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domingo, 5 de agosto de 2018

O OITAVO MANDAMENTO

“NÃO COMETERÁS FURTO” [EX 20.15] 
TEOR E APLICAÇÃO DO OITAVO MANDAMENTO


Propósito: uma vez que a injustiça é uma abominação a Deus, que se dê a cada um o que é seu. Portanto, a síntese deste mandamento será que somos proibidos de cobiçar as coisas alheias e, conseqüentemente, se nos ordena fazer sincero esforço em conservar a cada um seus próprios bens. Pois, deve-se assim refletir: que a cada um vem aquilo que possui, não por contingência fortuita, mas em virtude da dispensação do Supremo Senhor de todas as coisas. Portanto, não se pode, mediante maldosas artimanhas, defraudar as posses de quem quer que seja sem que se cometa violação da divina dispensação. São, porém, muitas as modalidades de furtos. Uma está na violência: quando os bens alheios são roubados mediante qualquer forma de força ou abuso predatório. Outra está na maldosa impostura: quandosão eles subtraídos fraudulentamente. Outra está numa sutileza mais velada: quando são surrupiados sob a aparência de justiça. Outra, em afagos: quando são despojados sob o pretexto de doação. Contudo, não insistamos demais em catalogar modalidades de furtos. Reconheçamos que se devem ter por furtos todos os artifícios em virtude dos quais passam para nós as posses e riquezas do próximo, quando se desviam da sinceridade do afeto ante o desejo de enganar ou lesar de qualquer modo. Ainda quando os homens as obtenham em uma disputa judicial, por Deus, entretanto, não são estimadas diferentemente de furtos. Com efeito, Deus vê os longos embustes com os quais o homem matreiro procura enredilhar o espírito mais simples, até que o atraia, afinal, a suas malhas; Deus vê as leis duras e desumanas com as quais o mais poderoso oprime e prostra o fraco; Deus vê os engodos com os quais o mais astuto isca o incauto como que com anzóis, todos os quais escapam ao julgamento humano, nem vêm à cogitação. Esta injustiça não tem lugar somente em matéria de dinheiro, ou em questões de rendimentos, ou em relação a terras, mas ainda em referência ao direito de cada um, pois defraudamos o próximo de seus bens, se deixamos de cumprir os deveres que para com ele somos obrigados. Se, ocioso, um administradorou mordomo devora o capital de seu senhor, nem está preocupado com o cuidado de seu patrimônio; se ou esbanja indebitamente os cabedais a si confiados, ou os dissipa desregradamente; se um criado tem em zombaria ao patrão; se lhe divulga os segredos; se de qualquer forma lhe trai,seja a vida, sejam os bens; se, por outro lado, um senhor oprime desumanamente à família; em crime de furto se faz culpado diante de Deus. Pois, quem não perfaz o que, em função de sua vocação, deve aos outros, não só retém o alheio, mas até dele se apropria.

João Calvino