Quando somos
admoestados, através de advertência explícita, que não é de qualquer um
conservar a castidade no celibato, ainda que, com esforço e empenho, a isso aspire desmedidamente, a
qual é uma graça especial que o Senhor confere apenas a determinadas pessoas,
para que as tenha mais desembaraçadas para sua obra, não estamos, porventura, a
pugnar contra Deus e contra a natureza por ele constituída, se à medida de
nossa capacidade não acomodamos a maneira de nossa vida? Neste mandamento o
Senhor proíbe a fornicação; então, ele requer de nós pureza e castidade. Só há
uma maneira de preservá-la, a saber: que cada um se meça por sua medida. Ninguém,
inconsideradamente, despreze o matrimônio como se fosse algo inútil ou
supérfluo; ninguém de outra maneira procure o celibato para que possa
prescindir-se de uma esposa. Nem nisso, aliás, granjeia a tranqüilidade ou
comodidade da carne, mas somente que, desvinculado deste laço, esteja mais
pronto e mais preparado para todos os misteres da piedade. E uma vez que esta
bênção a muitos é conferida apenas por um tempo, abstenha-se cada um do
matrimônio por tanto tempo quanto será capaz de conservar o celibato. Se lhe
faltam forças para subjugar a concupiscência, reconheça a necessidade do
matrimônio agora a si imposta pelo Senhor. Isto mostra o Apóstolo quando
preceitua que, para fugir à fornicação, tenha cada um sua esposa e cada mulher
seu próprio marido [1Co 7.2]. Ademais, que aquele que não se pode conter,
contraia matrimônio no Senhor [1Co 7.9]. Significa, assim, em primeiro lugar,
que a maior parte dos homens está sujeita ao vício da incontinência; em
seguida, dentre esses que estão assim sujeitos, a nenhum excetua a quem não
ordene refugiar-se nesse único remédio com o qual se pode ir de encontro à
impudência. Portanto, aqueles que são incontinentes, se negligenciam curar sua
enfermidade por este meio, pecam por isso mesmo por não obedecerem a esta
injunção do Apóstolo. Nem se lisonjeie aquele que não toca em mulher, como se
não pudesse ser argüido de impudência, quando, a esse mesmo tempo,
interiormente se lhe abrasa a mente em concupiscência, pois Paulo define a
pudicícia como a pureza da mente associada à castidade do corpo. “A mulher não
casada” diz ele, “cogita das coisas que são do Senhor, como ser santa no corpo
e no espírito” [1Co 7.34]. Desse modo, quando com uma razão confirma esse
preceito acima referido, diz não somente que é melhor prover-se de uma esposa
do que poluir-se pelo conúbio de uma prostituta, mas diz também que é melhor
casar-se do que abrasar-se [1Co 7.9].
João Calvino