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sábado, 9 de junho de 2018

A Verdadeira Natureza da Imagem de Deus só determinável à luz da concepção Bíblica da regeneração em Cristo


No entanto, parece que não houve ainda uma definição plena de imagem, a não ser quando se manifesta mais claramente por quais faculdades o homem sobressai e por quais deva ele ser julgado espelho da glória de Deus. Realmente não se pode conhecer melhor de outra parte senão da restauração de sua natureza corrompida.
Quando Adão caiu de seu estado original, não há a mínima dúvida de que, por esta defecção, ele veio a alienar-se de Deus. Portanto, embora concordemos que a imagem de Deus não foi nele aniquilada e apagada de todo, todavia foi corrompida a tal ponto que, qualquer coisa que lhe reste, não passa de horrenda deformidade. E por
isso o começo da recuperação da salvação o temos nesta restauração que conseguimos através de Cristo, o qual, por esta causa, é também chamado segundo Adão, visto que nos restitui a verdadeira e completa integridade.
Ora, ainda que Paulo, contrastando o espírito vivificante com que os fiéis são agraciados por Cristo com a alma vivente com que Adão foi criado [1Co 15.45], ressalte a mais abundante medida de graça na regeneração, contudo não cancela esse outro ponto, a saber, que o propósito da regeneração é este: para que Cristo nos remolde à imagem de Deus. Assim é que ensina, em outro lugar [Cl 3.10], que
“o novo homem é renovado segundo a imagem daquele que o criou”, ao que se conforma essa outra injunção: “Revesti-vos do novo homem que foi criado segundo Deus” [Ef 4.24].
Importa agora ver o que Paulo compreende especialmente sob esta renovação. Põe ele, em primeiro lugar, conhecimento; em segundo, sincera retidão e santidade. Do quê concluímos que, de início, a imagem de Deus foi conspícua na luz da mente, na retidão do coração e na saúde de todas as partes do ser humano. Ora,
embora admita serem formas de expressão sinedóquicas, o todo tomado pelas partes, não se pode, entretanto, anular este princípio: o que é primordial na renovação da imagem de Deus também teve lugar supremo na própria criação. Ao mesmo propósito vem o que ensina em outra passagem: “Nós, a contemplar de face descoberta
a glória de Cristo, estamos sendo transformados na mesma imagem” [2Co3.18]. Vemos, pois, que Cristo é a perfeitíssima imagem de Deus, conformados à qual somos de tal modo restaurados que trazemos a imagem de Deus em verdadeira piedade, retidão, pureza, entendimento.
Isto posto, natural e prontamente se evanesce essa imaginação de Osiandro acerca da configuração do corpo humano modelado no de Cristo. Que, porém, só o homem é, em Paulo, designado de “imagem e glória de Deus” [1Co 11.7], e desta posição e
honra a mulher é excluída, é evidente à luz do contexto, o qual se restringe à condição civil. Julgo, porém, já estar bem comprovado que, sob o termo imagem, do qual se faz menção aqui, se compreende tudo quanto diz respeito à vida espiritual e eterna. Isto mesmo João confirma, em outras palavras, asseverando que a vida que estava desde o início na eterna Palavra de Deus era a luz dos homens [Jo 1.4]. Ora, como seu intento era louvar a graça singular de Deus em virtude da qual o homem excede em eminência aos demais seres animados, para que o segregue da massa
geral, porquanto ele atingiu uma vida não vulgar, ao contrário, uma vida conjugada à luz da inteligência, João mostra, ao mesmo tempo, como o homem foi criado à imagem de Deus.
Portanto, uma vez que a imagem de Deus é a perfeita excelência da natureza humana que refulgiu em Adão antes da queda, mas que depois foi de tal modo corrompida e quase obliterada, que nada sobra da ruína senão o que é confuso, mutilado e infestado de mácula, agora ela se percebe nos eleitos, em certa medida, na
extensão em que foram regenerados pelo Espírito. Entretanto, pleno fulgor ela haverá de fluir somente no céu. No entanto, para que saibamos de que partes consta esta imagem, é importante discorrer a respeito das faculdades da alma. Ora, muito longe de ser procedente, no entanto, é a especulação de Agostinho, de que a alma é um espelho da Trindade, porquanto nela residem o intelecto, a vontade e a memória.
Nem é provável, aliás, a opinião daqueles que colocam a semelhança de Deus no domínio conferido ao homem, como se apenas neste traço se assemelhasse a Deus, que foi constituído dono e possuidor de todas as coisas, quando precisamente se
deve buscar no homem, e não fora dele, posto que é um bem interior da alma.

João Calvino