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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A DEPLORÁVEL DEGENERAÇÃO MORAL DO CLERO

E se examinarmos seus costumes e sua vida? Onde estará aquela “luz do mundo” [Mt 5.14] que Cristo requer? Onde o “sal da terra” [Mt 5.13]? Onde aquela santidade que seja um como que padrão perpétuo de conduta? Nenhuma classe de homens hoje é de pior reputação no luxo, na efeminação, nos prazeres, por fim em todo gênero de dissoluções. De nenhuma classe de mestres há mais refinados ou mais hábeis de toda impostura, fraude, traição, perfídia; em parte alguma há tanto de solércia ou de ousadia para fazer o mal. Deixo de mencionar a arrogância, a soberba, a rapacidade, a crueldade; deixo de lado a dissoluta licenciosidade em todos os aspectos da vida; o mundo está cansado de suportar coisas do gênero, o que não há como eu exagerar em demasia. Digo apenas uma coisa, a qual é impossível que pessoalmente neguem: dentre os bispos quase não há sequer um, dos prepostos de paróquias em cem não há um de quem, se houver de passar sentença quanto aos costumes, segundo os cânones antigos, não deva ou ser excomungado, ou ao menos ser deposto do ofício. Isto, como a disciplina que se usava antigamente há muito que caiu em desuso e está como que sepultada, pode parecer incrível, mas é assim mesmo. Assim, pois, que todos os servidores e sequazes do papa se gloriem de sua ordem sacerdotal. Evidentemente, nem de Cristo, nem de seus apóstolos, nem dos pais, nem da Igreja antiga é a origem da ordem eclesiástica que eles têm.

João Calvino

A ORGANIZAÇÃO ECLESIÁSTICA E A HIERARQUIA ENTÃO VIGENTES LONGE DE SER CONSENTÂNEAS COM A INSTITUIÇÃO DE CRISTO

E se alguém olha e examina devidamente toda esta estrutura de governo eclesiástico que existe hoje sob o papismo, verá que não há no mundo bandidos mais desavergonhados. Tudo é tão contrário à instituição de Cristo, e tão oposto a ela, tão diferente do costume antigo e tão contra a natureza e a razão, que não se poderia fazer maior injúria a Cristo do que servir-se de seu nome para dourar um regime tão confuso e desordenado. “Nós”, dizem eles, “somos as colunas da Igreja, os antístites da religião, os vigários de Cristo, os cabeças dos fiéis, porque o poder apostólico nos vem através de sucessão.” Continuamente se vangloriam dessas parvoíces, como se estivessem falando para troncos de árvore. Por minha vez indago deles: Quantas vezes, porém, haverão de vangloriar-se de que têm tudo em comum com os apóstolos? Porque a questão não é de dignidade hereditária, que vem ao homem inclusive dormindo, mas o ofício de pregar, do qual tanto fogem. De modo semelhante, quando asseveramos que seu reino é a tirania do Anticristo, imediatamente replicam que ele é aquela venerável hierarquia tantas vezes louvada por grandes e santos varões. Como se de fato os santos pais, quando recomendavam a hierarquia eclesiástica ou o regime espiritual, como se lhes fora transmitido pelos apóstolos, de mão em mão, estavam a sonhar com este caos disforme e saturado de desolação, em que bispos, em sua maioria, ou são asnos rudes, que na verdade não possuem os rudimentos elementares e vulgares da fé, ou às vezes são meninos recém-saídos do cuidado da ama; e se alguns são mais doutos, o que no entanto é raro o exemplo, pensam que o episcopado não é outra coisa senão um título de esplendor e magnificência, no qual os dirigentes de igrejas não pensam nem se preocupam em apascentar seu rebanho, não mais que um sapateiro em arar o solo, em que todas as coisas se tornaram piores que a dispersão babilônica [Gn 11.7- 9], em que apenas se encontra um sinal do modo de governo que os antigos pais tiveram.

