Nº 22 — Sermão de C. H. Spurgeon
Pregado na manhã de domingo, 13 de maio de 1855, pelo Rev. C. H. Spurgeon, no Exeter Hall, Strand.
Texto bíblico:
“Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.”
1 Coríntios 10:12
É um fato singular, mas, ainda assim, absolutamente verdadeiro, que os vícios são imitações das virtudes.
Sempre que Deus envia, da casa da moeda celestial, uma preciosa moeda de metal genuíno, Satanás imita sua marca e produz uma falsificação desprezível, sem valor algum. Deus concede o amor, pois o amor faz parte de sua própria natureza e essência. Satanás também fabrica algo que chama de amor, mas que, na realidade, é luxúria.
Deus concede a coragem, e é uma boa coisa poder olhar nos olhos do próximo sem temer homem algum, enquanto cumprimos nosso dever. Satanás, porém, inspira a temeridade insensata, dá a ela o nome de coragem e induz o homem a avançar até a boca dos canhões em busca de uma reputação vazia.
Deus produz no homem o santo temor. Satanás lhe dá a incredulidade, e frequentemente confundimos uma coisa com a outra.
O mesmo acontece com a melhor das virtudes: a graça salvadora da fé. Quando ela chega à sua maturidade, transforma-se em confiança, e não existe nada tão consolador e desejável para o cristão quanto a plena certeza da fé.
Por isso, quando Satanás vê essa moeda preciosa, imediatamente toma o metal do abismo, imita a imagem e a inscrição celestiais da certeza e nos oferece, como se fosse algo legítimo, o vício da presunção.
Talvez fiquemos surpresos, como cristãos calvinistas, ao encontrar Paulo dizendo: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia”. Mas não precisamos nos admirar. Temos todo o direito de crer que estamos firmes, desde que reconheçamos que permanecemos de pé pelo poder de Deus. Embora nunca possamos confiar excessivamente na força do Altíssimo, existe algo tão parecido com a verdadeira confiança que, sem o mais cuidadoso discernimento, não conseguiremos distinguir uma da outra.
É contra a presunção ímpia que falarei nesta manhã.
Que ninguém me compreenda mal. Não direi uma única palavra contra a fé mais vigorosa. Desejo que todos os Pequenos na Fé se tornem Fortes na Fé; que todos os Temerosos se transformem em Valentes pela Verdade; e que aqueles que estão Prontos para Parar se tornem velozes como Asael, para que todos possam correr na obra de seu Mestre.
Não falo contra a fé forte nem contra a plena certeza. Deus nos concede essas coisas, e elas estão entre as experiências mais santas e felizes que um cristão pode desfrutar. Não existe condição mais desejável do que poder dizer: “Sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia”.
Não é contra isso que falo. Quero, antes, adverti-los contra algo maligno: uma falsa confiança, uma presunção que se apodera do cristão como o sono mortal e gelado que envolve alguém no alto de uma montanha. Se essa pessoa não for despertada — e Deus certamente providenciará para que isso aconteça —, a morte será a consequência inevitável.
“Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.”
Nesta manhã, procurarei, em primeiro lugar, identificar o caráter dessa pessoa. Em segundo lugar, mostrarei o perigo que ela corre. Em terceiro, apresentarei o conselho que a Palavra de Deus nos oferece.
O caráter é o da pessoa que pensa estar em pé. O perigo é que ela venha a cair. E o conselho é: “Veja que não caia”.
I. O CARÁTER DO PRESUNÇOSO: AQUELE QUE PENSA ESTAR EM PÉ
Minha primeira tarefa será identificar o caráter do homem presunçoso, aquele que pensa estar em pé.
Eu poderia encontrar uma multidão de pessoas assim se me fosse permitido percorrer o mundo inteiro. Poderia encontrar homens nos negócios, cheios de uma ousadia arrogante, que, por terem sido bem-sucedidos em uma única especulação, aventuram-se mar adentro, no oceano tempestuoso da vida, arriscando tudo o que possuem — e acabando por perder tudo.
Poderia mencionar outros que, presumindo demais de sua saúde, passam seus anos em pecado e suas vidas na iniquidade, porque acreditam que seus ossos são de ferro e seus nervos, de aço; imaginam que todos os homens são mortais, menos eles próprios.
Poderia falar de homens que se lançam no meio da tentação, confiantes em sua própria capacidade, exclamando com satisfação pessoal:
“Vocês pensam que sou tão fraco a ponto de pecar? De modo algum! Permanecerei firme. Tragam-me o copo. Nunca me tornarei um bêbado. Tragam-me a música. Vocês não me encontrarão em festas noturnas desenfreadas. Posso beber um pouco e depois parar.”
Esses são homens presunçosos.
Mas não é entre essas pessoas que pretendo procurá-los hoje. Minha tarefa nesta manhã diz respeito à igreja de Deus. É preciso começar a joeirar pelo chão, e a separação deve provar o próprio trigo. Portanto, vamos joeirar a igreja nesta manhã para descobrir os presunçosos.
Não precisamos ir muito longe para encontrá-los. Em toda igreja cristã existem pessoas que pensam estar firmes, que se vangloriam de uma força e de um poder imaginários. São filhos da natureza, elegantemente vestidos, mas não filhos vivos do Deus vivo.
Essas pessoas nunca foram verdadeiramente humilhadas nem quebrantadas em espírito. Ou, se já passaram por isso, alimentaram uma falsa segurança carnal até que ela se tornou um gigante, esmagando sob os pés a delicada flor da humildade.
Elas pensam estar firmes.
