos que citaram muito pouco do Livro. E hoje, só uma Voz, voz de um profeta enviado do céu para pregar aos pregadores, conseguiria despertar o coração dos homens.
Só quem tem coração quebrantado é capaz de levar outros ao quebrantamento. Irmãos, nós temos equipamentos, mas não temos poder; temos ação, mas não unção; barulho, mas não avivamento. Somos dogmáticos, mas não dinâmicos! Todas as eras têm iniciado com fogo, e todas as vidas, sejam de pregadores ou de prostitutas, vão findar em fogo — o fogo do juízo para alguns, o fogo do inferno para outros.
Wesley diz o seguinte em um de seus hinos: “Salvemos as almas do fogo do inferno, aliviando-lhes o tormento com o sangue de Cristo”. Irmãos, temos só uma missão: salvar almas, e, no entanto, elas estão perecendo. Pensemos nisso! Existem milhões, centenas de milhões, talvez milhares de milhões de almas eternas que precisam de Cristo. E sem a vida eterna elas irão perecer.
Ah, que vergonha para nós, que horror, que tragédia! “Cristo não desejava que ninguém se perdesse”. Irmãos pregadores, hoje há milhões e milhões de pessoas seguindo para o fogo do inferno, porque nós perdemos o fogo do Espírito!
Esta geração de pregadores é responsável pela atual geração de pecadores. Diante das portas de nossas igrejas passam todos os dias milhares de pessoas que não foram salvas porque ninguém lhes pregou, e ninguém lhes pregou porque ninguém as amou. Dou graças a Deus pelo grande trabalho que é realizado nos países estrangeiros. Contudo é muito estranho que aparentemente tenhamos maior preocupação por aqueles que se encontram do outro lado do mundo, do que com os que moram do outro lado da rua.
Apesar de todas as nossas campanhas e nosso evangelismo de massas, o número dos que são salvos se limita a centenas, enquanto que, se cair uma bomba atômica por aqui, irão aos milhares para o inferno. A pecaminosidade atual não tem paralelo em outra época da História. Jesus disse o seguinte: “Assim como foi nos dias de Noé, será também nos dias do Filho do homem”. A descrição de como foi nos dias de Noé encontra-se em Gênesis 6.5: “Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra, e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração”. Então o mal era total, “todo o desígnio”; era contínuo, “continuamente mau”.
Era assim, e assim é. Hoje o pecado está recebendo uma fachada de embelezamento, está sendo popularizado, entrando por nossos ouvidos através dos rádios, pelos nossos olhos através da televisão e das capas de revistas. Os membros de igreja se acham saturados das pregações e cansados dos ensinos que ouvem, e estão saindo dos cultos da mesma forma como entram — sem visão e sem fervor algum.
Oh, Deus, envia para esta geração dez mil João Batistas para arrancar os curativos que os moralistas e políticos colocaram sobre o pecado das nações! Assim como Moisés não pôde deixar de notar a sarça que ardia, assim também ninguém vai-se enganar quando vir um homem em chamas. Deus vence um fogo com outro fogo. Quanto mais fogo houver nos púlpitos, menos pessoas haverá no fogo do inferno.
João Batista foi um homem diferente com uma mensagem diferente. Assim como o réu acusado de assassinato empalidece ao ouvir o juiz pronunciar a sentença: “Culpado!”, assim também aquele povo ouviu João clamar: “Arrependei-vos!” E esse clamor ecoou nos recessos de sua mente, despertando lembranças, fazendo pesar a consciência e levando-os a buscar o batismo, dominados pelo terror.
E após o Pentecostes, a pregação de Pedro, que acabara de receber o batismo de fogo do Espírito, abalou os ouvintes de tal modo que eles clamaram: “Que faremos, irmãos?” Imaginemos que alguém lhes respondesse: “Assine este cartão de membro! Passe a frequentar esta igreja regularmente. Dê sempre os dízimos”.
Não! Mil vezes não! Inspirado pela unção do Espírito, João dizia: “Arrependei-vos!” E eles se arrependeram. Mas arrepender não é simplesmente derramar algumas lágrimas no altar. Também não é ter remorso, nem emoção, nem passar por uma reforma pessoal. Arrepender-se é mudar de ideia com relação a Deus, ao pecado e ao inferno!
As duas maiores forças da natureza são o vento e o fogo, e as duas se uniram no dia de Pentecostes. E aquele abençoado grupo reunido no cenáculo, como o vento e o fogo, se tornou irresistível, incontrolável e imprevisível. E o fogo que ardia neles extinguiu a violência do fogo; dele saíram chamas missionárias, centelhas que incendiaram o coração de mártires, e atearam o fogo do avivamento.

Há cerca de duzentos anos atrás Carlos Wesley cantava:
“Ah, que o fogo sagrado possa começar a arder em mim.
E queime a escória dos desejos vis E faça os montes ruir”.
E o Dr. Hatch levantou o seguinte clamor:
“Sopra em mim, fôlego divino
Até que me torne inteiramente teu
Até que o que há de terreno em mim
Arda com o fogo dos céus”.
O fogo do Espírito Santo destrói, purifica, aquece, atrai e enche de poder. Existem alguns crentes que não sabem precisar a data em que foram salvos. Mas ainda não conheci ninguém que tenha sido batizado com o Espírito Santo e com fogo que não saiba dizer o momento em que isso aconteceu. São esses homens que abalam os povos e os conquistam para Deus, como Wesley, que nasceu do Espírito, foi cheio do Espírito e viveu sempre no Espírito.
Os automóveis só rodam depois que recebem a centelha da ignição; as pessoas que não se movem nem se comovem são as que não receberam ainda o fogo.
Amados irmãos, a Bíblia fala de uma sentença mais pesada para os pregadores. Para eles haverá “maior juízo” (Tg 3.1). Pode ser até que quando eles estiverem perante o trono do julgamento divino, os pecadores lhes digam:
“Pregador, se o senhor tivesse o fogo do Espírito, eu agora não estaria indo para o fogo do inferno”.
Como Wesley, eu também creio que os crentes precisam experimentar o arrependimento. A promessa do Pai é para você.
Então agora, onde quer que esteja, numa missão no estrangeiro, numa casa rica e confortável ou num gabinete pastoral, se estiver sentindo-se quebrantado, pronto a render as armas, ajoelhe-se e faça suas as palavras da seguinte oração:
“Manda, Senhor, o fogo,
Para fortalecer meu coração,
E eu viva para salvar o mundo que está perecendo.
Em teu altar agora deposito
Minha vida, meu ser;
Em sinal de aceitação dessa minha oferta, peço-te:
Envia sobre ela o fogo divino!” — F. de L. Booth-Tucker.
Hoje temos uma igreja fria, num mundo frio, porque os pregadores são frios. Manda teu fogo, Senhor!

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Desperta, tu que Dormes


DISCORRENDO sobre estas palavras, pretendo, -com o auxílio de Deus,

 1º — Descrever os adormecidos, a quem as palavras do texto se dirigem;

2º — Corroborar a.exortação — “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos”; e

3º — Explanar a promessa feita aos que despertam e levantam-se: “Cristo te alumiará”.

