Sermão nº 19 — C. H. Spurgeon
Pregado na manhã de domingo, 15 de abril de 1855, pelo Rev. C. H. Spurgeon, no Exeter Hall, Strand.
Texto bíblico: 2 Samuel 23:5
“Embora a minha casa não esteja assim para com Deus, contudo estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem ordenada e segura; pois toda a minha salvação e todo o meu prazer estão nela, ainda que ele não a faça prosperar.”
Introdução
Estas são as últimas palavras de Davi, conforme lemos no início deste capítulo. Quantas declarações preciosas haviam saído de seus lábios inspirados! Quão celestial era a música que brotava de seus dedos quando percorriam as cordas de sua harpa! Mas agora aquela voz tão doce seria silenciada pela morte, e o filho de Jessé dormiria com seus pais. Certamente, seria apropriado reunir-nos ao redor de seu leito para ouvir o último testemunho do monarca moribundo. Sim, podemos imaginar que até mesmo os anjos interromperiam por um instante seu voo veloz para visitar o aposento daquele poderoso homem à beira da morte e escutar seu último cântico.
É sempre uma bênção ouvir as palavras dos santos que estão prestes a partir. Quantos pensamentos preciosos temos recebido no quarto daqueles que pertencem ao Senhor! Lembro-me de uma reflexão muito doce que aprendi certa vez junto ao leito de um moribundo. Um homem que estava prestes a morrer pediu que lhe lessem um dos Salmos. Escolheram o Salmo 17 e, ao chegarem ao versículo 6 — “Inclina para mim os teus ouvidos e ouve a minha palavra” —, ele interrompeu a leitura e, com voz fraca, sussurrou:
“Ah, Senhor, não consigo falar; minha voz está falhando. Inclina o teu ouvido, aproxima-o da minha boca, para que possas me ouvir.”
Somente um homem debilitado e à beira da morte, cuja vida se esvaía rapidamente, poderia conceber um pensamento tão comovente. É precioso ouvir as palavras dos santos quando estão próximos do céu, quando já se encontram às margens do Jordão.
Mas este é um caso especial, pois estas são as últimas palavras de Davi. Elas são mais do que simples palavras humanas, pois nos é dito que o Espírito do Senhor falou por meio dele, e a sua palavra esteve em sua língua.
Estas foram suas últimas expressões. Ah! Imagino que, enquanto pronunciava estas palavras, ele tenha se elevado da terra para se unir ao coro celestial. Começou a frase na terra e a terminou no céu.
Ele começou dizendo: “Embora a minha casa não esteja assim para com Deus”; e, enquanto alçava voo rumo ao céu, continuou cantando: “Contudo, estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem ordenada e segura”.
Agora, diante do trono, ele continua entoando o mesmo cântico: “Contudo, estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem ordenada e segura”.
Espero, meus amigos, que muitos de nós possamos nos unir a esse versículo nesta manhã e que tenhamos a esperança de encerrar nossa peregrinação terrena com essas palavras nos lábios.
Observaremos, em primeiro lugar, que o salmista experimentava tristeza em sua casa: “Embora a minha casa não esteja assim para com Deus”. Em segundo lugar, ele possuía confiança na aliança: “Contudo, estabeleceu comigo uma aliança eterna”. Em terceiro lugar, ele desfrutava de satisfação no coração, pois declara: “Esta é toda a minha salvação e todo o meu prazer”.
1. A tristeza em sua casa
O salmista declara que experimentava tristeza em sua casa: “Embora a minha casa não esteja assim para com Deus”.
Que homem existe em toda a nossa raça que, se tivesse de escrever a própria história, não precisaria empregar muitos “embora”? Se você ler a biografia de qualquer homem registrada na Palavra Sagrada, encontrará sempre um “mas” ou um “embora” antes de chegar ao fim.
Naamã era um homem valente e importante diante de seu senhor, mas era leproso. Sempre existe um “mas” em cada condição, uma curva inesperada em cada caminho, uma mancha escura sobre a coluna de mármore, uma nuvem no céu de verão, uma dissonância na música e uma impureza no ouro.
Assim também Davi, embora tivesse sido tirado do aprisco das ovelhas, se tornado um poderoso guerreiro, conquistador de gigantes e rei de uma grande nação, também possuía seu “embora”. E o “embora” de Davi estava dentro de sua própria casa.
Os sofrimentos mais dolorosos são aqueles que experimentamos dentro de nosso próprio lar. Não detestamos apenas a fera selvagem que está do lado de fora; nós a tememos ainda mais quando ronda nossas próprias terras ou avança sobre o chão de nossa casa. O espinho causa maior sofrimento quando está em nossa cama e o sentimos em nosso travesseiro. A guerra civil é sempre a mais feroz; os inimigos mais dolorosos são aqueles que pertencem à nossa própria família.
Penso que Davi, ao dizer: “Embora a minha casa não esteja assim para com Deus”, talvez estivesse se referindo, em parte, aos seus negócios e às suas responsabilidades.
Se outra pessoa examinasse os assuntos de Davi — o governo de seu país —, provavelmente diria: “O governo de Davi é um modelo de excelência”. Sua administração era tão bem organizada que poucos de seus súditos teriam motivos para reclamar.
Entretanto, Davi se lembrava de que um olhar muito mais penetrante e rigoroso do que o dos homens estava voltado para ele. Ao falar de seu reino e de sua casa — pois, nas Escrituras, a palavra “casa” frequentemente se refere aos nossos negócios, responsabilidades e empreendimentos, como na declaração: “Põe em ordem a tua casa, porque morrerás e não viverás” —, ele reconhecia que, embora diante dos homens sua casa pudesse parecer limpa e bem adornada, diante de Deus ela não estava como ele desejava.