Refiro-me agora a cristãos verdadeiros que, apesar disso, se tornaram presunçosos e passaram a cultivar uma segurança carnal. Que meu Mestre desperte essas pessoas enquanto procuro, ao pregar, chegar ao cerne e à raiz do problema.
Por algum tempo, falarei sobre as causas mais frequentes da presunção na vida de um cristão.
1. A prosperidade contínua neste mundo
Uma causa muito comum é a prosperidade contínua neste mundo.
Moabe está assentado sobre suas borras e não foi transferido de um recipiente para outro. Dê riqueza a um homem. Permita que seus navios regressem continuamente carregados de mercadorias valiosas. Faça com que os ventos e as ondas pareçam seus servos, conduzindo suas embarcações através da imensidão do oceano.
Permita que suas terras produzam abundantemente. Que o clima favoreça suas plantações e que os céus sorriam sobre seus empreendimentos.
Que as amarras de Órion sejam soltas em seu favor. Que as doces influências das Plêiades desçam sobre ele. Que o sucesso ininterrupto acompanhe seus passos.
Que ele seja reconhecido entre os homens como um comerciante bem-sucedido, um rico como o homem de posses da parábola, alguém que acumula grandes riquezas e prospera continuamente.
Ou, se não possuir riquezas, que desfrute de saúde constante.
Que não conheça enfermidades. Que atravesse o mundo com os nervos firmes, os olhos brilhantes e uma vida feliz. Que tenha um espírito alegre, mantenha sempre uma canção nos lábios e os olhos cintilando de felicidade. Que seja um homem tão contente que ria das preocupações e diga:
“Vai-te embora, tristeza! Peço-te que me deixes em paz!”
Afirmo que a consequência de tal condição, mesmo para o melhor cristão que já respirou, será a presunção. Ele começará a dizer: “Estou firme”.
“Na minha prosperidade”, disse Davi, “jamais serei abalado!”
E nós não somos melhores do que Davi; na verdade, nem sequer somos metade do que ele foi.
Se Deus sempre nos embalasse no berço da prosperidade, se estivéssemos continuamente sendo acariciados no colo da fortuna, se não houvesse nenhuma mancha em nossa coluna de alabastro, nenhuma nuvem no céu, nenhuma pequena sombra em nosso sol, nenhuma gota amarga no vinho desta vida, ficaríamos embriagados de prazer e começaríamos a sonhar: “Estamos firmes!”
Estaríamos de pé, sim, mas sobre um lugar elevado e perigoso. Poderíamos permanecer em pé, mas como alguém adormecido no mastro de um navio, exposto a um perigo constante.
Por isso, bendizemos a Deus por nossas aflições. Agradecemos a Ele pelos períodos de abatimento espiritual. Exaltamos seu nome pelas perdas materiais que sofremos.
Reconhecemos que, se essas coisas não tivessem acontecido, se Ele não nos tivesse disciplinado todas as manhãs e contrariado nossos desejos todas as noites, poderíamos ter nos tornado excessivamente seguros de nós mesmos.
A prosperidade contínua neste mundo é uma prova de fogo.
Se essa é a sua situação, aplique à sua vida este provérbio:
“Como o crisol prova a prata, e o forno, o ouro, assim o homem é provado pelos louvores que recebe.”
2. Pensamentos superficiais a respeito do pecado
Outra causa da presunção são os pensamentos superficiais a respeito do pecado.
Quando somos convertidos pela primeira vez, nossa consciência é tão sensível que tememos cometer até mesmo o menor pecado. Já conheci novos convertidos que quase tinham medo de dar um passo, receando colocar os pés na direção errada.
Eles pediam conselhos ao pastor e apresentavam questões difíceis sobre princípios morais, casos que nós mesmos mal sabíamos como responder. Havia neles uma santa timidez, um temor piedoso de ofender a Deus.
Mas, infelizmente, logo o delicado brilho desses primeiros frutos maduros desaparece sob o tratamento rude do mundo ao redor.
A planta sensível da piedade juvenil transforma-se, com o passar dos anos, em um salgueiro excessivamente flexível, que se curva e cede com facilidade.
É dolorosamente verdadeiro que até mesmo um cristão pode tornar-se tão insensível, pouco a pouco, que aquilo que antes o assustava e fazia seu sangue gelar já não lhe causa a menor preocupação.
Posso falar por experiência própria. Quando ouvi um juramento blasfemo pela primeira vez, fiquei horrorizado e não sabia onde me esconder. Hoje, porém, posso ouvir imprecações e blasfêmias contra Deus e, embora ainda sinta um arrepio percorrer meu corpo, já não experimento aquele sentimento solene, aquela angústia intensa que senti quando ouvi tais palavras pela primeira vez.
Gradualmente, acostumamo-nos ao pecado.
O ouvido acostumado ao estrondo dos canhões deixa de perceber os sons mais fracos. Os homens que trabalham em enormes embarcações, onde o martelar produz um ruído imenso, não conseguem dormir no início por causa do barulho contínuo. Mas, depois de algum tempo, acostumam-se e passam a não dar importância àquilo.
Assim acontece com o pecado.
Primeiro, um pequeno pecado nos assusta. Logo começamos a dizer: “Não é ele um pecado pequeno?”, como Ló disse a respeito de Zoar.
Depois vem outro pecado, um pouco maior, e em seguida mais outro. Pouco a pouco, começamos a considerar o mal como algo insignificante.
Então surge a presunção ímpia, e pensamos estar firmes.
“Não caímos”, dizemos. “Fizemos apenas uma pequena coisa. Não nos desviamos do caminho. É verdade que tropeçamos um pouco, mas, no essencial, permanecemos de pé. Talvez tenhamos pronunciado uma palavra imprópria, mas a maior parte de nossa conversa foi correta.”