I 1. Primeiramente, tratemos dos adormecidos aí citados. De sono se entende ser o estado natural do homem, mergulhado naquela profunda inconsciência de alma; na qual o pecado de Adão infundiu tudo quanto havia em suas entranhas: a indolência, a preguiça, a incompreensão, a insensibilidade no tocante à sua condição real, estado este que é próprio de todo homem que vem ao mundo, perdurando até que a voz de Deus o desperte.

2. “Aqueles que dormem, dormem de noite”. O estado natural do homem é de profunda obscuridade, lembrando a condição segundo a qual “as trevas cobrem a terra e noite densa envolve o povo”. O pobre pecador ainda não despertado, qualquer que seja a extensão dos conhecimentos que possua acerca de outras coisas, não se conhece a si mesmo: neste sentido “ele nada sabe do que devia saber”. Não sabe que é um espírito decaído, cuja necessidade primacial, no mundo presente, é reerguer-se de sua queda e recuperar a imagem de Deus, segundo a qual fora criado. Não percebe a falta da única coisa necessária, isto é, a mudança interior de alcance universal, aquele “nascer de cima” simbolizado pelo batismo, que é o início da renovação total; aquela santificação de espírito, alma e corpo, “sem a qual ninguém virá a Deus”.

3. Carregado de todas as enfermidades, julga-se, todavia, em perfeita saúde. Encarcerado em prisões de aço e de miséria, protesta estar em liberdade. Ele diz: “Paz, Paz!”, enquanto o diabo, como “um forte homem armado”, está de plena posse de sua alma. Dorme placidamente, descansa, enquanto o inferno se move sob seus pés para lhe vir ao encontro; enquanto o abismo, de onde ninguém jamais regressa, abre suas fauces para o tragar. Arde o fogo em torno de si, e ele não o pressente; queima-o, e apesar de tudo ele nada percebe.

4. Por adormecido entendemos, pois, (e prouvera a Deus que todos nós o compreendêssemos do mesmo modo!) o pecador satisfeito com seus pecados; contente com o permanecer em seu estado de queda, com o viver e morrer sem nunca refletir a imagem de Deus; o que ignora sua enfermidade e o remédio único que o pode curar; o que nunca foi advertido ou que nunca atentou para a voz de Deus que o aconselha a “fugir da ira vindoura”; o que jamais notou que estava exposto ao perigo do fogo do inferno ou que jamais clamou do mais profundo de sua alma: “Que devo eu fazer para me salvar”?

5. Se o que dorme não for exteriormente viciado, seu sono será, habitualmente, o mais profundo de todos: quer seja ele do espírito de Laudicéia, “nem frio, nem quente”, mas um pacífico, racional, inofensivo, prestimoso adepto da religião de seus pais; quer seja zeloso e ortodoxo e, “conforme a mais rigorosa seita de nossa religião”, viva como “um fariseu”, isto é, de acordo com o perfil farisaico da narrativa néotestamentária; quer seja como o que a si mesmo se justifica, trabalhando por estabelecer sua própria justiça como fundamento de sua aceitação por parte de Deus, — profundo lhe decorrerá o sono!

6. Assim é aquele que, “tendo a forma da piedade, nega o poder dela”; e ainda provavelmente a ultraja, onde quer que ela se manifeste, qualificando-a como simples extravagância e pura ilusão. Entretanto, o infeliz enganador de si mesmo dá graças a Deus porque “não é como os demais homens, que são adúlteros, injustos e ladrões”: não, ele não faz mal a ninguém. “Jejua duas vezes por semana”, usa de todos os meios de graça, é assíduo à igreja e aos sacramentos e “paga o dizimo de tudo quanto tem”; faz todo o bem que está em suas mãos fazer; “no tocante à justiça da lei”, ele é “irrepreensível”; nada lhe falta de piedade, mas de poder; nada lhe falta de religião, mas de espírito; nada lhe falta de cristianismo, mas de verdade e vida.

7. Não sabe, entretanto, o cristão desse tipo, que, por mais altamente estimado que possa ser em meio dos homens, é, todavia, abominação à vista de Deus e herdeiro de todos os ais com que o Filho de Deus denunciou ontem, verbera hoje e estigmatizará para sempre os “escribas e fariseus hipócritas?” É ele que “limpa o exterior do copo e do prato”, deixando seu interior cheio de roda imundície. “Uma enfermidade horrível pesa ainda sobre ele, de sorte que seu interior é deplorável”.
Nosso Senhor com propriedade o compara a um “sepulcro branqueado”, que “parece formoso por fora”, mas, não obstante a, boa aparência, “está cheio de ossos e de toda podridão”. Os ossos, a bem dizer, não estão secos; os nervos e as carnes recobrem-nos, e exteriormente os envolve a pele; neles não há, porém, sopro; nada do Espírito do Deus vivo. E, “se alguém não possui o Espírito de Cristo esse tal não é dele”. “Vós sois de Cristo, se é que o Espírito de Deus habita em vós”; mas, se isto não se dá, Deus sabe que estais ainda mortos.

8. Este é outro característico do adormecido de que fala o texto: ele habita o mundo dos mortos, embora não o saiba. Está morto para Deus, “morto em delitos e pecados”. Porque, “ter a mente carnal é estar morto”.
Corno está escrito: “Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte; assim a morte, passou a todos os homens”, não só a morte temporal, mas também a morte espiritual e eterna. “No dia em que comeres, desse Deus a Adão, tu certamente morrerás”: não corporalmente (a não ser que se leve em conta que ele então se tornou mortal), mas espiritualmente: perderás a vida de tua alma; morreras para Deus; serás separado dele, que é a vida essencial e a felicidade.

9. Deste modo foi primeiro dissolvida a união vital de nossa alma com Deus; de sorte que, “em meio da vida natural, estamos agora em estado de morte espiritual”.
Neste estado permaneceremos até que o Segundo Adão se torne para nós em Espírito vivificante; até que ele levante o morto, morto em pecado, em prazeres, riquezas e honras. Mas, antes que qualquer alma possa viver, o pecador primeiro “ouve” (preste atenção) “a voz do Filho de Deus”: toma-se sensível a seu estado de perdição e recebe a sentença de morte. Reconhece estar “morto, conquanto viva”: morto para Deus e para todas as coisas de Deus, não tendo mais força para praticar as ações de um cristão vivo do que o corpo morto tem-na para cumprir as funções do homem vivo.

10. E ainda mais certo é que o morto em pecados não tem os “sentidos exercitados para discernir espiritualmente o bem e o mal”. “Tendo olhos ele não vê; tendo ouvidos, não ouve”.
Não “prova e vê que o Senhor é benigno”. Ele “jamais viu a Deus”, nem “ouviu sua voz”, nem tocou o Verbo da vida”. Em vão ressoa em torno o nome de Jesus, “como ungüento derramado e todo seu vestuário três calando mirra, aloés e cássia”: a alma que dorme o sono da morte não tem percepção de nenhuma coisa dessa espécie. Seu coração “perdeu o sentimento” e nada compreende desses fatos.

