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terça-feira, 27 de novembro de 2018

O IMPERADOR FOCAS, FINALMENTE, CONFERE O PRIMADO À SÉ ROMANA, NO TEMPO DO PAPA BONIFÁCIO III, PEPINO, O BREVE, E CARLOS MAGNO, SELANDO-LHE, POR FIM, A COBIÇADA SUPREMACIA

Finalmente Focas, que assassinou a Maurício e usurpou seu lugar (não sei por que se fez mais amigo dos romanos, talvez porque aí fora coroado sem disputa), concedeu a Bonifácio III o que Gregório de modo algum reivindicava: que Roma fosse a cabeça de todas as igrejas. E assim a controvérsia foi dirimida. Todavia, este benefício do imperador não teria sido tão proveitoso à sé romana, não fora que depois lhe fossem acrescentadas outras coisas. Pois a Grécia e toda a Ásia foram pouco depois apartadas de sua comunhão. A Gália de tal modo a reverenciava, que não lhe obedecia se não lhe fosse conveniente. Quando Pepino ocupou o trono, então, antes de tudo, ela foi reduzida à servidão. Ora, como Zacarias, o pontífice romano, ao associar-se a ele em sua perfídia e latrocínio, destronado o legítimo rei, arrebatasse o reino como se fora algo abandonado à presa, em recompensa de seu serviço obteve que as igrejas da Franca se submetessem à romana. Da mesma forma como costumam os salteadores, quando dividem o despojo comum, assim estes bons varões dispuseram entre si que de fato a Pepino coubesse o domínio terreno e civil; uma vez espoliado o verdadeiro rei, Zacarias, porém, se fizesse o cabeça de todos os bispos e tivesse o poder espiritual, poder que, embora fosse fraco de início, como costuma acontecer em coisas novas, a seguir foi reforçado pela autoridade de Carlos Magno, por uma causa quase semelhante, pois também ele próprio estava em obrigação para com o pontífice romano, porque havia chegado à honra do Império por esforço deste. Mas ainda que seja possível que as igrejas estivessem já, em todas as partes, bem debilitadas, por certo que se sabe, não obstante, que então se perdeu definitivamente na França e Alemanha a antiga forma da Igreja. Ainda hoje existe nos arquivos do Parlamento de Paris uma breve história daqueles tempos, que ao tratar dos assuntos eclesiásticos faz menção dos acordos que Pepino e Carlos Magno fizeram com o pontífice romano. Disto se pode deduzir que então se mudou a antiga forma da Igreja.

João Calvino

JOÃO, BISPO DE CONSTANTINOPLA, DECLARA-SE PATRIARCA UNIVERSAL, AO QUE SE OPÕE GREGÓRIO, O GRANDE, BISPO DE ROMA, CONTRA TAL PRETENSÃO DE QUEM QUER QUE SEJA

Mas, pouco depois, João, que era bispo de Constantinopla durante a época de Gregório, avançou tanto, que se intitulou patriarca universal. A este se opôs animosamente Gregório em defesa da honra de sua sé. E na verdade era intolerável não só a soberba de João, como também sua insânia, querendo igualar os limites de seu episcopado aos limites do Império. Contudo, tampouco Gregório reivindica para si o que nega a outro; ao contrário, esse título, não importa por quem afinal seja usurpado, o abomina como celerado, ímpio e nefando. E inclusive se aborrece com Eulógio, bispo de Alexandria, por havê-lo honrado com este título. Diz ele: “Destes-me um título de soberba, chamando-me papa universal; e isto no princípio da carta que me enviastes, a mim que pusestes tal título. O que vos peço é que vossa santidade não vos permita repeti-lo. Porque a vós se tira o que se dá a outro, além do que a razão o exige. Eu não tenho por honra aquilo com que percebo que se diminui a honra de meus irmãos. Porque minha honra é que o estado da Igreja universal e o de meus irmãos mantenha seu vigor. E se vossa santidade me chama papa universal, isto é confessar que vós não sois em parte o que do todo a mim me atribuís.”89 De fato a causa de Gregório era boa e honesta, mas, ajudado pelo favor do Imperador Maurício, João não pode ser demovido de seu propósito. Ciríaco, seu sucessor, quanto a esta matéria, também jamais se deixou persuadir.

João Calvino

OPOSIÇÃO TENAZ DE LEÃO, PONTÍFICE ROMANO, A QUE SE DEFERISSE À SÉ DE CONSTANTINOPLA A HONRA DE SEGUNDA EM EMINÊNCIA, TEMENDO QUE ELA VIESSE A SUPLANTAR A PRÓPRIA ROMA, SENDO ENTÃO A PRIMEIRA

De conformidade com esta ordenança antiga, foi decretado no Primeiro Concílio de Constantinopla que o bispo dessa cidade tivesse privilégios de honra em seguida ao pontífice romano, visto que ela seria a nova Roma. Mas, longo tempo depois, como um decreto semelhante fosse promulgado em Calcedônea, Leão protestou acremente. Não só se permitiu anular o que seiscentos ou mais bispos haviam decretado, mas também os atacou com graves acusações, porque derrogassem a outras sés a honra que ousassem conferir à igreja constantinopolitana. Pergunto: que outra razão teria incitado o homem a conturbar o mundo inteiro por causa de tão reduzida importância, senão por pura ambição? Diz que deve ter-se como inviolável o que uma vez foi sancionado pelo Concílio de Nicéia. Como se realmente a fé cristã estivesse em perigo se uma igreja for preferida a outra, ou como se para outro fim fossem aí distinguidas as patriarquias por mera questão de organização administrativa. Sabemos, porém, que a organização administrativa, em razão da variação dos tempos, admite, mais ainda, exige variadas mudanças. Portanto, é fútil o que Leão sustenta, dizendo que não se deve deferir à sé constantinopolitana a honra que, pela autoridade do Concílio de Nicéia, se haveria de ter dado à sé de Alexandria. Ora, o senso comum dita que existiu decreto desta natureza que podia ser revogado, segundo o reclamo dos tempos. Por que nenhum dos bispos orientais se opunha, quando isso lhes era totalmente do interesse? Certamente que Protério estava presente, a quem designaram a Alexandria em lugar de Dióscoro; estavam presentes outros patriarcas dos quais a honra estava sendo diminuída. Era o momento desses interferir, não de Leão, que permanecia em seu lugar sem ser afetado. Mas quando todos eles se calam, mais ainda, quando consentem, e só o bispo romano resiste, é fácil julgar o que o move: obviamente previa, o que aconteceu não muito depois, que a glória da Roma antiga decrescia, e que ocorreria que Constantinopla, não contente com o segundo lugar, litigasse com ela acerca do primado. Contudo, Leão não conseguiu tanto êxito bradando que no Concílio o decreto não fosse aprovado. Conseqüentemente, seus sucessores, como se vissem batidos, desistiram brandamente dessa obstinação: toleraram, pois, que o bispo de Constantinopla fosse tido como segundo patriarca.

João Calvino

A LUTA PELO PRIMADO TRAVADA ENTRE A SÉ ROMANA E A CONSTANTINOPOLITANA E RAZÃO ADUZIDA: PROJEÇÃO E POLÍTICA DAS CIDADES

Nesse tempo, como já foi dito, o bispo constantinopolitano litigava com o romano acerca do primado. Ora, depois que a sede do Império foi fixada em Constantinopla, a majestade do Impéro pareceu postular que também aquela igreja tivesse o segundo lugar de honra, depois da romana. E certamente nada valera mais de início para enaltecer o primado a Roma do que o fato de então estar aí a capital do Império. Isso se revela num rescrito de Graciano sob o nome do papa Luciano, onde ele diz que as cidades não foram distinguidas de outra forma onde devam presidir metropolitanos e primazes que antes existira do esquema do governo civil. Também outro rescrito semelhante, sob o nome do papa Clemente, onde ele diz que os patriarcas se constituíam naquelas cidades nas quais outrora estiveram os sumos sacerdotes dos gentios.88 Isto, ainda que fosse improcedente, contudo foi tomado do verdadeiro. Também é manifesto que, para que se fizesse o mínimo de mudança, as províncias eclesiásticas haviam sido distribuídas segundo o estado de coisas que existia então, e os primazes e metropolitanos colocados naquelas cidades que precediam as demais em honras e poder. Assim sendo, foi decretado no Concílio de Turim que as cidades que fossem as primeiras no governo civil de cada província fossem as primeiras sés dos bispos; se, porém, houvesse acontecido de transferir-se a dignidade do governo civil de uma cidade para outra, que juntamente para ali se transferisse o direito de metrópole. Mas Inocêncio, o pontífice romano, como visse declinar a antiga dignidade de sua cidade desde que fora transferida a sede do Império para Constantinopla, temendo por sua sé, promulgou lei contrária, na qual nega ser necessário que as metrópoles eclesiásticas fossem mudadas, segundo são mudadas as metrópoles imperiais. Entretanto, a razão dita que se há de antepor a autoridade de um concílio à de um homem. E, além do mais, Inocêncio deve ser-nos suspeito ao legislar em causa própria. Seja como for, ele mostra, contudo, por sua providência, que de início assim fora estabelecido: que as metrópoles eclesiásticas fossem dispostas segundo a ordem externa do Império.

João Calvino

LIMITAÇÕES JURISDICIONAIS EXPRESSAS DE GREGÓRIO COMO PONTÍFICE ROMANO; MAS, AINDA ASSIM, DEPLORA O ÔNUS ADMINISTRATIVO QUE O SOBRECARREGA

Este, pois, foi então todo o poder do bispo romano: opor-se às cabeças obstinadas e refratárias, onde se fazia necessário algum remédio extraordinário, e isto para que ajudasse a outros bispos, não para que lhes criasse estorvo. Assim sendo, não assume para si nada mais, em relação aos outros do que a todos; em outro lugar, concede em relação a si mesmo, quando confessa estar preparado para ser por todos corrigido, para ser por todos emendado. Assim, em outro lugar, de fato ordena ao bispo de Aquiléia que venha a Roma para pleitear sua causa em uma controvérsia de fé que surgira entre ele e outros. Entretanto não ordena, de seu próprio poder, mas porque isso determinara o Imperador. Nem se proclama haver de ser o único juiz; ao contrário, promete haver de congregar um sínodo pelo qual fosse julgada toda a questão. Se bem que, no entanto, esta era ainda a moderação: que o poder da sé romana tivesse seus limites determinados; que não seria lícito exceder, e o próprio bispo romano não presidia sobre os outros mais do que ele mesmo está sujeito a eles. No entanto é patente o quanto situação dessa natureza desagradou a Gregório. De fato ele se queixa reiteradamente que, sob a condição do episcopado, fora reconduzido ao mundo e está mais envolvido em cuidados terrenos do que jamais esteve na vida leiga; que nessa honorificência está premido pelo tumulto de negócios seculares. Em outro lugar: “Tão grandes cargas de ocupações”, diz ele, “me forçam para baixo, que o ânimo de maneira nenhuma me arrebata às coisas supernas; me vejo sacudido por muitas ondas de causas; e depois daqueles ócios de quietude sou afligido pelas tempestades de uma vida tumultuosa; de sorte que, para o expressar corretamente, vim à profundeza do mar e a tempestade me submergiu.”87 Daqui ele colige o que haveria de ter dito se houvesse vivido nestes tempos atuais! O ofício de pastor, se não o preenchia, contudo o desempenhava. Abstinha-se do governo do império civil e se confessava sujeito ao Imperador, juntamente com os outros. Não se ingeria no cuidado de outras igrejas, exceto se coagido pela necessidade. E todavia sente como se estivesse em um labirinto, porque não pode entregar-se total e simplesmente ao ofício de bispo.

João Calvino

AO TEMPO DE GREGÓRIO, O GRANDE (540?–604), DADA A CAÓTICA SITUAÇÃO POLÍTICA DO IMPÉRIO DECADENTE, A SÉ ROMANA PASSOU A EXERCER AUTORIDADE PRIMACIAL, CONTUDO COMO MODERADORA, NÃO JURISDICIONAL

No tempo de Gregório, aquele antigo sistema já havia mudado bastate. Pois, convulsionado e dilacerado o Império, por muitos flagelos reiteradamente sofridos, sendo as Gálias e as Espanhas afligidas, devastado fosse o llírico, abalada estivesse a Itália, de fato a África quase destruída por constantes calamidades, para que em meio de tão grande convulsão das coisas políticas a unidade da fé permanecesse, ou seguramente não perecesse de vez, todos os bispos, de toda parte, mais se uniram ao pontífice romano. Com isto aconteceu não só que a dignidade, mas também o poder da sé romana crescesse impetuosamente. Se bem que não faço tanto empenho em saber por que razões isto aconteceu. É manifesto que ela então certamente se fez maior que em séculos precedentes. E no entanto não chegou a ter tal superioridade que dominasse sobre os outros a seu bel-prazer.85 Mas a sé romana sustinha esta reverência: que os réprobos e contumazes que não podiam ser mantidos dentro de seu dever, por seus colegas, os contivesse e reprimisse por sua autoridade, porque Gregório atesta isto diligentemente e com freqüência, que não menos queria conservar diligentemente aos outros seus direitos, que da parte deles requeira ele os seus próprios. “Não quero”, diz ele, “por ambição privar a ninguém de seus direitos; antes desejo em tudo e absolutamente honrar a meus irmãos.” Nenhuma palavra há, em seus escritos, pela qual alardeie mais altivamente a grandeza de seu primado do que esta: “Não conheço a nenhum bispo que não esteja sujeito à sé apostólica quando é réu de culpa.” No entanto, acrescenta Imediatamente: “Quando não há culpa, todos, conforme o direito de humildade, são iguais.”86 Atribui a si o direito de corrigir aqueles que hajam pecado; se todos cumprem o dever, faz-se igual aos outros. E ele próprio, de fato, atribui isto a si por direito, mas os que queriam, concordavam; aos outros, porém, a quem isso não agradava, era lícito reclamar impunemente, o que é sabido haver feito, inclusive a maioria. Adiciona que ele aí está falando a respeito do primaz bizantino, que, como fosse condenado por um sínodo provincial, repudiaria todo o julgamento. Seus colegas denunciaram ao Imperador esta contumácia do homem. Quisera o Imperador fosse Gregório o árbitro da questão. Vemos, pois, que ele não está tentando algo com que viole a jurisdição ordinária, e isso mesmo que está fazendo, para que seja útil a outros, o faz somente por determinação do Imperador.