Assim, procuramos desculpar o pecado. Passamos uma camada de verniz sobre ele e tentamos escondê-lo.
Cristão, cuidado! Quando você começa a considerar o pecado como algo insignificante, já se tornou presunçoso. Tome cuidado para não cair.
O pecado é uma coisa pequena? Acaso não é um veneno? Quem conhece toda a sua capacidade de destruição?
O pecado é uma coisa pequena? Não são as pequenas raposas que estragam as vinhas?
O pecado é uma coisa pequena? Acaso o minúsculo pólipo de coral não constrói recifes capazes de despedaçar uma frota inteira?
Não são pequenos golpes que derrubam carvalhos majestosos? Não são as gotas contínuas que desgastam as pedras?
O pecado é uma coisa pequena? Foi ele que coroou de espinhos a cabeça daquele que agora está coroado de glória.
O pecado é uma coisa pequena? Foi ele que lhe trouxe angústia, amargura e sofrimento, até que Ele suportou:
“Tudo quanto o Deus encarnado podia suportar, com força suficiente, mas sem nenhuma sobra.”
Não, senhores, o pecado não é algo pequeno.
Se vocês pudessem pesá-lo na balança da eternidade, fugiriam dele como de uma serpente e abominariam até mesmo a menor aparência do mal.
Entretanto, infelizmente, pensamentos levianos a respeito do pecado frequentemente produzem um espírito presunçoso, e então pensamos estar firmes.
3. Uma avaliação muito baixa do valor da religião
Uma terceira causa é a pouca importância que damos à religião.
Nenhum de nós valoriza a religião o suficiente. O chamado fanatismo religioso é motivo de zombaria em toda parte. Mas não acredito que exista algo como excesso de zelo religioso quando se trata de amar verdadeiramente a Deus.
Se um homem fosse tão fervoroso a ponto de entregar seu corpo para ser queimado na fogueira, derramar cada gota de seu sangue e transformar cada gota em uma vida, para que essa vida também fosse sacrificada em um martírio contínuo, ainda assim não amaria a Deus em excesso.
Ah, não!
Quando pensamos que este mundo é apenas um espaço estreito, que o tempo logo terminará e que entraremos na eternidade sem fim; quando consideramos que viveremos no céu ou no inferno durante uma existência interminável, como poderíamos amar demais?
Como poderíamos atribuir um valor excessivo à alma imortal? Poderíamos pedir um preço alto demais pelo céu? Poderíamos fazer demais para servir ao Deus que se entregou por nossos pecados?
Certamente, não!
E, ainda assim, meus amigos, a maioria de nós não reconhece suficientemente o valor da religião.
Nenhum de nós consegue avaliar corretamente a alma. Não temos nada com que compará-la. O ouro é apenas pó terreno; os diamantes não passam de pequenas massas de matéria condensada que podem ser reduzidas a nada. Não possuímos qualquer coisa que possa servir de comparação para a alma e, por isso, não conseguimos compreender plenamente o seu valor.
É justamente por não reconhecermos esse valor que nos tornamos presunçosos.
O avarento que ama seu ouro permite que ele fique espalhado pelo chão, ao alcance dos ladrões? Não o esconde em algum lugar secreto, onde ninguém possa vê-lo? Dia após dia, noite após noite, conta seu tesouro porque o ama.
Uma mãe confiaria seu bebê aos cuidados do acaso à beira de um rio? Mesmo durante o sono, ela não deixaria de pensar nele. E, se a criança adoecesse, ela a entregaria sem preocupação aos cuidados de uma enfermeira descuidada, que talvez permitisse que morresse?
Certamente, não!
Aquilo que amamos não jogamos fora de maneira irresponsável. Aquilo que consideramos extremamente precioso protegemos com o maior cuidado.
Assim, se os cristãos conhecessem o valor de suas almas e avaliassem a religião de maneira apropriada, jamais seriam presunçosos.
Pensamentos baixos a respeito de Cristo, pensamentos baixos a respeito de Deus e uma compreensão superficial do destino eterno de nossas almas — todas essas coisas nos levam a uma segurança descuidada.
Portanto, cuidado com uma compreensão rebaixada do Evangelho, para que o maligno não os surpreenda.
4. A ignorância a respeito de quem somos e da condição em que nos encontramos
Mas essa presunção também costuma nascer da ignorância sobre quem somos e sobre a condição em que nos encontramos.
Muitos cristãos ainda não aprenderam o que realmente são. É verdade que uma das primeiras lições de Deus consiste em nos mostrar nossa própria condição, mas só compreendemos isso profundamente muitos anos depois de conhecermos Jesus Cristo.
As fontes do grande abismo que existe dentro de nosso coração não são rompidas de uma só vez. A corrupção de nossa alma não se manifesta inteiramente em uma única hora.
O anjo mostrou a Ezequiel as abominações de Israel. Primeiro, levou-o a um lugar onde ele viu coisas abomináveis e ficou horrorizado.
Então disse:
“Filho do homem, eu te mostrarei abominações maiores do que estas.”
Levou-o a outra câmara, e Ezequiel provavelmente pensou que já havia visto o pior.
Mas o anjo declarou:
“Não. Eu te mostrarei coisas ainda mais terríveis.”
Assim, durante toda a nossa vida, o Espírito Santo vai revelando as horríveis abominações que existem em nosso coração.
Sei que alguns aqui nem sequer pensam nisso. Consideram-se pessoas de bom coração.
