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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O CONSOLADOR

 


Nº 5

UM SERMÃO

PREGADO NA NOITE DE SÁBADO, 21 DE JANEIRO DE 1855

PELO REV. C. H. SPURGEON

NA CAPELA DA NOVA RUA DO PARQUE, SOUTHWARK

“Mas aquele Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.”

— João 14:26

O bom e velho Simeão chamou Jesus de a consolação de Israel, e Ele o era de fato. Antes de Sua aparição visível, Seu nome era a Estrela da Manhã — consolando as trevas e profetizando o sol nascente. Para Ele olhavam com a mesma esperança que alegra o vigia noturno, quando, do alto da torre solitária, avista a mais bela das estrelas e a saúda como a mensageira da alvorada.

Quando Ele esteve na terra, certamente foi a consolação de todos aqueles que tiveram o privilégio de ser Seus companheiros. Podemos imaginar com que prontidão os discípulos corriam para Cristo a fim de lhe contar suas aflições, e com que doçura, com aquela entonação inigualável de Sua voz, Ele lhes falava e mandava embora os seus temores.

Como crianças, viam-no como seu Pai, e a Ele levavam imediatamente cada necessidade, cada gemido, cada tristeza, cada agonia. E Ele, como um médico sábio, tinha um bálsamo para cada ferida, um cordial preparado para cada preocupação, e prontamente dispensava um remédio poderoso para aplacar toda a febre de suas tribulações.

Oh! Deve ter sido doce viver com Cristo. Com certeza, as tristezas daquela época não passavam de alegrias mascaradas, porque davam a oportunidade de ir a Jesus para removê-las. Oh!, alguns de nós podem dizer: “Quem dera pudéssemos ter deitado nossas cabeças cansadas no peito de Jesus, e que tivéssemos nascido nessa feliz era em que poderíamos ter ouvido a Sua voz bondosa e visto o Seu olhar amoroso, quando Ele disse: ‘Deixai vir a mim os cansados’”.

Mas agora Ele estava prestes a morrer. Grandes profecias deviam se cumprir, e grandes propósitos deviam ser alcançados; por isso, Jesus precisava ir. Convinha que Ele sofresse, para que se tornasse propiciação pelos nossos pecados. Convinha que Ele repousasse no pó por um momento, para perfumar a câmara da sepultura e torná-la —

“Não mais um ossuário para guardar

As relíquias da inocência perdida.”

Convinha que Ele ressuscitasse, para que nós, que um dia seremos os mortos em Cristo, ressuscitássemos primeiro e, em corpos gloriosos, estivéssemos sobre a terra. E convinha que Ele subisse às alturas, para levar cativo o cativeiro, acorrentar os demônios do inferno, arrastá-los até as rodas de sua carruagem e elevá-los ao monte do alto céu, fazendo-os sentir uma segunda derrota de seu braço direito quando os precipitasse dos pináculos do céu para as mais profundas profundezas abaixo.

“Convém que eu vá para os meus”, disse Jesus, “porque, se eu não for, o Consolador não virá”. Jesus tem de ir. Chorai, ó discípulos. Jesus tem de partir. Pranteai, ó pobres que sereis deixados sem Consolador. Mas ouvi com que bondade Jesus fala: “Não vos deixarei órfãos; andarei para o Pai, e ele vos enviará outro Consolador, que convive convosco e estará em vós para sempre”.

Ele não deixaria aquelas poucas ovelhas pobres sozinhas no deserto, não abandonaria Seus filhos nem os deixaria órfãos. Ainda que tivesse uma missão grandiosa que enchia o Seu coração e as Suas mãos, ainda que tivesse tanto a realizar que poderíamos pensar que até o Seu intelecto gigantesco ficaria sobrecarregado, ainda que tivesse tanto a sofrer a ponto de supormemos que toda a Sua alma estivesse concentrada na ideia dos sofrimentos a serem suportados — contudo, não foi assim.

Antes de partir, Ele proferiu palavras consoladoras. Como o bom samaritano, Ele derramou azeite e vinho, e vemos o que prometeu: “Enviar-vos-ei outro Consolador — alguém que será exatamente o que eu fui, sim, ainda mais, que vos consolará em vossas tristezas, removerá vossas dúvidas, confortará vossas aflições e agirá como Meu vigírio na terra, para fazer aquilo que eu teria feito, caso houvesse permanecido convosco”.

