Sermão nº 32 — Charles H. Spurgeon
Sermão pregado na manhã de domingo, 1º de julho de 1855, pelo Rev. C. H. Spurgeon, na Capela de New Park Street, Southwark.
Texto bíblico: “E os apóstolos disseram ao Senhor: Aumenta-nos a fé.” — Lucas 17:5
Introdução
Certamente, se os apóstolos disseram isso, todos nós, sem exceção, precisamos fazer a mesma oração. Se os doze homens mais poderosos do exército do Senhor dos Exércitos necessitavam de tal súplica, que diremos nós, que somos apenas soldados da retaguarda, os mais fracos entre os santos? Se esperamos alcançar a vitória, não nos convém também orar: “Senhor, aumenta-nos a fé”?
Há uma discussão a respeito da ocasião em que essas palavras foram pronunciadas. Alguns acreditam que devemos procurar a explicação no contexto do capítulo. Jesus Cristo havia ensinado aos discípulos que, se um irmão pecasse contra eles sete vezes em um só dia e, sete vezes, voltasse dizendo: “Arrependo-me”, deveriam perdoá-lo. Essa ordem levou os apóstolos a dizer: “Aumenta-nos a fé”.
Eles consideravam tão difícil a tarefa de perdoar incessantemente e conceder perdão repetidas vezes que se sentiram incapazes de cumpri-la sem um grande aumento de fé.
Outros pensam — talvez com maior probabilidade — que essa oração foi feita quando os apóstolos tentaram expulsar os espíritos malignos de um pobre homem endemoninhado, mas fracassaram.
“E perguntaram a Jesus: Por que não pudemos nós expulsá-lo? E ele lhes respondeu: Por causa da vossa pequena fé. Porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há de passar; e nada vos será impossível.” Então disseram ao Senhor: “Aumenta-nos a fé”.
Entretanto, seja qual for a ocasião específica em que essa oração foi pronunciada, sempre encontraremos motivos suficientes para apresentá-la. E não sei se esta manhã não será uma ocasião especial para que cada um de nós eleve a Deus a mesma súplica: “Senhor, aumenta-nos a fé”.
Passaremos imediatamente ao assunto. Primeiro, consideraremos o objeto da preocupação dos apóstolos: a sua fé. Em segundo lugar, examinaremos o desejo de seus corações: “Aumenta-nos a fé”. E, por fim, veremos a pessoa em quem depositaram sua confiança para fortalecer a fé: “Disseram ao Senhor: Aumenta-nos a fé”.
I. O objeto da preocupação dos apóstolos era a fé
A fé é de importância suprema para o cristão. Não há nada com que devamos nos preocupar mais profunda e sinceramente do que com a nossa fé.
Procurarei demonstrar isso por meio de sete ou oito razões. Que Deus as grave em nosso coração e as aplique à nossa vida, para que cada um de nós se preocupe profundamente em saber se possui uma fé verdadeira e viva, que o une ao Cordeiro e traz salvação à sua alma.
1. A fé é indispensável à salvação
Meus amigos, devemos cuidar extremamente da nossa fé, tanto de sua autenticidade quanto de sua força.
Em primeiro lugar, consideremos a posição que a fé ocupa na salvação. A fé é a graça pela qual recebemos a salvação. Não somos salvos pelo amor, mas pela graça, mediante a fé. Não somos salvos pela coragem nem pela paciência, mas pela fé. Isso significa que Deus concede sua salvação à fé, e não a qualquer outra virtude.
Em nenhum lugar está escrito: “Aquele que ama será salvo”. Tampouco encontramos a declaração de que o pecador paciente será salvo. Mas está escrito: “Quem crer e for batizado será salvo.”
A fé é uma parte vital da salvação. Se alguém não tem fé, não tem coisa alguma. “Sem fé é impossível agradar a Deus.”
Se um homem possui fé verdadeira, ainda que tenha pouco de qualquer outra virtude, está seguro. Mas suponhamos que alguém pudesse possuir todas as virtudes do mundo. Que fosse exteriormente tão cristão quanto o próprio apóstolo Paulo; que tivesse o zelo de um serafim e servisse ao seu Mestre com a dedicação que poderíamos esperar de um anjo no céu. Ainda assim, se não tivesse fé, a Palavra de Deus declararia: “Sem fé é impossível agradar a Deus”.
A fé é a graça salvadora. Ela é o elo que liga a alma a Cristo. Retire esse elo, e tudo estará perdido.
Tire a fé, e será como se você serrasse a quilha de um navio: ele inevitavelmente afundará. Tire a fé, e terá removido o meu escudo; serei, então, abatido. Tire a fé, e a vida cristã se tornará uma nulidade. Ela se extinguirá imediatamente, pois “o justo viverá da fé”. E, sem fé, como poderia viver?
Considerando, portanto, que a fé é tão importante para a salvação, cada um de nós deve investigar seriamente se realmente a possui.
Oh, meus irmãos, há milhares de imitações no mundo, milhares de falsificações da fé. Entretanto, existe apenas uma fé verdadeira, viva e salvadora.
Há muitas formas de fé meramente intelectual: uma fé que consiste apenas em sustentar um credo correto; uma fé que leva os homens a acreditar em uma mentira, assegurando-lhes que estão seguros enquanto continuam presos à amargura e à iniquidade; uma fé que consiste na presunção de confiar em si mesmo.
Existem inúmeras falsificações, mas somente uma fé verdadeira.
