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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

TAMPOUCO 1 CORÍNTIOS 3.12-15 OFERECE FUNDAMENTO À DOUTRINA DO PURGATÓRIO

Com efeito, eles têm em Paulo uma falange invencível, a qual não se pode destroçar assim tão facilmente. “Se alguém”, diz ele, “edifica sobre este fundamento ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, qual seja a obra de cada um o dia do Senhor o manifestará, pois que se haverá de revelar pelo fogo, e o fogo provará qual é natureza da obra de cada um. Se a obra de alguém arder, ele sofrerá dano, mas ele mesmo será salvo, todavia como que através do fogo” [1Co 3.12, 13, 15]. Que será esse fogo, dizem eles, senão o purgatório, mediante o qual são expurgadas as impurezas dos pecados, para que entremos limpos no reino de Deus? Mas, a maioria dos antigos entendeu ser outro o sentido, isto é, o fogo se refere à tribulação ou à cruz, pela qual o Senhor põe os seus à prova para que não se detenham as imundícies da carne, e isto é muito mais provável do que fabricar um purgatório. Todavia, não lhes concedo pleno assentimento, visto que me parece haver atingido muito mais certo e muito mais lúcido entendimento desta passagem. Entretanto, antes que o exponha, gostaria que me respondam se porventura pensam que fosse necessário aos apóstolos e a todos os santos ter que passar por esse fogo purgatorial. Sei que não o admitirão, pois haveria de ser extremamente destoante que tivessem de sofrer purgação aqueles cujos méritos sonham beneficiar, além de medida, a todos os membros da Igreja. Contudo, o Apóstolo não diz que a obra de alguns em particular será provada, mas a de todos. Nem meu é este um argumento, mas de Agostinho, que dessa forma se contrapõe a essa interpretação. E, o que é mais absurdo, Paulo não diz que haverão de passar pelo fogo em razão de quaisquer obras, mas, ao contrário, se edificarem a Igreja com suma fidelidade, haverão de receber misericórdia quando sua obra for provada pelo fogo. Em primeiro lugar, vemos que o Apóstolo fez uso de mera metáfora quando chamou de “madeira, feno e palha” às doutrinas cogitadas pela cabeça dos homens. É também evidente o sentido dessa metáfora, isto é, assim como a madeira tão logo haja sido exposta ao fogo é consumida e perece totalmente, assim também não poderão perdurar essas doutrinas quando acontecesse que fossem elas postas à prova. Além disso, ninguém desconhece que tal espécie de prova procede do Espírito de Deus. Portanto, para que levasse adiante o fio da metáfora e acomodasse suas partes em justa correlação entre si, a essa prova do Espírito Santo ele chamou de fogo. Pois, exatamente como o ouro e a prata, quanto mais perto se aproximam ao fogo, tanto mais segura prova oferecem de sua genuinidade e pureza, assim também a verdade do Senhor, quão mais cuidadosamente é provada em um teste espiritual, tanto maior confirmação assume de autoridade. Como o feno, a madeira, a palha, lançados ao fogo, são tragados por súbita destruição, assim as coisas inventadas pelos homens, não fundamentadas na Palavra do Senhor, não podem suportar o teste do Espírito Santo sem que de repente sucumbam e pereçam totalmente. Finalmente, se as doutrinas inventadas são comparadas à madeira, ao feno, à palha, porque, à semelhança da madeira, do feno, da palha, são queimadas pelo fogo e consumidas até à extinção, todavia não se destroem nem se dissipam, senão pelo Espírito do Senhor, segue-se que o Espírito é esse fogo pelo qual haverão de ser provadas, cujo teste Paulo designa de o Dia do Senhor, segundo o uso comum da Escritura. Dia do Senhor é empregado sempre que, de algum modo, ele manifesta sua presença aos homens.121 Pois, sua face sobretudo brilha quando sua verdade refulge. Isto posto, já foi provado que para Paulo fogo, referido nesta passagem de 1 Coríntios, outra coisa não é senão o teste do Espírita Santo. Como, porém, os que sofrem perda de sua obra se tornam salvos por esse fogo? Isso não será difícil de entender se considerarmos de que gênero de homens o Apóstolo está falando. Com efeito, ele está enfocando esses construtores da Igreja que, retido o legítimo fundamento, por sobre ele edificam com miscelânea de material, isto é, que não se desviando dos artigos primordiais e necessários da fé, em questões de menor relevância, nem tão perigosas, desvairam, misturando suas invenções à Palavra de Deus. Afirmo que importa que esses sofram perda da obra, sendo abolidas suas invenções, “mas eles próprios são salvos, contudo como que pelo fogo” [1Co 3.15], isto é, não que sua ignorância e desvairamento sejam aprovados diante de Deus, mas porque pela graça e pelo poder do Espírito Santo sãopurificados dessas coisas. Conseqüentemente, todos quantos conspurcaram a áurea purezada divina Palavracom esse esterco de purgatório, devem, necessariamente, sofrer perda de sua obra.

João Calvino