domingo, 17 de junho de 2018

A PROVIDÊNCIA DIVINA NÃO NOS JUSTIFICA A INIQÜIDADE


Os mesmos indivíduos atribuem os eventos pretéritos à manifesta providência de Deus, de forma errônea e inconsiderada. Ora, visto que dela dependem todas as coisas que acontecem, logo, dizem eles, nem roubos, nem adultérios, nem homicídios se perpetram sem que a vontade de Deus intervenha. Portanto, insistem, por que será punido o ladrão, que despojou àquele a quem o Senhor quis castigar com a
pobreza? Por que será punido o homicida, que matou àquele a quem o Senhor havia findado a vida? Se todos estão assim servindo à vontade de Deus, por que haverão de ser punidos? Eu, porém, em contrário, nego que estejam eles servindo à vontade de Deus. Pois não diremos que presta serviço a Deus, conforme sua ordem, aquele que é levado por seu mau ânimo, quando obedece apenas ao próprio desejo maligno.
Obedece a Deus aquele que, plenamente instruído acerca de sua vontade, porfia por fazer aquilo que ele o chamou para fazer. Mas, donde somos nós plenamente instruídos, senão de sua Palavra? Portanto, em nosso curso de ação, devemos ter em mira esta vontade de Deus que ele declara em sua Palavra. Deus quer de nós unicamente isto: obediência ao que ele preceitua. Se intentamos algo contra seu preceito, isso não é obediência; pelo contrário, é contumácia e transgressão.
Mas, replicarão, a não ser que ele o quisesse, não o haveríamos de fazer. Concordo. Entretanto, porventura fazemos as coisas más com este propósito, ou, seja, que lhe prestemos obediência? Com efeito, de maneira alguma Deus não no-las ordena; antes, pelo contrário, a elas nos arremetemos, nem mesmo cogitando se ele o queira, mas de nosso desejo incontido, a fremir tão desenfreadamente, que de
intento deliberado lutamos contra ele. E, por essa razão, ao fazermos o mal, servimos a sua justa ordenação, porquanto, em decorrência da imensa grandeza de sua sabedoria, ele sabe, bem e convenientemente, fazer uso dos instrumentos maus para
efetuar o bem.
Consideremos, pois, quão inadequada é sua argumentação: querem que os crimes de seus autores sejam impunes, porquanto não são cometidos senão pela administração de Deus. Eu concedo mais: os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou. Nego, no entanto, que daí se
deva permitir-lhes qualquer escusa por seus maus feitos.
E então? Porventura enredilharão Deus consigo na mesma iniqüidade, ou com a justiça dele haverão de acobertar sua depravação? Não podem fazer nem uma, nem outra coisa. Para que não justifiquem a si próprios, sua própria consciência os recrimina; para que não acusem a Deus, percebem em si mesmos todo o mal, e nele nada senão o legítimo uso da maldade deles.
Mas, de fato, insistirão que Deus opera através deles! E, indago eu, donde provém o mal cheiro em um cadáver que, pelo calor do sol, não só se fez putrefato, mas até já entrou em decomposição? Todos vêem que isso é provocado pelos raios do sol; contudo, ninguém por isso diz que eles cheiram mal. Daí, como no homem mau residem a matéria e a culpa do mal, que razão há para que se conclua que Deus contrai alguma mácula se, a seu arbítrio, ele faz uso de sua atuação?
Portanto, fora com essa petulância canina, a qual na realidade pode ladrar, à distância, contra a justiça de Deus, não, porém, tocá-la!