Bom coração, vocês dizem? Um coração bom?
Jeremias tinha um coração melhor do que o de vocês e, ainda assim, declarou:
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?”
Não, essa sombria lição não pode ser aprendida em uma única noite.
Somente Deus conhece toda a maldade do coração. Como disse o poeta Edward Young, Deus poupa todos os olhos, exceto os seus, daquela visão terrível: a visão do coração humano.
Se pudéssemos enxergá-lo como realmente é, ficaríamos horrorizados.
Pois bem, é a ignorância a respeito dessa realidade que nos torna presunçosos.
Dizemos:
“Tenho uma boa natureza. Possuo um temperamento nobre. Não tenho aquelas paixões violentas e iradas que outras pessoas possuem. Posso permanecer seguro. Não tenho um coração seco como palha, que pega fogo ao menor contato. Minhas paixões estão enfraquecidas, minha capacidade para o mal diminuiu e posso permanecer firme sem perigo.”
Ah! Vocês mal percebem que é justamente quando falam dessa maneira que estão demonstrando presunção.
Ó verme da terra, você ainda não está livre de sua natureza pecaminosa! O pecado e a corrupção permanecem no coração até mesmo daqueles que foram regenerados.
E é surpreendentemente verdadeiro, embora pareça um paradoxo, aquilo que Ralph Erskine afirmou: que, às vezes, o cristão se percebe inclinado
“Para o bem e para o mal,
sendo ao mesmo tempo um demônio e um santo.”
Existe tanta corrupção no cristão que, embora ele seja santo em sua vida e justificado por meio de Cristo, às vezes parece um demônio em sua imaginação e um espírito maligno nos desejos e nas corrupções de sua alma.
Cuidado, cristão! Você precisa permanecer vigilante, como alguém colocado em uma torre de observação. Existe em você um coração inclinado à incredulidade. Portanto, vigie dia e noite.
5. O orgulho: a principal causa da presunção
Para concluir esta descrição do homem presunçoso, afirmo que o orgulho é a causa mais poderosa da presunção.
Em todas as suas diversas formas, o orgulho é a fonte da falsa segurança carnal.
Às vezes, trata-se do orgulho dos talentos.
Deus concedeu dons a determinado homem. Ele é capaz de falar diante de multidões ou de escrever para um grande número de pessoas. Possui uma mente perspicaz, bom julgamento e outras habilidades semelhantes.
Então começa a pensar:
“Os ignorantes, aqueles que não possuem talentos, talvez caiam. Meu irmão precisa tomar cuidado, mas olhem para mim! Vejam a grandeza de que estou revestido!”
Assim, satisfeito consigo mesmo, pensa estar firme.
Ah! São justamente esses homens que caem.
Quantos que brilhavam como cometas no céu do mundo religioso avançaram pelo espaço e acabaram apagados na escuridão!
Quantos homens se colocaram diante de seus semelhantes como profetas e, envoltos em sua própria arrogância, exclamaram:
“Somente eu estou vivo! Sou o único profeta de Deus!”
E, no entanto, esse mesmo profeta caiu. Sua lâmpada se apagou, e sua luz desapareceu na escuridão.
Quantos se vangloriaram de seu poder e de sua dignidade, dizendo: “Construí esta grande Babilônia!”, mas, porque pensavam estar firmes, caíram imediatamente.
“Aquele, pois, que pensa estar em pé”, mesmo que possua os talentos mais extraordinários, “veja que não caia”.
Há também aqueles que se orgulham de sua graça espiritual.
Isso pode parecer estranho, mas existe algo como o orgulho da graça.
Um homem diz:
“Tenho uma fé muito forte. Não cairei. O pobre Pequeno na Fé talvez caia, mas eu jamais.”
Outro afirma:
“Meu amor é fervoroso. Posso permanecer firme; não corro o risco de me desviar. Quanto àquele meu irmão, ele é tão frio e lento que certamente cairá.”
Um terceiro declara:
“Tenho uma esperança do céu tão ardente que ela triunfará. Essa esperança purificará minha alma dos desejos carnais e do pecado, assim como Cristo, o Senhor, é puro. Estou seguro.”
Aquele que se vangloria de sua graça demonstra ter pouca graça da qual se vangloriar.
Alguns, porém, imaginam que suas próprias virtudes espirituais serão suficientes para mantê-los firmes. Esquecem-se de que o rio precisa receber continuamente água de sua nascente; caso contrário, seu leito logo ficará seco, e as pedras do fundo aparecerão.
Se o azeite não continuar chegando à lâmpada, ela poderá brilhar intensamente hoje, mas amanhã começará a fumegar, espalhando um odor desagradável.
Portanto, tomem cuidado para não se gloriarem nem em seus talentos nem em suas graças.
Muitos vão ainda mais longe. Pensam que não cairão por causa de seus privilégios religiosos.
Dizem:
“Participo da Ceia do Senhor. Fui batizado de maneira ortodoxa, conforme está escrito na Palavra de Deus. Frequento determinada igreja e desfruto de um ministério sólido. Sou bem alimentado espiritualmente. Estou saudável e florescendo nos átrios do meu Deus. Se eu fosse uma daquelas criaturas famintas que ouvem um falso evangelho, talvez pecasse. Mas nosso pastor é um modelo de perfeição. Somos constantemente alimentados e fortalecidos. Certamente permaneceremos firmes!”
Satisfeitos com seus privilégios, passam a desprezar os outros, exclamando:
“Minha montanha está firmemente estabelecida; jamais serei abalado!”
Cuidado com a presunção! O orgulho precede a queda, e o espírito arrogante anuncia a destruição.
