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sábado, 31 de outubro de 2026

CRISTO, NOSSA PÁSCOA

 


Sermão nº 54 — C. H. Spurgeon

Pregado na noite de domingo, 2 de dezembro de 1855, pelo Rev. C. H. Spurgeon, na Capela de New Park Street, Southwark.

Texto bíblico:

“Porque Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós.”

1 Coríntios 5:7

Quanto mais você lê a Bíblia e medita sobre ela, mais ficará maravilhado com suas riquezas. Aquele que lê as Escrituras apenas ocasionalmente não conhece a altura, a profundidade, o comprimento e a largura dos poderosos significados contidos em suas páginas. Há momentos em que descubro uma nova fonte de pensamentos e, espantado, levo a mão à cabeça e digo: “Oh! Como é maravilhoso que eu nunca tenha percebido isto antes nas Escrituras!”

Você descobrirá que as Escrituras se ampliam à medida que você penetra nelas. Quanto mais as estuda, menos parecerá saber a respeito delas, pois elas se expandem diante de nós à medida que nos aproximamos. Isso é especialmente verdadeiro em relação às passagens tipológicas da Palavra de Deus. A maior parte dos livros históricos foi destinada a representar, por meio de figuras, diferentes dispensações, experiências ou ofícios de Jesus Cristo. Estude a Bíblia com essa chave de interpretação e você não censurará Herbert por chamá-la de “não apenas o livro de Deus, mas o Deus dos livros”.

Um dos aspectos mais interessantes das Escrituras é sua constante tendência de revelar Cristo. E talvez uma das figuras mais belas sob as quais Jesus Cristo é apresentado na Palavra sagrada seja a do Cordeiro Pascal. É sobre Cristo que falaremos nesta noite.

Israel estava no Egito, submetido a uma escravidão terrível. A severidade de seu cativeiro aumentava continuamente, até que se tornou tão opressora que seus incessantes gemidos subiam aos céus. Deus, que faz justiça aos seus eleitos, embora clamem a Ele dia e noite, finalmente decidiu desferir um golpe terrível contra o rei e a nação do Egito, a fim de libertar o seu próprio povo.

Podemos imaginar as ansiedades e expectativas de Israel, mas dificilmente conseguiremos nos identificar com eles, a menos que, como cristãos, tenhamos experimentado a mesma libertação do Egito espiritual. Irmãos, voltemos ao dia de nossa experiência em que habitávamos na terra do Egito, trabalhando nas olarias do pecado, esforçando-nos para nos tornar melhores e descobrindo que todo esse esforço era inútil. Recordemos aquela noite memorável, o princípio dos meses, o começo de uma nova vida em nosso espírito e o início de uma era inteiramente nova em nossa alma. A Palavra de Deus desferiu o golpe contra o nosso pecado, Ele nos deu Jesus Cristo como nosso sacrifício e, naquela noite, saímos do Egito.

Embora desde então tenhamos atravessado o deserto, lutado contra os amalequitas, pisado sobre a serpente ardente, sido abrasados pelo calor e congelados pela neve, jamais voltamos ao Egito. Ainda que, às vezes, nosso coração tenha desejado os alhos-porós, as cebolas e as panelas de carne do Egito, nunca mais fomos submetidos à escravidão.

Venham, celebremos a Páscoa nesta noite e pensemos na noite em que o Senhor nos libertou do Egito. Contemplemos nosso Salvador Jesus como o Cordeiro Pascal de quem nos alimentamos. Sim, não apenas olhemos para Ele dessa maneira, mas sentemo-nos nesta noite à sua mesa; comamos de sua carne e bebamos de seu sangue, pois sua carne é verdadeiramente alimento, e seu sangue é verdadeiramente bebida. Em santa solenidade, aproximemo-nos em nosso coração daquela antiga ceia. Voltemos à escuridão do Egito e, pela santa contemplação, vejamos, em lugar do anjo destruidor, o Anjo da Aliança à frente do banquete: “O Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.

Não terei tempo nesta noite para abordar toda a história e todo o mistério da Páscoa. Não entendam que pretendo pregar sobre todos os seus aspectos, mas apenas sobre alguns pontos principais. Seriam necessários doze sermões para tratar do assunto — na verdade, um livro tão volumoso quanto o comentário de Caryl sobre Jó, se pudéssemos encontrar um teólogo igualmente prolixo e sensato.

Primeiramente, contemplaremos o Senhor Jesus Cristo e mostraremos como Ele corresponde ao Cordeiro Pascal. Em seguida, procuraremos conduzi-los a estes dois pontos: ter o sangue dele aspergido sobre vocês e alimentar-se dele.

I. JESUS CRISTO É REPRESENTADO PELO CORDEIRO PASCAL

Se houver aqui algum descendente de Abraão que ainda não tenha reconhecido Jesus como o Messias, peço-lhe especial atenção ao que apresentarei ao falar do Senhor Jesus como ninguém menos que o Cordeiro de Deus, morto para libertar o seu povo escolhido. Acompanhem-me com suas Bíblias e abram primeiro no capítulo 12 de Êxodo.

Comecemos pela vítima: o cordeiro. Que bela representação de Cristo! Nenhuma outra criatura poderia simbolizar tão bem Aquele que era santo, inocente, imaculado e separado dos pecadores. Sendo também um símbolo de sacrifício, o cordeiro retratava de maneira extremamente bela nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Percorram toda a história natural e encontrarão outros símbolos que apresentam diferentes características de sua natureza e o revelam admiravelmente à nossa alma; contudo, nenhum parece tão apropriado à pessoa de nosso amado Senhor quanto o cordeiro.

