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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A DISTINÇÃO ROMANISTA DOS PECADOS COMO VENIAIS E MORTAIS É IMPROCEDENTE, BEM COMO A SATISFAÇÃO QUE ENGENDRAM PARA ELES

Neste ponto, recolhem-se eles ao abrigo de distinção inepta, a saber, que certos pecados são veniais, outros são mortais; que pelos mortais se deve pesada satisfação, e que os veniais se purgam com remédios mais brandos, ou, seja, com o Pai Nosso, com a aspersão de água benta; com a absolvição da Missa. E assim brincam com Deus e dizem parvoíces! Todavia, embora tenham constantemente na boca pecado venial e pecado mortal, ainda não puderam distinguir um do outro, exceto que fazem da impiedade e impureza do coração um pecado venial. Nós, porém, declaramos o que a Escritura, a regra do justo e do injusto, ensina, que “o salário do pecado é a morte” [Rm 6.23] e “digna de morte é a alma que tenha pecado” [Ez 18.20]; além disso, sustentamos que os pecados dos fiéis são veniais; não porque não mereçam a morte, mas porque pela misericórdia de Deus “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” [Rm 8.1]; porque não lhes são imputados; porque lhes são apagados pelo perdão. Sei quão iniquamente caluniam esta nossa doutrina, pois dizem que ela é o paradoxo dos estóicos acerca da igualdade dos pecados. Mas de sua própria boca serão refutados, sem dificuldade. Pois indago se porventura entre esses próprios pecados que confessam serem mortais não reconhecem ser um menor que o outro? Portanto, prontamente não se segue que todos sejam iguais pelo fato de serem mortais. Uma vez que a Escritura afirma categoricamente que “o salário do pecado é a morte” [Rm 6.23], que a obediência da lei é o caminho da vida [Lv 18.5; Ez 18.9; 20.11, 13; Lc 10.28; Rm 10.5; Gl 3.12], que a transgressão é a morte [Ez 18.4, 20], a este veredicto não podem evadir. Logo, que satisfação consumada acharão em meio a tão grande acervo de pecados? Se a satisfação de um pecado pode realizar-se em um dia, que farão, visto que, enquanto estão ocupados nessa satisfação, se envolvem em mais pecados, porquanto cada um de nós, inclusive o mais justo, não passa um dia em que não caia algumas vezes. Com efeito, enquanto se cingirão para as satisfações destes, numerosos, ou, antes, inumeráveis outros pecados acumularão. O que pensam, então, ou o que esperam? Como ousam ainda cogitar de fazer satisfação?

João Calvino