Oh! Se vocês desejam ser salvos no final e não querem enganar a si mesmos, caminhando de olhos fechados em direção à perdição, tomem hoje a sua fé nas mãos e examinem se ela é genuína, como uma moeda de ouro legítima.
Devemos cuidar da nossa fé mais do que de qualquer outra coisa. É verdade que precisamos examinar nossa conduta, investigar nossas obras e provar nosso amor. Mas, acima de tudo, precisamos examinar a nossa fé, pois, se ela estiver errada, tudo estará errado. Se estiver correta, poderemos considerá-la uma prova da sinceridade do nosso coração.
“Aquele que crê no Filho de Deus tem em si mesmo o testemunho.”
2. Todas as demais virtudes dependem da fé
Em segundo lugar, preocupe-se com sua fé, pois todas as outras graças dependem dela.
A fé é a raiz das virtudes; todas as demais virtudes e graças brotam dela.
Falem-me do amor! Como posso amar alguém em quem não acredito? Se não creio que existe um Deus e que ele recompensa aqueles que diligentemente o buscam, como poderia amá-lo?
Falem-me da paciência. Como posso exercer a paciência se não tenho fé? A fé contempla a recompensa prometida. Ela declara que todas as coisas cooperam para o nosso bem. Acredita que, de nossas aflições, surgirá uma glória maior; por isso, consegue suportá-las.
Falem-me da coragem. Quem pode ser corajoso se não possui fé?
Escolham qualquer virtude, e vocês verão que ela depende da fé.
A fé é o fio de prata no qual são enfileiradas as pérolas das graças cristãs. Se esse fio se rompe, as pérolas se espalham pelo chão.
Vocês já não poderão usá-las como adorno para a própria vida.
A fé é a mãe das virtudes. É o fogo que consome o sacrifício. É a água que alimenta a raiz. É a seiva que comunica vida a todos os ramos.
Se vocês não têm fé, todas as suas graças morrerão. E, à medida que a fé aumentar, todas as virtudes também crescerão, embora não necessariamente na mesma proporção.
O homem de pouca fé é o homem de pouco amor. O homem de grande fé é o homem de grande afeição.
Aquele que possui grande fé em Deus pode entregar a própria vida por ele. Mas quem tem pouca fé recuará diante da fogueira do martírio, porque seu amor será fraco.
Cuide bem da sua fé, pois suas virtudes dependem dela. Se você deseja cultivar coisas boas, coisas amáveis, honrosas e dignas de boa reputação, que sejam agradáveis a Deus e honrosas para você, guarde cuidadosamente a sua fé, pois todas essas coisas precisam estar fundamentadas nela.
3. Cristo atribui grande valor à fé
Em terceiro lugar, tenha cuidado com sua fé porque Cristo a considera muito preciosa.
No Novo Testamento, três coisas são chamadas de preciosas. Uma delas, vocês conhecem bem: o precioso sangue de Cristo. Outra são as grandíssimas e preciosas promessas. A terceira é a fé, como lemos a respeito daqueles que receberam “uma fé igualmente preciosa”.
Assim, a fé está entre as três coisas preciosas de Deus. Ela é uma das coisas que ele valoriza acima de muitas outras.
Ontem fiquei admirado ao encontrar, em um antigo escritor cristão, uma declaração sobre a honra que Deus concede à fé. Ele disse:
“Cristo tira a coroa de sua própria cabeça para colocá-la sobre a cabeça da fé.”
Observem quantas vezes Cristo declara: “A tua fé te salvou”.
Ora, não é a fé que salva, mas Cristo. Contudo, Cristo concede à fé a honra de atribuir-lhe aquilo que ele mesmo realiza.
Ele também disse: “A tua fé te curou”. Mas não foi a fé que curou; foi Cristo quem curou. Ainda assim, Cristo, por assim dizer, retirou a coroa de sua própria cabeça para coroar a fé. Tomou o diadema real da salvação e o colocou sobre a fronte da fé, fazendo dela, em linguagem figurada, uma rainha, pois ela recebe a coroa que somente o Rei dos reis pode conceder: a coroa da salvação.
Vocês não sabem que lemos: “Somos justificados pela fé”?
Em certo sentido, a justificação não se fundamenta em algum mérito da fé, mas na justiça de Jesus Cristo que nos é imputada. Somos justificados por Cristo. Contudo, Jesus Cristo reveste a fé com suas próprias vestes reais e lhe confere uma honra extraordinária. Nosso Senhor sempre coloca a fé em lugar de honra.
Quando aquela pobre mulher veio até ele, cuja filha estava enferma, Jesus lhe disse: “Ó mulher, grande é a tua fé!”
Ele poderia ter dito: “Grande é o teu amor”, pois foi seu grande amor que a levou a atravessar a multidão e suplicar em favor da filha. Poderia ter dito: “Grande é a tua paciência”, porque, mesmo quando ele a comparou a um cachorrinho, ela não desistiu nem se afastou.
Também poderia ter dito: “Grande é a tua coragem”, pois ela respondeu: “Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos”.
Ou poderia ter dito: “Grande é a tua sabedoria”, pois aquela mulher foi sábia ao extrair algo doce de uma resposta aparentemente amarga, dizendo: “Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas”.
Mas Cristo deixa tudo isso em segundo plano e declara: “Grande é a tua fé!”
Ora, se Cristo considera a fé tão preciosa, não deveríamos nós também estimá-la grandemente?