Até uma criança perceberia imediatamente a semelhança entre um cordeiro e Jesus Cristo: tão manso e inocente, tão suave e inofensivo, sem ferir os outros e aparentemente sem sequer possuir a capacidade de revidar uma ofensa.

“Um homem humilde diante dos inimigos,
Um homem cansado e cheio de dores.”

Quantos sofrimentos os animais dessa espécie têm recebido de nossas mãos! Embora inocentes, são continuamente abatidos para servir de alimento. Sua pele é arrancada para nós, e sua lã é tosquiada para nos fornecer vestimentas. Da mesma maneira, o Senhor Jesus Cristo, nosso glorioso Mestre, nos dá suas vestes para que sejamos revestidos com elas. Ele foi dilacerado por nós; seu próprio sangue foi derramado por causa dos nossos pecados. Inofensivo e santo, tornou-se um glorioso sacrifício pelos pecados de todos os seus filhos. Assim, o Cordeiro Pascal poderia muito bem transmitir ao piedoso hebreu a imagem de um Messias sofredor, silencioso, paciente e inofensivo.

Observem ainda outro detalhe: era um cordeiro sem defeito. Um cordeiro defeituoso, que apresentasse a menor mancha de doença ou o mais leve ferimento, não poderia ser oferecido na Páscoa. O sacerdote não permitiria que fosse sacrificado, e Deus não aceitaria tal oferta de suas mãos. Deveria ser um cordeiro sem defeito.

E Jesus Cristo não foi exatamente assim desde o seu nascimento? Sem defeito, nascido da pura virgem Maria, concebido pelo Espírito Santo e sem qualquer contaminação do pecado. Sua alma era pura e imaculada como a neve recém-caída: branca, límpida e perfeita. Sua vida também foi assim.

Nele não havia pecado. Ele tomou sobre si nossas enfermidades e carregou nossas dores na cruz. Foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas com esta gloriosa exceção: “sem pecado”. Um cordeiro sem defeito!

Vocês que conhecem o Senhor, que provaram de sua graça e desfrutaram de comunhão com Ele, não reconhecem em seu coração que Ele é um cordeiro sem defeito?

Conseguem encontrar alguma falha em seu Salvador? Têm algo de que acusá-lo? Sua fidelidade desapareceu? Suas palavras foram quebradas? Suas promessas falharam? Ele se esqueceu de seus compromissos? Em algum aspecto, conseguem encontrar nele qualquer defeito?

Ah, não! Ele é o Cordeiro sem defeito, puro, imaculado e perfeito, “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, e nele não há pecado algum.

Continuem a leitura do capítulo: “O cordeiro será sem defeito, macho de um ano”. Não preciso me deter para explicar por que foi escolhido um macho; observemos apenas que deveria ser um macho de um ano. Estava então no auge de sua vida; sua força ainda não havia sido consumida, e seu vigor acabava de alcançar a maturidade e a perfeição. Deus não desejava um fruto prematuro. Não queria que fosse oferecido aquilo que ainda não havia chegado à maturidade.

Da mesma maneira, nosso Senhor Jesus Cristo havia acabado de alcançar a plenitude da idade adulta quando foi oferecido. Aos trinta e quatro anos, foi sacrificado por nossos pecados. Estava então saudável e forte, embora seu corpo talvez estivesse debilitado pelos sofrimentos e seu rosto mais desfigurado do que o de qualquer outro homem. Ainda assim, encontrava-se na plenitude de sua maturidade humana.

Parece-me que consigo vê-lo naquele momento: sua bela barba caindo sobre o peito; seus olhos cheios de inteligência; sua postura ereta; sua aparência majestosa; sua energia intacta; todo o seu corpo plenamente desenvolvido — um homem verdadeiro, um homem magnífico, mais formoso do que os filhos dos homens. Um cordeiro não apenas sem defeito, mas com todas as suas capacidades plenamente desenvolvidas.

Assim era Jesus Cristo: um Cordeiro de um ano, não um menino, não um adolescente, nem mesmo um jovem, mas um homem em plena maturidade, para que pudesse entregar sua alma por nós. Ele não se entregou à morte quando ainda era jovem, pois, nesse caso, não teria oferecido tudo o que era. Tampouco se entregou na velhice, quando já estivesse em declínio. Mas foi justamente em sua maturidade, no auge de sua vida, que Jesus Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós.

Além disso, no momento de sua morte, Cristo estava cheio de vida, pois um dos evangelistas nos informa que “clamou com grande voz e entregou o espírito”. Isso demonstra que Jesus não morreu por fraqueza nem por causa do desgaste natural. Sua alma ainda era forte dentro dele. Continuava sendo o Cordeiro de um ano. Ainda era poderoso. Se quisesse, mesmo na cruz, poderia ter soltado as mãos dos cravos de ferro, descido da árvore da vergonha e colocado seus inimigos aterrorizados em fuga, como cervos dispersados por um leão. Contudo, submeteu-se mansamente à obediência até a morte.

Minha alma, você não consegue contemplar aqui o seu Jesus, o Cordeiro sem defeito, no auge de sua força e poder? E, ó meu coração, não surge em você este pensamento: se Jesus se consagrou por mim quando estava no vigor de sua força, não deveria eu, na juventude, dedicar-me a Ele? E, se estou na idade adulta, não tenho uma obrigação ainda maior de entregar-lhe minhas forças? E, se já cheguei à velhice, não devo procurar consagrar a Ele aquilo que ainda me resta?

