Sermão nº 52
Pregado na manhã de domingo, 2 de dezembro de 1855
Pelo Rev. C. H. Spurgeon
Na Capela de New Park Street, Southwark, Londres.
Texto bíblico:
“E não quereis vir a mim para terdes vida.”
— João 5:40
Este é um dos grandes canhões dos arminianos, colocado no alto de suas muralhas e frequentemente disparado, com terrível estrondo, contra os pobres cristãos chamados calvinistas. Pretendo inutilizar esse canhão nesta manhã, ou melhor, voltá-lo contra o próprio inimigo, pois ele jamais lhes pertenceu. Nunca foi fundido em sua própria oficina, mas foi destinado a ensinar exatamente a doutrina oposta àquela que eles defendem.
Geralmente, quando esse texto é utilizado, apresentam-se as seguintes divisões: primeiro, que o homem possui vontade; segundo, que ele é inteiramente livre; terceiro, que os homens precisam tornar a si mesmos dispostos a vir a Cristo, caso contrário não serão salvos.
Mas não faremos tais divisões. Procuraremos examinar o texto com maior serenidade e não concluiremos, simplesmente porque nele aparecem as palavras “querer” ou “não querer”, que ele ensina a doutrina do livre-arbítrio.
Já foi demonstrado, além de qualquer controvérsia, que o livre-arbítrio é um absurdo. A liberdade não pode pertencer à vontade, assim como a capacidade de ser pesado não pode pertencer à eletricidade. São coisas completamente diferentes. Podemos crer na capacidade de agir livremente, mas o livre-arbítrio é simplesmente ridículo.
Todos sabem que a vontade é dirigida pelo entendimento, movida por motivos e orientada por outras faculdades da alma; portanto, ela é algo secundário.
Tanto a filosofia quanto a religião rejeitam imediatamente a própria ideia do livre-arbítrio. E irei tão longe quanto Martinho Lutero naquela forte declaração em que afirma:
“Se alguém atribui qualquer parcela da salvação, por menor que seja, ao livre-arbítrio do homem, esse alguém nada conhece da graça e ainda não aprendeu corretamente quem é Jesus Cristo.”
Pode parecer uma afirmação severa, mas aquele que acredita, em seu íntimo, que o homem se volta para Deus por sua própria vontade jamais foi verdadeiramente ensinado por Deus. Pois um dos primeiros princípios que aprendemos quando Deus começa a trabalhar em nós é que não temos nem vontade nem poder para isso, mas que Ele nos concede ambos. Ele é o “Alfa e o Ômega” na salvação dos homens.
Nossos quatro pontos nesta manhã serão os seguintes:
Primeiro, todo homem está morto, pois o texto diz: “E não quereis vir a mim para terdes vida”.
Segundo, há vida em Jesus Cristo: “E não quereis vir a mim para terdes vida”.
Terceiro, há vida em Cristo Jesus para todo aquele que vem a Ele em busca dessa vida: “E não quereis vir a mim para terdes vida”, implicando que todos os que vêm receberão vida.
Quarto, o ponto central do texto é este: nenhum homem, por sua própria natureza, jamais virá a Cristo, pois o texto declara: “E NÃO QUEREIS vir a mim para terdes vida”.
Longe de afirmar que os homens, por sua própria vontade, fazem tal coisa, o texto nega isso de maneira ousada e direta. Ele diz: “VÓS NÃO QUEREIS vir a mim para terdes vida”.
Ora, amados, quase estou pronto para exclamar: Será que todos os defensores do livre-arbítrio não percebem que estão desafiando abertamente a inspiração divina? Será que aqueles que negam a doutrina da graça perderam completamente o bom senso? Será que se afastaram tanto de Deus a ponto de distorcerem este texto para provar o livre-arbítrio, quando ele diz precisamente: “VÓS NÃO QUEREIS vir a mim para terdes vida”?
I. OS HOMENS, POR NATUREZA, ESTÃO MORTOS
Nosso texto implica, em primeiro lugar, que os homens, por natureza, estão mortos.
Nenhum ser precisa procurar vida se já possui vida em si mesmo. O texto fala de maneira muito forte quando diz: “E não quereis vir a mim para terdes vida”. Embora não declare isso com essas palavras, ele efetivamente afirma que os homens necessitam de uma vida que não possuem em si mesmos.
Meus ouvintes, todos nós estamos mortos, a menos que tenhamos sido regenerados para uma viva esperança.
Primeiramente, todos nós, por natureza, estamos legalmente mortos.
“Certamente morrerás”, disse Deus a Adão, “no dia em que dela comeres”.
Embora Adão não tenha morrido fisicamente naquele mesmo instante, morreu legalmente. Isto significa que a sentença de morte foi registrada contra ele.
Assim que, no tribunal de Old Bailey, o juiz coloca a touca preta e pronuncia a sentença, o homem passa a ser considerado legalmente morto.
Ainda que talvez se passe um mês antes que ele seja conduzido ao cadafalso para cumprir a sentença da lei, a lei já o considera um homem morto. Ele não pode realizar qualquer transação. Não pode herdar, nem deixar herança. Ele nada é: um homem morto.
O país não o considera mais como alguém vivo. Há uma eleição, mas ninguém lhe pede o voto, porque ele é considerado morto. Está trancado em sua cela de condenados e é um homem morto.
Ah! E vocês, pecadores ímpios que nunca receberam vida em Cristo, estão vivos nesta manhã apenas por causa de uma suspensão temporária da sentença. Mas sabem que estão legalmente mortos? Sabem que Deus os considera assim? No dia em que seu pai Adão tocou no fruto proibido e também no dia em que vocês mesmos pecaram, Deus, o Juiz Eterno, colocou a touca preta e os condenou.
