Uma vez que se vêem incriminados por provas as mais claras de que desligam e
ligam indiscriminadamente a dignos e indignos, atribuem-se esse poder sem o necessário
conhecimento. E ainda que não ousam negar que para seu bom uso requerse
o devido conhecimento, entretanto, registram que o poder como tal foi outorgado
a maus administradores seus. Com efeito, este é o poder: “Tudo quanto houveres
ligado ou houveres desligado na terra, terá sido ligado ou desligado nos céus” [Mt
16.19]. Isto posto, ou tem-se de ter a promessa de Cristo por falsa, ou os que foram
dotados desse poder ligam e desligam eficazmente! Nem há porque tergiversar dizendo
que a afirmação de Cristo se limita à conformidade com os méritos daquele
que está sendo ligado ou está sendo desligado. E também confessamos que não
podem ser ligados, nem ser desligados, senão os que são dignos de ser ligados ou
desligados.
Mas os mensageiros do evangelho e a Igreja têm a Palavra, com a qual podem
medir essa dignidade. Nesta Palavra, todos os mensageiros do evangelho podem
prometer remissão dos pecados, em Cristo, mediante a fé; podem proclamar condenação
a todos e sobre todos os que não abraçam Cristo. Nesta Palavra, a Igreja
sentencia que os fornicários, os adúlteros, os ladrões, os homicidas, os avarentos, os
iníquos” [1Co 6.9, 10], não têm parte no reino de Deus, e a esses liga com os mais
sólidos laços. Com a mesma Palavra desliga aqueles a quem, estando arrependidos,
conforta.
Que poder, porém, será este: ignorar o que se deva ligar ou desligar, todavia não
poder ligar ou desligar, a não ser que o saibas? E daí, por que dizem que absolvem
em virtude da autoridade que lhes é dada, quando tal absolvição é incerta? Até que
ponto este imaginário poder nos vale, se seu uso é nulo? Já provei que seu uso é
nulo, ou que é tão incerto que deve ser reputado por nulo. Quando, pois, eles
próprios confessam que boa porção dos sacerdotes não usa corretamente as chaves,
com efeito, que esse poder é ineficaz à parte de seu uso legítimo, quem me assegurará
que aquele por quem estou sendo absolvido é um bom administrador das chaves?
Se entretanto é mau administrador, que outra coisa tem senão esta frívola dispensação
de absolver? “Não sei o que em ti exista de ligar-se ou desligar-se, já que
careço do justo uso das chaves; se, porém, o mereces, eu te absolvo.” Mas, o mesmo
tanto poderia fazer, já não digo um leigo (visto que de bons ouvidos não suportariam
isto), mas até um turco ou o Diabo. Pois isso é o mesmo que dizer: “Não tenho na
Palavra de Deus a norma segura da absolvição, mas me foi dada autoridade de absolver-te,
se assim condizem teus méritos.”
Vemos, pois, qual foi sua intenção quando definiram que as chaves são a autoridade
de discernir e o poder de executar, que o conhecimento intervém como conselheiro,
para indicar-nos como se deve fazer uso desta autoridade e deste poder. Isto
é, quiseram reinar arbitrariamente, desenfreadamente, sem Deus e sua Palavra.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32