11. Desprovido, assim, de senso espiritual, não retendo o conhecimento espiritual, o homem natural não recebe as coisas do Espírito de Deus; e tão longe está de as aceitar, que aquilo que se discerne espiritualmente lhe soa como loucura. Não contente de ser profundamente ignorante das coisas espirituais, ele nega mesmo a existência delas.
A própria sensibilidade espiritual lhe parece ser a loucura das loucuras. “Como — pergunta ele — podem ser essas coisas? Como pode algum homem saber que está vivo para Deus?” Do mesmo modo que sabes que teu corpo está agora vivo. A fé é a vida da alma; se tu tens esta vida palpitante em ti, não tens necessidade de sinais para evidenciá-la a ti mesmo, pois que a ελεγχοςπνεύματος, aquela divina consciência, testifica de Deus, o que é mais do que dez milhares de testemunhos humanos — e de mais valia que todos eles.

12. Se o Espírito não testifica, no presente, com teu espírito, seres filho de Deus, que Ele te convença, a ti, pobre pecador ainda não despertado, pela demonstração de seu poder, de que tu és filho do diabo! Oh! Se produzissem agora “um rumor e um estremecimento”, e “os ossos se reunissem, achegando-se cada osso a seu osso!” Então, “Vinde dos quatro ventos, ó Sopro! E soprai estes despojos para que revivam!” E não endureçais vossos corações, resistindo ao Santo Espírito, que agora, vem convencer-vos de pecado, “porque não credes no nome do Unigênito Filho de Deus”!

II

1. Assim, “desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos”. Deus agora te chama pela minha boca e ordena que conheças por ti mesmo, tu, espírito decaído, teu verdadeiro estado e a coisa única que te importa sobre a terra. “Que esperas tu, ó adormecido? Levanta-te! Invoca a teu Deus, para que teu Deus atente para ti e não pereças.” Uma tempestade brava se forma por cima de ti — e tu estás assentado nas profundezas da perdição, no abismo dos juízos de Deus! Se queres escapar a esses perigos, arranca-te do meio deles. “Julga-te a ti mesmo e não serás julgado pelo Senhor”.

2. Desperta, desperta! Levanta-te neste momento, para que não aconteça teres de “beber, pela mão do Senhor, a taça de seu furor”. Move-te ao encontro do Senhor, para que o Senhor, tua justiça, te possa salvar! “Levanta-te do pó”. Enfim, que o terremoto da tempestade de Deus te abale. Desperta, e clama com o tremor do carcereiro: “Que devo fazer para ser salvo?” E não descanses nunca até creres no Senhor Jesus com uma fé que é dom da parte dele, pela operação do Espírito.

3. Se a qualquer de vós, mais do que a outro, falo, é a ti, que pensas nada ter com esta exortação, que particularmente me dirijo. “Tenho para ti uma mensagem de Deus”. Em seu nome eu te conjuro a “fugires da ira vindoura”. Vê, alma ímpia, tua imagem no condenado Pedro, assentado na masmorra escura, entre soldados, ligado com duas cadeias, sentinelas postadas em frente à porta, guardando a prisão. A noite vai muito alta, a manhã se aproxima, quando serás levado à execução. E, em tais circunstâncias mortais, tu dormes, dormes profundamente nos braços do diabo, à borda do abismo, nas fauces da perdição eterna!

4. Que o anjo do Senhor desça sobre ti e a luz resplandeça em tua prisão! E possas tu sentir a caricia da mão poderosa erguendo-te a segredar: “Levanta-te depressa, cinge-te, calça tuas sandálias, toma teus vestidos e segue-me”.

5. Desperta, espírito eterno, de teu sonho de felicidade terrena! Não te criou Deus para si mesmo? Logo, não podes encontrar repouso até que nele descanses. Volta, viandante! Voa para tua arca! Este não é o teu lar. Não penses em construir tabernáculos aqui. Não és senão um peregrino sobre a terra, a criatura de um dia, em trânsito para um destino imutável. Apressa-te! A eternidade está próxima. A eternidade depende deste momento— uma eternidade feliz ou uma eternidade de miséria.

6. Em que estado se acha tua alma? Se Deus, enquanto estou falando, ta exigisse, estarias pronto a te encontrares com a morte e com o juízo? Podes permanecer à sua vista, que é a de “olhos demasiadamente puros para verem a iniqüidade?” Estás pronto “a seres participante da herança dos santos em luz?” Combateste “o bom combate e guardaste a fé”? Tomaste posse da única cosa que é necessária? Recobraste a imagem de Deus, em justiça e verdadeira santidade? Despojaste-te do homem velho, para te revestires do novo homem? Estás unido a Cristo?

7. Tens óleo em tua lâmpada, graça no coração? Amas “ao senhor teu Deus de todo teu coração, e de toda tua mente, e de toda tua alma, e de todas as tuas forças?” Há em ti aquela mente que havia também em Cristo Jesus? És na verdade cristão, isto é, uma nova criatura? O que era velho passou e agora se fizeram novas todas as coisas?

8. “És participante da natureza divina?” Não sabes que “Cristo está em ti, a não ser que sejas reprovado?” Não sabes que Deus “habita em ti e tu em Deus, pelo Espírito que ele te concedeu”? Não sabes que “teu corpo é templo do Espírito Santo, que tu tens mediante comunicação da parte de Deus?” Tens o testemunho em ti mesmo — penhor de tua herança? “Recebeste o Espírito Santo” ou te surpreendes com a pergunta, nem sabendo “sequer que haja um Espírito Santo”?

9. Se te ofendes, estejas descansado: tu nem és cristão, nem desejas sê-lo. Até mesmo tuas orações se volvem em pecado, e tens solenemente zombado de Deus neste dia, suplicando a inspiração de seu Espírito Santo, quando nem crês que haja uma tal coisa a ser comunicada!

10. Sim, firmado na autoridade da palavra de Deus e de nossa Igreja, repito a pergunta: “Recebeste o Espírito Santo?” Se não o recebeste, ainda não és cristão, porque — cristão é o homem “ungido com o Espírito Santo e com poder”. Não te fizeste ainda participante da religião pura e imaculada. Sabes que religião é esta? É a participação da natureza divina; a vida de Deus na alma humana; Cristo formado no coração; “Cristo em ti, a esperança da glória”; felicidade e santidade; o céu começando na terra; “o Reino de Deus em ti”, consistindo, não em comida, nem em bebida, nem em coisas materiais, mas em “justiça, e paz, e gozo no Espírito Santo”; um reino eterno estabelecido em tua alma; a “paz de Deus, que excede a toda compreensão”; um “gozo indizível e cheio de glória”.