Antes de falar sobre o Espírito Santo como o Consolador, devo fazer uma ou duas observações sobre as diferentes traduções da palavra vertida como “Consolador”. A tradução de Reims, como sabeis, adotada pelos católicos romanos, deixou a palavra sem tradução e a verteu como “Paráclito”. “Mas o Paráclito, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas”.

Esta é a palavra grega original, e ela possui outros significados além de “Consolador”. Às vezes, significa o monitor ou instrutor: “Enviar-vos-ei outro monitor, outro mestre”. Frequentemente significa “Advogado”, mas o significado mais comum da palavra é o que temos aqui: “Enviar-vos-ei outro Consolador”. Contudo, não podemos passar por essas outras duas interpretações sem dizer algo a respeito delas.

“Enviar-vos-ei outro mestre”. Jesus Cristo havia sido o mestre oficial de Seus santos enquanto esteve na terra. Eles não chamavam homem algum de Rabi, exceto a Cristo. Não se sentavam aos pés de homem algum para aprender doutrinas, mas as recebiam diretamente dos lábios Daquele que “falou como nunca nenhum homem falou”. “E agora”, diz Ele, “quando eu me for, onde encontrareis o grande mestre infalível? Estabelecerei para vós um Papa em Roma, a quem ireis e que será vosso oráculo infalível? Darei a vós os concílios da igreja reunidos para decidir todas as questões espinhosas?”. Cristo não disse nada disso.

“Eu sou o paráclito ou mestre infalível, e quando eu partir, enviar-vos-ei outro mestre, e Ele será a pessoa que explicará as Escrituras. Ele será o oráculo autoritativo de Deus, que tornará claras todas as coisas obscuras, desatará mistérios, desmanchará todos os nós da revelação e fará com que compreendais o que não poderíeis descobrir, se não fosse pela Sua influência”.

E, amados, nenhum homem aprende algo retamente, a menos que seja ensinado pelo Espírito. Podeis aprender a eleição, e podeis conhecê-la de tal maneira que sejais condenados por ela, se não fores ensinados pelo Espírito Santo. Pois eu tenho conhecido alguns que aprenderam a eleição para a destruição de suas próprias almas. Aprenderam-na de modo a dizer que eram dos eleitos, quando, na verdade, não tinham marcas, nem evidências, nem a obra do Espírito Santo em suas almas. Há um modo de aprender a verdade na faculdade de Satanás e retê-la em libertinagem, mas, se assim for, isso será para vossas almas como veneno em vossas veias, provando a vossa ruína eterna.

Nenhum homem pode conhecer a Jesus Cristo a menos que seja ensinado por Deus. Não há doutrina na Bíblia que possa ser aprendida com segurança, profundidade e verdade, exceto pela agência do único mestre autoritativo. Ah! Não me faleis de sistemas de divindade, não me faleis de esquemas de teologia, não me faleis de comentaristas infalíveis, de doutores mui letrados e arrogantes; mas falai-me do Grande Mestre, que nos instruirá, aos filhos de Deus, e nos tornará sábios para compreender todas as coisas. Ele é o Mestre; pouco importa o que este ou aquele homem diga, eu não me apoio na autoridade jactanciosa de homem algum, e vós tampouco. Não vos deixareis levar pela astúcia dos homens nem pela capciosidade das palavras. Este é o oráculo autoritativo: o Espírito Santo habitando nos corações de Seus filhos.

A outra tradução é advogado. Já pensastes em como se pode dizer que o Espírito Santo é um advogado? Sabeis que Jesus Cristo é chamado de Maravilhoso, Conselheiro e Deus Forte, mas como se pode dizer que o Espírito Santo é um advogado? Suponho que seja assim: Ele é um advogado na terra para pleitear contra os inimigos da cruz.

Como foi que Paulo pôde pleitear tão habilmente perante Félix e Agripa? Como foi que os apóstolos permaneceram destemidos perante os magistrados e confessaram o seu Senhor? Como tem acontecido que, em todos os tempos, os ministros de Deus têm sido feitos corajosos como leões, com testas mais firmes que o bronze, corações mais severos que o aço e palavras semelhantes à linguagem de Deus?

