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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O ENSINO PATRÍSTICO DETURPADO PELOS ESCOLASTAS EM SUA ESDRÚXULA DOUTRINA DA SATISFAÇÃO

Mas, na absoluta maioria das vezes, os patrísticos designaram de satisfação não uma compensação que se pagaria a Deus, mas uma declaração pública mercê da qual os que haviam sido punidos com excomunhão, quando quisessem ser readmitidos à comunhão, davam à Igreja claro testemunho de seu arrependimento. Pois, a esses penitentes eram impostos certos jejuns e outras práticas mediante as quais provassem estar verdadeira e cordialmente enojados de sua vida pregressa, ou, antes, apagassem a lembrança dos feitos anteriores, e com isso se diziam satisfazer não a Deus, mas à Igreja. Isto, com estas mesmas palavras, foi expresso por Agostinho no Enchiridion ad Laurentium [Manual a Lourenço]. Desse rito antigo originaram-se as confissões e satisfações que estão hoje em uso. Na verdade, foram invenções viperinas [Mt 3.7; 12, 34], das quais resultou que sequer sobrou uma sombra daquela melhor forma. Sei que os antigos às vezesfalam de uma forma um tanto imprecisa; tampouco nego, como disse há pouco, que talvez tenham se equivocado, mas aqueles escritos que foram enegrecidos com umas poucas manchas, sujam-se inteiramente quando são tratados pelas mãos não lavadas destes. E se pela autoridade dos antigos se nos impõe batalhar, quê antigos, ó bom Deus, nos propõem eles? Boa parte dessas considerações das quais Lombardo, seu corifeu, teceu suas colchas de retalhos foi coligida dos insípidos desvarios de certos monges, os quais são veiculados sob o nome de Ambrósio, de Jerônimo, de Agostinho e de Crisóstomo, como na presente consideração quase tudo ele o toma do livro de Poenitentia [Do Arrependimento], de Agostinho, que, ineptamente acolchoado por algum rapsodista igualmente de bons e maus autores, na verdade leva o nome de Agostinho, mas a qual ninguém, ao menos medianamente instruído, se digne reconhecer como dele. Que os leitores me perdoem se não investigo mais sutilmente as opiniões desses, pois não quero tornar-me molesto. Certamente que a mim nem seria muito laborioso, e seria até louvável, trazer ao ridículo público, com o máximo opróbrio deles, as fantasias que até aqui promulgaram por mistérios. Mas, visto que meu propósito é ensinar proficuamente, deixo de considerá-las.

João Calvino