No arrependimento, eles conferem à satisfação o terceiro lugar, acerca da qual
tudo quanto vociferampode ser posto por terra com apenas uma palavra. Afirmam
que não basta ao penitente abster-se dos maus feitos passados e mudar os costumes
para melhor, a menos que faça satisfação a Deus acerca daquelas transgressões que
foram cometidas. Muitos, porém, são os recursos com os quais redimimos os pecados,
a saber: as lágrimas, os jejuns, as oblações, as obras de caridade. Com esses
meios o Senhor deve ser propiciado; com esses meios as dívidas para com a justiça
de Deus têm de ser saldadas; com esses meios as transgressões devem ser compensadas;
com esses meios há de adquirir-se o perdão; pois, embora tenha ele remitido
a culpa em virtude da liberalidade de sua misericórdia, todavia, pela disciplina de
sua justiça, ele retém a pena. É esta pena que há de ser redimida por meio de satisfações.
A esta síntese, contudo, se reduzem todos os pontos em que insistem, a
saber: que na verdade, pela clemência de Deus, impetramos o perdão de nossas
faltas, mas interpondo-se o mérito das obras, com as quais se compense a culpa dos
pecados, para que se faça integralmente a devida satisfação à justiça de Deus.
Contra tais mistificações evoco a remissão gratuita dos pecados, não havendo
nada mais claro do que se prega na Escritura [Is 52.3; Rm 3.24, 25; 5.8; Cl 2.13, 14:
2Tm 1.9; Tt 3.5]. Em primeiro lugar, que é o perdão senão mercê de pura liberalidade?
Ora, não se diz que perdoa uma dívida o credor que, mediante recibo, atesta o
recebimento de dinheiro que lhe foi contado, mas aquele que, sem nenhum pagamento,
de sua benevolência, espontaneamente apaga o nome do devedor. Em segundo
lugar, por que na Escritura se acrescenta o termo graciosamente, senão para
alijar toda idéia de satisfação? Com que confiança, portanto, soerguem eles ainda
suas satisfações, as quais são postas abaixo por um tão poderoso raio?
E então? Quando, através de Isaías [43.25], o Senhor proclama: “Eu sou, eu sou
aquele que, por amor de mim mesmo, apago tuas iniqüidades e de teus pecados não
me lembrarei”, não está, porventura, enunciando abertamente que unicamente por
sua bondade busca ele a causa e o fundamento da remissão? Além disso, quando
toda a Escritura dá testemunho de Cristo de que por meio de seu nome se haverá de
receber a remissãodos pecados [At 10.43], porventura não exclui a todos os demais
nomes? Portanto, como ensinam eles que essa remissão só se recebe mediante o
nome das satisfações? Aliás, nem mesmo podem negar que atribuem isto às satisfações;
ainda que elas se interponham como simples subsídios. Ora, o fato de a Escritura
dizer: pelo nome de Cristo, deixa claro que nós nada contribuímos, nada alegamos
nosso; ao contrário, nos apoiamos não só na prerrogativa de Cristo, como Paulo,
afirmando que “em Cristo estava Deus reconcilia consigo o mundo, não imputando
aos homens suas transgressões por atenção a ele” [2Co 5.19], logo a seguir acrescenta o modo e a razão: “àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por
nós” [2Co 5.21].
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32