Ah, amados, alguns de nós podemos andar diante de nossos semelhantes com a consciência tranquila. Não tememos o olhar dos outros mortais. Podemos dizer: “Senhor, tu sabes que não sou perverso”. Vivemos de maneira irrepreensível em meio a esta geração corrompida. Caminhamos entre os homens como luzes no mundo, e Deus nos tem ajudado a permanecer afastados de grandes transgressões.
Não temos medo de que nosso caráter seja examinado. Não tememos ser observados por todos, pois sentimos que, pela graça de Deus, fomos preservados de comprometer nossa conduta. Ele nos guardou, e o maligno não nos toca.
Mas, apesar de toda essa consciência de inocência e de toda a dignidade com que nos apresentamos diante de nossos semelhantes, quão diferente nos sentimos quando entramos na presença de Deus!
Ah, então, meus amigos, já não dizemos: “Senhor, tu sabes que não sou perverso”. Pelo contrário, prostramo-nos e clamamos: “Imundo! Imundo! Imundo!”.
Assim como o leproso refresca sua fronte febril com a água que corre em um riacho tranquilo e isolado, também nós procuramos lavar-nos nas águas de Siloé e purificar-nos na água e no sangue que fluíram do lado ferido de Cristo.
Sentimos que nossa casa “não está assim para com Deus”. Embora, em Cristo Jesus, sejamos livres do pecado e considerados tão puros quanto os anjos, quando nos apresentamos diante de Deus em nossa própria condição, somos obrigados a confessar que, por mais honestos que sejamos, por mais íntegros que tenhamos vivido e por mais justos e corretos que pareçamos diante dos homens, nossa casa ainda “não está assim para com Deus”.
A dor causada pelos filhos
Imagino, porém, que o significado principal das palavras de Davi se refira à sua família, especialmente aos seus filhos.
Davi enfrentou muitas provações por causa deles. Frequentemente, tem sido o destino de homens piedosos sofrer grandes aflições por causa de seus filhos e filhas.
É verdade que conhecemos famílias que são verdadeiras imagens de paz e felicidade. Nelas, pai e mãe se ajoelham juntos para a oração familiar e contemplam seus filhos — numerosos ou não, conforme a vontade de Deus —, muitos dos quais dedicam o coração ao Senhor.
Conheço uma família que se ergue como um oásis verde no deserto deste mundo. Há filhos que pregam o Evangelho de Deus e filhas que crescem no temor do Senhor e no amor por Ele. Uma casa assim é, de fato, um lugar agradável de descanso para a alma cansada em sua peregrinação pelo deserto desta vida. Oh! Feliz é a família que Deus abençoou!
Mas existem outros lares em que os filhos se tornam motivo de sofrimento para os pais. “Embora a minha casa não esteja assim para com Deus”, pode dizer um pai aflito. E vocês, mães piedosas, talvez levantem ao céu os olhos cheios de lágrimas e digam: “Embora a minha casa não esteja assim para com Deus”.
Aquele seu filho primogênito, que antes era motivo de orgulho, acabou se tornando motivo de vergonha.
Oh! Como as flechas de sua ingratidão penetraram profundamente em sua alma! Como você sente, neste exato momento, que teria sido preferível sepultá-lo ainda na infância, ou até mesmo que ele nunca tivesse visto a luz deste mundo, a vê-lo viver para agir como agiu, tornando-se a miséria de sua existência e a tristeza de sua vida!
Ó filhos ímpios, rebeldes, levianos e dissolutos! Certamente vocês não conhecem as lágrimas de suas mães piedosas, pois, se as conhecessem, abandonariam seus pecados.
Penso que, jovem, por mais que você ame o pecado, não desejaria voluntariamente fazer sua mãe derramar lágrimas. Então, por que não cede às súplicas dela? Você é capaz de pisotear o coração de sua própria mãe?
Ainda que esteja cavalgando velozmente rumo ao inferno, não poderiam as súplicas dela, acompanhadas de lágrimas, fazê-lo interromper essa corrida insensata? Você entristecerá aquela que lhe deu a vida e o acolheu amorosamente em seus braços?
Certamente você pensará muito antes de decidir levar seus cabelos grisalhos ao túmulo em meio à tristeza. Ou será que o pecado o tornou insensível? Você é pior do que uma pedra? Seus sentimentos naturais se extinguiram? O maligno se tornou completamente seu senhor? Ele secou todas as ternas afeições de seu coração?
Pare, jovem pródigo, e reflita!
Você não está sozinho em sua aflição
Mas, irmãos cristãos, vocês não estão sozinhos nessa experiência. Se enfrentam problemas familiares, lembrem-se de que outros também passaram pelo mesmo sofrimento.
Lembrem-se de Efraim! Embora Deus tivesse prometido que sua tribo se multiplicaria em dezenas de milhares, lemos em 1 Crônicas 7:20-22:
“E os filhos de Efraim: Sutela, e Berede, seu filho, e Taate, seu filho, e Eleada, seu filho, e Taate, seu filho, e Zabade, seu filho, e Sutela, seu filho; e Ezer e Eleade, aos quais os homens de Gate, nascidos naquela terra, mataram, porque desceram para tomar o seu gado. E Efraim, seu pai, os pranteou por muitos dias, e seus irmãos vieram consolá-lo.”
O próprio Abraão teve seu Ismael e clamou a Deus por causa dele. Pensem em Eli, um homem que servia a Deus como sumo sacerdote. Embora pudesse governar o povo, não conseguia governar os próprios filhos, e grande foi sua tristeza por isso.
