Portanto, desta forma
obedeceremos devidamente ao mandamento: se, contentes com nossa sorte,
diligenciarmos por não obter nenhum outro ganho, senão o honesto e legítimo; se
não visarmos a enriquecer-nos com injustiça, nem nos propusermos a arruinar o
próximo em seus haveres, para que nosso patrimônio cresça; se não pugnarmos por
acumular riquezas brutais e esprimidas do sangue de outros; se não amontoarmos
imoderadamente, de toda parte, por meios lícitos e ilícitos, aquilo com que ou nos sacie a avareza
ou satisfaça à prodigalidade. Ao contrário, porém, seja-nos este o perpétuo
escopo: até onde possível, mediante conselho e assistência, a todos ajudemos
fielmente a conservarem o que é seu. Entretanto, se tivermos de nos haver com
pérfidos e enganadores, estejamos preparados antes a ceder algo do que é nosso
do que com eles contendermos. Não só isto. Mas, aqueles a quem houvermos de ver
premidos pelas dificuldades das coisas, compartilhemos-lhes das necessidades e
com nossa abundância supramos-lhes a falta de recursos. Finalmente, atente cada
um, não importa até onde, por dever de ofício, obrigado para com outros e de
boa fé, a pagar o que lhes deve. Por essa razão, tenha o povo em honra a todos
que lhe são constituídos em autoridade, suporte-lhes de bom grado o domínio,
obedeça-lhes às leis e determinações, a nada se furtando que possa fazer para o
agrado de Deus. Por outro lado, sustenham esses o cuidado de seus súditos,
conservem a paz pública, sejam por proteção aos bons, reprimam os maus. De tal
modo administrem a tudo como se tivessem de prestar conta de sua função a Deus,
o Juiz Supremo. Os ministros das igrejas devotem-se fielmente ao ministério da
palavra, nem adulterem o ensino da salvação; ao contrário, transmitam-no ao
povo de Deus, puro e incontaminado. Instruam-no não só pelo ensino, mas também
pelo exemplo de vida. Enfim, exerçam sua autoridade como os bons pastores sobre
suas ovelhas. Por sua vez, receba-os o povo por mensageiros e apóstolos de
Deus, renda-lhes essa honra de que o Mestre Supremo os fez dignos, proveja-lhes
aquelas coisas que lhes são necessárias à vida. Dediquem-se os pais a
alimentar, a orientar, a ensinar os filhos como a si confiados por Deus, nem
lhes exasperem o ânimo pela crueldade, com isso os alienando de si; ao
contrário, incentivem-nos e os abracem com a brandura e complacência que lhes
convém à pessoa. Como também os filhos lhes prestem a devida obediência, como
anteriormente foi dito. Reverenciem os jovens a idade senil, como o Senhor quis
que essa idade seja digna de honra. Também, com sua prudência e pela experiência
que os excelem, assistam os idosos à insuficiência da juventude, não
apoquentando-os com recriminações ásperas e estridentes; pelo contrário,
moderem a severidade pela afabilidade e lhaneza. Que os empregados, diligentes
e com mansidão, se mostrem obedientes aos patrões, não fazendo isso em
aparência, mas de coração, como que servindo ao próprio Deus. Os patrões também
não se conduzam como rabugentos e intratáveis para com os empregados, não os
pressionem com excessiva aspereza, nem os tratem insolentemente. Antes, pelo
contrário, reconheçam que eles são seus irmãos e seus conservos sob o Senhor
celeste, a quem devem amar mutuamente e tratar humanamente. Enfim, que cada um
considere, segundo seu estado e vocação, o que deve a seu próximo e se conduza
convenientemente.180 Além disso, a mente deve sempre polarizar-nos com o
Legislador, para que saibamos que esta norma é estabelecida para nosso espírito
assim como para nossas mãos, a fim de que se esforcem em não somente assegurar,
mas também promover, o bem-estar e vantagens dos outros.
João Calvino