João Calvino

A IMPROCEDÊNCIA DO PRIMADO JURISDICIONAL DA SÉ ROMANA, OU DE SEU BISPO, EVIDENCIADA NOS ESCRITOS QUE GRACIANO COMPENDIA E NAS EPÍSTOLAS PRESUNÇOSAS DE LEÃO I

Sei muito bem quão numerosas são as epístolas, quão numerosos os escritos e editos nos quais os pontífices tudo fazem para engrandecer sua autoridade. Mas não há pessoa de são juízo, nem de tão escasso conhecimento, que não saiba que tais cartas são tão fúteis, que à primeira vista se dá conta de que escritório procedem. Pois que pessoa de bom senso poderia crer que Anacleto seja o autor da célebre interpretação que Graciano adiciona em seu nome, segundo a qual Cefas quer dizer cabeça? Outras muitas frivolidades semelhantes acumulou Graciano sem discernimento algum, das quais atualmente os romanistas abusam contra nós para defender sua sé. E não se envergonham de manifestar como em tempos passados enganavam o povo com tais escuridades. Porém não quero deter-me muito em refutar coisas tão frívolas, que por si sós se dissipam. Reconheço que existem também epístolas verdadeiras de pontífices antigos, nas quais, com títulos grandiosos, apregoam a grandeza de sua sé, como são algumas de Leão. Ora, ele foi um homem, tanto erudito e fecundo, quanto ávido de glória e domínio acima da medida, mas é preciso indagar se porventura as igrejas de então deram crédito a seu testemunho. Mas é patente que muitos foram ofendidos por sua ambição, resistindo-lhe inclusive a desmedida cobiça. Em outra parte, duas vezes sobre a Grécia e outras regiões vizinhas as delega ao bispo de Tessalônica; em outro lugar, sobre as Gálias, as delega ao bispo de Arles, ou a algum outro. Assim, sobre as Espanhas constitui a Hormisdas seu vigário, bispo de Sevilha; mas por toda parte faz exceção: que dá mandados desta ordem com esta condição, que permaneçam salvos e íntegros os antigos privilégios dos metropolitanos. Com efeito, Leão mesmo declara ser este um dentre esses privilégios: que se houver dúvida a respeito de alguma causa, que o metropolitano seja consultado em primeiro lugar. Portanto, com esta condição eram estes vicariados: que não fosse impedido ou qualquer bispo em sua jurisdição ordinária, ou o metropolitano em conhecer as apelações, ou o Concílio Provincial em regular as igrejas. Ora, que era isto senão abster-se de toda jurisdição, e unicamente intervir para apaziguar as discórdias, quando a lei e a natureza da comunhão da Igreja permitiam que seus membros não se estorvassem uns aos outros?

João Calvino

A IMPROCEDÊNCIA DA TÃO CELEBRADA JURISDIÇÃO SOBERANA DA SÉ ROMANA COMPROVADA NA QUESTÃO DE DONATO E CECILIANO

Mas, para que ponhamos fim, de uma vez por todas, a esta questão – de que natureza foi outrora a jurisdição do bispo romano –, bastará uma só história para o desmascarar. Donato, de Casas Negras, acusara a Ceciliano, bispo cartaginês. O acusado fora condenado, sem se ouvir a causa, pois, como soubesse da conjuração feita pelos bispos contra si, não quis comparecer. Daí apresentar-se ao Imperador Constantino. Esse, como quisesse que a causa fosse encerrada em um julgamento eclesiástico, entregou o conhecimento do caso a Melcíades, bispo romano, a quem acrescentou alguns colegas, bispos da Itália, da Gália, da Espanha. Se isto era da jurisdição ordinária da sé romana, ouvir apelação em causa eclesiástica, por que permite que outros lhe sejam associados por arbítrio do Imperador? Mais ainda, por que ele próprio empreende o julgamento mais por mandado do Imperador do que de seu próprio ofício? Ouçamos, porem, o que aconteceu depois. Ceciliano é vencedor; Donato das Casas Negras cai por ação caluniosa; apela; Constantino confia o julgamento da apelação ao bispo de Arles; assenta-se ele como juiz, para que, após o pontífice romano, pronuncie o que lhe pareceu bem. Se a sé romana tem sumo poder sem apelação, por que Melcíades permite tão assinalada ignomínia se lhe seja impingida, sendo preferido o bispo de Arles? E que Imperador faz isso? De fato Constantino, a quem gabam de haver conferido não apenas todo seu esforço, mas também quase todos os recursos do Império, na ampliação da dignidade de sua sé. Vemos já, pois, quão distante, de todos os modos, esteve então o pontífice romano daquele supremo domínio que assevera fora dado por Cristo sobre todas as igrejas, e que alega falsamente haver, em todos os séculos, obtido pelo comum assentimento de toda a terra.

João Calvino

TAMPOUCO O BISPO DE ROMA TEVE JURISDIÇÃO SOBRE OS DEMAIS NO QUE RESPEITA ÀS APELAÇÕES, VISTO QUE OS DOCUMENTOS EVOCADOS ERAM FALSOS OU IMPROCEDENTES

Resta a quarta espécie de poder eclesiástico que reside nas apelações. É evidente que a autoridade suprema está na mão daquele a cujo tribunal se faz apelo. Muitos, e com muita freqüência, apelaram para o pontífice romano; ele próprio também tentou atrair a si o conhecimento das causas, mas foi constantemente escarnecido sempre que excedeu seus limites. Nada direi acerca do oriente e da Grécia, mas é notório que os bispos da Gália resistiram tenazmente, quando ele parecia assumir para si autoridade sobre eles. Na África se debateu por longo tempo a respeito desta questão, pois, como fossem excomungados no Concílio Milevitano, quando Agostinho estivera presente, aqueles que apelassem para além-mar, o pontífice romano tentou fazer com que esse decreto fosse corrigido. Enviou delegados que demonstrassem que este privilégio fora dado pelo Concílio Niceno. Os delegados exibiam atas do Concílio Niceno que haviam tomado do arquivo de sua igreja. Os bispos africanos resistiram e negaram que se devesse dar fé ao bispo romano que legisla em causa própria; conseqüentemente, declararam haver de enviar a Constantinopla e a outras cidades da Grécia onde se tivessem exemplares menos suspeitos. Verificouse que nada desse gênero estava aí escrito como os romanos pretendiam. Assim, foi ratificado aquele decreto que anulara ao pontífice romano sumo conhecimento das apelações. Nesta questão pôs-se à mostra a escandalosa impudência do próprio pontífice romano, pois quando, com fraude, houvesse substituído o Sínodo Sardicense em lugar do Niceno, foi apanhado vergonhosamente em manifesta falsidade. Maior ainda, porém mais impudente, foi a desonestidade daqueles que adicionaram ao Concílio uma epístola fictícia, mediante a qual não sei que bispo cartaginês, condenando a arrogância de Aurélio, seu predecessor, por haver ousado subtrair-se à obediência da sé apostólica, fazendo submissão de si próprio e de sua igreja, humildemente implora perdão. São estes os egrégios documentos de antigüidade nos quais se fundamentou a majestade da sé romana, enquanto, sob o pretexto de antigüidade, se lançam contra a verdade de forma tão pueril, que até mesmo os cegos podem apalpar. “Aurélio”, diz a epístola forjada, “arrebatado de diabólica audácia e contumácia, foi rebelde em relação a Cristo e a São Pedro, conseqüentemente merecedor de ser condenado por anátema.” Que diz Agostinho? Que dizem, na verdade, tantos pais que estiveram presentes ao Concílio Milevitano? Que necessidade há, porém, de refutar com muitas palavras esse escrito tão insípido, o qual, de fato, os próprios romanistas, se algo de pejo ainda lhes resta, não podem contemplar sem profunda vergonha? Assim Graciano, se por ardileza ou por desconhecimento, não sei, quando mencionou esse decreto, disse: “Que sejam privados da comunhão os que apelaram para alémmar”; adiciona a exceção: “A não ser, porventura, que hajam apelado à sé romana.” O que fazer com essas bestas que a tal ponto carecem de senso comum, que excetuam precisamente o que deu origem à lei, como todos sabem? Porque o Concílio, ao proibir que se apele para além-mar, não quer dizer outra coisa senão que ninguém apele para Roma! Este bom intérprete excetua da lei comum precisamente Roma!

João Calvino

TAMPOUCO O BISPO ROMANO USUFRUÍA, ENTÃO, DE JURISDIÇÃO SOBRE OS DEMAIS NO QUE CONCERNE À INDICAÇÃO DE CONCÍLIO

Quanto à convocação de concílios, este era o dever de cada metropolitano: que reunisse um sínodo provincial nos tempos aprazados. Aí o bispo romano não teve nenhum direito. Um concílio universal, porém, somente o Imperador podia determiná-lo. Pois se algum dos bispos tentasse tal coisa, não só não teriam obedecido à convocação os que eram de fora da província, mas também imediatamente teria surgido um tumulto. Portanto, o Imperador intimava a todos, em pé de igualdade, a que estivessem presentes. Refere Sócrates, com efeito, que Júlio, bispo de Roma, havia reclamado com os bispos orientais por não o haver convocado para o Concílio de Antioquia, quando fora proibido pelos cânones ser algo decretado sem o conhecimento do pontífice romano. Quem, no entanto, não vê que se deva entender isto daqueles decretos que obrigam a Igreja Universal? De fato, não surpreende se isto se dá tanto em relação à antigüidade e grandeza da cidade quanto à dignidade da sé: que não se faça decreto universal acerca da religião, estando ausente o bispo romano, desde que ele não se recuse a estar presente. Na verdade, que vale isto para o domínio de toda a Igreja? Ora, não negamos que o bispo romano fosse um dentre os principais, porém nos recusamos a admitir o que agora impõem os romanistas, a saber, que ele exercesse hegemonia sobre todos.

João Calvino

NÃO SE PATENTEIA JURISDIÇÃO SUPERIOR DA SÉ ROMANA EM RELAÇÃO ÀS ADMOESTAÇÕES OU CENSURAS QUE OS BISPOS DIRIGIAM ENTÃO UNS AOS OUTROS

Seguem-se as admoestações ou censuras das quais, como outrora os bispos romanos fizeram uso em relação aos outros, assim, por sua vez, as sofreram. Irineu, bispo Lyon, censurou severamente a Vitor, bispo de Roma, por perturbar temerariamente a Igreja com pernicioso dissídio em razão de coisa de pouca importância. Ele obedeceu; não reclamou. Essa liberdade foi então comum aos santos bispos, que usassem de fraterno direito, admoestando ao prelado romano, e castigando-o se a qualquer tempo pecasse. Ele, por sua vez, quando a situação o exigia, admoestava aos outros de seu dever; e se algo havia de errado, os repreendia. Ora, Cipriano, quando exorta a Estêvão, bispo de Roma, a que advirtisse os bispos da Gália, não argumenta em prol de poder mais amplo, mas do direito comum que os sacerdotes têm entre si. Pergunto se Estêvão, então, tivesse presidido à Gália, porventura Cipriano não haveria de lhe haver dito: “Obrigas a esses, porque são teus?” Ao contrário, ele fala de modo muito adverso. “Esta união fraterna”, diz ele, “porque fomos ligados entre nós, requer que nos admoestemos mutuamente.” E vemos também com quão grande severidade de palavras um homem, de outra sorte, de disposição afável, se lance contra o próprio Estêvão, quando crê que ele se torna demasiadamente arrogante. Portanto, também nesta parte, ainda não se faz evidente que o bispo romano fosse dotado de qualquer jurisdição para com aqueles que não fossem de sua província.

João Calvino

NESSA ÉPOCA A JURISDIÇÃO DO BISPO DE ROMA, NO QUE TANGE À ORDENAÇÃO EPISCOPAL, NÃO ULTRAPASSAVA AS FRONTEIRAS DE SUA PROVÍNCIA

Entretanto, seja como for, examinemos que autoridade e jurisdição teve então a sé romana. O poder eclesiástico, porém, se contém nestes quatro itens: ordenação de bispos, indicação de concílios, audição de apelos ou jurisdição, advertências disciplinares ou censuras. Todos os concílios antigos determinam que os bispos fossem ordenados por seus metropolitanos; em parte alguma determinam que o bispo romano seja deslocado para isso, a não ser em sua patriarquia. Gradualmente, entretanto, veio a prevalecer o costume de que os bispos italianos viessem todos a Roma em busca de consagração, excetuados os metropolitanos, que não permitiram ser reduzidos a esta servidão. Quando, porém, tinha que ordenar algum metropolitano, o bispo romano aí enviava um de seus presbíteros, que apenas estivesse presente, mas que não presidisse. Exemplo deste fato subsiste em Gregório, na consagração de Constâncio de Milão, após o falecimento de Lourenço; embora eu não creia que essa fosse uma instituição muito antiga. Como, porém, por questão de honra e benevolência, a fim de atestar comunhão, inicial e reciprocamente enviassem legados que fossem testemunhas de ordenação, o que era voluntário começou, depois, a ser tido por necessário. Seja como for, salta à vista que o bispo de Roma não tinha outrora o poder de ordenar, a não ser na província de sua patriarquia, isto é, nas igrejas suburbanas, como fala o cânon do Concílio Niceno. À ordenação estava ligado o envio de uma carta sinódica, na qual o bispo de Roma em nada era superior aos demais. Os patriarcas costumavam, imediatamente após sua consagração, consignar sua fé em um escrito solene, no qual professavam subscrever aos santos e ortodoxos concílios. Assim, feita uma exposição de sua fé, uns aos outros mutuamente se aprovavam. Se o bispo romano houvesse recebido esta confissão da parte dos outros e não a houvesse dado, nisto teria sido reconhecido superior; quando, porém, não menos fosse incumbido a dar mais que exigir dos outros, e ter sido sujeito à lei comum, certamente esse foi sinal de associação, não de domínio. Exemplo desse fato se acha na epístola de Gregório a Anastácio e a Ciríaco de Constantinopla, e em outro lugar a todos os patriarcas, a um só tempo.