Vocês falam muito de sua própria posição, bondade e moralidade. Mas onde está tudo isso? A Escritura declara que vocês já estão “condenados”.
Não precisam esperar pelo dia do juízo para serem condenados. Aquele dia será apenas a execução da sentença. Vocês já estão condenados!
No momento em que pecaram, seus nomes foram escritos no livro negro da justiça. Cada um de vocês recebeu então de Deus a sentença de morte, a menos que encontre um substituto na pessoa de Cristo para levar sobre si os seus pecados.
O que pensariam se entrassem no tribunal de Old Bailey e vissem o criminoso condenado sentado em sua cela, rindo e alegre? Vocês diriam: “Esse homem é um tolo, pois foi condenado à morte e será executado, mas continua tão alegre!”.
Ah! Quão insensato é o homem mundano que, enquanto a sentença já está registrada contra ele, vive em festas, divertimentos e prazeres!
Vocês pensam que a sentença de Deus não produz efeito? Pensam que o seu pecado, escrito para sempre com uma pena de ferro sobre as rochas, não contém qualquer motivo de horror?
Deus declarou que vocês já estão condenados. Se ao menos sentissem isso, tal realidade misturaria amargura aos seus cálices de alegria. Suas danças seriam interrompidas e seu riso se transformaria em suspiros, se vocês se lembrassem de que já estão condenados.
Todos nós deveríamos chorar se compreendêssemos profundamente esta verdade: por natureza, não temos vida diante dos olhos de Deus.
Estamos realmente condenados. A sentença de morte foi registrada contra nós e, aos olhos de Deus, somos considerados tão mortos agora como se já tivéssemos sido lançados no inferno.
Estamos condenados por causa do pecado. Ainda não estamos sofrendo a penalidade, mas ela está registrada contra nós. Estamos legalmente mortos e não podemos encontrar vida, a menos que encontremos vida legal na pessoa de Cristo, assunto sobre o qual falaremos mais adiante.
Mas, além de estarmos legalmente mortos, também estamos espiritualmente mortos.
Pois não foi apenas no livro que a sentença foi registrada; ela também se manifestou no coração. Entrou na consciência e produziu seus efeitos sobre a alma, o entendimento, a imaginação e todas as demais faculdades.
“Certamente morrerás no dia em que dela comeres” não se cumpriu apenas pela sentença registrada, mas também por algo que aconteceu dentro de Adão.
Assim como, em determinado momento, quando este corpo morrer, o sangue deixará de circular, o pulso cessará e o ar não mais sairá dos pulmões, também no dia em que Adão comeu daquele fruto sua alma morreu.
Sua imaginação perdeu o poderoso vigor que lhe permitia elevar-se às coisas celestiais e contemplar o céu. Sua vontade perdeu a capacidade de escolher sempre aquilo que é bom. Seu entendimento perdeu a capacidade de julgar de maneira clara e infalível entre o certo e o errado, embora alguma coisa tenha permanecido em sua consciência.
Sua memória foi contaminada, tornando-se inclinada a guardar as coisas más e deixar escapar as coisas justas.
Todas as suas faculdades perderam sua vitalidade moral. A bondade era a força vital dessas faculdades, mas ela desapareceu.
Virtude, santidade e integridade eram a vida do homem; quando essas coisas partiram, o homem tornou-se morto.
E agora, todo homem, no que diz respeito às coisas espirituais, está “morto em delitos e pecados”.
A alma do homem carnal não está menos morta do que o corpo que foi depositado na sepultura. Está verdadeira e completamente morta. Não se trata de uma metáfora, pois Paulo não está falando metaforicamente quando afirma:
“E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados.” (Efésios 2:1)
Mas, meus ouvintes, mais uma vez gostaria de poder pregar diretamente ao coração de vocês sobre este assunto.
Já era suficientemente terrível quando descrevi a morte como uma sentença registrada. Mas agora falo dela como algo que realmente aconteceu dentro do coração de vocês.
Vocês não são aquilo que um dia foram. Não são aquilo que eram em Adão, nem aquilo para o qual foram originalmente criados.
O homem foi criado puro e santo. Vocês não são essas criaturas perfeitas de que alguns tanto se orgulham. Estão completamente caídos. Desviaram-se do caminho, tornaram-se corruptos e imundos.
Ah! Não deem ouvidos à canção sedutora daqueles que lhes falam de sua dignidade moral e de sua grande elevação nas questões da salvação.
Vocês não são perfeitos. Essa grande palavra, “ruína”, está escrita em seu coração, e a morte está estampada em seu espírito.
Não imagine, ó homem moralista, que poderá permanecer diante de Deus apoiado em sua moralidade. Você não passa de um cadáver embalsamado em legalismo, um corpo morto vestido com belas roupas, mas que continua corrupto aos olhos de Deus.
E não pense, ó você que possui uma religião natural, que poderá, por sua própria força e capacidade, tornar-se aceitável a Deus.
Ora, homem! Você está morto!
Você pode adornar um morto com todo o esplendor que desejar, mas isso continuará sendo uma zombaria solene.
Ali está a rainha Cleópatra. Coloquem uma coroa sobre sua cabeça, vistam-na com trajes reais e façam-na sentar-se em seu trono. Mas que sensação de frio e horror nos invade quando passamos por ela!
Ela ainda é bela, mesmo na morte. Contudo, quão terrível é permanecer ao lado de uma rainha morta, celebrada outrora por sua majestosa beleza!