11. Sabes que “em Jesus Cristo, nem a circuncisão vale corsa alguma, mas a fé que opera por amor”, mas o ser uma nova criatura? Sentes necessidade de mudança interior, de nascimento espiritual, de vida que tome o lugar da morte, — da santidade? Estás profundamente convencido de que sem esta ninguém verá a Deus? Estás trabalhando por alcançá-la, “usando de toda diligência para fazer certa tua vocação e eleição”, “operando tua salvação com temor e tremor”, e “agonizando por entrar pela porta estreita?” Estás ansioso acerca de tua alma? E podes dizer ao Escrutador de corações: “Tu, ó Deus, és o que eu esperava desde muito tempo! Senhor tu sabes todas as coisas! Tu sabes que eu quero amar-te”!

12. Esperas ser salvo; mas que razões tens a dar da esperança que há em ti? Será porque não causaste prejuízo, ou porque fizeste grande cópia do bem, ou porque não és como os demais homens, mas sábio, ou erudito, ou honesto e moralmente bom, estimado do povo e de reputação ilibada? Ai! A soma de tudo isso jamais te levará a Deus. A sua vista isso é tão vão como a própria vaidade. Não conheces a Jesus Cristo, a quem Deus enviou? Não te ensinou ele que “pela graça sois salvos pela fé; e isto não vem de vós: é dom de Deus; não vem das obras, para que nenhum homem se glorie?” Como fundamento de toda tua esperança, não recebeste a palavra fiel, segundo a qual “Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores?” Não compreendeste o que significa: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento; não fui enviado senão à procura da ovelha perdida?” Estava tu (o que ouve, entenda), perdido, morto, condenado em outro tempo? Não reconheceste teu desamparo, não sentiste tuas misérias? És “pobre de espírito”, clamando por Deus e recusando todo conforto? És o pródigo que “cai em si mesmo”, ficando bem contente de ser daí por diante considerado “fora de si” por aqueles que ainda se alimentam das bolotas que ele deixou? Desejas viver piamente em Cristo Jesus, estando por esta causa sofrendo perseguição? Dizem os homens falsamente toda sorte de mal contra ti, por causa do Filho do Homem?

13. Que, através de todo este interrogatório, ouças a voz que desperta o morto e sinta o martelar da Palavra que despedaça as rochas! “Se ouvirdes sua voz neste dia, que se chama hoje, não endureçais os vossos corações”. Agora, “desperta, tu que dormes” na inconsciência da morte espiritual, para que não durmas no tormento da morte eterna! Reconhece teu estado de perdição e “levanta-te da morte”. Deixa teus velhos companheiros no pecado e na morte. Segue a Jesus, e “deixa que os mortos enterrem os seus mortos”. “Salva-te desta geração perversa”. “Sai do rio deles e separa-te, e não toques as coisas impuras, e o Senhor te recebera”. “Cristo te alumiará”.

III

1. Chego a ponto de explana, finalmente, esta promessa. E quão encorajadora é a consideração de que, quem quer que sejas que obedeças à chamada de Deus, não terás buscado em vão a sua face! Se tu agora “despertas e te levantas da morte”, ele correrá a “te alumiar”. “O Senhor te dará graça e glória”: a luz da sua graça aqui e a luz da sua glória quando receberes a coroa imarcescível. “Tua luz romperá como a aurora e tuas trevas serão como o meio-dia.” “Deus, que faz a luz brilhar em meio das trevas, luzirá em teu coração, para dar a conhecer a glória de Deus na face de Jesus Cristo.” “Neles o temor do Senhor fará levantar-se o Sol da Justiça, trazendo a salvação em suas asas.” Naquele dia a ti se te dirá: “Levanta-te, brilha; porque tua luz vem e a glória do Senhor se levanta sobre ti”. Porque Cristo revelar-se-á em ti: e ele é a verdadeira Luz.

2. Deus, que é luz, dar-se-á a si mesmo a todo pecador que desperte e por ele suspire: serás então um templo do Deus vivo; Cristo “habitará em teu coração pela fé”. “Arraigado e fundado no amor, estarás apto a compreender, com todos os santos, qual seja o comprimento, e largura, e profundidade: e altura do amor de Cristo, amor que excede a toda compreensão”.

3. Vede vossa vocação, irmãos. Somos chamados a ser “habitação de Deus mediante seu Espírito”; e, pelo seu Espírito habitamos em nós, tornamo-nos capazes de ser santos desde agora e participantes da herança dos santos em luz. Como são majestosamente vastas as promessas feitas a nós, e já no presente em nós cumpridas, em nós, os que cremos! Porque pela fé “recebemos, não o espírito do mundo, mas o Espírito de Deus” — a súmula de todas as promessas — “para que possais conhecer as coisas que vos são dadas livremente ppr Deus”.

4. O Espírito de Cristo é o grande dom que, em várias ocasiões e de diversas maneiras, Deus prometeu ao homem e efetivamente o tem comunicado, a partir do tempo da glorificação do mesmo Cristo. Essas promessas, feitas antes aos pais, Deus as cumpre deste modo: “Porei meu Espírito dentro de vós e vos farei andar em meus estatutos”. (Ez 26.27). “Derramarei água sobre o sedento e torrentes sobre o terreno árido: derramarei meu Espírito sobre tua semente e minha bênção sobre tua descendência”. (Is 44.3).

5. Todos vós podeis ser testemunhas vivas destas coisas — da remissão dos pecados e do dom do Espírito Santo: “Se podes crer, todas as coisas são possíveis ao que crê”. “Qual dentre vós é o que teme ao Senhor, e ainda anda em trevas e não tem luz”? Pergunto-te, em nome de Jesus: “Crês que seu braço não se retraiu de todo? Crês que ele ainda é poderoso para salvar, sendo o mesmo ontem, hoje e para sempre? Crês que ele tem poder, sobre a terra, de perdoar pecados”? “Filho, tem bom ânimo; teus pecados são-te perdoados”. Deus, por amor de Cristo, te perdoou. Recebe isto, “não como palavra humana; mas, certamente, como Palavra de Deus, o que na realidade é”, e serás justificado livremente mediante a fé; serás também santificado pela fé que há em Jesus, e sobre ti será aposto o selo divino, em testemunho de que “Deus nos deu a vida eterna, e que esta vida está em seu Filho”.

6. Irmãos, deixai que vos fale livremente e sofrei a palavra desta exortação, embora partindo de um dos últimos na hierarquia da Igreja. Vossa consciência vos testifica, no Santo Espírito, que essas coisas são assim, se é que já provastes que o Senhor é benigno. “Esta é a vida eterna: conhecer o único e verdadeiro Deus e a Jesus Cristo, a quem ele enviou”. Este conhecimento experimental, e só este conhecimento é o verdadeiro cristianismo. Quem recebeu o Espírito Santo é cristão; quem não o recebeu não é cristão. Não é possível recebê-lo e depois disto ainda não o conhecer. “Porque naquele dia (quando ele vier, diz o Senhor), conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós”. Este é aquele “Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita em vós e estará em vós”. (Jo 14.17).