João Calvino

COMO VEIO A SÉ ROMANA A GRANJEAR PODER SOBRE AS DEMAIS IGREJAS

Volvo-me agora à jurisdição que o pontífice romano assevera ter, insofismavelmente, sobre todas as igrejas. Sei muito bem quão grandes foram outrora os embates acerca desta jurisdição, pois não houve nenhum tempo em que a sé romana não cobiçasse a soberania sobre as demais igrejas. E não será intempestivo investigar neste lugar de que modos ela então, pouco a pouco, emergiu a algum poder. Ainda não estou falando deste infinito domínio que não há muito tempo arrebatou para si, pois prorrogamos isso para seu devido lugar. Aqui, porém, é preciso indicar sucintamente como desde muito e de quais razões se extrapolou, para que assumisse para si certo direito sobre as demais igrejas. Como as igrejas orientais estivessem divididas e conturbadas pelas facções dos arianos, sob os imperadores Constâncio e Constante, filhos de Constantino, o Grande, e Atanásio fosse expulso de sua sé, ali o principal defensor da fé ortodoxa, calamidade desta ordem obrigou-o a vir para Roma, para que, pela autoridade da sé romana, de qualquer modo não só reprimisse a fúria de seus inimigos, mas também firmasse os piedosos a padecerem duras contingências. Foi ele honorificamente recebido por Júlio, então o bispo de Roma, e conseguiu que os bispos ocidentais lhe empreendessem a defesa da causa. Portanto, como os pios carecessem grandemente de apoio externo, mas na igreja romana visualizassem ótima ajuda, de bom grado lhe deferiram o máximo de autoridade que podiam. Entretanto, tudo isso outra coisa não era senão que a comunhão lhe fosse de grande importância, ignominioso, porém, fosse considerado ser por ela excomungado. Mais tarde, eles mesmos adicionaram em grande medida elementos maus e réprobos a essa hegemonia; pois, para que se evadissem a legítimos juízos, se acolhiam a este asilo. Assim sendo, se algum presbítero fosse condenado por seu bispo, se algum bispo o fora pelo sínodo de sua província, apelavam, imediatamente, para Roma. E os bispos romanos recebiam esses apelos mais avidamente do que era próprio, porquanto parecia ser expressão de extraordinário poder serem eles interpostos assim, ampla e latamente, nos afazeres. Assim, como Êutiques fosse condenado por Flaviano, patriarca de Constantinopla, ele se queixou junto a Leão, bispo de Roma, de que lhe havia sido feita injustiça. Esse, nada lento, não menos temerária que prontamente, empreendeu o patrocínio de uma causa má, investiu pesadamente contra Flaviano, como se, sem conhecimento de causa, houvesse condenado a um homem inocente; e com esta sua ambição fez com que, por um espaço de tempo, se firmasse a impiedade eutiquiana. Isto é patente haver ocorrido freqüentemente na África, uma vez que, tão logo algum biltre fora sujeito a juízo ordinário, o mesmo voava para Roma, impingia os seus de muitas calúnias, mas a sé romana estava sempre preparada para interpor-se. Essa impudência compeliu os bispos africanos a decretarem que ninguém, sob pena de excomunhão, apelasse para além-mar.

João Calvino



GREGÓRIO, O GRANDE, CONTRAPONDO-SE A JOÃO, ARCEBISPO DE CONSTANTENOPLA, REPUDIA A IDÉIA DE UM BISPO UNIVERSAL COMO PROFANA, SACRÍLEGA, PRÓPRIA DOS TEMPOS DO ANTICRISTO

Quanto ao título de bispo universal, afinal a contenda surgiu no tempo de Gregório, a qual deu ocasião à ambição de João de Constantinopla. Ora, ele queria fazer-se bispo universal, o que nenhum outro jamais havia tentado. Nessa disputa Gregório não alega que se estava a detrair-lhe um direito que lhe competisse; ao contrário, protesta veementemente que essa designação era profana, mais ainda, sacrílega, até mesmo prenúncio do Anticristo. “De seu estado esboroa-se a Igreja inteira”, diz ele, “se cai aquele que se diz universal.” Em outro lugar: “Muito triste é suportar pacientemente que, desprezados todos, um nosso irmão e colega de episcopado se denomine o único bispo. Mas, neste orgulho seu, que outra coisa se assinala, senão que já estão próximos os tempos do Anticristo? Porquanto ele está obviamente a imitar aquele que, desprezada a sociedade dos anjos, tentou ascender à culminância da singularidade.” Em outro lugar, a Eulógio, bispo de Alexandria, e a Anastácio, bispo de Antioquia: “Nenhum de meus predecessores jamais quis usar este vocábulo profano, porquanto, evidentemente, se um é chamado patriarca universal, derroga-se aos demais o nome de patriarcas. Longe, porém, esteja isto da mente cristã: querer alguém arrogar isso para si, do quê diminua a honra de seus irmãos; por mínimo que ele seja.” Mais: “Consentir nesta expressão celerada outra coisa não é senão destruir a fé.” “Uma coisa é o que devemos fazer para conservar se a unidade da fé; outra, o que devemos fazer para reprimir-se a altivez dos soberbos. Eu, contudo, digo resolutamente que quem quer que se chame, ou deseje chamar-se sacerdote universal, em sua soberba, faz-se precursor do Anticristo, porque, ao dar rédeas à sua soberba, se põe adiante dos demais.” Da mesma forma, de novo, a Anastácio de Antioquia: “Eu disse que ele não pode ter paz conosco, a não ser que corrija a altivez de um vocávulo supersticioso e soberbo, que o primeiro apóstata inventou; e – ainda que eu me cale quanto à injúria contra a honra –, se um bispo é chamado universal, desmorona-se a Igreja universa, quando cai aquele bispo universo.” O que, porém, escreve quanto a haver esta honra sido oferecida a Leão no Concílio de Calcedônea, não contém qualquer aparência de verdadeiro, pois não se lê nada parecido nas atas daquele Concílio. E o próprio Leão, que em muitas epístolas impugna o decreto ali passado em honra da sé constantinopolitana, sem qualquer sombra de dúvida não teria deixado passar este argumento, que era de todos muitíssimo plausível, se fosse verdade que ele repudiou o que lhe era dado; e, homem de outra sorte mais do que bastante ávido de honra, não teria deliberadamente omitido o que lhe redundaria em louvor. Gregório, pois, está enganado nisto, porque pensou ser esse título conferido à sé romana pelo Concílio de Calcedônea (preferindo calar me quanto a ser ridículo o que testifica oriundo de um concílio santo e, ao mesmo tempo, o pronuncia celerado, profano, nefando, soberbo e sacrílego, na verdade engendrado pelo Diabo e publicado pelo arauto do Anticristo). E, todavia, ele adiciona que seu predecessor o havia recusado, para que, enquanto algo se desse a um, particularmente, privados da devida honra não fossem todos os demais sacerdotes. Em outro lugar: “Nenhum bispo jamais quis ser chamado por expressão tal; nenhum para si arrebatou este nome temerário, para que, se em grau de pontificado arrebatasse para si a glória da singularidade, não parecesse haver negado esta a todos os irmãos.”

João Calvino

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O BISPO DE ROMA NÃO USUFRUIU NOS PRIMEIROS DIAS DOS TÍTULOS POMPOSOS DOS QUAIS SÓ BEM MAIS TARDE VEIO A EXIBIR

Quanto ao próprio título de primado, e outros títulos de soberba, dos quais agora se gabam extraordinariamente o bispo de Roma, não é difícil ajuizar de quando e como foram solertemente introduzidos. Cipriano faz freqüente menção de Cornélio, nem o distingue com outro título além de irmão, ou de bispo, ou de colega. Com efeito, quando escreve a Estêvão, sucessor de Cornélio, não só o faz igual a si e aos demais bispos, mas até mais duramente o invectiva, lançado-lhe em rosto, ora a arrogância, ora a ignorância. Bem se sabe o que a igreja africana determinou, depois da morte Cipriano, visto que no Concílio de Cartago se proibiu que se chamasse alguém de príncipe dos sacerdotes ou de bispo supremo, mas somente bispo da primeira sé. Porque, se alguém busca nos documentos mais antigos, descobrirá que então o bispo romano se contentava com a designação comum de irmão. É inegável que, enquanto a Igreja permaneceu em seu verdadeiro e puro estado, esses títulos soberbos que mais tarde usurpou a igreja romana para engrandecer-se jamais foram ouvidos nem conhecidos; desconhecia-se que ele fosse sumo pontífice e única cabeça da Igreja na terra. Ora, se o bispo de Roma ousasse assumir para si algo dessa natureza, varões assisados logo lhe reprimiriam a estultícia. Jerônimo, como fosse presbítero romano, não foi remisso em proclamar a dignidade de sua igreja, quanto a verdade e a condição do tempo o permitiam. Vemos, no entanto, como também a reconduziu à sua posição. “Caso se busque autoridade”, diz ele, “o mundo é maior do que uma cidade. Por que me apresentas o costume de uma cidade? Por que, contra as leis da Igreja, reivindicas um costume do qual nasceu a arrogância? Onde quer que um bispo haja de estar, seja em Roma, seja em Gúbbio, seja em Constantinopla, seja em Régio, é do mesmo mérito e do mesmo sacerdócio. O poder da riqueza e a humildade da pobreza não fazem a um bispo superior ou inferior.”

João Calvino

A SÉ ROMANA PRESIDE O CONCÍLIO DE CALCEDONIA, EM 451, ENTRETANTO SÓ A FINS MODERATÓRIOS; NÃO PRESIDE O CONCÍLIO SUBSEQÜENTE, O QUINTO DE CONSTANTINOPLA, EM 553, COMO NÃO PRESIDIRIA AO DE CARTAGO, DE 418, E AO DE AQUILÉIA, EM 381

Seguiu-se o Concílio de Calcedônia, no qual, mercê de concessão do Imperador, ocuparam o primeiro assento os delegados da igreja romana. No entanto, isso constituiu um privilégio extraordinário, o confessa o próprio Leão, pois quando pede isso do Imperador Marciano e da Imperatriz Pulquéria, mostra que isso não lhe era devido, mas apenas alega que os bispos orientais que presidiram ao Concílio de Éfeso conturbaram-no todo e abusaram impiamente de seu poder. Assim sendo, como se fizesse necessário um moderador grave, nem fosse verossímel que para esse encargo houvessem de ser idôneos aqueles que uma vez foram tão imponderados e tumultuários, roga que, em razão do vício e inaptidão dos outros, se transferissem a si as funções de dirigi-lo. O que se solicita por singular privilégio e fora do proceder normativo, certamente que não procede da lei ordinária. Onde apenas se alega que seria necessário outro presidente, novo, porque os precedentes se desempenharam mal, é patente que isso não foi feito anteriormente, tampouco deve ser perpétuo; pelo contrário, só foi feito em vista do perigo reinante. Portanto, no Concílio de Calcedônea, o pontífice romano tem o primeiro lugar, não por direito de sua igreja, mas porque o sínodo estava desprovido de um moderador grave e apto, pois os que podiam presidir usavam de imoderação e descomedimento. O sucessor de Leão comprovou pelo próprio fato o que estou dizendo. Porque, como ao quinto Concílio de Constantinopla, que foi celebrado muito tempo depois, enviasse seus delegados, não disputou o primeiro assento; pelo contrário, admitiu facilmente que Menas, o patriarca de Constantinopla, o presidisse. Assim, no Concílio de Cartago, ao qual esteve presente Agostinho, vemos a presidi-lo não os delegados da sé romana, mas Aurélio, arcebispo do lugar, embora houvesse ainda disputa acerca da autoridade do pontífice romano. Além disso, também foi celebrado na própria Itália um Concílio Geral, o de Aquiléia, ao qual o bispo de Roma não esteve presente. Ambrósio o presidia, o qual então desfrutava de insigne autoridade junto ao Imperador: nenhuma menção aí se faz do pontífice romano. Portanto, aconteceu então, pela dignidade de Ambrósio, que a sé de Milão fosse mais ilustre que a romana.