Assim também você pode ser glorioso em sua aparência, belo, agradável e encantador. Pode colocar sobre a cabeça a coroa da honestidade e vestir todas as roupas da retidão. Mas, a menos que Deus lhe tenha dado vida, ó homem, a menos que o Espírito tenha trabalhado em sua alma, você é, aos olhos de Deus, tão repugnante quanto um cadáver seria aos seus olhos.
Você não escolheria viver com um cadáver sentado à sua mesa. Tampouco Deus se agrada de que você permaneça diante dele nessa condição.
Ele se ira contra você todos os dias, pois você está em pecado; você está em morte.
Oh! Creia nisso. Leve essa verdade ao seu coração e reconheça-a como sua própria condição, pois é absolutamente verdadeiro que você está morto, tanto espiritual quanto legalmente.
O terceiro tipo de morte é a consumação das outras duas: a morte eterna.
Ela é a execução da sentença legal e a consumação da morte espiritual.
A morte eterna é a morte da alma. Ela acontece depois que o corpo é colocado na sepultura e a alma se separa dele.
Se a morte legal é terrível, isso se deve às suas consequências. E se a morte espiritual é assustadora, isso acontece por causa daquilo que virá depois dela.
As duas mortes sobre as quais falamos são as raízes; a morte que ainda está por vir é a flor que delas brota.
Oh! Se eu tivesse palavras para tentar descrever nesta manhã o que é a morte eterna!
A alma compareceu diante de seu Criador. O livro foi aberto. A sentença foi pronunciada.
“ apartai-vos de mim, malditos!” — essa declaração abalou o universo e fez até mesmo os astros empalidecerem diante do olhar severo do Criador.
A alma partiu para as profundezas onde habitará com outros em morte eterna.
Oh! Quão horrível é agora a sua condição!
Seu leito é um leito de chamas. As cenas que contempla são aterrorizantes e fazem sua alma estremecer. Os sons que ouve são gritos, lamentos, gemidos e soluços. Tudo o que seu corpo conhece é a imposição de dores miseráveis!
Ela possui uma aflição indescritível e uma miséria sem qualquer alívio.
A alma olha para cima. A esperança desapareceu; está extinta.
Olha para baixo, cheia de pavor e medo. O remorso tomou posse de sua alma.
Olha para a direita, mas as muralhas inflexíveis do destino a mantêm confinada dentro dos limites de seu tormento.
Olha para a esquerda, mas ali a muralha de fogo ardente proíbe até mesmo a mais distante e vaga possibilidade de fuga.
Olha para dentro de si, procurando algum consolo, mas um verme roedor já penetrou em sua alma.
Olha ao redor, mas não encontra amigos que possam ajudá-la, nem consoladores; há apenas tormentadores em abundância.
Ela nada conhece sobre a esperança de libertação.
Ouviu a chave eterna do destino girar em suas terríveis fechaduras e viu Deus tomar essa chave e lançá-la nas profundezas da eternidade, para nunca mais ser encontrada.
Não há esperança. Não existe escape. Não há sequer uma suposição de libertação.
Ela anseia pela morte, mas a morte é seu inimigo e não está ali para lhe oferecer descanso.
Deseja que a inexistência a engula, mas essa morte eterna é pior do que a aniquilação.
Ela anseia por ser exterminada, assim como o trabalhador anseia pelo seu dia de descanso. Deseja ser tragada pelo nada, assim como um escravo das galés desejaria a liberdade.
Mas isso não acontece. Ela está eternamente morta.
Quando a eternidade tiver percorrido incontáveis ciclos intermináveis, ela ainda estará morta.
O para sempre não conhece fim. A eternidade não pode ser compreendida senão pela própria eternidade.
Ainda assim, a alma continuará vendo escrito sobre sua cabeça:
“Estás condenado para sempre!”
Ouvirá uivos que serão perpétuos. Contemplará chamas que nunca se apagarão. Conhecerá dores que jamais serão aliviadas.
Ouvirá uma sentença que não passará como o trovão da terra, cujo som logo desaparece, mas que continuará avançando, avançando e avançando, fazendo ecoar os terríveis sons da eternidade, fazendo milhares de anos estremecerem novamente diante do horrível estrondo de sua declaração:
“Retirai-vos! Retirai-vos! Apartai-vos de mim, malditos!”
Esta é a morte eterna.
II. EM CRISTO JESUS HÁ VIDA
Em segundo lugar, em Cristo Jesus há vida, pois Ele diz:
“E não quereis vir a mim para terdes vida.”
Não há vida em Deus Pai para o pecador, nem há vida em Deus Espírito para o pecador separado de Jesus.
A vida do pecador está em Cristo.
Se retirarmos o Pai, embora Ele ame os seus eleitos e tenha determinado que eles viverão, a vida está somente em seu Filho.
Se separarmos o Espírito Santo de Jesus Cristo, embora seja o Espírito quem nos concede vida espiritual, essa vida está em Cristo, está no Filho.
Não ousamos nem podemos recorrer, em primeiro lugar, a Deus Pai ou a Deus Espírito Santo para obter vida espiritual.
A primeira coisa que somos conduzidos a fazer quando Deus nos tira do Egito é comer a Páscoa. Essa é a primeira coisa.
O primeiro meio pelo qual recebemos vida é alimentar-nos da carne e do sangue do Filho de Deus, vivendo nele, confiando nele e crendo em sua graça e poder.
Nossa segunda afirmação é: há vida em Cristo.
Mostraremos que existem três tipos de vida em Cristo, assim como existem três tipos de morte.
Primeiramente, há vida legal em Cristo.
Assim como todo homem, por natureza, considerado em Adão, recebeu uma sentença de condenação no momento do pecado de Adão e, especialmente, no momento de sua própria primeira transgressão, também eu, se sou um crente, e você, se confia em Cristo, recebemos uma sentença legal de absolvição por meio daquilo que Jesus Cristo realizou.