Ah! Alguns de vocês, meus irmãos no Evangelho, talvez levantem as mãos ao céu e pronunciem estas palavras nesta manhã com profunda solenidade. Vocês poderiam até escrever a palavra “EMBORA” em letras maiúsculas, pois ela descreve muito bem a situação de alguns: “Embora a minha casa não esteja assim para com Deus”.
Por que Deus permite essas provações?
Antes de deixarmos este ponto, o que devo dizer àqueles que estão sendo provados e afligidos em sua vida pessoal e familiar?
Primeiramente, meus irmãos, permitam-me dizer que é necessário haver algum “embora” em sua vida. Se não houvesse, sabem o que aconteceria? Vocês construiriam na terra um ninho macio e confortável, deitar-se-iam nele e adormeceriam.
Por isso, Deus coloca um espinho em seu ninho, para que vocês aprendam a cantar.
Os antigos escritores diziam que o rouxinol nunca cantava tão docemente como quando se assentava entre espinhos, pois estes lhe feriam o peito e o faziam lembrar-se de cantar. Talvez aconteça o mesmo com vocês.
Como as cotovias, vocês dormiriam tranquilamente em seu ninho se alguma aflição não surgisse para despertá-los. Então, estendem as asas e, cantando sua melodia, levantam voo para saudar o sol.
As provações nos são enviadas para nos desapegar do mundo. Amarguras são acrescentadas à nossa bebida para que aprendamos a viver do orvalho celestial. O alimento da terra é misturado com fel para que busquemos o verdadeiro pão no maná que desce do céu.
Sem as dificuldades, nossa alma seria como um mar sem marés nem movimento: tornar-se-ia estagnada, impura e repugnante. Como Coleridge descreve o mar depois de uma calmaria extraordinária, assim também a alma, sem movimento e sem provações, poderia tornar-se um ambiente de contaminação e morte.
Além disso, lembrem-se disto, vocês que sofrem por causa de seus filhos: a oração pode remover suas aflições.
Não há aqui pai ou mãe piedosos que estejam sofrendo por causa da família e cuja provação não possa, pela graça de Deus, ser removida. A fé é poderosa porque move o braço daquele que conduz as estrelas em seus caminhos.
Vocês têm orado por seus filhos durante muito tempo, sem ver resultados? Já disseram: “Vou parar de orar, pois, quanto mais luto em oração, pior eles parecem ficar, e maior se torna minha aflição”?
Ah! Não digam isso, vocês que esperam cansados e vigilantes. Embora a promessa pareça demorar, ela se cumprirá.
Continuem semeando a semente e, ao lançá-la à terra, deixem cair uma lágrima junto de cada grão.
Ah! Encharquem suas sementes com lágrimas de ansiedade, e elas não apodrecerão sob os torrões da terra se tiverem sido batizadas nessa mistura vivificante.
E se vocês morrerem sem ver seus filhos se tornarem herdeiros da luz? Eles ainda poderão ser convertidos depois de sua morte. Mesmo que seus ossos já estejam no túmulo e seu filho permaneça por algum tempo de pé, amaldiçoando sua memória, ele não se esquecerá de tudo isso nos momentos de maior lucidez, quando estiver sozinho e refletindo.
Então, ele se lembrará de suas orações, de suas lágrimas e de seus gemidos. Recordará seus conselhos. Suas palavras voltarão à memória e, mesmo que continue vivendo no pecado, elas soarão como uma voz prolongada vinda do mundo espiritual, ora assustando-o em meio às suas diversões, ora atraindo-o para o céu como sussurros de anjos, dizendo:
“Continue caminhando rumo à glória, onde está seu pai ou sua mãe, que um dia orou por você.”
Assim, o cristão pode dizer: “Embora minha casa não esteja assim para com Deus agora, ainda poderá estar no futuro”. Por isso, continuarei esperando, pois existem exemplos extraordinários de conversão.
Pensem em John Newton. Ele chegou a se tornar traficante de escravos, mas foi trazido de volta ao Senhor.
Continuem esperando. Nunca se desesperem. Um coração desanimado não conquista a alma dos homens, mas uma fé firme persevera em todas as coisas. Portanto, perseverem na oração.
“E as coisas que vos digo digo-as a todos: vigiai.”
Essa é a sua aflição, uma pequena taça cheia da mesma água do mar de tribulações que Davi experimentou quando cantou: “Embora a minha casa não esteja assim para com Deus”.
2. A confiança na aliança eterna
Em segundo lugar, Davi possuía confiança na aliança.
Oh! Como é doce desviar os olhos das tristezas da terra para o esplendor do céu! Quão glorioso é saltar do navio deste mundo, constantemente açoitado pelas tempestades, e firmar os pés no terreno sólido da aliança divina!
Foi exatamente isso que Davi fez. Depois de apresentar seu “embora”, ele acrescenta um bendito “contudo”. Oh! É um “contudo” adornado com joias preciosas:
“Contudo, estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem ordenada e segura.”
Observemos essas palavras à medida que aparecem no texto.
A aliança tem origem divina
Primeiramente, Davi se alegrava na aliança porque sua origem era divina.
“Contudo, ELE estabeleceu comigo uma aliança eterna.”
Oh, essa grande palavra: ELE! Quem é esse que fez a aliança?
Não foi meu velho pai ou minha velha mãe que estabeleceram uma aliança em meu favor — não há sentido algum nessa ideia. Não foi uma aliança que algum homem fez por mim ou comigo. Não! Foi ELE quem estabeleceu comigo uma aliança eterna.
Sua origem é divina, não humana.