Se Ele me deu tudo o que tinha, e isso era muito, não deveria eu entregar-lhe o meu pequeno tudo? Não deveria sentir-me obrigado a consagrar-me inteiramente ao seu serviço, colocando corpo, alma e espírito, tempo, talentos e tudo o que possuo sobre o seu altar?

E, embora eu não seja um cordeiro sem defeito, alegro-me porque, assim como o bolo levedado era aceito juntamente com o sacrifício, embora não fosse queimado com ele, também eu, apesar de ser como um bolo levedado, posso ser oferecido sobre o altar juntamente com meu Senhor e Salvador, a oferta queimada do Senhor. Assim, embora impuro e cheio de fermento, posso ser aceito no Amado, como oferta de aroma agradável, aceitável ao Senhor, meu Deus.

Eis Jesus, amados: um Cordeiro sem defeito, um Cordeiro de um ano!

O assunto agora se amplia, e nosso interesse se aprofunda. Peço-lhes uma atenção muito especial ao próximo ponto, cuja descoberta me trouxe grande satisfação e que lhes ensinará algo importante sobre essa relação.

No sexto versículo do capítulo 12 de Êxodo, somos informados de que o cordeiro destinado à Páscoa deveria ser escolhido quatro dias antes do sacrifício e mantido separado.

“Aos dez deste mês, tome cada um para si um cordeiro, segundo a casa dos pais, um cordeiro para cada família. Mas, se a família for pequena demais para um cordeiro, então o tomará juntamente com seu vizinho mais próximo, conforme o número de pessoas; conforme o que cada um puder comer, fareis a conta para o cordeiro.”

O sexto versículo diz: “E o guardareis até ao décimo quarto dia deste mês”.

Durante quatro dias, esse cordeiro escolhido para ser oferecido era separado do restante do rebanho e mantido à parte por duas razões. Em primeiro lugar, para que, por meio de seus constantes balidos, o povo fosse lembrado da solene festa que estava prestes a celebrar. Além disso, durante aqueles quatro dias, seria possível ter plena certeza de que o animal não possuía defeito algum, pois ficaria sob constante observação, a fim de que se verificasse se não apresentava ferimento ou lesão que o tornasse inaceitável ao Senhor.

E agora, irmãos, um fato extraordinário se apresenta diante de vocês: assim como esse cordeiro era separado durante quatro dias, as antigas interpretações alegóricas costumavam dizer que Cristo foi separado durante quatro anos. Quatro anos depois de deixar a casa de seu pai, Ele foi para o deserto e foi tentado pelo diabo. Quatro anos depois de seu batismo, foi sacrificado por nós.

Mas há outra correspondência, ainda mais significativa: aproximadamente quatro dias antes de sua crucificação, Jesus Cristo entrou triunfalmente pelas ruas de Jerusalém. Assim, foi publicamente separado como alguém distinto de toda a humanidade. Montado em um jumentinho, dirigiu-se ao templo, para que todos pudessem reconhecê-lo como o Cordeiro de Judá, escolhido por Deus e destinado desde a fundação do mundo.

E o que é ainda mais extraordinário: durante aqueles quatro dias, se vocês consultarem os Evangelhos com calma, perceberão que foi registrado sobre o que Ele fez e disse tanto quanto sobre grande parte do restante de sua vida. Durante esses dias, Ele repreendeu a figueira, que imediatamente secou. Foi então que expulsou do templo os compradores e vendedores. Também foi nesse período que repreendeu os sacerdotes e os anciãos, contando-lhes a parábola dos dois filhos: um disse que iria trabalhar, mas não foi; o outro disse que não iria, mas acabou indo.

Foi então que contou a parábola dos lavradores que mataram aqueles que lhes foram enviados. Depois, apresentou a parábola das bodas do filho do rei. Em seguida, veio a parábola do homem que entrou na festa sem estar vestido com traje nupcial. E também a parábola das dez virgens, cinco prudentes e cinco insensatas.

Depois encontramos o capítulo com as contundentes denúncias contra os fariseus: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Limpai primeiro o interior do copo e do prato”. Em seguida, vem aquele longo capítulo de profecias sobre o que aconteceria durante o cerco de Jerusalém e sobre a dissolução do mundo: “Aprendei, pois, esta parábola da figueira: quando já os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas, sabeis que está próximo o verão”.

Não quero cansá-los mencionando que, naquele mesmo período, Ele também lhes apresentou aquela magnífica descrição do dia do juízo, quando as ovelhas serão separadas dos bodes. Na verdade, as mais extraordinárias declarações de Jesus foram registradas como tendo ocorrido durante esses quatro dias. Assim como o cordeiro, separado dos demais, balia mais intensamente durante aqueles quatro dias, Jesus também falou mais intensamente nesse período.

Se desejarem encontrar algumas das mais preciosas palavras de Jesus, consultem o relato de seu ministério durante os últimos quatro dias. Ali encontrarão aquele capítulo que começa com: “Não se turbe o vosso coração”. Ali também está sua grande oração: “Pai, a minha vontade é...”, e assim por diante. As maiores coisas que Ele fez foram realizadas naqueles últimos quatro dias, quando estava separado.

