Na verdade, tentam desembaraçar-se; todavia, como se diz, “a água os alcança”.
Inventam para si a distinção de pena e culpa; admitem que a culpa é remitida pela
misericórdia de Deus; mas, remitida a culpa, resta a pena, que a justiça de Deus
exige que seja paga integralmente. Portanto, as satisfações contemplam propriamente
à remissão da pena. Que insensata leviandade é esta, ó bom Deus! Reconhecem
que a remissão da culpa se divisa agora gratuita, a qual, no entanto, ensinam
repetidamente ser merecida através de preces e lágrimas, e toda espécie de outras
preparações. Além do mais, tudo quanto aprendemos na Escritura acerca da remissão
dos pecados se põe em conflito diametralmente com esta distinção.82
Embora eu julgue que já deixei isso sobejamente confirmado,83 contudo, acrescentarei
alguns outros testemunhos, em virtude dos quais estas serpentes coleantes
sejam a tal ponto enroscadas, que, depois disso, não possam sequer enrolar a ponta
da cauda. Este é o novo testamento que Deus firmou conosco em Cristo: “Jamais se
lembrará de nossas iniqüidades” [Jr 31.31, 34]. O que Jeremias quis significar com
estas palavras o aprendemos de outro Profeta, onde o Senhor diz: “Mas, desviandose
o justo de sua justiça, não me lembrarei de todas as suas justiças” [Ez 18.24]; se
o ímpio se apartar de sua impiedade, não me lembrarei de todas as suas iniqüidades”
[Ez 18.21, 22]. Ao dizer que Deus não se lembrará das justiças, indubitavelmente
tem em mente que ele haverá de ter-lhes nenhuma consideração para recompensálas.
Portanto, não lembrar-se também dos pecados, significa não levá-los em consideração para punição. Isto mesmo se diz em outra parte, em expressões como estas:
“lançaste para trás de tuas costas” [Is 38.17]; “apaguei tuas transgressões como a
névoa” [Is 44.22]; “lançarás todos os seus pecados nas profundezas do mar” [Mq
7.19]; “não imputa” e “é coberto” [Sl 32.1, 2]. Com tais formas de expressão, o
Espírito Santo tencionava explicar seu sentimento não obscuramente, caso nossos
ouvidos lhes fossem dóceis. Com efeito, se Deus pune os pecados, então os imputa; se
toma vingança, então se relembra deles; se os chama a juízo, então não os encobre; se
os pesa, então não os lançou atrás das costas; se os perscruta, então não os ignorou
como se fossem uma névoa; se os ventila, então não os lançou no fundo do mar.
Agostinho84 interpreta, em termos claros, desta forma: “Se Deus cobriu os pecados,
não quis atentar para eles; se não quis atentar para eles, não os quis levar em
conta; se não os quis levar em conta, não os quis punir, não quis tomar conhecimento
deles, preferiu perdoá-los. Portanto, por que razão disse ele que os pecados foram
encobertos? Para que não fossem vistos. Que significa ‘Deus vê os pecados’, senão
que os pune?” Ouçamos, contudo, também de outra passagem do Profeta por que
leis o Senhor perdoa os pecados: “ainda que vossos pecados”, diz ele, “sejam como
a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como
o carmesim, se tornarão como a alva lã” [Is 1.18]. Em Jeremias, porém, assim se lê:
“Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, buscar-se-á a maldade de Jacó, e não
será achada; e os pecados de Judá, e não se acharão; porque perdoarei os remanescentes
que eu deixar” [Jr 50.20].
Queres apossar-te, de maneira sumária, do sentido destas palavras? Pondera,
por outro lado, o que significam estas expressões: “Minha transgressão está selada
num saco” [Jó 14.17]; “a iniqüidade de Efraim está atada, seu pecado está armazenado”
[Os 13.12]; “O pecado de Judá está escrito com um ponteiro de ferro, com
ponta de diamante” [Jr 17.1]. Ora, se essas referências significam que a punição
haverá de ser exercida, o que está fora de dúvida, também não se deve duvidar de
que, com expressões contrárias, o Senhor afirma que ele perdoa a todo reclamo de
punição. Aqui os leitores receberão de mim advertência a que não dêem ouvidos às
minhas glosas, mas simplesmente deixem lugar à Palavra de Deus.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32