Nosso Primeiro Sermão
UM SERMÃO
PREGADO POR C. H. SPURGEON
DA REVISTA THE SWORD AND THE TROWEL
JANEIRO DE 1880
Lembramo-nos bem do primeiro lugar em que nos dirigimos a uma congregação de adultos, e a xilogravura que ilustra esta edição da revista o traz claramente diante dos olhos da nossa mente. Não foi, de forma alguma, nosso primeiro discurso público, pois tanto em Newmarket quanto em Cambridge, e em outros lugares, a Escola Dominical já nos havia proporcionado ampla oportunidade para falar do Evangelho.
Em Newmarket, especialmente, tínhamos uma quantidade considerável de adultos na assistência, pois muitos vinham para ouvir “o garoto” dirigir a palavra à escola. Mas nenhum sermão formal e regular perante uma congregação reunida para o culto habitual havíamos proferido até aquela memorável noite de domingo, que nos encontrou em um casebre em Teversham, pregando diante de uma pequena assembleia de humildes camponeses.
O relato não é novo, mas, como a gravura nunca antes foi vista pelo público, precisamos lançar um pouco de luz sobre o assunto. Existe uma Associação de Pregadores em Cambridge ligada à Capela de St. Andrew’s Street, outrora palco do ministério de Robert Robinson e Robert Hall, e agora do nosso amado amigo, o Sr. Tarn. Vários irmãos valorosos pregam o Evangelho nos diversos povoados ao redor de Cambridge, cada um assumindo a sua vez de acordo com a escala planejada.
Em nossa época, a figura central que presidia era o venerável Sr. James Vinter, a quem costumávamos chamar de "Bispo Vinter". Sua alma generosa, seu coração caloroso e seus modos gentis eram suficientes para abastecer uma fraternidade inteira de amor e, consequentemente, um bom número de verdadeiros obreiros pertencia à Associação e trabalhava em sincera cooperação. Nossa suspeita é de que ele não apenas pregava e ajudava seus irmãos, mas também funcionava como uma espécie de sargento recrutador, atraindo rapazes para manter o número do exército — pelo menos, falamos por experiência própria quanto a um caso.
Em um sábado, havíamos acabado a aula matinal e os meninos estavam todos indo para casa aproveitar o meio feriado, quando entrou o referido “Bispo”. Um homem deveria pregar em determinado lugar, mas não estava muito acostumado com cultos e, muito provavelmente, gostaria de companhia. Essa foi uma frase habilmente formulada, se bem nos lembramos — e cremos que nos lembramos.
Pois, na época, à luz da revelação daquele domingo à noite, nós a repensamos e admiramos profundamente sua engenhosidade. Um pedido para ir pregar teria recebido uma recusa categórica; mas simplesmente acompanhar um bom irmão que não gostava de ficar sozinho e que talvez pudesse nos pedir para indicar um hino ou orar não era nada difícil, e o pedido, entendido dessa maneira, foi aceito com alegria. Mal sabia o jovem rapaz o que Jônatas e Davi estavam tramando quando mandaram que ele corresse atrás da flecha; e tão pouco sabíamos nós quando fomos persuadidos a acompanhar um jovem até Teversham.
Nosso trabalho na Escola Dominical havia terminado, o chá já fora tomado, e partimos por Barnwell, seguindo pela estrada de Newmarket, com um cavalheiro alguns anos mais velho que nós. Conversamos sobre coisas espirituais e, por fim, expressamos a esperança de que ele sentisse a presença de Deus durante a pregação. Ele pareceu assustar-se e nos garantiu que nunca havia pregado na vida, e que jamais tentaria tal coisa. Ele estava contando com seu jovem amigo, o Sr. Spurgeon, para isso.
Essa era uma perspectiva inteiramente nova da situação, e só pude responder que não era ministro e que, mesmo se fosse, estava completamente despreparado. Meu companheiro limitou-se a insistir que ele, em um sentido ainda mais enfático, não era pregador; que me ajudaria em qualquer outra parte do culto, mas que não haveria sermão algum a menos que eu pregasse.
Ele me disse que, se eu repetisse uma de minhas palestras da Escola Dominical, serviria perfeitamente para aquela gente simples, e provavelmente lhes daria mais satisfação do que o sermão elaborado de um erudito teólogo. Senti que estava diante do dever inevitável de dar o meu melhor. Caminhei em silêncio, elevando minha alma a Deus, e me pareceu que eu certamente poderia falar àqueles humildes camponeses sobre a doçura e o amor de Jesus, pois eu mesmo os sentia em minha própria alma.