Ó pecador condenado! Talvez você esteja sentado nesta manhã tão condenado quanto um prisioneiro na prisão de Newgate. Mas, antes que este dia termine, poderá estar tão livre de culpa quanto os anjos que habitam nas alturas!
Existe algo chamado vida legal em Cristo e, bendito seja Deus, alguns de nós desfrutamos dela.
Sabemos que nossos pecados foram perdoados porque Cristo sofreu a punição por eles. Sabemos que jamais poderemos ser punidos por eles, pois Cristo sofreu em nosso lugar.
O Cordeiro pascal foi sacrificado por nós. Os umbrais e as vergas das nossas portas foram aspergidos com sangue, e o anjo destruidor jamais poderá nos tocar.
Para nós não existe inferno, ainda que suas chamas ardam terrivelmente.
Que Tofete seja preparado desde a antiguidade, que sua fogueira tenha madeira em abundância e produza muita fumaça: jamais iremos para lá, pois Cristo morreu por nós, em nosso lugar.
E se houver instrumentos de tortura horríveis? E se houver uma sentença pronunciada com os mais terríveis estrondos de trovão?
Ainda assim, nem o instrumento de tortura, nem a masmorra, nem o trovão são destinados a nós!
Em Cristo Jesus fomos libertos agora.
“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Romanos 8:1)
Pecador! Você está legalmente condenado nesta manhã? Sente isso?
Então deixe-me dizer-lhe que a fé em Cristo lhe dará o conhecimento de sua absolvição legal.
Amados, não é imaginação que somos condenados por nossos pecados; isso é uma realidade. Da mesma maneira, não é imaginação que fomos absolvidos; isso também é uma realidade.
Um homem prestes a ser enforcado, se recebesse um perdão completo, consideraria isso uma realidade maravilhosa. Diria: “Recebi perdão completo; agora ninguém pode tocar em mim”.
É exatamente assim que me sinto.
“Agora, livre do pecado, caminho em liberdade,
O sangue do Salvador é minha plena absolvição;
Aos seus benditos pés, contente me prostro,
Pecador salvo, presto-lhe minha adoração.”
Irmãos, recebemos vida legal em Cristo, uma vida que não podemos perder.
Uma vez foi pronunciada contra nós a sentença de condenação; agora foi pronunciada a sentença de absolvição em nosso favor.
Está escrito:
“NÃO HÁ AGORA NENHUMA CONDENAÇÃO.”
E esse “agora” continuará sendo tão verdadeiro para mim daqui a cinquenta anos quanto é neste momento.
Por todo o tempo em que vivermos, continuará escrito:
“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”
Em segundo lugar, há vida espiritual em Cristo Jesus.
Assim como o homem está espiritualmente morto, Deus possui vida espiritual para lhe conceder.
Não existe necessidade que Jesus não possa suprir. Não existe vazio no coração que Cristo não possa preencher. Não existe desolação que Ele não possa povoar, nem deserto que não possa fazer florescer como a rosa.
Ó pecadores mortos! Vocês que estão espiritualmente mortos, há vida em Cristo Jesus!
Pois nós vimos — sim, estes olhos viram — os mortos voltarem à vida.
Conhecemos homens cuja alma estava completamente corrompida e que, pelo poder de Deus, passaram a buscar a justiça.
Conhecemos homens cujos pensamentos eram carnais, cujas concupiscências eram poderosas e cujas paixões eram fortes, mas que, repentinamente, pela força irresistível que vem do céu, consagraram-se a Cristo e se tornaram filhos de Jesus.
Sabemos que existe vida espiritual em Cristo Jesus.
E mais: nós mesmos, em nossa própria experiência, sentimos que existe vida espiritual.
Lembramo-nos muito bem de quando estávamos sentados na casa de oração, tão mortos quanto o próprio banco sobre o qual nos sentávamos.
Durante muito tempo havíamos escutado o som do Evangelho, mas nenhum efeito havia sido produzido. Então, repentinamente, como se nossos ouvidos tivessem sido abertos pelos dedos de algum poderoso anjo, uma voz penetrou em nosso coração.
Pensamos ter ouvido Jesus dizer:
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
Uma mão irresistível pousou sobre nosso coração e arrancou dele uma oração.
Nunca havíamos feito uma oração como aquela.
Clamamos:
“Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”
Alguns de nós, durante meses, sentimos uma mão pressionando-nos como se estivéssemos presos em um torno, e nossas almas derramavam gotas de angústia.
Aquela miséria era um sinal de que a vida estava chegando.
As pessoas que estão se afogando não sentem tanta dor quanto aquelas que estão sendo trazidas de volta à vida.
Oh! Como nos lembramos daquelas dores, daqueles gemidos e daquela luta interior que nossa alma experimentou quando veio a Cristo!
Ah! Podemos recordar o momento em que recebemos vida espiritual tão claramente quanto um homem poderia recordar sua própria ressurreição da sepultura.
Podemos imaginar que Lázaro se lembrava de sua ressurreição, embora não de todas as circunstâncias que a acompanharam.
Assim também nós, embora tenhamos esquecido muitas coisas, ainda nos lembramos de quando nos entregamos a Cristo.
Podemos dizer a todo pecador, por mais morto que esteja: há vida em Cristo Jesus, ainda que você esteja apodrecido e corrompido em sua sepultura.
Aquele que ressuscitou Lázaro também nos ressuscitou, e pode dizer até mesmo a você:
“Lázaro, vem para fora!”
Em terceiro lugar, há vida eterna em Cristo Jesus.