Vigiem seus passos, pois, onde o orgulho se instala, ele se torna como o verme na raiz da planta, fazendo-a murchar e morrer.
“Aquele, pois, que pensa estar em pé”, seja por orgulho de seus talentos, de sua graça ou de seus privilégios, “veja que não caia”.
Espero ter tocado o coração de alguns aqui. Confio que o instrumento tenha sido afiado. Tomei o bisturi e espero ter descoberto alguma coisa.
Ó presunçosos, falo diretamente a vocês e continuarei a fazê-lo enquanto os advirto sobre o perigo que correm.
II. O PERIGO DA PRESUNÇÃO
Serei mais breve neste segundo ponto: o perigo.
Aquele que pensa estar firme corre o risco de cair.
O verdadeiro cristão não pode sofrer uma queda definitiva que destrua sua salvação, mas está sujeito a quedas vergonhosas e dolorosas.
Embora o cristão não tropece de modo a perder a vida eterna, pode quebrar um membro. Embora Deus tenha ordenado aos seus anjos que o guardem em todos os seus caminhos, não existe promessa de proteção para aquele que deliberadamente se desvia. Quando se afasta do caminho, pode ferir a si mesmo com muitas dores.
1. A falsa segurança torna o cristão descuidado diante da tentação
Preciso explicar por que aquele que pensa estar firme fica mais exposto ao perigo da queda do que os outros.
Em primeiro lugar, porque essa pessoa, no meio da tentação, certamente será mais ou menos descuidada.
Faça alguém acreditar que é muito forte. O que acontecerá?
A batalha se intensifica ao seu redor, mas ele mantém a espada na bainha.
“Ah!”, diz ele, “meu braço é ágil e forte. Posso sacar a espada e desferir golpes certeiros.”
Talvez, então, deite-se no campo de batalha ou durma preguiçosamente em sua tenda.
“Quando ouvir os inimigos se aproximando”, afirma, “meu vigor e minha força serão suficientes para derrubá-los aos milhares. Sentinelas, vigiem os fracos! Vão até aqueles que estão prestes a tropeçar e até os temerosos, e despertem-nos. Eu, porém, sou um gigante! Basta colocar esta velha espada de Toledo em minhas mãos, e ela atravessará corpo e alma. Quando encontrar meus inimigos, serei mais que vencedor.”
Esse homem se torna descuidado em plena batalha.
Levanta o capacete, como dizem que Golias fez, e uma pedra lhe atravessa a testa. Joga fora o escudo, e uma flecha penetra sua carne. Guarda a espada na bainha, e o inimigo o ataca quando está despreparado para resistir.
O homem que pensa ser forte baixa a guarda. Não está pronto para aparar o golpe do maligno, e então o punhal penetra sua alma.
2. A presunção leva o homem a se aproximar da tentação
Em segundo lugar, aquele que pensa estar firme não terá o cuidado de manter-se longe da tentação. Pelo contrário, correrá em sua direção.
Lembro-me de ter visto um homem que se dirigia a um lugar de entretenimento mundano. Ele professava a fé cristã, e eu lhe perguntei:
“O que você está fazendo aí, Elias?”
“Por que me faz uma pergunta dessas?”, respondeu ele.
“Que fazes aqui, Elias? Você está indo para aquele lugar?”
“Sim”, respondeu, um pouco envergonhado, “mas posso frequentá-lo sem sofrer qualquer prejuízo.”
“Eu não poderia”, respondi. “Se estivesse ali, sei que acabaria pecando. Não me preocupo com o que as pessoas dizem a meu respeito; procuro agir conforme aquilo que considero correto. Mas aquele lugar é perigoso, e eu não poderia frequentá-lo sem correr riscos.”
“Ah!”, disse ele. “Eu posso. Já estive lá antes e tive pensamentos muito agradáveis. Acredito que aquele ambiente amplia a inteligência. Você é muito limitado. Não desfruta dessas coisas boas. Garanto que é uma experiência enriquecedora. Se eu fosse você, iria.”
“Não”, respondi. “Isso seria perigoso para mim. Pelo que ouvi, o nome de Jesus é profanado naquele lugar, e muitas coisas são ditas em completa oposição à religião que professamos. As pessoas que frequentam aquele ambiente não são das melhores, e certamente dirão que os semelhantes se atraem.”
“Bem”, respondeu ele, “talvez vocês, jovens, devam ficar longe. Eu sou um homem forte e posso ir.”
E lá se foi ele para o lugar de diversão.
Senhores, aquele homem era como uma maçã de Sodoma: belo por fora, mas podre por dentro. Ele professava a religião, e justamente por isso suspeitei que houvesse algo corrompido em seu interior. A experiência confirmou minha suspeita, pois aquele homem já era inteiramente dominado pela sensualidade. Usava uma máscara, era hipócrita e não possuía a graça de Deus no coração.
Os presunçosos dizem que podem se aproximar do pecado porque estão cheios de força moral. Mas, quando alguém lhe disser que é muito bom, procure compreender suas palavras pelo sentido oposto: muitas vezes, isso significa que sua condição é muito pior do que imagina.
O homem autoconfiante corre o risco de cair porque se lança na própria tentação, convencido de que é forte o bastante para escapar dela.
3. A confiança em si mesmo leva ao desprezo dos meios da graça
Outra razão para a queda é que essas pessoas, por se considerarem fortes, deixam de utilizar os meios da graça.
Há pessoas aqui que provavelmente nunca frequentam um lugar de culto. Não professam ser religiosas. Contudo, ficariam espantadas se eu lhes dissesse que conheço pessoas que professam a fé cristã e são consideradas, em algumas igrejas, verdadeiros filhos de Deus, mas que fazem questão de permanecer longe da casa de Deus porque se consideram espiritualmente avançadas demais para precisar dela.
