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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

É IMPROCEDENTE A DISTINÇÃO ROMANISTA ENTRE PENA E CULPA, JÁ QUE O PERDÃO DOS PECADOS, QUE EXIME DA CULPA, ENVOLVE A REMISSÃO DA PENA

Na verdade, tentam desembaraçar-se; todavia, como se diz, “a água os alcança”. Inventam para si a distinção de pena e culpa; admitem que a culpa é remitida pela misericórdia de Deus; mas, remitida a culpa, resta a pena, que a justiça de Deus exige que seja paga integralmente. Portanto, as satisfações contemplam propriamente à remissão da pena. Que insensata leviandade é esta, ó bom Deus! Reconhecem que a remissão da culpa se divisa agora gratuita, a qual, no entanto, ensinam repetidamente ser merecida através de preces e lágrimas, e toda espécie de outras preparações. Além do mais, tudo quanto aprendemos na Escritura acerca da remissão dos pecados se põe em conflito diametralmente com esta distinção.82 Embora eu julgue que já deixei isso sobejamente confirmado,83 contudo, acrescentarei alguns outros testemunhos, em virtude dos quais estas serpentes coleantes sejam a tal ponto enroscadas, que, depois disso, não possam sequer enrolar a ponta da cauda. Este é o novo testamento que Deus firmou conosco em Cristo: “Jamais se lembrará de nossas iniqüidades” [Jr 31.31, 34]. O que Jeremias quis significar com estas palavras o aprendemos de outro Profeta, onde o Senhor diz: “Mas, desviandose o justo de sua justiça, não me lembrarei de todas as suas justiças” [Ez 18.24]; se o ímpio se apartar de sua impiedade, não me lembrarei de todas as suas iniqüidades” [Ez 18.21, 22]. Ao dizer que Deus não se lembrará das justiças, indubitavelmente tem em mente que ele haverá de ter-lhes nenhuma consideração para recompensálas. Portanto, não lembrar-se também dos pecados, significa não levá-los em consideração para punição. Isto mesmo se diz em outra parte, em expressões como estas: “lançaste para trás de tuas costas” [Is 38.17]; “apaguei tuas transgressões como a névoa” [Is 44.22]; “lançarás todos os seus pecados nas profundezas do mar” [Mq 7.19]; “não imputa” e “é coberto” [Sl 32.1, 2]. Com tais formas de expressão, o Espírito Santo tencionava explicar seu sentimento não obscuramente, caso nossos ouvidos lhes fossem dóceis. Com efeito, se Deus pune os pecados, então os imputa; se toma vingança, então se relembra deles; se os chama a juízo, então não os encobre; se os pesa, então não os lançou atrás das costas; se os perscruta, então não os ignorou como se fossem uma névoa; se os ventila, então não os lançou no fundo do mar. Agostinho84 interpreta, em termos claros, desta forma: “Se Deus cobriu os pecados, não quis atentar para eles; se não quis atentar para eles, não os quis levar em conta; se não os quis levar em conta, não os quis punir, não quis tomar conhecimento deles, preferiu perdoá-los. Portanto, por que razão disse ele que os pecados foram encobertos? Para que não fossem vistos. Que significa ‘Deus vê os pecados’, senão que os pune?” Ouçamos, contudo, também de outra passagem do Profeta por que leis o Senhor perdoa os pecados: “ainda que vossos pecados”, diz ele, “sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a alva lã” [Is 1.18]. Em Jeremias, porém, assim se lê: “Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, buscar-se-á a maldade de Jacó, e não será achada; e os pecados de Judá, e não se acharão; porque perdoarei os remanescentes que eu deixar” [Jr 50.20]. Queres apossar-te, de maneira sumária, do sentido destas palavras? Pondera, por outro lado, o que significam estas expressões: “Minha transgressão está selada num saco” [Jó 14.17]; “a iniqüidade de Efraim está atada, seu pecado está armazenado” [Os 13.12]; “O pecado de Judá está escrito com um ponteiro de ferro, com ponta de diamante” [Jr 17.1]. Ora, se essas referências significam que a punição haverá de ser exercida, o que está fora de dúvida, também não se deve duvidar de que, com expressões contrárias, o Senhor afirma que ele perdoa a todo reclamo de punição. Aqui os leitores receberão de mim advertência a que não dêem ouvidos às minhas glosas, mas simplesmente deixem lugar à Palavra de Deus.

João Calvino