Ademais, enquanto o
Senhor promete a bênção da presente vida aos filhos que tenham honrado aos pais
com a consideração que convém, ao mesmo tempo acena que mui certamaldição
defronta a todos os filhos contumazes e desobedientes. Para que isto não careça
de execução, mediante sua lei pronuncia-os passíveis à sentença de morte e a respeito
deles manda que se exerça punição. Se escapam ao juízo, ele próprio lhes provê
o castigo, de qualquer modo que seja. Pois vemos quão grande número desta
espécie de homens perece ou em combates ou em rixas; outros, porém, são
afligidos de maneiras insólitas; quase todos são por prova de que esta ameaça
não é vã. Se bem que há os que escapam até extrema velhice. Uma vez que,
privados da bênção de Deus, nesta vida vegetam nada menosque miseravelmente e
se reservam para maiores castigos no futuro, mui longe está de que se façam
participantes da bênção prometida aos filhos piedosos. Mas, isto deve ser
também assinalado de passagem: que se nos ordena obedecer-lhes somente no
Senhor [Ef 6.1]. Nem equivale isto obscurecer o fundamento previamente lançado,
pois eles têm autoridade sobre nós enquanto Deus os tiver estabelecido nela,
comunicando-lhes uma parte da honra que lhe é devida. Portanto, a sujeição que
para com eles é exibida deve ser um passo para que o Pai Supremo seja
contemplado com essa honra. Portanto, se nos instigam à transgressão da lei,
então, com justiça, não devem ser por nós tidos por pais, mas por estranhos,
que nos estão tentando afastar da obediência do verdadeiro Pai. Assim se deve
considerar em relação aos príncipes, aos senhores e a todo gênero de superiores
nossos. Pois seria coisa indigna e fora de razão que sua autoridade seja
exercida para rebaixar a alteza e majestade de Deus; já que, dependendo da
autoridade divina deve guiar-nos e encaminhar-nos a ela.
João Calvino