O HOMEM ESTÁ AGORA PRIVADO DE LIBERDADE DA VONTADE E REDUZIDO A MÍSERA SERVIDÃO
Depois que se apercebeu que o
domínio do pecado, desde o momento em que primeiro teve o homem atrelado a
si, não só grassa em toda a espécie, mas ainda de todo se assenhoreia de cada alma,
resta agora, uma vez que fomos reduzidos a esta servidão, examinar mais de perto
se porventura fomos despojados de toda liberdade, e se em qualquer parcela ainda
vigora até o presente, até que ponto se estende sua força.
Contudo, para que mais facilmente
nos atinja a verdade desta questão, prefixarei, preliminarmente, o propósito a
que visará a matéria toda. Mas o melhor meio de guardar-se do erro será levando
em conta os perigos que ameaçam de uma e outra parte.
Com efeito, quando se declara que
o homem está destituído de toda retidão, disto ele deriva prontamente motivo de acomodação, e porque se diz
que ele nada pode por si mesmo em relação ao
cultivo da justiça, a tudo isso tem por inconseqüente, como se ele já não
tivesse nada a ver com isso. Por outro lado, não se pode arrogar-lhe coisa
alguma, por ínfima que seja, sem que não só se prive a Deus de sua honra,
mas também o próprio homem seja corrompido de temerária confiança.
Logo, para que não nos atiremos de encontro a estes obstáculos,
impor-se-á conservar
este curso: que o homem, cabalmente instruído de que em seu poder nada lhe foi deixado de bom e de que
de todos os lados está cercado da mais miserável necessidade, no entanto seja
ensinado a aspirar ao bem, de que é carente; e à liberdade, de que foi
privado; e assim seja mais incisivamente despertado da inação, do que se
imaginasse ser dotado de suprema virtude. Quão necessário seja este segundo aspecto,
é impossível que alguém não o veja. Quanto ao primeiro, vejo muitos sendo
objeto de dúvida, mais do que se devia.
Ora, isto posto, além de
controvérsia, que ao homem nada se deve detrair do que lhe é próprio, deve também ficar
claramente evidente quão importante é despojar-se ele de toda falsa exaltação
pessoal. Pois se na verdade não foi concedido ao homem gloriar-se em si mesmo nem ainda
quando, pela beneficência de Deus, fora distinguido com os mais elevados
dons, quanto lhe convém agora humilhar-se, quando, em conseqüência de sua
ingratidão, foi da glória excelsa prostrado a extrema ignomínia?
Afirmo que por todo esse tempo em
que fora elevado ao sumo fastígio da honra, outra coisa não lhe atribuiu a Escritura senão que foi criado à
imagem de Deus [Gn 1.27], fato esse com o qual
acentua que o homem fora opulento não em função de seus próprios dotes, mas no fato
da participação em Deus. Portanto, despido e despojado de toda glória, que lhe resta
agora senão que reconheça a Deus, a cuja beneficência não pôde ser grato quando
refestelava nas riquezas de sua graça, e agora, ao
menos pela confissão da própria
pobreza, glorifique Àquele a quem não glorificou mediante o reconhecimento de seus
benefícios?
Também não nos é de menos
proveito que se nos anule todo louvor de sabedoria e virtude, que são pertinentes à
glória de Deus. De sorte que nossa miséria consorcia com o sacrilégio aqueles que nos
prodigalizam algo além do legítimo. Pois, que outra coisa acontece, quando somos ensinados a lutar por nossos
próprios recursos, senão que somos levantados na ponta de um caniço, para,
dentro em pouco, quebrado ele, cairmos por terra? Se bem que as forças nos
lisonjeiam até demais, quando mesmo a um caniço são comparadas! Ora, é
fumaça tudo quanto homens fúteis têm inventado e alardeiam acerca dessas
coisas. Por isso, não sem causa, tantas vezes Agostinho repete esta
ponderação tão expressiva: que os defensores do livre-arbítrio são mais
abalados que firmados por ele.
Foi necessário dizer estas coisas
à guisa de prefácio por causa de alguns que, enquanto ouvem que o poder humano está desmoronado desde os
fundamentos, para que se edifique no homem o
poder de Deus, abominam odientamente a toda esta consideração como perigosa, não apenas supérflua,
consideração, a qual, no entanto, se mostra ser necessária
não só em religião, mas também utilíssima a nós próprios.
João
Calvino