Seria possível atribuir valor excessivo à joia que Cristo considera tão valiosa? Se ele coloca a fé na vanguarda das virtudes e a considera a joia mais preciosa da coroa cristã, isso não deveria despertar em nós o desejo de descobrir se realmente a possuímos?
Se temos fé, somos ricos — ricos em fé e nas promessas de Deus. Mas, se não a temos, por mais que possuamos outras coisas, somos pobres: pobres neste mundo e pobres no mundo vindouro.
4. A fé é o meio pelo qual recebemos as bênçãos de Deus
Em quarto lugar, cristão, cuide bem da sua fé, pois ela é o meio pelo qual recebemos as bênçãos divinas.
Se desejamos receber bênçãos de Deus, nada pode trazê-las até nós senão a fé.
A oração não pode obter respostas do trono de Deus se não for a oração fervorosa de alguém que crê.
A fé é a escada pela qual minha alma precisa subir para se aproximar do céu. Se eu quebrar essa escada, como poderei chegar ao meu Deus?
A fé é o mensageiro celestial entre a alma e o céu. Se esse mensageiro for retirado, não poderei enviar minhas orações para cima nem receber as respostas que vêm de Deus.
A fé é o fio telegráfico que liga a terra ao céu, por meio do qual as bênçãos divinas se movem tão rapidamente que, antes mesmo de clamarmos, Deus responde; e, enquanto ainda estamos falando, ele já nos ouve.
Mas, se esse fio telegráfico da fé for rompido, como poderemos receber a promessa?
Estou em dificuldades? Pela fé, posso obter ajuda para enfrentá-las. Estou sendo atacado pelo inimigo? Pela fé, minha alma se apoia naquele precioso refúgio.
Mas retire a fé, e clamarei a Deus em vão. Não haverá caminho entre minha alma e o céu.
Mesmo no inverno mais rigoroso, a fé é uma estrada pela qual os cavalos da oração podem avançar — e, quanto mais cortante o frio, melhor ela demonstra sua utilidade! Mas, se essa estrada estiver bloqueada, como poderemos nos comunicar com nosso grande Rei?
A fé me liga à divindade. A fé me reveste das vestes da majestade divina. A fé coloca ao meu lado a onipotência de JEOVÁ. Ela me concede a força de Deus, pois assegura que esse poder esteja operando em meu favor.
A fé me dá coragem para desafiar as hostes do inferno. Faz-me marchar triunfante sobre o pescoço dos meus inimigos.
Mas, sem fé, como poderei receber alguma coisa do Senhor?
Que aquele que duvida, sendo semelhante à onda do mar, não espere receber coisa alguma de Deus!
Portanto, cristão, vigie cuidadosamente a sua fé. Com ela, você pode vencer todas as coisas, por mais pobre que seja. Sem ela, nada poderá obter.
Conta-se que Midas tinha o poder de transformar em ouro tudo aquilo que tocava. O mesmo pode ser dito, em sentido figurado, da fé: ela pode transformar tudo em ouro. Mas, se destruirmos a fé, perderemos tudo. Seremos miseravelmente pobres, porque não poderemos desfrutar da comunhão com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo.
5. A fé é indispensável diante dos nossos inimigos
Em quinto lugar, meus amigos, cuidem continuamente da sua fé por causa dos inimigos que precisam enfrentar.
Se vocês não sentirem necessidade da fé enquanto estiverem entre amigos, certamente precisarão dela quando tiverem de lidar com seus adversários.
Aquele velho guerreiro, Paulo, certa vez conduziu os efésios ao arsenal espiritual. Depois de lhes mostrar os calçados, o cinto, a couraça, o capacete e a espada que deveriam usar, declarou solenemente:
“Acima de tudo, tomai o escudo da fé.”
Mesmo que se esqueçam do capacete, certifiquem-se de estar com o escudo. Se o capacete estiver fora do lugar, talvez consigam desviar um golpe com o escudo e proteger a cabeça.
É melhor vestir os calçados da paz e a couraça da justiça. Mas, se vocês deixarem de usar alguma dessas peças, cuidem para que não lhes falte o escudo da fé, com o qual poderão apagar todos os dardos inflamados do maligno.
A fé torna o homem poderoso quando ele precisa enfrentar seus inimigos.
Se alguém acredita que está defendendo o que é correto — considerando a questão apenas do ponto de vista humano —, levem-no diante de príncipes e reis por causa da verdade e vejam como ele se tornará semelhante a um leão!
Ele dirá: “Não posso ceder. Não devo ceder, pois a verdade está do meu lado”.
Embora alguns possam chamar isso de teimosia obstinada, trata-se de uma verdadeira nobreza de espírito, que leva o homem a declarar: “Não me renderei!”
Muito mais poderosa é a verdadeira fé espiritual.
Foi ela que conduziu mártires à fogueira e lhes permitiu cantar enquanto as chamas os envolviam. Foi ela que levou outros até o mar e, como lemos nos antigos registros dos mártires, capacitou até mesmo uma senhora idosa a declarar: “Cristo continua sendo tudo!”
A fé apagou a violência do fogo, fechou a boca dos leões e transformou a fraqueza em força. Ela venceu mais inimigos do que todos os exércitos dos conquistadores.
Não me falem das vitórias de Wellington. Não mencionem as batalhas de Napoleão. Falem-me do que a fé realizou!
Oh! Se erguêssemos um monumento em honra à fé, quantos nomes diferentes deveríamos gravar em seu grandioso pedestal!