João Calvino

GREGÓRIO I E BERNARDO DE CLAREVAL DENUNCIAM ESTA CRESCENTE ALIENAÇÃO AOS DEVERES DO OFÍCIO PASTORAL, PRINCIPALMENTE À PRÉDICA E AO ENSINO

Já na época de Gregório se faz evidente a existência de certas sementes deste mal, a saber, os dirigentes que começaram a negligenciar mais o ensino nas igrejas, pois em certo lugar se queixa severamente disto: “O mundo”, diz ele, “está repleto de sacerdotes; mas, no entanto, na seara raro se acha um trabalhador, porquanto de fato assumimos o ofício sacerdotal, mas a função do ofício não exercemos.” De igual maneira: “Visto que não têm entranhas de caridade, querem parecer senhores; porquanto longe estão de reconhecer-se pais. Colocam no lugar da humildade a soberba da dominação.” Igualmente: “Mas nós, ó pastores, que fazemos, que recebemos paga e não somos trabalhadores?” Ainda: “Descambamos para os negócios externos. Empreendemos uma coisa, porém fazemos outra; abandonamos o ministério da pregação; e para castigo nosso, como o vejo, somos chamados bispos, porque temos o título de honra, porém não de virtude.” Quando Gregório usa de tão grande aspereza de palavras contra aqueles que eram apenas menos diligentes ou zelosos no dever, pergunto: o que ele haveria de dizer, se visse dentre os bispos quase nenhum, ou certamente dos demais clérigos pouquíssimos, mal um em cem, subir ao púlpito uma única vez em toda a vida? Ora, quando se chega a esse grau de insanidade, julgando ser algo vulgar pregar ao povo, a conclusão é que isso está muito abaixo da dignidade episcopal. No tempo de Bernardo, as coisas haviam decaído um pouco mais; e vemos com que amargas repreensões se dirige ao estado eclesiástico, ainda que seja possível que não estivesse tão perdido e corrompido como na atualidade.

João Calvino

MESMO OS BISPOS E OS PÁROCOS, GENERALIZADAMENTE DISTANCIADOS DO REBANHO, ESTÃO LONGE DE CUMPRIR AS FUNÇÕES PASTORAIS QUE LHES CABEM

Restam os bispos e os dirigentes de paróquias, que prouvera porfiassem por suster o ofício. Ora, de bom grado lhes concederíamos que têm em mãos pio e exímio ofício, desde que o desempenhassem. Quando, porém, deixando de lado as igrejas a si confiadas e lançando seu cuidado a outros, querem ser tidos por pastores, fazem exatamente como se o ofício do pastor fosse não fazer nada. Se algum usuário que jamais movesse pé da cidade professasse ser lavrador ou viticultor, se um soldado que estivesse constantemente presente na linha de batalha e acampamentos, nunca visse foro ou livros, lhes fossem confiados por jurisconsulto, quem toleraria tão fétidos absurdos? Com efeito, muito maior absurdo fazem esses que querem parecer e ser chamado legítimos pastores de igreja, e no entanto não o querem ser. Pois quantos há que ao menos em aparência vão ao encontro do governo de sua igreja? Muitos por toda a vida devoram os rendimentos de igrejas às quais jamais se aproximam, nem mesmo a fim de visitá-las. Outros, uma vez ao ano, ou eles próprios vêm, ou enviam um ecônomo para recolher as rendas, a fim de que nada se perca. Quando começou a introduzir esta corrutela, mercê de privilégios se eximiam aqueles que queriam usufruir deste gênero de isenção. Agora, exemplo raro é que alguém resida em sua igreja, pois as estimam não diferentemente de granjas, nas quais à frente colocam seus vigários, como se fossem feitores ou rendeiros. Com efeito, até mesmo o próprio senso da natureza repudia que um pastor seja de um rebanho ao qual nenhuma ovelha jamais viu!

