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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

NEM A PASSAGEM ACERCA DA PECADORA PERDOADA, EM LUCAS 7.36-50, LHES ABONA A TESE DA SATISFAÇÃO MEDIANTE BOAS OBRAS

Quanto respeita à passagem de Lucas [7.36-50], ninguém que tenha lido, com sadio juízo, a parábola aí proposta pelo Senhor, engendrará dela controvérsia conosco. O fariseu pensava consigo mesmo que essa mulher não era conhecida pelo Senhor, a quem ele acolhera com tão grande complacência. Pois sentia que ele não a teria acolhido, se soubesse que espécie de pecadora ela era. E disto concluía que não podia ser Profeta quem pudesse estar enganado dessa maneira. O Senhor, para demonstrar que já não era pecadora aquela cujos pecados já haviam sido perdoados, propôs a parábola: certo agiota tinha dois devedores: um devia cinqüenta moedas, o outro quinhentas; a ambos foi perdoada a dívida; qual dos dois tem maior reconhecimento? Responde o fariseu: “Naturalmente que aquele a quem mais foi perdoado.” Acrescenta o Senhor: “Por isso te digo que os pecados desta mulher foram perdoados, porque ela muito amou.” Destas palavras, como vês, Cristo não faz do amor a causa, mas a evidência da remissão dos pecados. Ora, estas palavras foram tomadas do símile desse devedor a quem haviam sido perdoadas quinhentas moedas, a quem não disse que foi por isso que foram perdoadas, só porque muito amara; mas, ao contrário, justamente porque foram perdoadas é que amava muito. E dessa forma aqui se impõe aplicar esta comparação: pensas que esta mulher é uma pecadora; com efeito, deverias saber que ela já não o é, visto que seus pecados já foram quitados. Seu amor, porém, movido pelo qual rende graças por seu beneficio, deveria gerar em ti a certeza da remissão de seus pecados. Este é, na verdade, um argumento a posteriori, isto é, por meio do qual algo é demonstrado pelas evidências que o acompanham. De que maneira, porém, ela obteve a remissão dos pecados, atesta o Senhor claramente: “Tua fé”, afirma ele, “te salvou” [Lc 7.50]. Portanto, pela fé asseguramos o perdão, em amando rendemos graças e testificamos da beneficência do Senhor.

João Calvino