Aqui escreveríamos: “A cova dos leões”. Ali: “A batalha contra os leopardos”. Em outro lugar, registraríamos como a fé abriu o mar Vermelho. Mais adiante, como a fé derrotou os midianitas. E, em outro ponto, como Jael venceu Sísera pela providência e pelo poder de Deus.
Quantos conflitos da fé teríamos para registrar!
Ó fé, tua bandeira tremulará bem alto! Teu brasão é glorioso! Tu és grandiosa e repleta de vitórias!
Contigo, ó fé, desafio o mundo, seguro de que vencerei.
Dê-me uma criança como adversária e, sem fé, eu tremeria e negaria meu Mestre, como o pobre Pedro diante de uma simples criada. Mas aquele mesmo Pedro, fortalecido pela fé, não teme comparecer diante de um Sinédrio hostil e falar de seu Mestre em meio às zombarias dos principais sacerdotes.
Maria, rainha da Escócia, teria dito que temia mais as orações e a fé de John Knox do que um exército de dez mil homens.
Um inimigo sensato pode muito bem tremer quando pessoas invencíveis dessa natureza se levantam contra ele.
Eu não gostaria de ter um homem de fé como adversário. Digam-me que o mundo me odeia, e me alegrarei. Mas, se me disserem que um homem de fé decidiu me derrotar, então terei motivos para tremer, pois há grande poder em seu braço. Seus golpes são fortes e, quando ele atinge o alvo, o faz com a força de uma vara de ferro.
Tremei, inimigos de Deus, pois a fé há de vencer!
E vocês, servos do Deus vivo, guardem cuidadosamente a sua fé, porque por meio dela serão vitoriosos. Permanecerão como rochas, imóveis em meio às tempestades e inabaláveis diante dos ventos da perseguição.
6. A fé nos capacita a cumprir nossos deveres
Chegamos agora à sexta razão. Cuide da sua fé, pois, sem ela, você não conseguirá cumprir adequadamente seus deveres.
A fé é o pé da alma, por meio do qual ela caminha pela estrada dos mandamentos. O amor pode fazer os pés se moverem mais depressa, mas é a fé que sustenta a alma em sua caminhada.
A fé é o óleo que permite às rodas da devoção santa e da piedade sincera girarem adequadamente.
Sem fé, porém, as rodas são retiradas da carruagem, e avançamos com grande dificuldade.
Com fé, posso fazer todas as coisas. Sem fé, não terei nem disposição nem capacidade para realizar qualquer coisa no serviço de Deus.
Se vocês procurarem os homens que melhor servem ao Senhor, encontrarão aqueles que possuem a maior fé.
Uma fé pequena pode salvar um homem, mas não pode realizar grandes coisas.
O pobre Pequena Fé não teria conseguido lutar contra Apoliom. Para isso, foi necessário Cristão. Pequena Fé não teria conseguido derrotar o Gigante Desespero; foi preciso o braço de Grande Coração para derrubar aquele monstro.
A fé pequena pode chegar ao céu com toda a segurança, mas frequentemente precisa correr e esconder-se em uma casca de noz, perdendo tudo, exceto suas joias.
Se há grandes batalhas a enfrentar e grandes obras a realizar, é necessária uma fé grandiosa.
A plena confiança pode carregar montanhas sobre as costas. A fé pequena tropeça até em um pequeno montículo.
A grande fé, como o Beemote, pode “sorver o Jordão de uma só vez”. A fé pequena se afoga em uma gota de chuva. Ao menor sinal de dificuldade, começa a pensar em voltar atrás.
A grande fé pode construir templos e erguer castelos. Pode pregar o Evangelho e proclamar o nome de Cristo diante dos inimigos. Ela pode realizar todas essas coisas.
Portanto, se vocês desejam ser verdadeiramente grandes no serviço do Mestre — e espero que assim desejem —, procurem obter uma fé cada vez maior! Dessa maneira, serão mais diligentes no cumprimento de seus deveres.
Ó cristãos ativos, sejam cheios de fé! Vocês que estão sempre ocupados, cuidem para não perder essa confiança. Pois, se ela lhes faltar, o que farão?
Sejam professores da escola dominical, pregadores, visitantes dos enfermos ou responsáveis por qualquer outra tarefa, tenham certeza de que a fé deve ser sua força e confiança. Se ela falhar, em que vocês poderão se apoiar?
7. A fé nos consola em nossas aflições
Cuide também da sua fé porque somente ela pode lhe proporcionar verdadeiro consolo nas dificuldades.
Alguns dizem: “Essa é praticamente a única coisa em que pensamos quando falamos da utilidade da fé: consolar-nos nas aflições”.
Nunca gosto de ridicularizar o povo de Deus porque deseja consolo. Acredito que o fato de seus filhos apreciarem as coisas doces é uma grande evidência de que pertencem a ele. Se não as apreciassem, eu temeria que não fossem, de fato, filhos de Deus.
Entretanto, ouço alguns ministros dizerem: “Ah, vocês estão sempre pedindo consolo, sempre querendo consolo!”
Sim, respondo eu, é verdade que querem. E querem porque nunca o recebem de você, senhor!
Creio que o povo de Deus realmente precisa de consolo, embora seja verdade que, às vezes, deseje mais consolo do que deveria. Ainda assim, frequentemente precisa receber uma promessa, e deve recebê-la.
A fé é o melhor fortificante para a alma.
Oh, como a fé torna real uma promessa quando grandes aflições se aproximam!
