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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A AFIRMAÇÃO PAULINA EM COLOSSENSES 1.24, QUANTO A SUPRIR O APÓSTOLO OS SOFRIMENTOS DE CRISTO, NÃO SE REFERE À REDENÇÃO, À SATISFAÇÃO OU À EXPIAÇÃO, O QUE, CONFIRMA AGOSTINHO, É PRERROGATIVA EXCLUSIVA DE CRISTO

Aliás, quão pervertidamente torcem eles a passagemde Paulo [Cl 1.24] na qual ele diz que está suprindo em seu corpo o que faltava dos sofrimentos de Cristo! Ora, o Apóstolo não atribui essa carência, ou essa suplementação, à obra de redenção, de satisfação, de expiação, mas a essas aflições com que importa sejam exercitados os membros de Cristo, isto é, todos os fiéis, por quanto tempo viverem nesta carne. Portanto, ele está dizendo que, dos sofrimentos de Cristo, resta isto: que, tendo uma vez sofrido em sua pessoa, diariamente sofre em seus membros. Desta honra nos digna Cristo: que considere suas as aflições nossas, e que as assume! Mas o fato de Paulo referir, pela Igreja, com isso não quer significar para a redenção, para a reconciliação, para a satisfação da Igreja, mas para sua edificação e aperfeiçoamento. Assim, como diz em outro lugar [2Tm 2.10], ele suporta todas as coisas por amor dos eleitos, “para que alcancem a salvação que está em Cristo Jesus”. E aos coríntios escrevia que “para seu conforto e salvação” ele suportava tantas tribulações quantas tivesse de sofrer [2Co 1.6]. E imediatamente ele mesmo se explica, no mesmo lugar, quando adiciona que fora constituído ministro da Igreja, não para redenção, mas “segundo a dispensação que lhe fora confiada, para pregar o evangelho de Cristo” [Cl 1.25]. Portanto, se porventura exigirem também outro intérprete, que ouçam a Agostinho: “Os sofrimentos de Cristo”, diz ele, “só estão em Cristo como na cabeça; estão em Cristo e na Igreja como no corpo todo. Donde Paulo, como um membro, diz: ‘Supro em meu corpo o que falta aos sofrimentos de Cristo.’ Portanto, sejas quem for que a istoouves, se estás entre os membros de Cristo, tudo quanto sofres da parte dos que não são membros de Cristo, tudo isso faltava aos sofrimentos de Cristo.” A que fim se propõem, na verdade, os sofrimentos dos apóstolos, suportados em favor da igreja, ele o expõe em outro lugar: “Cristo é a porta para que eu entre a vós, porque sois ovelhas de Cristo, compradas com seu sangue. Reconhecei vosso preço, que não é pago por mim, mas é pregado por meu intermédio.” Em seguida acrescenta: “Como ele próprio entregou sua vida, assim também nós devemos dar a vida pelos irmãos, para edificar a paz, para confirmara fé.” Essas coisas falou Agostinho. Quanto, porém, respeita a toda a plenitude da justiça, da salvação e da vida, longe esteja que julgue ele faltar algo aos sofrimentos de Cristo, ou quisesse acrescentar alguma coisa, Paulo que, tão luminosa e brilhantemente, prega que através de Cristo foi derramada a exuberância da graça com liberalidade tão grande, que excedeu em muito a toda a força do pecado [Rm 5.15-20]. Tão-somente por esta graça todos os santos foram salvos, não por mérito de sua vida ou de sua morte, como Pedro o atesta eloqüentemente [At 15.11]. De sorte que se levantará com total contumácia contra Deus e seu Cristo quem puser a dignidade de qualquer santo em outra parte que não seja tão-somente na misericórdia de Deus. Mas, por que determe tanto tempo nisto, como se fosse coisa duvidosa, quando só o fato de descobrir tais monstros já é vitória?

João Calvino