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segunda-feira, 23 de abril de 2018

Os Apóstolos aplicam a Cristo o que fora dito do Deus Eterno


O Novo Testamento, porém, borbulha de inumeráveis testemunhos. Portanto, devemos dar-nos ao trabalho de, concisamente, selecionar apenas uns poucos desses testemunhos, antes de coligi-los todos. E, embora os apóstolos tenham falado dele desde que já se apresentara na carne como Mediador, todavia tudo quanto trarei
à consideração haverá de servir apropriadamente para provar sua eterna Deidade.
Em primeiro plano, digno de especial atenção é isto: que os apóstolos ensinam que o que se predissera do Deus eterno ou já se patenteou em Cristo ou um dia haverá de se manifestar nele. Pois quando Isaías profetiza que o Senhor dos Exércitos haveria de ser aos judeus e israelitas por pedra de tropeço e rocha de escândalo
[Is 8.14], Paulo afirma que isso se cumpriu em Cristo [Rm 9.33]. Logo, Paulo declara que Cristo é esse Senhor dos Exércitos. De igual modo, em outro lugar [Rm 14.10, 11]: “Importa” diz ele, “que todos, uma vez, nos assentemos perante o tribunal de Cristo, pois foi escrito: Diante de mim todo joelho se dobrará e toda língua
me confessará.”
Quando, em Isaías [45.23], Deus anuncia isto de si mesmo e de Cristo, o exibe objetivamente em si mesmo, segue-se que ele é aquele próprio Deus cuja glória não se pode transferir a outrem. O que também cita do Salmo [68.18] na epístola aos Efésios [4.8] é evidente que se refere unicamente a Deus: “Subindo ao alto, conduziu o cativeiro.” Compreendendo que ascensão dessa natureza só se prefigurara então, quando Deus manifestou seu poder em insigne vitória contra nações estrangeiras, Paulo a assinala que ela se manifesta mais plenamente em Cristo. Assim,
João [12.41] testifica que foi a glória do Filho que, através de visão, fora revelada a Isaías [6.1], quando, entretanto, o próprio Profeta escreve que vira a majestade de Deus.
Além disso, é evidente que aquelas atribuições que o Apóstolo confere ao Filho, na Epístola aos Hebreus, são claríssimas exaltações de Deus: “Tu, Senhor, no princípio lançaste os fundamentos do céu e da terra” etc. [Hb 1.10]; de igual modo:
“Adorai-o vós, todos os seus anjos” [Hb 1.6]. Contudo, nem delas abusa quando as aplica a Cristo, uma vez que tudo quanto se canta nesses salmos somente ele o cumpriu. Pois foi ele que, levantando-se, se compadeceu de Sião [Sl 102.13], ele que para si reivindicou o reino de todos os povos e ilhas [Sl 97.1]. E por que João, que dissera antes que o Verbo sempre fora Deus, teria hesitado em atribuir a Cristo a majestade de Deus? Por que haveria Paulo de ter-se arreceado de instalar a Cristo no tribunal de Deus [2Co 5.10], havendo-lhe previamente proclamado a divindade com tão franca proclamação, quando dissera ser Cristo “Deus bendito para sempre”
[Rm 9.5]? E para que transpareça o quanto Paulo é consistente neste ponto, ele escreve ainda em outro lugar [1Tm 3.16] que Cristo é Deus manifestado em carne.
Se como Deus Cristo deve ser louvado para sempre, então ele é Aquele a quem unicamente se devem toda honra e glória, o mesmo Paulo o afirma em outra passagem [1Tm 1.17]. Na verdade nem mesmo dissimula isto, senão que o proclama abertamente: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a
Deus, mas a si mesmo se esvaziou, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” [Fp 2.6, 7].
E para que os ímpios não concluíssem que ele é algum Deus fortuito, João vai além, dizendo: “Ele é o Deus verdadeiro e a vida eterna” [1Jo 5.20]. Todavia, mais do que suficiente nos deve ser que Cristo seja chamado Deus, especialmente por essa testemunha que nos assevera expressamente que não há muitos deuses, mas um único.
E esse é Paulo, que assim fala [1Co 8.5-6]: “Ainda que muitos se chamem deuses, seja no céu, seja na terra, para nós, entretanto, há um só Deus, de quem procedem todas as coisas.” Quando da mesma boca ouvimos que Deus se manifestou em carne [1Tm
3.16], com cujo próprio sangue Deus adquiriu a Igreja para si [At 20.28], por que imaginamos um segundo Deus, a quem aquele de modo algum reconhece? E não há a mínima dúvida de que o mesmo foi o sentimento de todos os piedosos. De fato, de maneira semelhante, ao proclamá-lo abertamente seu Senhor e seu Deus [Jo 20.28], Tomé confessa ser ele aquele Deus único a quem havia sempre adorado.


João Calvino