Há ainda outro ponto para o qual peço sua atenção especial. Eu lhes disse que, durante aqueles quatro dias, o cordeiro ficava sujeito ao exame mais rigoroso. De maneira semelhante, é extraordinário observar que, durante esses mesmos quatro dias, Jesus Cristo foi examinado por todas as classes de pessoas.

Foi nesse período que o intérprete da lei lhe perguntou qual era o maior mandamento. Jesus respondeu:

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. [...] Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Foi então que os herodianos se aproximaram e o interrogaram sobre o pagamento do tributo. Também foi nesse período que os fariseus o tentaram. Os saduceus, por sua vez, procuraram colocá-lo à prova quanto à questão da ressurreição. Ele foi examinado por todas as classes e categorias: herodianos, fariseus, saduceus, intérpretes da lei e o povo comum.

Durante aqueles quatro dias, Ele foi submetido a um exame rigoroso. Mas como saiu dele? Como um Cordeiro imaculado! Os guardas disseram: “Nunca homem algum falou assim como este homem”. Seus inimigos não encontraram ninguém que pudesse sequer apresentar um falso testemunho contra Ele que fosse coerente com o dos demais. E Pilatos declarou: “Não acho nele crime algum”.

Ele não seria digno de ser o Cordeiro Pascal se um único defeito tivesse sido encontrado nele. Mas “Não acho nele crime algum” foi a declaração do grande magistrado, que, com essas palavras, reconheceu que o Cordeiro podia ser oferecido na Páscoa de Deus, como símbolo e instrumento da libertação do povo do Senhor.

Ó amados! Basta estudar as Escrituras para descobrir nelas coisas maravilhosas. Basta pesquisá-las profundamente para ficar impressionado com suas riquezas. Vocês descobrirão que a Palavra de Deus é preciosíssima e que, quanto mais viverem por ela e a estudarem, mais ela se tornará querida ao coração.

O próximo ponto que devemos observar é o lugar onde esse cordeiro deveria ser morto, algo que demonstra de maneira especial que ele apontava para Jesus Cristo.

A primeira Páscoa foi celebrada no Egito; a segunda, no deserto. Não lemos que outras Páscoas tenham sido celebradas antes de os israelitas chegarem a Canaã.

Depois, se vocês consultarem Deuteronômio, capítulo 16, encontrarão que Deus já não permitia que o cordeiro fosse morto nas próprias casas do povo, mas determinou um lugar específico para a celebração. No deserto, os israelitas levavam suas ofertas ao tabernáculo, onde o cordeiro era sacrificado. Entretanto, quando a Páscoa foi instituída pela primeira vez no Egito, naturalmente não havia um lugar especial para onde pudessem levar o cordeiro a fim de sacrificá-lo.

Mais tarde, lemos em Deuteronômio 16:5-6:

“Não poderás sacrificar a Páscoa em nenhuma das tuas cidades que te dá o Senhor teu Deus; senão no lugar que escolher o Senhor teu Deus para ali fazer habitar o seu nome, ali sacrificarás a Páscoa à tarde, ao pôr do sol, ao tempo determinado em que saíste do Egito.”

Era em Jerusalém que os homens deveriam adorar, pois a salvação vinha dos judeus. Ali estava o palácio de Deus, ali fumegava o seu altar, e somente ali o Cordeiro Pascal poderia ser morto.

Assim, nosso bendito Senhor foi conduzido a Jerusalém. A multidão enfurecida arrastou-o pelas ruas da cidade. Foi em Jerusalém que nosso Cordeiro foi sacrificado por nós. Isso aconteceu exatamente no lugar que Deus havia determinado.

Oh! Se aquela multidão que se reuniu contra Ele em Nazaré tivesse conseguido lançá-lo do alto do monte, Cristo não poderia ter morrido em Jerusalém. Mas, assim como Ele disse que “não convém que um profeta morra fora de Jerusalém”, também era verdade que o Rei de todos os profetas não poderia morrer em outro lugar, pois, caso contrário, as profecias a seu respeito não teriam sido cumpridas.

“Sacrificarás a Páscoa no lugar que o Senhor teu Deus escolher.” Ele foi sacrificado exatamente nesse lugar. Temos, portanto, mais uma prova indireta de que Jesus Cristo era o Cordeiro Pascal destinado ao seu povo.

O próximo ponto é a maneira como Ele morreu. Creio que a forma pela qual o cordeiro deveria ser oferecido representa tão particularmente a crucificação de Cristo que nenhum outro tipo de morte poderia corresponder a todos os detalhes aqui apresentados.

Primeiro, o cordeiro deveria ser morto, e seu sangue recolhido em uma bacia. Normalmente, o sacerdote permanecia junto ao altar, enquanto os levitas ou o próprio povo sacrificavam o cordeiro, recolhendo o sangue em uma bacia de ouro. Assim que o sangue era recolhido, o sacerdote, estando junto ao altar sobre o qual a gordura queimava, lançava-o sobre o fogo ou o derramava na base do altar.

Podem imaginar que cena era aquela! Dez mil cordeiros sacrificados, e o sangue derramado como um rio púrpura.

Em seguida, o cordeiro deveria ser assado, mas nenhum osso de seu corpo poderia ser quebrado.

Afirmo que somente a crucificação poderia corresponder a esses três elementos. A crucificação envolvia derramamento de sangue — as mãos e os pés eram perfurados.