7. O mundo não pode recebê-lo, mas, ao revés, contendendo e blasfemando, absolutamente rejeita a Promessa do Pai. Mas todo espírito que o não confessa não é de Deus. Sim, “este é o espírito do Anticristo, acerca do qual tendes ouvido que virá ao mundo, e já agora está no mundo”. Quem quer que negue a inspiração do Espírito Santo, ou negue que a comunicação do Espírito de Deus seja o privilégio comum de todos os crentes, a bênção do Evangelho, o dom indizível, a promessa universal, o critério pelo qual se mede o real cristão, — é o Anticristo.

8. De nada lhes aproveita o dizer: “Não negamos a assistência do Espírito de Deus; mas apenas essa inspiração, a recepção do Espírito Santo de maneira sensível. É somente a sensação do Espírito, o ser movido pelo Espírito ou cheio dele, que negamos ter qualquer fundamento em sólida religião”. Mas, somente com o negardes isto, negais toda a Escritura, toda a verdade, toda a promessa e o testemunho de Deus.

9. Nossa querida Igreja nada conhece dessa distinção diabólica, mas, ao contrário, claramente, fala do “sentir o Espírito de Cristo” ; de ser alguém “movido pelo Espírito Santo” ; e conhecer e “sentir que não há outro nome senão o de Jesus,” , pelo qual possamos receber vida e Salvação. Ela a todos nos ensina a “pedir a inspiração do Espírito Santo” ; sim, para que possamos “encher-nos do Espírito Santo” . Além disto, ensina que todo presbítero eleito dentre seus membros “recebe o Espírito Santo pela imposição das mãos”, Assim, negar qualquer dessas verdades é, com efeito, renunciar à Igreja da Inglaterra e a toda Revelação cristã.

10. A “Sabedoria de Deus” sempre foi tida pelos homens como “loucura”. Nada de admirável há, portanto, no fato de o grande mistério do Evangelho estar agora “oculto aos sábios e entendidos”, exatamente como o estivera nos tempos antigos; nada de admirável que o Evangelho seja hoje quase universalmente negado, ridicularizado, desacreditado como simples delírio, sendo estigmatizados com os qualificativos de loucos e fanáticos todos os que ainda ousam confessá-lo. Esta é a “decadência” que deveria vir; a apostasia geral dos homens de todas as condições e categorias, que vemos agora avassalando a terra. “Percorre abaixo e acima as ruas de Jerusalém e vê se achas um homem”, um homem que ame ao Senhor seu Deus de todo seu coração e o sirva com todas as suas forças. Como nossa terra geme, (não olhemos para trás! Debaixo do transbordamento da iniqüidade! Quanta vilania de toda espécie se comete a cada passo e, o que mais é, com impunidade, por aqueles que pecam ostensivamente, gloriando-se de sua ignomínia! Quem pode contar os juramentos, as maldições, as profanações, as blasfêmias; a mentira, a calúnia, a maledicência; as quebras do domingo, a glutonaria, a bebedice, a vingança; a prostituição, os adultérios e várias impurezas; as fraudes, a injustiça, a opressão, a extorsão, que cobrem nossa terra, submergindo-a como num dilúvio?

11. Mesmo entre os que se têm guardado isentos das abominações mais grosseiras, quanta ira e orgulho, quanta preguiça e egoísmo, quanta moleza e efeminação, quanta luxúria e indulgência, quanta cobiça e ambição, quanta sede de louvor, quanto amor ao mundo, quanto receio do homem não lhes jazem no intimo! Ao mesmo tempo, quão pouco há de verdadeira religião! Porque, onde está o que ama a Deus ou ao próximo, na medida do mandamento que nos deu o Senhor? De um lado estão os que nem chegam a ter a forma da piedade; de outro lado estão os que possuem apenas a forma: ali são os sepulcros abertos; aqui, os sepulcros branqueados. De modo que em qualquer ato, onde quer que se forme algum ajuntamento de povo (temo que o público de nossas igrejas não faça exceção!) facilmente se pode perceber que de uma parte estão os Saduceus e de outra os Fariseus: uns dando tão escassa importância à religião, como se não houvesse “ressurreição, nem anjos, nem espírito”; e os outros dela fazendo simples forma de vida, um jogo estúpido de cerimônias externas, sem verdadeira fé, nem amor de Deus, nem gozo no Espírito Santo!

12. Prouvera a Deus que nos excetuássemos, nós, os que nos encontramos neste lugar! “Irmãos, o desejo de meu coração e minha oração a Deus, em vosso beneficio, é que sejais salvos” dessa onda de impiedade, e que suas vagas orgulhosas se possam deter aqui. Entretanto, está, na verdade, acontecendo isto? Deus e nossa própria consciência sabem que esta não é a realidade: Não vos tendes guardado puros. Corruptos também o somos nós e abomináveis — e poucos são os que têm melhor entendimento, poucos os que adoram a Deus em espírito e em verdade. Também somos “uma geração que não aplica o coração retamente, e cujo espírito não se firma solidamente em Deus”. Deus nos qualificou como “o sal da terra”; mas, “se o sal perder seu sabor, para nada mais presta, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens”.

13. E “não visitarei essas coisas, diz o Senhor? Minha alma não tomará vingança de uma nação como esta?” Sim, não sabemos quanto tempo falta para que Ele ordene à espada: “Espada, fere através desta terra!” Deus nos tem dado muito tempo para o arrependimento. Deixa-nos ele por este ano também, avisando-nos, todavia, e despertando-nos por meio do trovão. Seus juízos estão divulgados na terra — e temos toda razão de esperar o mais grave de todos, isto é, que “ele venha rapidamente a nós e remova nosso candeeiro de seu lugar, a não ser que nos arrependamos e façamos nossas primeiras obras”; a não ser que voltemos aos princípios da Reforma, à verdade e simplicidade do Evangelho. Talvez estejamos resistindo ao derradeiro esforço da graça divina para salvar-nos. Talvez estejamos quase a “encher a medida de nossas iniqüidades”, rejeitando o conselho de Deus contra nós mesmos e expulsando seus mensageiros.

14. Ó Deus, “em meio da ira, lembra-te de tuas misericórdias!”Sê glorificado em nossa emenda, e não em nossa perdição! Que “atendamos à correção e àquele que a inflige!” Agora que teus “juízos se acham divulgado-na terra”, que os habitantes do mundo “aprendam a justiça!”.

 15. Meus irmãos é tempo de despertarmos do sono, antes que “soe a grande trombeta do Senhor” — e nossa terra se transforme em campo de sangue. Oh! Que vejamos rapidamente as coisas que nos possam assegurar a paz, antes que elas se ocultem a nossos olhos! “Volta-te para nós, ó bom Deus, e cesse tua ira. Ó Senhor, olha dos céus, considera e visita tua vinha”; e faze-nos conhecer “o tempo de nossa visitação”. “Ajuda-nos, ó Deus de nossa salvação, para glória de teu nome!” Oh! Liberta-nos, e sê misericordioso em face de nossos pecados, por amor de teu nome, e assim não nos afastaremos de ti. Faze-nos viver, e invocaremos o teu nome. Volta-te, Senhor Deus dos Exércitos! Mostra-nos a luz de tua face — e seremos sanados. "Agora, àquele que é capaz de fazer muito mais do que tudo quanto podemos pedir ou pensar, segundo o pode que opera em nós, a Ele seja a glória na igreja por Jesus Cristo, em todos os tempos até a cosumação dos séculos. Amém!"