Vocês talvez sorriam diante de algo assim.
Essas pessoas se vangloriam de possuir uma experiência espiritual profunda. Têm em casa uma coleção de sermões edificantes e preferem ficar ali, lendo-os. Não precisam ir à casa de Deus, dizem, porque já estão espiritualmente saudáveis e florescendo.
Imaginam ter recebido, sete anos atrás, alimento espiritual suficiente para os próximos dez anos. Acreditam que o alimento antigo continuará sustentando suas almas no presente.
Esses são os presunçosos.
Eles não são encontrados à mesa do Senhor, participando dos santos símbolos do pão e do vinho, que representam o corpo e o sangue de Cristo. Não os vemos em seus aposentos secretos de oração. Não os encontramos examinando as Escrituras com santa curiosidade.
Pensam estar firmes e acreditam que jamais serão abalados.
Imaginam que os meios da graça foram destinados aos cristãos mais fracos. Assim, abandonam esses recursos e acabam caindo.
Recusam-se a calçar os pés com o calçado apropriado e, por isso, as pedras afiadas os ferem. Não vestem a armadura e, consequentemente, o inimigo os atinge — às vezes, quase mortalmente.
Nesse profundo atoleiro de negligência dos meios da graça, muitos professos orgulhosos da fé acabaram sufocados.
4. O Espírito de Deus se afasta dos orgulhosos
Mais uma vez, o homem autoconfiante corre um perigo terrível porque o Espírito de Deus sempre se afasta dos orgulhosos.
O Espírito da graça tem prazer em habitar nos lugares humildes.
A santa pomba desceu sobre o Jordão. Não lemos que tenha repousado sobre Basã. O homem montado no cavalo branco cavalgou entre as murtas, não entre os cedros. As murtas cresciam ao pé das montanhas; os cedros, em seus cumes.
Deus ama a humildade.
O homem que caminha com temor e tremor, receando desviar-se do caminho, é aquele a quem o Espírito ama.
Mas, quando o orgulho se instala e o homem declara: “Agora não corro perigo algum”, a pomba vai embora. Ela sobe aos céus e não quer mais permanecer com ele.
Almas orgulhosas, vocês apagam o Espírito! Homens arrogantes, vocês entristecem o Espírito Santo!
Ele se afasta de todo coração em que o orgulho habita. Esse espírito maligno de Lúcifer é abominável para Ele. O Espírito não repousará onde ele estiver, nem permanecerá em sua companhia.
Eis o maior perigo para vocês, orgulhosos: o Espírito se afasta daqueles que negam sua completa dependência dele.
III. O CONSELHO: TENHA CUIDADO PARA NÃO CAIR
Chegamos ao terceiro ponto: o conselho.
Já expliquei o texto e agora desejo aplicá-lo com insistência.
Se meu Senhor me permitisse, eu falaria diretamente à alma de cada um de vocês e descreveria o perigo do homem presunçoso de tal maneira que todos clamariam aos céus, preferindo morrer a viver na presunção.
Prefeririam ser encontrados entre aqueles que permanecem prostrados aos pés de Cristo, tremendo durante toda a vida, a estar entre os que pensam estar firmes e, por isso, acabam caindo.
Cristão, o conselho das Escrituras é este: tenha cuidado!
1. Tenha cuidado, porque muitos já caíram
Meu irmão, se eu pudesse levá-lo às enfermarias daquele hospital onde jazem cristãos feridos e enfermos, conseguiria fazê-lo tremer.
Mostraria alguém que, por causa de um pecado cometido em um único instante, ficou tão profundamente ferido que sua vida inteira se transformou em uma sequência contínua de sofrimentos.
Mostraria outro, um homem de extraordinário talento, que servia a Deus com energia e dedicação, mas que agora — embora não tenha se tornado propriamente um sacerdote do diabo, está quase nessa condição — vive mergulhado no desespero por causa de seu pecado.
Poderia apontar ainda outra pessoa que antes ocupava um lugar respeitado na igreja, piedosa e coerente em sua conduta, mas que agora retorna à mesma casa de oração como alguém envergonhado de si próprio. Senta-se em algum canto afastado e já não recebe a bondade que antes lhe era demonstrada. Os próprios irmãos desconfiam dele, pois foram profundamente enganados, e a causa de Cristo sofreu grande desonra por sua culpa.
Ah! Vocês conhecem a dor profunda daqueles que caem?
Se soubessem quantos caíram — e não pereceram, é verdade —, mas passaram o restante da existência arrastando-se em sofrimento, certamente teriam muito mais cuidado.
Venham comigo até o pé da montanha da presunção.
Vejam ali os corpos mutilados e contorcidos de muitos que outrora voavam com as asas de Ícaro pelas regiões elevadas da autoconfiança. Agora estão caídos, com os ossos quebrados e a paz destruída.
Ali está alguém que possui vida imortal em seu interior. Vejam como parece sofrer! Parece apenas uma massa indefesa. Está vivo, é verdade, mas mal consegue viver.
Vocês não imaginam como alguns daqueles que serão salvos chegam ao céu, “como que através do fogo”.
Um homem caminha em direção ao céu e permanece fiel. Deus está com ele, e ele é feliz durante toda a jornada.
Outro diz: “Sou forte, não cairei”.
Desvia-se do caminho para colher uma flor e encontra algo que o diabo colocou diante dele. Primeiro, fica preso em uma armadilha; depois, em outra.