Também continha a ideia de ser assado, pois assar representa um tormento prolongado. Assim como o cordeiro permanecia por bastante tempo diante do fogo, Cristo, na crucificação, ficou exposto durante longo período ao sol escaldante e a todas as demais dores produzidas por esse tipo de execução. Além disso, nenhum de seus ossos foi quebrado, algo que não poderia ter acontecido em qualquer outra forma de punição.

Suponhamos que tivesse sido possível matar Cristo de outra maneira. Às vezes, os romanos executavam criminosos por decapitação, mas, nesse tipo de morte, o pescoço era quebrado. Muitos mártires foram mortos com uma espada atravessando seus corpos. Embora isso provocasse derramamento de sangue e não necessariamente quebrasse algum osso, o tormento não seria suficientemente prolongado para corresponder à figura do cordeiro assado.

Considerem qualquer outra forma de punição que desejarem. Pensem no enforcamento, que os romanos às vezes praticavam por meio do estrangulamento. Esse método não envolvia derramamento de sangue e, consequentemente, não atenderia aos requisitos.

Creio que qualquer judeu inteligente, ao ler o relato da Páscoa e depois contemplar a crucificação, ficaria impressionado com o fato de que a pena e a morte na cruz, pelas quais Cristo sofreu, reuniram todos esses três elementos.

Houve derramamento de sangue, sofrimento prolongado — o tormento do fogo — e, além disso, de maneira extraordinária, pela providência de Deus, nenhum osso foi quebrado. Seu corpo foi retirado da cruz intacto.

Alguns poderiam dizer que a morte pelo fogo também atenderia a esses requisitos. Mas, nesse caso, não haveria derramamento de sangue, e os ossos seriam praticamente destruídos pelo fogo. Além disso, o corpo não seria preservado inteiro.

A crucificação foi a única forma de morte capaz de atender a todos esses três requisitos. Minha fé recebe grande fortalecimento ao perceber que meu Salvador não foi apenas o cumprimento dessa figura, mas o único que poderia cumpri-la plenamente.

Meu coração se alegra ao contemplar Aquele a quem traspassamos, ver seu sangue aspergido sobre minha verga e sobre os umbrais da minha porta, como o sangue do cordeiro, e perceber que seus ossos não foram quebrados. Isso me faz crer que nenhum osso de seu corpo espiritual será quebrado no futuro.

Alegro-me também ao vê-lo sofrer como se estivesse sendo assado no fogo, pois assim compreendo que Ele satisfez a Deus em meu lugar, suportando aquele tormento que eu deveria sofrer para sempre no inferno.

Cristão! Gostaria de possuir palavras capazes de expressar essas verdades de maneira mais adequada. Mas, como não as tenho, entrego-lhes estes pensamentos ainda não totalmente elaborados, para que os levem consigo e deles se alimentem durante a semana. Vocês descobrirão que esse Cordeiro Pascal é alimento para cada hora, e não apenas para a ceia. Poderão alimentar-se dele continuamente até chegarem ao monte de Deus, onde o verão como Ele é e o adorarão junto ao Cordeiro que está no meio do trono.

II. COMO RECEBEMOS OS BENEFÍCIOS DO SANGUE DE CRISTO

“Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós.”

O judeu não poderia dizer isso. Poderia falar de um cordeiro, mas “o Cordeiro”, isto é, “Cristo, nossa Páscoa”, ainda não havia sido oferecido como vítima.

E há alguns entre os meus ouvintes, dentro destas paredes, que não podem dizer: “Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós”. Mas graças sejam dadas a Deus! Alguns de nós podem afirmar isso. Há muitos aqui que já colocaram as mãos sobre o glorioso Bode Expiatório e agora também podem colocar as mãos sobre o Cordeiro, dizendo: “Sim, é verdade: Ele não apenas foi sacrificado, mas Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós”.

Recebemos os benefícios da morte de Cristo de duas maneiras. Primeiro, quando seu sangue é aspergido sobre nós para nossa redenção. Segundo, quando nos alimentamos de sua carne, recebendo dela sustento para nossa regeneração e santificação.

A primeira maneira pela qual o pecador contempla Jesus é como um cordeiro sacrificado, cujo sangue é aspergido sobre os umbrais e a verga da porta.

Observem que o sangue nunca era aspergido sobre a soleira. Era colocado na verga, na parte superior da porta, e nos batentes laterais, mas nunca na soleira. Ai daquele que pisa o sangue do Filho de Deus! Até mesmo os sacerdotes de Dagom evitavam pisar na soleira de seu deus; quanto menos o cristão deveria pisar no sangue do Cordeiro Pascal!

Mas o sangue dele deve estar sobre nossa mão direita, para ser nossa proteção constante, e sobre nossa mão esquerda, para ser nosso sustento contínuo. Precisamos que Jesus Cristo seja aspergido sobre nós. Como já lhes disse, não é apenas o sangue de Cristo derramado no Calvário que salva o pecador; é o sangue de Cristo aspergido sobre o coração.

Voltemos à terra de Zoã. Vocês não conseguem imaginar a cena nesta noite?

É noite. Os egípcios estão voltando para suas casas, sem imaginar o que está prestes a acontecer. Mas, assim que o sol se põe, um cordeiro é levado para dentro de cada casa. Os estrangeiros egípcios que passam por ali dizem: “Esses hebreus estão prestes a celebrar uma festa nesta noite”, e seguem para suas casas, completamente despreocupados.

O pai da família hebreia pega o cordeiro e, examinando-o mais uma vez com grande atenção, observa-o da cabeça aos pés para verificar se possui algum defeito. Não encontra nenhum.