“Ah!”, diz a fé, “Deus declarou: ‘Como os teus dias, assim será a tua força’”.
“Ah!”, diz a fé, “o caminho é difícil. Os espinhos são afiados e as pedras estão espalhadas por toda parte. Mas está escrito: ‘Os teus calçados serão de ferro e de metal’”.
Então a fé olha para esses calçados resistentes e declara: “Mesmo assim, aventurar-me-ei!”, e segue adiante.
A fé pequena fica sentada em um canto, murmurando. A grande fé canta em meio ao fogo.
“Louvem-no em alta voz no seu leito; cantem os altos louvores de Deus no fogo.”
A fé pequena permanece abatida, misturando suas lágrimas às águas da aflição. A grande fé declara:
“Quando passares pelas águas, estarei contigo; e, quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.”
Você deseja ter consolo e felicidade? Deseja desfrutar da vida cristã? Quer experimentar uma religião marcada pela alegria, e não pelo desânimo?
Então busque mais fé!
Você será salvo mesmo que sua fé seja muito pequena, mas não desfrutará plenamente da alegria da salvação nesta vida. No futuro, será feliz se crer, ainda que minimamente. Contudo, não será feliz aqui, a menos que creia plena, constante e sinceramente nas fiéis promessas de JEOVÁ, na gloriosa dignidade de sua pessoa e na fidelidade e imutabilidade de sua graça.
Se vocês desejam ser cotovias cristãs, e não corujas cristãs, procurem ter mais fé.
Se amam a escuridão e desejam voar nela, envoltos em tristeza e miséria, contentem-se com uma fé pequena. Mas, se desejam subir aos céus banhados pela luz do sol e cantar como as aves do dia, busquem uma confiança firme.
8. Nossa fé é frequentemente tão fraca que exige cuidado constante
Há ainda mais uma razão, meus amigos: cuidem da sua fé porque, muitas vezes, ela é tão fraca que exige toda a nossa atenção.
Não sei se algum de vocês considera sua fé forte demais. Eu, porém, nunca considero a minha suficientemente forte.
Ela parece ter exatamente a força necessária para suportar as dificuldades de cada dia, mas não suportaria que lhe retirassem sequer a menor parcela. Não posso me dar ao luxo de perder nem um pouquinho. Ela é suficiente, mas nada além disso.
Quanto a alguns de nós, nossa fé é tão fraca que a menor dificuldade ameaça devorá-la.
Uma cabra passa e mordisca seu frágil broto; chega o inverno, o frio a congela, e ela fica quase à beira da morte.
Muitas vezes, minha fé parece estar pendurada por um fio extremamente fino. Parece prestes a expirar.
Cristão, cuide da sua fé! Cuide da sua fé!
Se você deixar alguma coisa do lado de fora durante a noite, não deixe desprotegida essa pequena criança chamada fé.
Se alguma planta precisar ficar exposta à geada, certifique-se de colocar a fé em um lugar protegido.
Cuide da fé, pois geralmente ela é tão frágil que precisa ser preservada com grande atenção.
Assim, procurei demonstrar, tanto quanto me foi possível nesta manhã, a enorme necessidade de cuidarmos da nossa fé.
Nossa oração deve ser a mesma dos apóstolos:
“Senhor, aumenta-nos a fé!”
II. O desejo do coração dos apóstolos: “Aumenta-nos a fé”
Os apóstolos não disseram: “Senhor, conserva viva a nossa fé. Senhor, sustenta-a exatamente como está”. Não! Eles disseram: “Aumenta-nos a fé”.
Sabiam muito bem que o cristão permanece espiritualmente vivo por meio do crescimento contínuo.
Napoleão certa vez declarou: “Preciso travar batalhas e preciso vencê-las. A conquista fez de mim o que sou, e a conquista precisa me manter assim”.
O mesmo acontece com o cristão. A batalha vencida ontem não será suficiente para me sustentar hoje. Preciso continuar avançando.
Uma roda permanece em pé enquanto está em movimento, mas cai quando começa a parar. Os cristãos são preservados por meio do progresso; continuar avançando é o que mantém viva a vida cristã.
Se fosse possível parar completamente, não sei o que aconteceria à minha vida espiritual.
O cristão precisa prosseguir. A flecha continua subindo enquanto está em movimento, mas deixa de permanecer no alto assim que cessa a força que a sustenta.
Por isso, os apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta-nos a fé”.
1. Aumenta a nossa fé em sua extensão
Primeiro, pedimos: “Aumenta-nos a fé” em sua extensão, isto é, naquilo que ela é capaz de receber.
Geralmente, quando começamos a vida cristã, nossa fé ainda não abrange muitas coisas. Acreditamos apenas em algumas doutrinas elementares.
Percebo que muitos novos convertidos não foram muito além de crer que Jesus Cristo morreu pelos pecadores.
Mais tarde, avançam um pouco e passam a crer na eleição. Mas não recebem muito além disso. Somente depois de muitos anos alguns chegam a abraçar o Evangelho em toda a sua extensão.
Alguns de vocês que me ouvem, assim como muitos que não me ouvem, possuem almas pequenas e limitadas. Aprenderam um credo rígido, como ferro fundido, e jamais querem sair dele.
Alguém reuniu cinco ou seis doutrinas e declarou: “Estas são as doutrinas da Bíblia”. Vocês acreditam nelas, mas precisam pedir que sua fé aumente, pois ainda não creem em muitas outras verdades que também estão na Bíblia.