João Calvino

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

DO SURTO E INCREMENTOS DO PAPADO ROMANO, ATÉ QUE A ESTA ALTURA SE TRANSPORTOU, PELA QUAL NÃO SÓ A LIBERDADE DA IGREJA FOI OPRIMIDA, MAS TAMBÉM SUBVERTIDA TODA MODERAÇÃO

O PRIMADO DA SÉ ROMANA NÃO FOI POSITIVADO ATÉ O CONCÍLIO DE NICÉIA, EM 325, E O SÍNODO DE ÉFESO, EM 449, NOS QUAIS OS DELEGADOS DE ROMA NÃO DESFRUTARAM DE PREEMINÊNCIA SOBRE OS DEMAIS

Quanto à antigüidade do primado da sé romana, nada a corrobora de forma mais fortemente que aquele decreto do Concílio Niceno, pelo qual não só se atribui ao bispo romano o primeiro lugar entre os patriarcas, mas também se lhe impõe exercer o cuidado das igrejas suburbanas. Quando o Concílio divide as igrejas entre eles e os outros patriarcas, de sorte que a cada um se designam seus limites, certamente que ele não o está constituindo cabeça de todos, mas apenas o faz um entre os principais. Estavam presentes Vito e Vicêncio em nome de Júlio, que então governava a igreja romana. Foi-lhes dado o quarto lugar. Pergunto, se Júlio fosse reconhecido como o cabeça da Igreja, porventura seus delegados seriam relegados ao quarto assento? Porventura Atanásio presidiria em um concílio onde, acima de tudo, deve transluzir a efígie da ordem hierárquica? No Concílio de Éfeso, Celestino, que era então o pontífice romano, parece haver-se utilizado de um artifício sutil para que acautelasse a dignidade de sua sé. Ora, como aí enviasse aos seus, confiou a Cirilo de Alexandria que, de qualquer modo, haveria de presidir, fizesse suas vezes. A que propósito esta delegação, senão para que, de qualquer forma, seu nome apegasse à primeira sé? Pois seus delegados se assentam em lugar inferior, são solicitados a dar seu parecer entre os outros, votam por sua vez, enquanto, ao mesmo tempo, seu nome é acoplado ao do patriarca alexandrino. Que direi do segundo Concílio de Éfeso, onde, embora estivessem presentes os delegados de Leão, entretanto, como por direito seu, presidia Dióscoro, patriarca alexandrino? Objetarão dizendo que não foi um concílio ortodoxo, pelo qual não só foi condenado o santo varão Flaviano, mas também absolvido Êutiques e aprovada a impiedade deste. Com efeito, embora o Sínodo se congregasse, quando os bispos distribuíam entre si os assentos, certamente aí entre os outros se assentavam os   delegados da igreja de Roma, não de outra forma senão com se dá em um concílio santo e legítimo. Entretanto não contendem quanto ao primeiro lugar; pelo contrário, cedem-no a outro; de maneira nenhuma fariam isso se cressem que ele lhe seria seu por direito. Ora, os bispos romanos nunca se envergonharam de suscitar até mesmo contenções extremadas na promoção de suas honras, e por uma única razão: afligir e conturbar freqüentemente a Igreja com muitos e perniciosos conflitos. No entanto, como Leão via muito bem que seu atrevimento seria tido como excessivo se pretendesse que seus legados ocupassem o primeiro lugar, se deu por satisfeito com o que tinha.

João Calvino

A IGREJA PRIMEITIVA, COMO JERÔNIMO E CIPRIANO O ATESTAM, NÃO ESPOSOU A NOÇÃO DE UM BISPO UNIVERSAL, PORTANTO NÃO RECONHECEU O SUPOSTO PRIMADO DO BISPO DE ROMA

Com efeito, mui erroneamente, como já o disse, agem nossos adversários quando daí querem atribuir-lhe primado e supremo poder sobre as demais igrejas. Para que isso se evidencie com mais clareza, mostrarei sucintamente que, primeiro, sentiram os antigos a respeito desta unidade sobre a qual insistem com tão grande veemência. Jerônimo, em sua Epístola a Nepociano, depois de enumerar muitos exemplos de unidade, por fim desceu à hierarquia eclesiástica. “Os bispos das igrejas”, diz ele, “um a um; os arciprestes, um a um; os arcediagos, um a um; e toda a ordem eclesiástica se firma em seus dirigentes.” Aqui está falando um presbítero romano. Ele recomenda a unidade na ordem eclesiástica. Ora, por que ele não traz à lembrança que todas as igrejas foram ligadas entre si por uma cabeça única, como se por um vínculo? Nada havia que mais servisse à presente causa, nem se pode dizer ter acontecido por esquecimento que deixasse de referi-lo, porque não teria feito nada com maior prazer, se os fatos o abonassem. Assim sendo, ele viu, sem qualquer sombra de dúvida, que o verdadeiro fator da unidade é aquele que Cipriano descreve magnificamente com estas palavras: “O episcopado é um todo, do qual uma parte é integralmente mantida pelos bispos, um a um, e uma só é a Igreja, a qual, pelo incremento de sua fecundidade, se estende mais amplamente na multidão. Como muitos são os raios do sol, e uma única a luz; e de uma árvore muitos são os galhos, mas um só o tronco, firmado em raiz tenaz, e como a emanar de uma só fonte muitos cursos de água; e embora, mercê da prodigalidade da abundância transbordante, o vultoso número pareça difuso, entretanto a unidade é conservada inteira na origem, assim também na Igreja, inundada da luz do Senhor, derrama seus raios por todo o urbe, todavia uma só é sua luz, que é difundida por toda parte, sem parcelar a unidade do corpo; estende seus galhos pelo orbe inteiro, produzindo riachos que correm à larga, contudo uma é a cabeça e uma a origem” etc. Em seguida: “A esposa de Cristo não pode cometer adultério; ela conhece uma casa, de casto pudor guarda a santidade de um só aposento conjugal.” Vês como ele toma só o episcopado de Cristo como universal, o qual toma sob si toda a Igreja; diz que partes dela são sustentadas integralmente por todos quantos exercem o episcopado sob esta Cabeça. Onde está o primado da sé romana, se só na mão de Cristo reside integralmente o episcopado, e de cada bispo lhe é sustentada integralmente uma parte? Meu objetivo, nestas observações, é mostrar ao leitor, de passagem, que o axioma da unidade de um gênero terreno na hierarquia, o que os romanistas assumem como confesso e indubitável, era totalmente desconhecida da Igreja antiga.

João Calvino

A TRÍADE DE FATORES QUE CONFERIRAM À SÉ ROMANA SUA POSIÇÃO ÚNICA DE PRESTÍGIO, PODER E INFLUÊNCIA

Venhamos agora à Igreja antiga, para que também se faça manifesto que nossos adversários blasonam de seu sufrágio não menos infundada e falsamente que do testemunho da Palavra de Deus. Portanto, quando alardeiam aquele seu axioma, a saber, que não se pode manter a unidade da Igreja de outra sorte senão que se faz necessário haver na terra uma única cabeça suprema, à qual todos os membros obedeçam, e por isso o Senhor deu o primado a Pedro, e daí, por direito de sucessão, à sé romana, para que nela resida até o fim; asseveram que isso foi observado sempre, desde o início. No entanto, visto que torcem indevidamente a muitos testemunhos, primeiro quero prefaciar que não nego que os antigos, por toda parte, atribuam grande honra à igreja de Roma, e dela falem com reverência, o que julgo originar-se de três causas, mui especialmente. Ora, em primeiro plano, aquela opinião, a qual não sei como chegou a prevalecer, de que ela foi fundada e constituída pelo ministério de Pedro, era de muita valia para conciliar-lhe favor e autoridade. Assim sendo, no ocidente, ela era honorificamente chamada Sé Apostólica. Em segundo lugar, como ali estivesse a cabeça do Império, também por esta razão seria crível que aí os homens fossem mais eminentes, seja na doutrina, seja na prudência, seja na perícia e no uso de muitas coisas, que em qualquer outro lugar. Em razão desse fato, tinha-se consideração que não se devesse subestimar não apenas a nobreza da cidade, mas também a existência nela de outros dons de Deus muito mais excelentes. A estas duas se acrescentou, ademais, uma terceira razão: que, enquanto as igrejas orientais e as da Grécia, mesmo as africanas, se tumultuassem entre si em muitas dissenções de opiniões, esta foi mais plácida do que as outras, e menos turbulenta. Assim aconteceu que bispos pios e santos, arredados de suas sés, aí freqüentemente se acolhessem como se num refúgio ou num como que porto. Ora, de quão menos agudo e vívido engenho são os ocidentais que os asiáticos e os afros, também tanto menos ávidos de coisas novas. Portanto, isto acrescentou muito de autoridade à igreja romana, ou, seja, que naqueles tempos dúbios ela não foi tão tumultuada como as demais, e se dedicou na doutrina, de uma vez por todas, com mais tenacidade que todas as restantes, como explicaremos melhor imediatamente a seguir. Em razão destas três causas, reitero que a sé romana foi tida em não vulgar honra e recomendada por muitos eminentes testemunhos dos antigos.

João Calvino

À LUZ DE OUTROS ESCRITOS DE PAULO, A TESE É AINDA MAIS CORROBORADA DE QUE PEDRO NÃO FOI BISPO EM ROMA; O QUE ENCONTRAMOS ALI É O APOSTOLADO DE PAULO

Mais tarde Paulo é conduzido preso a Roma [At 28.16]. Lucas narra [At 28.15] que ele foi recebido pelos irmãos; quanto a Pedro, nada se menciona. Dali escreve a muitas igrejas. Em alguma parte das epístolas daí escritas também envia saudações em nome de outras pessoas; não diz uma palavra sequer que indique que Pedro então esteve ali. Pergunto, pois, quem acreditará que podia guardar silêncio, se Pedro estivesse ali presente? Mais ainda, na Epístola aos Filipenses, onde disse que ninguém cuida tão fielmente da obra do Senhor como o faz Timóteo, se queixa de que todos buscam o que é seu [Fp 2.19-21]. E ao próprio Timóteo ele expressa a queixa com mais gravidade: que ninguém esteve presente em sua primeira defesa; ao contrário, todos o desampararam inteiramente [2Tm 4.16]. Portanto, onde Pedro estava então? Ora, se dizem que ele estava em Roma, quão terrível ignomínia Paulo lhe imprime: que ele foi desertor do evangelho! Certamente que ele está falando de fiéis, porque acrescenta: “que Deus não lhes impute isso” [2Tm 4.16]. Por quanto tempo, pois, e em que época ocupou Pedro essa sé? Dirão, porém, que é constante a opinião dos escritores de haver ele governado essa igreja até a morte. Entretanto, entre esses mesmos escritores não está solidamente estabelecido quem foi seu sucessor, pois alguns afirmam ter sido Lino, e outros que foi Clemente. E narram muitas estórias absurdas acerca da disputa havida entre ele e Simão Mago. Tampouco dissimula Agostinho, disputando a respeito das superstições, de uma opinião inconsideradamente concebida de que se implantara em Roma o costume de que não jejuassem nesse dia em que Pedro vencera Simão Mago. Afinal, as coisas desse tempo são a tal ponto enredilhadas em uma variedade de opiniões, que não se deve dar fé inconsideradamente, quando lemos algo escrito. E no entanto, em razão deste consenso dos escritores, não discordo que ele tenha morrido aí; mas que ele foi bispo, especialmente por longo tempo, não há como me persuadir. Tampouco me preocupo muito com o fato de Paulo haver atestado que o apostolado de Pedro pertenceu peculiarmente aos judeus, enquanto que o seu pertenceu a nós [Gl 2.7, 8]. Conseqüentemente, para que aquele pacto que foi firmado entre eles [Gl 2.9] se cumprisse em relação a nós, aliás, para que a ordenança do Espírito Santo se firmasse entre nós, nos convém atentar mais para o apostolado de Paulo que de Pedro, porquanto de tal modo o Espírito Santo dividiu entre eles as províncias, que Pedro se destinasse aos judeus, e Paulo, a nós. Agora, pois, que os romanistas busquem seu primado em outra parte além da Palavra de Deus, na qual não encontrarão nenhum fundamento.

João Calvino

É MUITO INCERTO SE PEDRO DE FATO ESTEVE EM ROMA, MENOS AINDA QUE FOI SEU BISPO

Não vejo, porém, se deva dar algum crédito a sua alegação de que Pedro ocupou a sé romana. Certamente que, o que está em Eusébio – que ele aí presidira vinte e cinco anos –, isso se refuta com nenhuma dificuldade. Pois à luz do primeiro e segundo capítulo da Epístola aos Gálatas se faz evidente que ele esteve em Jerusalém cerca de vinte anos, desde a morte de Cristo; em seguida, que foi para Antioquia, onde por quanto tempo permaneceu é incerto. Gregório conta sete; Eusébio, porém, vinte e cinco anos. Mas, desde a morte de Cristo até o fim do império de Nero, sob quem afirmam haver ele sido morto, se acharão apenas trinta e sete anos. Ora, o Senhor padeceu sob Tibério, no décimo oitavo ano de seu império. Se forem deduzidos vinte anos, durante os quais Paulo é testemunha de que Pedro habitava em Jerusalém, restarão dezessete no máximo, os quais têm de ser agora repartidos entre os dois episcopados. Se ele morou em Antioquia por longo tempo, então não pôde ter sé em Roma, senão por bem pouco tempo. Isto mesmo é possível demonstrar ainda mais claramente. Paulo escreveu aos romanos de caminho [Rm 15.25], quando estaria de viagem para Jerusalém, onde foi aprisionado e conduzido a Roma. Portanto, é verossímel que esta Epístola fosse escrita no quadriênio antes que o Apóstolo viesse a Roma. Aí não se faz nenhuma menção de Pedro, a qual de modo algum poderia ser omitida, caso houvesse ele regido essa igreja. Além disso, no final da Epístola [Rm 16.3-16], enquanto recita longo catálogo dos piedosos a quem solicita sejam enviadas saudações, de fato onde cataloga todos os seus conhecidos, ele mantém total silêncio a respeito de Pedro. Nem aqui se faz necessário uma longa ou sutil demonstração entre os homens de juízo mais íntegro, pois o próprio fato, e todo o argumento da Epístola, argumentam que ele não poderia preterir a Pedro, caso estivesse em Roma.

João Calvino

O ABSURDO DO PRIMADO DE ROMA EVIDENCIADO EM RELAÇÃO A OUTRAS SÉS, ÀS QUAIS SE DEVERIA NECESSARIAMENTE APLICAR O PRINCÍPIO

Mas, consideremos que seja assim, e presumamos que o primado foi transferido de Antioquia para Roma. Por que, pois, Antioquia não reteve o segundo lugar? Ora, se de fato Roma exerce o primeiro lugar, que aí Pedro teve sua sé até o término da vida, a que cidade se dará antes o segundo lugar, na qual ocupara ele a primeira sé? Como aconteceu, pois, que Alexandria tivesse precedência sobre Antioquia? Como foi possível que a igreja de um mero discípulo seja superior à sé de Pedro? Se a cada igreja se deve honrar conforme a dignidade de seu fundador, que diremos também das demais igrejas? Paulo enumera três que pareciam ser as colunas: Tiago, Pedro e João [Gl 2.9]. Se porventura atribuir-se à sé romana o primeiro lugar em honra a Pedro, porventura as igrejas de Éfeso e Jerusalém não merecem o segundo e o terceiro, onde tiveram suas sés João e Tiago? Com efeito, Jerusalém outrora teve entre os patriarcados o último lugar; Éfeso, de fato, nem mesmo pôde garantir o último canto! Outras igrejas foram também preteridas, não importa quantas e quaisquer Paulo tenha fundado, quantas os demais apóstolos estiveram à frente. A sé de Marcos, que foi apenas um dentre os discípulos, obteve a honra sobre todas essas igrejas. Confessem que esta ordem é bem estranha; ou, antes, concedam que não há correspondência entre o grau de honra que se concede a uma igreja e a dignidade de seu fundador.