“Meu filho”, diz ele a um dos filhos, “traga aqui a bacia”.

A bacia é colocada diante dele. O pai sacrifica o cordeiro, e o sangue escorre para dentro dela.

Vocês não conseguem imaginar o pai dando ordens à sua esposa para assar o cordeiro diante do fogo?

“Tenha cuidado”, diz ele, “para que nenhum osso seja quebrado.”

Conseguem imaginar a intensa preocupação dela ao colocá-lo para assar, tomando todo o cuidado para que nenhum osso se quebre?

“Agora”, diz o pai, “tragam um ramo de hissopo”.

Uma criança o traz. O pai mergulha o ramo no sangue.

“Venham aqui, meus filhos, minha esposa, todos vocês, e vejam o que estou prestes a fazer.”

Ele toma o hissopo nas mãos, mergulha-o no sangue e o asperge sobre a verga e os batentes da porta.

Seus filhos perguntam:

“O que significa esta cerimônia?”

Ele responde:

“Nesta noite, o Senhor Deus passará pela terra para ferir os egípcios. Quando vir o sangue sobre a verga e sobre os dois batentes laterais, o Senhor passará por cima daquela porta e não permitirá que o destruidor entre em nossas casas para nos ferir.”

Tudo está pronto. O cordeiro foi assado, e os convidados se sentam para comer. O pai da família pede a bênção, e todos se acomodam para participar da refeição. Observem como o homem divide cuidadosamente cada parte do cordeiro, para que nenhum osso seja quebrado. Ele também faz questão de que até mesmo a menor criança da família receba uma porção, pois assim o Senhor havia ordenado.

Vocês não conseguem imaginá-lo dizendo:

“Esta é uma noite solene. Apressem-se! Daqui a uma hora, todos nós sairemos do Egito.”

Ele olha para as próprias mãos, calejadas pelo trabalho, e, batendo palmas, exclama:

“Não serei mais escravo!”

Talvez seu filho mais velho ainda esteja sentindo as dores das chicotadas recebidas. O pai lhe diz:

“Meu filho, hoje à tarde você sentiu novamente o açoite do capataz, mas esta será a última vez que sofrerá isso.”

Ele olha para todos, com lágrimas nos olhos, e diz:

“Esta é a noite em que o Senhor Deus os libertará!”

Vocês os veem com as sandálias nos pés, as vestes ajustadas à cintura e os cajados nas mãos? É o meio da noite. De repente, ouvem um grito!

O pai diz:

“Fiquem dentro de casa, meus filhos. Daqui a pouco vocês saberão o que está acontecendo.”

Agora outro grito! Mais um! E outro ainda! Gritos sucedem-se sem parar. Eles ouvem lamentos e prantos por toda parte.

“Permaneçam aqui dentro”, diz o pai. “O anjo da morte está passando pela terra.”

Um silêncio solene toma conta do ambiente. Quase conseguem ouvir o bater das asas do anjo enquanto ele passa pela porta marcada com sangue.

“Fiquem tranquilos”, diz o pai. “Aquele sangue os salvará.”

Os gritos aumentam.

“Comam depressa, meus filhos”, ele diz novamente.

De repente, os egípcios começam a aparecer, dizendo:

“Vão embora! Vão embora! Não nos importamos com as joias que vocês tomaram emprestadas. Vocês trouxeram a morte para nossas casas!”

“Ah!”, exclama uma mãe. “Vão! Pelo amor de Deus, vão! Meu filho mais velho está morto!”

“Vão!”, diz um pai. “E que a paz os acompanhe. Foi um dia terrível quando o seu povo veio para o Egito e nosso rei começou a matar os seus primogênitos, pois Deus está nos castigando por nossa crueldade.”

Vejam-nos deixando a terra. Os gritos ainda são ouvidos, e o povo está ocupado cuidando de seus mortos. Enquanto os israelitas partem, o filho de Faraó é levado, sem sequer ser embalsamado, para ser sepultado em uma das pirâmides. Pouco depois, veem também o filho de um dos capatazes sendo levado.

Que noite feliz para eles — a noite em que escaparam!

E vocês percebem, meus ouvintes, o glorioso paralelo? Eles precisavam aspergir o sangue e também comer o cordeiro.

Ah, minha alma, o sangue já foi aspergido sobre você? Pode dizer que Jesus Cristo lhe pertence? Não basta afirmar: “Ele amou o mundo e deu o seu Filho”. Você precisa dizer: “Ele me amou e se entregou por mim”.

Há outra hora que se aproxima, queridos amigos, quando todos estaremos diante do tribunal de Deus. Então Deus dirá:

“Anjo da morte, você já feriu os primogênitos do Egito. Conhece bem a sua tarefa. Desembainhe a espada!”

Contemplo a grande multidão reunida. Você e eu estamos entre eles. É um momento solene. Todos permanecem em suspense. Não se ouve sequer um murmúrio. As próprias estrelas parecem deixar de brilhar, para que sua luz não perturbe o silêncio. Tudo está imóvel.

Deus pergunta:

“Você selou aqueles que são meus?”

“Sim”, responde Gabriel. “Todos eles foram selados pelo sangue.”

Então Deus ordena:

“Percorra a Terra com sua espada de destruição! Envie ao abismo os que estão despidos, os que não foram comprados e os que não foram lavados!”

