Sermão de Charles H. Spurgeon
Texto bíblico: Romanos 8:7
“Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus.”
Romanos 8:7
“Já que a mente posta na carne é inimiga de Deus.”
A Bíblia das Américas
Sermão pregado na manhã de domingo, 22 de abril de 1855, em Exeter Hall, Strand, Londres.
Introdução
Esta é uma denúncia muito solene que o apóstolo Paulo formula contra a mente carnal. Ele a declara como inimiga de Deus.
Quando relembramos o que o homem foi uma vez — considerado apenas um pouco menor do que os anjos, aquele companheiro que passeava com Deus no jardim do Éden durante o dia — e quando pensamos que o homem foi criado à imagem de seu Criador, puro, sem mancha e imaculado, não podemos nos sentir nada menos do que amargamente afligidos ao descobrir uma acusação como esta, proferida contra nós como raça.
Devemos pendurar nossas harpas sobre os salgueiros ao ouvir a voz de Deus, quando fala solenemente à Sua criatura rebelde.
Sentimo-nos extremamente tristes quando contemplamos as ruínas de nossa raça. Como o cartaginense que, ao pisar o lugar desolado de sua mui amada cidade, derramou lágrimas abundantes quando a viu convertida em escombros pelos exércitos romanos; ou como o judeu que perambulava pelas ruas desertas de Jerusalém, enquanto lamentava que a grade do arado tivesse desfigurado a beleza e a glória dessa cidade que era a alegria de toda a terra; assim deveria doer em nós, por nossa raça, quando contemplamos as ruínas dessa excelente estrutura que Deus formou.
O homem, criatura sem rival em simetria, com um intelecto superado somente pelo intelecto dos anjos, esse poderoso ser, caiu, e caiu, e caiu de sua elevada condição, convertido em uma massa de destruição.
A queda de Adão é nossa queda; caímos nele e com ele; sofremos da mesma maneira; lamentamos a ruína de nossa própria casa.
Por isso, quando nos deparamos com estas palavras:
“A inclinação da carne são inimizade contra Deus.”
devemos compreender a gravidade de sua denúncia.
Que Deus me ajude nesta manhã a formular solenemente esta denúncia contra todos vocês! Oh, que o Espírito Santo nos convença de tal modo do pecado, que unanimemente nos declaremos “culpados” diante de Deus!
I. A VERACIDADE DA DECLARAÇÃO
O texto afirma:
“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”
Não precisamos de muitas provas para acreditar nessa declaração, pois ela está escrita na Palavra de Deus. Como cristãos, estamos obrigados a nos inclinar diante dela.
As palavras da Escritura são palavras de sabedoria infinita. Se a razão é incapaz de ver imediatamente o fundamento de uma declaração da revelação, ela deve crer reverentemente, pois estamos convencidos de que, ainda que algo esteja acima de nossa razão, não pode ser contrário a ela.
Mas, se fossem necessárias testemunhas, poderíamos convocar as nações da antiguidade e abrir os volumes da história humana.
Que testemunho encontraremos?
Encontraremos guerras, assassinatos, vícios, crueldades e toda espécie de depravação. A humanidade transformou este mundo em um verdadeiro campo de sangue por suas guerras e lutas.
Se examinássemos a história de povos e indivíduos considerados modelos de sabedoria e virtude, encontraríamos motivo para repetir:
“Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um.”
E, se isso ainda não fosse suficiente, poderíamos olhar para as religiões dos povos e suas superstições, observando as práticas que demonstram quão profundamente o coração humano se afastou de Deus.
Se essa é a devoção do homem natural, qual seria sua impiedade?
Se esse é seu amor pela Deidade, qual seria seu ódio?
A natureza humana, deixada a si mesma, confirma a terrível denúncia do texto.
Os santos reconhecem sua própria depravação
É significativo que as melhores pessoas tenham sido sempre as mais dispostas a confessar sua depravação.
Os homens mais santos, aqueles que estão mais livres de impurezas, sempre sentiram com maior intensidade a própria indignidade.
“O que tem suas vestes mais brancas perceberá melhor as manchas que caem nelas.”
