sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O SOBERANO DOMÍNIO DE DEUS SOBRE A VIDA HUMANA

A este propósito, evocando o Salmo 107 que, em situações desesperadas, de forma repentina e de modo maravilhoso, e além de toda expectativa, Deus socorre aos desgraçados e quase perdidos que, ou vagando por lugares ermos os protege de
animais ferozes e por fim os reconduza ao caminho [vs. 4-7]; ou, desvalidos e famintos, lhes providencie o alimento [v. 9]; ou, encarcerados, os livre de sombrias masmorras e férreas cadeias [vs. 10-16]; ou, náufragos, incólumes ao porto os guie [vs. 23-30]; ou, semimortos, os cure das enfermidades [vs. 17-20]; ou, de calor e
sequidão calcine a terra ou a fecunde pela secreta irrigação da graça [vs. 33-38]; ou, da multidão exalte aos mais desprezados, ou do elevado pedestal de sua dignidade derribe a vultos de projeção [vs. 39-41], o Profeta colhe exemplos como esses, ou, seja, que os fatos que se consideram ser eventos casuais são outros tantos testemunhos da providência celestial, na verdade especialmente da clemência paterna.

E daqui se dá aos piedosos motivo de alegria; aos ímpios, porém, e aos réprobos se lhes tapa a boca [v. 42]. Mas porque, atolada em seus erros, cega, em meio a tão magnífico teatro, a maioria se mostra, exclama ele, que de rara e singular sabedoria é o ponderar judiciosamente essas obras de Deus [v. 43], de cuja simples contemplação nada aproveitam aqueles que, de outra sorte, sagacíssimos parecem ser. E de fato, por mais que refulja a glória de Deus, dificilmente um em cem lhe é verdadeiro espectador.
O mesmo podemos dizer de seu poder e sabedoria, que tampouco estão escondidos em trevas, porque seu poder se mostra admiravelmente cada vez que o orgulho dos ímpios que, conforme ao que pensam ser comumente invencível, fica num instante
desfeito, sua arrogância abatida, seus fortíssimos castelos demolidos, suas espadas e dardos feitos em pedaços, suas forças rotas, tudo quanto maquinam, destruído; seu movimento que subia até o céu é confundido no mais profundo da terra; e, ao contrário, quando os humildes são elevados do pó; os necessitados, do esterco [Sl 113.7];13 de angústias extremas são arrancados os oprimidos e aflitos; a boa esperança é restaurada aos desolados; sobre os bem armados, os desprovidos de armas arrebatam a vitória; os poucos, sobre os muitos; os fracos, sobre os fortes.
Também a sabedoria, na verdade, manifestamente excede quando, na melhor ocasião, dispensa a cada coisa, uma a uma, confunde a toda e qualquer sutileza do mundo [1Co 1.20], apanha os astutos em sua astúcia [1Co 3.19]; e finalmente ordena todas as coisas conforme a melhor ordem possível.

João Calvino


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O GOVERNO E O JUÍZO DE DEUS

Também na segunda classe de suas obras, isto é, aquelas que ocorrem além do curso ordinário da natureza, as evidências de seus poderes são, em muitos aspectos, muitíssimo claras.11 Ora, ao dirigir a sociedade humana, de tal modo regula sua providência que, embora seja, de inúmeras maneiras, benigno e benévolo para com
todos, declara ainda, mediante provas manifestas e diárias, que sua clemência para com os piedosos e sua severidade para com os iníquos não são dúbias, de modo que não se demonstra obscuramente ser protetor, e até mesmo vingador da inocência,
enquanto, em virtude de sua bênção, faz próspera a vida dos bons, os socorre em suas necessidades, os alivia e os mitiga em suas dores, os atenua em suas adversidades e em tudo os encaminha à salvação.

Sem dúvida, tampouco deve toldar-lhe a perpétua norma da justiça o fato de que, mui freqüentemente, permite por certo tempo que os iníquos e malfeitores exultem impunes, além de tolerar que os probos e inocentes sejam abalados por muitas coisas adversas, até mesmo oprimidos pela maldade e iniqüidade dos ímpios.
Antes, pelo contrário, deve acudir-nos à mente pensamento muito diverso: quan do, contra um só ato mau, sua ira se volta em evidente manifestação, é que a todos aborrece; quando a muitos deixa passar sem castigo, é que outro juízo haverá para os atos maus que devem ser punidos.

Igualmente, nos fornece farta matéria para que consideremos sua misericórdia, quando muitas vezes não deixa de outorgar por tanto tempo sua misericórdia a pobres e miseráveis pecadores, até que, vencendo sua maldade com sua doçura e brandura mais que paternal, os atrai a si!