João Calvino

A Providência Divina longe está de dispensar todos os meios de proteção e socorro

Com efeito, no que tange às coisas futuras, Salomão concilia facilmente as deliberações humanas com a providência de Deus. Pois, assim como se ri da obtusidade daqueles que, à parte do Senhor, audaciosamente empreendem o que lhes apraz, como se não fossem governados por sua mão, também desta sorte assim fala em outro lugar [Pv 16.9]: “O coração do homem planeja seu caminho, e o Senhor lhe dirigirá os passos”, deixando evidente que não somos de modo algum impedidos pelos eternos decretos de Deus de, sob sua vontade, não só olharmos por nós mesmoscomo também de regularmos todas as nossas coisas. Isso nem mesmo carece de razão clara. Afinal de contas, aquele que nos limitou a vida com seus termos, ao mesmo tempo, depondo diante dele nossa solicitude, proveu-nos de meios e recursos de conservá-la; também nos fez capazes de antecipar os perigos; para que não nos apanhassem desprevenidos, ministrou-nos precauções e remédios. Agora, pois, salta à vista qual é nosso dever, isto é, se o Senhor nos confiou a proteção de nossa vida, então que a cerquemos de cuidados; se oferece recursos, então que os usemos; se nos previne dos perigos, então não nos lancemos temerariamente
a eles; se fornece remédios, não os negligenciemos. Com efeito, dirão que nenhum perigo nos fará mal, se não lhe é ordenado que nos prejudique, pois isso de maneira nenhuma se pode evitar.120 Mas, ao contrário, que sucederá se os riscos não são fatais, que o Senhor já destinou remédios para repeli-los e superá-los? Vê como te é ajustado o raciocínio à ordem da administração divina. Tu concluis que não se deve precaver do perigo, porque, desde que não seja fatal, mesmo à parte de qualquer precaução o haveremos de ludibriar. O Senhor, no entanto, prescreve que te acauteles, porque não quer que te seja fatal.
Esses desvairados não consideram o que lhes está debaixo dos olhos, que as artes de se aconselhar e se acautelar foram inspiradas pelo Senhor aos homens, as quais se tornam subservientes à providência na conservação da própria vida, da mesma forma que, em sentido contrário, por negligência e inércia, atraem sobre si os males que lhes impôs. Pois, donde acontece que o homem providente, enquanto cuida bem de si, se desvencilha até de males iminentes, o insipiente pereça levado por temeridade, senão que tanto a insipiência quanto a prudência são instrumentos da divina administração para um e outro desses dois aspectos?
Essa é a causa por que Deus quis que não conhecêssemos o futuro, para que, sendo ele incerto, nos preveníssemos e não deixássemos de usar os remédios que ele nos dá contra os perigos, até que, ou os vençamos, ou sejamos deles vencidos. Por esse motivo, ponderei de antemão que a providência de Deus nem sempre se manifesta
a descoberto; ao contrário, é como se Deus, de certo modo, a vestisse dos meios aplicados.