Não penso que eu divirja dos meus irmãos hipercalvinistas naquilo em que creio; divirjo deles naquilo em que não creem.
Não creio menos do que eles. Creio um pouco mais e penso que, à medida que crescemos, nossa fé também deve se ampliar.
Não devemos nos contentar apenas com algumas doutrinas fundamentais que nos permitam orientar nosso navio para o norte, sul, leste ou oeste. Precisamos aprender também sobre o noroeste, o nordeste e todas as direções intermediárias.
Muitas pessoas, ao ouvirem algo um pouco diferente daquilo a que estão acostumadas, declaram imediatamente: “Isso não é doutrina sadia!”
Mas quem fez de vocês juízes daquilo que é sadio?
Existem algumas almas estreitas que se colocam como príncipes em Israel e imaginam que todos precisam crer exatamente como elas. Se alguém pensa de maneira diferente, consideram-no inteiramente errado e recusam qualquer comunhão cristã com ele.
Certamente posso orar por essas pessoas: “Senhor, aumenta-lhes a fé!”
Ajuda-as a crer um pouco mais. Ajuda-as a compreender que existem cristãos wesleyanos e pessoas piedosas em outras igrejas. Que não somente os batistas particulares são bons cristãos, mas que há eleitos de Deus em todos os lugares.
Oro por todos os intolerantes, para que Deus lhes conceda um coração mais amplo. Gostaria que seu coração fosse um pouco alargado.
Mas não! Eles acreditam ter chegado ao limite de todas as possibilidades, à última das ilhas afortunadas, sem qualquer margem para novas descobertas.
É perigoso para um marinheiro abrir as velas em mares desconhecidos.
“Até aqui”, declara o piedoso Crisp, e muitos imaginam que isso significa: “Até aqui irás e não mais adiante”.
O doutor Gill declara determinada coisa, e quem ousará dizer algo além? Ou talvez Calvino seja estabelecido como o padrão definitivo, e que direito teria alguém de pensar em uma única ideia além daquilo que Calvino ensinou?
Bendito seja Deus, nós avançamos um pouco além dessas limitações e podemos dizer: “Aumenta-nos a fé!”
Com toda a admiração que temos por esses grandes teólogos, não estamos dispostos a nos trancar em suas pequenas gaiolas de ferro.
Dizemos: “Abram a porta e deixem-me voar! Quero continuar experimentando a liberdade. Aumenta a minha fé e ajuda-me a crer um pouco mais”.
Posso afirmar que, nos últimos meses, minha fé aumentou em um ou dois aspectos.
Durante muito tempo, não consegui enxergar claramente nas Escrituras aquilo que se refere ao Milênio. Não conseguia me alegrar muito com a segunda vinda de Cristo, embora acreditasse nela.
Gradualmente, porém, minha fé começou a se ampliar nesse assunto. Agora, esperar pela vinda do nosso Senhor Jesus Cristo e apressá-la tornou-se para mim parte do meu alimento e da minha bebida espirituais.
Creio que mal comecei a aprender o ABC das Escrituras. Por isso, continuarei clamando ao Senhor:
“Aumenta a minha fé, para que eu conheça mais, creia mais e compreenda muito melhor a tua Palavra”.
Aumenta a minha fé em sua extensão!
2. Aumenta a nossa fé em sua intensidade
Em segundo lugar, pedimos: “Aumenta a minha fé” em sua intensidade.
A fé precisa crescer em poder, assim como em extensão.
Não desejamos agir como aqueles que rompem as margens de um rio para que suas águas se espalhem pelos pastos, tornando-se mais rasas. Queremos que, enquanto a superfície aumenta, a profundidade também cresça.
Aumenta a intensidade da nossa fé!
No início, a fé recebe a misericórdia de Deus com a palma da mão aberta. À medida que cresce, passa a segurá-la com os dedos, embora ainda não com muita firmeza.
Mas, quando se torna forte, agarra a promessa como se fosse uma prensa de ferro. E, quando a fé é forte, nem a morte nem o inferno conseguem arrancar de suas mãos uma promessa de Deus.
O jovem cristão ainda não permanece constante em sua fé. Sopra um pequeno vento, e ele começa a tremer.
Mas, quando se torna um cristão amadurecido, serão necessários os cinquenta ventos do velho Bóreas para movê-lo de seu lugar!
Meus queridos amigos, vocês não sentem que precisam de uma fé maior em intensidade?
Não gostariam de cantar com Watts:
“Ah! Quem me dera uma fé mais forte,
Para além do véu poder olhar;
Crer firmemente no que diz meu Salvador,
Cuja Palavra jamais falhará!”
Sua pequena fé mal consegue enxergar alguns metros à frente, pois nuvens escuras a cercam por todos os lados.
Mas a fé forte pode subir à colina chamada “Clara” e, do alto, contemplar a cidade celestial e a terra que está muito distante.
Oh! Que Deus aumente tanto a sua fé que vocês possam ter frequentes vislumbres do céu! Que possam cantar, como Moisés talvez tivesse cantado no alto do monte Pisga:
“Ó cena gloriosa, que transporta e encanta,
Que agora se ergue diante de mim!
Doces campos vestidos de verde vivo,
E rios de deleite sem fim!”
Que vocês possam subir até lá, banhar os olhos em esplendor, mergulhar a alma em rios de felicidade e ficar completamente arrebatados pelas visões daquele estado de bem-aventurança que em breve será seu.