E oh! Se a morte eterna é terrível, a vida eterna é gloriosa!
Pois Ele declarou:
“Onde eu estiver, ali estará também o meu povo.”
“Pai, a minha vontade é que onde eu estiver, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória.” (João 17:24)
“Eu lhes dou a vida eterna, e nunca hão de perecer.” (João 10:28)
Agora, qualquer arminiano que desejasse pregar sobre esse texto precisaria comprar um par de lábios de borracha, pois certamente teria de esticar a boca de maneira extraordinária!
Jamais conseguiria falar toda a verdade sem se contorcer de uma maneira extremamente misteriosa.
Vida eterna! Não uma vida que eles receberão para depois perderem, mas vida eterna!
Se perdi a vida em Adão, ganhei-a em Cristo. Se me perdi para sempre, encontrei-me para sempre em Jesus Cristo.
Vida eterna! Oh, pensamento bendito!
Nossos olhos brilharão de alegria e nossas almas arderão de êxtase ao pensarmos que possuímos a vida eterna.
Apaguem-se, estrelas! Que Deus coloque o dedo sobre vocês e as faça desaparecer! Minha alma, porém, continuará vivendo em felicidade e alegria.
Apaga-te, ó sol! Mas meus olhos contemplarão “o Rei na sua formosura” quando os teus já não puderem mais fazer a terra verde sorrir.
E tu, ó lua, transforma-te em sangue! Mas meu sangue jamais será reduzido ao nada.
Este espírito continuará existindo quando você já tiver deixado de existir.
E você, grande mundo, poderá desaparecer completamente, assim como desaparece a espuma de um instante sobre a onda que a carrega. Mas eu terei vida eterna!
Ó tempo! Você poderá contemplar gigantescas montanhas mortas e escondidas em suas sepulturas. Poderá ver as estrelas caindo como figos maduros demais que despencam da árvore.
Mas jamais, jamais verá meu espírito morto!
III. A VIDA ETERNA É CONCEDIDA A TODOS OS QUE VÊM A CRISTO
Isso nos conduz ao terceiro ponto: a vida eterna é concedida a todos os que vêm buscá-la.
Nunca houve um homem que tenha vindo a Cristo em busca de vida eterna, vida legal ou vida espiritual sem que, de alguma maneira, já tivesse recebido essa vida. E isso lhe foi manifestado pouco depois de sua vinda.
Consideremos um ou dois textos bíblicos:
“Pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus.” (Hebreus 7:25)
Todo homem que vem a Cristo descobrirá que Cristo é capaz de salvá-lo.
Não apenas capaz de salvá-lo um pouco, libertando-o de alguns pecados, protegendo-o de algumas provações, conduzindo-o por uma pequena distância e depois abandonando-o.
Não! Ele é capaz de salvá-lo completamente: até a extensão máxima de seus pecados, até o limite extremo de suas provações, até as profundezas mais intensas de suas tristezas e durante toda a extensão de sua existência.
Cristo diz a todo aquele que vem a Ele:
“Venha, pobre pecador! Você não precisa perguntar se tenho poder para salvá-lo. Não lhe perguntarei até onde você chegou no pecado. Sou capaz de salvá-lo completamente!”
E não existe ninguém na terra que possa ultrapassar o “completamente” de Deus.
Consideremos agora outro texto:
“O que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.” (João 6:37)
Observe que as promessas quase sempre são dirigidas àqueles que vêm.
Todo homem que vem encontrará aberta a porta da casa de Cristo — e também a porta de seu coração!
Todo homem que vem, digo isso no sentido mais amplo possível, descobrirá que Cristo tem misericórdia para ele.
O maior absurdo do mundo é desejar um Evangelho mais amplo do que aquele que está registrado nas Escrituras.
Eu prego que todo homem que crê será salvo e que todo homem que vem encontrará misericórdia.
As pessoas me perguntam:
“Mas suponha que um homem viesse a Cristo sem ter sido escolhido. Ele seria salvo?”
Vá você e suponha absurdos! Não vou lhe dar uma resposta para isso.
Se um homem não foi escolhido, jamais virá. Quando ele vem, isso é uma prova segura de que foi escolhido.
Alguém diz:
“Suponha que alguém fosse a Cristo sem ter sido chamado pelo Espírito.”
Pare, meu irmão! Essa é uma suposição que você não tem o direito de fazer, pois tal coisa não pode acontecer.
Você diz isso apenas para me enredar, mas não conseguirá fazê-lo tão facilmente.
Eu afirmo que todo homem que vem a Cristo será salvo.
Posso dizer isso como calvinista ou como hipercalvinista, tão claramente quanto você pode dizê-lo.
Não tenho um Evangelho mais restrito do que o seu. A diferença é que o meu Evangelho está fundamentado sobre uma base sólida, enquanto o seu está construído apenas sobre areia e podridão.
“Todo aquele que vem será salvo, pois ninguém vem a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer.” (João 6:44)
“Mas”, diz alguém, “suponha que o mundo inteiro viesse a Cristo. Ele receberia todos?”
Certamente! Se todos viessem, Ele os receberia. Mas nem todos virão.
Digo a todos vocês: qualquer pessoa que vier será recebida. Sim, ainda que fosse tão má quanto os próprios demônios, Cristo a receberia!
Ainda que todo o pecado e toda a imundícia do mundo inteiro tivessem se acumulado em seu coração, como se ele fosse um grande esgoto que recebesse toda a sujeira do mundo, Cristo o receberia!
Outra pessoa pergunta:
“Quero saber sobre os demais. Posso sair e dizer a todos eles: Jesus Cristo morreu por cada um de vocês? Posso dizer: há justiça para cada um de vocês, há vida para cada um de vocês?”