João Calvino

OUTROS DIGNITÁRIOS OU TITULADOS QUE SÃO TIDOS POR PRESBÍTEROS, DOS QUAIS, PORÉM, LONGE ESTÃO AS FUNÇÕES PRESBITERAIS

Não abordo aqui os vícios externos, mas apenas o mal interior que se apega radicalmente em sua instituição. Lançarei mão de uma palavra que lhes soará mal aos ouvidos. Mas, por ser verdadeira, convém expressá-la: todos os canônicos devem ser tidos na mesma categoria, bem como os decanos, os capelães, os prepostos e todos quantos são sustentados por sacerdócios ociosos. Pois, que natureza de serviço podem prestar à Igreja? Ora, eles alijaram de si a pregação da Palavra, o cuidado da disciplina e a administração dos sacramentos como encargos demasiado enfadonhos. Portanto, o que lhes resta por que se vangloriem de ser verdadeiros presbíteros? Naturalmente o canto e a pompa das cerimônias. Mas, que isso tem a ver com a questão? Se alegam ser o costume, ou o uso, ou a prescrição de longo tempo, eu lhes lanço contra a definição de Cristo, com a qual não só nos declarou os verdadeiros presbíteros, mas também que devam ter os que querem ser tidos nessa conta. Porque, se não podem suportar tão dura lei – que se sujeitem à regra de Cristo –, então que ao menos permitam que esta causa seja decidida pela autoridade da Igreja primitiva. Mas sua condição em nada será melhor, se permitem que seu estado seja julgado pelos cânones antigos. Os canônicos deveriam ser presbíteros do povo, como o foram outrora, para governar a Igreja de comum acordo com o bispo, e ser seus condutores no ofício pastoral.59 Aquelas às quais chamam dignidades capitulares nada têm a ver, absolutamente, com o verdadeiro governo da Igreja, muito menos as capelanias, e a escória restante de títulos desse gênero. Portanto, em que lugar temos todos estes? Certamente que os exclui da honra do presbiterato não só a palavra de Cristo, mas também a observância da Igreja antiga. No entanto declaram que são presbíteros, porém sua máscara deveria ser retirada para que assim pudéssemos achar aquele ofício de presbíteros que os apóstolos não só nos descrevem, mas também foi requerido na Igreja primitiva, e assim toda sua profissão se torna mui alheia e mui remota. Logo, todas as ordens desse gênero, sem importar com que títulos sejam designadas, visto que foram inventadas posteriormente, ou, pelo menos, não se acham arraigadas na instituição do Senhor nem se encontram na Igreja antiga, não devem ter nenhum lugar na descrição do governo eclesiástico, o qual foi ordenado pela boca do próprio Deus e recebido da Igreja. Ou, se preferem que eu fale de uma maneira mais rude e mais claramente, uma vez que capelães, canônicos, decanos, prepostos e ventres ociosos desta laia não tocam sequer com o dedo mínimo em parcela alguma desse ofício, o que se requer necessariamente nos presbíteros, não se deve tolerar que sejam usurpados falsamente dessa honra, nem violem a santa instituição de Cristo.