A aliança sobre a qual o cristão descansa não é a aliança de seu batismo infantil, pois ele a teria quebrado inúmeras vezes, uma vez que não renunciou às pompas e vaidades deste mundo perverso, como deveria ter feito. Tampouco renunciou a todos os desejos pecaminosos da carne. Nem se tornou verdadeiramente regenerado por meio das gotas de água que um sacerdote, vestido com sua batina, aspergiu sobre seu rosto.
A aliança sobre a qual o cristão se apoia e na qual encontra segurança é aquela que o próprio Deus estabeleceu com ele.
“Contudo, ELE estabeleceu.”
Detém-te, minha alma! Deus, o Pai eterno, estabeleceu verdadeiramente uma aliança contigo.
Sim, aquele Deus que habita na mais profunda escuridão e reina para sempre, sozinho em sua majestade. Aquele Deus que trouxe o mundo à existência por meio de uma palavra, que o sustenta sobre os ombros como Atlas e mantém o destino de toda a criação equilibrado em seu dedo.
Esse Deus, inclinando-se de sua majestade, toma tua mão e estabelece uma aliança contigo!
Oh! Não é esse um ato de condescendência tão extraordinário que, se pudéssemos compreendê-lo plenamente, nossos corações ficariam maravilhados para sempre?
Oh, que profundidade!
“ELE estabeleceu comigo uma aliança.”
Não foi um rei que fez uma aliança comigo — o que já seria algo extraordinário. Não foi um imperador que firmou um acordo comigo. Foi o Príncipe dos reis da terra, o Shaddai, o Senhor de toda a humanidade, o JEOVÁ dos séculos, o Elohim eterno.
“Estabeleceu comigo uma aliança eterna.”
Oh, pensamento bendito! Sua origem é divina.
A aliança é pessoal
Observe, porém, a aplicação particular dessas palavras:
“Contudo, estabeleceu comigo uma aliança eterna.”
É aqui que encontro a doçura dessa verdade para mim, como indivíduo.
“Como é doce contemplar o sangue derramado,
Que redime a alma e nos reconcilia com Deus,
Sabendo, com divina certeza,
Que Ele fez a minha paz com Deus.”
De nada me adianta saber apenas que Ele estabeleceu a paz para o mundo. Quero saber se estabeleceu a paz para mim. É maravilhoso saber que Ele fez uma aliança, mas quero saber se a fez comigo.
Davi podia colocar a mão sobre o coração e declarar:
“Contudo, estabeleceu comigo uma aliança.”
Temo não estar errado ao condenar a religião popular de nossos dias, pois ela pertence à multidão, em vez de ser uma experiência pessoal desfrutada por cada indivíduo.
Você ouvirá pessoas dizerem:
“Bem, creio na doutrina da justificação. Penso que os homens são justificados pela fé.”
Sim, mas você foi justificado pela fé?
Outra pessoa dirá:
“Creio que somos santificados pelo Espírito.”
Muito bem, mas você está sendo santificado pelo Espírito?
Observe: se você falar muito sobre a piedade pessoal, logo será acusado de exagero religioso.
Se disser sinceramente, do fundo do coração: “Sei que fui perdoado. Tenho certeza de que sou um pecador perdoado” — e todo cristão deveria ser capaz de dizer isso em determinados momentos, e sempre poderia fazê-lo se não fosse por sua incredulidade —, alguns considerarão suas palavras exageradas.
Se você declarar: “Sei em quem tenho crido. Estou convencido de que meus pecados já não estão registrados naquele terrível livro de condenação. Pelo sangue perdoador de Jesus, estou livre do pecado como se jamais tivesse transgredido”, muitos dirão que você está exagerando.
Pois bem, trata-se de um exagero delicioso! É o exagero da própria Palavra de Deus, e eu desejaria que mais pessoas se permitissem desfrutar desse bendito e santo exagero.
Podemos, de fato, ser generosos em nossas expectativas quando temos diante de nós uma riqueza infinita. Podemos ser pródigos em nossa alegria quando sabemos que jamais esgotaremos o tesouro.
Oh! Como é doce declarar:
“Contudo, estabeleceu comigo uma aliança eterna.”
Não basta que você me fale sobre meu irmão que foi salvo. Fico muito feliz que meu amigo alcance a glória e me alegrarei em encontrar todos vocês lá. Mas, afinal, a questão é esta: eu também estarei lá?
“Estarei eu entre os remidos,
Para contemplar seu rosto sorridente?”
Cristão, agora você pode aplicar essa verdade pessoalmente. A aliança foi estabelecida com você.
Abra os olhos! Seu nome está na aliança. Qual é ele? Talvez seja um nome bastante comum, sem títulos acadêmicos depois dele nem honrarias antes. Não importa! Seu nome está na aliança.
Se você pudesse consultar o livro da família de seu Pai, no céu, encontraria seu nome registrado nele.
Oh, pensamento bendito! Meu nome — o meu próprio nome, não o de outra pessoa!
Assim, estes olhos contemplarão o Senhor; não será outra pessoa que o verá em meu lugar.
Alegre-se, cristão! A aliança é pessoal.
“Contudo, estabeleceu comigo uma aliança eterna.”
A aliança é eterna em sua duração
Além disso, essa aliança não é apenas divina em sua origem; ela é eterna em sua duração.
Recebi algumas cartas muito bem elaboradas de pessoas anônimas que me ouviram pregar. Por serem grandes covardes — algo que sempre abominei —, não conseguem assinar seus próprios nomes. Elas sabem o destino que lhes dou: corto essas cartas em pedaços e as lanço ao fogo. Espero que seus autores não tenham destino semelhante!