Não! Você não pode.
Pode dizer que há vida para todo homem que vem.
Mas, se disser que há vida para alguém que não crê, estará pronunciando uma mentira perigosa.
Se disser a essas pessoas que Jesus Cristo foi punido pelos pecados delas e, ainda assim, elas serão perdidas, estará contando uma falsidade deliberada.
Pensar que Deus poderia punir Cristo e depois puni-las também! Fico admirado com a ousadia de alguém que se atreve a dizer isso!
Certa vez, um bom homem estava pregando que havia harpas e coroas no céu para todos os membros de sua congregação. Então terminou sua mensagem com grande solenidade:
“Meus queridos amigos, há muitas pessoas para as quais essas coisas foram preparadas, mas que jamais chegarão lá.”
Na verdade, ele apresentou uma história tão triste — e certamente tinha motivos para fazê-lo —, mas digo a vocês por quem ele deveria ter chorado: pelos anjos do céu e por todos os santos, pois isso estragaria completamente o céu!
Vocês sabem que, quando se reúnem no Natal e perderam seu irmão Davi, cuja cadeira agora está vazia, dizem:
“Bem, sempre desfrutávamos do Natal, mas agora existe uma tristeza que nos acompanha: o pobre Davi morreu e foi sepultado!”
Imaginem os anjos dizendo:
“Ah! Este é um céu maravilhoso, mas não gostamos de ver todas aquelas coroas penduradas, cobertas de teias de aranha. Não suportamos contemplar aquela rua desabitada. Não conseguimos olhar para aqueles tronos vazios!”
E então, pobres almas, poderiam começar a conversar umas com as outras e dizer:
“Nenhum de nós está seguro aqui, pois a promessa era: ‘Eu lhes dou a vida eterna’, mas há muitos daqueles a quem Deus deu vida eterna que estão no inferno. Há muitos por quem Cristo derramou seu sangue que estão queimando no abismo. E, se eles podem ser enviados para lá, nós também podemos. Se não podemos confiar em uma promessa, não podemos confiar em nenhuma outra.”
Assim, o céu perderia seu fundamento e desmoronaria.
Fora com esse Evangelho sem sentido!
Deus nos dá um Evangelho seguro e sólido, construído sobre os atos da aliança, os relacionamentos da aliança, os propósitos eternos e seus cumprimentos infalíveis.
IV. POR NATUREZA, NENHUM HOMEM QUER VIR A CRISTO
Isso nos conduz ao quarto ponto:
POR NATUREZA, NENHUM HOMEM QUER VIR A CRISTO, pois o texto declara:
“E não quereis vir a mim para terdes vida.”
Afirmo, com a autoridade das Escrituras e fundamentado em nosso texto, que vocês não querem vir a Cristo para terem vida.
Digo-lhes que eu poderia pregar para vocês eternamente. Poderia tomar emprestada a eloquência de Demóstenes ou de Cícero, mas vocês não viriam a Cristo.
Eu poderia suplicar-lhes de joelhos, com lágrimas nos olhos, mostrando-lhes os horrores do inferno, as alegrias do céu, a suficiência de Cristo e sua própria condição de perdição. Ainda assim, nenhum de vocês viria a Cristo por si mesmo, a menos que o Espírito que repousou sobre Cristo os atraísse.
Isso é verdade a respeito de todos os homens em sua condição natural: eles não querem vir a Cristo.
Mas imagino ouvir outro desses faladores fazendo uma pergunta:
“Mas eles não poderiam vir se quisessem?”
Meu amigo, responderei a você em outra ocasião. Essa não é a questão desta manhã.
Estou falando sobre se eles querem vir, não sobre se podem vir.
Você perceberá que, sempre que conversamos sobre o livre-arbítrio, o pobre arminiano, em dois segundos, começa a falar sobre capacidade e mistura dois assuntos que deveriam permanecer separados.
Não trataremos de dois assuntos ao mesmo tempo. Se me permite, recusamo-nos a lutar contra dois adversários simultaneamente.
Em outro dia pregaremos sobre este texto:
“Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer.” (João 6:44)
Mas, por enquanto, estamos falando apenas da vontade.
E é certo que os homens não querem vir a Cristo para terem vida.
Poderíamos demonstrar isso por meio de muitas passagens das Escrituras, mas consideraremos uma parábola.
Vocês se lembram da parábola em que certo rei preparou uma festa para seu filho e convidou muitas pessoas?
Os bois e os animais cevados foram sacrificados, e ele enviou seus mensageiros para convidar muitos para o banquete.
Eles foram à festa?
Ah, não!
Todos, de comum acordo, começaram a apresentar desculpas.
Um disse que havia se casado e, por isso, não poderia ir, embora pudesse perfeitamente ter levado sua esposa consigo.
Outro havia comprado uma junta de bois e precisava experimentá-los. Mas a festa aconteceria à noite, e ele não poderia experimentar seus bois no escuro.
Outro havia comprado um terreno e queria examiná-lo. Mas não imagino que tenha saído para examiná-lo levando uma lanterna!
Assim, todos apresentaram desculpas e não quiseram comparecer.
O rei, porém, estava decidido a realizar a festa.
Então disse:
“Saí pelos caminhos e valados e...”
Esperem! Não apenas convidem, mas:
“...obriguem-nos a entrar.” (Lucas 14:23)
Pois até mesmo aqueles homens maltrapilhos que estavam nos caminhos e valados jamais teriam vindo, se não fossem obrigados a entrar.
Consideremos outra parábola.