João Calvino

A PROVIDÊNCIA NÃO ANULA A RESPONSABILIDADE HUMANA


Todos quantos se deixarem conduzir por esta moderação, não murmurarão contra Deus em vista das adversidades do passado, nem lançarão contra ele a culpa de suas iniqüidades, como o faz o Agamenão de Homero: – eu, porém, não sou causador, e, sim, Zeus e o Destino]. Nem tampouco em desespero, como se arrebatados pelos fados, à morte se atirarão, como aquele jovem Plauto: “Instável é a sorte das coisas; a seu talante, os fados conduzem os homens; lançar-me-ei contra um rochedo, para que ali com a vida eu perca os haveres.” Nem, com o exemplo de um outro, a seus maus feitos acobertarão com o nome de Deus. Pois, assim fala Licônides, em outra comédia de Plauto: “Deus foi o impulsor; creio que os deuses o quiseram, porquanto se não o quisessem, sei que não teria acontecido.”
Antes, bem ao contrário, indagarão e aprenderão da Escritura o que agrade a Deus, para que, sob a direção do Espírito, a isso se esforcem. Ao mesmo tempo, preparados para seguir a Deus aonde quer que os chame, deveras haverão de mostrar que nada é mais útil do que o conhecimento desta doutrina, doutrina que homens
perversos invectivam, sem razão, pelo fato de que certos indivíduos, desassisadamente,
dela abusam. Com suas parvoíces, homens profanos nesciamente provocam balbúrdia, de tal sorte que, como se diz, quase misturam o céu à terra. Se o Senhor assinalou o momento de nossa morte, argumentam que não há como fugir dela, logo é debalde diligenciar-se em tomar precauções.
Portanto, continuam eles, um deles não ousa entregar-se a um caminho que ouve ser perigoso, para que não seja trucidado por ladrões; o outro recorre a médicos e se cansa de medicamentos, para que lhe assista a vida; o outro se abstém de alimentos mais pesados, para que não prejudique a saúde já precária; o outro se arreceia de morar em casa que ameaça ruir; todos, afinal, cogitam meios, e os forjam com grande decisão de espírito, mercê dos quais alcancem aquilo que almejam: ou são todas estas coisas remédios fúteis, que se tomam para corrigir a vontade de Deus, ou a vida e a morte, a saúde e a doença, a paz e a guerra, e outras coisas que os homens, segundo ou as apetecem, ou as abominam, tanto se esforçam, por sua diligência, seja por obtê-las, seja por evitá-las, não são determinadas por seu decreto fixo. Até mesmo concluem que haverão de ser perversas, não só totalmente supérfluas, as orações dos fiéis nas quais se pede que o Senhor proveja àquelas coisas que decretou já desde a eternidade.
Em síntese, cancelam a todas as deliberações que se tomam em relação ao porvir, como se fossem diametralmente contrárias à providência de Deus, que, sem serem eles consultados, ele decretou o que queria que viesse a acontecer. Por outro lado, de tal maneira imputam à providência de Deus quanto acontece, que não levam
em conta o homem que se sabe muito bem ter cometido tal coisa. Um cidadão íntegro mata um sicário? Então dizem que “executou o desígnio de Deus”.
Alguém furtou ou cometeu adultério? Já que fez o que fora previsto e ordenado pelo Senhor, este é ministro de sua providência. Um filho negligenciou os remédios e aguardou displicentemente a morte do genitor? Não pôde resistir a Deus, que havia assim pré-estabelecido desde a eternidade. E assim a todos os crimes chamam virtudes,
porquanto são subservientes à ordenação de Deus.