Ora, isso se deve simplesmente a esta razão: não era o homem que pleiteava, mas Deus, o Espírito Santo, pleiteando por intermédio dele. Nunca vistes um ministro fervoroso, com as mãos erguidas e os olhos derramando lágrimas, pleiteando com os filhos dos homens? Nunca admirastes aquele retrato saído das mãos do velho John Bunyan? Uma pessoa grave, com os olhos voltados para o céu, o melhor dos livros na mão, a lei da verdade escrita em seus lábios, o mundo às suas costas, postada como quem pleiteia com os homens, com uma coroa de ouro pendurada sobre a cabeça.

Quem deu a esse ministro um comportamento tão abençoado e uma matéria tão excelente? De onde veio a sua habilidade? Adquiriu-a na faculdade? Aprendeu-a num seminário? Ah! Não, ele aprendeu-a com o Deus de Jacó. Aprendeu-a com o Espírito Santo, pois o Espírito Santo é o grande conselheiro que nos ensina a pleitear bem a Sua causa.

Mas, além disso, o Espírito Santo é o advogado nos corações dos homens. Ah! Tenho conhecido homens que rejeitavam uma doutrina até que o Espírito Santo começou a iluminá-los. Nós, que somos os advogados da verdade, somos frequentemente péssimos defensores. Estragamos a nossa causa com as palavras que usamos, mas é uma misericórdia que a causa esteja nas mãos de um advogado especial, que pleiteará com sucesso e vencerá a oposição do pecador. Acaso já O vistes falhar uma única vez?

Irmãos, dirijo-me às vossas almas: porventura Deus, em tempos passados, não vos convenceu do pecado? O Espírito Santo não veio e provou que éreis culpados, embora nenhum ministro jamais pudesse arrancar-vos da vossa própria justiça? Ele não defendeu a justiça de Cristo? Não veio dizer-vos que as vossas obras eram trapos imundos? E quando quase continuastes a recusar ouvir a Sua voz, não buscou Ele o tambor do inferno e o fez ressoar aos vossos ouvidos, ordenando-vos que olhásseis através da perspectiva dos anos futuros e vísseis o trono estabelecido, os livros abertos, a espada desembainhada, o inferno ardendo, os demônios uivando e os condenados gritando para sempre? E não foi assim que Ele vos convenceu do juízo vindouro?

Ele é um poderoso advogado quando pleiteia na alma — do pecado, da justiça e do juízo vindouro. Bendito advogado! Pleiteia no meu coração, pleiteia com a minha consciência. Quando eu pecar, torna a consciência ousada para mo dizer. Quando eu errar, faze com que a consciência fale imediatamente; e quando eu me desviar para caminhos tortuosos, defende então a causa da justiça e faze-me sentar em confusão, reconhecendo a minha culpa perante Deus.

Mas há ainda outro sentido em qual o Espírito Santo advoga: Ele advoga a nossa causa perante Jesus Cristo, com gemidos inexprimíveis. Ó minha alma, estás prestes a romper dentro de mim! Ó meu coração, estás inchado de gotejante aflição; a maré escaldante da minha emoção quase transbordaria os canais das minhas veias. Anseio falar, mas o próprio desejo acorrenta a minha língua. Desejo orar, mas o fervor do meu sentimento refreia a minha linguagem.

Há um gemido interior que não pode ser expresso. Sabeis quem pode exprimir esse gemido, quem pode compreendê-lo, quem pode transformá-lo em linguagem celestial e proferi-lo numa língua angélica para que Cristo o ouça? Oh! Sim, é Deus, o Espírito Santo. Ele advoga a nossa causa perante Cristo, e então Cristo a advoga perante Seu Pai. Ele é o advogado que intercede por nós com gemidos inexprimíveis.

Tendo explicado assim o ofício do Espírito como mestre e advogado, passamos agora à tradução da nossa versão: o Consolador. E aqui terei três divisões: Primeiro, o Consolador; segundo, o consolo; e terceiro, os consolados.

I. Primeiro, então, o CONSOLADOR.

Deixai-me passar brevemente, em minha mente e na vossa, pelas características deste glorioso Consolador. Deixai-me contar alguns dos atributos do Seu consolo, para que possais compreender quão bem adaptado Ele é ao vosso caso.