John Wesley

sábado, 6 de julho de 2019

Quase Cristão


Então, Agrippa se dirigiu a Paulo e disse: Por pouco me persuades a me fazer cristão” (Atos 26:28).

E muitos há que vão assim tão longe! Desde que a religião Cristã está, no mundo, tem havido muitos, de todas as épocas e nações, que foram quase persuadidos a serem cristãos. Mas, visto que não traz proveito algum diante de Deus, ir apenas até aí, é de grande importância considerarmos o que significa ser um cristão completo.

1. Primeiro, está implícito a honestidade pagã. Ninguém, eu suponho, irá fazer alguma pergunta sobre isso; especialmente, porque, por honestidade pagã, eu quero dizer, não apenas o que está recomendado, nos escritos dos seus filósofos, mas aquilo que os pagãos comuns esperam uns dos outros, e muitos deles, atualmente, praticam. Através da honestidade pagã, eles foram ensinados que não deveriam ser injustos; levando embora os bens de seu próximo, tanto roubando como furtando; que não deveriam oprimir o pobre, usando de extorsão, em direção a qualquer um; que não deveriam ludibriar, ou fraudar, o pobre ou o rico, em qualquer que seja o comércio, que tiveram; defraudando de homem algum seu direito; e, se possível, não tendo dívidas para com algum deles.

2. Novamente: Os pagãos comuns tinham consideração com a verdade e com a justiça, mantendo, na abominação, os que estavam em perjuro, e que chamaram a Deus para testemunhar uma mentira; assim como o caluniador do próximo, que falsamente acusou algum homem; atribuindo aos mentirosos voluntariosos, de qualquer espécie, a desgraça da raça humana, e as pestes da sociedade.

3. E , ainda: Existia uma forma de amor e assistência, que eles esperavam uns dos outros, sem preconceito, e que se estenderam, não apenas, àqueles pequenos préstimos de benevolência, que são executados, sem qualquer despesa ou trabalho, mas, igualmente, para alimentar o faminto, se eles tivessem comida de sobra; vestir o desnudo, com suas próprias vestimentas supérfluas; e, em geral, dando, a qualquer que necessitasse, aquilo que eles não necessitaram para si mesmos. Assim sendo, resumidamente, a honestidade pagã veio a ser; a primeira condição que implica em se ser quase um cristão.

4. Uma Segunda coisa implícita, é ter uma forma de santidade; aquela santidade que é prescrita no Evangelho de Cristo; e que tem a aparência de um cristão verdadeiro. Mesmo porque, o quase cristão não faz aquilo que o Evangelho proíbe. Ele não toma o nome de Deus em vão; ele abençoa, e não amaldiçoa; ele não jura, afinal, mas sua comunicação é, sim, sim; não, não. Ele não profana o dia do Senhor, não suporta que ele seja profanado, mesmo por estranhos que estejam em suas reuniões.  Ele não apenas evita todo adultério efetivo, fornicação, e impurezas, mas todas as palavras, olhares, que, direta ou indiretamente, tende a isso; e mais ainda, toda palavra vã, abstendo-se tanto da difamação, quanto da maledicência, fofoca, e de toda “conversa tola e sarcástica”; uma espécie de virtude, nos preceitos moralistas pagãos; resumidamente, de toda a conversa que não é “boa para o uso da edificação” e que, conseqüentemente, “aflige o Espírito Santo de Deus, por meio do qual, nós fomos lacrados para o dia da redenção”.

 5. Ele se abstém de “vinho, em excesso”, de farra e comilança. Ele evita, o quanto pode, de se colocar, em todo tipo de discussão e contenda, continuamente, esforçando-se para viver, pacificamente, com todos os homens. E, se ele sofre algum dano, ele não se vinga, nem paga o mal com o mal. Ele não diz insultos, não é briguento, e nem escarnecedor, seja nas faltas ou nas fraquezas de seu próximo. Ele, de boa-vontade, não erra, machuca, ou aflige qualquer homem; mas, em todas as coisas, age e fala por aquela regra clara: “não faze ao outro, o que não queres que façam a ti”.   

6. E em fazendo o bem, ele não se limita aos préstimos baratos e fáceis da benevolência, mas trabalha e sofre, para o proveito de muitos, para que, por todos meios, ele possa ajudar a alguém. A despeito da luta ou da dor, “o que quer que suas mãos encontrem o que fazer, ele faz, com toda sua força”, não importa, se para amigos ou para inimigos, para o mal ou para o bom. Porque, não sendo “indolente”, nisso, ou em suas “tarefas”, quando ele “tem oportunidade”, ele faz o “bem”; todas as formas de bem, “a todos os homens”, para suas almas, tanto quanto para seus corpos. Ele reprova o mal, instrui o ignorante, fortalece o irresoluto, estimula o bom, e conforta o aflito. Ele trabalha para acordar aqueles que dormem; para conduzir, aqueles que Deus já tem acordado, para a “fonte aberta para o pecado e para a impureza”, para que possam lavar-se, nela, e tornar-se limpos; e para encorajar aqueles que são salvos, através da fé, a adornar o Evangelho de Cristo em todas as coisas.

7. Ele que tem a aparência da santidade, usa também os meios da graça; sim, todos eles, e em todas as oportunidades. Ele, constantemente, freqüenta a casa de Deus; e isto, não da maneira como alguns fazem, que vêm, à presença do Mais Alto, carregado com ouro e vestuário caro, ou, com toda a vaidade ostentosa, no se vestir; bem como, por suas cortesias inoportunas, uns para com os outros, ou pela alegria impertinente de seu comportamento, repudiando todas as pretensões infantis que ele forme, tanto quanto, para o poder da religiosidade deles. Haveria para Deus, ninguém, entre nós, que não tenha caído na mesma condenação? Que tenha entrado, nessa casa, e que, tenha olhado em volta, com todos os sinais da mais apática e descuidada indiferença, embora, algumas vezes, possa parecer usar a oração a Deus, para suas bênçãos, naquilo que esperam; que, durante todo o serviço maravilhoso, estão dormindo, ou reclinados, na postura mais conveniente para isso; ou, quando supõe que Deus esteja dormindo, falando uns com os outros, ou espiando ao redor, como, extremamente, isentos de qualquer ocupação? Nem esses podem ser acusados de aparência de santidade. Não! Aquele que tem mesmo isso se comporta, com seriedade e atenção, em todas as partes do serviço solene. Mais, especialmente, quando ele vem à mesa do Senhor, não é com um comportamento leviano e descuidado, mas com a aparência, gestos, e conduta, que falam nada mais do que “Deus, seja misericordioso comigo, que sou um pecador!”.