João Calvino

O RIDÍCULO DO PRIMADO PRÉVIO DE ANTIOQUIA, MAIS TARDE TRANSFERIDO PARA ROMA

Entretanto, vejamos como admiravelmente arrazoam. Afirmam que Pedro exerceu o principado entre os apóstolos; portanto, a igreja na qual teve sua sede deve ter este privilégio. Mas, onde ele teve primeiro sua sede? Em Antioquia, dizem eles. Logo, a igreja antioquense, com direito, reivindica para si o primado. Declara que ela outrora era a primeira, mas que Pedro, emigrando aí, transferiu a Roma a honra que trouxera consigo. Ora, sob o nome do papa Marcelo existe uma epístola aos presbíteros antioquenses na qual assim fala: “A sé de Pedro esteve inicialmente entre vós, a qual, mais tarde, o Senhor transferiu para cá. Assim sendo, a igreja antioquense, que outrora era a primeira, cedeu sua vez à sé romana. Mas, pergunto eu, em virtude de quê oráculo aquele bom homem foi pelo Senhor assim mandado? Ora, se esta questão tiver que ser decidida pelo direito, então é indispensável que respondam: porventura querem que este privilégio seja pessoal, real, ou misto? Pois há de ser uma dessas três opções. Se for pessoal, então não tem nada a ver com lugar; se, porém, for real, então, uma vez que foi estipulado um lugar, não se retira dele em razão ou de morte ou de afastamento da pessoa. Resta, pois, a conclusão de que foi misto; mas então não há que considerar simplesmente o lugar sem correspondência com a pessoa. Que decidam pelo que quiserem; e facilmente convencerei que de forma alguma se pode atribuir a Roma o primado que ela reivindica.

João Calvino

ADMITIDO O PAPEL VICÁRIO DE PEDRO, NÃO HÁ COMO LOGICAMENTE EMPRESTAR-LHE A NECESSÁRIA SUCESSÃO AO BISPO DE ROMA

Agora lhes farei outra concessão, a qual jamais obterão dos homens de mente sã – isto é, que a primazia da Igreja foi fixada em Pedro, com vista a permanecer para sempre por sucessão perpétua.74 Contudo, como convencerão que sua sé foi colocada em Roma, que quem quer que fosse bispo dessa cidade presidiria ao mundo inteiro? Com que direito vinculam a um lugar esta dignidade que foi dada sem  menção de lugar? Dizem que Pedro viveu em Roma e aí morreu. Que dizer do próprio Cristo? Porventura não exerceu em Jerusalém o episcopado, enquanto lá viveu, e ao morrer aí não consumou o ofício de seu sacerdócio? O Príncipe dos pastores, o Bispo Supremo, a Cabeça da Igreja não pôde adquirir essa honra para um lugar; Pedro, muito inferior a ele, o adquiriu? Porventura tais sandices não são mais que pueris? Cristo conferiu a Pedro a honra do primado; Pedro sediou-se em Roma; logo, aí estabeleceu a sede do primado. Seguramente, com este arrazoado, os israelitas de outrora devem constituir a sede do primado no deserto, onde Moisés, mestre supremo e príncipe dos profetas, exercera seu ministério e morreu [Dt 34.5].

João Calvino

AS ESCRITURAS NÃO SÓ AFIRMAM QUE CRISTO CONTINUA ESPIRITUALMENTE PRESENTE NA IGREJA, COMO TAMBÉM NÃO REGISTRAM A EXISTÊNCIA DE UM VIGÁRIO SEU NA TERRA

Algumas vezes Paulo nos pinta a Igreja com cores vivas. Ele não faz menção alguma de uma cabeça da Igreja na terra; ao contrário, à luz de sua descrição é fácil coligir que tal figura é estranha à instituição de Cristo. Com sua ascensão, Cristo retirou de nós sua presença visível [At 1.9]; contudo subiu para preencher todas as coisas [Ef 4.10]; portanto, a Igreja agora o tem ainda presente, e haverá de tê-lo sempre. Quando Paulo quer mostrar a maneira pela qual ele se manifesta, nos traz aos ministérios dos quais faz uso. “O Senhor está em todos nós”, diz ele, “segundo a medida da graça que conferiu a cada membro” [Ef 4.7]. Por isso, “a uns constituiu primeiramente apóstolos; a outros, porém, pastores; a outros, evangelistas; a outros, mestres”; etc. [Ef 4.11]. Por que o apóstolo não diz que o Senhor constituiu um sobre todos, para que fosse seu vigário? Pois a matéria que trata o exigia; e não teria deixado de dizê-lo, se fosse verdade. Cristo, diz o Apóstolo, está presente conosco. Como? Através do ministério de homens a quem deu à Igreja para ser por eles governada. Por que não antes pela cabeça ministerial, a quem pôs em seu lugar? Ele menciona, sim, a unidade, porém em Deus e na fé em Cristo. Quanto aos homens, não lhes atribui nada, senão o ministério comum e a cada um sua porção particular. Ao nos encomendar a unidade, dizendo que somos um corpo e um espírito, que temos uma mesma esperança de vocação, um só Deus, uma mesma fé e um só batismo [Ef 4.4, 5], por que não acrescenta logo que temos um sumo pontífice, que sustenta a unidade da Igreja? Porque, se fosse assim, não poderia dizer nada que viesse mais a propósito. Que ponderem bem esta passagem, e tomem nota dela. Não há dúvida de que Paulo quis aí representar o governo total, sagrado e espiritual da Igreja, o qual os que vieram depois chamaram hierarquia. Ora, ele não admite monarquia nem principado algum de um homem só entre os ministros. Ao contrário, ele dá a entender que tal coisa não existe. Tampouco se pode duvidar que ele quisesse expor a maneira da união com que os fiéis estão unidos com Cristo, sua Cabeça. Pois aí ele não só não menciona nenhuma cabeça ministerial, mas inclusive atribui a cada membro sua operação particular [Ef 4.16], segundo a medida da graça distribuída a cada um [Ef 4.7]. Tampouco existe razão para estabelecer sutilmente comparação da hierarquia celestial e terrena; pois da hierarquia celestial não necessitamos saber mais que aquilo que a Escritura diz; e para constituir a ordem que temos sobre a terra não devemos seguir outro padrão além daquele que o Senhor mesmo nos deu.

João Calvino

CRISTO, E TÃO-SOMENTE CRISTO, É O CABEÇA DA IGREJA, E NÃO DELEGOU A OUTREM TAL SOBERANIA COMO SEU SUPOSTO VIGÁRIO NA TERRA

Mas, concedendo-lhes como querem, seja bom e útil que o orbe inteiro seja abarcado em uma única monarquia – o que no entanto é inteiramente absurdo; todavia, ainda quando é assim, não concederei que isso mesmo valha no governo da igreja. Ora, ela tem a Cristo por seu Cabeça único, sob cujo principado todos nos congregamos em harmonia, segundo esta ordem e esta forma de governo que ele mesmo prescreveu. Assim sendo, fazem a Cristo uma frontal injúria, quando com esse pretexto querem que um único homem presida à Igreja inteira, visto que esta não carece de um cabeça. “Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação com amor” [Ef 4.15, 16]. Vês que a todos os mortais, sem exceção, ele coloca no corpo, a honra e o nome de cabeça deixa exclusivamente a Cristo? Vês que a cada membro atribui medida certa e função finita e limitada, para que tanto a perfeição da graça, quanto o supremo poder de governar, resida unicamente na mão de Cristo? Tampouco desconheço o que costumam tergiversar quando se lhes afirma que Cristo é apropriadamente denominado a Cabeça única porque, por sua autoridade e por seu nome, somente ele reina, mas nada impede que abaixo dele esteja outra, como dizem, cabeça ministerial, que lhe faça as vezes nas terras. No entanto, com esta cavilação não conseguem nenhuma vantagem, a menos que antes mostrem que este alegado ministério foi ordenado por Cristo. Ora, o Apóstolo ensina que toda a administração é difundida pelos membros, e que a virtude procede daquela Cabeça celestial única. Ou, se preferem algo mais taxativo: quando a Escritura atesta que Cristo é a Cabeça, e que ele reivindica esta honra somente para si, não se deve transferi-la a outro, a não ser a quem o próprio Cristo haja feito seu vigário. Com efeito, isto não só se lê em parte alguma da Escritura, mas também pode ser refutado sobejamente por muitas passagens [Ef 1.22; 4.15; 5.23; Cl 1.18; 2.10].

João Calvino

MESMO ADMITIDO O PRIMADO DE PEDRO SOBRE OS DOZE, ISSO NÃO LHE FACULTA AUTORIDADE ABSOLUTA SOBRE TODA A IGREJA

Mas ainda que a respeito de Pedro eu lhes conceda o que defendem, isto é, haver ele sido o príncipe dos apóstolos, e que foi superior em dignidade aos demais, contudo não é motivo para que, de um exemplo singular, façam uma regra universal, e o que foi feito uma vez transponham à perpetuidade, quando a situação é bem diversa. Um foi supremo entre os apóstolos, seguramente porque eram poucos em número. Se um presidiu a doze homens, em razão disso porventura se seguirá que um deva ser o guia de cem mil homens? Que doze tivessem entre si um que liderasse a todos, que surpreende nisso? Ora, a natureza admite tal coisa, o engenho dos homens exige que em qualquer assembléia, ainda que sejam todos iguais em poder, contudo um seja como que o moderador, em relação ao qual os outros voltem sua atenção. Nenhuma reunião senatorial existe sem o cônsul; nenhuma sessão de juízes, sem o pretor, ou questor; corporação nenhuma, sem seu presidente; nenhuma sociedade, sem seu chefe. Assim sendo, não haveria absurdo algum se confessássemos que os apóstolos deferiram a Pedro tal primado. Mas o que tem lugar respectivo a um número pequeno não pode tornar-se extensivo a todo o mundo, ao qual é impossível que um só homem governe. Com efeito, dizem eles, isso tem lugar não menos na totalidade da natureza, do que em suas partes, uma a uma: que haja um cabeça supremo de todas as coisas. E em confirmação trazem o exemplo do grou e das abelhas, que para si sempre escolhem um único chefe, não muitos. Certamente que admito os exemplos que trazem a lume; mas porventura as abelhas se congregam de todo o orbe para eleger um só rei? Cada rei está contente com sua colméia. Assim se dá também com os grous: cada bando tem seu próprio rei. Que outra coisa daí conseguirão senão que a cada igreja se deve atribuir seu bispo? A seguir nos conclamam a exemplos civis: citam aquele verso homérico:  – Não é bom o governo de muitos] e o que, no mesmo sentido, em enaltecimento da monarquia se diz em escritores profanos. A resposta é fácil, pois não é neste sentido, quer por Ulisses homérico, ou pelos outros, que a monarquia é louvada, como se um só deva reger em soberania a todo o orbe; antes, querem indicar que dois não podem assumir um reino, e que o poder, como diz aquele, não pode suportar parceria.

João Calvino


A POSIÇÃO REAL DE PEDRO NO COLÉGIO APOSTÓLICO, DE IGUALDADE E NÃO DE SUPERIORIDADE; TAMPOUCO USUFRUIU NA IGREJA PRIMITIVA AUTORIDADE ESPECIAL

E no entanto ninguém, deveras, pode melhor resolver esta questão do que a própria Escritura, caso confiramos todas suas passagens onde ela ensina qual o ofício e o poder que Pedro exerceu entre os apóstolos, como ele se comportou, como também foi por eles recebido. Que se percorra nela tudo quanto se possa, e outra coisa não se achará senão que ele foi um do número dos Doze, igual aos demais e seu companheiro, não seu senhor. É verdade que ele propõe na assembléia o que se deve fazer e admoesta aos demais; mas também os ouve; e não lhes permite emitir sua opinião, mas que ordenem e determinem o que bem lhes parecesse [At 15.6-22]. E quando eles determinaram alguma coisa, ele obedece e a segue. Quando escreve aos pastores, não ordena por mando, como um superior; antes, os toma como seus colegas e os exorta amavelmente, como costuma acontecer entre iguais [1Pe 5.1]. Quando é acusado de ir ter com gentios, ainda que isto se faça sem razão, no entanto responde e se justifica [At 11.2-18]. Mandado pelos colegas que fosse com João a Samaria, não se recusa [At 8.14]. O fato de os apóstolos o mandarem, nisto declaram que estão muito longe de o terem por superior; o fato de que obedece e empreende a missão a si ordenada, nisto confessa ter com eles associação, não domínio sobre eles. Ora, se nada dessas coisas subsistisse, entretanto bastaria a Epístola aos Gálatas para facilmente dirimir-nos toda dúvida, quando, em quase dois capítulos, outra coisa não trata Paulo senão de ser igual a Pedro na honra do apostolado. Daqui nos lembra que veio a Pedro, não para que lhe professasse sujeição, mas apenas para que a todos testificasse o consenso doutrinal; que também o próprio Pedro não exigiu nada desse gênero; ao contrário, deu-lhe a destra de comunhão para que trabalhassem em comum na vinha do Senhor; que a ele foi conferida graça não inferior entre os gentios que a Pedro entre os judeus; finalmente, que, visto que Pedro agiu menos fielmente, foi por ele corrigido e acatou sua repreensão [Gl 2.11-14]. Todas estas coisas tornam evidente que ou houve igualdade entre Paulo e Pedro, ou certamente Pedro não teve em nada mais poder sobre os outros apóstolos do que eles mesmos tiveram sobre ele. Com efeito, como já o disse, Paulo afirma expressamente que em seu apostolado não teve por inferior nem a Pedro nem a João, porque todos são iguais a ele e seus companheiros, e não seus senhores.