Primeiramente, notemos que Deus, o Espírito Santo, é um Consolador muito amoroso. Estou em aflição e preciso de consolação. Um transeunte qualquer ouve a minha dor, entra, senta-se e esforça-se por me animar. Proferem palavras consoladoras, mas ele não me ama; é um estranho, não me conhece de modo algum, veio apenas para testar a sua habilidade — e qual é a consequência? As suas palavras deslizam sobre mim como óleo sobre uma laje de mármore; são como a chuva miúda batendo na rocha. Não quebram o meu pesar, que permanece inabalável como um diamante, porque ele não tem amor por mim.

Mas que alguém que me ama ternamente como à sua própria vida venha e interceda comigo — então, verdadeiramente, as suas palavras são música. Têm sabor de mel. Ele conhece a senha das portas do meu coração, e o meu ouvido está atento a cada palavra. Capturo a entonação de cada sílaba à medida que cai, pois é como a harmonia das harpas do céu.

Oh! Há uma voz no amor; ele fala uma linguagem que lhe é própria; possui um idioma e um sotaque que ninguém pode imitar — a sabedoria não o pode imitar, a oratória não o pode alcançar. Apenas o amor pode alcançar o coração enlutado; o amor é o único lenço capaz de enxugar as lágrimas do aflito. E não é o Espírito Santo um Consolador amoroso?

Sabeis, ó santo, quanto o Espírito Santo vos ama? Podeis medir o amor do Espírito? Sabeis quão grande é a aflição da Sua alma para convosco? Ide, medi o céu com o vosso palmo. Ide, pesai os montantes nas balanças. Ide, apanhai as águas do oceano e contai cada gota. Ide, contai a areia na vasta margem do mar; e, quando tiverdes realizado isso, podereis dizer o quanto Ele vos ama. Ele vos ama há muito tempo, ama-vos bem, amou-vos desde sempre e continuará a amar-vos. Certamente Ele é a pessoa idônea para vos consolar, porque ama. Acolhei-O, pois, em vosso coração, ó cristão, para que Ele vos console em vossa angústia.

Mas, em seguida, Ele é um Consolador fiel. O amor, às vezes, mostra-se infiel. “Oh!, mais cortante do que dente de serpente” é um amigo infiel! Oh!, muito mais amargo do que o fel da amargura é ter um amigo que se aparta de mim na minha angústia! Oh!, desgraça das desgraças, ter alguém que me ama na prosperidade e me abandona nos dias sombrios da tribulação!

Triste, deveras, mas não é assim com o Espírito de Deus. Ele ama sempre, e ama até o fim — um Consolador fiel. Filho de Deus, estás em dificuldades. Há pouco tempo O achaste um Consolador doce e amoroso; obtiviste alívio d’Ele quando os outros não passavam de cisternas rotas. Ele te abrigou no Seu seio e te carregou em Seus braços.

Oh!, por que duvidas d’Aquele agora? Longe de ti os teus temores! Pois Ele é um Consolador fiel. “Ah, mas”, dizes tu, “temo ficar enfermo e privado das Suas ordenanças”. Contudo, Ele te visitará no teu leito de enfermidade e sentar-se-á ao teu lado para dar-te consolação. “Ah, mas tenho angústias maiores do que podes conceber; vaga sobre vaga passa por cima de mim, um abismo chama outro abismo ao ruído das trombas d'água do Eterno”. Não obstante, Ele será fiel à Sua promessa.

“Ah, mas eu pequei”. É verdade, mas o pecado não pode separar-vos do Seu amor; Ele vos ama ainda. Não penseis, ó pobre filho de Deus abatido, porque as cicatrizes dos vossos velhos pecados mancharam a vossa beleza, que Ele vos ama menos por causa dessa mancha. Oh, não! Ele vos amou quando previu o vosso pecado. Amou-vos sabendo qual seria o total da vossa maldade, e não vos ama menos agora.

Vinde a Ele com toda a ousadia da fé, dizei-lhe que o crestes magoar, e Ele esquecerá o vosso desvio, acolhendo-vos novamente. Os beijos do Seu amor vos serão outorgados, e os braços da Sua graça vos abraçarão. Ele é fiel; confiai n'Ele, pois nunca vos enganará; confiai n'Ele, pois jamais vos abandonará.

Novamente, Ele é um Consolador infatigável. Às vezes, tenho tentado consolar pessoas que têm sido provadas. De vez em quando, deparais com o caso de uma pessoa nervosa. Perguntais: “Qual é a sua aflição?”. Dizem-vos, e tentais, se possível, removê-la; mas, enquanto preparais a vossa artilharia para bombardear o problema, percebeis que ele mudou de quartel e está ocupando uma posição totalmente diferente.