Alguns deles, entretanto, discutem comigo porque prego o Evangelho eterno. Não ousaria pregar outro, pois não aceitaria outro, mesmo que me fosse oferecido.
O Evangelho eterno é o único que considero digno de um Deus eterno. Tenho certeza de que é também o único capaz de consolar uma alma destinada a viver por toda a eternidade.
Vocês sabem o significado de uma “aliança eterna”. Significa uma aliança que não teve começo e que jamais, jamais terá fim.
Alguns não acreditam na natureza eterna do amor de Deus por seu povo. Pensam que Deus começa a amar os seus quando estes começam a amá-lo.
Meus amigos arminianos, vocês já cantaram este hino em suas reuniões? Certamente que sim:
“Sim, eu amo a Jesus,
Porque Ele primeiro me amou.”
Esse é um glorioso hino de doutrina calvinista, embora saibamos em qual hinário ele se encontra!
Ora, se Jesus o amou antes que você o amasse, por que não acreditar que Ele sempre o amou?
Além disso, quão insensato é discutir dessa maneira quando sabemos que Deus não muda! Para Ele, não existe o tempo como o conhecemos. Não há passado diante dele.
Quando você diz: “Ele me ama agora”, na verdade está afirmando: “Ele me amou ontem e me amará para sempre”.
Para Deus, tudo está sempre diante de seus olhos. Não há passado nem futuro como existem para nós. Por isso, discutir sobre a eleição eterna e assuntos semelhantes torna-se inútil quando não compreendemos essa realidade.
Se Deus escolheu seu povo — e todos admitimos que Ele o escolhe —, pouco me importa que você diga que Ele fez isso há dez mil vezes dez mil anos. Para Deus, não existe passado. Diante dele, tudo está presente. Ele contempla todas as coisas, passadas e futuras, como presentes aos seus olhos.
Basta-me saber que Ele me ama agora!
Essa palavra, “agora”, no vocabulário de Deus, significa eternidade. Diga-me que Deus perdoou meus pecados agora, e isso significa que seu propósito não está sujeito às limitações do tempo, pois suas obras pertencem à sua vontade eterna.
Oh, como é doce conhecer uma aliança eterna!
Eu não trocaria meu Evangelho por cinquenta mil outros evangelhos. Amo uma salvação segura. Quando ouvi pela primeira vez essa mensagem sendo pregada — que, se eu cresse, a graça de Deus me guardaria por toda a vida, não me deixaria cair no inferno e me preservaria para andar entre meus semelhantes em santidade —, disse:
“Este é o Evangelho para mim: um Evangelho eterno!”
Quanto àquele evangelho construído sobre areia, segundo o qual uma pessoa pode cair da graça, voltar a ela e cair novamente, considero-o uma das mais perversas falsidades que existem.
Se acreditasse nisso, pregaria o Evangelho e procuraria ser santo no domingo, abandonaria a fé na segunda-feira e voltaria a ser cristão na terça-feira. Diria então: “Caí da graça, mas me levantei novamente”.
Mas, como verdadeiro cristão calvinista, desejo encontrar em mim mesmo e ver nos outros uma vida de constante perseverança e coerência.
Também não considero possível abandonar definitivamente a fé salvadora e depois retornar a ela como se nada tivesse acontecido, diante de tantas passagens bíblicas que tratam da gravidade e das consequências dessa condição.
Esta é uma das maiores salvaguardas para o cristão: saber que existe dentro dele uma vida que não pode ser extinta. Ele veste o uniforme de um serviço do qual jamais deve desertar e do qual não pode abandonar-se sem demonstrar que, na realidade, nunca pertenceu verdadeiramente a esse exército.
Oh! Isso me mantém perto de meu Deus!
Mas tire de mim essa certeza, e você verá a pessoa mais vil vivendo debaixo do sol. Retire do meu coração a eternidade do Evangelho, e terá retirado tudo!
O velho Watts Wilkinson disse certa vez a Joseph Irons, ao ouvi-lo pregar sobre a natureza eterna do amor de Deus:
“Gosto de ouvi-lo pregar sobre a eternidade do amor de Deus na aliança.”
Ao que o velho santo respondeu:
“Ah! O que mais existe no Evangelho, se você não pregar isso?”
Irmão, o que mais existe? Se não pregarmos um Evangelho eterno, ele não valerá absolutamente nada. Você pode encontrar incertezas em qualquer outro lugar, mas somente na Bíblia encontramos realidades eternas.
“Até o fim perseverarei,
Pois segura está a promessa que recebi;
Mais felizes, mas não mais seguros,
São os espíritos glorificados no céu.”
A aliança é bem ordenada em todas as coisas
Observe agora a próxima expressão, pois é preciosa demais para ser ignorada:
“Em tudo bem ordenada.”
“A ordem é a primeira lei do céu”, e Deus não estabeleceu uma aliança desordenada. Sua aliança é perfeitamente organizada.
Quando Ele a planejou, antes da fundação do mundo, tudo foi disposto de maneira adequada. Ele organizou todas as coisas para que sua justiça fosse plenamente satisfeita e, ao mesmo tempo, sua misericórdia caminhasse de mãos dadas com ela.
Planejou tudo para que a justiça recebesse a satisfação devida, até o último detalhe, e, ainda assim, a misericórdia pudesse salvar o pecador.
Jesus Cristo veio para confirmar essa aliança e, por meio de sua expiação, colocou todas as coisas em perfeita ordem. Ele pagou com cada gota de seu sangue. Não deixou sequer uma pequena parte do preço do resgate a ser paga por seu amado povo. Tudo foi perfeitamente ordenado por Ele.
E o Espírito Santo, quando aplica essa aliança docemente ao coração, também age de maneira ordenada. Ele põe todas as coisas em ordem.
