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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

AS BOAS OBRAS NÃO SÃO MEIOS DE REDENÇÃO DE PECADOS, MAS FRUTOS DE JUSTIÇA DO CORAÇÃO REGENERADO

Daniel, com sua exortação, pela qual persuadia a Nabucodonosor que redimisse com justiça seus pecados e suas iniqüidades em função da comiseração para com os pobres [Dn 4.27], não quis dizer que a justiça e a misericórdia são a propiciação de Deus e a redenção das penas, pois jamais se considerou outro avpolu,trwsij [ap(lútr(sis – resgate] além do sangue de Cristo. Ao contrário, ao referir-se a esse redimir, ele indica mais os homens do que a Deus, como se dissesse: “Tens exercido, ó rei, dominação injusta e violenta; tens oprimido os humildes; tens espoliado os pobres; tens tratado dura e iniquamente a teu povo. Em lugar dos impostos injustos, em lugar da violência e da opressão, demonstra agora misericórdia e justiça.” De igual modo, Salomão diz que o amor cobre multidão de pecados [Pv 10.12], não, é claro, diante de Deus, mas entre os próprios homens. Ora, assim reza o verso completo: “O ódio excita contendas, o amor, porém, cobre todas as iniqüidades.” Neste verso, segundo seu costume, mediante uma antítese, Salomão contrasta os males que nascem dos ódios com os frutos do amor, com este sentido: aqueles que se odeiam entre si, se mordem uns aos outros, se recriminam, se exprobram, se injuriam, a tudo convertem em falta; aqueles, porém, que de fato se amam, mutuamente descartam entre si muitas coisas, transigem em muitas coisas, perdoam uns aos outros muitas coisas, não que um aprove as falhas do outro, porém as tolera e as sana, admoestando, em vez de as inflamar, invectivando-as. E não há dúvida de que esta passagem é citada por Pedro [1Pe 4.8] nesta mesma acepção, a não ser que o queiramos acusar falsamente de alterar a Escritura e de sutilmente a distorcer. Além disso, onde ensina Salomão que “o pecado é expiado pela misericórdia e pela benignidade” [Pv 16.6], não entende que o mesmo seja por elas compensado perante a face do Senhor, de sorte que, apaziguado com tal satisfação, Deus perdoe a pena que de outra sorte teria aplicado. Ao contrário, conforme o costume familiar da Escritura, que todos aqueles que abandonarem sua má vida e se converter a ele mediante a santidade e boas obras, acharão Deus propício para com eles, como se estivesse dizendo que a ira do Senhor cessa e seu juízo se torna inerte, quando nós mesmos ficamos inertes quanto às nossas transgressões.93 Na realidade, não está ele a descrever a causa do perdão, mas, antes, o modo da verdadeira conversão. Exatamente como os profetas denunciam com freqüência que em vão, em lugar de arrependimento, os hipócritas impingem a Deus com falsos ritos, porque a ele nada mais deleita que a integridade com os deveres do amor. Assim também o autor da Epístola aos Hebreus, recomendando a beneficência e a humanidade, lembra que sacrifícios dessa natureza agradam a Deus [Hb 13.16]. E nosso Senhor, quando riculariza os fariseus porque se preocupavam unicamente com limpar os pratos e menosprezar a limpeza do coração, e lhes ordena que dêem esmola, para que todo o resta esteja limpo, o exterior e o interior [Mt 23.25; Lc 11.39-41], com isso não os exorta a fazer satisfação por seus pecados; apenas lhes ensina qual é a limpeza que agrada a Deus. Desta expressão, limpeza do coração, já se tratou em outro lugar.

João Calvino