Mudais de argumento e recomeçais, mas eis que ele sumiu de novo, e ficais perplexos. Sentis-vos como Hércules cortando as cabeças sempre renovadas da Hidra, e abandonais a tarefa em desespero. Encontrais pessoas que são impossíveis de consolar, fazendo lembrar o homem que se trancou em grilhões e jogou a chave fora, de modo que ninguém o podia destrancar.

Tenho achado alguns presos nos grilhões do desespero. “Ó, eu sou o homem”, dizem eles, “que viu a aflição; compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ó meus amigos”; e, quanto mais tentais consolar tais pessoas, pior elas ficam. Por isso, sem coração algum, deixamo-las vaguear sozinhas entre os túmulos de suas alegrias passadas.

Mas o Espírito Santo nunca perde o ânimo com aqueles a quem deseja consolar. Ele tenta consolar-nos, e nós fugimos do doce cordial. Ele nos dá uma bebida suave para nos curar, e nós não queremos bebê-la. Ele nos dá uma poção maravilhosa para afastar todos os nossos problemas, e nós a afastamos de nós. Ainda assim, Ele nos persegue; e embora digamos que não queremos ser consolados, Ele diz que seremos — e o que Ele diz, Ele cumpre. Ele não se cansa de todos os nossos pecados, nem de todas as nossas murmurações.

E oh, quão sábio é o Consolador, o Espírito Santo! Jó teve consoladores, e creio que disse a verdade quando afirmou: “Miseráveis consoladores sois todos vós”. Mas atrevo-me a dizer que eles se julgavam sábios. E quando o jovem Eliú se levantou para falar, julgaram que ele tinha um mundo de audácia. Acaso não eram “anciãos graves e reverendos”? Não compreendiam eles o seu lamento e a sua dor? Se eles não o podiam consolar, quem poderia?

Mas não descobriram a causa. Pensavam que ele não era verdadeiramente um filho de Deus, que era egoísta e pretensioso, e deram-lhe o remédio errado. É um caso grave quando o médico confunde a doença e receita a prescrição incorreta, acabando, porventura, por matar o paciente. Às vezes, quando visitamos pessoas, erramos o diagnóstico; queremos consolar num ponto, quando elas não precisam de tal consolo, e seria melhor deixá-las sozinhas do que estragá-las com consoladores tão insensatos quanto nós.

Mas oh, quão sábio é o Espírito Santo! Ele toma a alma, deita-a sobre a mesa e a disseca num instante. Descobre a raiz do assunto, vê onde está a enfermidade, aplica o bisturi onde algo precisa ser cortado ou põe um curativo onde a ferida está; e Ele nunca se engana. Oh, quão sábio é o bendito Espírito Santo! De todo consolador eu me afasto e os abandono a todos, porque Tu és Aquele que dás sozinho a mais sábia consolação.

Notai, então, quão seguro é o Consolador, o Espírito Santo. Nem todo consolo é seguro, reparai bem nisso. Há um jovem ali muito melancólico. Sabeis como ele ficou assim? Entrou na casa de Deus, ouviu um pregador poderoso, a palavra foi abençoada e convenceu-o do pecado. Quando foi para casa, seu pai e os demais viram que havia algo diferente nele. “Oh”, disseram, “o João está maluco, está louco”; e o que disse a mãe? “Mandai-o para o campo por uma semana, deixai-o ir ao baile ou ao teatro”.

João! Encontraste algum consolo lá? “Ah, não, eles pioraram a minha situação, pois enquanto eu estava lá, pensei que o inferno pudesse se abrir e me tragar”. Encontraste algum alívio nas futilidades do mundo? “Não”, dizeis vós, “achei que era uma perda inútil de tempo”. Ai, este é um consolo miserável, mas é o consolo do mundano; e quando um cristão entra em aflição, quantos lhe recomendam este ou aquele remédio!

