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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

IMPROCEDENTE E IRRACIONAL O RECURSO AO PODER DAS CHAVES QUE OS DEFENSORES DA CONFISSÃO AURICULAR INVOCAM

Que aqui alegam o poder das chaves e nele os paladinos da confissão fincam bem, como dizem, a proa e a popa de seu reino, é possível perceber de quanto valor se reveste. Portanto, insistem eles, as chaves foram dadas sem causa? Portanto, ponderam que foi dito sem causa: “Tudo quanto houverdes desligado sobre a terra terá sido também nos céus!” [Mt 18.18]. Portanto, tornamos sem efeito a palavra de Cristo? A tudo isso respondo que houve uma razão muito importante para que as chaves fossem entregues, segundo brevemente já manifestei, e mais adiante exporei amplamente ao tratar da excomunhão. Mas, que sucederá se com um golpe de espada eu aparasse a asa a todas as coisas desta natureza por eles postuladas, isto é: que os sacerdotes não são vigários, nem sucessores dos apóstolos? Mas isto também terá de ser tratado em outro lugar. Portanto, quanto à fortaleza que pretendem levantar, se enganam, construindo com isso uma máquina que destruirá todas as suas fortalezas. Ora, Cristo não conferiu aos apóstolos o poder de ligar e desligar antes de havê-los revestidos com o Espírito Santo [Jo 20.22, 23]. Nego, portanto, competir o poder das chaves a qualquer um que não tenha antes recebido o Espírito Santo. Nego que possa alguém fazer uso das chaves, a não ser que o Espírito Santo vá à sua frente e o ensine, e dite o que haverá de fazer. Vociferam dizendo que possuem o Espírito Santo, porém o negam na prática, a menos que, talvez, imaginem que o Espirito Santo seja coisa banal e irrelevante, de sorte que, na realidade, apenas o imaginam. Porém não se pode dar crédito às suas palavras. E, com esta arma, de fato são totalmente abatidos, visto que de qualquer porta que se jactem de ter a chave, devem ser sempre argüidos se porventura têm o Espírito Santo, que é das chaves o árbitro e moderador. Se respondem que o têm, impõese de novo interpelá-los se porventura o Espírito Santo pode errar. Isto não ousarão dizer explicitamente, embora em seu ensino indiretamente o insinuem. Portanto, inevitavelmente se infere que nenhum sacerdote tem o poder das chaves, os quais amiúde, sem discriminação, desligam as coisas que o Senhor quisera que fossem ligadas, e ligam as que ordenara fossem desligadas.

João Calvino