João Calvino

O SIGNIFICADO DE MATEUS 16.18 NÃO É OBSCURO, E ESTÁ LONGE DE CONSTITUIR A PEDRO O FUNDAMENTO DA IGREJA, PRERROGATIVA EXCLUSIVA DE CRISTO

Uma vez que não estamos ainda nessa discussão, no momento quero manter apenas que o argumento deles é em extremo fútil, pretendendo estabelecer somente no nome de Pedro o império de um só homem sobre toda a Igreja. Ora, aquelas velhas parvoíces com as quais tentaram de início embair são indignas até de referência, muito menos de refutação, ou, seja, que a Igreja foi fundamentada em Pedro, porquanto se declarou: “Sobre esta pedra” etc. [Mt 16.18]. Mas, protestam, alguns dentre os pais assim o interpretaram. Quando, porém, toda a Escritura brada em contrário, por que interpõem sua autoridade contra a de Deus? Mais ainda, por que disputamos acerca do sentido dessas palavras, como se fosse obscuro, ou ambíguo, quando nada se pode dizer mais claro e mais certo? Pedro havia confessado, em seu nome e dos irmãos, que Cristo é o Filho de Deus [Mt 16.16]. Sobre esta pedra71 Cristo edifica sua Igreja, porquanto é ela, como diz Paulo, o fundamento único, além do qual não se pode colocar outro [1Co 3.11]. Tampouco repudio aqui a autoridade dos pais por isso, como se não tivesse ninguém de meu lado se quisesse citálos, mas porque não quero, conforme já disse, importunar os leitores delongando excessivamente esta discussão; e também porque outros já trataram dele com bastante amplitude e com plena competência.

João Calvino

terça-feira, 6 de novembro de 2018

A PEDRO ASSISTE O PRIMADO DE HONRA, MAS NÃO DE PODER

Mas em parte alguma lemos de se haver dito a algum outro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” [Mt 16.18]! Como se Cristo então estivesse aí afirmando de Pedro outra coisa que o que eles mesmos, Paulo e Pedro, dissessem de todos os cristãos! Pois aquele fala de Cristo como a pedra suprema e angular, sobre a qual são edificados os que crescem como templo santo do Senhor [Ef 2.20, 21]; este, porém, declara que somos pedras vivas, bem fundamentadas naquela pedra eleita e preciosa [1Pe 2.5, 6], mercê desta juntura e conexão estamos solidamente ligados com nosso Deus e entre nós [Cl 2.19]. Dizem que ele está acima dos outros, porquanto tem o nome especialmente referido. Certamente de bom grado concedo a Pedro esta honra: que ele seja colocado entre os primeiros no edifício da Igreja; ou, se também quiserem isto, que ele seja o primeiro de todos os fiéis. No entanto não admitirei que se deduza disto que tem o primado acima dos outros. Ora, que modo de concluir é este de que Pedro excede aos outros no fervor do zelo, na doutrina, na magnitude de ânimo, aliás, tem poder sobre eles? Como se realmente eu não pudesse concluir, e com melhor razão, que André está acima de Pedro em eminência, porque o antecedeu no tempo e o conduziu a Cristo [Jo 1.40, 42]. Mas não tomo isso em consideração. É incontestável que Pedro tenha a primazia. Contudo, existe uma grande diferença entre honra e eminência e poder. Vemos que os apóstolos concederam ordinariamente a Pedro a honra de ser o primeiro a falar na assembléia dos fiéis, de certo modo exercesse sobre eles a preeminência na discussão, na exortação, na admoestação. Mas de sua autoridade sobre os demais, não lemos uma só palavra.

João Calvino

TAMPOUCO O PRIMADO EXCLUSIVO A PEDRO CONFERE O PODER DAS CHAVES

Já adverti quão indignamente torcem aquelas passagens que fazem menção de ligar e desligar, por um lado; por outro, se haverá de expor mais profusamente pouco mais adiante. Por ora faz-se necessário ver apenas o que eles extraem daquela celebrada resposta de Cristo a Pedro. Ele promete dar-lhe as chaves do reino dos céus. Disse que tudo quanto ligasse na terra seria ligado nos céus [Mt 16.19]. Se entre nós houver acordo quanto ao termo chaves e ao modo de ligar, então imediatamente toda disputa cessará. Ora, mesmo o papa de bom grado deixará de parte o encargo imposto aos apóstolos, o qual, pleno de labor e enfado, lhe despojaria de seus prazeres, sem qualquer lucro. Uma vez que pela doutrina do evangelho os céus nos são abertos, ela é adornada de elegante metáfora pelo termo chaves. Os homens já não são ligados e desligados de outro modo, senão enquanto a uns a fé reconcilia com Deus, a outros sua incredulidade mais o comprova. Se o papa assumisse só isto para si, creio que ninguém se deixaria mover de inveja ou do espírito de contenda. Mas, visto que esta sucessão, laboriosa e bem pouco rentável, de maneira alguma sorri para o papa, já daí nasce o princípio de litígio quanto ao que Cristo haja prometido a Pedro. Eu, da própria matéria, concluo que aqui se denota apenas a dignidade do ofício apostólico, a qual não se pode dissociar do ônus envolvido. Ora, se for recebida aquela definição que propus, a qual só se pode rejeitar impudentemente, aqui nada se dá a Pedro que não fosse comum também aos colegas, porque, de outra maneira, não só se faria dano à suas pessoas, mas também claudicaria a própria majestade da doutrina. Em contrário, eles bradam. Indago, porém: que aproveita arremeter-se contra essa rocha? Porque nunca conseguirão que, assim como a pregação de um mesmo evangelho foi imposta a todos os apóstolos, assim também todos eles foram providos em comum do poder de ligar e desligar. Cristo, dizem eles, constituiu a Pedro príncipe de toda a Igreja, quando prometeu que lhe daria as chaves. Com efeito, o que então prometeu a um só, em outro lugar [Mt 18.18; Jo 20.23] confere, e como que à mão entrega, a todos os demais a um só tempo! Se a mesma prerrogativa que se promete a um é outorgada a todos, como um pode ser superior aos demais? Dizem que a preeminência consiste nisto: que ele recebe não só em comum, mas também separadamente, o que aos outros não é dado senão em comum. E se responder com Cipriano e Agostinho, que Cristo fez isso não para que um homem só preferisse aos demais, mas para que assim recomendasse a unidade da Igreja? Pois assim fala Cipriano: “Na pessoa de um só homem o Senhor deu as chaves a todos, para que denotasse a unidade de todos. Conseqüentemente, os demais foram o que Pedro era, dotados com igual participação tanto de honra quanto de poder, mas o ponto de partida faz-se da unidade, para que a Igreja de Cristo se mostre una.”68 Agostinho, porém: “Se em Pedro não estivesse o ministério da Igreja, o Senhor lhe não diria: ‘Dar-te-ei as chaves’, pois se isto foi dito a Pedro, então a Igreja não as tem; entretanto, se a Igreja as tem, quando Pedro recebeu as chaves, representou toda a Igreja.” Em outro lugar: “Todos foram interrogados, mas somente Pedro responde: ‘Tu és o Cristo’; e este lhe diz: ‘Dar-te-ei as chaves’, como se ele só tivesse recebido o poder de ligar e desligar, enquanto ele falou por todos e recebeu comum a todos, sendo, por assim dizer, o representante da unidade. Um recebeu por todos, porque a unidade está em todos.”

João Calvino

TAMPOUCO AS CELEBRADAS PALAVRAS DE CRISTO A PEDRO, EM MATEUS 16.18 E JOÃO 21.15, RESPALDAM ESSE PRIMADO

Portanto, não há razão por que, como se procedesse de uma lei perpétua, nos constranjam com esse exemplo, o qual notamos ter sido temporário. Do Novo Testamento nada têm que possam alegar para confirmação de sua tese, a não ser o que foi dito a uma pessoa: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” [Mt16.18]; igualmente: “Pedro, tu me amas? Apascenta minhas ovelhas” [Jo 21.15]. Aliás, para que essas provas sejam firmes, é preciso antes de mais nada mostrar que àquele que se ordena apascentar o rebanho de Cristo é conferido poder sobre todas as igrejas; tampouco ligar e desligar significa outra coisa senão presidir sobre o mundo todo. De fato, como Pedro recebera do Senhor o mandado, por isso exorta a todos os demais presbíteros que apascentem a Igreja [1Pe 5.2]. Aqui é lícito concluir ou que, por aquela palavra de Cristo, nada foi dado a Pedro acima dos demais, ou que o direito que Pedro recebera ele compartilhou com os outros em pé de igualdade. Mas para que não litiguemos em vão, temos em outro lugar [Jo 20.23] exposição clara da boca de Cristo do que significa ligar e desligar, a saber: reter e perdoar pecados. De fato o modo de ligar e desligar não só mostra toda a Escritura, a cada passo, como também excelentemente o declara Paulo, quando diz que os ministros do evangelho têm o mandado de reconciliar os homens com Deus, e ao mesmo tempo têm o poder de exercer vingança sobre aqueles que desprezarem este benefício [1Co 5.18; 10.6].

João Calvino

IMPROCEDÊNCIA DO ARGUMENTO DE QUE O PRIMADO DO PAPA ACHA RESPALDO OU, MELHOR, CORRESPONDE À AUTORIDADE ÚNICA DO SUMO SACERDOTE LEVÍTICO

Este, pois, é o estado da questão: Se para a verdadeira constituição da hierarquia, como a chamam, ou da ordem eclesiástica, é necessário que uma sé tenha eminência entre as outras, tanto em dignidade quanto em poder, de sorte que seja a cabeça de todo o corpo. Nós, porém, sujeitamos a Igreja a leis demasiado iníquas se, à parte da Palavra de Deus, lhe impomos esta necessidade. Portanto, se nossos adversários querem conseguir o que postulam, é preciso primeiro mostrar que esta economia foi institituída por Cristo. Neste sentido, citam da lei o sumo sacerdócio, de igual modo, a suprema judicatura que Deus instituiu em Jerusalém. Mas a resposta é fácil, e é múltipla, caso alguém não fique satisfeito. Primeiro, o que foi útil em uma nação, não significa que isso deva estender-se ao mundo inteiro; de fato, a constituição de uma nação e do mundo inteiro será muito diversa. Porque os judeus estavam cercados de todos os lados por idólatras; para que não fossem arrastados em diferentes direções pela variedade de religiões, Deus colocou a sede de seu culto na parte central da terra, propondo aí um antístite único para quem todos voltassem as vistas, para que melhor fossem mantidos em unidade. Agora, quando a verdadeira religião se difundiu por todo o orbe, quem não vê ser inteiramente absurdo que se dê a um só a direção do Oriente e do Ocidente? Ora, é exatamente como se alguém afirmasse que por um só dirigente se deve governar o mundo inteiro, só porque um território não possui muitos dirigentes. Mas ainda há uma outra razão por que isso não deva ser imitado. Que aquele sumo pontífice foi um tipo de Cristo ninguém ignora. Agora, para o sacerdócio ser transferido, convém que aquele direito seja transferido [Hb 7.12]. No entanto, a quem ele foi transferido? Evidentemente, não ao papa, como ele próprio se atreve impudentemente a vangloriar-se, reivindicando este título em proveito próprio, mas a Cristo; e como este exerce o ofício por si só, sem vigário nem sucessor algum, a nenhum outro transfere a honra. Pois este sacerdócio não consiste apenas no ensino, mas também na propiciação de Deus, que Cristo cumpriu em sua morte, bem como naquela intercessão que agora exerce junto ao Pai.

João Calvino

A CENTRALIDADE DO BISPO DE ROMA PARA A QUAL CONVERGE TODA A UNIDADE, AUTORIDADE E APOSTOLICIDADE DA IGREJA, SEGUNDO O ROMANISMO

DO PRIMADO DA SÉ ROMANA

Até aqui passamos em revista essas ordens da Igreja que existiram no governo da Igreja antiga, mas que depois foram corrompidas pelos tempos; a seguir, mais e mais viciadas, na Igreja papal retêm agora apenas o título, de fato não passam de máscaras, de sorte que o leitor piedoso perceba da comparação que sorte de Igreja os romanistas têm, em abono da qual nos fazem réus de cisma, porquanto nos separamos dela. Mas, a cabeça e fastígio de toda a ordem eclesiástica, isto é, o primado da sé romana, do quê porfiam por provar que tão-somente na posse deles está a Igreja Católica, nem mesmo tocamos, porque não teve origem nem da instituição de Cristo, nem do uso da Igreja antiga, como o tiveram aqueles elementos supracitados, os quais já mostramos terem surgido da antigüidade e que já se degeneraram inteiramente pela corrupção dos tempos; aliás, se revestiram de forma completamente nova. E no entanto tentam persuadir ao mundo que este é o principal e quase que vínculo único de unidade eclesiástica: que nos apeguemos à sé romana e perseveremos em sua obediência. Reitero que neste sustentáculo, mais do que tudo, se apóiam quando nos querem arrebatar a Igreja e reivindicá-la para si: que retêm a cabeça da qual depende a unidade da Igreja e sem a qual necessariamente ela se desintegra e se faz em pedaços. Pois pensam que a Igreja é um corpo de certo modo mutilado e truncado, a menos que ela se sujeite à sé romana como a sua cabeça. Assim sendo, quando disputam a respeito de sua hierarquia, sempre tomam o ponto de partida deste axioma: o pontífice romano, como vigário de Cristo, que é a Cabeça da Igreja, preside em seu lugar sobre a Igreja Universal; de outra sorte a Igreja não seria bem constituída, a não ser que aquela sé tenha o primado sobre todas as demais. Por esta razão, é preciso examinar também qual é a natureza deste primado, para que não omitamos algo que diga respeito ao justo governo da Igreja.