“Vai ouvir o fulano pregar, chama alguns amigos para tua casa, lê este ou aquele volume consolador”; e, muito provavelmente, este é o conselho mais perigoso do mundo. O diabo, às vezes, aproxima-se das almas humanas como um falso consolador, dizendo à alma: “Que necessidade há de tanto alvoroço acerca do arrependimento? Não és pior do que os outros”; e ele tentará fazer com que a alma creia que aquilo que é presunção constitui a verdadeira segurança do Espírito Santo — enganando assim a muitos com falsos confortos.

Ah, muitos foram destruídos, como crianças, por elixires dados para adormecê-las; muitos foram arruinados pelo grito de “Paz, paz”, quando não há paz, ouvindo palavras doces quando deveriam ser despertados profundamente. A áspide de Cleópatra foi trazida numa cesta de flores, e a ruína dos homens amiúde espreita em discursos belos e doces. Mas o consolo do Espírito Santo é seguro, e nele vos podeis estribar. Deixai-O proferir a palavra, e haverá uma realidade nisso. Deixai-O dar o cálice da consolação, e podereis bebê-lo até o fundo, pois em suas profundezas não há borra, nada que embriague ou arruine; tudo é seguro.

Além disso, o Espírito Santo é um Consolador ativo; Ele não consola com palavras, mas com atos. Alguns consolam dizendo: “Aquecei-vos e fartai-vos”, sem dar coisa alguma. Mas o Espírito Santo dá; Ele intercede junto a Jesus, dá-nos promessas, dá-nos graça, e assim nos consola. Notai ainda que Ele é sempre um Consolador bem-sucedido; nunca tenta aquilo que não pode realizar.

Para concluir, Ele é um Consolador sempre presente, de modo que nunca precisais mandar chamá-Lo. O vosso Deus está sempre perto de vós; e, quando necessitais de consolo na vossa aflição, eis que a palavra está perto de vós, na vossa boca e no vosso coração. Ele é um socorro bem presente na hora da angústia. Quem me dera ter tempo para expandir estes pensamentos, mas não o tenho.

II. A segunda coisa é o CONSOLO.

Existem algumas pessoas que cometem um grande erro quanto à influência do Espírito Santo. Um homem insensato, que tinha o capricho de pregar em um determinado púlpito, embora fosse de fato totalmente incapaz para a tarefa, procurou o ministro e assegurou-lhe solenemente que lhe fora revelado pelo Espírito Santo que devia pregar naquele púlpito.

“Muito bem”, disse o ministro, “suponho que não deva duvidar da tua afirmação, mas, como não me foi revelado que devo deixar-te pregar, deves seguir o teu caminho até que o seja”. Tenho ouvido muitas pessoas fanáticas dizerem que o Espírito Santo lhes revelou isto e aquilo. Ora, isso é, em geral, uma tolaria revelada.

O Espírito Santo não revela nada de novo atualmente. Ele traz à nossa memória as coisas antigas. “Ele vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”.

O cânon da revelação está fechado. Nada mais há a ser acrescentado. Deus não concede uma nova revelação, mas consolida a antiga. Quando ela foi esquecida e deixada na câmara empoeirada de nossa memória, Ele a retira e limpa o quadro, mas não pinta um novo. Não há novas doutrinas, mas as antigas são frequentemente reavivadas.

Não é, repito, por nenhuma nova revelação que o Espírito consola. Ele o faz dizendo-nos de novo as coisas velhas. Ele traz uma nova lâmpada para manifestar os tesouros escondidos nas Escrituras. Ele destranca os cofres fortes onde a verdade jazia há muito tempo e aponta para câmaras secretas repletas de riquezas incontáveis. Mas Ele não cunha moedas novas, pois já foi feito o suficiente.

Crente! Há o suficiente na Bíblia para viveres eternamente. Se ultrapassasses os anos de Matusalém, não haveria necessidade de uma nova revelação. Se vivesses até que Cristo viesse à terra, não haveria necessidade de acrescentar uma única palavra. Se descesses tão fundo quanto Davi, ou descessem as profundezas como Jonas disse ter descido, no ventre do inferno, ainda assim haveria o suficiente na Bíblia para te consolar sem uma sentença suplementar. Mas Cristo diz: “Ele há de tomar do que é meu e vo-lo há de anunciar”. Deixai-me contar-vos brevemente o que o Espírito Santo nos diz.