Davi não se vangloriava de uma natureza santa e de uma disposição pura. Ele confessou:
“Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.”
E Paulo exclamou:
“Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?”
Os homens verdadeiramente piedosos reconhecem a profundidade do pecado porque, quanto mais perto estão da luz, mais claramente enxergam suas próprias manchas.
A testemunha chamada consciência
Há ainda outra testemunha que podemos convocar: nossa própria consciência.
Consciência, eu te colocarei no banco das testemunhas para interrogar-te esta manhã!
Nunca ouviste o coração dizer:
“Queria que Deus não existisse”?
Por acaso todos os homens não desejaram, algumas vezes, que nossa religião não fosse verdadeira?
Ainda que não pudessem livrar suas almas inteiramente da ideia da Deidade, por acaso não desejaram que Deus não existisse? Não desejaram que todas essas realidades divinas fossem um engano?
Esse desejo revela algo profundo acerca do coração humano.
Se alguém desejasse a morte de outro, isso não demonstraria seu ódio por aquela pessoa?
Da mesma forma, o desejo de que Deus não exista demonstra aversão a Deus.
E há uma pergunta ainda mais profunda:
Não desejamos algumas vezes que Deus fosse menos santo? Não desejamos que certas coisas que Ele chama de pecado fossem consideradas apenas pequenos erros?
Não desejamos que Deus fosse menos justo e menos rigoroso?
Esse desejo de mudar Deus demonstra que não amamos o Deus verdadeiro.
Podemos admirar a beleza da criação, o céu estrelado, os campos, os rios, as montanhas e o universo; podemos até falar poeticamente sobre a divindade. Mas, se desejamos mudar a natureza de Deus, demonstramos que estamos inimistados com Ele.
Por isso, a consciência precisa reconhecer:
“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”
II. A UNIVERSALIDADE DESSE MAL
Quão vasta é esta afirmação!
O texto não fala de uma mente carnal singular ou de determinada classe de pessoas. Ele afirma:
“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”
Todo aquele que possui uma mente carnal, que não foi espiritualizada pelo poder do Espírito Santo de Deus, encontra-se nessa condição.
O problema alcança todos
Toda mente carnal no mundo está inimizada com Deus.
Isso inclui pessoas de diferentes idades, classes, capacidades intelectuais e posições sociais.
Uma criança pode ser cercada pelas melhores influências, receber excelente educação e crescer em um ambiente de piedade. Ainda assim, somente a educação não pode mudar o coração.
Não é simplesmente uma questão de imitação. O problema está na própria natureza humana.
Da mesma forma, podemos encontrar homens dotados de grande inteligência.
Poetas, filósofos, cientistas, estudiosos e grandes descobridores podem alcançar níveis extraordinários de conhecimento. Podem investigar os mistérios da criação e descobrir coisas que estiveram ocultas por séculos.
E, contudo, se não houver regeneração, a Palavra de Deus continua dizendo:
“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”
A inteligência não pode regenerar o coração.
O conhecimento não pode reconciliar o homem com seu Criador.
A religião exterior não é suficiente
Podemos levar alguém à casa de oração.
Podemos expô-lo constantemente à pregação mais clara.
Podemos colocá-lo diante das doutrinas da graça.
Ele pode frequentar regularmente os cultos e possuir uma religião exterior.
Mas, se a graça de Deus não transformar seu coração, tudo isso será insuficiente.
Ele poderá ter uma religião superficial externa, mas sua mente carnal continuará inimizada com Deus.
Por isso, esta palavra não é dirigida apenas aos grandes pecadores.
Ela é dirigida a todos nós.
“Se não somos regenerados e convertidos, se não experimentamos uma mudança de coração, nossa mente carnal está inimizada contra Deus.”
A mente carnal permanece inimiga de Deus
Alguém poderia dizer:
“Às vezes me oponho a Deus, mas certamente não o faço sempre.”
Contudo, a Escritura afirma que a mente carnal está continuamente em oposição a Deus.
O lobo pode estar adormecido, mas continua sendo lobo.
A serpente pode estar dormindo entre as flores, e uma criança pode acariciar seu dorso, mas ela continua sendo uma serpente.
