Se alguém objetar dizendo que os legítimos ministros de Cristo não ficarão menos
aturdidos no desempenho de seu ofício, porque a absolvição, que depende da fé,
será sempre duvidosa; e, portanto, que os pecadores não conseguirão nenhum ou
mui pequeno consolo de ser absolvidos por aquele que, não sendo juiz competente
de sua fé, não tem certeza nem está seguro de que sejam absolvidos, a resposta é
fácil. Ora, dizem eles que não são perdoados pelo sacerdote, mas dos pecados de que
ele é conhecedor. Desse modo, segundo eles, a remissãodepende do juízo do sacerdote,
o qual, a menos que discirna prudentemente quais são dignos de perdão, toda
a ação é vã e inútil. Enfim, o poder de que estão falando é uma jurisdição anexa a
um exame, ao qual se constringem o perdão e a absolvição. Neste aspecto, não sobra
nada de sólido; pelo contrário, profundo é o abismo, pois onde não é integral a
confissão, mutilada também é a esperança de perdão. Além disso, o próprio sacerdote
tem, necessariamente, de manter-se pendente, enquanto ignora se o pecador
enumera em boa fé seus maus feitos. Finalmente, de tal natureza é a ignorância e
insipiência dos sacerdotes que, ao exercer tal ofício, a maioria em nada é mais apta
que um sapateiro a cultivar os campos. E quase todos os demais por si sós com razão
devem ser tidos por suspeitos.
Portanto, daqui a perplexidade e incerteza quanto à absolvição papal, porquanto
querem que ela seja embasada na pessoa do sacerdote; e não só isso, mas também
em seu conhecimento, daí julgar ele somente a respeito de coisas que lhe são relatadas,
perguntadas e averiguadas. Ora, se alguém indagar desses bons doutores se
porventura o pecador está reconciliado com Deus, perdoados apenas alguns pecados,
não vejo o que haverão de responder, a não ser que se vejam compelidos a
confessar ser infrutífero, por quanto tempo não se eximam de culpa os outros pecados,
tudo quanto o sacerdote pronuncia acerca de pecados perdoados, dos quais
tenha ouvido a recitação. Da parte do confessante, daqui se evidencia quão perniciosa ansiedade é sua consciência agrilhoada, a saber: enquanto se reclina, conforme
dizem, na discrição do sacerdote, nada pode declarar da Palavra de Deus.
De todos esses absurdos, a doutrina que ensinamos é livre e imune. Ora, a absolvição
é condicional; depende de que o pecador confie que Deus lhe é propício, de que
busque ele sinceramente expiação no sacrifício de Cristo, de que descanse na graça
que lhe é oferecida. E assim, não pode errar aqueleque, em função do ofício de arauto,
proclama o que lhe foi ditado da Palavra de Deus. Pode, de fato, o pecador abraçar
absolvição certa e líquida quando se lhe propõe essa simples condição de abraçar a
graça de Cristo, segundo essa regra geral do próprio Mestre, a qual foi impiamente
desprezada no papismo: “Seja feito de conformidade com tua fé” [Mt 9.29].
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32