Mas, a Escritura
assinala dupla razão em que se assenta este mandamento: que o ser humano é não
só a imagem de Deus, mas ainda nossa própria carne. Por isso, a não ser que
apraza profanar a imagem de Deus, devemos considerá-lo sacrossanto; e a não ser
que apraza despojar-nos de toda humanidade, devemos tratá-lo como nossa própria
carne. A exortação que nesta matéria se há de derivar da redenção e da graça de
Cristo será tratada em outro lugar. Quis o Senhor que se levem em consideração
estes dois pontos implantados inerentemente no ser humano, os quais no-lo
induzissem à preservação: que não só lhe reverenciemos a imagem nele impressa,
mas também nele abracemos nossa própria carne. Logo, não se furtou
necessariamente ao crime de homicídio aquele que simplesmente se conteve do
derramamento de sangue. Se em ato perpetras algo que seja contrário ao
bem-estar de outrem, se em tentativa o tramas, se em desejo e intenção o
concebes, és tido por culpado de homicídio. Ademais, a não ser que, na medida
de tua capacidade e oportunidade, te esforces por protegê-lo, estás também a
transgredir a lei com esta desumanidade. Ora, se tanto se diligencia acerca da
incolumidade do corpo, infiramos disso quanto de zelo e esforço se deve em
relação ao bem-estar da alma, que é ainda muito mais importante diante do
Senhor.
João Calvino