Portanto, exorto-os a clamar ao Senhor:
“Aumenta a minha fé, para que eu possa contemplar o céu com maior clareza e crescer em todas as demais dimensões da vida espiritual!”
III. A pessoa a quem os apóstolos dirigiram sua oração
Não tenho tempo para me demorar neste último ponto, mas encerrarei mencionando brevemente a pessoa a quem os apóstolos dirigiram sua súplica.
Eles disseram ao Senhor: “Aumenta-nos a fé!”
Dirigiram-se à pessoa certa.
Não disseram a si mesmos: “Eu mesmo aumentarei a minha fé”.
Não clamaram ao ministro: “Pregue um sermão consolador e aumente a minha fé”.
Também não disseram: “Lerei determinado livro, e isso fará minha fé crescer”.
Não! Disseram ao Senhor: “Aumenta-nos a fé!”
Somente aquele que é o autor da fé pode fazê-la crescer.
Eu poderia inflar a fé de vocês até transformá-la em presunção, mas não poderia fazê-la crescer verdadeiramente.
É obra de Deus alimentar a fé, assim como foi obra dele conceder-lhe vida no princípio.
Se algum de vocês deseja ter uma fé crescente, leve hoje seu fardo ao trono de Deus e clame:
“Senhor, aumenta-nos a fé!”
Se você sente que suas aflições aumentaram, vá ao Senhor e diga: “Aumenta-nos a fé!”
Se seus recursos financeiros estão aumentando, vá ao Senhor e diga: “Aumenta-nos a fé!”, pois você precisará de mais fé à medida que sua prosperidade crescer.
Se seus bens estão diminuindo, vá a ele e diga: “Aumenta-nos a fé!”, para que aquilo que você perder de um lado seja compensado pelo crescimento espiritual do outro.
Você está enfermo e sente dores nesta manhã? Vá ao seu Mestre e diga: “Aumenta a minha fé, para que eu não seja impaciente, mas consiga suportar tudo com dignidade”.
Está cansado e exausto? Vá suplicar:
“Aumenta-nos a fé!”
Sua fé é pequena? Leve-a a Deus, e ele poderá transformá-la em uma fé grandiosa.
Não existe estufa melhor para o crescimento das plantas delicadas do que aquela casa que se encontra por trás das cortinas, o tabernáculo de Deus, onde habita a Shekinah, a manifestação de sua presença gloriosa.
Tenho pregado com muita dor nesta manhã. Mas gostaria, se possível, de encerrar perguntando a vocês que são cristãos: não consideram essa oração extremamente necessária para a sua própria condição espiritual?
Que cada um pergunte a si mesmo: “Não preciso de mais fé?”
Meus irmãos e irmãs em Jesus Cristo, estejam certos disto: vocês jamais terão fé em excesso dessa preciosa graça.
Se gastarem todos os seus recursos ao longo do caminho para o céu, não lhes sobrará sequer um centavo quando chegarem aos portões celestiais.
Se viverem pela fé durante toda a jornada, não lhes restará nenhuma reserva de maná ao final.
Orem, portanto, por um aumento de fé.
Vocês desejam que esta igreja permaneça firme, não é verdade? Ela somente poderá permanecer firme na medida em que vocês forem homens e mulheres de fé.
Eu poderia exortá-los a serem pessoas de oração, mas a fé é a pedra fundamental; a oração vem em seguida. A oração sem fé seria uma zombaria vazia. Nada obteria de Deus.
Vocês desejam que permaneçamos firmes? Sabem como o mundo fala de nós e como se comenta o entusiasmo daqueles que pregam na Rua Park?
Como esse entusiasmo poderá ser mantido, senão por meio da sua fé?
Como as mãos do seu ministro poderão permanecer erguidas, senão por sua fé e por suas orações?
Que a fé seja o nosso Arão, e a oração, o nosso Hur. Assim, a fé e a oração poderão sustentar as mãos de Moisés enquanto o exército, lá embaixo, combate o inimigo.
Vocês desejam ser preservados da queda? Precisam ser fortes na fé.
A fé pequena cai; a fé forte permanece de pé.
Desejam vencer a batalha e reinar no céu com uma coroa de estrelas mais brilhante do que poderiam esperar? Então, cresçam na fé!
Desejam honrar grandemente a Deus e entrar no céu depois de terem combatido o bom combate e recebido uma coroa?
Então, apresentarei esta súplica: “Aumenta a fé do teu povo!”, e farei também esta oração:
“Aumenta a minha fé!”
Uma palavra final aos que ainda não possuem fé
Entretanto, há alguns entre vocês, queridos amigos, que não poderiam fazer essa súplica e nem sequer ousariam pronunciá-la.
Que proveito ela lhes traria? Se vocês não possuem fé, como poderia ser aumentada uma coisa que ainda não existe em seu coração?
Sua primeira necessidade é receber os primeiros sinais dessa fé simples e verdadeira.
Oh, meus ouvintes, fico admirado ao pensar em como alguns de vocês conseguem viver sem o consolo que somente a fé pode proporcionar.
Alguns são muito pobres. Como conseguem suportar seus trabalhos, suas dificuldades e seus sofrimentos sem fé? Onde encontram consolo?
Não me surpreende que procurem a embriaguez ou se entreguem a tumultos nas tavernas, se não possuem nenhum outro consolo neste mundo.
