Buscam prova em abono do purgatório na afirmação de Paulo onde afirma que
diante de Cristo se dobrarão os joelhos dos habitantes das regiões celestes, terrenas
e inferiores[Fp 2.10]. Ora, assumem como reconhecido que não se pode entender a
expressão os habitantes das regiões inferiores como uma referência àqueles que
foram destinados à condenação eterna. Resta, portanto, que sejam almas a padecer
no purgatório. Não raciocinariam muito mal, se por essa genuflexão o Apóstolo
estivesse designando o verdadeiro culto da piedade. Mas, uma vez que esteja simplesmente
ensinando que o domínio foi deferido a Cristo mercê do qual devem ser
subjugadas todas as criaturas, que impede de entendermos por habitantes das regiões inferiores os diabos, os quais, obviamente, haverão de comparecer ante o tribunal
do Senhor a fim de, com temor e tremor, reconhecer a seu Juiz? Como o próprio
Paulo interpreta essa mesma profecia, em outro lugar: “Todos”, diz ele, “compareceremos
perante o tribunal de Cristo, pois está escrito: Como eu vivo, diante de mim
se dobrará todo joelho” [Rm 14.10, 11; Is 45.23].
Mas, insistem eles, não se pode interpretar dessa maneira o que se tem no Apocalipse:
“Toda criatura que está no céu, e que está sobre a terra, e que está debaixo
da terra, e que está no mar, e as coisas que neles estão, todas elas ouvi dizendo: “Ao
que se assenta sobre a trono, e ao Cordeiro, o louvor, e a honra, e a glória, e o poder,
pelos séculos das séculos” [Ap 5.13]. Isto, sem dúvida, admito facilmente. No entanto,
a que espécie de criaturas pensam que aqui se referem? Ora, com certeza o
mais certo é que sejam compreendidas não só criaturas carentes de razão, mas até
mesmo as inanimadas. Com isso não se afirma outra coisa senão que as partes do
mundo, uma a uma, desde o mais alto vértice dos céus até o centro da terra, a seu
modo, declaram a glória do Criador [Sl 19.1].
O que trazem a lume da história dos Macabeus [2 Macabeus 12.43], não acho
merecedor de resposta, para que eu não pareça incluir essa obra no rol dos livros
sagrados. Agostinho, porém, teimam eles, o aceita como canônico. Em primeiro
lugar, questiono, com quão segura certeza o reveste? “Os judeus não têm o escrito
dos Macabeus”, diz ele, “como a Lei, os Profetas e os Salmos, aos quais o Senhor dá
testemunho como suas testemunhas, dizendo: ‘Importava que se cumprissem todas
as coisas que de mim foram escritas na Lei, nos Salmos e nos Profetas’ [Lc 24.44].
Entretanto, ele foi recebido pela Igreja não largamente, se devia ser lido ou fosse
ouvido sobriamente” etc. Jerônimo, porém, ensina, sem hesitação, que sua autoridade
é de nenhum valor para afirmar dogmas. E daquele opúsculo antigo, De
Expositione Symboli [Exposição do Credo], que se registra sob o nome de Cipriano,
patenteia-se com toda clareza não ter esse livro dos Macabeus desfrutado de
nenhum lugar na Igreja antiga. Ora, por que estou aqui a contender em vão? Como se o próprio autor não mostrasse
suficientemente quanto de deferência se deva prestar-lhe, quando no final do
livro roga perdão, caso tivesse dito alguma coisa menos apropriadamente [2 Macabeus
15.39]! Evidentemente, aquele que confessa que seus escritos necessitam de
perdão, não reivindica que os mesmos sejam oráculos do Espírito Santo! Acresce
que é louvada a piedade de Judas Macabeus não outra razão, senão porque foi firme
na esperança acerca da ressurreição final, quando a Jerusalém enviou uma oferenda
em favor dos mortos [2 Macabeus 12.43]. Ora, o escritor da história não converte a preço de resgate o que ele fez; ao contrário, considera-o feito para que esses mortos
por quem oferecia a oferenda fossem co-participantes da vida eterna juntamente
com os demais fiéis que haviam tombado em favor da pátria e da religião. Por certo
que esse ato careceu de superstiçãoe de zelo equivocado; mas os que em nossos dias
o convertem em sacrifício legal são duplamente loucos, pois sabemos que todos os
usos de então cessaram com a vinda de Cristo.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32