8. Para isso, se acrescentarmos o uso constante da oração familiar, por aqueles que são os chefes das famílias, e reservando um tempo, para os endereçamentos privados a Deus, com uma seriedade diária de comportamento; ele que, uniformemente, pratica essa religião exterior, tem a aparência de santidade. Necessitando de apenas uma coisa, com o objetivo de se ser quase cristão, a sinceridade. 

9. Por sinceridade, eu quero dizer, um princípio religioso real, e interno, de onde, essas ações exteriores fluem. E, realmente, se nós não temos isso, nós não temos a honestidade pagã; não, nem tanto dela, como para responder a discussão do poeta epicurista (dado aos prazeres da vida). Mesmo esse pobre patife, em seus intervalos de sobriedade, é capaz de testificar que:
Os homens de bem evitam o pecado de amar a probidade;
Os homens perniciosos, o pecado do medo da punição.
Assim sendo, se algum homem deixa de praticar o mal, para evitar a punição, a perda de seus amigos, seu ganho, ou sua reputação, deveria, igualmente, fazer sempre o bem, usando de todos os meios da graça. Ainda assim, mesmo não praticando o mal e fazendo sempre o bem, não é possível assegurar que esse homem é mesmo quase um cristão, porque, se ele não tiver princípio melhor, em seu coração, ele será apenas um hipócrita!

10. Sinceridade, por conseguinte, está, necessariamente, comprometida, em se ser quase um cristão; o objetivo real de servir a Deus, um desejo ardente de fazer a Sua vontade. Necessariamente, implica, que um homem tem uma idéia sincera de agradar a Deus, em todas as coisas; em todas as suas conversas; em todas as suas ações; em tudo que ele faz; ou deixa sem fazer. Esse objetivo, se algum homem for quase um cristão, segue através de todo o teor de sua vida. Esse é o princípio propulsor, em fazer o bem, e abster-se do mal, e usando as ordenanças de Deus. 

11. Mas aqui, deverá, provavelmente, ser inquirido, “É possível que algum homem possa chegar, tão longe, e, não obstante, ser alguém quase cristão? Quanto mais é necessário para que ele seja um completo cristão?”. Em primeiro lugar, eu respondo que alguém pode ir, até mais longe, e ainda assim, ser apenas um quase cristão.

12. Irmãos, grande é “minha audácia, com respeito a vocês, nesse interesse”. E “perdoem-me esse erro”, se eu declaro minha insensatez no que anuncio publicamente, para por causa de vocês e do Evangelho. Sujeito-me, então, a falar, livremente de mim mesmo, exatamente como de outro homem. Eu estou contente em ser humilhado, para que vocês sejam exaltados, e para ainda mais desprezível para a glória do meu Senhor.  

13. Eu tenho ido assim, tão longe, por muitos anos, como muitos desses lugares podem testificar; usando diligência para evitar todo o mal, e ter uma consciência isenta de ofensa; resgatando o tempo; e, em toda oportunidade, fazendo todo o bem a todos os homens; constantemente e cuidadosamente, usando todos os meios públicos e todos os meios privados da graça; esforçando-me, na busca de uma sinceridade firme de comportamento, todo o tempo, e em todos os lugares; e, Deus é meu testemunho, diante de quem eu permaneço, fazendo tudo isso, com sinceridade; tendo um desígnio real de servir a Deus; um desejo ardente de fazer todas as suas vontades; para agradar a Ele que tem me chamado para “lutar uma boa luta”, e para “assegurar a vida eterna”. Ainda assim, minha própria consciência testemunha, no Espírito Santo, que todo esse tempo, eu tenho sido, a não ser um quase cristão.

Se for inquirido: “O que mais é necessário, além disso, para que se seja um cristão completo?”. Eu repondo:

(1) O amor a Deus. Porque assim diz sua palavra: “Você irá amar o Senhor seu Deus, com todo seu coração, com toda sua alma, com toda sua mente, e com toda sua força”. Tal amor é esse, como que se apoderando de todo o coração; como acolhendo todas as afecções; como preenchendo a capacidade total da alma, e empregando a mais extrema extensão de todas as suas faculdades. Ele que assim ama o Senhor seu Deus, seu espírito, continuamente, “regozija-se em seu Deus Salvador”. Seu deleite está no Senhor; seu Senhor e seu Tudo, a quem “em tudo dá graças. Todo seu desejo está no Senhor, e para a lembrança do seu nome”. Seu coração está sempre clamando: “Quem mais eu tenho no céu, a não ser a ti? E não há ninguém sobre a terra que eu deseje além de ti”. Realmente, o que mais ele deve desejar além de Deus? Não o mundo, ou as coisas do mundo: Porque ele está “crucificado para o mundo, e o mundo crucificado nele”. Ele está crucificado para “o desejo da carne, o desejo do olho, e o orgulho da vida”. Sim, ele está morto para o orgulho de toda a sorte: Porque “o amor não se ensoberbece”; mas “ele que habita no amor, habita em Deus, e Deus nele”, é menos do que nada, para seus próprios olhos.

(2) O amor ao próximo. Para isso diz nosso Senhor, nas seguintes palavras: “deves amar o teu próximo, como a ti mesmo”. Se algum homem perguntar: “Quem é o meu próximo?” Nós respondemos: todos os homens do mundo; todos os filhos Dele que é o Pai de todos os espíritos de toda a carne. Nem nós podemos excluir nossos inimigos, ou os inimigos de Deus e suas próprias almas. Mas todo cristão ama esses também, como a si mesmo. Sim! “Como Cristo nos amou!”. Ele que gostaria de entender, mais completamente, que espécie de amor é esse, podemos considerar a descrição de Paulo, sobre ele: “O amor é paciente e benigno”. “O amor não arde em ciúmes ou inveja, e não se ufana”. “O amor não se ensoberbece”; mas faz aquele que ama, o menor, o servo de todos. “Não se conduz inconvenientemente”; mas torna-se “todas as coisas para todos os homens”. “Não procura o seu interesse”; mas o que é bom dos outros, para que eles possam ser salvos. “Não se exaspera”; ele atira fora a ira. "Não se ressente do mal. Ele não se alegra com a injustiça, mas regozija-se na verdade. Ele protege todas as coisas; acredita em todas as coisas; espera todas as coisas; suporta todas as coisas".

(3) Existe ainda uma coisa mais que pode ser, separadamente, considerada; embora, ela não possa, atualmente, ser separada da precedente, na qual está subtendido ser um cristão completo; e que é o alicerce de todas elas, mesmo da fé. “Todo aquele”, diz o amado discípulo, “que acredita que é nascido de Deus”. “Para tantos quantos o receberam, deu o poder de se tornarem filhos de Deus; até mesmo aqueles que acreditam em seu nome”. E, “Essa é a vitória que supera o mundo, mesmo a nossa fé”. Sim, nosso Senhor declara: “Ele que acredita no Filho, tem a vida eterna; e não é condenado, mas passa, da morte, para a vida”.