Às vezes, Ele nos permite compreender essa ordem. Quando não a compreendemos, porém, podemos ter certeza de que a aliança continua perfeitamente organizada.
Ouvi falar de um homem que comprou um terreno e, quando o contrato estava sendo preparado, imaginou saber mais sobre o assunto do que o advogado. Vocês conhecem o ditado: quando alguém é seu próprio advogado, acaba tendo um tolo como cliente.
Nesse caso, o homem realmente tinha um tolo como cliente. Redigiu o contrato tão mal que, poucos anos depois, descobriu-se que ele não tinha valor algum, e o homem perdeu sua propriedade.
Mas a aliança de nosso Pai foi estabelecida de acordo com as mais rigorosas exigências da justiça e, por isso, está bem ordenada em todas as coisas.
Se o próprio inferno a examinasse, se ela fosse entregue a uma assembleia de demônios, eles não conseguiriam encontrar nela uma única falha.
Ali estão os termos jurídicos do tribunal celestial. Ali está o grande selo na parte inferior e a assinatura de Jesus, escrita com seu próprio sangue.
Por isso, ela está “bem ordenada em todas as coisas”.
A palavra “coisas” não aparece no texto original, e podemos entender a expressão também como se referindo às pessoas. A aliança está ordenada em relação a todas as pessoas cujos nomes nela estão inscritos.
Ela foi estabelecida em favor delas, e todas virão conforme a promessa:
“Todo aquele que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.”
Oh, meu amado irmão em Cristo, detenha-se por um momento nessa promessa! Ela é como uma fonte de águas preciosas, capaz de saciar sua sede e renovar suas forças.
A aliança está “bem ordenada em todas as coisas”.
O que você poderia desejar além disso?
Você precisa de graça que o constranja a seguir a Cristo? Ela está incluída nessa aliança.
Precisa de um espírito de oração mais profundo? Tudo está bem ordenado nela.
Deseja ter mais fé? Tudo está bem ordenado nela.
Teme não conseguir perseverar até o fim? Tudo está bem ordenado nela.
Nela há graça que converte, graça que perdoa, graça que justifica, graça que santifica e graça que nos preserva até o fim.
Pois a aliança está “bem ordenada em todas as coisas e segura”.
Nada foi deixado de fora. Sempre que nos aproximamos dela, encontramos tudo preparado e armazenado em perfeita ordem celestial.
Galen, o célebre médico, afirmou que os ossos do corpo humano estão tão perfeitamente unidos, e todas as suas partes são tão maravilhosamente organizadas, que não poderíamos modificar uma delas sem prejudicar a harmonia e a beleza do conjunto.
Se tentássemos desenhar um modelo de ser humano, não conseguiríamos, com toda a nossa habilidade, criar algo mais extraordinário em sua composição do que o próprio homem, tal como foi formado.
O mesmo acontece com a aliança divina. Se pudéssemos alterá-la, não conseguiríamos torná-la melhor, pois todas as suas partes estão harmoniosamente ajustadas.
Sempre que prego sobre a aliança do Evangelho, sinto-me seguro. Se pregar qualquer outro evangelho, fico vulnerável e exposto a ataques. Mas, quando permaneço sobre o terreno firme da aliança de Deus, sinto-me em uma torre de fortaleza. Enquanto sustentar toda a verdade, não temo que nem mesmo os demônios do inferno consigam conquistar meu castelo.
Tão seguro está o homem que crê no Evangelho eterno que nenhum argumento consegue destruí-lo.
Que nossos pregadores anunciem ao povo o Evangelho eterno, e as pessoas o receberão com avidez, como o boi bebe água. Vocês descobrirão que elas amam a verdade de Deus.
Mas, enquanto o Evangelho de Deus permanecer sufocado e a vela estiver escondida debaixo de um alqueire, não poderemos esperar que as almas sejam conduzidas ao amor pela verdade.
Oro para que Deus faça a chama consumir o próprio alqueire, de modo que a luz finalmente brilhe diante de todos!
A aliança é segura
Para concluir nossa descrição dessa aliança, observemos que ela é segura.
Se eu fosse um homem rico, haveria apenas uma coisa que desejaria acrescentar às minhas riquezas para que elas correspondessem plenamente aos meus desejos: a certeza de que permaneceriam comigo. Afinal, as riquezas frequentemente criam asas e voam para longe.
A saúde é uma grande bênção. Bastaria acrescentar uma palavra para torná-la ainda mais preciosa: segura.
Temos parentes que amamos. Ah, se pudéssemos escrever a palavra “seguro” sobre eles, que bênção seria!
Mas não podemos chamar de segura nenhuma dessas coisas terrenas.
O único lugar em que podemos escrever essa palavra com plena confiança é sobre a aliança divina, que está “bem ordenada em todas as coisas e segura”.
Talvez haja aqui, nesta manhã, algum irmão aflito que pense ter perdido sua aliança com Deus.
Ah, meu irmão, você já desfrutou de horas de paz e de doce comunhão na presença do Senhor, mas agora se encontra envolvido em tristeza e dúvidas. Você perdeu aquilo que considerava sua garantia.
Deixe-me dizer-lhe, porém: ainda que tenha perdido o documento que possuía, a aliança não foi perdida.
Você nunca teve a aliança propriamente dita em suas mãos; tinha apenas uma cópia dela. Pensava ter lido claramente seu título de propriedade, mas nunca contemplou os documentos originais. Possuía apenas uma cópia do contrato e agora a perdeu.
Mas onde está a própria aliança?
