segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Tua Bondade me Engrandeceu

 Charles Haddon Spurgeon 

“E a tua clemência me engrandeceu” (Sl. 18:35). 

 Estas palavras podem ser traduzidas como “Tua bondade me engrandeceu”. Davi, com gratidão, atribui toda a sua grandeza não à sua própria bondade, mas à bondade de Deus. 

“Tua providência ” é uma outra interpretação; e a providência nada mais é do que a bondade em ação. A bondade é o botão cuja flor é a providência, ou, a bondade é a semeadura cuja colheita é a providência. Alguns interpretam “Teu auxílio”, que é apenas uma outra expressão para providência; providência que, sendo a firme aliada dos santos, os auxilia no serviço de seu Senhor. Ou ainda, “Tua humildade me engrandeceu”.

 “Tua condescendência” talvez possa servir como uma interpretação mais abrangente, combinando as idéias mencionadas, inclusive a da humildade . O motivo de sermos engrandecidos é Deus fazer-se a Si mesmo pequeno. Somos tão pequenos que, se Deus manifestasse Sua grandeza sem a Sua condescendência, seríamos esmagados debaixo de Seus pés; mas Deus, que precisa Se inclinar para ver os céus, e se curvar para ver o que os anjos fazem, volta Seus olhos ainda mais abaixo, e olha para o abatido e contrito, e o engrandece. 

Há ainda outras traduções, como por exemplo, a da Septuaginta, onde se lê “Tua disciplina” - Tua paternal correção - me engrandeceu. Ainda que na paráfrase em aramaico leia-se “Tua palavra me enalteceu”, a idéia ainda é a mesma. Davi atribui toda a sua própria grandeza à bondade condescendente de seu Pai celestial. Que este sentimento possa ser ecoado em nossos corações nesta noite enquanto lançamos nossas coroas aos pés de Jesus, e clamamos “Tua bondade me engrandeceu”. 

Quão maravilhosa tem sido a nossa experiência da bondade de Deus! Quão doce tem sido Sua correção! Quão gentil Sua tolerância! Quão suave Seus ensinamentos. Quão benéfica Sua atração! Medita sobre isso, ó crente. Deixa a gratidão ser despertada; deixa a humildade ser aprofundada; deixa o amor ser agilizado, antes que caias no sono esta noite. 

Tradução: Mariza Regina Souza 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Inescusabilidade do homem

Além de tudo isso, visto que no conhecimento de Deus está posto a finalidade última da vida bem-aventurada, para que a ninguém fosse obstruído o acesso à felicidade, não só implantou Deus na mente humana essa semente de religião a que nos temos referido, mas ainda de tal modo se revelou em toda a obra da criação do
mundo, e cada dia nitidamente se manifesta, que eles não podem abrir os olhos sem se verem forçados a contemplá-lo. Por certo que sua essência transcende a compreensão, de sorte que sua plena divindade escapa totalmente aos sentidos humanos.

Entretanto, em todas as suas obras, uma a uma, imprimiu marcas inconfundíveis de sua glória, e na verdade tão claras e notórias, que por mais brutais e obtusos que sejam, tolhida lhes é a alegação de ignorância.
Daí, com mui procedente razão exclama o Profeta [Sl 104.2] que ele se veste de luz como de um manto; como se quisesse dizer que a partir de então começara a mostrar-se de forma insigne em ornato visível: desde o instante em que, na criação do mundo, exibiu seus adereços, em virtude dos quais agora, quantas vezes volvemos
os olhos para qualquer lado, sua glória nos é patente. Ainda nesta mesma passagem, com admirável arte, o mesmo Profeta compara os céus, como se acham expandidos, a seu régio pavilhão; diz que nas águas fincou os vigamentos de suas recâmaras; que as nuvens lhe são carruagens; que sobre as asas dos ventos cavalga;
que os ventos e os relâmpagos lhe são os mensageiros velozes. E visto que mais plenamente nas alturas lhe refulge o esplendor do poder e da sabedoria, em várias ocasiões o céu é chamado de seu palácio.

E, em primeiro lugar, para todo e qualquer rumo a que dirijas os olhos, nenhum recanto há do mundo, por mínimo que seja, em que não se vejam a brilhar ao menos algumas centelhas de sua glória. Nem podes, realmente, de um só relance contemplar
quão amplamente se estende esta vastíssima e formosíssima engrenagem, que não te sintas de todos os lados totalmente esmagado pela imensa intensidade de seu fulgor.
Essa é a razão por que, com finura e arte, o autor da Epístola aos Hebreus [11.3] chama aos mundos de expressões visíveis das coisas invisíveis, já que essa ordem tão admiravelmente estruturada do universo nos serve de espelho em que podemos contemplar ao Deus que de outra sorte seria invisível. Razão pela qual o Profeta
atribui [Sl 19.1] às criaturas celestiais uma linguagem desconhecida a toda e qualquer nação, visto que aí se patenteia com mais evidência a comprovação da divindade do que deve escapar à consideração de qualquer pessoa, por mais retrógrada seja
ela. O Apóstolo, expondo isso mais explicitamente [Rm 1.19], diz haver sido revelado aos homens o que se fazia necessário para o conhecimento de Deus, visto que todos à uma contemplam suas coisas invisíveis, até seu eterno poder e divindade, dados a conhecer desde a criação do mundo.

