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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A DOUTRINA ROMANISTA DA SATISFAÇÃO PRIVA A CRISTO DE SUA HONRA E GLÓRIA E A CONSCIÊNCIA DE CERTEZA E PAZ

E aqui se faz necessário ponderar duas coisas: que a honra de Cristo e as consciências sejam preservadas íntegras e isentas; seguras do perdão do pecado, tenham paz junto a Deus. Diz Isaías que o Pai colocou sobre o Filho nossas iniqüidades, de todos nós, para que por suas chagas sejamos curados [Is 53.5, 6]. Isto, repetindo-o em outras palavras, diz Pedro: Cristo levou no madeiro, em seu corpo, nossos pecados inteiramente [1Pe 2.24]. Paulo escreve que o pecado foi condenado em sua carne quando ele foi feito pecado por nós [Rm 8.3; Gl 3.13]; isto é, que a força e maldição do pecado foram totalmente aniquiladas em sua carne, quando ele foi oferecido como vítima sacrificial, na qual fosse lançada toda a massa de nossos pecados, com sua maldição e execração, com o horrendo julgamento de Deus e a condenação de morte. Aqui, de maneira nenhuma se ouvem banalidades como esta: que após a purificação inicial, ninguém será participante da virtude da morte de Cristo, caso não faça, com sua penitência, satisfação por seus pecados; ao contrário, sempre que pecarmos somos chamados à única satisfação de Cristo. Agora, pois, põe diante de ti suas pestilentas canções fúnebres, ou, seja, que a graça de Deus só opera na primeira remissão dos pecados; caso caiamos depois disso, nossas obras cooperam para impetrar um segundo perdão. Se porventura essas coisas têm lugar, aquelas que acima foram atribuídas a Cristo permanecerão intatas? Quão desmesuradamente diferem estas posturas: que nossas iniqüidades foram postas em Cristo para que sejam nele expiadas, e que elas mesmas se expiam através de nossas obras; que Cristo é a propiciação por nossos pecados, e que Deus tem de ser propiciado por meio de obras humanas! Se, porém, trata-se de tranqüilizar a consciência, que tranqüilização será essa, se o pecador ouve que os pecados são perdoados por meio de satisfações? Afinal de contas, quando se poderá fazer-lhe evidente a medida necessária de satisfação? Portanto, ele estará sempre em dúvida se porventura Deus lhe foi propício; estará sempre intranqüilo; estará sempre a tremer apavorado. Ora, aqueles que preferem as satisfaçõezinhas insignificantes, avaliam o juízo de Deus com excessivo desprezo, e pouco ponderam quão grande é a gravidade do pecado, como o diremos em outro lugar.81 E ainda que lhes concedamos que certos pecados podem ser redimidos com uma satisfação justa, que farão, contudo, ao ver-se gravados com tantos pecados, para cuja satisfação nem mesmo cem vidas, todas elas empenhadas nisto, podem ser suficientes? Acresce que todas aquelas passagens em que se afirma a remissão de pecados não dizem respeito a catecúmenos, mas a filhos de Deus regenerados, e que haviam sido nutridos por longo tempo no seio da Igreja. Essa embaixada que Paulo exalta com tanto destaque: “Rogo-vos, em nome de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” [2Co 5.20], é dirigida não aos de fora, mas àqueles que desde muito haviam sido regenerados. Com efeito, prescindindo de satisfações, ela os despacha à cruz de Cristo. Assim, quando Paulo escreve aos Colossenses que Cristo, pelo sangue da cruz, “pacificou as coisas que estão no céu ou na terra” [Cl 1.20], não restringe isso ao momento em que somos recebidos na Igreja, mas o estende a todo o curso da vida. Isto se evidencia prontamente à luz do contexto, onde o Apóstolo diz que os fiéis têm a redenção pelo sangue de Cristo, a saber, a remissãodos pecados. Contudo, é supérfluo coletar mais passagensque a cada passo ocorrem.

João Calvino