João Calvino

A reverência devida à providencial Sabedoria e Governo de Deus

 Portanto, ninguém ponderará, correta e proveitosamente, a providência de Deus senão aquele que, considerando que está a tratar com seu Criador e Artífice do mundo, tenha se submetido ao temor e reverência, com a devida humildade. Daqui procede que, com suas virulentas mordidas, ou, pelo menos, com seu ladrido, tão numerosa matilha de cães hoje invista contra esta doutrina, já que não querem que se faculte a Deus mais do que lhes faculta a própria razão a eles próprios. Também nos vilipendiam com a máxima insolência que podem, porque, não contentes com os meros preceitos da lei, nos quais é fato que está compreendida a vontade de Deus, dizemos, ademais, que o mundo é governado por seus desígnios secretos. Como se, na verdade, o que ensinamos seja fantasia de nosso cérebro, e por toda parte, explicitamente, o Espírito não proclame o mesmo e não o repita em incontáveis formas de expressão! Mas, visto que certo recato os restringe de que ousem vomitar contra os céus suas blasfêmias, para que se entreguem mais livremente à demência, fingem que estão a litigar conosco.
Com efeito, a não ser que admitam que tudo quanto acontece no mundo é governado pelo desígnio incompreensível de Deus, respondam a que fim diz a Escritura que seus juízos são um abismo profundo [Sl 36.6].
Ora, uma vez que Moisés proclama [Dt 30.11-14] que a vontade de Deus não deve ser buscada ao longe, nas nuvens ou nos abismos, porquanto familiarmente foi ela exposta na lei, segue-se que outra vontade se compara ao abismo profundo, secreta, acerca da qual também Paulo afirma: “Ó profundidade das riquezas, não só
da sabedoria como também do conhecimento de Deus! Quão inescrutáveis são seus juízos e insondáveis, seus caminhos! Pois, quem conheceu a mente do Senhor ou foi seu conselheiro?” [Rm 11.33, 34].
E sem dúvida é verdade que na lei e no evangelho se compreendem mistérios que pairam muito acima do alcance de nossos sentidos. Mas, já que, para compreenderem esses mistérios que se dignou revelar através da Palavra, com o espírito de entendimento [Is 11.2], Deus ilumina a mente dos seus, para que nenhum abismo aí
se depare; ao contrário, um caminho no qual se possa andar em segurança, e uma lâmpada para guiar os pés [Sl 119.115], a luz da vida [Jo 1.4; 8.12] e a escola da verdade sólida e meridiana. Todavia, sua admirável maneira de governar o mundo com razão se denomina de abismo, porque, a despeito de nos ser ignota, deve ser
reverentemente por nós adorada.
Moisés expressou magnificamente a ambos esses aspectos em poucas palavras: “As coisas ocultas”, diz ele, “pertencem a nosso Deus; aquelas, porém, que foram aqui escritas pertencem a vós e a vossos filhos” [Dt 29.29]. Vemos, pois, que ele ordena não apenas aplicarmos diligência em meditar a lei, mas ainda reverentemente
contemplarmos a providência secreta de Deus. Também, no livro de Jó se contém uma exaltação desta excelsitude que humilha nosso espírito. Ora, depois que, com passar em revista, de cima a baixo, a máquina do orbe, o autor dissertou magnificamente acerca das obras de Deus, por fim acrescenta: “Eis que são estas apenas as
orlas de seus caminhos, e quão pouco é o que nisso se ouve!” [Jó 26.14]. Razão pela qual, em outro lugar [Jó 28.21, 28], ele faz distinção entre a sabedoria que reside em Deus e a medida de conhecimento que prescreveu aos homens. Pois, onde discursou
acerca dos segredos da natureza, diz que a sabedoria é conhecida só a Deus, porém escapa aos olhos de todos os viventes. Pouco depois, porém, acrescenta que a sabedoria foi dada a conhecer para que fosse investigada, porquanto foi dito ao homem: “Eis que o temor de Deus é a sabedoria” (Jó 28.28).
A isto visa o dito de Agostinho: “Porque não conhecemos tudo que, na melhor disposição possível, Deus opera em relação a nós, agimos só em boa vontade, segundo a lei; contudo, segundo a lei, se age em outras coisas sobre nós, pois sua providência é uma lei imutável.”
Portanto, quando Deus a si reivindica o direito de governar o mundo por nós não plenamente discernido, que esta seja a lei da sobriedade e da moderação: aquiescerlhe à suprema autoridade, para que sua vontade nos seja a única regra de justiça e a
mui justa causa de toda as coisas. Evidentemente, não aquela vontade absoluta da qual, a separarem, em dissídio ímpio e profano, sua justiça de seu poder, tartamudeiam os sofistas; ao contrário, aquela providência moderatriz de todas as coisas, da qual, ainda que as razões nos sejam ocultas, nada promana senão o que é reto.