O mar pode estar tranquilo como um lago, mas continua sendo capaz de produzir tempestades.
Assim também é o coração humano.
Ainda que a corrupção não esteja se manifestando exteriormente a todo instante, a natureza permanece a mesma.
“A inclinação da carne é inimizade contra Deus.”
A queda atingiu o homem inteiro
Que parte do homem foi afetada pela queda?
Alguns imaginam que apenas os sentimentos foram afetados, enquanto o intelecto permaneceu completamente intacto.
Mas a queda atingiu o homem inteiro.
A memória participa da queda.
Os afetos participam da queda.
A imaginação participa da queda.
O juízo participa da queda.
A consciência participa da queda.
Podemos olhar para todos os poderes da natureza humana e escrever sobre cada um deles:
“Traidor ao céu! Traidor ao céu!”
Toda a pessoa humana foi profundamente afetada pelo pecado.
III. A ENORMIDADE DESTA CULPA
Chegamos agora a uma questão ainda mais profunda.
Frequentemente pensamos na nossa condição pecaminosa apenas como miséria. Falamos sobre a corrupção humana, mas esquecemos de dizer algo essencial:
essa corrupção também é culpa.
Se nosso coração está contra Deus, o pecado é nosso.
Se não conseguimos arrepender-nos, nossa própria incapacidade é parte da nossa culpa.
Toda a nossa separação de Deus é pecado.
Não devemos simplesmente dizer:
“Estou cheio de corrupção.”
E então ficar tranquilos.
Não.
Termos essas corrupções é nosso crime.
“A inclinação da carne é inimiga de Deus.”
Quão grave é esse pecado!
Quem é Deus?
Para compreendermos a gravidade de estar inimizado com Deus, precisamos lembrar quem Deus é.
Ele é o Criador dos céus e da terra.
Ele sustenta os pilares do universo.
Ele é o autor desta linda criação.
“Somos ovelhas do seu pasto; Ele nos fez, e não nós a nós mesmos.”
Ele é nosso Criador.
Ele é nosso Rei.
Ele é nosso Legislador.
Ele governa a providência.
Ele supre nossas necessidades.
Ele mantém o ar que respiramos.
Ele conserva nossa vida e nos livra da morte.
Ele está diante de nós como nosso:
Criador, Rei, Sustento e Benfeitor.
Então perguntamos:
Não é um crime de enorme magnitude que nós, Suas criaturas, dependentes dEle, estejamos inimistados com Ele?
E por que odiar um Deus tão bondoso?
Pecador, por que estás inimizado com Deus?
Deus é o Deus de amor.
Ele é bondoso para com Suas criaturas.
Ele te concede vida.
Ele te concede alimento.
Ele te concede roupas.
Ele te concede saúde.
Quantas misericórdias recebeste de Suas mãos durante toda a tua vida!
Quando estiveste à beira da morte, Seu braço sustentou tua vida.
Por que, então, estás inimizado com Ele?
E mais:
Deus enviou Seu Filho.
Cristo foi pendurado na cruz e morreu pelos pecadores, o justo pelos injustos.
Odiarias a Deus por isso?
Ele te cercou de favores.
Ele te cumulou de misericórdias.
E ainda assim o coração humano permanece rebelde.
Que terrível condição!
“A mente posta na carne é inimiga de Deus.”
IV. O QUE ESSA VERDADE NOS ENSINA?
Chegamos agora às doutrinas que podemos extrair dessa grande verdade.
1. A salvação não pode ser por méritos
Se a mente carnal está inimizada com Deus, como poderíamos merecer alguma coisa dEle?
Se somos inimigos, que mérito poderíamos apresentar?
A Bíblia inteira nos ensina que a salvação não é pelas obras da lei, mas pela graça.
Sempre existe em nós a tendência de introduzir alguma partícula de nossa própria virtude.
Queremos cooperar com alguma coisa.
Mas isso não pode nos salvar.
“Salvos por suas obras! É como se tentassem chegar à América em um barquinho de papel!”
A salvação dos inimigos deve ser alcançada por um embaixador, por uma expiação — sim, por Cristo.
2. É necessária uma mudança completa da natureza
Se nascemos inimizados com Deus, quão necessária é uma mudança de nossa natureza!