João Calvino

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Hipocrisia

Acresce ainda um segundo pecado, a saber: que jamais tomam a Deus em consideração, a não ser que a isso sejam constrangidos; nem dele se aproximam até que, a despeito de sua resistência, sejam até ele arrastados. Nem ainda então se imbuem do temor espontâneo que emana da reverência à divina majestade, mas apenas de um temor servil e forçado que lhes arranca o juízo de Deus, do qual, já que dele não podem fugir, sentem alarmante pavor, e inclusive até chegam a abominá-lo.

Com efeito, o que diz Eustáquio, poeta pagão, se aplica muito bem à impiedade, ou, seja, que o temor foi o primeiro a dar origem aos deuses no mundo. Quantos têm a mente alienada da justiça de Deus desejam desmesuradamente que seu tribunal seja subvertido, os quais sabem que ele subsiste para punir suas transgressões.
Com disposição desse gênero pelejam acirradamente contra o Senhor, o qual não pode prescindir do juízo. Enquanto, porém, reconhecem que sobre si paira ameaçadora
a potestade inevitável, já que não a conseguem rechaçar, nem dela fugir, encolhem-se diante dela apavorados. E assim, para que por toda parte não pareçam desprezar aquele cuja majestade os acossa, exercitam algo que tenha a aparência de religião.

Não obstante, entrementes não cessam de contaminar-se com toda sorte de vícios e de amontoar abominações sobre abominações, até que de todas as formas violem a santa lei do Senhor e dissipem toda sua justiça. Ou, ao menos, não são a tal ponto contidos por esse pretenso temor de Deus, que deixem de refestelar-se deleitosamente em seus pecados, e neles se lisonjeiam, e preferem esbaldar-se na intemperança da própria carne a deixar que o Espírito Santo a coíba com freios.

Entretanto, uma vez que esta é uma sombra vã e falaz de religião, que nem sequer merece ser chamada de sombra, outra vez daqui facilmente se infere quanto a piedade difere desse confuso conhecimento de Deus, a qual só nos peitos dos fiéis
se instila e da qual exclusivamente nasce a religião. E contudo, por sinuosos rodeios, os hipócritas se propõem chegar a isto: insinuar que estão perto de Deus, de quem, no entanto, estão a fugir. Pois, quando o teor da obediência lhes deveria ser perpétuo em toda a vida, eles se rebelam acintosamente contra ele em quase todos
os atos, diligenciando por aplacá-lo simplesmente por meio de uns paupérrimos sacrifícios; quando o deveriam servir, com santidade de vida e inteireza de coração,
engendram ridicularias frívolas e observâncias mesquinhas de nenhum valor, mercê das quais possam conciliá-lo consigo. Pior ainda, confiam poder desincumbir-se de seus deveres meramente através de risíveis atos expiatórios. Daí, quando nele deveria
estar plantada sua confiança, relegando-o a segundo plano, escondem-se atrás de si próprios ou das criaturas. Afinal, eles se enredilham em tão avultada soma de erros, que o negror da depravação sufoca neles, e por fim extingue, aquelas centelhas
que fulgiam para visualizar-se a glória de Deus.
Permanece, todavia, essa semente que de modo algum se pode erradicar totalmente, a saber, que há uma divindade; semente essa, porém, a tal ponto corrompida que de si nada produz senão os piores frutos. Ainda mais, o que estou presentemente
sustentando, a saber, que o senso da divindade está inerentemente gravado nos corações humanos, com certeza maior disto se evidencia: que até a necessidade arranca confissão forçada até aos próprios réprobos. Quando as coisas lhes transcorrem
tranqüilas, motejam acintosamente de Deus; são até mordazes e desabusados em minimizar-lhe o poder. Se, de qualquer forma, os aperta o desespero, os acicata a buscá-lo e lhes dita preces superficiais, do que se patenteia que não são totalmente ignorantes de Deus, porém o que deveria aflorar mais cedo lhes foi reprimido pela obstinação.


João Calvino



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A vigilancia é fundamental na vida do crente



Mateus 18:06

6 Mas qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em
mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de
moinho, e se submergisse na profundeza do mar.

Mateus 05:27,28

27 Ouvistes que foi dito: Não adulterarás.
28 Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher
para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.