João Calvino

SENTIDO E ALCANCE DA PROVIDÊNCIA


Na verdade, como é a mente propensa a vãs sutilezas, dificilmente pode acontecer que não se enredilhem em laços perplexivos quantos não sustêm probo e reto uso desta doutrina. E assim convirá abordar sucintamente aqui a que fim a Escritura ensina que todas as coisas são divinamente ordenadas. E, em primeiro lugar, certamente deve notar-se que é preciso considerar a providência de Deus tanto em função do tempo futuro quanto do passado. Em segundo lugar, que ela a tal ponto é a moderatriz de todas as coisas, que ora opera por meios interpostos, ora sem meios, ora contra todos os meios. Em terceiro lugar, que ela aponta para o fato de que Deus mostra tomar sobre si o cuidado de todo o gênero humano, mas principalmente que vela em governar a Igreja, a qual tem por digna da mais estrita atenção.
Agora é preciso acrescentar também isto: embora freqüentemente reluza em todo o curso da providência ou o paterno favor e a beneficência de Deus, ou a severidade de seu juízo, entretanto às vezes as causas dessas coisas que acontecem são ocultas, de sorte que sutilmente se insinue o pensamento de que as coisas humanas
volvem e giram ao cego impulso da sorte, ou a carne nos contradiz solicitamente, como se Deus, atirando os homens como bolas, se entregasse a um jogo!
Realmente é verdade que, se estivéssemos preparados para aprender com espírito sereno e acomodado, afinal se faria patente, ante o próprio resultado, que a Deus assiste a melhor razão de seu propósito, seja que à paciência eduque os seus, seja que lhes corrija os afetos depravados e dome a lascívia, seja que os quebrante à renúncia, seja que os desperte da inércia; ou, em contrário, que humilhe os orgulhosos, que estraçalhe a astúcia dos ímpios, que lhes dissipe as torvas maquinações.
No entanto, por mais que as causas nos sejam ocultas e fujam, deve-se ter por certo que estão ocultas nele, e daí ser melhor exclamar-se com Davi: “Muitas são, ó Senhor meu Deus, as maravilhas que tens operado para conosco e teus pensamentos não se podem contar diante de ti; se eu os quisesse anunciar, e deles falar, são mais
do que se podem contar” [Sl 40.5]. Ora, ainda que em nossas tribulações devemos sempre ser despertados dos pecados, para que a própria punição nos induza ao arrependimento, contudo sabemos que Cristo atribui a seu Pai, quando castiga os ho mens, uma autoridade muito maior que a faculdade de castigar a cada um conforme
ao que o mesmo mereceu. Pois, em relação ao cego de nascença, diz: “Nem este pecou, nem seus pais, mas isto é para que nele se manifeste a glória de Deus” [Jo 9.3]. Aqui, pois, quando a calamidade antecede ao próprio nascimento, nosso sentimento natural vocifera como se Deus, falto de clemência, assim afligisse aos que
não o merecem. Cristo, entretanto, dá testemunho de que neste episódio fulge a glória de seu Pai, desde que tenhamos olhos puros.
Impõe-se, porém, comedimento, para que não obriguemos Deus a prestar-nos conta; ao contrário, de tal modo reverenciemos seus juízos secretos, que sua mui justa vontade nos seja a causa de todas as coisas. Quando nuvens densas invadem o céu e se desencadeia violenta tempestade, porque também aos olhos se depara sombrio
entenebrecimento, e o trovão fere os ouvidos, e todos os sentidos de pavor se entorpecem, é como se todas as coisas se confundissem e se misturassem. Enquanto isso, no céu acima permanece sempre a mesma quietude e serenidade. Daí dever-se estatuir que, enquanto as coisas turbulentas do mundo nos privam do senso judicatório,
Deus, pela pura luz de sua justiça e sabedoria, estabelecida em ordem a mais perfeita, governa e dirige ao reto propósito a estes próprios movimentos. E, na verdade, neste aspecto é monstruoso o desvario de muitos que ousam, com petulância maior do que acerca de atos de homens mortais, chamar a seu escrutínio as obras de Deus e esquadrinhar seus desígnios secretos, até mesmo exprimir apressado julgamento sobre coisas desconhecidas. Pois, há algo mais fora de propósito que conduzir-se com modéstia em relação a nossos semelhantes, preferindo suspender o juízo a ser taxados de temerários, enquanto tão audazmente se mofa dos juízos secretos de Deus, os quais devemos admirar e reverenciar profundamente?

João Calvino

A imprevisibilidade e ignorância humanas não discernem a causação Divina dos eventos