João Calvino

A OPULÊNCIA PRINCIPESCA DE BISPOS E CLÉRIGOS EM AGUDO CONTRASTE COM A SOBRIEDADE PRECEITUADA NA ESCRITURA E NOS CÂNONES ANTIGOS

Quanto à renda que recebem de campos e propriedades, que outra coisa direi senão o que já disse e está diante dos olhos de todos? Vemos com que fidelidade os que se chamam bispos e abades administram a maior parte dos bens eclesiásticos. Seria, pois, uma insânia buscar entre eles uma ordem eclesiástica! Porventura é justo que os bispos e abades queiram igualar-se com os príncipes na multidão de criados, no fausto, nas vestes e na suntuosidade da mesa e da casa, quando sua vida deveria ser um exemplo e um provérbio de sobriedade, temperança, modéstia e humildade? É próprio de um pastor apropriar-se não só de cidades, vilas e castelos, mas também de grandes condados e ducados, e finalmente deitar suas garras sobre reinos e impérios, quando o mandamento inviolável de Deus lhes proíbe toda cobiça e avareza, e lhes ordena que vivam com simplicidade [Tt 1.7]? Se desprezam a Palavra de Deus, que responderão àqueles vetustos decretos dos sínodos nos quais se estatui que o bispo tenha uma habitação não distante da Igreja, mesa e mobília baratas? O que replicarão àquela formulação do Concílio de Aquiléia em que se proclama ser gloriosa a pobreza nos sacerdotes do Senhor? Ora, talvez repudiarão como demasiado austero aquilo que Jerônimo preceitua a Nepociano: que os pobres e peregrinos conheçam sua mesa modesta e que Cristo conviva com eles. Com efeito, terão eles vergonha de rejeitar o que Jerônimo adiciona logo a seguir, que a glória do bispo é prover os haveres dos pobres, e que a ignomínia de todos os sacerdotes é diligenciar pelas riquezas pessoais. Eles, porém, não podem admitir isto sem que todos se condenem à ignomínia. Contudo, aqui não se faz necessário persegui-los mais duramente, quando outra coisa não querem senão demonstrar que entre eles desde muito já foi detraída a ordem legítima do diaconato, de sorte que não mais se ensoberbeçam com este título para recomendação de sua Igreja. Creio que este ponto está sobejamente discutido.

João Calvino

OS FUNDOS ECLESIÁSTICOS APLICADOS AO LUXO, AO ESPLENDOR, À OSTENTAÇÃO DE TEMPLOS E SANTUÁRIOS EM DETRIMENTO DA ASSISTÊNCIA AOS POBRES E NECESSITADOS

Com efeito, para que não sejamos mais prolixos aqui, de novo reunamos em breve síntese quão longe está da verdadeira diaconia, a qual a Palavra de Deus não só nos recomenda, mas também a Igreja antiga observou, essa que agora é ou dispensação, ou dissipação dos bens eclesiásticos. O que se confere ao ornato de templos digo ser indevidamente depositado, caso não seja aplicada essa moderação que não só prescreve a própria natureza das coisas sagradas, mas ainda, tanto por meio do ensino quanto por meio de exemplos, os apóstolos e outros santos pais prescreveram. O que, porém, se contempla hoje nos templos? Digo que foi rejeitado tudo quanto se conformava não àquela ínfima frugalidade, mas a alguma honesta moderação. Nada, absolutamente, agrada senão o que vise ao luxo e à corrupção dos tempos. Enquanto isso, tão longe está de que nutram justa preocupação pelos templos vivos, que antes permitam que pereçam de fome muitos milhares de pobres do que gastarem o menor cálice ou jarrinho para mitigar-lhes a penúria.
Para que de mim mesmo não diga algo mais pesado, gostaria que apenas que os leitores pios cogitem isto: se fosse possível que os santos bispos, que já citamos, a saber, Exupério, Acácio e Ambrósio, ressuscitassem dentre os mortos, que diriam? Por certo que, ante tão grande carência dos pobres, não aprovariam que as riquezas sejam transferidas para outro uso, em coisas que são supérfluas. Pelo contrário, se ofenderiam grandemente ao ver que se gastavam em abusos perniciosos, ainda que houvesse pobres a quem dá-los. Mas, deixemos de parte os homens. Esses bens foram dedicados a Cristo, conseqüentemente devem ser administrados segundo seu arbítrio. Em vão, porém, atribuirão a Cristo esta parte assim gasta, que têm dissipado em oposição a seu mandado, ainda que, para falar a verdade, não muito da renda ordinária da Igreja é consumido com esses gastos. Pois nenhum bispado é tão opulento, nenhuma abadia tão excelente, afinal nenhum sacerdócio tão numeroso, nem tão vasto, que bastem para satisfazer à voracidade dos sacerdotes. Com efeito, enquanto querem poupar para si próprios mediante superstição, induzem o povo a que se construam templos, que se erijam imagens, a que se comprem vasos, a que se preparem vestes caras, desviando assim o que era para ser distribuído aos pobres. Assim sendo, neste sorvedouro são tragadas as esmolas de cada dia.

João Calvino

A POMPA E SUNTUOSIDADE DA IGREJA PAPAL CONSTITUEM DETURPAÇÃO, NÃO EXPRESSÃO DA DIGNIDADE DO REINO DE CRISTO

Aqui, porém, usam de mui atraente pretexto, pois dizem que a dignidade da Igreja não é indecentemente sustentada com esta magnificiência. E alguns de sua seita se mostram tão impudentes, que ousam alardear escancaradamente que afinal se cumprem aqueles vaticínios com que os antigos profetas descrevem o esplendor do reino de Cristo, quando se contempla esse régio aparato na ordem sacerdotal. Não sem razão, dizem eles, Deus prometeu essas coisas a sua Igreja: “Virão reis, adorarão diante de ti, trazer-te-ão oferendas” [Sl 72.10, 11]; “Levanta-te, levanta-te, veste-te de tua força, ó Sião, veste-te das vestimentas de tua glória, ó Jerusalém” [Is 52.1]; “Todos de Sabá virão, trazendo ouro e incenso e louvor anunciando ao Senhor; todo o gado de Cedar será arrebanhado para ti” [Is 60.6, 7]. Se me detivesse a refutar este descaramento, temo que me taxariam de inconsiderado. Portanto, não vale a pena desperdiçar palavras inconsideradamente. Entretanto, pergunto: Se algum judeu usasse mal esses testemunhos da Escritura, que solução haveriam de dar? Certamente repreenderiam sua obtusidade, porque estaria transferindo à carne e ao mundo coisas que foram ditas espiritualmente acerca do reino espiritual de Cristo. Pois sabemos que os profetas não nos delinearam a glória celeste de Deus, a qual deve luzir na Igreja, sob a imagem de coisas terrenas. Ora, destas bênçãos que suas palavras expressam nunca proliferou menos a Igreja do que sob os apóstolos. E no entanto todos confessam que a pujança do reino de Cristo floresceu então ao máximo. Portanto, que significam essas afirmações? Tudo quanto, em qualquer parte, é precioso, sublime, preclaro, importa que se sujeite ao Senhor. O que, porém, se diz expressamente acerca de reis – que submeteram seus cetros a Cristo, que lançaram suas coroas aos pés dele, que consagraram suas riquezas à Igreja –, quando isto se cumpriu mais plenamente do que quando o imperador Teodósio, tirando seu manto de púrpura, depondo suas insígnias do poder, como qualquer um dentre a plebe se submeteu a solene penitência diante de Deus e da Igreja, do que quando ele próprio e outros príncipes piedosos semelhantes dedicaram seus esforços e seus cuidados a conservar-se pura na Igreja a doutrina, a suster e a proteger a integridade dos mestres? Mas, de fato, quanto os sacerdotes não excederam então em riquezas supérfluas, bastaria só aquela expressão do Sínodo de Aquiléia, a que Ambrósio declara: Gloriosa é a pobreza nos sacerdotes do Senhor. De fato os bispos tinham, então, algumas riquezas mercê das quais podiam exibir ostensivamente a honra da Igreja, se houvessem pensado serem estes os verdadeiros ornamentos da Igreja. Entretanto, como nada reconhecessem ser mais oposto ao ofício de pastores que esplender e enfatuar-se nos regalos das mesas, na pompa das vestes, no grande séquito de fâmulos, nos palácios magníficos, seguiam e cultivavam a humildade e a modéstia, mais ainda, a própria pobreza que Cristo consagrou entre seus ministros.

João Calvino

OS FUNDOS DESTINADOS À ASSISTÊNCIA AOS POBRES SÃO APROPRIADOS SACRILEGAMENTE PELO CLERO PARA SEUS FINS PESSOAIS

Aqui, todas essas normas antigas que expusemos foram não apenas conturbadas, mas até inteiramente mudadas ou abolidas. A maior parte dos fundos e bens destináveis aos pobres os bispos e presbíteros urbanos, que se tornaram ricos com essa presa, se transformaram em canônicos, a açambarcaram entre si. Entretanto, que a partilha foi tumultuária disto se faz evidente: até hoje estão a litigar quanto aos respectivos limites. O que quer que seja, com esta decisão se proveu que nem um óbolo sequer, de todos os bens da Igreja, fosse consignado aos pobres, de quem pelo menos a metade deveria destinar-se. Ora, os cânones lhes atribuem expressamente a quarta parte; outra quarta parte, porém, destinam aos bispos, para que a gastem em hospitalidade e outros deveres de benevolência. Deixo aos clérigos a decisão quanto ao que deveriam fazer com sua quarta parte, e em que deveriam empregá-la,66 pois já foi demonstrado sobejamente que o restante, que se destinava a templos, edifícios e outros gastos, deve estar à disposição dos pobres caso seja necessário. Pergunto: se tivessem no coração uma só centelha de temor de Deus, porventura suportariam o senso de que tudo quanto comem e de que são vestidos provém de furto, mais ainda, de sacrilégio? No entanto, visto que se deixam mover bem pouco pelo juízo de Deus, deveriam ao menos refletir que aqueles a quem querem persuadir de que em sua Igreja existem ordens tão belas e dispostas, como costumam alardear, são homens dotados de senso e razão. Respondam-me de forma bem sucinta se porventura o diaconato seja a liberdade de roubar e assaltar. Caso neguem isto, serão ainda compelidos a confessar, quando entre eles toda a administração dos bens eclesiásticos foi abertamente convertida em sacrílega pilhagem: não existe nenhum diaconato remanescente.

João Calvino

O DIACONATO SUBSISTENTE NA ORDEM SACERDOTAL PAPISTA É UMA TOTAL DETURPAÇÃO DO OFÍCIO INSTITUÍDO PELOS APÓSTOLOS

Então venham à frente os diáconos com aquela mui santa distribuição que têm dos bens eclesiásticos. Ainda que eles não ordenem seus diáconos para isto; pois não os incumbem de outra coisa senão que ministrem diante do altar, recitem ou cantem o evangelho e façam não sei que ninharias afins. Nada de esmolas, nada de cuidado dos pobres, nada de toda aquela função que outrora desempenhavam. Estou falando da instituição propriamente dita, porquanto, se olharmos para o que fazem, na realidade o que exercem não é um ofício, mas apenas um passo para o presbiterato. Em uma só coisa representam fútil simulacro da antigüidade aqueles que na missa têm o lugar de diácono, porque recebem as oblações antes da consagração. Mas o costume antigo era que, antes da comunhão da Ceia, os fiéis se osculavam mutuamente e ofereciam esmolas no altar. Desta maneira davam testemunho de seu amor, primeiramente pelo sinal, e em seguida pela obra.65 O diácono, que era o econômo dos pobres, recebia o que estava sendo dado a fim de o distribuir. Agora, com essas esmolas não chegam mais aos pobres do que se fossem atiradas ao mar. Portanto, zombam da Igreja com este vão pretexto de diaconato. Certamente não há nele nada da instituição apostólica, nem têm nenhuma semelhança com a observância antiga. Quanto à dispensação propriamente dita de bens, transferiram para outros lugares, e de tal modo dispuseram, que não se pode imaginar nada mais fora de ordem. Ora, da mesma forma que salteadores, uma vez cortados os pescoços dos homens dividem entre si a presa, assim estes, após extinta a luz da Palavra de Deus, como que cortada a garganta da Igreja, pensaram ter sido exposto à presa e à rapina tudo quanto fora consagrado a usos santos. Assim sendo, feita a divisão, cada um arrebatou para si quanto pôde.

João Calvino

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A DEPLORÁVEL DEGENERAÇÃO MORAL DO CLERO

E se examinarmos seus costumes e sua vida? Onde estará aquela “luz do mundo” [Mt 5.14] que Cristo requer? Onde o “sal da terra” [Mt 5.13]? Onde aquela santidade que seja um como que padrão perpétuo de conduta? Nenhuma classe de homens hoje é de pior reputação no luxo, na efeminação, nos prazeres, por fim em todo gênero de dissoluções. De nenhuma classe de mestres há mais refinados ou mais hábeis de toda impostura, fraude, traição, perfídia; em parte alguma há tanto de solércia ou de ousadia para fazer o mal. Deixo de mencionar a arrogância, a soberba, a rapacidade, a crueldade; deixo de lado a dissoluta licenciosidade em todos os aspectos da vida; o mundo está cansado de suportar coisas do gênero, o que não há como eu exagerar em demasia. Digo apenas uma coisa, a qual é impossível que pessoalmente neguem: dentre os bispos quase não há sequer um, dos prepostos de paróquias em cem não há um de quem, se houver de passar sentença quanto aos costumes, segundo os cânones antigos, não deva ou ser excomungado, ou ao menos ser deposto do ofício. Isto, como a disciplina que se usava antigamente há muito que caiu em desuso e está como que sepultada, pode parecer incrível, mas é assim mesmo. Assim, pois, que todos os servidores e sequazes do papa se gloriem de sua ordem sacerdotal. Evidentemente, nem de Cristo, nem de seus apóstolos, nem dos pais, nem da Igreja antiga é a origem da ordem eclesiástica que eles têm.

