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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A ENCARNAÇÃO DE CRISTO NÃO TEVE OUTRO PROPÓSITO, SENÃO NOSSA REDENÇÃO


Quem for diligentemente atento em ponderar estas coisas como é justo, deixará prontamente de levar em consideração as especulações errôneas que os espíritos levianos e ávidos por novidade arrogam para si, dizendo que Cristo, ainda que não fosse necessário tal remédio para redimir o gênero humano, contudo haveria de tornar-se homem. Confesso, por certo, que, na condição original da criação e no estado íntegro da natureza, Cristo foi posto acima de anjos e homens como seu Cabeça, razão por que Paulo o chama “o primogênito de toda a criação” [Cl 1.15]. Quando, porém, a Escritura inteira proclama haver-se ele revestido de carne a fim de que viesse a ser o Redentor, não passa de tremenda temeridade imaginar-se outra causa ou outro propósito. A que fim foi Cristo prometido desde o início sabe-se sobejamente, ou, seja, para que restaurasse o mundo decaído e socorresse os homens perdidos. Desse modo, sob a lei, a imagem dele foi representada em sacrifícios, para que os fiéis nutrissem a esperança de que Deus lhes haveria de ser propício, após ser reconciliado por intermédio da expiação dos pecados. Certamente, quando em todos os tempos, até mesmo quando a lei ainda não fora promulgada, o Mediador jamais fora prometido sem sangue, concluímos que, no eterno desígnio de Deus, fora ele destinado a purgar as imundícies dos homens, uma vez que o derramamento de sangue veio a ser sinal de expiação [Hb 9.22]. Assim pregaram os profetas a seu respeito, de sorte a prometerem que ele haveria de ser o reconciliador de Deus e homens. Bastará para prová-lo o célebre testemunho de Isaías, no qual diz que ele será ferido por nossas rebeliões, para que o castigo de nossa paz esteja sobre ele [Is. 53.4, 5], e que seria o Sacerdote que se ofereceria como vítima [Hb 9.11, 12], que suas feridas seriam para a cura de outros, porque todos se desgarraram, e se extraviaram como ovelhas, agradando-se Deus em afligi-lo, para que levasse sobre si as iniqüidades de todos [Is 53.5, 6].225 Quando ouvimos ser Cristo particularmente devotado por Deus para levar ajuda a míseros pecadores, todo aquele que vai além destes limites incorre em curiosidade demasiado estulta. Quando ele apareceu pessoalmente, afirmou ser esta a causa de sua vinda: que, sendo Deus aplacado, conduzisse ele da morte para a vida. Os apóstolos atestaram o mesmo a respeito. Assim, antes de ensinar que a Palavra se fez carne [Jo 1.14], João narra a defecção do homem [Jo 1.9-11]. Mas é melhor que o ouçamos pessoalmente a sentenciar acerca de seu encargo: “Deus assim amou o mundo”, diz ele, “que deu seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça. Pelo contrário, tenha a vida eterna” [Jo 3.16]. De igual modo: “A hora vemem que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” [Jo 5.25]. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” [Jo 11.25]. Também: “O Filho do homem veio para salvar o que se havia perdido” [Mt 18.11]. Ainda: “Os sãos não têm necessidade de médico” [Mt 9.12]. Não haveria limite, se eu quisesse mencionar todos os textos pertinentes. Na verdade, com consenso unânime, evocamos os apóstolos para esta fonte. E, de fato, a não ser que ele tivesse vindo para reconciliar a Deus, posta por terra lhe estaria a honra do sacerdócio, visto que o sacerdote se interpõe por mediador entre Deus e os homens para fazer intercessão [Hb 5.1]. Não seria ele nossa justiça, pois foi feito vítima por nós para que Deus não nos impute os pecados [2Co 5.19]. Finalmente, despojado será ele de todos os encômios com que o adorna a Escritura. Por terra cairia também aquela declaração de Paulo: “Porquanto o que era impossível à lei, Deus enviou seu Filho, para que na semelhança da carne de pecado fizesse satisfação por nós” [Rm 8.3]. Nem ficaria de pé o que ensina em outro lugar: que neste espelho se revelou a bondade de Deus e seu imenso amor para com os homens: em que Cristo foi dado como Redentor [Tt 3.4]. Enfim, em qualquer outro lugar a Escritura não consigna outra finalidade para a qual o Filho de Deus quis assumir nossa carne, e tenha também recebido este encargo da parte do Pai, senão que houvesse de tornar-se vítima para aplacar o Pai em relação a nós. “Assim foi escrito, e assim se fez necessário, que Cristo sofresse e fosse pregado arrependimento em seu nome” [Lc 24.46, 47]. “Por isso, o Pai me ama, porque dou minha vida por minhas ovelhas. Esta incumbência me deu o Pai” [Jo 10.15, 17, 18]. “Como levantou Moisés a serpente no deserto, assim importa seja levantado o Filho do Homem” [Jo 3.4]. Em outro lugar: “Pai, livra-me desta hora. Mas, foi para essa hora que eu vim. Pai, glorifica o Filho” [Jo 12.23, 27, 28]. Nestas passagens, o Apóstolo assinala claramente por que ele assumiu a carne: para que viesse a ser a vítima e expiação, e assim abolisse os pecados. Pela mesma razão, declara Zacarias [Lc 1.79] que ele veio, segundo a promessa dada aos patriarcas: “para que iluminasse os que se assentavam na sombra da morte”. Lembremo-nos de que todas estas coisas foram proclamadas a respeito do Filho de Deus, em quem, em outro lugar, Paulo testifica “estarem escondidos todos os tesouros do conhecimento e da sabedoria” [Cl 2.3], e à parte de quem o Apóstolo “se gloria de nada saber” [1Co 2.2].

João Calvino