AS INDULGÊNCIAS PRESCRITAS COMO MEIOS APROPRIADOS DE SATISFAÇÃO
E OS MALES DEPLORÁVEIS QUE DAÍ RESULTAM
Desta doutrina da satisfação jorram, com efeito, as indulgências. Ora, o que falta a
nossa capacidade para efetuar satisfação, pilheriam que é suprido por meio destas.
E a tal grau de insânia se precipitam que definem que as indulgências são a administração
dos méritos de Cristo e dos mártires, que o papa distribui por meio de suas
bulas! Mas, ainda que sejam mais dignos de manicômio do que de argumentos, de
sorte que não é de grande relevância dedicar-me a refutar erros tão frívolos, os
quais, percutidos de muitos aríetes, começam por si mesmos a tornar-se obsoletos e
a olhar ao acaso, e como uma breve refutação dos mesmos será útil para os ignorantes,
quero intercalá-la aqui.
E deveras, visto que as indulgências persistiram intocadas por tanto tempo, e em
tão desenfreado e furioso desbragamento retiveram impunidade tão direta, isso pode
servir de verdadeiro comprovante de quão profunda noite de erros os homens estiveram
imersos por alguns séculos. Os pobres cristãos viam que, abertamente e sem
dissimulação, eram tidos em ridículo pelo papa e seus forjadores de bulas; viam que
era rendoso o comércio realizado acerca da salvação de suas almas; viam ser taxado,
em umas pouquíssimas moedas, o preço da salvação e em público nada era
oferecido gratuitamente; com este pretexto, viam que eram espoliados das oblações
torpemente gastas com as meretrizes, com agentes de lenocínio, em farras; viam que
os tocadores de trombetas das indulgências eram os supremos desprezadores delas;
viam, dia a dia, este monstro propagar-se e esbaldar-se em maior licenciosidade,
sem que algum fim lhe ocorresse; viam ser trazido sempre novo chumbo, ser levadas
novas moedas. Entretanto, acatavam as indulgências com a máxima veneração,
adoravam-nas, e os que entre outros discerniam mais agudamente, contudo, julgavam-nas
como fraudes pias com que pudessem ser enganados com algum proveito.
Por fim, o mundo começou a perceber e considerar melhor as coisas; as indulgências
vão se esfriando, até que, finalmente, desapareçam e se reduzam a nada.
João Calvino