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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A TRADIÇÃO DA IGREJA PRIMITIVA NÃO CONSUBSTANCIA A TESE ROMANISTA DO PURGATÓRIO, A QUAL É CALCADA NO COSTUME COMUM E NA IGNORÂNCIA GENERALIZADA DA VERDADE DA ESCRITURA, POR ISSO SER TÃO PROPENSA A TANTOS ERROS A ORAÇÃO PELOS MORTOS

Mas, insistirão eles, essa foi uma observância antiquíssima da Igreja. Paulo resolve esta objeção, visto que neste veredicto compreende até mesmo sua própria época, onde denuncia que devem sofrer perda de sua obra todos os que sobre a estrutura da Igreja impuserem algo não consistente com o fundamento [1Co 3.11-15]. Quando, pois, os adversários me fazem objeção, dizendo que as orações pelos mortos estiveram em uso por mil e trezentos anos passados, por minha vez lhes pergunto, fizeram isso com que palavra de Deus, com que revelação, com que exemplo? Ora, aqui faltam não apenas testemunhos da Escritura, mas em todos os exemplos dos santos não se lê nada que comprove tal coisa. Acerca de luto e de oficio fúnebre têm-se aí muitas e por vezes longas narrativas; a respeito de tais orações não se verá sequer o mínimo traço de uma letra. Com efeito, de quanto maior importância é uma coisa, tanto mais deverá ser expressamente referida. E contudo os próprios antigos que faziam orações pelos mortos viam-se aqui destituídos não só de preceito de Deus, mas também de exemplo legitimo. Por que, pois, se perguntará, se atreveram a fazer tal coisa? A isto respondo que deram aí demonstração de que eram humanos, e por isso não se deve imitar o que eles têm feito. Ora, uma vez que os fiéis não devem encetar nenhuma tarefa, a não ser com consciência segura, como preceitua Paulo [Rm 14.23], sobretudo nessa matéria de oração pelos mortos requer-se essa certeza. Contudo, é crível que foram impelidos a isso por alguma razão, isto é, buscavam consolação em virtude da qual aliviassem sua tristeza, e parecia desumano não externar diante de Deus algum testemunho de sua afeição pelos finados. Todos experimentam este afeto em obediência à propensão da natureza humana. Houve, ademais, um costume recebido à semelhança de um facho, que infundiria ardor ao ânimo de muitos. Sabemos que, entre todos os povos e em todos os tempos, foram prestadas honras fúnebres aos mortos e suas almas foram anualmente purgadas mediante ritos lustrais. Mas, visto que com essas imposturas Satanás iludiu aos estultos mortais, contudo, o pretexto de enganar ele o tomou de um princípio correto: que a morte não é o aniquilamento, mas a passagem desta vida à outra. Não há dúvida de que essa mesma superstição, no entanto, convencerá os mesmos gentios perante o tribunal de Deus, porque negligenciariam o cuidado da vida futura em que professavam crer. Agora os cristãos, para que não fossem piores que os homens profanos, sentiram vergonha de não oferecer nenhum rito aos mortos, como se eles fossem inteiramente extintos. Daqui essa louca e néscia diligência: pensavam que os expunham a grande opróbrio caso fossem negligentes em dar atenção às cerimônias fúnebres, aos banquetes e oblações. O que, porém, havia defluído de pervertida emulação foi de tal modo aumentado por sucessivos novos aditamentos, que a principal santidade do papismoé proporcionar auxílio aos mortos ora em padecimentos. Mas a Escritura provê outra consolação, muito melhor e mais sólida, quando atesta serem “bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor” [Ap 14.13]. E adiciona a razão: “porque desde já descansam de seus labores.” Ao nosso amor para com os finados, porém, não devemos condescender a tanto que erijamos na Igreja um modo pervertido de orar. Indubitavelmente, quem ao menos possuir mediano entendimento reconhece facilmente que tudo quanto se lê a respeito desta matéria nos antigosfoi sancionado ao costume público e à