João Calvino

A ORGANIZAÇÃO ECLESIÁSTICA E A HIERARQUIA ENTÃO VIGENTES LONGE DE SER CONSENTÂNEAS COM A INSTITUIÇÃO DE CRISTO

E se alguém olha e examina devidamente toda esta estrutura de governo eclesiástico que existe hoje sob o papismo, verá que não há no mundo bandidos mais desavergonhados. Tudo é tão contrário à instituição de Cristo, e tão oposto a ela, tão diferente do costume antigo e tão contra a natureza e a razão, que não se poderia fazer maior injúria a Cristo do que servir-se de seu nome para dourar um regime tão confuso e desordenado. “Nós”, dizem eles, “somos as colunas da Igreja, os antístites da religião, os vigários de Cristo, os cabeças dos fiéis, porque o poder apostólico nos vem através de sucessão.” Continuamente se vangloriam dessas parvoíces, como se estivessem falando para troncos de árvore. Por minha vez indago deles: Quantas vezes, porém, haverão de vangloriar-se de que têm tudo em comum com os apóstolos? Porque a questão não é de dignidade hereditária, que vem ao homem inclusive dormindo, mas o ofício de pregar, do qual tanto fogem. De modo semelhante, quando asseveramos que seu reino é a tirania do Anticristo, imediatamente replicam que ele é aquela venerável hierarquia tantas vezes louvada por grandes e santos varões. Como se de fato os santos pais, quando recomendavam a hierarquia eclesiástica ou o regime espiritual, como se lhes fora transmitido pelos apóstolos, de mão em mão, estavam a sonhar com este caos disforme e saturado de desolação, em que bispos, em sua maioria, ou são asnos rudes, que na verdade não possuem os rudimentos elementares e vulgares da fé, ou às vezes são meninos recém-saídos do cuidado da ama; e se alguns são mais doutos, o que no entanto é raro o exemplo, pensam que o episcopado não é outra coisa senão um título de esplendor e magnificência, no qual os dirigentes de igrejas não pensam nem se preocupam em apascentar seu rebanho, não mais que um sapateiro em arar o solo, em que todas as coisas se tornaram piores que a dispersão babilônica [Gn 11.7- 9], em que apenas se encontra um sinal do modo de governo que os antigos pais tiveram.

João Calvino

GREGÓRIO I E BERNARDO DE CLAREVAL DENUNCIAM ESTA CRESCENTE ALIENAÇÃO AOS DEVERES DO OFÍCIO PASTORAL, PRINCIPALMENTE À PRÉDICA E AO ENSINO

Já na época de Gregório se faz evidente a existência de certas sementes deste mal, a saber, os dirigentes que começaram a negligenciar mais o ensino nas igrejas, pois em certo lugar se queixa severamente disto: “O mundo”, diz ele, “está repleto de sacerdotes; mas, no entanto, na seara raro se acha um trabalhador, porquanto de fato assumimos o ofício sacerdotal, mas a função do ofício não exercemos.” De igual maneira: “Visto que não têm entranhas de caridade, querem parecer senhores; porquanto longe estão de reconhecer-se pais. Colocam no lugar da humildade a soberba da dominação.” Igualmente: “Mas nós, ó pastores, que fazemos, que recebemos paga e não somos trabalhadores?” Ainda: “Descambamos para os negócios externos. Empreendemos uma coisa, porém fazemos outra; abandonamos o ministério da pregação; e para castigo nosso, como o vejo, somos chamados bispos, porque temos o título de honra, porém não de virtude.” Quando Gregório usa de tão grande aspereza de palavras contra aqueles que eram apenas menos diligentes ou zelosos no dever, pergunto: o que ele haveria de dizer, se visse dentre os bispos quase nenhum, ou certamente dos demais clérigos pouquíssimos, mal um em cem, subir ao púlpito uma única vez em toda a vida? Ora, quando se chega a esse grau de insanidade, julgando ser algo vulgar pregar ao povo, a conclusão é que isso está muito abaixo da dignidade episcopal. No tempo de Bernardo, as coisas haviam decaído um pouco mais; e vemos com que amargas repreensões se dirige ao estado eclesiástico, ainda que seja possível que não estivesse tão perdido e corrompido como na atualidade.

João Calvino

MESMO OS BISPOS E OS PÁROCOS, GENERALIZADAMENTE DISTANCIADOS DO REBANHO, ESTÃO LONGE DE CUMPRIR AS FUNÇÕES PASTORAIS QUE LHES CABEM

Restam os bispos e os dirigentes de paróquias, que prouvera porfiassem por suster o ofício. Ora, de bom grado lhes concederíamos que têm em mãos pio e exímio ofício, desde que o desempenhassem. Quando, porém, deixando de lado as igrejas a si confiadas e lançando seu cuidado a outros, querem ser tidos por pastores, fazem exatamente como se o ofício do pastor fosse não fazer nada. Se algum usuário que jamais movesse pé da cidade professasse ser lavrador ou viticultor, se um soldado que estivesse constantemente presente na linha de batalha e acampamentos, nunca visse foro ou livros, lhes fossem confiados por jurisconsulto, quem toleraria tão fétidos absurdos? Com efeito, muito maior absurdo fazem esses que querem parecer e ser chamado legítimos pastores de igreja, e no entanto não o querem ser. Pois quantos há que ao menos em aparência vão ao encontro do governo de sua igreja? Muitos por toda a vida devoram os rendimentos de igrejas às quais jamais se aproximam, nem mesmo a fim de visitá-las. Outros, uma vez ao ano, ou eles próprios vêm, ou enviam um ecônomo para recolher as rendas, a fim de que nada se perca. Quando começou a introduzir esta corrutela, mercê de privilégios se eximiam aqueles que queriam usufruir deste gênero de isenção. Agora, exemplo raro é que alguém resida em sua igreja, pois as estimam não diferentemente de granjas, nas quais à frente colocam seus vigários, como se fossem feitores ou rendeiros. Com efeito, até mesmo o próprio senso da natureza repudia que um pastor seja de um rebanho ao qual nenhuma ovelha jamais viu!

João Calvino

OUTROS DIGNITÁRIOS OU TITULADOS QUE SÃO TIDOS POR PRESBÍTEROS, DOS QUAIS, PORÉM, LONGE ESTÃO AS FUNÇÕES PRESBITERAIS

Não abordo aqui os vícios externos, mas apenas o mal interior que se apega radicalmente em sua instituição. Lançarei mão de uma palavra que lhes soará mal aos ouvidos. Mas, por ser verdadeira, convém expressá-la: todos os canônicos devem ser tidos na mesma categoria, bem como os decanos, os capelães, os prepostos e todos quantos são sustentados por sacerdócios ociosos. Pois, que natureza de serviço podem prestar à Igreja? Ora, eles alijaram de si a pregação da Palavra, o cuidado da disciplina e a administração dos sacramentos como encargos demasiado enfadonhos. Portanto, o que lhes resta por que se vangloriem de ser verdadeiros presbíteros? Naturalmente o canto e a pompa das cerimônias. Mas, que isso tem a ver com a questão? Se alegam ser o costume, ou o uso, ou a prescrição de longo tempo, eu lhes lanço contra a definição de Cristo, com a qual não só nos declarou os verdadeiros presbíteros, mas também que devam ter os que querem ser tidos nessa conta. Porque, se não podem suportar tão dura lei – que se sujeitem à regra de Cristo –, então que ao menos permitam que esta causa seja decidida pela autoridade da Igreja primitiva. Mas sua condição em nada será melhor, se permitem que seu estado seja julgado pelos cânones antigos. Os canônicos deveriam ser presbíteros do povo, como o foram outrora, para governar a Igreja de comum acordo com o bispo, e ser seus condutores no ofício pastoral.59 Aquelas às quais chamam dignidades capitulares nada têm a ver, absolutamente, com o verdadeiro governo da Igreja, muito menos as capelanias, e a escória restante de títulos desse gênero. Portanto, em que lugar temos todos estes? Certamente que os exclui da honra do presbiterato não só a palavra de Cristo, mas também a observância da Igreja antiga. No entanto declaram que são presbíteros, porém sua máscara deveria ser retirada para que assim pudéssemos achar aquele ofício de presbíteros que os apóstolos não só nos descrevem, mas também foi requerido na Igreja primitiva, e assim toda sua profissão se torna mui alheia e mui remota. Logo, todas as ordens desse gênero, sem importar com que títulos sejam designadas, visto que foram inventadas posteriormente, ou, pelo menos, não se acham arraigadas na instituição do Senhor nem se encontram na Igreja antiga, não devem ter nenhum lugar na descrição do governo eclesiástico, o qual foi ordenado pela boca do próprio Deus e recebido da Igreja. Ou, se preferem que eu fale de uma maneira mais rude e mais claramente, uma vez que capelães, canônicos, decanos, prepostos e ventres ociosos desta laia não tocam sequer com o dedo mínimo em parcela alguma desse ofício, o que se requer necessariamente nos presbíteros, não se deve tolerar que sejam usurpados falsamente dessa honra, nem violem a santa instituição de Cristo.

João Calvino

FUNÇÕES E SUSTENTO DOS SACERDOTES SECULARES, FONTE DE LAMENTÁVEL MERCANTILISMO E MERCENARISMO

Passo agora aos sacerdotes seculares, que em parte são, como dizem, beneficiários, isto é, têm sacerdócios, dos quais são sustentados; em parte exercem funções diárias, celebrando missa ou cantando, e tendo como prover seus estômagos.Os beneficios, ou têm o cuidado das almas, como episcopados e paróquias, ou são estipêndios de homens refinados, que adquirem seu meio de subsistência cantilando, como prebendas, canonicatos, personatos e dignidades, capelanias e afins. Se bem que, já transtornadas as coisas de alto e baixo, são conferidas abadias e priorados não somente a presbíteros seculares, mas ainda, por privilégio, isto é, como costume vulgar, até a meninos. No que respeita aos sacerdotes mercenários, que procuram diariamente seu meio de subsistência, que outra coisa poderiam fazer senão o que fazem, a saber, que de modo indigno de um homem livre, e vergonhoso, se prostituam ao ganho, especialmente em meio a tão grande multidão da qual o mundo ora está tão empanturrado? E assim, como não ousam mendigar abertamente, ou julgam pouco haverem de lucrar nesta maneira, andam à volta como cães famélicos, e com sua importunação o lançam no árido ventre. Se quiser demonstrar aqui a desonra que é para a Igreja que o estado presbiteral se encontre tão desolado, jamais acabaria. Não empregarei muitas lamentações para expor quão grande vergonha é. Apenas direi que, se o ofício do presbítero é apascentar a Igreja e administrar o reino espiritual de Cristo [1Co 4.1], como o ordena a Palavra de Deus e o exigem os cânones antigos, todos os sacerdotes que não têm outra coisa que fazer além de andar comerciando com suas missas, não só deixam de cumprir com seu dever, mas ainda não têm ofício legítimo no qual exercitar-se; porque não lhes permitem ensinar, nem lhes ensinam a apascentar as ovelhas. Em  suma, não têm mais que o altar, para oferecer Cristo em sacrifício; o que não é sacrificar a Deus, mas ao Diabo, como logo se verá.

João Calvino

A INCONGRUÊNCIA DE INVESTIR MONGES PARA O OFÍCIO DO SACERDÓCIO SECULAR OU ORDINÁRIO

Vejamos agora com que fidelidade desempenham seu ministério – que é a segunda marca a estimar-se o verdadeiro pastor. Dos sacerdotes que são aí criados, uns são os monges; os outros são aqueles aos quais chamam os seculares. Aquela primeira grei foi desconhecida à Igreja antiga, e ocupar tal lugar em uma igreja com a profissão monástica de tal modo conflita, que outrora, quando elegiam um frade como clérigo, este deixava de ser monge. E até mesmo Gregório, cujo tempo teve muito de corrupção, entretanto não permitiu que se fizesse tal confusão. Pois, ele quer que sejam excluídos do clericato aqueles que foram feitos abades, porquanto ninguém pode, devidamente, ser monge e clérigo ao mesmo tempo, uma vez que um constitui impedimento ao outro. Ora, se eu indagar como é possível que cumpra bem seu ofício aquele a quem os cânones declaram não ser idôneo, o que haverão de me responder? Citar-me-ão, naturalmente, aqueles decretos abortivos de Inocêncio e Bonifácio, pelos quais monges são de tal forma recebidos à honra e ao poder do sacerdócio, que permanecem em seus mosteiros. Que razão, porém, é que um asno indouto qualquer, tão logo haja ocupado a sé romana, com apenas uma palavrinha reverta toda a antigüidade? Entretanto, no tocante a esta matéria falaremos depois. Por ora é suficiente dizer que, quando uma igreja não estava tão corrompida, não era tão grande absurdo que um monge desempenhasse o sacerdócio. Ora, Jerônimo nega estar ele a exercer a função de sacerdote enquanto vivia entre os monges, senão que se equipara aos fiéis, para ser governado pelos sacerdotes. Mas, admitindo-se que lhes concedamos tal coisa, no entanto que ofício eles desempenham? Dentre os frades mendicantes alguns exercem a prédica; todos os demais monges ou cantarolam ou murmuram missas em seus antros. Como se Cristo quisesse que seus presbíteros fossem ordenados para isto, ou como se naturalmente levassem o ofício consigo. Quando a Escritura testifica abertamente [At 20.28]
 ser atribuição do presbítero reger sua própria Igreja, porventura não é ímpia profanação transferi-lo a outro fim, aliás mudar completamente a sagrada instituição de Deus? Pois, quando são ordenados monges, são expressamente proibidos de fazer o que Deus ordena a todos os presbíteros. Pois isso se prova mediante esta cantilena: Esteja o monge contente com seu claustro, nem presuma administrar os sacramentos, nem realizar alguma coisa do ofício público. Neguem, se o puderem, ser aberta zombaria a Deus que alguém se faça presbítero para que se abstenha do verdadeiro e genuíno ofício, e que um homem tenha o título de uma coisa que não pode possuir.

João Calvino