Entretanto, uma vez que muito aquém da altura da providência de Deus se põe a lerdeza da mente, é preciso aplicar uma distinção que a soerga. Portanto, direi que, por mais que todas as coisas sejam ordenadas pelo conselho e firme dispensação de Deus, contudo para nós são meramente fortuitas. Não que pensemos que a sorte reja o mundo e os homens, e ao léu tudo faça girar para cima e para baixo, pois é preciso estar ausente do peito do cristão tal insipiência. Entretanto, uma vez que a ordem, a razão, o fim, a necessidade dessas coisas que acontecem jazem em sua maior parte ocultos no conselho de Deus e não são apreendidos pela opinião humana, essas coisas nos parecem fortuitas ainda que certamente procedam da vontade de Deus.
Pois, quer consideradas em sua natureza, quer estimadas segundo nosso conhecimento e juízo, elas não exibem aparência diferente.
Imaginemos, por exemplo, um mercador que, havendo entrado em uma zona de mata com um grupo de homens de confiança, imprudentemente se desgarre dos companheiros, em seu próprio divagar seja levado a um covil de salteadores, caia nas mãos dos ladrões, tenha o pescoço cortado. Sua morte fora não meramente antevista pelo olho de Deus, mas, além disso, é estabelecida por seu decreto. Ora, não se diz haver ele antevisto quanto se estenderia a vida de cada um; ao contrário, diz haver estabelecido e fixado os limites que não poderão ser ultrapassados [Jó 14.5].
Quanto, porém, o alcance de nossa mente apreende, tudo neste acontecimento parece acidental. Que pensará aqui o cristão? Provavelmente isto: tudo quanto ocorreu em morte desse gênero era casual por sua natureza; contudo não terá dúvida de que a providência de Deus esteve a presidir, a fim de dirigir a seu termo essa contingencialidade. Raciocínio idêntico vale em relação à contingência dos eventos futuros. Como todas as coisas futuras nos são incertas, por isso as temos em suspenso, como se houvessem de inclinar para um lado ou para outro. Entretanto, permanece não menos arraigado em nosso coração que nada haverá de acontecer que o Senhor já não o haja provido. Neste sentido, freqüentemente se repete no Eclesiastes o termo suceder,
porque, à primeira vista, os homens não penetram à causa primária, a qual está oculta bem longe deles. E no entanto, o que nas Escrituras foi revelado da providência oculta de Deus nunca foi a tal ponto apagado que algumas centelhas não brilhassem sempre nas trevas. Assim, os augures dos filisteus, embora hesitem, incertos, contudo atribuem o fado adverso em parte a Deus, em parte à sorte: “Se a arca”, dizem eles, “houver de passar por aquele caminho, saberemos que é Deus que nos feriu; mas se, ao contrário, houver de ir pelo outro, o acaso é vindo sobre nós” [1Sm 6.9]. Sem dúvida estultamente os engana a adivinhação quando se refugiam no acaso. Não obstante, vemos como se vêem obrigados a não ousar a imputar simplesmente à fortuna a desgraça que lhes havia acontecido.
Ademais, transparecerá de notável exemplo como, pelo freio de sua providência, Deus verga todos os eventos para qualquer parte que o queira. Eis que, no preciso instante em que Davi foi encurralado no deserto de Maom, os filisteus fazem uma incursão na terra: Saul é obrigado a bater em retirada [1Sm 23.26, 27]. Se Deus, querendo garantir a segurança de seu servo, lançou este obstáculo diante de
Saul, por certo que, embora de repente, além da expectação dos homens, os filisteus tomaram armas, não diremos, entretanto, ter sido isso feito pelo acaso; pelo contrário, o que nos parece contingência, a fé reconhecerá haver sido ordenação secreta de
Deus.
É verdade que nem sempre se evidencia razão semelhante, mas, indubitavelmente, assim se deve entender que todas e quaisquer eventuações que se percebem no mundo provêm da operação secreta da mão de Deus. Todavia, o que Deus estatui certamente tem de acontecer, no entanto que não seja necessário, nem absolutamente, nem de sua própria natureza. Exemplo corriqueiro ocorre em relação aos ossos de Cristo. Uma vez que se revestiu de um corpo semelhante ao nosso, ninguém de são juízo negará que seus ossos fossem quebráveis. Contudo, era impossível que fossem quebrados. Do quê vemos de novo que nas escolas, não sem propósito, foram inventadas as distinções referentes à necessidade relativa e à necessidade absoluta; de igual modo, da necessidade conseqüente e da conseqüência, quando Deus sujeitou os ossos do Filho à fragilidade, os quais eximira de fratura, e desse modo restringiu o que poderia acontecer naturalmente à necessidade de seu desígnio.