ignorância do vulgo. Sou de parecer que até mesmo esses próprios autores antigos foram arrastados ao erro, visto que, de fato, a inconsiderada credulidade costuma privar as mentes dos homens de são juízo. Entretanto, o fato de que recomendam tão hesitantemente as orações pelos mortos, o demonstra a própria leitura de seus escritos. Agostinho narra nos livros das Confissões que Mônica, sua mãe, rogara insistentemente que se fizesse memória sua ao serem celebrados os mistérios junto ao altar. Realmente, um pedido de senhora idosa que o filho não aferiu segundo a norma da Escritura; pela contrário, em razão do afeto da natureza, quis que fosse aprovado a outros.123 Mas, o livro De Cura Pro Mortuis Agenda [O Cuidado a Exercer-se pelos Mortos], composto por ele, contém tantas dúvidas, que por sua frieza deva com razão extinguir o calor do zelo estulto. Se alguém almeja ser patrono dos mortos, esse tratado, com suas verossimilitudes na verdade frígidas, haverá de tornar seguros aqueles que antes estavam ansiosos quanto a orar pelos mortos. Ora, este é seu único suporte: uma vez que se tornou generalizado o costume de se ofereceremorações pelos mortos, não se deve desprezar essa prática. Mas, ainda que eu conceda que aos antigos escritores da Igreja pareceu piedoso interceder pelos mortos, deve-se afirmar sempre a regra que não pode levar a engano: que não é próprio introduzir em nossas preces qualquer elemento que provenha de nós mesmos; pelo contrário, nossas rogativas têm de ser sujeitas à Palavra de Deus, porquanto está dentro de seu arbítrio prescrever tudo quanto a ele se deve pedir. Ora, uma vez que toda a lei e o evangelho não sugerem, sequer em uma única sílaba, a liberdade de orar pelos mortos, é uma profanação da invocação de Deus tentar mais do que ele nos preceitua. Entretanto, para que nossos adversários não se gloriem, como se tivessem a Igreja antiga como comparsa de seu erro, afirmo que há grande diferença em suas postulações. Esses antigos celebravam a memória dos mortos, para que não parecessem haver desistido de toda preocupação a respeito deles; mas, ao mesmo tempo, confessavam nutrir dúvidas quanto à sua condição de mortos. Acerca do purgatório, na verdade, tanto nada afirmavam que o teriam como causa incerta. Estes nossos atuais adversáriospostulam que deve ter, sem questionamento, por dogma de fé o que sonharam a respeito do purgatório. Aqueles, sobriamente e apenas para que se desincumbissem disso, recomendavam seus mortos a Deus na comunhão da Sagrada Ceia; estes, incessantemente tomam o cuidado dos mortos, e mediante importuna pregação fazem com que seja este preferido a todos os deveres da caridade. Ademais, não nos seria difícil trazer à consideração alguns testemunhos dos antigos que visivelmente subvertem todas essas orações pelos mortos, que eram então usadas, como é este de Agostinho, quando ensina que era por todos aguardada a ressurreição da carne e a glória eterna, mas o descanso que se segue após a morte cada um o receberá então, se é digno, quando morre. E assim, atesta ele que todos os piedosos, não menos que os profetas, os apóstolos e os mártires, usufruem de abençoado descanso imediatamente após a morte. Se essa é sua condição, o que, pergunto, lhes haverão de conferir nossas preces? Deixo de considerar essas superstições mais crassas com que eles têm fascinado as mentes dos simplórios, superstições essas que, no entanto, são inumeráveis, e em sua maior parte a tal ponto monstruosas que de nenhum colorido respeitável se podem adornar. Omito aqui, também, esse torpíssimo comércio que, em tão grande embotamento do mundo, tem exercido em sua volúpia. Ora, se me referisse a todos esses desvirtuamentos, não haveria nenhum fim, e mesmo sem trazê-los à consideração, os leitores piedosos terão aqui o suficiente para firmarem suas consciências.

João Calvino