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domingo, 22 de abril de 2018

O ANJO DAS TEOFANIAS ERA CRISTO


Porquanto, se estas evidências não satisfazem aos judeus, não vejo com que sutilezas possam evitar o fato de que, com tanta freqüência, na Escritura o Senhor se apresenta na pessoa de um Anjo. Diz-se haver aparecido um Anjo aos santos patriarcas. O mesmo atribui a si o nome do Deus Eterno. Se alguém objeta, dizendo que isto se diz com respeito à função que o anjo desempenhava, a dificuldade de modo algum fica assim resolvida. Pois um servo não iria arrebatar de Deus sua honra, permitindo que lhe fosse oferecido um sacrifício. Com efeito, negando-se a
haver de comer pão, o Anjo ordena que o sacrifício fosse oferecido ao Senhor [Jz 13.16]. A seguir [Jz 13.20], prova, pelo próprio fato, que ele é realmente o Senhor. Desse modo, Manoá e a esposa concluem, desta evidência, que haviam visto não simplesmente um anjo, mas a Deus. Daí esta exclamação: “Haveremos de morrer,
porque vimos a Deus” [Jz 13.22]. Quando, porém, a esposa responde: “Se o Senhor nos quisesse matar, não teria recebido de nossa mão o sacrifício [Jz 13.23], confessa com certeza que aquele que antes disse ser um ajo era realmente Deus. Além disso,
agrega que a própria resposta do Anjo dirime toda dúvida: “Por que perguntas por meu nome, que é maravilhoso?” [Jz 13.18].
Tanto mais abominável foi a impiedade de Serveto, quando asseverou que Deus jamais se manifestara a Abraão e aos demais patriarcas; ao contrário, em seu lugar fora adorado um anjo. Reta e sabiamente, porém, os doutores ortodoxos da Igreja interpretaram que esse Anjo era Príncipe, a Palavra de Deus, que já então, em um
como que prelúdio, começou a exercer o ofício de Mediador. Ora, se bem que ele ainda não havia se revestido da carne, contudo desceu como um, por assim dizer, intermediário, para que se achegasse mais intimamente aos fiéis. Portanto, esta comunicação mais íntima lhe valeu o nome de Anjo, enquanto retinha o que lhe era
peculiar: ser ele o Deus da glória inefável.
O mesmo entende Oséias que, após recontar a luta que Jacó sustentou com o anjo, diz: “O Senhor é o Deus dos Exércitos; o Senhor, seu nome é um memorial perpétuo [Os 12.5]. Serveto rosna novamente, dizendo que Deus havia tomado a pessoa de um anjo. Como se, afinal, o Profeta não estivesse a confirmar o que fora
dito por Moisés [Gn 32.29, 30]: “Por que perguntas por meu nome?” E a confissão do santo Patriarca, quando diz: “Vi a Deus face a face” [Gn 32.29, 30], suficientemente declara que não se tratava de um anjo criado, mas Aquele em quem residia a plena Deidade. Daqui também essa afirmação de Paulo [1Co 10.4], de que Cristo fora o guia do povo no deserto, visto que, embora ainda não fosse vindo o tempo de sua humilhação, contudo aquela Palavra eterna propôs uma prefiguração de seu ofício, a que fora destinado. Ora, se porventura for examinado, sem contenda, o primeiro capítulo de Zacarias, e o segundo, o Anjo que envia outro Anjo [Zc 2.3] é
o mesmo imediatamente cognominado o Deus dos Exércitos, e lhe é atribuído poder supremo.
Deixo de considerar inúmeros testemunhos nos quais, com plena segurança, se nos arrima a fé, a despeito de que os judeus não se deixam mover de modo algum.
Quando, pois, se diz em Isaías [25.9]: “Eis, este é o nosso Deus, este é o Senhor: nele esperaremos e ele nos preservará”, é evidente aos que são dotados de olhos que a referência é a Deus, que se levanta de novo para a salvação de seu povo. E essas expressões enfáticas, duplamente repetidas, não permitem aplicar-se isto a outro
senão a Cristo.
Ainda mais clara e taxativa é a passagem de Malaquias [3.1] em que promete que o Dominador, que era então buscado, haveria de vir a seu templo. Sem dúvida que somente ao Deus supremo foi sagrado o templo, o que, no entanto, o Profeta reivindica para Cristo. Do quê se segue que Cristo é o mesmo Deus que foi sempre adorado entre os judeus.

João Calvino