(4) Mas que homem algum iluda a sua própria alma. “Deve ser notado, diligentemente, que a fé, a qual não conduz ao arrependimento, ao amor, e todas as boas obras, não é aquela fé viva e justa, mas é a fé morta e diabólica. Porque mesmo os demônios acreditam que Cristo tenha nascido de uma virgem; que ele forjou todas as formas de milagres, declarando a si mesmo, verdadeiramente, Deus; que, por nossa causa, ele sofreu a maioria das dores da morte, para nos redimir da morte eterna; que ele se ergueu, no terceiro dia; que ele ascendeu aos céus; e senta-se, à direita, do Pai, e que, no fim dos tempos, voltará para julgar os vivos e os mortos. Esses artigos de nossa fé, eles acreditam, e, igualmente, em tudo que está escrito no Velho e Novo Testamento. Mas, ainda, apesar de terem toda essa fé, ainda assim, eles não são mais nada, do que demônios. Eles permanecem, ainda, na condição abominável deles, necessitados da verdadeira fé cristã”.

(5) A fé cristã, correta e verdadeira (para usar as palavras de nossa própria igreja), “não é aquela que nos faz acreditar nas Escrituras Sagradas, e nos artigos de nossa fé, como verdadeiros, mas é aquela que, além disso, nos traz a confiança e segurança de sermos salvos da condenação eterna, através de Cristo. Essa é a verdadeira crença e confiança, a qual o homem tem em Deus; a de que, pelos méritos de Cristo, seus pecados foram perdoados, que ele está reconciliado, para o favor de Deus; a respeito de quem, ele segue, com o coração afetuoso, para obedecer a seus mandamentos”.

(6) Agora, quem quer que tenha essa fé, que “purifica o coração (pelo poder de Deus, que habita nele), do orgulho, da ira, do desejo, de toda iniqüidade; de toda impureza da carne e espírito”; e que o preenche, com o amor mais forte que a morte, tanto para com Deus, como para com toda a humanidade; amor que realiza as boas obras de Deus, glorificando, para despender-se e consumir-se por todos os seres humanos, e que suporta, com alegria, não apenas a repreensão de Cristo, que o homem escarneceu, desprezou e odiou, acima de todos os homens; mas tudo quanto a sabedoria de Deus permita à malícia dos homens, ou dos demônios impor; quem quer que tenha essa fé, operando, assim, por amor, não é alguém que é quase, mas alguém que é um cristão completo!

(7) Mas, quais são os testemunhos vivos dessas coisas? Eu imploro a vocês, irmãos, como na presença desse Deus, diante de quem “inferno e destruição estão sem cobertura; quanto mais os corações dos filhos dos homens”; que cada um de vocês possa perguntar a seu próprio coração: “Eu faço parte desse número? Eu tenho praticado justiça, misericórdia, verdade, e mesmo as regras que a honestidade pagã requer? Se for assim, eu tenho o perfil verdadeiro de um cristão? A aparência da santidade? Eu me abstenho do mal; de tudo o que é proibido, nas palavras escritas de Deus? Eu realizo tudo aquilo que está ao alcance de minhas mãos, com todas as minhas forças? Eu seriamente uso as ordenanças de Deus, em todas as oportunidades? E, tudo isso é feito com o desígnio e desejo mais sinceros, para agradar a Deus, em todas as coisas”.

(8) Existem muitos de vocês, conscientes, de que vocês nunca chegaram tão longe; que vocês não têm sido, nem mesmo quase cristãos; que vocês não têm chegado ao modelo da honestidade pagã; pelo menos, não para a aparência da santidade cristã? Muito menos, tem Deus visto sinceridade em vocês; o objetivo real de agradá-lo, em todas as coisas! Vocês nunca pretenderam, a esse tanto, devotar todas as suas palavras, obras, seus trabalhos, estudos, diversões para a glória Dele. Vocês, nem mesmo, designaram ou desejaram que o que quer que vocês façam, seja feito “em nome do Senhor Jesus”, e que, como tal, constitua-se “em um sacrifício espiritual, aceitável para Deus, através de Cristo”. 

(9) Mas, supondo que vocês tenham conseguido isso...  Os bons objetivos e desejos fazem um cristão? De maneira alguma! A menos que eles sejam trazidos para os bons efeitos. “O inferno é assoalhado”, diz alguém, “com boas intenções”. A grande questão de todas, então, ainda permanece. Tem o amor a Deus espalhado-se para fora, dos seus corações? Vocês têm clamado alto: “Meu Deus, e meu Tudo?”. Vocês desejam alguma coisa, a não ser ele? Vocês estão felizes em Deus? Ele é a glória de vocês, e seu deleite, sua coroa de regozijo? E esse mandamento está escrito em seus corações, “Que ele que ama a Deus, deve amar também o seu irmão?” E vocês amam a seu próximo, como a si mesmos? Vocês, então, amam todos os homens, mesmo os inimigos, e os inimigos de Deus, como as suas próprias almas? Como Cristo tem amado vocês? Sim, vocês acreditam que Cristo os amou, e deu a si mesmo por vocês? Vocês têm fé no sangue Dele? Acreditam que o Cordeiro de Deus tirou fora os seus pecados, e os jogou, como uma pedra dentro das profundezas do mar? Que ele tem apagado os manuscritos que havia contra vocês, tirando-os fora do caminho, pregando-nos na sua cruz? Vocês têm, realmente, a redenção através de seu sangue, mesmo a remissão de seus pecados? E seu Espírito tem sido testemunho com o espírito de vocês de que vocês são filhos de Deus? 

(10) Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que agora se situa no meio de nós, sabe que, se algum homem morrer, sem essa fé e esse amor, melhor seria para ele nunca ter nascido. Acorda, então, tu que dormes, e clama pelo teu Deus: Chama-o, enquanto Ele ainda pode ser encontrado. Que ele não tenha descanso, até que faça “sua santidade passar diante de ti”; até que proclame em ti o nome do Senhor: “O Senhor; O Senhor Deus, misericordioso e gracioso, longânime, e abundante na santidade e verdade; mantendo misericórdia, por ti; perdoando a iniqüidade, a transgressão e o pecado”. Não deixa homem algum te persuadir, por meio de palavras vãs; a descansar um pouco daquele prêmio do teu grande chamado. Mas clama a ele, dia e noite; àquele que, “enquanto nós estávamos sem forças, morreu pelo descrente; até que tu saibas em quem deves acreditar, e possas dizer: Meu Senhor, e meu Deus!” Lembra-te “sempre de orar, e não desfalece”, até que ergas as tuas mãos, para os céus, e declares a Ele que vive para sempre e sempre, “Senhor, tu que sabes todas as coisas, sabes que eu amo a ti!”.

(11) Que possamos todos assim experimentar o que é ser, não apenas um quase cristão, mas um cristão completo, estando justificados gratuitamente pela Sua graça, através da redenção que está em Jesus; sabendo que nós temos paz com Deus, por meio de Jesus Cristo, regozijando-nos na esperança da glória de Deus; e tendo o amor de Deus, espalhado, por todos os lados, em nossos corações, pelo Espírito Santo, dado a nós!

(Pregado na Igreja de St. Mary, Oxford, diante da Universidade, 25 de Julho de 1741).

John Wesley