Não basta uma profissão exterior.
Não basta um momento de emoção.
Não basta uma oração feita apenas nos últimos instantes da vida.
Precisamos de um coração transformado.
Imagine um homem que entrasse no céu sem ter experimentado qualquer mudança interior.
Ele ouviria os cânticos de louvor ao seu inimigo.
Veria o trono daquele que considera seu inimigo.
Veria os anjos, servos daquele que odeia.
Estaria na casa daquele que rejeitou.
Como poderia ser feliz ali?
Ele não poderia participar do louvor.
Ele não conheceria a melodia.
Por isso, deve haver uma mudança.
Como poderiam os inimigos de Deus sentar-se no banquete das bodas do Cordeiro?
3. Essa mudança precisa ser realizada pelo poder de Deus
E chegamos ao ponto final.
Essa mudança deve ser feita por um poder superior ao nosso.
Um inimigo pode, talvez, converter-se em amigo.
Mas a própria inimizade não pode transformar a si mesma.
Enquanto o Espírito de Deus não colocar Sua mão sobre nós;
enquanto não regenerar o coração;
enquanto não purificar a alma;
enquanto não mudar o espírito inteiro;
enquanto não fizer do homem uma nova criatura;
não poderemos entrar no céu.
Não importa quanto alguém se torne melhor por seus próprios esforços.
Pode tornar-se mil vezes melhor e ainda assim não possuir aquilo de que necessita:
a regeneração operada pelo Espírito Santo.
CONCLUSÃO: OLHAI PARA CRISTO!
Então devemos parar e meditar.
“Eis-me aqui, uma criatura de um dia, um mortal nascido para morrer, contudo um ser imortal! Neste momento estou inimizado com Deus. Que farei?”
Não seria nosso dever — e também nossa felicidade — perguntar se existe uma maneira de sermos reconciliados com Deus?
É sábio odiar nosso Criador?
É prudente estar em oposição a Ele?
É sensato desprezar as riquezas de Sua graça?
Se isso é sabedoria, é a sabedoria do inferno.
Oh, que Deus nos conceda voltar-nos para Jesus com pleno propósito de coração!
Ele é o Embaixador.
Ele é o único que pode estabelecer a paz por meio de Seu sangue.
Ainda que tenhamos vindo como inimigos, podemos sair como amigos, se simplesmente olharmos para Jesus Cristo.
O caminho da salvação
Agora, pode ser que alguns tenham sido convencidos do pecado pelo Espírito Santo.
Então, proclamemos o caminho da salvação:
“E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna.”
Contempla, ó temeroso penitente, o instrumento de tua libertação.
Volta teus olhos cheios de lágrimas para o Monte do Calvário.
Olha a vítima da justiça.
Olha o sacrifício de expiação por tua transgressão.
Olha para o Salvador em Suas agonias, comprando tua alma com torrentes de Seu sangue e suportando teu castigo.
Ele morreu por ti, se confessas tuas culpas agora.
Oh, vem tu, homem condenado, auto condenado, e volta teus olhos para este caminho.
Pois um só olhar salvará.
Pecador, tu foste mordido.
Olha!
Não necessitas de outra coisa senão olhar.
É simplesmente olhar!
Basta que olhes para Jesus e serás salvo.
“Olhem para mim e sedes salvos.”
Olhem!
Olhem!
Olhem!
Oh, almas culpadas, olhem para Cristo!
“Confia nEle, confia plenamente,
Não permitas que outra confiança se intrometa;
Ninguém senão Jesus
Pode fazer bem ao pecador desvalido.”
Que meu bendito Senhor os ajude a vir a Ele, e lhes atraia a Seu Filho, por Jesus Cristo nosso Senhor.
Amém e Amém.
Sobre este sermão
Charles H. Spurgeon
Sermão pregado na manhã de domingo, 22 de abril de 1855, em Exeter Hall, Strand, Londres.
Texto: Romanos 8:7 — “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus.”
Tradução: Rosangela Cruz.
Este sermão faz parte do Volume 1 de sermões, da parte denominada New Park Street. O título original em inglês é The Carnal Mind Enmity Against God!
