Total de visualizações de página

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

IMPROCEDENTE O RESPALDO QUE SE DERIVA DE MATEUS 12.32 À DOUTRINA DO PURGATÓRIO, BEM COMO DE PASSAGENS PARALELAS E DE MATEUS 5.25, 26

Entretanto, impõe-se-nosarrebatar-lhesdas mãos essas passagens que costumam enganosa e indevidamente coligir da Escritura em abono da doutrina do purgatório. “Quando”, dizem eles, “o Senhor assevera que o pecado contra o Espírito Santo jamais será perdoado, nem neste mundo e nem no futuro [Mt 12.32: Mc 3.28, 29; Lc 12.10], ao mesmo tempo com isso indica haver no mundo futuro remissão de certos pecados.” Com efeito, quem não perceberá que o Senhor aí está falando a respeito da culpa do pecado? Ora, se é assim, que a passagem tem a ver com o purgatório, já que, segundo seu modo de ver aí o purgatório, se expia a pena dos pecados cuja culpa não negam que foi perdoada na vida presente? Contudo, para que não continuem ainda a vociferar contra nós, terão uma solução mais clara. Como quisesse o Senhor cortar toda esperança de perdão a tão execrável impiedade, não teve por bastante dizer que essa blasfêmia nunca haveria de ser perdoada. Pela contrário, para ampliá-la ainda mais, usou uma distinção mediante a qual abrangeu não só o juízo que nesta vida sente a consciência de cada um, mas também aquele juízo final que será publicamente pronunciado na ressurreição. Como se estivesse a dizer: “Guardai-vos de ser rebeldes contra Deus com uma malícia deliberada; porque qualquer que deliberadamente se esforça por extinguir a luz do Espírito Santo que lhe é oferecida, esse não alcançará o perdão, nem nesta vida, que ordinariamente se concede aos pecadores para que se convertam, nem no último dia, quando os anjos de Deus separarem os cordeiros dos cabritos e o reino dos céus for purificado de todos os escândalos.115 Em seguida trazem a lume aquela parábola de Mateus: “Entra em acordo com teu adversário, para que ele não te entregue, a qualquer tempo, ao juiz, o juiz ao oficial, o oficial à prisão, donde não sairás até que pagues totalmente o último quadrante” [Mt 5.25, 26]. Se nesta passagem o juiz representaDeus, o litigante o Diabo, o oficial um anjo, a prisão o purgatório, concordarei de bom grado. Mas, na verdade, se a ninguém escapa a evidência de que Cristo, para exortar aos seus, incisivamente, à justa concórdia, quis aí mostrar a quantos perigos e males se arrojam os que obstinadamente preferem tentar ao máximo o direito supremo, agindo por equanimidade e boa vontade, pergunto: onde se achará o purgatório nesta passagem?

João Calvino