Ora, uma vez que,
mediante a condição de nossa própria natureza e em resultado da concupiscência
acesa após a queda, a não ser aqueles a quem, em virtude de graça especial,
Deus disso eximiu, somos duplamente compelidos ao intercurso da mulher, cada um
veja bemo que lhe foi outorgado. A virgindade, reconheço-o, não é virtude que
se despreze. Entretanto, visto que foi negada a uns e a outros concedida apenas
por um tempo, aqueles que são atormentados pela incontinência e não podem levar
a melhor no embate, recolham-se ao refúgio do matrimônio, para que cultivem
assim a castidade na medida de sua vocação. Ora, aqueles que não recebem este
preceito [Mt 19.11], se não recorrem ao remédio proposto e concedido para sua
incontinência, lutam com Deus e lhe resistem à ordenança. Nem é contra mim que
alguém vocifera, o que hoje muitos fazem, ou, seja, que tudo pode, assistido
pela ajuda de Deus. Pois a ajuda de Deus assiste apenas aos que andam em seus
caminhos, isto é, em sua vocação, da qual se afastam todos os que, postos de
lado os recursos de Deus, porfiam por superar e vencer suas necessidades
mediante vã temeridade. A continência é um dom especial de Deus e do gênero
daqueles que se conferem não indiscriminadamente, nem ao corpo da Igreja como
um todo, mas a poucos de seus membros, afirma o Senhor. Ora, destaca em
primeiro plano certa classe de homens, que se castraram por causa do reino dos
céus [Mt 19.12], isto é, para que lhes seja permitido dedicar-se mais
desimpedida e livremente aos negócios do reino celeste. Mas, para que não pense
alguém que tal castração está posta no poder do homem, já se mostrou pouco
antes que nem todossão capazes disso, mas somente aqueles a quem tenha sido
especialmente dado do céu. Donde se conclui: “Quem o pode aceitar, aceite-o.”
Paulo afirma-o ainda mais explicitamente, quando escreve que cada um tem de
Deus seu próprio dom, um de uma forma, outro, porém, de outra [1Co 7.7].
João Calvino