Ah! Não sussurra Ele ao coração: “Santo, tem bom ânimo, há alguém que morreu por ti. Olha para o Calvário, contempla as Suas feridas, vê a torrente jorrando do Seu lado. Ali está o teu resgatador, e estás seguro. Ele te ama com um amor eterno, e este castigo visa ao teu bem. Cada golpe está operando a tua cura; pela contusão da ferida, a tua alma é sarada. ‘Porque o Senhor corrige a quem ama, e açoita a todo o filho a quem recebe’”?

Não duvides da Sua graça por causa da tua tribulação, mas crê que Ele te ama tanto nas estações de aflição quanto nos tempos de felicidade. E além disso, Ele diz: “O que é todo o teu sofrimento comparado ao do teu Senhor? Ou o que é, quando pesado nas balanças das agonias de Jesus, toda a tua aflição?”.

Especialmente em certos momentos, o Espírito Santo retira o véu do céu e deixa a alma contemplar a glória do mundo celestial! É então que o santo pode exclamar: “Oh! És um Consolador para mim!”.

“Venham cuidados como um dilúvio bravo,

E tempestades de dor caiam sem fim;

Contanto que eu chegue ao lar seguro e a salvo,

Meu Deus, meu céu, meu tudo são para mim.”

Alguns de vós poderíeis acompanhar-me se eu falasse das manifestações do céu. Vós também deixastes o sol, a lua e as estrelas sob os vossos pés, enquanto, em vosso voo, ultrapassando o relâmpago tardio, parecestes entrar pelas portas de pérolas e caminhar pelas ruas de ouro, arrebatados nas asas do Espírito. Mas aqui não devemos confiar em nós mesmos, para que, perdidos em devaneios, não esqueçamos o nosso tema.

III. E agora, em terceiro lugar, quem são as pessoas CONSOLADAS?

Gosto, como sabeis, no final do meu sermão, de clamar: “Dividi! Dividi!”. Há duas partes aqui: alguns que são os consolados e outros que são os desamparados — alguns que receberam a consolação do Espírito Santo e outros que não a receberam. Agora, leiamos e cernamos para ver quem é a palha e quem é o trigo; e que Deus conceda que parte da palha possa esta noite ser transformada em Seu trigo.

Poderíeis dizer: “Como hei de saber se sou recipiente do consolo do Espírito Santo?”. Podes sabê-lo por uma regra. Se recebeste uma bênção de Deus, receberás também todas as demais bênçãos. Deixai-me explicar. Se eu pudesse vir aqui como um leiloeiro e vender o Evangelho em lotes, eu o disporia todo.

Se eu pudesse dizer que aqui há justificação mediante o sangue de Cristo, gratuita, dada de graça — muitos diriam: “Eu quero a justificação, dai-ma, eu desejo ser justificado, desejo ser perdoado”. Suponhamos que eu tomasse a santificação: a renúncia a todo o pecado, uma mudança radical de coração, o abandono da embriaguez e dos juramentos — muitos diriam: “Eu não quero isso, eu gostaria de ir para o céu, mas não quero essa santidade. Gostaria de ser salvo no fim, mas quero continuar com a minha bebida. Gostaria de entrar na glória, mas tenho de soltar um ou dois palavrões no caminho”.

Não, porém, pecador; se tens uma bênção, terás todas. Deus nunca dividirá o Evangelho. Ele não dará a justificação a este homem e a santificação a outro. O perdão a um e a santidade a outro. Não, tudo anda junto. A quem ele chamou, a esses também justificou; e a quem justificou, a esses também glorificou.

Oh, se eu pudesse expor nada além dos confortos do Evangelho, correríeis para eles como as moscas para o mel. Quando adoeceis, chamais o clérigo. Ah! Todos quereis que o vosso ministro venha então dar-vos palavras de consolo. Mas, se ele for um homem honesto, não vos dará sequer uma partícula de consolação. Ele não começará a derramar azeite quando o bisturi seria muito melhor.

Eu quero fazer o homem sentir os seus pecados antes de ousar dizer-lhe qualquer coisa a respeito de Cristo. Quero sondar a sua alma e fazê-lo sentir que está perdido antes de lhe falar sobre a bênção adquirida. É a ruína de muitos dizer-lhes: “Agora, basta crer em Cristo, e isso é tudo o que tendes a fazer”. Se, em vez de morrerem, eles melhoram, erguem-se como hipócritas caiados — e é só isso.