João Calvino

FUNÇÕES E SUSTENTO DOS SACERDOTES SECULARES, FONTE DE LAMENTÁVEL MERCANTILISMO E MERCENARISMO

Passo agora aos sacerdotes seculares, que em parte são, como dizem, beneficiários, isto é, têm sacerdócios, dos quais são sustentados; em parte exercem funções diárias, celebrando missa ou cantando, e tendo como prover seus estômagos.Os beneficios, ou têm o cuidado das almas, como episcopados e paróquias, ou são estipêndios de homens refinados, que adquirem seu meio de subsistência cantilando, como prebendas, canonicatos, personatos e dignidades, capelanias e afins. Se bem que, já transtornadas as coisas de alto e baixo, são conferidas abadias e priorados não somente a presbíteros seculares, mas ainda, por privilégio, isto é, como costume vulgar, até a meninos. No que respeita aos sacerdotes mercenários, que procuram diariamente seu meio de subsistência, que outra coisa poderiam fazer senão o que fazem, a saber, que de modo indigno de um homem livre, e vergonhoso, se prostituam ao ganho, especialmente em meio a tão grande multidão da qual o mundo ora está tão empanturrado? E assim, como não ousam mendigar abertamente, ou julgam pouco haverem de lucrar nesta maneira, andam à volta como cães famélicos, e com sua importunação o lançam no árido ventre. Se quiser demonstrar aqui a desonra que é para a Igreja que o estado presbiteral se encontre tão desolado, jamais acabaria. Não empregarei muitas lamentações para expor quão grande vergonha é. Apenas direi que, se o ofício do presbítero é apascentar a Igreja e administrar o reino espiritual de Cristo [1Co 4.1], como o ordena a Palavra de Deus e o exigem os cânones antigos, todos os sacerdotes que não têm outra coisa que fazer além de andar comerciando com suas missas, não só deixam de cumprir com seu dever, mas ainda não têm ofício legítimo no qual exercitar-se; porque não lhes permitem ensinar, nem lhes ensinam a apascentar as ovelhas. Em  suma, não têm mais que o altar, para oferecer Cristo em sacrifício; o que não é sacrificar a Deus, mas ao Diabo, como logo se verá.

João Calvino

A INCONGRUÊNCIA DE INVESTIR MONGES PARA O OFÍCIO DO SACERDÓCIO SECULAR OU ORDINÁRIO

Vejamos agora com que fidelidade desempenham seu ministério – que é a segunda marca a estimar-se o verdadeiro pastor. Dos sacerdotes que são aí criados, uns são os monges; os outros são aqueles aos quais chamam os seculares. Aquela primeira grei foi desconhecida à Igreja antiga, e ocupar tal lugar em uma igreja com a profissão monástica de tal modo conflita, que outrora, quando elegiam um frade como clérigo, este deixava de ser monge. E até mesmo Gregório, cujo tempo teve muito de corrupção, entretanto não permitiu que se fizesse tal confusão. Pois, ele quer que sejam excluídos do clericato aqueles que foram feitos abades, porquanto ninguém pode, devidamente, ser monge e clérigo ao mesmo tempo, uma vez que um constitui impedimento ao outro. Ora, se eu indagar como é possível que cumpra bem seu ofício aquele a quem os cânones declaram não ser idôneo, o que haverão de me responder? Citar-me-ão, naturalmente, aqueles decretos abortivos de Inocêncio e Bonifácio, pelos quais monges são de tal forma recebidos à honra e ao poder do sacerdócio, que permanecem em seus mosteiros. Que razão, porém, é que um asno indouto qualquer, tão logo haja ocupado a sé romana, com apenas uma palavrinha reverta toda a antigüidade? Entretanto, no tocante a esta matéria falaremos depois. Por ora é suficiente dizer que, quando uma igreja não estava tão corrompida, não era tão grande absurdo que um monge desempenhasse o sacerdócio. Ora, Jerônimo nega estar ele a exercer a função de sacerdote enquanto vivia entre os monges, senão que se equipara aos fiéis, para ser governado pelos sacerdotes. Mas, admitindo-se que lhes concedamos tal coisa, no entanto que ofício eles desempenham? Dentre os frades mendicantes alguns exercem a prédica; todos os demais monges ou cantarolam ou murmuram missas em seus antros. Como se Cristo quisesse que seus presbíteros fossem ordenados para isto, ou como se naturalmente levassem o ofício consigo. Quando a Escritura testifica abertamente [At 20.28]
 ser atribuição do presbítero reger sua própria Igreja, porventura não é ímpia profanação transferi-lo a outro fim, aliás mudar completamente a sagrada instituição de Deus? Pois, quando são ordenados monges, são expressamente proibidos de fazer o que Deus ordena a todos os presbíteros. Pois isso se prova mediante esta cantilena: Esteja o monge contente com seu claustro, nem presuma administrar os sacramentos, nem realizar alguma coisa do ofício público. Neguem, se o puderem, ser aberta zombaria a Deus que alguém se faça presbítero para que se abstenha do verdadeiro e genuíno ofício, e que um homem tenha o título de uma coisa que não pode possuir.

João Calvino