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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A CLARA IMPOSSIBILIDADE DA APLICAÇÃO INFALÍVEL DO PODER DE LIGAR E DESLIGAR POR PARTE DOS SACERDOTES ROMANISTAS

Uma vez que se vêem incriminados por provas as mais claras de que desligam e ligam indiscriminadamente a dignos e indignos, atribuem-se esse poder sem o necessário conhecimento. E ainda que não ousam negar que para seu bom uso requerse o devido conhecimento, entretanto, registram que o poder como tal foi outorgado a maus administradores seus. Com efeito, este é o poder: “Tudo quanto houveres ligado ou houveres desligado na terra, terá sido ligado ou desligado nos céus” [Mt 16.19]. Isto posto, ou tem-se de ter a promessa de Cristo por falsa, ou os que foram dotados desse poder ligam e desligam eficazmente! Nem há porque tergiversar dizendo que a afirmação de Cristo se limita à conformidade com os méritos daquele que está sendo ligado ou está sendo desligado. E também confessamos que não podem ser ligados, nem ser desligados, senão os que são dignos de ser ligados ou desligados. Mas os mensageiros do evangelho e a Igreja têm a Palavra, com a qual podem medir essa dignidade. Nesta Palavra, todos os mensageiros do evangelho podem prometer remissão dos pecados, em Cristo, mediante a fé; podem proclamar condenação a todos e sobre todos os que não abraçam Cristo. Nesta Palavra, a Igreja sentencia que os fornicários, os adúlteros, os ladrões, os homicidas, os avarentos, os iníquos” [1Co 6.9, 10], não têm parte no reino de Deus, e a esses liga com os mais sólidos laços. Com a mesma Palavra desliga aqueles a quem, estando arrependidos, conforta. Que poder, porém, será este: ignorar o que se deva ligar ou desligar, todavia não poder ligar ou desligar, a não ser que o saibas? E daí, por que dizem que absolvem em virtude da autoridade que lhes é dada, quando tal absolvição é incerta? Até que ponto este imaginário poder nos vale, se seu uso é nulo? Já provei que seu uso é nulo, ou que é tão incerto que deve ser reputado por nulo. Quando, pois, eles próprios confessam que boa porção dos sacerdotes não usa corretamente as chaves, com efeito, que esse poder é ineficaz à parte de seu uso legítimo, quem me assegurará que aquele por quem estou sendo absolvido é um bom administrador das chaves? Se entretanto é mau administrador, que outra coisa tem senão esta frívola dispensação de absolver? “Não sei o que em ti exista de ligar-se ou desligar-se, já que careço do justo uso das chaves; se, porém, o mereces, eu te absolvo.” Mas, o mesmo tanto poderia fazer, já não digo um leigo (visto que de bons ouvidos não suportariam isto), mas até um turco ou o Diabo. Pois isso é o mesmo que dizer: “Não tenho na Palavra de Deus a norma segura da absolvição, mas me foi dada autoridade de absolver-te, se assim condizem teus méritos.”
Vemos, pois, qual foi sua intenção quando definiram que as chaves são a autoridade de discernir e o poder de executar, que o conhecimento intervém como conselheiro, para indicar-nos como se deve fazer uso desta autoridade e deste poder. Isto é, quiseram reinar arbitrariamente, desenfreadamente, sem Deus e sua Palavra.

João Calvino