João Calvino

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A soberania de Deus sobre a Criação

Lembremo-nos, portanto, sempre que cada um de nós atenta à sua própria natureza, de que há um Deus, que de tal modo governa a todas as naturezas, que quer que volvamos para ele os olhos; que quer que para ele dirijamos nossa fé; que quer que o adoremos e o invoquemos como nosso Senhor, porquanto nada mais contrário
do que desfrutar de tão excelentes dádivas, as quais em nosso íntimo comprovam a Deidade, e negligenciarmos o Autor que no-las prodigaliza à mera súplica.
Quanto ao seu poder, de quão cristalinos exemplos sua consideração nos arrebata! Salvo se, porventura, nos possa ser desconhecido de quanto poder se faz necessário para, por sua palavra, sustentar esta infinita massa de céu e terra; por seu
simples arbítrio, ora a abalar o céu com o fragor dos trovões, abrasar de raios tudo quanto lhe apraza, riscar o ar com relâmpagos; ora a conturbá-lo com variadas for mas de tempestades, e então de pronto, a seu bel-prazer, num momento serená-lo; o mar, que parece, com sua elevação, ameaçar a terra com constante devastação, como que forçá-lo a manter-se suspenso no ar; e ora, mercê do tumultuoso ímpeto dos ventos, em horrenda forma excitar, ora, acalmadas as ondas, torná-lo plácido novamente.

Aqui os louvores pertencem ao poder de Deus que a cada passo ocorrem dos testemunhos da própria natureza; de modo especial, na verdade, no livro de Jó e em Isaías, os quais intencionalmente por ora deixo de considerar, porquanto acharão lugar mais apropriado em outra parte onde, à base das Escrituras, discorrerei acerca
da criação do mundo. No presente, tive apenas em mira afirmar que esta maneira de buscar a Deus é comum a estranhos e a membros da família: seguem os delineamentos que, em cima e em baixo, lhe desenham viva imagem.
Seu próprio poder já nos conduz a cogitar sua eternidade, visto que tem necessariamente de ser eterno e ter de si próprio o princípio donde todas as coisas derivam a origem.

Ademais, se porventura se busca a causa, em virtude da qual não só foi ele uma vez levado a criar todas as coisas, mas ainda é agora movido a preservá-las, só em sua bondade acharemos estar sua causa. E, afinal, mesmo que seja esta a causa única, contudo mais do que suficiente deve ser para nos atrair ao seu amor, quando
nenhuma criatura há, como o assinala o Profeta [Sl 145.9], em quem sua misericórdia não lhe seja derramada.
João Calvino

A ingratidão humana em relação a Deus

Aqui, porém, se faz patente a execrável ingratidão dos homens que, enquanto encerram dentro de si nobre oficina com incontáveis obras de Deus, e ao mesmo tempo uma loja abarrotada de produtos de inestimável abundância, quando deveriam irromper em seus louvores, com orgulho muito maior contra ele se inflam e intumescem. Eles têm consciência dos modos tão extraordinários que Deus opera neles; igualmente, quão ampla variedade de dons possuem de sua liberalidade, e como lhes foi ensinado seu próprio uso. São obrigados a reconhecer que essas coisas são sinais da Divindade, queiram ou não queiram. Contudo os abafam em seu íntimo. Na verdade não é preciso que saíam para fora de si mesmos, desde que, não arrogando para si próprios o que lhes foi dado dos céus, não escondam debaixo da terra o que à sua mente reluz para que vejam a Deus claramente.

Antes, ainda hoje a terra sustenta muitos espíritos monstruosos que, para apagar o nome de Deus, não hesitam em desviar do propósito toda a semente da Deidade disseminada na natureza humana. Pergunto, pois, quão detestável é esta sandice, que o homem achando a Deus cem vezes em seu próprio corpo e alma, sob este
mesmo pretexto de excelência, negue que ele existe? Não dirão que se distinguem dos seres brutos por obra do acaso. Todavia, sobreposto o véu da natureza, a qual lhes é o artífice de todas as coisas, alijam a Deus. Percebem tão refinado lavor em cada um de seus membros, desde a boca e os olhos até a ponta dos pés.

Contudo, também aqui no lugar de Deus colocam a natureza. Mas, em especial, tão lestos movimentos da alma, tão preclaras faculdades, tão raros dotes, pressupõem uma Deidade que não permite facilmente ser obscurecida, salvo se os epicureus, como
os ciclopes, dessa altura movessem mais insolentemente guerra contra Deus.
Por isso, para governar um vermezinho de cinco pés de estatura serão indispensáveis todos os tesouros da celeste sabedoria? E desta prerrogativa carecerá a totalidade do universo? Em primeiro plano, reconhecer algo orgânico na alma que lhe corresponda a cada uma das partes, afinal em nada contribui para toldar a glória de
Deus, pois, ao contrário, a ilumina!
Que responda Epicuro, dizendo que o concurso de átomos, a cozinhar o que se come e bebe, o digere, parte em resíduos, parte em sangue, e de tal modo opera, que cada membro tenha tão admirável proficiência para realizar sua função, como se tantas almas quantos membros regessem de comum acordo o corpo a um só corpo?