Orando por auxílio divino, resolvi tentar. Meu texto seria: “Para vós, pois, que credes, Ele é precioso”, e eu confiaria no Senhor para abrir a minha boca em honra do Seu amado Filho. Parecia um grande risco e uma dura prova, mas, dependendo do poder do Espírito Santo, eu ao menos contaria a história da cruz e não deixaria aquele povo voltar para casa sem uma palavra.
Entramos na sala de teto baixo do casebre de palha, onde alguns trabalhadores rurais e suas esposas, de coração singelo, estavam reunidos. Cantamos, oramos e lemos as Escrituras; e então veio o nosso primeiro sermão. Quão longo ou quão curto foi, não conseguimos nos lembrar agora. Não foi nem a metade da provação que temíamos que fosse, mas ficamos felizes ao ver que nos aproximávamos de uma boa conclusão e do momento de anunciar o último hino.
Para nosso próprio alívio, não havíamos travado, não tínhamos parado no meio, nem nos faltaram ideias, e o porto desejado estava à vista. Encerramos e pegamos o livro, mas, para nosso espanto, uma voz idosa exclamou: “Abençoado seja o seu coração, quantos anos você tem?”. Nossa resposta, muito solene, foi: “A senhora deve esperar o culto terminar antes de fazer tais perguntas. Vamos cantar agora”.
Cantamos, e o jovem pregador proferiu a bênção apostólica; começou então um diálogo que se transformou em uma conversa calorosa e amigável, da qual todos pareciam participar. “Quantos anos você tem?”, era a pergunta principal. “Tenho menos de sessenta”, foi a resposta. “Sim, e menos de dezesseis!”, retrucou a idosa senhora. “Não se importe com a minha idade, pense no Senhor Jesus e no quanto Ele é precioso”, foi tudo o que consegui dizer, depois de prometer voltar se os cavalheiros de Cambridge achassem por bem que eu o fizesse. Muito grande e profundo era o nosso temor reverente por aqueles “cavalheiros de Cambridge” naqueles dias.
Não haverá outros rapazes que poderiam começar a falar de Jesus de maneira tão humilde — jovens que até agora permaneceram mudos como peixes? Nossas vilas e povoados oferecem excelentes oportunidades para oradores jovens. Que não esperem até serem convidados para uma capela, até prepararem uma bela dissertação ou garantirem um público refinado. Se forem e contarem de coração o que o Senhor Jesus fez por eles, encontrarão ouvintes atentos.
Muitos dos nossos jovens querem fazer grandes coisas e, por isso, não fazem absolutamente nada. Que nenhum dos nossos leitores se torne vítima de uma ambição tão descabida. Aquele que está disposto a ensinar crianças pequenas ou distribuir folhetos, começando assim pelo começo, tem muito mais probabilidade de ser útil do que o jovem cheio de afetação que dorme de gravata branca, estuda para o ministério e fica lapidando certos manuscritos pomposos que espera, em breve, ler no púlpito pastoral.
Aquele que fala sobre temas simples do Evangelho na cozinha de uma fazenda, e é capaz de prender o interesse do ajudante de carroça e da ordenhadora, tem mais de ministro em si do que o sujeito engomadinho que vive falando sobre ser culto, querendo dizer com isso: ser ensinado a usar palavras que ninguém consegue entender. Fazer os mais pobres ouvirem com prazer e proveito já é, em si mesmo, uma grande conquista; e, além disso, é a melhor promessa e preparação possível para um ministério frutífero.
Que os nossos irmãos mais jovens se dediquem à pregação em casebres, e em abundância. Se não houver uma Associação de Pregadores Leigos, que trabalhem por conta própria. O custo não é tão grande para aluguel, velas e alguns bancos — o próprio dinheiro de bolso de muitos rapazes cobriria tudo. Nenhum grupo isolado de casas deveria ficar sem o seu ponto de pregação, nenhum vilarejo sem o seu culto noturno. Esta é a lição do casebre de palha em Teversham.
Extraído da coleção The Metropolitan Tabernacle Pulpit C. H. Spurgeon. Apenas alterações necessárias foram feitas, tais como correção de erros ortográficos, uso de pontuação, letras maiúsculas para pronomes referentes à divindade e atualização mínima de termos arcaicos. O conteúdo é integral. Recursos bíblicos adicionais estão disponíveis em .