Ouvi falar de um missionário urbano que mantinha um registro de duas pessoas que se supunha estarem em seus leitos de morte, mas que se recuperaram, e as quais ele teria considerado como pessoas convertidas se tivessem morrido. E quantos pensais que viveram uma vida cristã posteriormente, dentre esses dois milhares? Nem dois! Positivamente, ele só conseguiu encontrar um que passou a viver depois no temor de Deus.

Não é horrível que, quando homens e mulheres estão prestes a morrer, clamem: “Consolo, consolo!”, e que, a partir daí, os seus amigos concluam que eles são filhos de Deus, quando no fim não têm direito algum à consolação, sendo apenas intrusos nos terrenos cercados do Deus bendito? Ó Deus, que estas pessoas sejam sempre impedidas de ter consolo quando não têm direito a ele!

Possuís as outras bênçãos? Tendes tido convicção de pecado? Já sentistes a vossa culpa perante Deus? Foram as vossas almas humilhadas aos pés de Jesus? Fostes levados a olhar unicamente para o Calvário em busca de refúgio? Se não, não tendes direito algum à consolação. Não tomeis sequer um átomo dela. O Espírito é um Convencedor antes de ser um Consolador, e deveis passar pelas demais operações do Espírito Santo antes de poderdes extrair qualquer proveito disto.

E agora terminei. Ouvistes mais uma vez o que este tagarela disse. O que foi? Algo acerca do Consolador. Mas deixai-me perguntar-vos, antes de partirdes: que sabeis vós acerca do Consolador? Cada um de vós, antes de descer os degraus desta capela, permita que esta solene pergunta ressoe através de vossas almas: “Que sabeis vós do Consolador?”.

Ó almas pobres, se não conheceis o Consolador, direi o que vireis a conhecer: conhecereis o Juiz! Se não conheces o Consolador na terra, conhecerás o Condenador no mundo vindouro, que clamará: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Com razão Whitefield exclamava: “Ó terra, terra, terra, ouvi a Palavra do Senhor!”. Se vivêssemos aqui para sempre, poderíeis desprezar o Evangelho. Se tivésseis um contrato vitalício para as vossas vidas, poderíeis menosprezar o Consolador. Mas, senhores, tendes de morrer.

Desde a última vez que nos reunimos, provavelmente alguns partiram para a sua morada eterna, e antes que nos encontremos novamente neste santuário, alguns aqui estarão entre os glorificados lá em cima ou entre os condenados lá embaixo. Qual será? Deixai que a vossa alma responda. Se hoje à noite caísseis mortos em vossos bancos, ou onde estais em pé na galeria, onde estaríeis? No céu ou no inferno?

Ah, não vos enganeis; deixai que a consciência faça a sua obra perfeita e, se, à vista de Deus, sois obrigados a dizer: “Tremeu-me a alma e receio que a minha porção seja com os incrédulos”, ouvi por um instante, e então me despeço de vós: “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado”.

Pecador cansado, pecador infernal, tu que és o rejeitado do diabo, réprobo, prostituto, prostituta, ladrão, ladrão contumaz, adúltero, fornicador, bêbado, blasfemo, profanador do sábado — ouve! Falo contigo assim como com os demais. Não isento homem algum. Deus declarou que aqui não há isenção: “Todo aquele que crê no nome de Jesus Cristo será salvo”.

O pecado não é barreira, a tua culpa não é obstáculo. Todo aquele — ainda que fosse tão negro quanto Satanás, ainda que fosse imundo como um demônio —, todo aquele que crer esta noite, terá cada pecado perdoado, cada crime apagado, cada iniquidade blotada; será salvo no Senhor Jesus Cristo e permanecerá no céu são e salvo. Este é o glorioso Evangelho.

Que Deus o aplique aos vossos corações e vos dê fé em Jesus!

“Ouvimos já o pregador

A pura verdade mostrar;

Mas precisamos de um MAIOR MESTRE,

Vindo do trono tutelar:

A APLICAÇÃO

É obra só do Deus sem par.”

Extraído da coleção The Metropolitan Tabernacle Pulpit, de C. H. Spurgeon. Apenas as alterações necessárias foram feitas, tais como a correção de erros ortográficos, uso de pontuação, capitalização dos pronomes divinos e uma atualização mínima de algumas palavras arcaicas. O conteúdo é na íntegra. Recursos adicionais baseados na Bíblia estão disponíveis em www.spurgeongems.org.