Quando finalmente se aproxima do rio, em vez de encontrar diante de si aquela corrente de néctar da qual bebe o cristão ao morrer, vê fogo ardendo sobre a superfície da água. O rio está em chamas, e ele precisa atravessá-lo.
Ao entrar na corrente, sente-se queimado e chamuscado. A mão de Deus está estendida, dizendo:
“Venha, continue vindo!”
Mas, ao colocar o pé na corrente, percebe as chamas se acendendo ao seu redor. Embora a mão divina o agarre pelos cabelos e o arraste através do fogo, ele finalmente chega à margem do céu e exclama:
“Sou um monumento da misericórdia divina, pois fui salvo como que através do fogo!”
Ó cristãos, vocês desejam ser salvos através do fogo?
Não prefeririam entrar no céu cantando louvores? Não gostariam de glorificar a Deus durante sua vida e dar seu último testemunho com estas palavras: “Vitória, vitória, vitória àquele que nos amou”, para então fechar os olhos na terra e abri-los no céu?
Se esse é o seu desejo, não vivam na presunção.
“Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.”
2. Tenha cuidado, porque uma queda prejudica a causa de Cristo
Mais uma vez, meu irmão, tenha cuidado, pois uma queda pode causar enormes danos à causa de Cristo.
Nada prejudicou tanto a religião — nem sequer uma fração do que isso — quanto as quedas daqueles que pertencem ao povo de Deus.
Ah! Quando um verdadeiro cristão peca, como o mundo aponta o dedo para ele!
“Aquele homem era diácono, mas cobra preços exorbitantes. Aquele homem professava a fé, mas engana os outros como qualquer pessoa. Aquele homem é ministro, mas vive no pecado.”
Quando os poderosos caem, cumpre-se a expressão: “Exulta, ó cipreste, porque caiu o cedro!”
Como o mundo se alegra! As pessoas zombam de nossos pecados e se regozijam com nossas falhas. Rodeiam-nos e, se descobrem um único ponto vulnerável, logo dizem:
“Vejam! Essas pessoas que se dizem santas não são melhores do que deveriam ser!”
Por causa de um hipócrita, muitos julgam todos os demais da mesma maneira.
Há pouco tempo, ouvi um homem dizer que não acreditava na existência de um único cristão verdadeiro, porque havia encontrado muitos hipócritas.
Lembrei-lhe que não poderiam existir hipócritas se não existissem pessoas genuínas. Ninguém tentaria falsificar notas de banco se não houvesse notas verdadeiras. Ninguém tentaria passar uma moeda falsa se não existissem moedas legítimas.
Portanto, a existência de alguns hipócritas demonstra que também existem pessoas verdadeiramente sinceras.
Mas aqueles que professam a fé devem ter cuidado. Que sua conduta tenha sempre a autenticidade do ouro verdadeiro. Que seu comportamento seja digno do Evangelho de Cristo, para que o inimigo não obtenha vantagem sobre nós nem difame o nome de Jesus.
Isso é especialmente importante para os membros de nossa própria denominação, pois frequentemente se afirma que as doutrinas que professamos tendem a conduzir ao pecado.
Já ouvi declarações categóricas de que as doutrinas elevadas que amamos e encontramos nas Escrituras seriam permissivas e favoreceriam a libertinagem.
Não sei como alguém tem a ousadia de fazer tal afirmação quando considera que alguns dos homens mais santos da história creram nessas verdades.
Pergunto àquele que se atreve a dizer que o calvinismo é uma religião permissiva: o que pensa do caráter de Agostinho, de Calvino ou de Whitefield, que, em diferentes épocas, foram grandes defensores desse sistema da graça?
E o que dirá daqueles puritanos cujas obras estão repletas dessas doutrinas?
Naqueles dias, se alguém fosse arminiano, teria sido considerado o mais desprezível dos hereges. Hoje, porém, somos vistos como hereges, enquanto eles são considerados ortodoxos.
Voltamos à antiga escola e podemos traçar nossa descendência espiritual até os apóstolos.
Foi essa corrente da livre graça, que percorre a pregação dos batistas, que preservou nossa denominação. Sem ela, não estaríamos onde estamos hoje.
Podemos estabelecer uma ligação dourada desde este lugar até o próprio Jesus Cristo, passando por uma sucessão de grandes e santos pais da fé que sustentaram essas verdades gloriosas.
E podemos perguntar: onde vocês encontrarão homens mais santos e melhores do que esses?
Não temos vergonha de afirmar que, por mais que sejamos difamados e caluniados, dificilmente se encontrará um povo que procure viver mais perto de Deus do que aqueles que creem que são salvos não por suas obras, mas exclusivamente pela livre graça.
Entretanto, vocês que creem na livre graça precisam ter cuidado!
Nossos inimigos odeiam essa doutrina e, quando alguém cai, dizem:
“Está vendo? Eis a consequência de seus princípios!”
Poderíamos responder:
“Não! Observem as consequências de sua própria doutrina.”
O caso excepcional de uma queda não anula a regra; antes, a regra permanece verdadeira: nosso Evangelho conduz à santidade.
Entre todos os homens, aqueles que demonstram a piedade mais desinteressada, a reverência mais sublime e a devoção mais ardente são os que creem que são salvos pela graça, sem obras, mediante a fé — e que essa fé não vem de nós, mas é dom de Deus.
Cristão, tenha cuidado para que, de maneira alguma, Cristo seja novamente crucificado e exposto à vergonha pública por causa de sua conduta.
E agora, o que mais posso dizer?
Ó meus amados, meus irmãos, não pensem que estão firmes, para que não venham a cair.
