Pouco me impressionam, porém, as opiniões que ocorrem, aqui e ali, nos escritos
dos antigos a respeito da satisfação. Certamente que vejo que alguns deles (direi francamente quase todos cujos escritos subsistem) ou se equivocaram nesta parte,
ou falaram de uma forma mui imprecisa e imprópria. Entretanto, não concederei
que eles próprios fossem a tal ponto broncos e ignaros que tenham escrito essas
coisas no sentido em que são lidos por esses novos adeptos da satisfação.
Crisóstomo assim escreve, em algum lugar: “Onde se suplica misericórdia, cessa
a indagação; onde se pede misericórdia, o juízo não ruge enfurecido; onde se
busca misericórdia, não há lugar para a penalidade; onde a misericórdia se faz presente,
todo questionamento desaparece; onde há misericórdia, deu-se a resposta.”96
Essas palavras, por mais distorcidas que sejam, contudo, jamais poderão ser conciliadas
com os dogmas escolásticos. Mas, no livro De Dogmatibus Ecclesiasticis
[Os Dogmas Eclesiásticos], que é atribuído a Agostinho, assim se lê: “A satisfação
do arrependimento é eliminar as causas dos pecados, não permitindo a entrada de
suas sugestões.” Com isso se faz patente que, mesmo naqueles séculos, a doutrina
da satisfação, que se diria a compensação pelas transgressõescometidas, foi universalmente
escarnecida, uma vez que toda satisfação ele atribui à precaução de absterse
dos pecados para o futuro.
Deixo de citar o que ensina o próprio Crisóstomo: que ele nada requer de nós
além de que confessemos diante dele, com lágrimas, nossos delitos, quando expressões
deste gênero recorrem com freqüência em seus escritos e nos de outros. É
verdade que Agostinho, em algum lugar, chama às obras de misericórdia “remédios
para obter-se a remissão dos pecados”;97 mas, para que alguém não tropece nesta
palavrinha, ele próprio vem-lhe de encontro em outro lugar: “A carne de Cristo”, diz
ele, “é o verdadeiro e único sacrifício pelos pecados, não só por aqueles que são
todos expurgados no batismo, como também por aqueles que se insinuam depois
disso em razão de nossa fraqueza, em relação aos quais clama dia após dia toda a
Igreja: ‘Perdoa nossas dividas’ [Mt 6.12]. E são perdoados mercê desse sacrifício
único.”
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32