I Coríntios 08:10,11,12,13

10 Porque, se alguém te vir a ti, que tens ciência, reclinado à mesa
em templo de ídolos, não será induzido, sendo a sua consciência
fraca, a comer das coisas sacrificadas aos ídolos?
11 Pela tua ciência, pois, perece aquele que é fraco, o teu irmão
por quem Cristo morreu.
12 Ora, pecando assim contra os irmãos, e ferindo-lhes a consciência
quando fraca, pecais contra Cristo.
13 Pelo que, se a comida fizer tropeçar a meu irmão, nunca mais
comerei carne, para não servir de tropeço a meu irmão.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Idolatria

Assim rui desmantelada essa frívola defesa com que muitos costumam acobertar a própria superstição. Pois pensam que é bastante nutrir mero zelo pela religião, seja qual for sua natureza e por mais falsa que seja. Não levam em conta, porém, que a verdadeira religião deve ser conformada ao arbítrio de Deus como a uma norma perpétua: que Deus, em verdade, permanece sempre imutável em seu ser; que ele não é um espectro ou fantasma, que se transmuda ao talante de cada um. E pode-se ver meridianamente de quão enganosas aparências a superstição zomba de Deus
enquanto intenta render-lhe preito aprazível.

Pois, apegando-se quase exclusivamente àquelas coisas que Deus tem testificado não serem de seu interesse, a superstição
ou tem com desdém ou então não rejeita dissimuladamente aquelas que ele prescreve e ensina que lhe são do agrado.
Portanto, a seus próprios delírios cultuam e adoram quantos a Deus alçam seus ritos inventados, pois de modo algum assim ousariam gracejar com Deus, se já antes não tivessem moldado um Deus congruente com os absurdos de suas ridicularias.

E assim o Apóstolo sentencia ser ignorância de Deus essa vaga e errônea opinião com respeito à divindade: “Quando desconhecíeis a Deus”, diz ele, “servíeis aos que por natureza não eram deuses” [Gl 4.8]. E, em outro lugar [Ef 2.12], ensina que os efésios haviam vivido sem Deus durante o tempo em que se achavam distanciados
do reto conhecimento do Deus único. Tampouco vem muito ao caso, pelo menos neste ponto, se porventura concebes a um só Deus ou a muitos, porque sempre te apartas do Deus verdadeiro e dele careces quando, deixado ele de parte, nada te resta senão um ídolo execrável. Portanto, com Lactâncio nos impõe concluir que nenhuma religião genuína existe, a menos que esteja em harmonia com a verdade.

João Calvino




domingo, 8 de dezembro de 2013

Universalidade do sentimento religioso

Que existe na mente humana, e na verdade por disposição natural, certo senso da divindade, consideramos como além de qualquer dúvida. Ora, para que ninguém se refugiasse no pretexto de ignorância, Deus mesmo infundiu em todos certa noção de sua divina realidade, da qual, renovando constantemente a lembrança, de quando em quando instila novas gotas, de sorte que, como todos à uma reconhecem que Deus existe e é seu Criador, são por seu próprio testemunho condenados, já que não só não lhe rendem o culto devido, mas ainda não consagram a vida a sua vontade.

Certamente, se em algum lugar se haja de procurar ignorância de Deus, em nenhuma parte é mais provável encontrar exemplo disso que entre os povos mais retrógrados e mais distanciados da civilização humana. E todavia, como o declara aquele pagão, não há nenhuma nação tão bárbara, nenhum povo tão selvagem, no qual não esteja profundamente arraigada esta convicção: Deus existe! E mesmo aqueles que em outros aspectos da vida parecem diferir bem pouco dos seres brutos, ainda assim retêm sempre certa semente de religião. Tão profundamente penetrou ela às mentes de todos, que este pressuposto comum se apegou tão tenazmente às
entranhas de todos! Portanto, como desde o princípio do mundo nenhuma região, nenhuma cidade, enfim nenhuma casa tenha existido que pudesse prescindir da religião, há nisso uma tácita confissão de que no coração de todos jaz gravado o senso da divindade.

Aliás, até a própria idolatria é ampla evidência desta noção. Pois sabemos de quão mau grado se humilha o homem para que admire a outras criaturas acima de si mesmos. Desse modo, quando prefere render culto à madeira e à pedra, antes que seja considerado como não tendo nenhum deus, claramente se vê que esta impressão
tem uma força e vigor prodigiosos, visto que de forma alguma pode ser apagada do entendimento do homem, de modo que é mais fácil que as inclinações naturais se quebrantem, as quais, desta forma, na realidade se quebrantam quando, de seu arbítrio, o homem desce daquela altivez natural às coisas mais inferiores para que assim possa adorar a Deus.
 João Calvino