E aqui se faz necessário ponderar duas coisas: que a honra de Cristo e as consciências
sejam preservadas íntegras e isentas; seguras do perdão do pecado, tenham
paz junto a Deus. Diz Isaías que o Pai colocou sobre o Filho nossas iniqüidades, de
todos nós, para que por suas chagas sejamos curados [Is 53.5, 6]. Isto, repetindo-o
em outras palavras, diz Pedro: Cristo levou no madeiro, em seu corpo, nossos pecados
inteiramente [1Pe 2.24]. Paulo escreve que o pecado foi condenado em sua
carne quando ele foi feito pecado por nós [Rm 8.3; Gl 3.13]; isto é, que a força e
maldição do pecado foram totalmente aniquiladas em sua carne, quando ele foi
oferecido como vítima sacrificial, na qual fosse lançada toda a massa de nossos
pecados, com sua maldição e execração, com o horrendo julgamento de Deus e a
condenação de morte. Aqui, de maneira nenhuma se ouvem banalidades como esta:
que após a purificação inicial, ninguém será participante da virtude da morte de
Cristo, caso não faça, com sua penitência, satisfação por seus pecados; ao contrário,
sempre que pecarmos somos chamados à única satisfação de Cristo. Agora, pois, põe diante de ti suas pestilentas canções fúnebres, ou, seja, que a
graça de Deus só opera na primeira remissão dos pecados; caso caiamos depois
disso, nossas obras cooperam para impetrar um segundo perdão. Se porventura essas
coisas têm lugar, aquelas que acima foram atribuídas a Cristo permanecerão
intatas? Quão desmesuradamente diferem estas posturas: que nossas iniqüidades
foram postas em Cristo para que sejam nele expiadas, e que elas mesmas se expiam
através de nossas obras; que Cristo é a propiciação por nossos pecados, e que Deus
tem de ser propiciado por meio de obras humanas!
Se, porém, trata-se de tranqüilizar a consciência, que tranqüilização será essa,
se o pecador ouve que os pecados são perdoados por meio de satisfações? Afinal de
contas, quando se poderá fazer-lhe evidente a medida necessária de satisfação?
Portanto, ele estará sempre em dúvida se porventura Deus lhe foi propício; estará
sempre intranqüilo; estará sempre a tremer apavorado. Ora, aqueles que preferem
as satisfaçõezinhas insignificantes, avaliam o juízo de Deus com excessivo desprezo,
e pouco ponderam quão grande é a gravidade do pecado, como o diremos em outro lugar.81 E ainda que lhes concedamos que certos pecados podem ser redimidos
com uma satisfação justa, que farão, contudo, ao ver-se gravados com tantos pecados,
para cuja satisfação nem mesmo cem vidas, todas elas empenhadas nisto, podem
ser suficientes?
Acresce que todas aquelas passagens em que se afirma a remissão de pecados
não dizem respeito a catecúmenos, mas a filhos de Deus regenerados, e que haviam
sido nutridos por longo tempo no seio da Igreja. Essa embaixada que Paulo exalta
com tanto destaque: “Rogo-vos, em nome de Cristo, que vos reconcilieis com Deus”
[2Co 5.20], é dirigida não aos de fora, mas àqueles que desde muito haviam sido
regenerados. Com efeito, prescindindo de satisfações, ela os despacha à cruz de
Cristo. Assim, quando Paulo escreve aos Colossenses que Cristo, pelo sangue da
cruz, “pacificou as coisas que estão no céu ou na terra” [Cl 1.20], não restringe isso
ao momento em que somos recebidos na Igreja, mas o estende a todo o curso da
vida. Isto se evidencia prontamente à luz do contexto, onde o Apóstolo diz que os
fiéis têm a redenção pelo sangue de Cristo, a saber, a remissãodos pecados. Contudo,
é supérfluo coletar mais passagensque a cada passo ocorrem.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32