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terça-feira, 4 de setembro de 2018

A DOUTRINA ROMANISTA DA SATISFAÇÃO CONTRADIZ O ENSINO BÍBLICO DA REMISSÃO GRACIOSA DOS PECADOS

No arrependimento, eles conferem à satisfação o terceiro lugar, acerca da qual tudo quanto vociferampode ser posto por terra com apenas uma palavra. Afirmam que não basta ao penitente abster-se dos maus feitos passados e mudar os costumes para melhor, a menos que faça satisfação a Deus acerca daquelas transgressões que foram cometidas. Muitos, porém, são os recursos com os quais redimimos os pecados, a saber: as lágrimas, os jejuns, as oblações, as obras de caridade. Com esses meios o Senhor deve ser propiciado; com esses meios as dívidas para com a justiça de Deus têm de ser saldadas; com esses meios as transgressões devem ser compensadas; com esses meios há de adquirir-se o perdão; pois, embora tenha ele remitido a culpa em virtude da liberalidade de sua misericórdia, todavia, pela disciplina de sua justiça, ele retém a pena. É esta pena que há de ser redimida por meio de satisfações. A esta síntese, contudo, se reduzem todos os pontos em que insistem, a saber: que na verdade, pela clemência de Deus, impetramos o perdão de nossas faltas, mas interpondo-se o mérito das obras, com as quais se compense a culpa dos pecados, para que se faça integralmente a devida satisfação à justiça de Deus. Contra tais mistificações evoco a remissão gratuita dos pecados, não havendo nada mais claro do que se prega na Escritura [Is 52.3; Rm 3.24, 25; 5.8; Cl 2.13, 14: 2Tm 1.9; Tt 3.5]. Em primeiro lugar, que é o perdão senão mercê de pura liberalidade? Ora, não se diz que perdoa uma dívida o credor que, mediante recibo, atesta o recebimento de dinheiro que lhe foi contado, mas aquele que, sem nenhum pagamento, de sua benevolência, espontaneamente apaga o nome do devedor. Em segundo lugar, por que na Escritura se acrescenta o termo graciosamente, senão para alijar toda idéia de satisfação? Com que confiança, portanto, soerguem eles ainda suas satisfações, as quais são postas abaixo por um tão poderoso raio? E então? Quando, através de Isaías [43.25], o Senhor proclama: “Eu sou, eu sou aquele que, por amor de mim mesmo, apago tuas iniqüidades e de teus pecados não me lembrarei”, não está, porventura, enunciando abertamente que unicamente por sua bondade busca ele a causa e o fundamento da remissão? Além disso, quando toda a Escritura dá testemunho de Cristo de que por meio de seu nome se haverá de receber a remissãodos pecados [At 10.43], porventura não exclui a todos os demais nomes? Portanto, como ensinam eles que essa remissão só se recebe mediante o nome das satisfações? Aliás, nem mesmo podem negar que atribuem isto às satisfações; ainda que elas se interponham como simples subsídios. Ora, o fato de a Escritura dizer: pelo nome de Cristo, deixa claro que nós nada contribuímos, nada alegamos nosso; ao contrário, nos apoiamos não só na prerrogativa de Cristo, como Paulo, afirmando que “em Cristo estava Deus reconcilia consigo o mundo, não imputando aos homens suas transgressões por atenção a ele” [2Co 5.19], logo a seguir acrescenta o modo e a razão: “àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós” [2Co 5.21].

João Calvino