João Calvino

A Doutrina da Providência não é mera crença no Destino ou Fado, na Sorte ou Acaso


Aqueles que desejam suscitar ódio em relação a esta doutrina, a caluniam de ser o dogma do destino dos estóicos, o que também foi, certa vez, lançado em rosto a Agostinho. Embora litiguemos a contragosto acerca de palavras, todavia não aceitamos o termo destino, quer por ser do gênero daqueles de cujas profanas novidades Paulo ensina a nos guardarmos [1Tm 6.20], ou porque, por sua odiosidade, esses homens tentam estigmatizar a verdade de Deus. Entretanto, falsa e maldosamente, essa mesma doutrina nos é imputada como sendo nossa. Ora, não engendramos com os estóicos, em função da perene vinculação e da determinada seriação implícita das causas, uma necessidade que seja contida na natureza; ao contrário, de tudo constituímos a Deus árbitro e moderador, o qual, por sua sabedoria, decretou desde a extrema eternidade o que haveria de fazer, e agora, por seu poder, executa o que decretou. Daí, afirmamos que não só o céu e a terra, e as criaturas inanimadas, são de tal modo governados por sua providência, mas até os desígnios e intenções dos homens, são por ela retilineamente conduzidos à meta destinada.
Pois dirás: Porventura nada acontece por acaso? Nada ocorre contingentemente?
Respondo com o que foi dito por Basílio, o Grande, com muita verdade, que sorte e acaso são termos dos pagãos de cujo significado não devem ocupar-se as mentes dos piedosos. Afinal de contas, se todo bom êxito é bênção de Deus, toda calamidade e adversidade são sua maldição, já não se deixa nenhum lugar à sorte ou ao acaso nas coisas humanas.
E deve impressionar-nos também essa observação de Agostinho: “Nos livros Contra os Acadêmicos”, diz ele, “não me agrada tantas vezes ter mencionado a Sorte, visto que não desejava que se entendesse por esse termo alguma deusa, mas apenas a eventuação fortuita das coisas, em sua expressão externa, seja boa, seja má. Desse termo [fortûn&] procedem também esses vocábulos que nenhuma religiosidade proíbe pronunciar: forte [talvez], forsan [quem sabe], forsitan [provavelmente], fortasse [porventura], fortuito [por acaso], o que se deve, no entanto, atribuir tudo à divina providência. Nem guardei silêncio sobre isso, pois afirmei: ‘Com
efeito, porventura o que vulgarmente se designa Sorte é também governado por ordenação oculta, e nas coisas nada mais chamamos Acaso senão aquilo do qual a razão e causa são desconhecidas.’ De fato eu falei isso. Arrependo-me, porém, de haver assim usado aqui o termo Sorte, quando vejo que os homens têm o péssimo costume de dizer: ‘Isto quis a sorte’, onde se deve dizer: ‘Isto quis Deus’.”112 Em suma, Agostinho ensina reiteradamente que, se algo é deixado à sorte, o mundo revolve ao léu. E visto que ele estabelece em outro lugar que tudo se processa em parte pelo livre-arbítrio do homem, em parte pela providência de Deus, contudo pouco depois deixa bastante claro que os homens estão sujeitos a esta, e são por ela governados, uma vez ser sustentado o princípio de que nada há mais absurdo do que alguma coisa acontecer sem que Deus o ordene, pois doutra sorte aconteceria às cegas. Razão pela qual até exclui a contingência que depende do arbítrio dos homens, asseverando, ainda mais claramente logo depois, que não se deve buscar qual é a causa da vontade de Deus. Quantas vezes, porém, é por ele feita menção do termo permissão, como se deva entender que isso se evidenciará perfeitamente de uma passagem onde ele prova que a vontade de Deus é a suprema e primeira
causa de todas as coisas, já que nada acontece a não ser por sua determinação ou permissão. Certamente, ele não imagina Deus a repousar em ociosa torre de observação, enquanto se dispõe a permitir algo, quando intervém uma, por assim dizer, vontade presente, de qualquer modo não se poderia declarar como causa.

João Calvino