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domingo, 5 de agosto de 2018

A NECESSIDADE DA BÊNÇÃO DO MATRIMÔNIO


Quando somos admoestados, através de advertência explícita, que não é de qualquer um conservar a castidade no celibato, ainda que, com esforço e empenho, a isso aspire desmedidamente, a qual é uma graça especial que o Senhor confere apenas a determinadas pessoas, para que as tenha mais desembaraçadas para sua obra, não estamos, porventura, a pugnar contra Deus e contra a natureza por ele constituída, se à medida de nossa capacidade não acomodamos a maneira de nossa vida? Neste mandamento o Senhor proíbe a fornicação; então, ele requer de nós pureza e castidade. Só há uma maneira de preservá-la, a saber: que cada um se meça por sua medida. Ninguém, inconsideradamente, despreze o matrimônio como se fosse algo inútil ou supérfluo; ninguém de outra maneira procure o celibato para que possa prescindir-se de uma esposa. Nem nisso, aliás, granjeia a tranqüilidade ou comodidade da carne, mas somente que, desvinculado deste laço, esteja mais pronto e mais preparado para todos os misteres da piedade. E uma vez que esta bênção a muitos é conferida apenas por um tempo, abstenha-se cada um do matrimônio por tanto tempo quanto será capaz de conservar o celibato. Se lhe faltam forças para subjugar a concupiscência, reconheça a necessidade do matrimônio agora a si imposta pelo Senhor. Isto mostra o Apóstolo quando preceitua que, para fugir à fornicação, tenha cada um sua esposa e cada mulher seu próprio marido [1Co 7.2]. Ademais, que aquele que não se pode conter, contraia matrimônio no Senhor [1Co 7.9]. Significa, assim, em primeiro lugar, que a maior parte dos homens está sujeita ao vício da incontinência; em seguida, dentre esses que estão assim sujeitos, a nenhum excetua a quem não ordene refugiar-se nesse único remédio com o qual se pode ir de encontro à impudência. Portanto, aqueles que são incontinentes, se negligenciam curar sua enfermidade por este meio, pecam por isso mesmo por não obedecerem a esta injunção do Apóstolo. Nem se lisonjeie aquele que não toca em mulher, como se não pudesse ser argüido de impudência, quando, a esse mesmo tempo, interiormente se lhe abrasa a mente em concupiscência, pois Paulo define a pudicícia como a pureza da mente associada à castidade do corpo. “A mulher não casada” diz ele, “cogita das coisas que são do Senhor, como ser santa no corpo e no espírito” [1Co 7.34]. Desse modo, quando com uma razão confirma esse preceito acima referido, diz não somente que é melhor prover-se de uma esposa do que poluir-se pelo conúbio de uma prostituta, mas diz também que é melhor casar-se do que abrasar-se [1Co 7.9].

João Calvino