Ela está debaixo do trono de Deus. Está guardada nos arquivos do céu, na arca da aliança. Está no coração de Jesus. Está em suas mãos e gravada em seu coração.
Ali ela permanece!
Oh! Se Deus colocasse minha salvação em minhas próprias mãos, eu estaria perdido em dez minutos. Mas minha salvação não está ali. Ela está nas mãos de Cristo!
Nossa segurança está nas mãos de Cristo
Vocês já ouviram falar do célebre sonho de John Newton? Vou contá-lo conforme me recordo.
Ele imaginou que estava em alto-mar, a bordo de um navio, quando um anjo resplandecente desceu e lhe entregou um anel, dizendo:
“Enquanto você usar este anel, será feliz, e sua alma estará segura.”
Newton colocou o anel no dedo e ficou muito contente por tê-lo em sua própria posse.
Então, surgiu das profundezas do mar um espírito que lhe disse:
“Esse anel não passa de uma tolice.”
Por meio de lisonjas e persuasões, o espírito finalmente o convenceu a retirar o anel do dedo. Newton o tirou e o deixou cair no mar.
Imediatamente, surgiram criaturas terríveis das profundezas. As montanhas rugiram e lançaram para o alto sua lava vulcânica. Toda a terra parecia estar em chamas, e sua alma foi tomada pela mais profunda angústia.
Depois de algum tempo, apareceu outro espírito que mergulhou nas profundezas e recuperou o anel. Mostrando-o a Newton, disse:
“Agora você está seguro, pois recuperei o anel.”
Newton poderia ter respondido:
“Deixe-me colocá-lo novamente em meu dedo!”
Mas o espírito respondeu:
“Não, não! Você não é capaz de cuidar dele sozinho.”
Então, o anjo voou para longe, levando consigo o anel. Newton sentiu-se seguro, pois nenhuma sedução do inferno poderia arrancá-lo novamente de suas mãos: agora ele estava guardado no céu.
Assim também é a minha vida:
“A vossa vida está escondida com Cristo em Deus.”
Se eu tivesse minha vida espiritual sob meu próprio controle, logo a destruiria. Mas ela não está comigo.
E, assim como não posso salvar a mim mesmo, também não posso destruir a salvação que Deus guarda em Cristo. Minha vida está envolvida na aliança; está com Cristo no céu.
Oh, gloriosa e preciosa aliança!
3. A satisfação no coração
Chegamos agora à conclusão de nossa meditação.
O salmista possuía satisfação no coração.
“Esta é”, declarou ele, “toda a minha salvação e todo o meu prazer.”
Eu não gostaria de assumir a tarefa de cavalgar até encontrar um homem verdadeiramente satisfeito com as coisas deste mundo. Suspeito que qualquer cavalo ficaria exausto antes que eu o encontrasse. Creio que eu mesmo envelheceria antes de descobrir esse indivíduo feliz, a menos que procurasse em um único lugar: no coração daquele que possui uma aliança com Deus, “bem ordenada em todas as coisas e segura”.
Vá ao palácio, mas não encontrará ali satisfação plena.
Vá à cabana mais humilde. Embora os poetas falem da doçura do retiro e da felicidade do contentamento, tampouco encontrará ali a satisfação definitiva.
A única satisfação sólida — aquela que verdadeiramente alimenta a alma — encontra-se no verdadeiro crente, que está satisfeito em seu interior e encontra contentamento na aliança divina.
Contemple Davi! Ele declara:
“Quanto à minha salvação, estou seguro. Quanto aos meus desejos, estou satisfeito, pois esta é toda a minha salvação e todo o meu prazer.”
Ele está satisfeito com sua salvação.
A salvação não depende de nossos méritos
Chamemos agora o moralista.
Ele tem trabalhado e se esforçado para conquistar a salvação.
“Você tem certeza de que, se morresse hoje, entraria no céu?”
“Bem, tenho sido tão bom quanto as outras pessoas e imagino que serei ainda mais religioso antes de morrer.”
Ele não consegue responder satisfatoriamente à pergunta.
Chamemos agora o homem religioso — refiro-me àquele que possui apenas uma religião exterior.
“Você tem certeza de que, se morresse hoje, iria para o céu?”
“Bem, frequento regularmente a igreja ou a capela. Não posso afirmar que tenha condições de dizer: ‘Ele estabeleceu comigo uma aliança eterna’.”
Muito bem. Você também não pode oferecer a certeza que buscamos.
Eu poderia apresentar dezenas de pessoas, e nenhuma delas seria capaz de dizer: “Esta é toda a minha salvação”.
Sempre desejam acrescentar alguma coisa à obra de Deus. E muitos de vocês pretendem fazer esse acréscimo pouco antes de morrer.
Um antigo rabino judeu dizia que todo homem deveria arrepender-se pelo menos um dia antes de sua morte. Como não sabemos quando será nosso último dia, devemos arrepender-nos hoje.
Quantas pessoas gostariam de saber a data de sua morte! Imaginam que, se soubessem quando morreriam, certamente se arrependeriam e se converteriam pouco antes de partir.
Mas suponha que lhe fosse revelado que você morreria no próximo domingo, exatamente às doze e vinte.
Você continuaria vivendo no pecado até o meio-dia e então diria:
“Ainda faltam vinte minutos. Tenho tempo suficiente!”
E continuaria adiando até que os vinte minutos se esgotassem, quando sua alma já estaria diante da eternidade.
Assim funciona a procrastinação.
Ela é a ladra do tempo: rouba nossa vida. Mesmo que soubéssemos a hora exata de nossa partida, não estaríamos necessariamente mais preparados do que estamos agora.
Você pode dizer que possui toda a sua salvação?
O cristão pode!