Oh! Como nos sentiremos, amados, quando por um instante virmos aquele anjo bater as asas? Ele está prestes a partir. Será que a dúvida atravessará nossa mente? “Talvez ele venha até mim!”

Ah, não! Permaneceremos firmes e olharemos diretamente para o rosto do anjo.

“Ousado estarei naquele grande dia!
Pois quem poderá lançar algo contra mim?
Quando, pelo teu sangue, estou absolvido
Da terrível maldição e vergonha do pecado.”

Se tivermos o sangue sobre nós, veremos o anjo aproximar-se e sorriremos diante dele. Teremos coragem até mesmo de comparecer diante da face de Deus e dizer:

“Grande Deus! Estou limpo! Pelo sangue de Jesus, estou limpo!”

Mas, meu ouvinte, se o seu espírito não lavado comparecer diante do Criador sem perdão, se sua alma culpada aparecer com todas as suas manchas negras, sem ter sido aspergida pela corrente púrpura do sangue, como falará quando vir a espada do anjo sair rapidamente da bainha, pronta para a morte e alada para a destruição, e quando ela o atravessar?

Parece-me vê-lo de pé agora. O anjo está levando milhares. Ali está um de seus companheiros de taverna. Ali está alguém com quem você dançou e blasfemou. Ali está outro que, assim como você, frequentava a mesma capela, mas desprezava a religião.

Agora a morte se aproxima de você. É como quando o ceifeiro percorre o campo: a espiga seguinte treme, pois sabe que sua vez está chegando. Vejo um irmão e uma irmã sendo lançados no abismo.

Não tenho sangue sobre mim? Então, ó rochas, seria bondade da parte de vocês esconder-me! Mas não há misericórdia em seus braços. Montanhas, deixem-me encontrar algum pequeno abrigo em suas cavernas!

Tudo será em vão, pois a vingança fará as montanhas tremerem e abrirá as rochas para me encontrar. Não tenho sangue? Não tenho esperança? Ah, não! Ele me fere. A condenação eterna será minha terrível porção. Para você haverá a profunda escuridão do Egito e os horríveis tormentos do abismo, dos quais ninguém pode escapar!

Ah, meus queridos ouvintes! Se eu pudesse pregar como desejo, se pudesse falar não apenas com os lábios, mas com o coração, eu lhes suplicaria que buscassem esse sangue aspergido. Eu os exortaria, pelo amor de sua própria alma e por tudo o que é sagrado e eterno, a trabalharem para que o sangue de Jesus seja aspergido sobre suas almas.

É o sangue aspergido que salva o pecador.

Mas, quando o cristão recebe o sangue aspergido, isso ainda não é tudo de que necessita. Ele precisa de algo de que se alimentar. E que pensamento maravilhoso! Jesus Cristo não é apenas o Salvador dos pecadores; Ele também é o alimento deles depois de salvos.

Pela fé, comemos o Cordeiro Pascal. Vivemos dele. Meus ouvintes, vocês podem saber se têm o sangue aspergido sobre a porta por meio desta pergunta: vocês se alimentam do Cordeiro?

Suponhamos, por um momento, que um dos antigos judeus tivesse dito em seu coração:

“Não vejo utilidade alguma nessa refeição. Está certo aspergir o sangue sobre a verga, para que a porta seja reconhecida, mas que benefício há em tudo o que acontece aqui dentro? Prepararemos o cordeiro e teremos cuidado para não quebrar seus ossos, mas não o comeremos.”

E suponhamos que ele tivesse guardado o cordeiro em algum lugar. Qual teria sido a consequência? O anjo da morte o teria ferido, assim como aos demais, mesmo que o sangue estivesse sobre sua porta.

E se, além disso, aquele judeu tivesse dito:

“Bem, comeremos apenas um pedacinho, mas teremos outras coisas para comer. Teremos pão sem fermento, mas não retiraremos o fermento de nossas casas. Também comeremos pão fermentado.”

Se não tivessem consumido o cordeiro, mas reservado parte dele, a espada do anjo teria encontrado aquela família, assim como encontrou as demais.

Oh, querido ouvinte! Você pode pensar que tem o sangue aspergido; pode imaginar que é justo. Mas, se não vive de Cristo e também por Cristo, jamais será salvo pelo Cordeiro Pascal.

“Ah!”, dizem alguns, “não sabemos nada a respeito disso”.

É claro que não sabem! Quando Jesus Cristo disse: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos”, alguns disseram: “Duro é este discurso; quem o pode ouvir?”. E muitos, desde então, voltaram atrás e já não andavam com Ele.

Eles não conseguiam compreendê-lo. Mas você, cristão, não entende essas palavras? Jesus Cristo não é o seu alimento diário? Mesmo acompanhado das ervas amargas, Ele não continua sendo um alimento doce?

Alguns de vocês, meus amigos, que são verdadeiros cristãos, vivem demasiadamente de suas emoções e sentimentos variáveis, de suas experiências e evidências espirituais. Isso está completamente errado. Seria como se alguém fosse ao tabernáculo e começasse a comer uma das vestes usadas pelo sacerdote.

Quando alguém vive da justiça de Cristo como se ela fosse seu alimento, é como se estivesse comendo as roupas de Cristo. Quando vive de suas emoções e sentimentos, é como se um filho de Deus se alimentasse de certos sinais recebidos no santuário, que nunca foram destinados a servir de alimento, mas apenas a proporcionar-lhe algum consolo.