Certo homem possuía uma vinha. Quando chegou o tempo determinado, enviou um de seus servos para receber o pagamento do aluguel.
O que fizeram com ele?
Espancaram aquele servo.
Enviou outro, e eles o apedrejaram.
Enviou ainda outro, e eles o mataram.
Finalmente, disse:
“Enviarei meu filho; certamente o respeitarão.”
Mas o que fizeram?
Disseram:
“Este é o herdeiro; vamos matá-lo e lançá-lo fora da vinha.”
E assim fizeram.
É exatamente isso que acontece com todos os homens por natureza.
O Filho de Deus veio, mas os homens o rejeitaram.
“E não quereis vir a mim para terdes vida.”
Seria necessário tempo demais para mencionar outras provas das Escrituras.
Entretanto, faremos referência à grande doutrina da queda.
Qualquer pessoa que acredita que a vontade do homem é inteiramente livre e que ele pode ser salvo por meio dela não acredita verdadeiramente na queda.
Como às vezes digo a vocês, poucos pregadores religiosos acreditam plenamente na doutrina da queda. Ou então imaginam que, quando Adão caiu, quebrou apenas o dedo mínimo, em vez de quebrar o pescoço e arruinar toda a sua descendência!
Ora, amados, a queda despedaçou completamente o homem.
Não deixou nenhuma de suas faculdades intacta.
Todas foram destruídas, degradadas e manchadas.
Como um grande templo que ainda conserva seus pilares, suas colunas, seus capitéis e sua estrutura, mas que está completamente destruído, embora algumas partes ainda mantenham muito de sua forma e posição originais.
A consciência do homem, às vezes, conserva grande parte de sua sensibilidade, mas também sofreu os efeitos da queda.
A vontade tampouco está isenta.
E o que dizer dela, que é o “prefeito de Mansoul”, como Bunyan a chama?
Até mesmo o prefeito está errado!
O senhor Vontade-Própria estava continuamente fazendo o que era errado.
Sua natureza caída foi completamente desorganizada.
Sua vontade, entre outras coisas, desviou-se inteiramente de Deus.
Mas digo-lhes que a melhor prova disso é o grande fato de que nunca encontraram um cristão que afirmasse ter vindo a Cristo sem que Cristo primeiro tivesse vindo a ele.
Vocês certamente já ouviram muitos sermões arminianos, mas nunca ouviram uma oração arminiana!
Pois os santos, quando oram, parecem estar unidos em palavras, atitudes e pensamentos.
Um arminiano, de joelhos, oraria desesperadamente como um calvinista.
Ele não consegue orar a respeito do livre-arbítrio, pois não há espaço para isso.
Imaginem alguém orando assim:
“Senhor, agradeço-te por não ser como esses calvinistas presunçosos e pobres! Senhor, nasci com um glorioso livre-arbítrio. Nasci com a capacidade de me voltar para ti por mim mesmo. Aperfeiçoei a graça que recebi. Se todos tivessem feito com a graça deles o mesmo que fiz com a minha, todos poderiam ter sido salvos.
“Senhor, sei que não nos tornas dispostos se nós mesmos não quisermos. Tu concedes graça a todos. Alguns não a aperfeiçoam, mas eu sim.
“Há muitos que irão para o inferno tendo sido comprados pelo sangue de Cristo tanto quanto eu. Receberam tanto do Espírito Santo quanto eu. Tiveram oportunidades tão boas e foram tão abençoados quanto eu.
“Não foi a tua graça que nos tornou diferentes — sei que ela fez muita coisa, mas fui eu quem decidiu. Fiz uso daquilo que me foi dado, enquanto os outros não fizeram. Essa é a diferença entre mim e eles.”
Essa é uma oração digna do diabo, pois ninguém mais faria uma oração assim!
Ah! Quando estão pregando e falando muito devagar, talvez haja alguma doutrina errada em suas palavras. Mas, quando começam a orar, a verdade escapa de seus lábios. Não conseguem evitar.
Se um homem fala muito devagar, pode falar de maneira elegante, mas, quando começa a falar rapidamente, o antigo sotaque de sua terra natal acaba aparecendo.
Pergunto novamente: vocês já encontraram algum cristão que dissesse:
“Vim a Cristo sem o poder do Espírito”?
Se já encontraram alguém assim, não hesitem em dizer:
“Meu caro senhor, acredito perfeitamente em você. E acredito também que foi embora novamente sem o poder do Espírito, que nada sabe sobre esse assunto e que está na amargura e no laço da iniquidade.”
Ouço algum cristão dizer:
“Eu procurei Jesus antes que Ele me procurasse. Fui até o Espírito, mas o Espírito não veio até mim”?
Não, amados!
Cada um de nós é obrigado a colocar a mão sobre o próprio coração e dizer:
“A graça ensinou minha alma a orar
E fez meus olhos transbordarem;
Foi a graça que me sustentou até hoje
E não permitirá que eu me perca.”
Existe alguém aqui — um único homem ou mulher, jovem ou velho — que possa dizer:
“Procurei a Deus antes que Ele me procurasse”?
Não!
Até mesmo vocês, que são um pouco arminianos, cantarão:
“Sim, eu amo a Jesus,
Porque Ele primeiro me amou.”
Mais uma pergunta.
Não descobrimos que, mesmo depois de termos vindo a Cristo, nossa alma não é livre por si mesma, mas é sustentada por Cristo?
Não experimentamos momentos em que a disposição de fazer o bem não está presente em nós?
Existe uma lei em nossos membros que luta contra a lei da nossa mente.
Ora, se aqueles que estão espiritualmente vivos sentem que sua vontade é contrária a Deus, o que diremos do homem que está “morto em delitos e pecados”?