Ó companheiros herdeiros da vida eterna e da glória, estamos caminhando por esta cansativa peregrinação. E eu, a quem Deus chamou para pregar a vocês, volto-me com carinho para os mais frágeis e digo:
Tenham cuidado para não cair!
Meu irmão, não tropece. Ali está a armadilha; acolá, o laço. Vim para retirar as pedras do caminho e remover os obstáculos que podem fazê-lo cair. Mas de que adiantará meu trabalho se vocês mesmos não caminharem com prudência, cuidado e vigilância?
Ó meus irmãos, dediquem-se à oração muito mais do que antes. Passem mais tempo em santa adoração. Leiam as Escrituras com maior seriedade e constância. Vigiem sua vida com mais cuidado.
Vivam mais perto de Deus. Tomem os melhores exemplos como modelo. Que suas palavras e conversas exalem o perfume do céu. Que seus corações sejam perfumados pelo amor às almas dos homens.
Vivam de tal maneira que as pessoas reconheçam que vocês estiveram com Jesus e aprenderam dele.
E, quando chegar o dia feliz em que aquele a quem vocês amam disser: “Suba mais alto”, que seja sua alegria ouvi-lo declarar:
“Venha, meu amado! Você combateu o bom combate, terminou a carreira e, de agora em diante, está reservada para você a coroa da justiça, que jamais perderá seu brilho.”
Avante, cristão, mas prossiga com cuidado e prudência!
Avante, com santo temor e tremor!
Avante, também com fé e confiança, pois Deus não permitirá que você caia definitivamente.
Leia o versículo seguinte deste mesmo capítulo:
“Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar.”
Uma palavra final aos que ainda não confiaram em Cristo
Mas talvez haja aqui pessoas que nunca mais ouvirão minha voz.
Com a ajuda de Deus, não permitirei que minha congregação vá embora sem lhe mostrar o caminho da salvação.
Senhores, alguns de vocês sabem que ainda não creram em Cristo. Se morressem agora, exatamente onde estão sentados, não teriam esperança de ressuscitar para a felicidade dos glorificados.
Quantos há aqui que, se seus corações pudessem falar, teriam de confessar que vivem sem Deus, sem Cristo e como estrangeiros à comunidade de Israel?
Permitam-me, então, dizer-lhes o que precisam fazer para ser salvos.
Seu coração está profundamente inquieto? Vocês se entristecem por causa de seus pecados? Arrependem-se de suas iniquidades? Desejam voltar-se para o Deus vivo?
Se assim é, este é o caminho da salvação:
“Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.”
Não posso inverter a ordem estabelecida por meu Mestre. Ele diz primeiro “crer” e depois “ser batizado”. E também declara que aquele que não crê será condenado.
Ó meus ouvintes, suas obras não podem salvá-los!
Embora eu tenha falado aos cristãos e os exortado a praticar boas obras, não falo dessa maneira a vocês que ainda não creram. Não lhes peço que procurem obter a flor antes de possuir a semente. Não lhes direi que construam o telhado antes de estabelecerem os alicerces da casa.
Creiam no nome do Senhor Jesus Cristo, e vocês serão salvos.
Todo aquele que agora se lançar aos pés de Jesus, reconhecendo-se culpado e indigno, e se entregar aos braços do amor eterno será aceito.
Essa pessoa sairá por aquela porta justificada e perdoada, com a alma tão segura quanto se já estivesse no céu, sem o perigo de perder-se eternamente.
Tudo isso é recebido mediante a fé em Cristo.
Certamente vocês não precisam de argumentos adicionais. Se eu pensasse que precisavam, eu os apresentaria.
Eu permaneceria aqui chorando até que vocês viessem a Cristo. Se acreditasse que possuo força suficiente para conduzir uma alma a Jesus, se pensasse que a persuasão humana poderia conquistá-los, iria de assento em assento, suplicando a cada um, em nome de Deus, que se arrependesse.
Mas, como não posso fazer isso por minhas próprias forças, cumpri meu dever ao profetizar aos ossos secos.
Lembrem-se: nós nos encontraremos novamente.
Não me vanglorio de eloquência nem de talento, e não compreendo por que vocês vêm me ouvir. Simplesmente falo com franqueza e lhes digo aquilo que sinto.
Mas prestem atenção: quando nos encontrarmos diante do tribunal de Deus, por mais imperfeitamente que eu tenha falado, poderei declarar que lhes disse:
“Creiam no nome de Jesus, e vocês serão salvos!”
Por que vocês morreriam, ó casa de Israel?
O inferno é tão agradável? Os tormentos eternos são tão desejáveis que vocês estão dispostos a abrir mão das glórias do céu e da felicidade da eternidade?
Homens, vocês viverão para sempre? Ou morrerão como os animais?
“Queremos viver!”, vocês dizem.
Muito bem! Então não desejam viver em um estado de felicidade eterna?
Que Deus lhes conceda graça para se voltarem a Ele de todo o coração!
Venha, pecador culpado, venha!
Que Deus o ajude a vir a Cristo. E estarei amplamente recompensado se, por meio de alguma coisa que eu tenha dito, uma única alma for acrescentada ao rebanho visível de Jesus.
Amém.
Fonte: The Metropolitan Tabernacle Pulpit — Coleção de C. H. Spurgeon. O texto original informa que foram feitas apenas alterações necessárias, como correções ortográficas, ajustes de pontuação, padronização de referências a Deus e pequenas atualizações de palavras arcaicas. O conteúdo foi preservado integralmente.
Recursos adicionais baseados na Bíblia: www.spurgeongems.org
