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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

OS EFEITOS DANOSOS, DESDE A AFLIÇÃO ATÉ A HIPOCRISIA, QUE RESULTAM DA EXIGÊNCIA DE SE ENUMERAR, NA CONFISSÃO TODO PECADO COMETIDO; ALIÁS, É UMA CLARA IMPOSSIBILIDADE

Que, porém, boa parte do orbe se acalentou em tais blandícias, com as quais estava misturado veneno tão mortífero, isso não foi feito porque ela cresse satisfazer assim a Deus, ou também a si mesma satisfizesse inteiramente; ao contrário, para que, como que uma âncora bem fixada no meio do mar, repousasse por um pouco da navegação, ou como se um viajor, esfalfado e a cair de cansaço, se deitasse a descansar no caminho. Não me darei a muito trabalho em provar que isso é verdade. Cada um pode ser testemunha de si mesmo. Direi, em suma, que lei era essa. Em primeiro lugar, ela é absolutamente inexeqüível, e por isso não pode senão perder, condenar, confundir, precipitar na ruína e no desespero. Em segundo lugar, aos pecadores alijados do verdadeiro senso de seus pecados, torna-os hipócritas e ignorantes de Deus e de si próprios. Com efeito, enquanto se ocupam inteiramente da enumeração dos pecados cometidos, olvidam, nesse meio tempo, esse latente abismo de depravações, suas iniqüidades ocultas e a sordidez interior, mediante cujo conhecimento deveriam visualizar acima de tudo sua própria miséria. Mas, a mais acertada norma de confissão era reconhecer e confessar o imensurável abismo de nosso mal, o qual até mesmo transcende nossa compreensão. Conforme esta norma, vemos formulada a confissão do publicano: “Senhor, sê propício a mim, um pecador” [Lc 18.13]. Como se estivesse a dizer: “Quão grande, quão grande pecador sou; sou inteiramente pecador; não posso em minha mente ou com minha língua, avaliar a própria magnitude de meus pecados! Suplico-te que o abismo de tua misericórdia faça desaparecer o abismo de meus pecados.” E então? perguntará alguém. Não é preciso confessar cada transgressão? Portanto, nenhuma confissão é aceita por Deus, a não ser que seja concluída com estas duas palavras: “Sou pecador!” Mas, de fato se deve fazer esforço antes para que, até onde possível, derramemos todo o coração diante do Senhor, não só que confessemos em uma palavra ser pecadores, mas ainda que verdadeira e sinceramente nos reconheçamos como tais; admitimos plenamente quão grande é e quão variegada a mácula de nossos pecados; não apenas que somos imundos, mas também de que natureza, quão vultosa e em quão numerosos aspectos é nossa imundície; não simplesmente devedores, mas ainda estigmatizados com mui elevadas dívidas e obrigados por quantos títulos a saldar; não apenas feridos, mas ainda chagados de quão numerosos e letais golpes. Entretanto, quando, neste reconhecimento, o pecador tenha-se derramado por inteiro diante de Deus, pondera séria e sinceramente em restarem ainda mais pecados e mais profundos serem os recessos de sua maldade do que se possa interiormente perscrutar, e até exclame com Davi: “Seus erros, quem os conhece? Expurga-me, Senhor, de meus erros ocultos” [Sl 19.12]. Agora, porém, que afirmam que os pecados não são perdoados, a não ser que seja concebida firmemente a intenção de se confessar, e que a porta do paraíso está fechada àquele que porventura tenha negligenciado a oportunidade a si oferecida de se confessar, isso está longe de lhes concedermos. Pois a remissão dos pecados não é outra agora senão a que sempre foi. Todos quantos dizem ter obtido a remissão dos pecados da parte de Cristo não dizem ter confessado ao ouvido de algum sacerdote. Na verdade, nem mesmo podiam confessar-se, quando nem havia sacerdotes confessores, nem mesmo a própria confissão. E esta confissão foi inaudita por muitos séculos a seguir, durante os quais os pecados estavam sendo perdoados, sem esta condição. Mas, para que não estejamos por mais tempo a debater como que acerca de coisa dúbia, esta palavra de Deus, “que permanece sempiterna” [1Pe 1.23], é clara: “Sempre que um pecador tenha se lamentado de seus pecados, de todas as suas iniqüidades não me recordarei” [Ez 18.21-23]. Quem ousa acrescentar algo a esta palavra, não liga pecados, mas a misericórdia do Senhor. Porque o que alegam, de não poder emitir sentença sem conhecimento de causa, e que por isso um sacerdote não deve absolver a ninguém antes de ouvir seu mal, tem fácil solução: a si arrogam isso temerariamente os que de si próprios se constituem juízes. E surpreende que para si fabriquem com tanta segurançaprincípios que ninguém de sã mentalidade admitirá. Jactam-se de que lhes foi outorgado o ofício de ligar e desligar, como se fosse uma certa jurisdição adjunta ao processo confessional. No entanto, que esse direito foi desconhecido aos apóstolos, proclama-o todo o ensino destes. Na verdade, nem mesmo pertence ao sacerdote saber com certeza se porventura o pecador está desligado, mas Àquele de quem se pede a absolvição, uma vez que o que ouve em confissão jamais pode saber se porventura é exata e completa a enumeração feita dos pecados. E assim nenhuma absolvição haveria, senão restrita às palavras daquele que está para ser julgado. Acresce que toda a sistemática do desligarse calca na fé e no arrependimento, duas coisas que escapam ao conhecimento do homem quando se deve passar-lhe sentença a respeito de outrem. Segue-se, portanto, que a certeza de ligar e desligar não é lançada ao arbítrio de juiz terreno, porquanto o ministro da palavra, quando exerce corretamente suas funções, não pode absolver senão condicionalmente, pois isto é dito em consideração ao pecador: “Aqueles a quem tiverdes perdoado os pecados” [Jo 20.23], para que não duvidem que o perdão que do preceito e da palavra de Deus se promete haverá de ser ratificado nos céus.

João Calvino