Total de visualizações de página

terça-feira, 10 de abril de 2018

Representar a Deus por meio de imagens é contradizer-lhe o Ser


Isso pode ser facilmente inferido das razões que ele anexa à sua proibição.
Primeiramente, através de Moisés [Dt 4.15]: “Lembra-te do que o Senhor te falou no vale do Horebe: ouviste uma voz, porém corpo não viste; guarda-te, portanto, a ti mesmo, para que não aconteça que, se fores enganado, para ti faças qualquer representação”
etc. Vemos como Deus opõe abertamente sua voz a todas as representações, para que saibamos que, todos quantos buscam para ele formas visíveis, dele se apartam.
Dentre os profetas, será suficiente um só, Isaías, que é muito incisivo nesta demonstração, visto que ensina que a majestade de Deus é maculada de vil e absurda ficção, quando o incorpóreo é nivelado à matéria corpórea, o invisível à representação visível, o espírito à coisa inanimada, o imenso a um pequeno pedaço de
madeira, pedra ou ouro [Is 40.18; 41.7, 29; 45.9; 46.5]. Paulo também arrazoa de modo idêntico: “Visto que somos geração de Deus, não devemos pensar que o divino seja semelhante ao ouro, à prata ou à pedra trabalhada pela arte ou invenção do homem” [At 17.29]. Do quê transparece que, qualquer estátua que se erige, ou imagem que se pinta para representar a Deus, simplesmente lhe desagrada como coisas afrontosas a sua majestade.
E não surpreende se do céu o Espírito Santo troveja estes oráculos, quando da terra até aos míseros e cegos idólatras ele compele a fazer tal confissão! É conhecida aquela queixa de Sêneca, que se lê em Agostinho: “Dedicam”, diz ele “os deuses sagrados, imortais e invioláveis em matéria mui vil e ignóbil, e os revestem da aparência dos homens e das feras; alguns até os representam com sexo misturado e corpos diversos, e os chamam de deidades, figuras que, se recebessem alento e parassem a nossa frente, por monstros haveriam de ser tidas.”
Do quê, novamente, mui claramente se evidencia que os patronos das imagens se arrimam em frívolo sofisma, os quais alegam terem elas sido vedadas aos judeus, porquanto eram propensos à superstição. Como se, na verdade, o que Deus revela de sua eterna existência e da contínua ordem da natureza pertencesse a um só povo!
Aliás, Paulo não estava discursando aos judeus, mas aos atenienses, quando impugnava o erro de representar a Deus por meio de imagens.


João Calvino