João Calvino

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Confusão de criatura e Criador

Entretanto, por ora não vou tratar desse atoleiro de suínos. Ataco antes esses que, entregues a sutilezas contraditórias, de maneira oblíqua, invocariam deliberadamente esse insípido parecer de Aristóteles, tanto para anular a imortalidade da alma, quanto para arrebatar seu direito a Deus. Ora, dado que tenha a alma faculdades
orgânicas, com esse pretexto a ligam ao corpo de tal modo que sem este aquela não subsiste. Ademais, com seus louvores à natureza, suprimem o nome de Deus quanto lhes é possível. Entretanto, longe está que os poderes da alma se confinem às funções que servem ao corpo.

Que tem isto a ver com o corpo – que meças o céu, contes o número de estrelas, determines a grandeza de cada uma, saibas quanto distam entre si, com que celeridade ou lentidão completam seus cursos, quantos graus se inclinam para cá ou para lá? Indubitavelmente confesso que, se o estudo dos astros é de algum proveito, contudo estou apenas mostrando que nesta investigação tão elevada das coisas celestes não existe correção orgânica; ao contrário, a alma tem suas propriedades distintas do corpo.
Propus apenas um exemplo, do qual aos leitores será fácil deduzir os demais.
Indubitavelmente, a multiforme agilidade da alma, com que perscruta o céu e a terra, liga as coisas passadas às que estão por vir, retém em lembrança as coisas que há muito ouviu, até mesmo para si pinta o que bem lhe apraz, assim também a habilidade com que imagina coisas incríveis, e que é a matriz de tantas invenções
admiráveis, são seguros sinais da Deidade no homem.
Por que, enquanto a pessoa está dormindo, a alma não só vagueia e divaga em redor, mas ainda concebe muitas coisas úteis, cogita acerca de muitas questões, até adivinha fatos futuros? O que aqui se haverá de dizer senão que não se podem apagar os sinais da imortalidade que foram impressos no homem? Ora, que razão
admitirá que o homem seja divino e contudo não reconheça seu Criador? Com efeito, nós, em função da capacidade judicatória que nos foi outorgada, faremos distinção entre o justo e o injusto, porém nenhum juiz no céu haverá? A nós, até mesmo durante o sono, nos remanescerá certo resíduo de entendimento; Deus nenhum, porém,
estará de vigia a reger o mundo? De tantas artes e coisas úteis nos julgaremos inventores em moldes tais que Deus seja defraudado de seu louvor, quando, entretanto, a experiência suficientemente ensina que, em modos desiguais, o que temos nos é distribuído oriundo de outra procedência?
Quanto, porém, ao que alegam certos indivíduos acerca de uma inspiração secreta que anima a todo o universo, não só é destituído de consistência, mas inclusive é totalmente profano. Agradam-lhes as celebradas palavras de Vergílio: “Primeiramente, céu e terra e os campos de água fluentes, E o fulgente globo lunar, e as estrelas titânias, Um espírito interiormente os alimenta, e, pelos membros infusa, A toda a massa uma mente movimenta, e ao grande corpo se mistura. Daí a raça de homens e animais, e o alento dos seres voláteis, E os monstros que o mar produz sob a marmórea superfície; De fogo lhes é o alento e celeste a origem” etc.

Na realidade, assim é que o universo, que foi criado para manifestação da glória de Deus, é seu próprio criador!
Ora, em outro lugar, seguindo a noção comum a gregos e latinos, assim decanta o mesmo autor:
“Têm as abelhas, disseram, uma porção da mente divina, E haustos etéreos. Pois, por toda a terra Deus se estende, E pelas vastidões do oceano, e pelo céu profundo. Daqui os rebanhos, os armentos, os homens, toda espécie de feras, Cada um, ao nascer, tênue da vida a si aufere.
Isto é, a seguir, tudo aí retorna e, desfeito, se reintegra; Nem lugar há à morte, mas, vivos, evolam Às hostes sidéreas e ascendem do céu às alturas.”
Eis a que vale para gerar e fomentar a piedade no coração do homem essa infrutífera especulação acerca da mente universal que anima e vivifica ao mundo! Isso até transparece melhor das sacrílegas palavras desse cão impuro, Lucrécio, que foram
deduzidas desse princípio. Isto, afinal, é forjar uma deidade fantasma, de sorte que o Deus verdadeira para longe se afaste, a quem devíamos temer e adorar.
Certamente confesso que isto pode ser dito com reverência, desde que proceda de um espírito piedoso: que a natureza é Deus. Contudo, visto ser uma expressão dura e imprópria, já que a natureza é antes a ordem prescrita por Deus, em questões
de tão grande peso e em que se deve especial reverência, é prejudicial envolver a Deus ambiguamente com o curso inferior de suas obras.

João Calvino