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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

AS INDULGÊNCIAS CONTRADIZEM A GRAÇA, POIS SÃO CONVERTIDAS EM COMPENSAÇÕES ERRONEAMENTE CONCEBIDAS POR MERITÓRIAS DIANTE DE DEUS

Com efeito – para que deixemos de parte abominações tais –, quem ensinou ao Papa a encerrar em chumbo e pergaminho a graça de Jesus Cristo, a qual o Senhor quis que fosse administrada pela palavra do evangelho? Obviamente, ou o evangelho de Deus deve ser tido por falso, ou falsas serão as indulgências. Ora, ser-nos Cristo oferecido no evangelho com toda a afluência dos bens celestiais, com todos os seus merecimentos, com toda a sua justiça, sabedoria, graça, sem nenhuma exceção, Paulo é testemunha quando diz que a palavra da reconciliação foi depositada com os ministros, para que desempenhem esta forma de embaixada, como se Cristo estivesse por meio deles a exortar: “Rogamos que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conhecia pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” [2Co 5.18-21]. E que valha a koinwni,a [koinonía – comunhão] de Cristo, que, sendo testemunha o mesmo Apóstolo, no evangelho nos foi oferecido para ser por nós usufruída, os fiéis o sabem muito bem. Em contraposição, as indulgências se confinam ao chumbo, ao pergaminho, até mesmo a um lugar, uma certa porçãozinha da graça, tirada da despensa do papa – e a dissociam brutalmente da Palavra de Deus! Entretanto, se alguém indagar da origem, este abuso parece ter procedido daqui: como no passado se impunham aos penitentes satisfações muito mais severas do que podiam cumprir, os que se sentiam sobremaneira sobrecarregados com penitência que lhes era imposta, pediam algum alívio da Igreja, e o que lhes era perdoado se chamava indulgência.  Quando, porém, transferiam as satisfações da Igreja para Deus e diziam que elas eram compensações mercê das quais os homens são redimidos do juízo de Deus, ao mesmo tempo também a isso alçaram as indulgências: que fossem remédios expiatórios que nos liberam das penas merecidas. Essas blasfêmias, porém, às quais temos referido, com tão grande despudor as têm plasmado, que nenhum pretexto podem ter.

João Calvino