Mas, na absoluta maioria das vezes, os patrísticos designaram de satisfação não
uma compensação que se pagaria a Deus, mas uma declaração pública mercê da
qual os que haviam sido punidos com excomunhão, quando quisessem ser readmitidos
à comunhão, davam à Igreja claro testemunho de seu arrependimento. Pois, a
esses penitentes eram impostos certos jejuns e outras práticas mediante as quais provassem estar verdadeira e cordialmente enojados de sua vida pregressa, ou, antes,
apagassem a lembrança dos feitos anteriores, e com isso se diziam satisfazer
não a Deus, mas à Igreja. Isto, com estas mesmas palavras, foi expresso por Agostinho
no Enchiridion ad Laurentium [Manual a Lourenço]. Desse rito antigo originaram-se
as confissões e satisfações que estão hoje em uso. Na verdade, foram
invenções viperinas [Mt 3.7; 12, 34], das quais resultou que sequer sobrou uma
sombra daquela melhor forma.
Sei que os antigos às vezesfalam de uma forma um tanto imprecisa; tampouco
nego, como disse há pouco, que talvez tenham se equivocado, mas aqueles escritos
que foram enegrecidos com umas poucas manchas, sujam-se inteiramente quando
são tratados pelas mãos não lavadas destes. E se pela autoridade dos antigos se nos
impõe batalhar, quê antigos, ó bom Deus, nos propõem eles? Boa parte dessas considerações
das quais Lombardo, seu corifeu, teceu suas colchas de retalhos foi coligida
dos insípidos desvarios de certos monges, os quais são veiculados sob o nome
de Ambrósio, de Jerônimo, de Agostinho e de Crisóstomo, como na presente
consideração quase tudo ele o toma do livro de Poenitentia [Do Arrependimento],
de Agostinho, que, ineptamente acolchoado por algum rapsodista igualmente de
bons e maus autores, na verdade leva o nome de Agostinho, mas a qual ninguém, ao
menos medianamente instruído, se digne reconhecer como dele. Que os leitores me perdoem se não investigo mais sutilmente as opiniões desses,
pois não quero tornar-me molesto. Certamente que a mim nem seria muito
laborioso, e seria até louvável, trazer ao ridículo público, com o máximo opróbrio
deles, as fantasias que até aqui promulgaram por mistérios. Mas, visto que meu
propósito é ensinar proficuamente, deixo de considerá-las.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32