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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

TAMPOUCO FILIPENSES 2.10, APOCALIPSE 5.13 E 2 MACABEUS 12.43 RESPALDAM O PURGATÓRIO

Buscam prova em abono do purgatório na afirmação de Paulo onde afirma que diante de Cristo se dobrarão os joelhos dos habitantes das regiões celestes, terrenas e inferiores[Fp 2.10]. Ora, assumem como reconhecido que não se pode entender a expressão os habitantes das regiões inferiores como uma referência àqueles que foram destinados à condenação eterna. Resta, portanto, que sejam almas a padecer no purgatório. Não raciocinariam muito mal, se por essa genuflexão o Apóstolo estivesse designando o verdadeiro culto da piedade. Mas, uma vez que esteja simplesmente ensinando que o domínio foi deferido a Cristo mercê do qual devem ser subjugadas todas as criaturas, que impede de entendermos por habitantes das regiões inferiores os diabos, os quais, obviamente, haverão de comparecer ante o tribunal do Senhor a fim de, com temor e tremor, reconhecer a seu Juiz? Como o próprio Paulo interpreta essa mesma profecia, em outro lugar: “Todos”, diz ele, “compareceremos perante o tribunal de Cristo, pois está escrito: Como eu vivo, diante de mim se dobrará todo joelho” [Rm 14.10, 11; Is 45.23]. Mas, insistem eles, não se pode interpretar dessa maneira o que se tem no Apocalipse: “Toda criatura que está no céu, e que está sobre a terra, e que está debaixo da terra, e que está no mar, e as coisas que neles estão, todas elas ouvi dizendo: “Ao que se assenta sobre a trono, e ao Cordeiro, o louvor, e a honra, e a glória, e o poder, pelos séculos das séculos” [Ap 5.13]. Isto, sem dúvida, admito facilmente. No entanto, a que espécie de criaturas pensam que aqui se referem? Ora, com certeza o mais certo é que sejam compreendidas não só criaturas carentes de razão, mas até mesmo as inanimadas. Com isso não se afirma outra coisa senão que as partes do mundo, uma a uma, desde o mais alto vértice dos céus até o centro da terra, a seu modo, declaram a glória do Criador [Sl 19.1]. O que trazem a lume da história dos Macabeus [2 Macabeus 12.43], não acho merecedor de resposta, para que eu não pareça incluir essa obra no rol dos livros sagrados. Agostinho, porém, teimam eles, o aceita como canônico. Em primeiro lugar, questiono, com quão segura certeza o reveste? “Os judeus não têm o escrito dos Macabeus”, diz ele, “como a Lei, os Profetas e os Salmos, aos quais o Senhor dá testemunho como suas testemunhas, dizendo: ‘Importava que se cumprissem todas as coisas que de mim foram escritas na Lei, nos Salmos e nos Profetas’ [Lc 24.44]. Entretanto, ele foi recebido pela Igreja não largamente, se devia ser lido ou fosse ouvido sobriamente” etc. Jerônimo, porém, ensina, sem hesitação, que sua autoridade é de nenhum valor para afirmar dogmas. E daquele opúsculo antigo, De Expositione Symboli [Exposição do Credo], que se registra sob o nome de Cipriano, patenteia-se com toda clareza não ter esse livro dos Macabeus desfrutado de nenhum lugar na Igreja antiga. Ora, por que estou aqui a contender em vão? Como se o próprio autor não mostrasse suficientemente quanto de deferência se deva prestar-lhe, quando no final do livro roga perdão, caso tivesse dito alguma coisa menos apropriadamente [2 Macabeus 15.39]! Evidentemente, aquele que confessa que seus escritos necessitam de perdão, não reivindica que os mesmos sejam oráculos do Espírito Santo! Acresce que é louvada a piedade de Judas Macabeus não outra razão, senão porque foi firme na esperança acerca da ressurreição final, quando a Jerusalém enviou uma oferenda em favor dos mortos [2 Macabeus 12.43]. Ora, o escritor da história não converte a preço de resgate o que ele fez; ao contrário, considera-o feito para que esses mortos por quem oferecia a oferenda fossem co-participantes da vida eterna juntamente com os demais fiéis que haviam tombado em favor da pátria e da religião. Por certo que esse ato careceu de superstiçãoe de zelo equivocado; mas os que em nossos dias o convertem em sacrifício legal são duplamente loucos, pois sabemos que todos os usos de então cessaram com a vinda de Cristo.

João Calvino