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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A SATISFAÇÃO ÚNICA E SUFICIENTE PELOS PECADOS É O SACRIFÍCIO DE CRISTO POR NÓS E EM NOSSO LUGAR

Mas eles aqui, conforme sua perversidade, replicam que a remissão dos pecados e a reconciliação não têm lugar mais que uma vez, ao sermos recebidos pelo batismo na graça e no favor de Deus; que depois do batismo temos de reerguer-nos mediante satisfações; e que o sangue de Cristo de nada aproveita, senão até onde é ele administrado em virtude das chaves da Igreja. Não estou falando de coisa duvidosa, uma vez que em escritos muitíssimo clarosjá puseram à mostra seu desbragamento, não apenas um ou outro, mas todos os escolastas. Ora, o próprio mestre deles, depois de confessar que no madeiro Cristo pagou a pena de nossos pecados, conforme o ensino de Pedro [1Pe 2.24], corrige essa afirmação, acrescentando em seguida a ressalva de que no batismo todas as penas temporais dos pecados são relaxadas; mas, depois do batismo, elas são minoradas pelo beneficio da penitência, de sorte que, dessa forma, operam associadas, ao mesmo tempo, a cruz de Cristo e nossa penitência. João, porém, fala de uma maneira muito diferente: “Se alguém pecar”, diz ele, “temos um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, e ele é a propiciação por nossos pecados” [1Jo 2.1, 2]. E: “Filhinhos, estou vos escrevendo porque em seu nome vossos pecados são perdoados” [1Jo 2.12]. Na verdade, ele está falando aos fiéis, aos quais, enquanto apresenta Cristo como propiciação dos pecados, mostra que não existe outra satisfação mediante a qual se possa propiciar ou aplacar o Deus ofendido. Ele não diz: “Deus foi, de uma vez por todas, reconciliado convosco através de Cristo; agora buscai para vós mesmos outros meios.” Ao contrário, ele o faz nosso perpétuo Advogado, o qual, por sua intercessão, sempre nos restaura à graça do Pai, nossa propiciação perpétua, mercê da qual nossos pecados são expiados. Ora, o que outro João afirmou é perpetuamente verdadeiro: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo” [Jo 1.29]. Ele é quem os tira, insisto, não outro; isto é, uma vez que só ele é o Cordeiro de Deus, também só ele é a oferta pelos pecados, só ele é a expiação, só ele é a satisfação. Com efeito, já que ao Pai compete propriamente o direito e o poder de perdoar pecados, onde se distingue do Filho, como já se viu, aqui Cristo se põe em outra posição, porque, a si transferindo a pena a nós devida, cancelou nossa culpa diante do juízo de Deus. Donde se segue que haveremos de ser participantes da remissão consumada por Cristo, não de outra forma, a não ser que resida nele essa honra que para si arrebatam os que tentam aplacar a Deus por meio de suas compensações pessoais.

João Calvino