Leão, bispo de Roma, escreveu mui claramente, em sua Epístola aos Bispos
Palestinos, escreveu contra esses sacrilégios: “Embora”, diz ele, “preciosa tenha
sido à vista de Deus a morte de muitos santos, entretanto o assassínio de nenhum
inocente constituiu a propiciação do mundo. Os justos receberam coroas, não as
deram; e da fortaleza dos fiéis nasceram exemplos de paciência, não dádivas de
justiça; suas mortes, com efeito, foram individuais; com sua morte não paga alguém
a dívida de outrem, uma vez que existiu um só Cristo, o Senhor, em quem foram
todos crucificados, todos mortos, sepultados, ressuscitados.” Esta opinião, como
era digna de ser rememorada, ele a repetiu também em outro lugar. Certamente
nada se possa desejar mais claro para desbancareste ímpio dogma das indulgências.
Além do mais, não com menos procedência se expressa Agostinho no mesmo
parecer: “Ainda que”, diz ele, “morrêssemos irmãos pelos irmãos, no entanto não se
derramou o sangue de nenhum mártir para remissão dos pecados, o que Cristo fez
por nós; e isto não o fez para que o imitássemos, mas para que lhe demos graças.” Igualmente, em outro lugar: “Assim como somente o Filho de Deus se fez Filho do
Homem para que consigo nos fizesse filhos de Deus, assim também por nós somente
ele sofreu castigo sem maus merecimentos, a fim de que, através dele, sem bons
merecimentos, conseguíssemos graça que não nos era devida.” Com efeito, se bem que toda sua doutrina ficou suturada de horrendos sacrilégios
e blasfêmias, esta, deveras, é uma blasfêmia monstruosa acima das demais. Reconheçam
eles se estas porventura não são afirmações suas: que os mártires, por sua
morte, deram mais a Deus e mais mereceram do que lhes seria necessário, e tão
grande superabundância de méritos lhes sobrou, que transbordou para outros. Portanto,
para que tão grande bem não seja supérfluo, misturam seu sangue ao sangue
de Cristo e de um e outro é formado o tesouro da Igreja para remissão e satisfação
dos pecados. E assim, a seu ver, deve-se tomar o que Paulo diz: “Supro em meu
corpo o que falta dos sofrimentos de Cristo em prol de seu corpo, que é a Igreja” [Cl
1.24].
Que é isso senão deixar a Cristo o mero nome, transformá-lo em outro santareco
vulgar que mal se possa distinguir na multidão de tantos santos? Um só, tão-somente ele, devia ser pregado; tão-somente ele devia ser proposto, tão-somente ele devia
ser referido; tão-somente ele devia ser contemplado, quando se trata de obter remissão
de pecados, expiação, santificação. Mas, ouçamos seus argumentos. Assim
arrazoam: para que não fosse derramado sem proveito o sangue dos mártires, ele é
conferido ao bem comum da Igreja. Porventura isso é mesmo assim? Com efeito,
nenhum proveito seria glorificar a Deus pela morte, subscrever-lhe à verdade com
seu próprio sangue, dar testemunho pelo desprezo da presente vida de que buscavam
uma vida melhor, em virtude de sua constância confirmar a fé da Igreja, porém
quebrantar a pertinácia dos inimigos? Mas, sem dúvida, eles não reconhecem benefício
algum, se somente Cristo é o propiciador, se somente ele morreu por causa de
nossos pecados, se somente ele foi oferecido em sacrifício por nossa redenção.
Entretanto, eles insistem que Pedro e Paulo teriam obtido a coroa da vitória, se
tivessem morrido em seus leitos. Contudo, uma vez que lutaram até o sangue, deixar
isso improdutivo e infrutífero não se coadunaria com a justiça de Deus. Aliás, é
como se Deus não soubesse como aumentar sua glória em seus servos, conforme a
medida de seus dons! Mas, proveito muitíssimo vultoso é recebido pela Igreja em
geral, quando por seus triunfos é inflamada em seu zelo de lutar.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32