DA VIDA DO HOMEM CRISTÃO. ARGUMENTOS
DA ESCRITURA QUE NOS EXORTAM A ELA
Já dissemos que o escopo da regeneração é que na vida dos fiéis se faça patente
harmonia e conformidade entre a justiça de Deus e sua obediência, e dessa forma
confirmem a adoção mercê da qual foram recebidos por filhos [Gl 3.24; 2Pe 1.10].
Mas, ainda que sua lei contenha em si essa novidade de vida pela qual a imagem de
Deus é em nós restaurada, contudo, porque nossa lerdeza carece de muitos e constantes
acicates, de quantos sustentáculos, será proveitoso coligir de vários lugares
da Escritura uma norma para se regular a vida, para que não desviem em seu zelo
aqueles em cujo coração há arrependimento.
Com efeito, na tentativa de regulamentar a vida do homem cristão, não ignoro
que estou entrando em um assunto vário e complexo, e que por sua magnitude se
pode encher um longo volume, caso queira abordá-lo em todas as suas minúcias.
Ora, vemos a quão grande prolixidade se estendem as exortações dos antigos escritos
em relação a uma só virtude. Não propriamente por excessiva loquacidade, porquanto,
se o propósito é exalçar qualquer virtude em um discurso, o estilo é conduzido
a essa extensão naturalmente pela abundância de matéria, de sorte que é como
se não se discorresse apropriadamente, a não ser que se diga muita coisa.
Eu, porém, não tenho a intenção de estender a tanto a instrução de vida que
professo estar agora para ensinar, de modo que não apenas exponha especificamente
cada virtude, mas ainda me distenda a longas exortações. Que se busquem estas
coisas dos escritos de outros, mas especialmente das homilias dos antigos. A mim
será mais do que suficiente, se tiver de mostrar o método pelo qual o varão piedoso
seja levado ao reto escopo de dirigir a vida e tiver sucintamente determinado uma
como que regra universal, de conformidade com a qual possa orientar não impropriamente
seus deveres. É provável que as reclamações terão um dia sua oportunidade,
ou deixarei a outros as partes para as quais não tenho aptidão especial; amor por
natureza a brevidade, e talvez se quisesse falar mais extensamente não obtivesse
êxito, pois se fosse mui aprazível uma forma de ensinar mais prolixa, contudo, dificilmente me agradaria tentá-la. O plano da presente obra, porém, exige que condensemos
uma doutrina singela, com quanta brevidade for possível.
Mas, assim como têm os filósofos limites precisos do reto e honroso, donde
deduzem os deveres particulares e todo o coro de virtudes, de modo que nem nisso
a Escritura carece de sua ordem, senão que sustenha a mais formosa disposição e
muito mais certa que todas as filosóficas. Só há diferença nisto, que aqueles, como
eram homens ambiciosos, visaram diligentemente a uma requintada perspicuidade
de exposição, mercê da qual ostentassem a sutileza de seu intelecto; o Espírito de
Deus, porém, visto que ensinava sem afetação, não observou, tão exata nem continuamente,
um plano metódico, o qual, no entanto, como o aplica em algum lugar,
nos demonstra que não devemos negligenciá-lo.
João Calvino