Mas, insistirão eles, essa foi uma observância antiquíssima da Igreja. Paulo resolve
esta objeção, visto que neste veredicto compreende até mesmo sua própria época,
onde denuncia que devem sofrer perda de sua obra todos os que sobre a estrutura da
Igreja impuserem algo não consistente com o fundamento [1Co 3.11-15].
Quando, pois, os adversários me fazem objeção, dizendo que as orações pelos
mortos estiveram em uso por mil e trezentos anos passados, por minha vez lhes
pergunto, fizeram isso com que palavra de Deus, com que revelação, com que exemplo?
Ora, aqui faltam não apenas testemunhos da Escritura, mas em todos os exemplos
dos santos não se lê nada que comprove tal coisa. Acerca de luto e de oficio
fúnebre têm-se aí muitas e por vezes longas narrativas; a respeito de tais orações
não se verá sequer o mínimo traço de uma letra. Com efeito, de quanto maior importância
é uma coisa, tanto mais deverá ser expressamente referida. E contudo os
próprios antigos que faziam orações pelos mortos viam-se aqui destituídos não só
de preceito de Deus, mas também de exemplo legitimo.
Por que, pois, se perguntará, se atreveram a fazer tal coisa? A isto respondo
que deram aí demonstração de que eram humanos, e por isso não se deve imitar o
que eles têm feito. Ora, uma vez que os fiéis não devem encetar nenhuma tarefa, a
não ser com consciência segura, como preceitua Paulo [Rm 14.23], sobretudo nessa
matéria de oração pelos mortos requer-se essa certeza.
Contudo, é crível que foram impelidos a isso por alguma razão, isto é, buscavam
consolação em virtude da qual aliviassem sua tristeza, e parecia desumano não
externar diante de Deus algum testemunho de sua afeição pelos finados. Todos experimentam
este afeto em obediência à propensão da natureza humana. Houve, ademais,
um costume recebido à semelhança de um facho, que infundiria ardor ao ânimo
de muitos. Sabemos que, entre todos os povos e em todos os tempos, foram
prestadas honras fúnebres aos mortos e suas almas foram anualmente purgadas
mediante ritos lustrais. Mas, visto que com essas imposturas Satanás iludiu aos
estultos mortais, contudo, o pretexto de enganar ele o tomou de um princípio correto:
que a morte não é o aniquilamento, mas a passagem desta vida à outra. Não há
dúvida de que essa mesma superstição, no entanto, convencerá os mesmos gentios
perante o tribunal de Deus, porque negligenciariam o cuidado da vida futura em que
professavam crer. Agora os cristãos, para que não fossem piores que os homens
profanos, sentiram vergonha de não oferecer nenhum rito aos mortos, como se eles fossem inteiramente extintos. Daqui essa louca e néscia diligência: pensavam que
os expunham a grande opróbrio caso fossem negligentes em dar atenção às cerimônias
fúnebres, aos banquetes e oblações. O que, porém, havia defluído de pervertida
emulação foi de tal modo aumentado por sucessivos novos aditamentos, que a principal
santidade do papismoé proporcionar auxílio aos mortos ora em padecimentos.
Mas a Escritura provê outra consolação, muito melhor e mais sólida, quando atesta
serem “bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor” [Ap 14.13]. E adiciona
a razão: “porque desde já descansam de seus labores.” Ao nosso amor para com os
finados, porém, não devemos condescender a tanto que erijamos na Igreja um modo
pervertido de orar.
Indubitavelmente, quem ao menos possuir mediano entendimento reconhece
facilmente que tudo quanto se lê a respeito desta matéria nos antigosfoi sancionado
ao costume público e à ignorância do vulgo. Sou de parecer que até mesmo esses
próprios autores antigos foram arrastados ao erro, visto que, de fato, a inconsiderada
credulidade costuma privar as mentes dos homens de são juízo. Entretanto, o fato
de que recomendam tão hesitantemente as orações pelos mortos, o demonstra a
própria leitura de seus escritos.
Agostinho narra nos livros das Confissões que Mônica, sua mãe, rogara insistentemente
que se fizesse memória sua ao serem celebrados os mistérios junto ao
altar. Realmente, um pedido de senhora idosa que o filho não aferiu segundo a
norma da Escritura; pela contrário, em razão do afeto da natureza, quis que fosse
aprovado a outros.123 Mas, o livro De Cura Pro Mortuis Agenda [O Cuidado a
Exercer-se pelos Mortos], composto por ele, contém tantas dúvidas, que por sua
frieza deva com razão extinguir o calor do zelo estulto. Se alguém almeja ser patrono
dos mortos, esse tratado, com suas verossimilitudes na verdade frígidas, haverá
de tornar seguros aqueles que antes estavam ansiosos quanto a orar pelos mortos.
Ora, este é seu único suporte: uma vez que se tornou generalizado o costume de se
ofereceremorações pelos mortos, não se deve desprezar essa prática.
Mas, ainda que eu conceda que aos antigos escritores da Igreja pareceu piedoso
interceder pelos mortos, deve-se afirmar sempre a regra que não pode levar a engano:
que não é próprio introduzir em nossas preces qualquer elemento que provenha
de nós mesmos; pelo contrário, nossas rogativas têm de ser sujeitas à Palavra de
Deus, porquanto está dentro de seu arbítrio prescrever tudo quanto a ele se deve
pedir. Ora, uma vez que toda a lei e o evangelho não sugerem, sequer em uma única
sílaba, a liberdade de orar pelos mortos, é uma profanação da invocação de Deus
tentar mais do que ele nos preceitua. Entretanto, para que nossos adversários não se
gloriem, como se tivessem a Igreja antiga como comparsa de seu erro, afirmo que há
grande diferença em suas postulações. Esses antigos celebravam a memória dos mortos, para que não parecessem haver desistido de toda preocupação a respeito
deles; mas, ao mesmo tempo, confessavam nutrir dúvidas quanto à sua condição de
mortos. Acerca do purgatório, na verdade, tanto nada afirmavam que o teriam como
causa incerta. Estes nossos atuais adversáriospostulam que deve ter, sem questionamento,
por dogma de fé o que sonharam a respeito do purgatório. Aqueles, sobriamente
e apenas para que se desincumbissem disso, recomendavam seus mortos
a Deus na comunhão da Sagrada Ceia; estes, incessantemente tomam o cuidado dos
mortos, e mediante importuna pregação fazem com que seja este preferido a todos
os deveres da caridade.
Ademais, não nos seria difícil trazer à consideração alguns testemunhos dos
antigos que visivelmente subvertem todas essas orações pelos mortos, que eram
então usadas, como é este de Agostinho, quando ensina que era por todos aguardada
a ressurreição da carne e a glória eterna, mas o descanso que se segue após a morte
cada um o receberá então, se é digno, quando morre. E assim, atesta ele que todos os
piedosos, não menos que os profetas, os apóstolos e os mártires, usufruem de abençoado
descanso imediatamente após a morte. Se essa é sua condição, o que, pergunto,
lhes haverão de conferir nossas preces?
Deixo de considerar essas superstições mais crassas com que eles têm fascinado
as mentes dos simplórios, superstições essas que, no entanto, são inumeráveis, e em
sua maior parte a tal ponto monstruosas que de nenhum colorido respeitável se
podem adornar. Omito aqui, também, esse torpíssimo comércio que, em tão grande
embotamento do mundo, tem exercido em sua volúpia. Ora, se me referisse a todos
esses desvirtuamentos, não haveria nenhum fim, e mesmo sem trazê-los à consideração,
os leitores piedosos terão aqui o suficiente para firmarem suas consciências.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32