Aquilo de que o cristão se alimenta não é simplesmente a justiça de Cristo, mas o próprio Cristo. Ele não vive apenas do perdão de Cristo, mas de Cristo mesmo. Vive diariamente de Cristo, da proximidade de Cristo.

Oh, como amo a pregação que tem Cristo como centro! Não é apenas a doutrina da justificação que faz bem ao meu coração, mas Cristo, aquele que justifica. Não é tanto o perdão que faz o coração do cristão se alegrar, mas Cristo, aquele que perdoa. Não amo a eleição tanto quanto amo o fato de ter sido escolhido em Cristo antes da fundação do mundo. Sim! Não amo a perseverança final tanto quanto amo o pensamento de que minha vida está escondida em Cristo e de que, visto que Ele concede vida eterna às suas ovelhas, elas jamais perecerão, e ninguém poderá arrebatá-las de suas mãos.

Tenha cuidado, cristão, para alimentar-se do Cordeiro Pascal e de nada mais. Digo-lhe que, se você se alimentar somente dele, Ele será como pão para sua alma — o melhor alimento que ela pode receber.

Se você viver de qualquer outra coisa que não seja o Salvador, será como alguém que procura sobreviver com alguma erva que cresce no deserto, em vez de comer o maná que desce do céu.

Jesus é o maná. Vivemos em Jesus e também por meio de Jesus.

Agora, queridos amigos, ao nos aproximarmos desta mesa, celebraremos a Ceia Pascal. Mais uma vez, pela fé, comeremos o Cordeiro. Com santa confiança, nos achegaremos ao Salvador crucificado e nos alimentaremos de seu sangue, de sua justiça e de sua expiação.

CONCLUSÃO

Para concluir, permitam-me perguntar: vocês esperam ser salvos, meus amigos?

Alguém responde:

“Bem, não tenho muita certeza. Espero ser salvo, mas não sei como.”

Vocês sabem que talvez imaginem que estou contando uma história fictícia quando digo que existem pessoas que esperam ser salvas pelas obras, mas isso é uma realidade. Ao viajar pelo país, encontro pessoas de todos os tipos, mas, com maior frequência, encontro pessoas que confiam na própria justiça.

Quantas vezes encontro alguém que se considera bastante piedoso porque frequenta a igreja uma vez por domingo e se julga justo porque pertence à Igreja oficial!

Outro dia, um membro da Igreja Anglicana me disse:

“Sou um anglicano rigoroso.”

“Fico satisfeito”, respondi, “porque, se você aceita os Artigos de Fé, então é calvinista.”

Ele respondeu:

“Não sei muito bem a respeito dos Artigos; sigo mais o Livro de Oração Comum.”

Então pensei que ele era mais um formalista do que um cristão.

Há muitas pessoas assim no mundo.

Outra pessoa diz:

“Creio que serei salvo. Não devo nada a ninguém. Nunca fui à falência. Pago a todos exatamente o que lhes devo. Nunca fico embriagado e, se alguma vez prejudico alguém, procuro compensar isso doando uma libra por ano a determinada instituição. Sou tão religioso quanto a maioria das pessoas e acredito que serei salvo.”

Isso não serve!

Seria como se um antigo judeu tivesse dito:

“Não precisamos de sangue sobre a verga da porta; temos uma verga de mogno. Não precisamos de sangue sobre os batentes; nossos batentes são de mogno.”

Ah! Não importava de que material fossem feitos: o anjo os teria ferido se não estivessem marcados pelo sangue.

Você pode ser tão justo quanto desejar, mas, se não tiver o sangue aspergido, toda a bondade de seus batentes e de sua verga será completamente inútil.

“Sim”, diz outra pessoa, “não estou confiando exatamente nisso. Creio que é meu dever ser tão bom quanto puder, mas penso que a misericórdia de Jesus Cristo completará o que faltar. Procuro ser tão justo quanto as circunstâncias permitem e acredito que, quaisquer que sejam minhas deficiências, Cristo as compensará.”

Isso seria como se um judeu tivesse dito:

“Meu filho, traga-me o sangue.”

Depois de recebê-lo, porém, acrescentasse:

“Agora, traga-me também uma jarra de água.”

Então misturasse a água com o sangue e aspergisse a mistura sobre os batentes da porta.

Ora, o anjo teria ferido aquela família da mesma maneira que as demais, pois é o sangue, somente o sangue, que salva!

Não é o sangue misturado com a água de nossas pobres obras. É o sangue, o sangue, o sangue — e nada mais!

O único caminho da salvação é pelo sangue, pois, sem derramamento de sangue, não há remissão de pecados.

Tenham o precioso sangue aspergido sobre vocês, meus ouvintes. Confiem no precioso sangue. Que sua esperança esteja em uma salvação selada por uma expiação realizada com sangue precioso, e vocês serão salvos.

Mas, se não tiverem o sangue, ou se o sangue estiver misturado com qualquer outra coisa, estarão condenados, ainda que continuem vivos e sejam considerados bons e justos, pois o anjo os ferirá, por mais virtuosos que pareçam ser.

Vão para casa, então, e meditem sobre estas palavras:

“Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós.”

1 Coríntios 5:7

Extraído da coleção The Metropolitan Tabernacle Pulpit, de C. H. Spurgeon. O conteúdo do sermão foi traduzido integralmente, preservando sua estrutura, seus argumentos e suas ilustrações. Foram feitas adaptações necessárias para uma leitura natural em português brasileiro.