Quando percorri algumas de nossas ruas mais pobres e contemplei a miséria das pessoas, pensei: “Se essas pessoas não possuem religião, o que lhes resta para consolá-las? Elas não são como o homem rico, que pode satisfazer seus desejos de inúmeras maneiras. O que têm neste mundo que torne a vida digna de ser vivida?”
Imagino que encontrem algum tipo de felicidade, embora eu não saiba explicar que espécie de felicidade seja essa. É algo que continuamente me faz refletir.
E vocês, homens ricos, o que farão sem fé?
Precisam deixar para trás todos os seus bens. Certamente, essa perspectiva deveria tornar a ideia da morte assustadora para vocês.
Não consigo compreender nem mesmo a felicidade de vocês, se é que realmente a possuem.
Sei disto:
“Não trocaria minha bendita condição
Por tudo o que a terra chama grandeza e valor;
Enquanto minha fé mantiver sua firme posição,
Não invejarei do pecador o ouro e seu esplendor.”
Mas quero perguntar-lhes: o que farão no mundo vindouro sem fé?
Lembrem-se de que agora estão à beira do imenso abismo de um futuro desconhecido. Sua alma se encontra trêmula diante do precipício escuro. A cada pulsação do coração, vocês se aproximam mais da eternidade.
A fé dá asas à alma. Mas o que farão sem asas?
Há um estreito abismo que separa a terra do céu. O cristão bate suas asas e, sustentado por elas, voa em direção ao céu.
Mas o que farão vocês sem asas?
Será um salto — um salto para a perdição —, seguido de uma queda eterna, sem possibilidade de recuperação.
Se um cristão pudesse cair durante sua jornada para o céu, não cairia muito, pois bateria suas asas e tornaria a subir.
Mas vocês estarão descendo continuamente por aquele abismo sem fundo, lutando para subir, sem conseguir, porque não possuem asas.
Mais uma vez, ó incrédulo, o que fará sem fé?
A fé dá olhos à alma. Ela nos permite enxergar aquilo que não se vê. É “a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”.
Quando o cristão morrer, entrará na terra da morte de olhos abertos, podendo contemplar as gloriosas hostes de anjos que alegrarão sua visão.
Mas você terá de morrer como um espírito cego, sem olhos.
É triste a condição dos cegos neste mundo, mas quão infinitamente deplorável será a cegueira eterna que impedirá a contemplação dos esplendores do paraíso e excluirá para sempre até mesmo o mais fraco raio de alegria ou esperança!
E há ainda outra coisa: a fé é a mão da alma.
Quando o cristão morrer, agarrar-se-á às vestes de Cristo, e Cristo o levará para o céu.
Um anjo resplandecente descerá. Eu me agarrarei a ele, e suas asas me conduzirão à felicidade eterna.
Mas, quando o incrédulo morrer, a missão desse anjo será inútil, pois ele não terá mãos.
Pense nisso, pecador: Cristo estará ali, mas você não poderá sequer tocar em suas vestes, porque não terá mãos para fazê-lo.
O que fará no mundo vindouro sem mãos?
Você imagina que Deus permitirá a entrada no céu de almas deformadas dessa maneira, sem mãos e sem olhos? Certamente que não!
Mas como você entrará sem mãos? Não poderá abrir os portões do céu.
O que fará, então?
Clamará a Deus por misericórdia. E, mesmo que a misericórdia lhe seja estendida, não terá mãos para agarrá-la.
Não compreendo como algumas pessoas conseguem ser felizes sem religião. Não sei o que pretendem fazer se morrerem sem fé.
Vão para casa e pensem no que farão se morrerem sem religião. Pretendem enfrentar com insolência a presença do Eterno ou submeter-se passivamente?
Pecador! Você não pode entrar no céu sem fé. Mas o que decidiu fazer?
Pretende derrubar os portões do céu? Acredita possuir poder suficiente para abrir caminho à força através das fileiras de querubins e das legiões de anjos, entrando no céu pela força bruta?
Ou o que pretende fazer?
Deseja deitar-se tranquilamente em leitos de enxofre? Pretende ser lançado voluntariamente naquele lago de fogo e enxofre sem fundo, onde as lágrimas amargas caem para sempre?
Fará isso? Fará do inferno a sua morada?
Meus senhores, vocês estão tão entorpecidos que se contentam com um destino assim por toda a eternidade? Perderam completamente a razão? Seus sentidos estão tão obscurecidos que são capazes de lançar fora a própria alma dessa maneira?
Certamente decidiram fazer alguma coisa. O quê, então, farão?
Imaginam que entrarão no céu sem fé, quando está escrito: “Sem fé é impossível agradar a Deus”?
E quando Deus declarou: “Quem não crer será condenado”, pensam que poderão revogar esse decreto?
Subirão ao trono de JEOVÁ para contradizer o próprio JEOVÁ? Alterarão sua determinação e obrigarão Deus a admitir o incrédulo no céu?
Não! Vocês não podem fazer isso!
Tremei, portanto, incrédulos! Tremei!
Pois o que vos espera é apenas “uma horrível expectativa de juízo e ardor de fogo que há de devorar os adversários”.
O que farão quando enfrentarem as águas transbordantes do Jordão, sem fé para manter a cabeça acima delas?
Que Deus conceda fé àqueles que ainda não a possuem. E, quanto aos demais, que ele aumente a sua fé!
“Senhor, aumenta-nos a fé!”
Fonte: The New Park Street Pulpit, volume 1, sermão nº 32, de C. H. Spurgeon. Tradução para o português brasileiro, organizada para publicação em blog.