Ele pode atravessar uma epidemia de cólera ou qualquer outra calamidade e saber que, se a morte o atingir, ela será para ele a entrada na vida eterna.
Pode deitar-se e entristecer-se apenas um pouco diante da aproximação da morte, pois possui toda a sua salvação. Seus tesouros estão guardados em seu coração: joias que brilharão no céu.
Cristo é o desejo supremo da alma
O salmista também declara que possui todo o seu prazer.
Nada pode preencher o coração humano, exceto o Deus trino.
Deus fez o coração do homem como um triângulo. Há séculos, os homens tentam fazer com que o globo terrestre preencha esse triângulo, mas não conseguem. Somente a Trindade pode preencher esse espaço, como tão bem expressou o antigo poeta Quarles.
Não existe maneira de encontrar satisfação verdadeira senão recebendo a Cristo, alcançando o céu, herdando a glória e conhecendo a aliança. Afinal, a palavra “aliança” abrange todas essas bênçãos.
“Todo o meu prazer”, declara o salmista.
“Nada mais desejo neste mundo,
Feliz no amor do meu Salvador.”
Não tenho outro desejo senão viver, desfrutando da companhia de Cristo, e depois subir ao céu para estar em sua presença imediata, onde:
“Por milhões de anos, estes olhos maravilhados
Contemplarão as belezas do meu Salvador;
E por eras sem fim eu adorarei
As maravilhas do seu amor.”
Uma palavra aos que discordam dessa doutrina
Quero dirigir uma palavra aos meus amigos que não concordam comigo em matéria de doutrina.
Meus queridos amigos, não desejo amaldiçoar nem condenar aqueles cujo credo é diferente do meu. Peço apenas que me permitam discordar de vocês e falar livremente. E, se não me permitirem, sabem muito bem que falarei assim mesmo!
Mas tenho algo a dizer a esses queridos amigos que não conseguem aceitar a ideia de uma aliança eterna.
Vocês não podem mudar essa realidade, podem?
Se não gostam dela, ainda assim a declaração permanece:
“Deus estabeleceu comigo uma aliança eterna.”
E precisam reconhecer que, ao lerem a Bíblia, encontrarão passagens bastante difíceis de conciliar com suas opiniões. Talvez pudessem retirá-las de suas próprias Bíblias, mas não conseguiriam apagá-las das verdades divinas.
Vocês sabem que Deus é imutável, não sabem? Ele nunca muda. A Bíblia declara isso claramente.
Ela também afirma que, quando Deus começa uma boa obra, Ele a levará até o fim.
Portanto, parem de ler comentários superficiais e tomem a Bíblia tal como ela é. Se não conseguem enxergar nela o amor eterno de Deus, talvez o problema esteja em seus próprios olhos. Nesse caso, seria mais apropriado procurar um hospital oftalmológico do que discutir comigo!
Se vocês não conseguem enxergar nas Escrituras a segurança eterna, a justiça adquirida pelo sangue de Cristo e a preservação divina dos salvos, tenho pouca esperança de que reconheçam essas verdades enquanto continuarem lendo a Palavra sob a influência de seus preconceitos atuais.
Deus me concedeu o privilégio de dar maior destaque, no mundo religioso, àquelas antigas doutrinas do Evangelho.
Tenho encontrado grande alegria nos velhos volumes empoeirados que muitos de meus irmãos mantêm encadernados em couro de ovelha e de cabra nas prateleiras de suas bibliotecas. Quanto aos livros novos, deixo-os para outros.
Oh! Se pudéssemos voltar aos dias em que os melhores homens eram nossos pastores — os dias dos puritanos!
Oh, como precisamos novamente de um Evangelho puritano!
Então, não teríamos ouvintes sonolentos, capelas vazias, pregadores adormecidos nem homens de palavras suaves que não conseguem proclamar a verdade. Pelo contrário, ouviríamos novamente:
“Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens!”
Vão para casa e examinem as Escrituras. Eu lhes disse aquilo que considero verdadeiro. Se não for verdade, descubram o erro lendo suas Bíblias e investigando o assunto por vocês mesmos.
Um convite aos que ainda não conhecem a Cristo
Quanto a vocês, que ainda vivem sem Deus e não têm participação alguma nessas bênçãos, lembrem-se de que a Palavra de Deus também fala a vocês.
Ela diz:
“Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que razão morrereis?”
Essa é a graciosa convocação do Senhor, que também promete que aquele que vier a Cristo jamais será lançado fora.
O Evangelho é gratuito, tão gratuito quanto o ar. Todo aquele que possui vida para respirar pode respirar esse ar. Toda alma necessitada que se encontra aqui, nesta manhã, e que foi despertada para reconhecer sua culpa, pode vir a Cristo.
“Não deixe que a consciência o faça esperar,
Nem sonhe em tornar-se digno para então chegar.”
A única evidência de que você precisa é reconhecer sua necessidade de Cristo.
E lembre-se: se você vier a Ele, se verdadeiramente crer, estará seguro por toda a eternidade.
Mesmo em meio à ruína da matéria, ao colapso dos mundos, ao incêndio do universo e à destruição de todas as coisas terrenas, sua alma permanecerá eternamente segura na aliança da livre graça de Deus.
Que Deus o capacite, agora mesmo, a tornar-se um de seus filhos adotivos, mediante a fé em Jesus Cristo.
Amém.
Fonte: The New Park Street Pulpit, Volume 1, Sermão nº 19 — “David’s Dying Song” (O Cântico de Davi em Seu Leito de Morte), de C. H. Spurgeon.
Tradução para o português brasileiro, organizada para publicação em blog, com títulos e subtítulos para facilitar a leitura.