Seria um absurdo extraordinário colocar os dois no mesmo nível. E seria ainda mais absurdo colocar os mortos acima dos vivos.
Não! O texto é verdadeiro.
A experiência gravou profundamente em nosso coração estas palavras:
“E não quereis vir a mim para terdes vida.”
Agora precisamos dizer-lhes as razões pelas quais os homens não querem vir a Cristo.
A primeira razão é que, por natureza, nenhum homem pensa que necessita de Cristo.
Por natureza, o homem acredita que não precisa de Cristo.
Ele pensa que possui uma veste de justiça própria, que está bem vestido, que não está nu, que não necessita do sangue de Cristo para lavá-lo, que não é negro nem carmesim e que não precisa da graça para purificá-lo.
Nenhum homem conhece sua necessidade até que Deus a revele.
E, até que o Espírito Santo lhe mostre a necessidade do perdão, nenhum homem buscará o perdão.
Posso pregar Cristo eternamente, mas, a menos que você sinta que necessita de Cristo, jamais virá a Ele.
Um médico pode possuir uma excelente farmácia, mas ninguém comprará seus remédios enquanto não sentir que precisa deles.
A segunda razão é que os homens não gostam da maneira como Cristo os salva.
Um diz:
“Não gosto disso porque Ele me torna santo. Se Ele me salvar, não poderei mais beber nem blasfemar.”
Outro diz:
“Isso exige que eu seja tão rigoroso e puritano! Prefiro ter um pouco mais de liberdade.”
Outro não gosta porque o Evangelho é tão humilhante.
Ele não gosta porque o “portão do céu” não é suficientemente alto para que sua cabeça passe erguida. Não gosta de se abaixar.
Essa é a principal razão pela qual vocês não querem vir a Cristo: não conseguem chegar até Ele mantendo a cabeça orgulhosamente erguida, pois Cristo exige que vocês se curvem quando vêm.
Outro não gosta da ideia de que tudo seja graça, do começo ao fim.
“Ah!”, diz ele, “se ao menos eu pudesse receber um pouco de honra!”
Mas, quando ouve que é tudo Cristo ou nenhum Cristo, Cristo por inteiro ou nenhum Cristo, diz:
“Não irei!”
E vira as costas e vai embora.
Ah! Pecadores orgulhosos, vocês não querem vir a Cristo!
Ah! Pecadores ignorantes, vocês não querem vir a Cristo porque nada sabem a respeito dele.
E essa é a terceira razão.
Os homens não conhecem o valor de Cristo, pois, se o conhecessem, viriam a Ele.
Por que os marinheiros não foram à América antes de Colombo?
Porque não acreditavam que existisse uma América.
Colombo tinha fé e, por isso, partiu.
Aquele que tem fé em Cristo vai até Ele.
Mas vocês não conhecem Jesus.
Muitos de vocês nunca contemplaram seu rosto formoso. Nunca perceberam quão apropriado é o seu sangue para um pecador, quão grande é a sua expiação e quão suficientes são os seus méritos.
Por isso:
“E não quereis vir a ele.”
E agora, meus ouvintes, meu último pensamento é solene.
Preguei que vocês não querem vir a Cristo, mas alguém poderá dizer:
“A culpa de não virem é deles?”
Sim, é!
Vocês não querem vir, mas sua vontade é uma vontade pecaminosa.
Alguns pensam que, quando pregamos essa doutrina, estamos “costurando travesseiros para todos os sovacos”, isto é, oferecendo desculpas confortáveis para os pecadores. Mas não fazemos isso!
Não afirmamos que essa condição fazia parte da natureza original do homem. Ela pertence à sua natureza caída.
Foi o pecado que os colocou nessa condição, fazendo com que não queiram vir.
Se não tivessem caído, viriam a Cristo no momento em que Ele lhes fosse anunciado.
Mas vocês não vêm por causa de sua pecaminosidade e culpa.
As pessoas se desculpam dizendo que possuem corações maus.
Essa é a desculpa mais frágil do mundo!
O roubo e o furto não procedem de um coração mau?
Suponhamos que um ladrão dissesse ao juiz:
“Não pude evitar; tenho um coração mau.”
O que o juiz responderia?
“Seu miserável! Se seu coração é mau, tornarei sua sentença ainda mais severa, pois você é realmente um criminoso. Sua desculpa não vale absolutamente nada!”
O Todo-Poderoso “rirá deles e zombará deles”.
Não pregamos essa doutrina para desculpá-los, mas para humilhá-los.
Possuir uma natureza má é tanto minha culpa quanto minha terrível calamidade.
Isso é um pecado que sempre será imputado aos homens.
Quando não querem vir a Cristo, é o pecado que os mantém afastados.
Aquele que não prega isso, temo eu, não está sendo fiel a Deus nem à sua própria consciência.
Voltem para casa, então, com este pensamento:
“Por natureza, sou tão perverso que não quero vir a Cristo, e essa perversidade maligna da minha natureza é o meu pecado. Por causa dela, mereço ser lançado no inferno.”
E, se esse pensamento não os humilhar, nenhuma outra coisa poderá fazê-lo, a menos que o Espírito Santo o utilize para esse propósito.
Nesta manhã, não exaltei a natureza humana; pelo contrário, preguei contra ela.
Que Deus nos humilhe a todos! Amém.
Extraído da coleção The Metropolitan Tabernacle Pulpit, de C. H. Spurgeon. Apenas as alterações necessárias foram realizadas, como correções ortográficas, ajustes de pontuação, padronização da capitalização dos pronomes referentes à divindade e atualização mínima de algumas palavras arcaicas. O conteúdo permanece integral, sem cortes.
